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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Aperitivo da Palavra II

Voz assombrada por fantasmas

 Por Sérgio Tavares

Julho é um bom mês pra morrer

É possível definir o procedimento narrativo de “Julho é um bom mês pra morrer”, do paraibano Roberto Menezes, num trecho extraído de suas próprias páginas: “um trem desgovernado tentando governar um trem desgovernado”.

Pois, a despeito do argumento central coeso, a contextura tem a diluição de um curso torrencial, “uma enxurrada”, o descompasso de uma voz que, tentando agarrar-se à lucidez, empreende contato com um interlocutor, alguém que talvez não exista, um contato com a própria inexistência. Tal voz pertence à Laura, uma jornalista desempregada, de trinta e cinco anos, que administra um blog em meio à impossibilidade de administrar uma decisão judicial que a obriga a deixar seu apartamento, em razão de o prédio estar em vias de ser demolido.

O romance se desenrola nessas últimas horas de resistência, em que, contra a parede, ela decide escrever uma carta para a mãe que a abandonou ainda na infância, compondo um misto de desabafo, condenação e despedida. Por conta do tenso das circunstâncias, o relato acaba por incorporar a urgência e a ameaça do esboroamento, desmontando o tempo cronológico num tempo da memória, a sequência não-linear dos fatos rebobinados.

A protagonista, desse modo, persegue culpados e acaba por desencovar culpas. Evoca a presença afetiva da avó, do pai e dos irmãos, e descarrega a voltagem de derrotas e enganos na ausência materna, nos fracassos amorosos de idade e gêneros distintos.

O caso é que, no avançar da tessitura confessional, todos vão se revelando, com mais ou menos gravidade, culpados. Inclusive a própria protagonista, que carrega consigo o fantasma de uma perda insuperável. Laura é um oco, um apartamento vazio, uma voz assombrada por fantasmas.

Menezes se arrisca ao construir uma narrativa mobilizada pela tensão, em que os fatos se fragmentam e se reencaixam entre saltos de capítulos, porém há no autor um domínio técnico capaz de transformar a desordem numa leitura instigante.

No que pese o excesso de frases de efeito (“Deus é o vício das coisas”, “Milagre é a poesia do acaso”, “Esperar é o pior jeito de aguentar a dor”), a maioria é bem colocada e funciona na excursão frenética de Laura pela fronteira entre o devaneio e a realidade. De fato, sob esses blocos de escombros, o romance conserva um fino de poesia, um lirismo pego meio de soslaio antes de a palavra chocar-se contra o concreto.

“’Eu sou o vento, você é o moinho; eu sou o monho, você é o vento’. E começava a adormecer, e a voz foi indo indo, e eu só ouvia você dizendo, ‘Vou indo baby, vou indo baby, vou indo…’ O sonho virou um sonho branco. Dormi tranquila.

Não, não nascem asas quando se perde o chão. Nascem outros chãos”.

Menezes ainda demostra habilidade em usar da experiência dramática de sua protagonista para remontar os cenários socioeconômicos que tiveram impacto em determinados momentos de sua vida, numa analogia ao impacto que estes tiveram para o Brasil.

Da abertura política, na década de 80, que trouxe a reboque a hiperinflação, ao Governo Lula e o sobrepeso de crédito para o mercado imobiliário, a escalada dos anos são como estágios de uma longa queda, uma contagem regressiva rumo a julho, a um inferno que, como classifica a própria narradora, é “o reino das memórias”.

Ao leitor, cabe testemunhar a potência desse inferno, então.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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108ª Leva - 02/2016 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Todos fantasmas: A instrução da noite, de Maurício de Almeida

 Por Rafael Gallo

 

instrucaodanoite

Chego só agora que a noite é alta, Teresa, e os degraus se acumulam desproporcionais e cheios de saliências, deformando-se em espirais da garagem à porta desta casa na qual a chave

(com seus muitíssimos dentes)

não entra, veja, Teresa, veja. Soco a porta com violência para colocar a casa inteira abaixo, apenas a chave no chão rindo de mim numa mandíbula desmontada […]

Assim começa A instrução da noite, romance de Maurício de Almeida, recém-lançado pela Editora Rocco. Estreia do autor na narrativa longa, o livro é sucessor de Beijando dentes, coletânea de contos que lhe valeu o Prêmio Sesc de Literatura, e que traz algumas pequenas joias da literatura recente como Duelo, Cadência e Às quatro e meia da manhã.

