Categorias
116ª Leva - 01/2017 Destaques Olhares

Olhares

A fluidez subjetiva da arte de Antonio Paim

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Antonio Paim

Há mãos que procuram por gestos. Rostos que marcam cartografias de sentimentos por entre dias e lugares difusos. A vida, um cenário que alterna o estático e o dinâmico, a fuga e a presença das cores. Onde a capacidade de se vislumbrar além dos espaços naturais de alcance imediato? Onde um fôlego de poesia em meio à massa cotidiana de intervenções humanas?

O que um olhar genuíno é capaz de proporcionar suplanta os aborrecidos caminhos do óbvio. Vai além, penetra na camada intrínseca das coisas. O gosto pela essência rege caminhos marcados fundamentalmente por um amplo território de subjetividades. Decerto, somos todo um universo que agrega, a um só tempo, papéis aparentes e ocultos. E assim cumprimos um misterioso ritual das horas como profundos desconhecedores do destino.

O que caberia a um fotógrafo diante desse colossal ambiente de incertezas? Quiçá a rota imprecisa das navegações pessoais. Algo que denotasse indícios de que nos vãos da existência há margem para compreendermos um pouco do que somos.

No trabalho de um artista como Antonio Paim, sujeitos e objetos trafegam em planos paralelos e também distintos. A busca da imagem reflete uma peculiar maneira de tentar captar o idioma encerrado no gestual de certas epifanias humanas. Assim, fotografias transbordam sentimentos característicos de sujeitos que possuem modos diversificados de expressão diante do mundo.

Harmonicamente integrado a determinados ambientes de observação, Antonio testemunha com maestria manifestações especiais da cultura popular brasileira. Nelas, evidencia elementos místicos que apontam para um caminho de transcendência dos valores terrenos da experiência humana. É, por exemplo, o que acontece quando direciona suas lentes para registrar as intensas nuances presentes nas celebrações afro-brasileiras. O resultado é um todo orgânico, revelando uma estética que contempla fé, entrega e consagração da vida ante a representação do divino.

Foto: Antonio Paim

E o fotógrafo também volta suas atenções para contextos urbanos. Aqui, cidades significam muito mais do que aglomerados de pessoas e concreto. São a mais pura e espontânea tradução dos trajetos individuais e sua relação com a construção do coletivo. Seja a partir de uma metrópole ou pequena vila, Antonio nos mostra que é o externar das identidades singulares (e aqui tomemos o termo como sendo algo que distingue os seres em sua essência pessoal) o que de fato confere sentido a um determinado lugar.

Fazendo uso de recursos como a dupla exposição, Antonio ousa nos sugerir outras possibilidades de leitura imagética. Essa escolha criativa, baseada na sobreposição de imagens, resulta num diálogo entre diferentes tempos e espaços, o que amplia o leque de interpretações do observador. Essa, digamos assim, manipulação dos contextos serve como uma valiosa provocação, talvez uma tentativa de questionar o conceito de realidade.

O fato é que está também nos propósitos desse artista baiano fazer com que as pessoas possam vislumbrar interpretações autônomas para as fotografias que ele produz. Significa deixá-las à vontade para que recriem mundos a partir desse mundo ofertado, mesmo que este seja a mais sincera representação do nonsense ou de meros devaneios presentes no cotidiano do fotógrafo.

Natural de Salvador, Antonio Paim coleciona em sua trajetória diversas participações em exposições individuais e coletivas, tendo recebido relevantes premiações com seu trabalho. Entre seus projetos, destacam-se as séries Preces (registro especial sobre os festejos que cultuam Iemanjá na Bahia), Átimo (trabalho que enaltece a memória a partir de imagens captadas em cemitérios) e Todo carnaval tem um pouco de navio negreiro (espécie de crítica à situação dos cordeiros de blocos no carnaval de Salvador).

Certamente, a boa fotografia não é aquela que tão somente acate os ideais de beleza plástica. É algo maior, que subjaz, transpõe limites aparentes. Um pacto silente entre criador e observador, reserva do inimaginável e fonte incessante de visões. Captar a luz também é traduzir a si e a outros, eterno deslocar de sujeitos.

Foto: Antonio Paim

 

*As fotos de Antonio Paim fazem parte da galeria e dos textos da 116ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

 

Categorias
115ª Leva - 09/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

RENATO SUTTANA – AS PORTAS QUE ME ABRIRAM

 Por Jorge Elias Neto

                                                                                                              

quando-me-abriram-portas-renato-suttana

Nem sempre as portas que se abrem, os caminhos que se apresentam – vários – se traduzem em possibilidades infinitas ou sinalizam um futuro de luz e certezas. É neste caminho que nos conduz Renato Suttana neste “Quando me abriram portas”.

Diz o poeta das portas transpostas, da ilusória luz do instante, do penoso desdobrar-se neste policromático mundo da pós-modernidade. Propõe a necessidade que o pressuposto semideus tem de “descer do Olimpo” e ficar “em casa, num tédio a demora-se…”, pois somente assim “apagadas as luzes” ele vê “reavivar a brasa do engano-pretensão na alma finita”. Mas, este avançar “sob luz escassa”, que se afigura desolador para os desprovidos, se apresenta ao bardo como uma prova da sombra.

Suttana convida o leitor a hesitar em lançar-se no instante; a aguardar e observar as portas abertas; a observar a luz-poema que antecede o passo desnecessário.

Uma lamparina ilumina muito pouco, quase nada. Seu principal papel pode ser nos mostrar o quão escura é a noite. Podemos raciocinar de igual forma em relação ao poema, pois ele pode servir para muito pouca coisa, ou mesmo para nada, como muitos pensam ou pretendem nos convencer. Mas isso é um engano. O poema nos abre os olhos para as cores em nosso redor. Faz-nos ver a poesia das pequenas coisas do cotidiano. Emociona-nos. E isso é essencial para a humanidade.

Que digo? – E eu, que não sei a não ser isto –
a não ser algum trapo de alcançar
que esfarrapa a nudez de que me visto?

O poeta nos motiva a “passar do trêmulo ao seguro”. E isso é possível quando não nos cobramos tanto em relação ao porvir e às conquistas; quando não imputamos à nossa existência a primazia do instante. Digamos “NÃO” à “urgência que a preguiça desmantela!”. Digamos basta às “necessidades, preitos, juramentos – saltos, vertigens, surtos, lançamentos…”.

Vemos o “ser desnudo”, múltiplo, incoerente a refletir sobre sua existência, abandonado nesse “mistério de avançar sozinho”.

Um brinde então à incoerência humana…

Através dessas portas não transpostas nos atinge a luz da imanência – aguda.

Eis o processo de desconstrução possível, o (desa)sossego atingido, essa “coisa simples, verdadeira, que há de durar, no entanto, a vida inteira.”

Homem, ser-arremesso, que:

Não encontra o propósito que o incumba
E passa assim seu tempo, transtornado,
A pensar no equilíbrio perturbado
De um peso sob o qual, no fim, sucumba.

Somos matéria incógnita – nós – o “capital humano”, os replicantes de “Blade Runner”, fruto de uma robotização, visto serem os replicantes também consumidores a realimentar o ciclo capitalista. Buscamos a notoriedade, mas somos massa de manobra, matéria incógnita.

Não se discute aqui o “salto” camusiano, mas o “salto” cotidiano em busca do que insta e instiga o “errôneo salto”.

Livro que nos diz do caminho, do nosso caminho, nossa relutância – quando críticos – em “avançar para dentro da chuva”, conscientes de estarmos “perdidos em um rastro não perseguido”.

Esse parar e avançar do homem contemporâneo, essa “ansiedade de ver e de saber”, essa busca incessante da superação do limite, esse “disparar-contra mil coisas”.

Não é inócua a batalha da vida. É uma busca inglória, onde nos consumimos em busca de prazer – “combustível de nossa ansiedade – aguado e vão”.

E isso já se observa no poema que nomeia o livro de Renato Suttana, quando o poeta identifica a falsa “Máquina do Mundo”, agora não mais a máquina metafísica drumondiana, mas uma “anti-máquina” – sedutora – a nos polvilhar instantes.