Na obra mais recente, tratada aqui, um protagonista-narrador se vê preso a uma realidade familiar e pessoal com a qual não consegue conviver, e da qual tampouco se sente apto a escapar (“esse incômodo no qual fiz morada”), representada principalmente pelo ambiente doméstico. Não à toa, a história se inicia e se encerra com o personagem diante da porta de casa, incapaz de atravessá-la. O lar dilacerado de uma família moderna adquire atmosfera kafkiana, em uma narrativa que tem notável estilo particular, “com uma escrita severa e sincopada, mas também de alto teor poético”, tal qual aponta o escritor e crítico José Castello, na orelha do livro.

Um dos primeiros méritos a se destacar no livro é o de o autor dar conta do imenso desafio de conduzir, por páginas e páginas, um personagem ao mesmo tempo patético e dramático, sem permitir-se resvalar nos dois perigos sempre muito próximos: o sentimentalismo de seu lado dramático ou o deboche de sua faceta patética. Trata-se de um grande desafio para qualquer escritor e Maurício não falha ao conciliar os dois polos, para que eles inclusive se potencializem mutuamente, e não se neutralizem de forma tediosa, como seria fácil acontecer. É um feito admirável de construção textual.

Essa é uma daquelas obras das quais contar a história diz muito pouco, diante do todo. Mas, para efeito do mapeamento necessário, a sinopse poderia ser resumida no seguinte: o pai, que abandonou a família na infância do protagonista e de sua irmã, Teresa, ressurge sem que ninguém esteja preparado e funciona como estopim da crise pessoal do protagonista, da qual o romance capta um relance (não é difícil presumir que a angústia dele vem de muito antes e se estenderá ad nauseum após o fim do relato). Completam o restrito (melhor seria dizer claustrofóbico) elenco de personagens as ainda moradoras da casa: Alice, a namorada, e a mãe da família.

Todos esses personagens atuam como fantasmas (“nós todos fantasmas que não se resolvem com a morte e tentam aplacar o ressentimento assombrando-nos uns aos outros”), especialmente no sentido de serem ao mesmo tempo presença e ausência. Cada um traz diferentes matizes dessa dualidade e é interessante ver como se configuram suas particularidades. A mãe continuou com os filhos, mora com o protagonista até os dias atuais, mas é absolutamente alheia, impossível de se dar a um contato real, com seu sono e torpor por antidepressivos, seu silêncio e suas miradas ininterruptas à televisão. Alice tem um vasto (e excessivo) universo particular, do qual o protagonista e namorado não participa e pelo qual é intimidado, representado especialmente pelas fotografias que ela tira de si mesma e de outras pessoas. Teresa, a irmã, é a interlocutora imaginária constante, sendo a figura mais “presente” para o protagonista, que, no entanto, está sempre distante dela, no tempo e no espaço. O pai impôs o peso insuportável de sua ausência com o abandono (e a ideia desse abandono é uma grande presença) e, ao regressar, impõe a carga também intolerável de sua proximidade perturbadora. A presença ausente é de todos, pessoas descoladas de seus próprios papéis nos relacionamentos. A incomunicabilidade é uma chave central do livro, e o fato de o protagonista-narrador ter uma verborragia voltada apenas para si mesmo (ou para Teresa, a interlocutora imaginária que ainda não é nada mais que sua esfera solitária), sem verdadeiro contato com os outros, solidifica ainda mais as paredes que cercam os indivíduos da história, fazendo de cada um deles a sua própria casa abandonada.

Em uma das muitas cenas memoráveis do livro, a família se reúne para a primeira refeição com o pai após seu regresso perturbador, e os conflitos calados entre ele e o filho se revelam através de pequenos gestos. O descompasso entre a ação exterior e o universo interno do protagonista, sempre em ebulição, é um dos elementos mais perturbadores do livro. Maurício demonstra, nessas sequências, ser não somente um grande escultor da linguagem, mas também um rico observador e construtor de personagens:

Forjando imponência, observei as mãos dele graves e perdidas sobre a mesa, duas ossudas aranhas armando o bote que realizaram ao bolso da camisa. Os dedos amarelecidos pegaram outro cigarro, mas, dessa vez, ele parecia nervoso

(certamente os sapatos tamborilando o chão)

uma longa tragada irritadiça antes de perguntar novamente com uma voz mais gutural, rouca e seca de nicotina

– tudo bem?

ao tempo em que as pupilas dele se expandiram imensas naqueles olhos pequenos fincados em mim, uma réstia de fumaça lhe contornava o olhar que me diminuía e ao qual me curvei e fugi não sem antes responder num tímido fio de voz

– sim, pai.

 

A casa e a cidade em que moram são também personagens, também fantasmas, cujas caracterizações formam uma sinfonia de significados e expressividade bastante vigorosa. A atual morada da família é uma espécie de corpo desarranjado (“porque conheço a intimidade dos tijolos entremeados por fios tramando em volts os nervos desta casa”; o lar e a escola da infância são buscados, mas estão desfeitos como o passado (“a luminária descabelada sobre a porta em fios ou o zinco do corredor aos pedaços, as coisas transformadas em outras numa impertinência do tempo”); os monumentos urbanos se transfiguram, em impressionantes efeitos de plasticidade e dramaticidade. O melhor exemplo desse recurso é provavelmente a estátua do maestro Carlos Gomes, que ora está “regendo a tarde sob a qual nos sentamos neste bar”, ora “no dolorido silêncio de um câncer pendurado na garganta acenando adeus à orquestra que se afogou sonhando escafandros”, conforme os sentimentos expressionistas do protagonista-narrador. O já mencionado bar, com suas imagens entorpecidas, sua selvageria transcendental, mostra que a escrita de Maurício alcança um nível de elaboração que muitos dos escritores atuais, por vezes cultuados somente por inserir a palavra “bar” ou “boteco” no texto, nem sonham.

Maurício comprova, em A instrução da noite, que falar dele como um dos destaques da nova geração de escritores brasileiros é pouco. É um dos grandes autores em atividade, ponto. A leitura desse romance, tecnicamente primoroso e emocionalmente intenso, deixa o leitor assombrado como poucas obras são capazes.

Rafael Gallo é paulistano, autor do romance Rebentar (Record, 2015) e de Réveillon e outros dias (Record, 2012), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti. Tem ainda contos publicados em diversas antologias, como o eBook Desassosego (Mombak, 2014) e a Machado de Assis Magazine (FBN, 2013).

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107ª Leva - 01/2016 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LINIKER – CRU

 

LINIKER-EP-CRU

 

Verdade é uma palavra que, de tão aborrecida, muitos têm medo de pronunciar. Há quem relativize seu conceito por temor ou respeito a opiniões contrárias. Por seu curso, tem também quem faça uso dela por vias deterministas, rio que desemboca no pantanoso terreno do absoluto. Afirmar que uma verdade é universal, por exemplo, é assinar um papel em branco, convite a se perder no labirinto da insensatez.

Falemos, pois, da capacidade que uma pessoa tem de delinear sua própria identidade com uma noção de verdade que é essencial à sua sobrevivência. Assim o é quando testemunhamos a expressão de um artista como Liniker. Quem o vê pela primeira vez pode tentar imaginar que a apresentação visual com a qual ele se reveste é um mero arranjo cênico de possibilidades. No entanto, há muito mais por trás disso tudo.

Vindo das paragens interioranas paulistas, mais precisamente de Araraquara, Liniker aparece para o mundo tal como gostaria de ser visto, um sujeito sem definições de gênero. Nos palcos, veste-se com trajes femininos, usa batom e deixa brotar solto todo o vigor e precisão que emanam de sua voz.  Dentro dessa representação estética, não compõe um personagem, pois, do mesmo modo que se traja nos shows, assim também é seu cotidiano.

Sua aparência não deixa de ser um importante fator de discurso e de afirmação, mas, em se tratando de música, é relevante destacar que Liniker possui um talento tanto voltado para o canto quanto para a composição. A voz é marcante, com uma colocação discretamente rouca, e vem apoiada por letras autorais que orbitam em temas como o amor e por perspectivas de identidade e gênero.

Liniker Fotodivulgação
Liniker / Foto: divulgação

O caminho escolhido pelo artista em Cru, seu EP de estreia, é o da black music, com pitadas clássicas de funk e soul. São três faixas que ficam como um grande prenúncio para o que poderá ser a carreira dele, verdadeiro aperitivo. Assim sendo, Liniker não é promessa, e sim realidade. E, pelo visto, ainda tem uma gama de coisas a nos oferecer nessa estrada que se mostra longeva e fértil.