Quando me abriram portas, não passei.
Quando, ao longe, acenando, me chamaram
E a direção da entrada me mostraram,
Foi com orgulho e calma que os tratei.

Quando, sem compreender por que hesitei
Frente aos tesouros que me presentearam,
Finalmente, a sorrir, me deserdaram,
Seguindo o rito de uma antiga lei,

Foi com uma indiferença de mendigo
Que a sagração troquei pelo perigo,
Preferindo os desertos do extravio:

Sem entender eu mesmo – assim ninguém –
O motivo, a razão do meu desdém,
Nem o (se o houve) sentido do desvio.

 

As portas de Suttana se abrem para o efêmero, dizem dos mares, labirintos, nos guiam com a luz-poema por mares, desertos e labirintos. Mostra-nos, e nos faz sentir, a dor de “estar assim de frente para o que é sem resposta e é, no entanto, observável”.

São poemas-galope, de ritmo angustiante, tradução do que nos tornamos. Sim, mais uma vez a poesia nos traduz. Homens “moldados” pelo deus-mercado a nos dizer “Vai mais longe. Não para. Precipita-se. Atira-se por cima – do impossível…”.

 

Velocidade insólita – imprevista –
De tudo quanto a vida movimenta:
Da esperança de ter, que nos alenta,
Do desejo de ver, que nos despista.

Vertigem que nos alça e nos orienta
Em direção a um nada de conquista,
Pulsando em nós (até que a asa desista),
Como um sonho de altura, na tormenta.

Pressa de achar sentido e dar resposta,
No escuro do intervalo, a uma questão
Que é no entanto ou equívoca ou suposta;

Mas que nos leva adiante e nos madura,
Nos instiga entre as chuvas, no verão,
Nos faz querer a meta – erma e futura.

 

Suttana é um “especialista em desistência”.

 

sabe que na metade, em plena urgência
de dar um fecho ao plano, ao meditado,
se cansou – e há de estar ali parado,
satisfeito de espera e inconsistência.

 

Diz Ortega e Gasset que “la conciencia de cada uno de nosostros, em efecto, es uma sociedad de personas; em mi viven vários yos, y hasta los yo de aquellos com quienes vivo.”

Se considerarmos que quando morremos persiste a Vontade, mas parte um Universo representado pelos olhos de nossa consciência; e se somos: “eu e nossa circunstância”, quando morremos morre um pouco da consciência da sociedade, pois nosso olhar, nossa forma particular de olhar, não deixa de sofrer algum olhar que seja o olhar do poeta; uma forma particular de “ver” contida em um universo de olhares “medianos”.

E este livro é uma visão critica da contemporaneidade sob o formato clássico do soneto. É esse o “truque” do poeta: a retomada da forma clássica.

Realizei o meu truque em plena claridade
Diante da multidão que não veio me ver,
Mas por acaso ali parou, a se entreter,
Num limite exterior da infinita cidade.

Movidos (reparei) pela curiosidade,
Uma pergunta me fizeram de ir e ser,
A que eu não soube – o equilibrista – responder,
Pois me ocupava um pensamento da verdade.

Como o espetáculo durasse pobre e morno,
Pediram-me que desse um salto diferente,
De modo a divertir com uma pirueta a gente. –

E eu, com um gesto teatral de excelência e retorno,
Da cartola tirei um pombo, um coelho, um lenço –
Que eram migalhas só do meu denodo imenso.

 

Não gosta o leitor da forma, da métrica? Que pena! Considera-a anacrônica? Um enfado? Sugiro que se desfaça deste ranço, deste preconceito, e reflita sobre o que significaria a retomada das formas clássicas para discutir a questão do nosso tempo.

E nada melhor do que começar pela leitura deste “Quando me abriram as portas”, do poeta Renato Suttana, lançado pela Editora Mondrongo. Certamente, um dos melhores livros de poemas publicados nos últimos anos em nosso país.

 

Jorge Elias Neto é capixaba, poeta, ensaísta e médico. Autor de “Verdes versos” (Flor&Cultura – 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&Cultura – 2010), “Os ossos da baleia” (SECULT – 2012), “Glacial” (Ed. Patuá – 2014), “Breve dicionário (poético) do  boxe” (Ed. Patuá – 2015) e “Cabotagem” (Ed. Mondrongo – 2016). Publica regularmente na Revista Diversos Afins, Mallarmargens, Revista Germina de Literatura e Revista Zunai.

 

 

Categorias
112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Uma indelével e tortuosa via chamada memória

Por Fabrício Brandão

 

Capa de A Eternidade da Maçã

 

Existem coisas que deixam nossa mente impregnada de perspectivas. Quando elas nos sugerem imagens e sensações as mais variadas possíveis, é porque algo efetivamente aconteceu dentro de nós a ponto de estimular vontades criativas. Estas tais coisas vão maquinando outras tantas e logo nos percebemos diante de um produto materializado sob a forma de um livro, espaço de projeções, arremates e de livres invenções, sejam elas labirínticas ou não.

Mesmo quando não desejamos, somos acometidos pelo mundo que se anuncia em torno de nós. A partir daí, decidimos se avançamos ou recuamos, mas deixar de perceber as externalidades é graça um tanto improvável de nos ser concedida. Talvez por isso tamanhos conflitos se operem no pulsar desritmado da dimensão mais íntima que guardamos.

A razão para as linhas iniciais deste texto serem assim construídas está diretamente ligada à experiência de leitura proporcionada por “A Eternidade da Maçã” (Ed. 7 Letras), livro de contos do escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues. Nele, irrompe bem vivo um paralelismo de sensações narrativas que demarcam uma válida opção por relacionar aquilo que está fora e dentro dos domínios humanos.

Tendo como fagulhas marcantes de inspiração canções de Caetano Veloso, “A Eternidade da Maçã” apresenta todo um território de ficções contidas num dos períodos mais assombrosos da história do Brasil – a ditadura militar. E possuir como contexto o forte cenário de tensão sugerido pela repressão ditatorial acaba sendo uma espécie de armadilha quando um autor não sabe se livrar dos apelos fáceis do tema. Para a recompensadora constatação do leitor mais atento, Marcus Vinícius foge desses ardis criativos.

O fato é que estamos diante de sete contos marcados por uma menção temporal explícita a histórias compreendidas entre os idos dos anos 60 e 70 do século passado. Ainda assim, isso é apenas um recorte do tempo para situar quem se debruça sobre suas linhas. O destaque maior está em perceber que se trata de narrativas que seguem uma cronologia interna, desvinculada, portanto, de uma sequência ordenada de acontecimentos. Nesse contexto, importa ressaltar o viés notadamente psicológico dos personagens, cujas existências são alvejadas pela ambiência plúmbea dos anos em curso. O tempo psicológico é como um grande personagem central que abraça todos os demais personagens, fazendo-os desfilar suas dores, anseios, hesitações, contradições e desejos contidos.

Marcus Vinícius é hábil em posicionar num mesmo front da consciência de seus personagens tanto as dores de um coletivo (e aqui ressaltemos a mão obscura do regime militar por sobre toda uma sociedade) quanto aquelas individualizadas. Nesse contraponto entre o externo e o interno, as narrativas ganham uma conformação especial na medida em que intercalam cenários difusos de vida. O autor manipula a dinâmica entre passado e presente, utilizando acertadamente recursos de flashback como uma estratégica ferramenta de posicionamento de seus personagens diante da percepção da realidade na qual estão densamente mergulhados.

She has given her soul to the Devil/but the Devil gave his soul to God, canta Caetano numa de suas mais vigorosas composições do período em que amargou seu exílio em paragens londrinas. Esse trecho da música Maria Bethânia, utilizado por Marcus Vinícius como epígrafe de “A Alma do Diabo”, conto que abre o livro, por si só é emblemático e sugere um caminho através do qual o contista segue a seu modo, tornando-nos intrigados observadores. Diante disso, cabe uma pergunta: quais os humanos resultados do encontro, num hospital, entre um doente major e sua enfermeira cujo irmão foi torturado por aquele mesmo militar?

Em “Barco vazio”, as noções de integridade física e moral são postas em xeque ante a extrema necessidade de sobrevivência a qual está submetido seu protagonista. A escolha narrativa aponta que num estado de exceção lógicas tradicionais se invertem a tal ponto que também é permitido ao oprimido utilizar-se dos mesmos expedientes do seu algoz. De modo intermitente, na cabeça do personagem central ecoa a frase: “Às vezes é preciso fazer alguma coisa errada para fazer o que é certo”.

É interessante perceber como o contista foge de lugares comuns, subvertendo expectativas óbvias em alguns de seus personagens. É, por exemplo, o que ocorre em “A flor e a estrela”, trama que tem por curioso arremate a ingênua visão de mundo do seu protagonista, até então alheio a tudo o que representava viver num país subtraído em liberdade. O jovem enamorado que atravessa a cidade sitiada para levar uma rosa a sua amada é a demonstração de como uma suposta alienação política deu margem a algum tempo de delicadeza e poesia.

Mais à frente, no conto “Longe daqui”, subsiste um espaço para o desejo, que em meio a toda sombra circular da traição, encontra algum mínimo abrigo diante da ausência de liberdade plena. O beijo entre amigos do mesmo sexo, parceiros de experiência de vida desde a infância, carrega em si toda uma simbologia, algo que transcende qualquer noção de sexualidade e que se norteia pela consciência de que o corpo é também um receptáculo de gratidão e lealdade.  Estamos diante de uma amizade posta à prova por vias nada usuais.

Aos poucos, vamos percebendo que os personagens são pessoas normais que, mesmo diante dum amplo cenário de repressão, cultivam uma espécie de felicidade clandestina. Esta fugidia, é claro, mas o suficiente para recriar cenários da memória, através dos quais passam vívidos flashes de saudade ou de alguma distante tentativa de reparação. Quando encarcerados ou torturados, os protagonistas das histórias recorrem a lembranças que tanto significam uma válvula de escape para a dor presente como também uma tentativa de vislumbrarem o que seria deles se tudo fosse diferente, ou seja, se suas escolhas fossem outras.

Vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia 2016, “A Eternidade da Maçã” é uma obra que prima pela riqueza de suas narrativas. Seu criador lança mão de bem elaborados recursos descritivos, tecendo um painel que agrega o físico e o imaterial. Assim, não entrega respostas prontas ao leitor. É como se as histórias ficassem em suspensão, sem um arremate derradeiro e prontas para continuar sob a dinâmica de outros olhares.

Terminada a leitura do livro, fica a sensação de que Marcus Vinícius Rodrigues não quer que esqueçamos uma das páginas mais cruéis de nossa história. Na medida em que um autor como ele concretiza isso sem nos impor desgastadas formulações ideológicas, o saldo é por demais positivo. Quiçá a luz ideal posta sobre as coisas seja aquela realmente capaz de proteger a memória, e não usurpá-la repetindo frases perdidas ao vento num desatino sem propósito.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

 

Categorias
112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A loucura nossa de cada dia

Por Neuzamaria Kerner

 

Capa - A loucura dos outros

 

Antes de dizer qualquer coisa, o título que uso nessa resenha de “A Loucura dos Outros”, estonteante livro de contos de Nara Vidal, é importante porque, na própria palavra que sugere insanidade, encontramos a “cura” das paixões que desarranjam a alma. Mas como viver sem esse desarranjo, ser feliz no meio de um mundo tão louco?  Será que a loucura existe somente nos outros ou é vista apenas com nossos olhos cheios de razão sempre a nosso favor?

O drama feminino percorre todos os contos vividos por 21 personagens: Ifigênia, Marta, Ana Rosa, Vanessa, Cecília, Adriana, Maria Dulce, Selma, Lúcia, Amanda, Ana, Marelena, Rita, Olívia, Sílvia, Flávia, Érica, Regiane, Débora, Miriam, Íris. Todas elas envolvidas em dramas que lembram as tragédias gregas, mas, ao mesmo tempo, sendo difícil classificar cada conto dentro de correntes literárias estudadas nas escolas porque há um pouco de tudo. O subjetivismo com sua falta de clareza do movimento simbolista; a prosa realista com seu caráter ideológico onde são discutidos problemas sociais (especificamente num ambiente restrito do universo feminino), quando a autora explora, sem nenhuma hipocrisia, sem pudores e numa linguagem bem clara focando sexualidade, a exploração, a infelicidade, a prostituição, o incesto, a insatisfação da figura feminina atemporal.

Se poderia dizer que são contos de escola naturalista pela forma como a palavra é usada e as ações das personagens com suas histórias tão chocantes que deixam o leitor com os dentes travando e rangendo ao mesmo tempo. No entanto, se poderia dizer que é uma prosa com características existencialistas bem marcantes quando é mostrado o ser humano com suas circunstâncias subjetivas, com sua ânsia de liberdade, mas ao mesmo tempo aprisionado no meio em que vive.

Acredito, porém, que qualquer tentativa de classificação seria desnecessária porque a autora certamente não esteve preocupada com isso enquanto escrevia sobre a alma nua e dolorida da mulher.

Não foi à toa que Nara Vidal abriu o livro, tendo como epígrafe um poema de Silvia Plath – Canção de amor da jovem louca – já que os contos tratam da loucura encoberta pelos cílios de suas personagens. Depressivas, algumas delas cometem suicídio por não suportarem o peso da vida, assim como a poetisa que termina seu texto com os versos abaixo que sinalizavam sua depressão e suicídio:

(…)
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

 

Interessante também observar que a contista dedica o livro a Ismália. Seria uma homenagem e referência ao poema de Alphonsus de Guimaraens? Certamente. A loucura, o miolo da loucura está bem presente. Vejam:

 

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

 

O desfile das personagens se inicia com Ifigênia, num conto dolorido e surreal, a mulher que perdeu a cabeça (literalmente) por amor ao palhaço Vareta. Em seguida, vem Ana Rosa, conto com um depoimento estarrecedor de um traficante assassino, seu marido, que a amava loucamente. E Cecília? Não conseguia mais olhar para o marido. Será que se suicidou no metrô? Nara Vidal brinca com a imaginação do leitor, deixando-o na incerteza. Maria Dulce, nome doce, coitada – a sem coração – deixa cair o filhinho de dois meses, talvez por não suportar que ele viesse a passar pelas mazelas da vida com a coragem necessária. Lúcia, a que fazia queijo de cabras, depois de a fabriqueta ser fechada o marido fica desempregado e não consegue mais ver as estrelas que tanto apreciava com a mulher. Amanda sofria de baixa autoestima e era espancada pelo marido e ainda achava que ele tinha razão. Medo? Vergonha de ter um casamento falido? O que leva uma mulher a sofrer esse tipo de maltrato e ainda ser grata pela comida que o marido bota na mesa? Entre outras comoventes personagens, trago aqui Marelena, a garotinha que limpava a bunda compulsivamente até se ferir. Transtorno obsessivo-compulsivo. O que teria levado a garotinha a adquirir essa doença? Meio em que vive? Abuso sexual? A autora sacrifica o leitor não deixando claro o porquê… é preciso uma ginástica mental para descobrir. Negligência dos pais? O que houve ali?

É interessante conferir a vida das outras personagens para tentar entender suas loucuras. Não se fala aqui da loucura sobre a qual Aristófanes designava na Idade Média. Algo até como divino. “Enlouquecer é ser submetido à angústia e ficar prisioneiro do universo do não sentido, em que nossa linguagem fica aquém da possibilidade de interpretar o que experimentamos” (Birman, 1983). Em todos os contos a vida dessas mulheres anda de mãos dadas com a “loucura”, a angústia, a morte, mesmo que ela não mate a personagem de morte matada ou morte morrida ou, quem sabe, a morte de quem continua vivo.