Carro-chefe do disco, Zero é uma canção que nos toma de assalto. Vem com uma suavidade soul ao mesmo tempo em que perpassa as alamedas do desejo avassalador. O saldo do amor ali cantado é crer que o coração é uma espécie de cofre com memória, onde o que é belo pode ser devidamente acolhido e guardado.

Em Louise Du Brésil, uma pegada funk setentista toma conta dos espaços. É uma celebração de vida muito bem arranjada com elementos de nossa brasilidade. Já Caeu, a outra faixa do disco, atravessa os cenários das relações numa perspectiva imagética bem interessante, desenrolando um enredo plausível de sensações.

O trabalho tem um cuidado especial com os arranjos, sobretudo no que se refere ao uso de sopros. Reunindo a atmosfera vocal com as potencialidades sonoras dos instrumentos, Cru é um disco que pontua um universo todo marcado pela delicadeza.

Num momento em que as discussões sobre questões de gênero andam a boiar num grosso caldo fervente, a arte sempre aponta caminhos de libertação. Segui-los é imperativo porque a verdade de cada um confere sentidos às coisas. Tudo aquilo que nos envolve em aparência pode ser uma fabulosa ferramenta de comunicação, não apenas uma banal casca.

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Cinquenta anos em um

 Por Marcos Pasche

 Capa - Alexei Bueno

Por mais que se aponte a heterogeneidade para classificar a poesia contemporânea, é possível verificar que os mecanismos de legitimação social da literatura – as grandes editoras, as feiras do ramo, os prêmios mais badalados, os suplementos jornalísticos e as ementas universitárias – tendem a endossar como representantes do presente autores e obras explicitamente herdeiros do Modernismo (o mais festivo e iconoclasta). Por essa perspectiva, não há razão para ver como “de hoje” um poeta que em 1985 publica um volume intitulado Poemas gregos, que em tudo parece demonstrar uma opção pelo passadismo. Esse poeta é Alexei Bueno.

Mas se olhada de perto, e se o olhar despir-se de preconceitos, a obra de Alexei Bueno se revela densamente moderna, porosa e permeável tanto aos fluidos de cima quanto aos detritos do baixo. E é isso o que se verifica em Poesia Completa, lançada pela ocasião do cinquentenário do autor. A publicação reúne os doze livros de versos que Alexei Bueno publicou e manteve em sua bibliografia, aos quais se somam Cinco fugas cromáticas, volume inédito.

Uma quantidade considerável dos títulos poéticos de Alexei dá mostras do quanto sua arte evoca símbolos de requinte: As escadas da torre, Poemas gregos, A decomposição de Johann Sebastian Bach, Lucernário e A juventude dos deuses indicam o teor de solene ancestralidade que lhe perpassa a escrita. Passando ao interior dos livros, poemas como “Helena”, de Lucernário (1993), confirmam o que os nomes sinalizam:

No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levaram linho, unguento, âmbar e cera.

Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.

Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pelo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.

Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.

Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram (p. 279-80).

Entretanto, não deixa de haver na confirmação uma nota dissonante.  Num poeta supostamente passadista, orgulhoso da herança clássica, só é pensável encontrar devoção a essa herança, o que, nos textos, se ratificaria pela total evitação do que pudesse manchar estátuas e templos. Em “Helena”, o discurso é plataforma de uma protagonista mitológica (de uma mitologia protagonista na cultura ocidental), alicerçada em quadras decassilábicas e tomada por carga imagística de alta voltagem. Mas, como se constata em cada uma das suas cinco estrofes, o poema trata do monumento em estado de ruína. Helena, eternizada como a mais bela das mulheres, é apresentada nas duas pontas de seu declínio: uma é a decrepitude do corpo e o fim da vida; a outra, a vida em estado de fim mesmo após a morte, com o choro das sombras dos heróis. Em “Helena”, portanto, o discurso é plataforma de antagonismos: o precioso apuro formal relata o avesso do esplendor, e, por extensão, o poeta, ao revelar uma Helena com destino até então desconhecido, insere na tradição uma sombra corrosiva.

Se em Alexei Bueno há nítida assimilação de matrizes helênicas, há que se perceber em sua poética a forma como se manifesta o homem de uma era desprovida de deuses e amputada de helenismos. Nisso se inscrevem os Poemas gregos, livro em que mimesis e poiesis se dão em proporção equânime. Se nele tudo contribui para que seja percebida convictamente a escrita de um autêntico aedo do período clássico ou helenístico, em nada, porém, deixará de haver indícios de um poeta em particular:

Eu, contrário ao geral dos outros homens,
Muito pouco respeito por vós, deuses,
Tenho, e nem temo que em castigo um raio
………..Divida-me a cabeça (p.180).