Creio que a loucura tratada neste denso livro de contos é a insensatez, o desencontro da coerência com a incoerência de pessoas que correm sem saber por que, para onde a fim de encontrar não sei o quê. Talvez essa loucura de que fala a autora seja a do miolo mole mesmo.

Em verdade é a loucura que nos faz viver felizes, lembrando Erasmo de Rotterdam em seu livro Elogio da Loucura, escrito em 1508. Assim como a loucura é a personagem de Erasmo, ela também se reinventa nos contos de Nara Vidal, mostrando quão hipócritas somos de não termos coragem de aceitar que os loucos existem para chamar os sãos à razão; mostrando que o desmiolamento alheio, em seus contos do livro “A Loucura dos Outros”, pode ser aceito e criticado, mas não as nossas  loucuras nossas de cada dia, principalmente no universo feminino. Nesse universo, há que se ser louco para suportar o peso da razão e encontrar um pouco de felicidade.

De repente, encontramos uma cura na Loucura das personagens da autora. Vejamos!

Neuzamaria Kerner, baiana de Salvador, é professora e escritora. Tem publicados os livros: “Fragmentos de Cristal”, “Eu Bebi a Lua”, “A Presença do Mar na Prosa Grapiúna”, entre outras publicações em revistas literárias. Seu mais recente rebento poético é “O Livro-Arbítrio das Evas – Dentro e Fora do Jardim” (Ed. Editus – 2014).

 

Categorias
111ª Leva - 05/2016 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Big Jato. Brasil. 2016.

 

 Big Jato

 

Big Jato, de Claudio Assis, não é exatamente uma inflexão no cinema do diretor pernambucano, mas radicaliza sua obra para uma alegorização do Brasil e para a poesia libertária das imagens.

Essas características já estavam presentes em seu filme anterior, Febre do Rato, que se passava no ambiente do Recife, num quase-alegórico anos 70, filmado em preto-e-branco. Ambos escritos pelo roteirista Hilton Lacerda (que é também o diretor de Tatuagem, um filme bem afim desses dois filmes de Assis), Febre do Rato e Big Jato opõem os princípios da ordem e da liberdade.

Em Febre do Rato, Zizo é um poeta das ruas, libertário, anárquico, amante de todas as mulheres, sobretudo das mais velhas, de quem faz a felicidade, mas se apaixona “platonicamente” pela jovem e bela Eneida, que evita se envolver com ele. A poesia e a libertinagem correspondem à ideia de liberdade. Já o princípio da ordem é a própria ditadura militar, não abordada diretamente, mas intuída nas cores P&B e no sentimento de “beco-sem-saída”. Na cena final, a nudez dos corpos se contrapõe à própria nudez do autoritarismo do regime, que não consegue lidar com o inusitado de uma performance corporal de poesia em plena comemoração do 7 de Setembro.

Em Big Jato, a alegoria é total. A história se passa em Peixe de Pedra, um município fantasioso do sertão mais entranhado do Brasil, com suas paisagens que lembram os chapadões, as rochas antiquíssimas, onde estão depositados os fósseis pré-históricos mais antigos da fauna do continente.

O filme traz a história de Chico Filho, adolescente que acompanha Chico, seu pai, num caminhão limpa-fossas denominado justamente de Big Jato. Chico Filho acompanha e ajuda no trabalho de seu pai de sugar com a mangueira o excremento das fossas das casas do interior sertanejo ainda não atendidas por saneamento básico. Apesar de ter outros três irmãos, um deles mais velho, que estuda matemática, apenas Chico ajuda o pai em seu trabalho.

Chico Pai e Chico Filho no caminhão limpa-fossas
Chico Pai e Chico Filho no caminhão limpa-fossas / Foto: divulgação

Chico Pai, vivido por Matheus Nachtergaele, é um trabalhador que durante sua jornada de labuta ensina a seu filho adolescente a virtude e honra do trabalho. “Quem não reage, rasteja” está escrito no paralamas de seu caminhão. Uma ética do trabalhador que o pai quer transmitir ao filho para que ele se afaste da atividade ociosa da poesia.

Chico Filho, o adolescente, sacoleja no caminhão trepidante pelas estradas do Brasil profundo e parece gostar de ajudar seu pai em sua jornada de trabalho. Mas ele também nutre fascinação por Nelson, seu tio, um personagem que é o avesso de seu pai: Nelson é radialista, apaixonado por rock, e tem um enorme desprezo por trabalho e pelos “urubus de carteira assinada”, como chama os trabalhadores. Nelson, que é também vivido por Matheus Nachtergaele, disputa com seu irmão Chico Pai a mente do sobrinho adolescente, incentivando seu talento nato para a poesia. Dá de presente ao rapaz uma máquina de escrever para seduzi-lo por outra vida e para semear seu desejo de fugir da cidade e não ficar condenado a ser um “limpa-bosta”, como se refere ao pai do garoto.

Assim, os dois irmãos, vividos pelo mesmo ator e que durante o filme nunca se encontram, representam em Big Jato a oposição entre ordem e liberdade. Ordem dessa vez é a prisão de um trabalho sem sentido e sem futuro, enquanto liberdade é a poesia, o rock e a vida ociosa.

Entre pai e tio, o adolescente também trava amizade com o Príncipe, personagem vivido por Jards Macalé, filósofo e vagante das ruas de Peixe de Pedra. O Príncipe medeia a indecisão de Chico Filho entre seguir o exemplo de trabalhador do pai ou o de libertário do tio. Ele ensina ao rapaz outra dialética: a das vísceras e do amor. As vísceras são aquilo que nos empurram com a força de sua necessidade.  Já o amor é uma prisão, como já havia provado o poeta Zizo de Febre do Rato. O amor testa Chico Filho em sua paixão pela menina do vilarejo, a quem dá um vidro de perfume e dedica um poema. Mas a menina já está noiva de outro rapaz…

Um dos maiores problemas do filme é que a oposição entre ordem e liberdade, representada pela oposição existencial entre os irmãos, é bastante esquemática. Por um lado, Chico Pai é o típico patriarca, provedor, cheio de filhos, que quando chega em casa se enche de cachaça, agride verbalmente a mulher e fisicamente os filhos, incentiva a iniciação sexual do filho com prostitutas, opõe a matemática à poesia, sendo a primeira o caminho certo de estudo para subir na vida e a outra a rota para uma vida de vadiagem. Já seu irmão é precisamente seu avesso, tendo repugnância pelo trabalho, amante da liberdade e da ética do rock’n’roll e pela conjunção vital entre poesia e música.

O libertário Nelson
O libertário Nelson (direita) / Foto: divulgação

Chico, o adolescente, parece transitar bem pelos dois mundos e está à vontade em ambos. Tanto ouve com atenção as histórias carregadas de sabedoria do próprio pai, em sua visão de mundo de trabalhador, como tem admiração pela trajetória libertina do tio. Nesse aspecto, ele é tanto um mensageiro entre os dois mundos (que nunca se encontram), como relativiza a tensão opositiva entre seus dois modelos.

Afinal, os modelos não são assim tão opostos e o filme descontrói o contraste entre os irmãos. Por um lado, o pai, com seu discurso, repleto de metáforas de excremento, matéria-prima de seu trabalho, considerado o elemento universal da vida, e se afigura assim como um sábio contador de histórias; por outro lado, Nelson, o tio, é um dedicado radialista, fascinado pela banda Os Betos, que em sua mitologia pessoal teriam influenciado os Beatles. Ambos constroem mitos e histórias que fascinam o adolescente e servem de material para sua imaginação.

E quando o infortúnio se abate sobre ambos, pai e tio, essa infelicidade está ligada a um destino comum: o de se tornarem “fósseis” da mesma cidade onde vivem e não podem sair. Pois seja o trabalho (e a família) de Chico Pai, como a liberdade de Nelson, radicam-se em Peixe de Pedra como as formações rochosas do lugar. Se há uma magia imemorial do Brasil profundo, no entanto, a utopia está na fuga, única possibilidade de resolver as contradições.

Sem cenas explícitas de sexo, como é comum na obra do autor, Big Jato se revela ao final um curioso filme jovem, cuja perspectiva é a de um adolescente, que não por acaso usa óculos. Numa das cenas do filme, o próprio filho de Claudio Assis faz uma ponta como o duplo do protagonista. Talvez seja essa uma das razões do esquematismo do filme, já que percebemos ser uma fábula moral vista e rememorada pelos olhos de um jovem, indeciso ao ter que escolher seu futuro. A seus olhos, os mundos que lhe surgem como inconciliáveis talvez não sejam tão distantes entre si, e que é possível fazer poesia com matemática. Em tempos de ocupações secundaristas, o filme de Claudio Assis se apresenta como algo interessante de ser mostrado em nossas escolas públicas para jovens que procuram utopia na realidade e realidade na utopia.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.    

 

 

Categorias
111ª Leva - 05/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Panis Et Circencis

Por Sérgio Tavares

sobrepessoasnormais

Corre, pelos contos de “Sobre pessoas normais”, de Marcela Dantés, um tipo de eletricidade nociva. Altos de tensão cujas descargas irão deflagrar inevitáveis tragédias. A esse circuito, a autora mineira condena seus personagens, confrontando-os a situações-limite, a momentos de fraturas em que o abismo provém de uma singela decisão ou da crueza com que se constitui a normalidade da vida.

Marcela parece observar o ordinário por um buraco na parede e, à medida que seu campo de visão se amplia, a cena inicial se desdobra de maneira imprevista, conduzindo a narrativa para um desfecho arrebatador. Uma mulher trancada no banheiro irradia, pelo contato frio dos azulejos, a dor do que foi abortado de si; outra escreve para o ex-amante que o cão deles morreu de saudade; mais um cachorro morre, agora ao ser atropelado pelo carro que leva uma noiva à igreja, e desencadeia a dúvida se é caso de sorte ou de azar.

No excelente “Maré alta temporada”, um homem observa, com desprezo, os dias de uma família em férias na praia, quando é surpreendido por um acontecimento de funda tristeza. O mesmo peso dramático rege “Alencar”, sobre uma mulher que quebra o segredo e vai ao enterro do amante, levando o filho que “não podia exibir o pai que a vida lhe dera”, sem que isso o desabonasse do afeto. “Cada mãe com seu filho na mão, um duelo de lágrimas, quem sentia a maior dor? Alencar, por certo, que nunca desejou isso para ninguém. Se soubesse, não teria morrido. Mas morreu hoje”.

Marcela escreve com contundência, sem se furtar da delicadeza. A violência percorre suas histórias, porém nunca é usada de modo a provocar o choque ou em detalhes explícitos. Está na natureza da circunstância, no acúmulo de sensações que leva o personagem a reagir e, a reboque, faz com que o leitor sinta-se ligado a essa humanidade precária, talvez por também assim o ser. É o caso do conto que dá nome ao livro, no qual um paciente, revidando seu estado terminal, regozija-se ao transitar pelo hospital e presenciar os leitos desocupados pelos que morreram. “Fazia pouco tempo que conseguia controlar o esfíncter, mas preferia continuar mijando nas pessoas, como nos primeiros dias”.

O assalto da maldade também se compraz no exercício da sutileza, e Marcela demonstra talento para articular essa relação em seu processo de escrita e na consistência da forma, adotando um ritmo lento de quem se dispõe a passar o tempo necessário com o conto até entendê-lo lapidado. Desse modo, fica o espanto ao se dar conta de que se trata de uma estreia e, mais ainda, diante da decisão de uma autora que visivelmente esperou estar pronta, madura para finalmente publicar. Isso é raro. Muito, nos dias de hoje.

Tomando emprestado o título de um dos contos, cada um carrega a cruz que pode, pouca gente paga em moeda. “Sobre pessoas normais” não deixa dúvida de seu alto valor.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

Categorias
110ª Leva - 04/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

 A Musa como salvação no absurdo da vida no livro Rarefeito – William Soares dos Santos

Por Jorge Elias Neto

 

RAREFEITO

Sempre é oportuno relembrar que a leitura atenta de um livro começa pelo nome com o qual o autor convida o leitor à leitura – sobretudo quando se trata de um livro de poemas. O poeta costuma buscar a densidade em cada palavra, um visgo que grude na capa toda uma carga de significantes e emoções transfigurados em linguagem.

No caso do livro Rarefeito, do poeta e professor William Soares dos Santos, recentemente publicado pela Ibis Libris, esta observação inicial se faz relevante. Afinal, trata-se de um autor oriundo da academia e estudioso de literatura. Esse aspecto também não passou despercebido ao poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin que, no início do seu prefácio ao livro, nos diz que, “apesar da insinuação do título, rarefeito, o autor, parece operar no domínio de um real bastante denso, pleno de amores e de humores”.

O título do livro, em consonância com o que nos diz o linguista José Augusto Carvalho, sugere, em um primeiro momento, pelo menos duas leituras: o adjetivo rarefeito (que significa “menos denso”) e a palavra-cabide ou palavra-portmanteau (também chamada “palavra entrecruzada”) rarefeito, formada pelo amálgama do adjetivo raro com o substantivo efeito  (raro efeito).

No primeiro caso, o título sugere simplicidade; no segundo, sugere algo novo, raro, diferente. Em ambos os casos, o título sugere ou antecipa o efeito que os poemas provocarão no leitor. Vasculhemos então o que inspira, espira e aspira o autor de Rarefeito.

E o sentido de Rarefeito já ensaia seu contorno nos versos do poeta Inglês William Wordsworth, escolhidos para compor a epígrafe da obra. Neles, o grande poeta romântico homônimo de nosso autor, instiga seu eu lírico a erguer-se: “Up!up! and drink the spirit breathed/From dead men to their kind.”

Somente a literatura e o acaso possibilitaram que esses versos escritos no século XVIII chegassem aos ouvidos do nosso poeta, e soassem assim tão pessoais, provocando-o ao inquirir: “Why, William, on that old grey stone,/ Thus for the length of half a day,/ Why, William, sit you thus alone,/ And dream your time away? ” Finalizando com um desafio:”Where are your books? – that light bequeathed/ To Beings else forlorn and blind!”

E já em Rarefeito, primeiro poema do livro, William Soares nos diz, a seu modo, do imenso desconhecido contido entre o céu e as profundezas terrestres; inicia assim um diálogo presente ao longo da obra – nesta feita com o homônimo William Shakespeare – com os cânones da poesia mundial.

Vejamos:

 

Quero ser tomado,
elevado à montanha mais
alta e submerso ao mar mais profundo.
o que sei de mim é
um constante não saber.

 

Ao seu modo, lançando mão da metáfora, o poeta também ensaia a superação do absurdo.

Sabemos o sentido de urgência do homem contemporâneo, a necessidade de lançar-se no desafio dos limites, na busca de embriagar-se com endorfina.       

Enquanto seus coetâneos, de forma cada vez mais radical e, por vezes, inconsequente, buscam desafiar seus limites se confrontando com ambientes inóspitos, com condições atmosféricas pouco afeitas ao conforto, seja nos picos montanhosos – que se caracterizam por um ar menos denso (rarefeito) e com menor concentração de oxigênio – seja nas profundezas dos Oceanos que oferecem o risco das grandes pressões, comprometendo a lucidez e a coordenação motora, o poeta também busca o desconforto que lhe proporcionará – pelo menos em tese – a experiência criadora.

 

Quero ser tomado de mim,
atravessado pela luz
mais pura que antes
nunca se afigura.

acordei num dia novo e
claro, no qual o ar não está
rarefeito
e nada cala
dentro de mim.

Quero ser tomado do mundo.
a minha passagem será
apenas vento, talvez sombra,
talvez tempo, mas nunca
desatino.

Brancura serena da primavera,
negrume pacificador da alta
madrugada.