 

Aí não reside um protesto unilateral ou mesmo a negação absoluta de concepções culturais consagradas pelos anos. A poesia de Alexei Bueno tem na coexistência de contrários sua carne e seu espírito, dando ao termo “atualidade” um sentido tão amplo quanto intrincado. Se é acertado constatar a inserção que o poeta faz da matéria clássica na poesia atual, não menos correto é apontar a maneira moderna como trabalha elementos ancestrais, inserindo na dicção clássica elementos próprios do homem contemporâneo, “Pois ser um é ser morto” (p. 175), como diz o primeiro dos Poemas gregos. Assim, se a estrutura padronizada foi suporte para a elegia de uma divindade, também o será para a ode “Silvia Saint”, consagrada à tcheca Silvie Tomčalová Stodowa (1976 – ), espécie de Helena pós-moderna, visto ser apresentada em seu site oficial como “the most beautiful pornstar”:

Teu santo nome veste
A quintessência bruta
Da arquetípica puta,
Vênus baixa e celeste.

Áurea cachorra, vaca,
Por que é que os lábios tremem
Vendo em teu rosto o sêmen
Como uma vítrea laca?
(…)

Cadela de ouro, glória
Pueril, sórdida e santa,
Asco que envulta e encanta
Deusa auto-entregue à escória.
(…)

Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso (p. 589-90).

 

Ao se radiografar a poesia brasileira atual, é inevitável – e procedente – o diagnóstico de um quadro multifacetado. O receio da rotulação numa camisa-de-força estilística impulsiona os poetas a procurarem caminhos próprios, o que encontra largo respaldo numa época de apelo individualista, como é a presente. Ao lado dos poetas, tem recebido maior prestígio a crítica que, ao visitar o passado, identifica a idiossincrasia em meio à massa convencional. Por extensão, essa crítica age para demonstrar as estreitezas das tomadas de posição grupais, o que chega aos contemporâneos como alerta e impulso a um destino independente, isento de obrigações coletivas. Assim o coro cede vez ao canto solo, e de diversos cantos solos compõe-se o fragmentado repertório geral. Considerando isso, Alexei Bueno empreende um adventício modo de afirmação da contemporaneidade. Se o panorama se faz diversificado pela assembleia (laica) das individualidades, no autor de Os resistentes encontra-se a unidade constituída e potencializada por uma comunhão conflitante e pelo conflito comungante das partes que desejam ser na companhia de suas antíteses.

As sirenes da cartilha politicamente correta têm latejado incautas, e nesse sentido o poeta revela outro modo de pertencimento oponente ao seu tempo (o tempo do marketing ubíquo e das declarações em tudo calculadas). O pronunciamento aberto e ríspido na direção do que repreende não escolhe perfis, e admoesta o que vê como estúpido e espúrio: “Cansei-me dos pobres/ Como antes dos ricos” (p.551), diz o irônico “Humanitarismo”.

A confluência de itens irreconciliáveis também se processa na estruturação textual. Se Alexei Bueno é frequentemente rotulado como “neoconservador”, é porque nele praticamente só se nota a aparência tradicionalista. No entanto, há em sua escrita um sólido entrecruzamento de formas consagradas pela tradição e pela modernidade. Em sua bibliografia, por entre os livros em que a forma fixa é dominante – As escadas da torre (1984), Poemas gregos (1985), Livros dos haicais (1989), Lucernário (1993), Em sonho (1999), A árvore seca (2006) e As desaparições (2009) – apresentam-se outros integralmente compostos com versilibrismo e polirritmia hegemônicos, caso de A decomposição de Johann Sebastian Bach (1989), A via estreita (1995), A juventude dos deuses (1996), Entusiasmo (1997), Os resistentes (2001) e Cinco fugas cromáticas, trazido ao público com a edição desta Poesia Completa. Nesses volumes, de forte carga simbolista (a estabelecer entre eles evidente conexão), a voz lírica, “Como de uma criança que não se conforma de não ter os mundos” (p. 233), traduz a convulsão de um espírito que, aflito pelos limites da unidade, em tudo se vê e a tudo deseja tocar: “Roçam-se em mim, incontadas, as vidas todas – e as vidas de cada vida –/ Como um turbilhão de pássaros que o vento assopra ao mar queixoso” (p. 391).