 

Disse-nos Emil Cioran: “Escrever seria um ato insípido e supérfluo se pudéssemos chorar à vontade… Se cada vez que os desgostos nos assaltam tivéssemos a possibilidade de nos livrar deles pelo pranto, as doenças vagas e a poesia desapareceriam. Mas uma reticência inata, agravada pela educação, ou um funcionamento defeituoso das glândulas lacrimais, condena-nos ao martírio dos olhos secos.” Daí a admiração de Cioran pelos poetas, por sua capacidade de mostrarem-se isentos de pudor – e agora cito as palavras de Nietzsche – em relação às próprias experiências; esta capacidade única de explorar o que tantos tentam omitir e dissimular.

E o poeta dialoga com seu desassossego. Reconhece ser mais um pássaro, entre tantos, grudado nas partituras dos fios elétricos das grandes Metrópolis. Sabe seu espaço no sem sentido, e ensaia um arremedo de liberdade: Um pássaro não é o pássaro,/é um pássaro qualquer.//branco?/pode ser,/para combinar com o azul deste mar,/para ser livre como todos os ideais de vida.// livre como não sou,/livre como não sei o que é ser livre.// mas imagino,/tento,//um pássaro qualquer,/livre,/ser.

E “a dor ladra no tempo”, esse tempo só nosso, em que transgride¹ e nos diz o poeta: ainda que permanecesse/eu seria apenas a lembrança tangível/que insiste na permanência/da intangibilidade de ser. Quantos de nós não sentimos essa náusea sartreana diante da imanência…

E rodopia sem direção,/gira,gira o pião de Sísifo.

Diz-nos Camus que, diante do absurdo, uma das alternativas é o “salto” para a religião. No presente caso, vemos o eu lírico – nesta feita no poema “Crístico” — apresentar-se como aquele que segue os preceitos cristãos da austeridade e do amor. É o herói que suplanta qualquer complexo de heroísmo.

Mas, ao modo de Augusto dos Anjos, William Soares nos diz que nem o poeta profeta sem intenção,/à margem da lição, nem o alquimista que dialoga com os símbolos de Jung, nem mesmo o físico que vê o mundo calculado,/matematizado, equilibrado não sabem o que é o mundo. São como uma criança, com seus olhinhos arregalados, esbugalhados de/surpresa diante da flor que recolhem/todas as manhãs.

Será o tempo é uma brecha que esconde o vento que sopra no rosto imaturo do mundo; ou seria no rosto do homem?

O que resta ao poeta, qual o caminho possível diante da incerteza? A resposta vem de “um anjo azul” que propõe que o poeta toque sua lira. E é essa “lira moderna” que acalenta o poeta e o anjo. Ambos condenados – o imortal e o mortal – à “solidão eterna” dentro de um mundo-prisão circundado pela “grande muralha”.

E o poeta se rebela, e se lança ao mar, pois a leste está a mais bela baía do mundo:

 

No mar que me transporta,
Vejo que não são os meus olhos que veem,
Mas eu que vejo através dos meus olhos.

Eis aí o poeta ensaiando seu eterno retorno à Pasárgada…

Já na República de Platão, Sócrates alerta a Adimanto que as fábulas mentirosas compostas por Hesíodo e Homero seriam contadas aos homens. E entre elas encontrava-se a vingança de Cronos contra seu filho Urano. E, vencendo Cronos, o poeta insiste em despertar a cada dia:

o mundo pesa
sobre mim,
serpente incinerada do estar
que me apeçonha em cada
instante do viver,
ainda quando rasga,
sanguínea e fresca,
a madrugada.

 

E eis que surge a Musa…

 

Somente ela
me trará
o grande sono
na madrugada.

O sono borbotado
de azul,
tão diverso
do cativo desejo
em que me encontro e que me aprisiona
na imensidão do anoitecer.

 

Em seu livro L´amour fou, André Breton nos apresenta o conceito de “acaso racional”. Aquele encontro “inesperado” ― inconscientemente já “agendado” ― com a musa. O grande encontro entre o poeta e a poesia. E muitos dos poemas trazem um poeta e suas luxúrias.

Mas uma nova surpresa — talvez mais uma vez a náusea existencialista leva o poeta a observar:

e eu sou feito um ladrão roubado pelo roubo que leva,
neste anseio de mais abrir o sorriso da boca nascida.

O poeta retorna às areias da praia cantada e à sua calçada de ondas negras e alvas. E depara com os indivíduos que buscam, em rumos distintos, alinhavar suas vidas e por um instante se esquece que é pós-moderno.

Whitman afirma e o poeta inquire: o que fazer com essa inquietude constante e com o desejo de ser muitos? ― lidar com a contradição humana.

Mas restam-lhe a musa e o amor.  E eis aí a densidade possível ao poeta – a pele e o gozo.

Entretanto tudo indica que o meu caminha mais longo será mesmo a solidão.

Mas talvez, como diz o protagonista do livro Náusea, de Sartre, “a margem da solidão”. Um ponto equidistante entre o isolamento e o acesso ao outro.

Mas como isso acontece? Talvez o poeta dissimule, pareça perdido, rendido aos atos costumeiros, diuturnamente… Mas, quando do primeiro estalo da palavra, talvez ele se sobressalte e se lance ao chão para salvar a flor… Resgatar a imagem primeira da musa:

Torna-me à mente
Do teu corpo
A imagem da primeira vez.

eu, inquieto mendicante,
de teu corpo desejante,

a febre tolhia-me o sono,
e entre a penumbra surgiu a tua imagem
a desnudar-se em plena alvura
enquanto tudo se apascentava no hemisfério.

Embora não me governasse,
Me detive em tuas costas,
Como se os astros, a aurora
E o silêncio compactuassem.

Trazia-me o ansiado deleite
Fazendo de meu corpo a chave mestra
Que abria portas à sinistra-destra.

Pensamentos revoavam,
Enquanto eu calava e me concedia,
Tímido e inexperiente,
Às voltas de teu corpo.

Fechei os olhos,
O que palpitava de novo em meu peito?
Menino de nove mais nove sóis,
Tudo se confundia com desejo.

Todas as palavras então ficaram,
Tentativas inexpressivas de retratar
A gravidade de teu corpo.

 

E eis novamente William Wordsworth a nos dizer que “a poesia é o transbordamento espontâneo de sentimentos intensos: tem a sua origem na emoção recordada num estado de tranquilidade”.

O que propõe de novo um poeta pós-moderno?  Talvez o reencontro com a musa, não de uma forma piegas e descompromissada, mas sim através dos clássicos e dos grandes poetas (complementação de rarefeito).

Pois ele nos diz como no poema intitulado Ulisses:

depois de tudo
deixo o teu leito com tudo o mais de óbvio:
molhado de suor,
com a face relaxada,
e uma ferida
encravada no dorso.

deixo o teu leito
como quem
cumpriu uma promessa,
esperando o pão com manteiga
que chega com o cheiro do café
perpassado pela alvorada.
deixo o teu leito
com a incerteza
de um retorno tranquilo
à minha ítaca sonhada
– barco sem porto
faço de ti meu ancoradouro –
deixo o teu leito
com um adeus
desacenado
de quem procura te
encontrar,
– após batalhas
contra troianos, ciclopes e
sirenes encantadas –
Na próxima
dedirósea manhã.

 

Diz-nos Antônio Carlos Secchin no prefácio que  “… é nessa tensão – de dizer-se pelo viés de transformar-se em algo sempre diverso – que reside a força maior de rarefeito”.

Não sou crítico, nem pertenço à Academia. Percorri o livro como leitor de poesia e poeta, e digo que não foi difícil. Vivo neste mesmo ambiente, muitas vezes inóspito; embriago-me na mesma altitude onde é raro o oxigênio e onde a tontura deixa obnubilada nossa memória; indago as mesmas coisas; percorro os mesmos beirais, vou de leste a oeste, consciente da imanência do corpo e, como no poema, “Vésper”,

eu,
vésper celeste,
despeço-me
de minha
imortalidade
para, enfim,
encontrar em
teu corpo
– em não mais que uma hora
eternamente breve –
a luminosidade
inebriante do pulsar
do perecível

agarrando-me à musa, nessa falsa transcendência do infinito instante.

Jorge Elias Neto (1964) é Capixaba, reside em Vitória – ES. Livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Prêmio SECULT – ES – 2013), Glacial (Ed. Patuá – 2014) e Breve dicionário (poético) do boxe (Ed. Patuá – 2015). Colabora com poemas em vários blogs e na revista eletrônica Germina, Diversos Afins, Mallarmargens e no Portal Literário Cronópios. Membro da Academia Espírito-santense de Letras onde ocupa a cadeira de número 2.

 

Categorias
110ª Leva - 04/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Estradas feitas para se perder

Por Sérgio Tavares

Trilogia do Asfalto Capa

Um dos efeitos mais audaciosos do exercício narrativo é extrair da linguagem uma sonância que repercuta os traços da ambientação da história. “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, é um exemplo vigoroso deste emprego conectivo. O romance, que se passa, em grande parte, na geografia desidratada do sertão nordestino, empresta desta paisagem a ressequidão que constitui sua tessitura, suas frases concisas e esfarelentas. Desde a abertura, a prosa se apresenta destituída de viço, compassada pelo demorar dos pés que avançam quase terra, que se racham quase carne.

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala”.

Em “Trilogia do asfalto”, o baiano Dênisson Padilha Filho se arrisca na execução do mesmo procedimento, e se sai bem. Os contos que compõem a breve coletânea (dois dos quais previamente premiados) são construídos através das economias verbal e narrativa, incorporando ao alicerce semântico a aridez por onde circulam seus personagens. Indivíduos cobertos pela “poeira cortante” das estradas, da vida que pretende uma aliança com o passado a fim de endireitar a rota para o futuro. O caso é que o presente se mostra desgovernável, um progredir que não dispõe das indicações devidas.

“Era um céu de fotografia. Mas pra quem vive à beira daquela rodovia, o azul era tempo encerrado pra chuvas; o calor fazia algo como mutirões pesados. Primeiro, o castigo das nove, depois, um mais severo às onze. E então, já não se via mais ninguém andando pelo asfalto. Janelinhas e portas das casas eram bocas ofegantes. Longe, algumas serras tremiam. Um ônibus parou e ele desceu, só ele, com sua mochila. Parecia não estar muito certo do que acabara de fazer”, assim tem início o rascante “Naquela manhã de fogo”.

No conto, um viajante faz uma parada numa venda à beira de uma rodovia, gerenciada por um sujeito desolado e seu pai, um velho cego de um olho. Ele se dirige à cidade vizinha, onde nasceu, em busca de resposta sobre o homem que entende como seu pai. Protegidos das “ondas de calor que assolavam a terra” do lado de fora, empreenderão um diálogo de contenções que revelará que, na expectativa de que algo aconteça, estarão presos em suas próprias existências. “A gente nem vai nem vem… a gente fica”, conclui o vendedor.

Dênisson trata da impotência, de uma maneira alegórica. Apesar de lançados em jornadas, seus personagens ora seguem estacionados na ideia de partida, ora fazem um movimento contrário em seus íntimos. No conto seguinte, “Como assim, dar pra ele?”, a narradora passa em revista a relação com o marido, enquanto viajam, a contragosto dela, rumo a uma fazenda de café, por conta de um feriadão. No carona, vai um amigo, que terá um papel dissonante dentro do fluxo mental no qual ela busca entender como o casamento atravessou a paixão e chegou a duas pessoas que sequer se olham.

“Eu tenho uma vida inteira pra lhe contar; você nunca quis saber, é verdade, mas antes, ao menos você era meu herói e eu era sua virgem roubada; você sondava meu fogo e meu amor por você. Hoje, pouco lhe importa o gelo da minha pele, que já se esqueceu de seus dedos. O que mais dói em mim, já quis saber nos últimos dois anos? Sem chance, não é? Por isso me enojam suas certezas, e mais, contar a você de minha vida, minhas alegrias, é hoje, mais que uma necessidade, é uma vontade; eu quero ferir você, faço questão”, confessa.

Novamente a prosa se alia ao cenário, criando pontos de tensão em momentos em que a estrada se mostra mais perigosa. O autor entrega a condução da narrativa a uma voz que, por não conseguir se propagar no outro, torna-se perdida, solitária. Isso se agrava no último conto, “Roupa íntima, amor felino”, sobre um fracassado que separa a vida entre se embriagar e detestar os gatos que lotam o prédio em que mora. Amargurado por conta de um amor não correspondido e sem emprego, passa a ocupar o quartinho do zelador, onde começa a decifrar os hábitos dos moradores de baixo para cima. Obviamente, quando não está num bar, à procura de alguém que ouça suas tristezas.

“Em todo boteco há um pouco de carinho de mãe para com seus assíduos. Você senta no bar ou joga sua tonelada de dores no balcão e ele lhe põe uma dose como se dissesse, ‘esqueça, filho, amanhã as ruas estarão cheias de flores’. Não é impossível, mas é muito difícil encontrar um garçom simpático quando se pisa num bar pela primeira vez. Se você volta no dia seguinte não. Aquilo pra ele é um elogio e ele retribui com gentileza. Na primeira vez você é só mais um aventureiro tentando se refrescar, e garçons detestam aventureiros”.

Pondo em marcha um sentido de unidade, a coletânea parte de uma busca e termina num gesto resignado de quem já não consegue chegar a lugar nenhum. O asfalto pavimentado por Dênisson serve para se lançar ao mundo, mas também para se encontrar com o próprio fracasso. Nem todas as estradas apontam um destino. Há também aquelas feitas para se perder, para, como escreveu Graciliano, ficar preso nelas.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

Categorias
109ª Leva - 03/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

 

Doses exageradas de estranheza

Por Sérgio Tavares

 

eucowboy

Um exercício de porra-louquice é o que rege o processo de construção de “Eu, Cowboy”, de Caco Ishak. Em seu livro de estreia, o escritor goiano empenha-se na radicalização da forma e do estilo, concebendo uma colagem frenética, um “brainstorming”, uma metralha narrativa que esfacela qualquer conceito instituído de gênero, ação temporal e estrutura temática.

De fato, uma classificação mais adequada ao resultado final seria “um romance de subversão desconstrutiva”. Para se ter uma ideia, somente na página vinte e cinco é que se começa a prestar esclarecimento de quem protagoniza a trama.

Este é Carlo Kaddish (ou assim parece ser). Um sujeito inescrupuloso, hedonista à terceira potência, com queda por (pré-)adolescentes, cujos dias se tencionam numa roleta-russa existencial. Ao seu redor, orbitam amigos também adeptos ao comportamento desbragado e, da mesma maneira, medíocres perante suas responsabilidades. São todos losers, conformados de que “cresceram ficando para trás”. “Continuo andando com os mesmos frustrados de sempre e só porque eu me sinto bem ao lados deles”, confessa Carlo, assumindo o fracasso na condição de um mal congênito.

A culpa estaria na “geração que perdeu o medo de envelhecer” e, assim, ficou suscetível a uma crise extemporânea de meia-idade. “(…) a graça disso tudo é que, mesmo podendo viver até os trezentos, a sensação geral é de que, passou dos trinta, já era”. Portanto, o que resta é se lançar numa incursão de excessos, sem compromissos, incitando “o prazer pelo prazer de carregar um vazio nas costas, já fora do peito, trancafiando nada”.

Os únicos poréns, no caso de Carlo, seriam o afeto pela filha mantida à distancia pela mãe e o gosto pelas artes plásticas. Ou talvez não, quem sabe? Por certo, mesmo a descrição acima tem grande chance de estar equivocada. Isso porque foi montada através de cacos de informações desbaratados por todo o livro. Alguns, inclusive, contraditórios, devido ao jogo verborrágico de encavalar trechos de momentos distintos, sem conexão entre si.