A poética de Alexei Bueno opõe-se às diversas maneiras com que a cultura ocidental estabelece segregações acerca do pensar e do ser. Especificamente na era do apogeu tecnológico, a celeridade impõe-se como valor e modelo, e suas ramificações ideológicas alcançam os homens da arte. Potentado último e ubíquo, o mercado dissemina a mensagem da troca imediata e irrefreável, e mesmo na poesia, a barrada no baile das grandes vendas, o tácito decreto se instala e por vezes baralha-se ao lema da originalidade e da renovação. Nesse estado de coisas, não poderia ser outra a (repelente) recepção da poesia que se conecta a um pretérito tão morto quanto ainda enigmático e sabedor de novidades – algumas de caráter duvidoso, a ponto de não despertarem qualquer olhar de surpresa fora dos que as anunciam:

É no passado que caminhamos.
Somos história, somos histórias.
Já faz milênios que aqui passamos
Tais nossas roupas, tais nossas glórias.

Mais que os egípcios, mais que os sumérios,
Num lapso o tempo nos fez distantes.
São língua arcaica vossos ditérios,
Homens modernos. Todo hoje é antes (p. 555).

Mas a poesia é recusa e reação: recupera para a comunidade o que não pode se perder, e pelo já havido reinventa os modos de permanecer e de falar aos homens, convidando-os à evasão e convocando-os à presença. O dizer inaugural se reporta à interpenetração dos tempos, e dá a dimensão ativa do que se mostra estático, pois o isso guarda em si algo de aquilo:

 

Deito-me ao lado da estátua marmórea,
Alva, branca, lavada de alegria,
É a alba, a alvorada, a aurora, o dia,
Que se abre já, desnudo e sem história.

Ela é de hoje, saqueada de memória,
Esta deusa, ela nasce, limpa, fria,
Agora, e, ao lado meu, pura, inicia
O mundo neste alvor, o instante, a glória.

Beijo-a virgem na relva, aqui, a vida,
Só tem hojes, abraço-a, nova, clara,
Secularmente pétrea e ora nascida.

Sorrindo na manhã, gelada, ampara
Meu corpo extático, álgida, estendida
No sempre, no surgir que urge e não para (p. 446).

 

Marcos Pasche é professor adjunto de Literatura Brasileira da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e crítico literário, autor de De pedra e de carne (Confraria do Vento, 2012).

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – JÚPITER

 

Silva - Capa

 

Se em Claridão (2012) eu já afirmava que o capixaba Lúcio da Silva Souza não pretendia soar elitista, apesar de sua formação erudita, é em seu terceiro álbum, Júpiter, que minha “profecia” se confirma. Lançado no Dia da Consciência Negra (20 de novembro), novamente pelo selo SLAP (Som Livre), SILVA recolhe seus sintetizadores, despe-se de preconceitos e apresenta um “planeta” pop e acessível a todos seus habitantes. Algo até certo ponto esperado depois de seu flerte com Lulu Santos & Don L (pseudônimo do rapper Gabriel Linhares Rocha) na canção Noite, já com alguns lampejos espaciais, lançada no primeiro semestre. Nas 11 faixas, todas assinadas por SILVA e pelo irmão Lucas, exceto a regravação de Marina, o músico gravita mais romântico do que nunca, versando sobre o amor e seus contratempos, porém não teme em explorar/conquistar novos ritmos e públicos. Concebido na estrada, durante a turnê de Vista Pro Mar (2014), entre voos e quartos de hotéis, o artista revela-se minimalista e atual, como confessa em carta divulgada em sua página do Facebook.

Silva
SILVA em performance do clipe Eu Sempre Quis, primeiro single de Júpiter / Foto: divulgação.

Júpiter (Júpiter pode ser começar de novo/se por lá não houver esse mesmo povo /que só quer controlar o que a gente quer/e o que a gente só quer/é amar), faixa-título, convida o ouvinte a fugir para o maior planeta do Sistema Solar, talvez numa alusão à mudança sonora que o álbum se propõe. A faixa conselheiro-amorosa Sufoco (ninguém é de ninguém/pare pra pensar/o amor pra existir têm que respirar) adverte que é uma canção sobre desapego e não sobre desamor. Eu Sempre Quis (querer não é amar/mas é sempre um bom começo/amor, eu sempre quis/desde quando te conheço) – primeiro single lançado é uma balada tão envolvente quanto a malemolência de SILVA e sua dancinha no videoclipe da canção. Feliz e Ponto surge com um suingue provavelmente herdado da viagem do músico à Luanda (que rendeu o clipe de Volta, canção de Vista Pro Mar e um curta-metragem denominado Angola, narrado pelo artista e voltado ao ritmo kuduro). Io, espécie de vinheta instrumental do álbum, confirma todo o fascínio de SILVA pela música clássica.

O segundo bloco do álbum tem início com as reflexivas Sou Desse Jeito (um dia eu percebi que era o meu jeito/tão diferente assim do seu conceito/é o que existe em mim/não é defeito) e Nas Horas (a gente faz tudo ser real/você e eu noite a clarear/há quem duvide do verbo amar/eu já rezo o verbo todo). Na sequência, Se Ela Volta (se o nosso amor foi mais que amizade/vou te ouvir abrir o portão), talvez seja interpretada como a continuação da letra de Janeiro, canção do álbum anterior que abordava o amor platônico entre amigos. Um dos pontos altos do disco fica a cargo de Marina, regravação do clássico samba-canção de 1947, de Dorival Caymmi, que ganha uma roupagem eletrônica, refletindo o SILVA que conquistou a todos em Claridão. A sensual Deixa Eu Te Falar (eu tenho tanta coisa pra dizer/habitar você/é meu plano A) dá a deixa para Notícias (eu vou seguir pra onde houver ar puro/junto de uma gente que quer encontrar/algum lugar, um rumo/se eu ficar aqui eu vou desatinar), que encerra a obra em ritmo cadenciado de secretas boas novas (quando eu chegar/não vou mandar notícias).

Em seus 36 minutos de execução, Júpiter surge como uma obra minimalista, visceral e libertadora, onde o multi-instrumentista supera a timidez e dá vazão a toda sua verve de intérprete, algo também evidenciado na série de shows intitulados “SILVA canta Marisa Monte”. Misturando pop, eletrônico, MPB e R&B, SILVA mostra sua maturidade simplificando arranjos e samples e versando sobre o amor e suas agruras sem soar piegas. E como enfatiza a mesma carta publicada no Facebook, Júpiter, “trata-se não de um espaço, lugar ou planeta definido, e sim uma alegoria: é um lugar onde o amor tem a possibilidade de vencer, sem adiamentos ou desculpas”. Boa viagem a todos nós.

 

 

 

Larissa Mendes é sagitariana, também regida por Júpiter.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Quando Deus não está olhando

 Por Sérgio Tavares

 

bjonaparede

 

 

Penso que é papel do resenhista analisar um livro onde nem mesmo há literatura. Assim, chama atenção o fato de que, dois anos depois de lançado, “O beijo na parede”, do carioca, radicado em Porto Alegre, Jeferson Tenório, já se achar em sua terceira edição. A despeito da influência (negativa ou positiva) que tal informação carrega, a explicação está exatamente onde há literatura. Tenório resgata, em sua estreia no texto longo, um gênero soterrado nos anos 80: o romance social. Em meio à ditadura do eu, dos enredos autocentrados, autoficcionais, sua trama rebate no outro, no expediente dos desvalidos, daqueles que existem abaixo da linha de visão da soberba. Enquanto a grande maioria dos novos autores brasileiros interioriza seus passos, Tenório caminha mundo afora, pelas vielas do desamparo.

O comando da narrativa cabe a João, um menino de 11 anos “meio precoce”, que, embora puxe uma fieira de desgraças e de mortes, aprendeu que “chorar não resolve muita coisa”, pois, “de uma forma ou de outra, temos sempre que carregar alguma dor”. Depois de perder a mãe de maneira fulminante devido a um câncer desconhecido, tem de viver pelos caminhos tortuosos do pai alcoólatra, pela rotina suja dos bares, na qual a negligência e o desafeto impõem a ferocidade do dia que engole o próximo com fome e sem cerimônia.

Do Rio de Janeiro, então muda-se para Porto Alegre, morando de favor na casa de parentes. A rescindência da embriaguez do pai, no entanto, irrompe conflitos e não tarda a serem expulsos, migrando para um quarto alugado, um “muquifo terrível”, em seguida para uma casa velha. Ali é que, depois de voltar da escola, descobre o pai enforcado e que, a partir daquele instante, não teria “mais tempo para ter infância”.