Ishak empreende esse efeito aleatório no desenvolvimento (ou esboroamento) da narrativa, coadunando maciços de texto, diálogos longos e curtos, e-mails, palavras em caixa alta, verbetes de dicionário e trechos de música em inglês. A voz, em primeira pessoa, por vezes rompe os limites internos e se dirige diretamente ao leitor, mostra consciência de que está numa obra de ficção. Passado e presente se intercalam de maneira incessante (quando não se sobrepõem), em saltos temporais que se localizam nos anos 90 e no começo dos anos 2000.

O entender corrosivo destas duas décadas, aliás, é o ponto alto do livro. Embora não deixe de desfilar, por meio de seu protagonista, reflexões carregadas de uma filosofia torta, o autor constrói sua ambientação por meio de referências que vão da cultura pop a fatos históricos. Informações sutis, sugestões, o que hoje é conhecido, na cartilha cinematográfica, como easter egg. De nomes de bandas a títulos de canções que evocam bandas, da MTV ao 11 de setembro, do grunge à uma ressaca permanente, um ressaibo de que tudo se podia, ainda que não se quisesse nada, há iscas para interpretações por todo o romance. É um recurso estimulante, mas que, por conta de outra decisão, vem a se tornar um problema.

Ishak ergue sua história com a pulsão de detalhes, contudo aferrada a um ritmo vertiginoso, uma prosa resfolegante que impede que a leitura se detenha a esses pormenores, tenha tempo para decifrá-los. Tudo vem num jorro, como que arrevessado, sem preocupação em estabelecer um fio condutor, tampouco uma lógica. Isso acaba forçando várias pausas que, por fim, só incrementam a sensação de desbarate.

Outro aspecto contraproducente é a opção pela autossabotagem, a autodepreciação das próprias escolhas, não deixando muito claro se a intenção é sobrepesar a acidez, constituir uma paródia ou destilar doses cavalares de crítica. O autor planta aqui e acolá palavras como “cópia”, “plágio”, brinca com os clichês narrativos, reconhece que escrever é “chupar” o que já foi feito, que escritor é “copiar e colar diferente”.

Em dado momento, quando Carlo sugere largar tudo e cair na estrada a la Kerouac e seu clássico “On the road”, ele mesmo aponta que é uma ideia nada original, ainda que seja, na verdade, uma pose de “tô cagando pro Kerouac”. Essas sacadas, ainda que divertidas, dependem de uma bagagem extraterritorial ao livro, que não está em todo leitor, e acabam soando como um tipo de piada interna, a piada que anula a própria piada.

Enfim, “Eu, Cowboy” é uma experiência mobilizada por sensações, vozerio e muita fúria que se assemelha a uma locomotiva em pleno movimento que, tal uma locomotiva em pleno movimento, não é fácil de embarcar.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

Categorias
109ª Leva - 03/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Singularidade pelo negativo

Por Renato Tardivo

 

capareprodutibilidade

 

Reprodutibilidade estranha e familiar

 

No lançamento de O ser humano na era de sua reprodutibilidade tática (Ed. Patuá), livro de Valerio Oliveira, a criança que me acompanhava disse ao observar a capa: “Olha, esses monstrinhos seguem uma ordem: vermelho, azul, verde, vermelho, azul…”. Ela estava correta.

O título deste livro de poesias é uma paródia – ou atualização – do ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin. Muito resumidamente, a ideia do ensaio é que, sob a égide da reprodutibilidade, a obra de arte teria perdido a sua singularidade e, portanto, seu sentido mais originário: dar a conhecer algo de seu mundo próprio.

O foco dos poemas de Valerio são os seres humanos na (e da) contemporaneidade, período em que os avanços técnicos e tecnológicos atingiram patamares elevados a custos muito altos e são disponíveis a uma mínima parcela da população. Além disso, como já escreveram Horkheimer e Adorno muitas décadas atrás, na conjuntura em que realidade e ideologia correm uma para a outra, os comportamentos dos sujeitos, banalizados entre realidade e artifício, padronizam-se. E, como nos mostra Valerio Oliveira, tem sido assim cada vez mais.

Com humor ácido, metalinguagem e, inclusive, alguma dose de lirismo, o poeta convoca o leitor, pela via da sensibilidade e reflexão, a vivenciar o estranhamento e o incômodo justamente ao se reconhecer em suas personagens. Distante de uma perspectiva panfletária, portanto, os poemas resgatam o leitor (ser humano) de sua reprodutibilidade tática pelo negativo. É ao tomar contato com a reprodutibilidade humana, tão estranha quanto familiar, que nos damos conta de sua singularidade, ainda que às custas, por exemplo, do desconfortável “ombro com ombro com ombro com ombro” (“Deus salve o Estado”).

Poética singular e múltipla

O casal que passeia pelo apartamento (“Ordem e desordem”), o sujeito que sai do cinema de mãos dadas consigo mesmo (“Final feliz”), as “Verdades sem olhos ou pernas”, título da primeira parte do livro, e as “Mentiras sem boca ou braços”, título da segunda, são emblemas dos seres humanos desenhados por Valerio: fragmentados, amputados, esburacados, e equivalentes em sua mediocridade. Nesse sentido, a capa, de autoria de Teo Adorno, é muito apropriada. Os monstrinhos seriais, sagazmente percebidos pela criança que me acompanhava, são metáforas visuais daquilo que somos.

Não é aleatório, portanto, que os últimos poemas do livro abordem as ambiguidades contidas na relação eu-outro: “Eu e os outros”, “Obras completas de Valerio Oliveira”, “World burly brawl” e “Os trinta Valerios”. Dessa perspectiva, o livro torna-se ainda mais interessante. Sabe-se que o autor desdobra-se em múltiplas personas.

Nos anos 1990, surgiu um talento na literatura brasileira: Nelson de Oliveira (embora o próprio tenha me confidenciado que Valerio nascera antes, mas Nelson foi o mais celebrado). Ocorre que, ao desdobrar-se em quatro – Valerio Oliveira, Luiz Bras, Teo Adorno e Nelson de Oliveira –, o artista singulariza-se ao limite, pois assume-se múltiplo.

Diferentemente dos seres fragmentados, da capa ao interior do livro e às páginas do mundo, a unidade da poética do autor decorre justamente da comunicação entre os diversos. A um só tempo singular e múltipla, sua obra é uma espécie de alternativa – irônica, cômica, crítica – aos cenários banalizados retratados no livro.

O milagre da expressão

   

Como um pode ser quatro, ou mais até? Como explicar experiências que atravessam gerações, simultaneamente reais e ilusórias? O mais provável é que não haja explicação, mas, como escreveu Clarice, “viver ultrapassa qualquer entendimento”. E a literatura, essa trama expressiva do sensível, de fato promove milagres. Como o que eu comecei a vivenciar na Bienal do Livro de São Paulo, cerca de dez anos atrás. O sonho de me tornar escritor crescia, sempre alimentado por uma de minhas maiores incentivadoras: minha avó. Pois bem. Lá na Bienal ela me disse: “Escolhe qualquer livro para eu lhe dar de presente”. Escolhi Subsolo infinito, romance de Nelson de Oliveira, livro que guardo com muito carinho.

Não poderia imaginar naquele domingo, na Bienal, que dez anos depois eu estaria lançando meu quarto livro, que me lembraria desse dia ao ver Nelson de Oliveira (ou seria o Luiz, o Valerio, o Teo?) se aproximar para eu lhe fazer a dedicatória no (meu) livro. Tampouco imaginaria que, enquanto escrevia a dedicatória, veria a minha avó de rabo de olho, e pensaria em chamá-la para perguntar se ela se lembrava daquele dia na Bienal e apresentá-la ao autor do livro que ela me deu de presente, e que não haveria tempo para nada disso, porque, na era da reprodutibilidade tática, o próximo da fila já abria o seu exemplar para eu assinar.

Renato Tardivo é escritor e psicanalista. Mestre e doutor em Psicologia Social pela USP, é autor do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura arcaica (Ateliê/Fapesp), da novela Castigo (E-galáxia) e dos volumes de contos Do avesso (Com-arte/USP), Silente (7Letras) e Girassol voltado para a terra (Ateliê). Colabora regularmente com textos sobre cultura para veículos como a revista Cult e o Observatório da Imprensa.