Passa a contar com a própria sorte, driblando os apuros do abandono com pequenos atos de resistência, até parar num abrigo para crianças. Dessa parte em diante, Tenório filia seu personagem-narrador a uma realidade crua e desesperançosa, antes explorada, na literatura brasileira, pelos olhos de Pixote, de José Louzeiro; Querô, de Plínio Marcos; e Pedro Bala, de Jorge Amado, em “Capitães da areia”.

Diante da orfandade, João vai recompondo sua família com despojos sociais; criaturas solitárias, marginalizadas, cuja vida “é feita para passar sem perceber que já se está vivendo”. Vai morar num cortiço, onde é “adotado” pela prostituta Estela. Lá começa a interagir com o travesti Verônica, a senil dona Dinorah e seu Ramiro, com o qual mais se apega. Do tempo em que seus pais ainda eram vivos, protege o fantasma do amor da mãe e um exemplar de ‘Dom Quixote’, que servia de calço para uma mesa. Nessa saga em busca “do responsável pela fraqueza dos homens”, na qual a percepção por vezes ingênua de mundo ainda conserva um risco de esperança, o velho Ramiro faz o papel de um tipo amargurado de Sancho Pança. ”Deus não gosta dos fracos, João”, sentencia.

De fato, Tenório deixa muito implícito sob essa camada epidérmica, mais dura e fria tal o concreto da parede que beija o narrador, pois “não tem ninguém para amar”. Por detrás desta voz convincentemente infantil, há ferrões pontiagudos que vão cutucando o leitor para questões como o racismo nos estados do Sul, a crença em pequenas epifanias e o descaso do sistema público para com os menores abandonados. “O beijo na parede” concentra uma existência incapaz de produzir heróis, pois também não consegue criar vilões. Quando Deus não está olhando (e me permito também utilizar de metáfora), todos são seres invisíveis.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Olhares

Olhares

A sutil continuidade das horas

Por Fabrício Brandão

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

Num dado momento, os sentidos saem às ruas à cata de dimensões. Lá fora, um sopro vital permeia convívios, retém sons, encerra pensamentos. Todos os dias, em qualquer recanto do planeta, um intercruzar, ora silencioso, ora sonoro, de trajetórias distintas toma conta desse colossal palco que é a vida. Todos os dias tudo segue, apesar de nós.

O que seria desse nosso mundo sem as diferenças? A cada rosto, sua tez. A cada paisagem, seus matizes. A cada gesto, um microuniverso íntimo que, por vezes guardado a sete chaves, eclode nalgum ponto da jornada humana sobre a Terra. Serão os territórios todos nossos? Onde o limite para a visibilidade das coisas?

Na intersecção entre a concretude e a esfera de abstração, somos seres ainda hesitantes. Por assim dizer, a imperfeição dos homens é melhor guia, pois a nossa vida sucumbiria diante da certeza de que tudo está cartesianamente no seu devido lugar.

A observação das epifanias que nos cercam é também uma forma de intervenção. Por isso, evidenciar o caráter que permeia a obra de uma fotógrafa como Sinisia Coni é algo oportuno. Ali, o olhar expõe o fluxo dinâmico das expressões humanas, levando em conta que é extremamente impossível passar incólume pelo que é testemunhado de perto.  Mesmo quando se supõe uma mera contemplação, há muito mais consolidando tal gesto.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Em sua arte, Sinisia sonda ambientes urbanos como quem ousa navegar os mares da impessoalidade. O resultado dessa travessia é transmutado em gestos os quais nos soam familiares na medida em que concluímos que, não importa qual demarcação geográfica seja, pessoas são feitas da mesma essência.

Revelando-se uma apaixonada pela fotografia, Sinisia iniciou sua trajetória bem cedo, aos 14 anos de idade. De lá para cá, profissionalizou-se e participou de exposições dentro e fora do país, sendo premiada na Embaixada do Brasil em Oslo, na Noruega. Nascida em Salvador, na Bahia, hoje reside em Lisboa, Portugal.

A fotógrafa baiana confessa que mergulha com a alma quando busca suas imagens. Por tal concepção, é possível notar que ela não se propõe a uma busca leviana de lugares e pessoas. Não há o registro pelo registro, alguma espécie de fotografia acidental, mas sim um desejado envolvimento com o que surge diante dos seus olhos. Percebemos isso quando cores, formas, sombras e faces emanam suas múltiplas e próprias linguagens num ritual o mais natural possível.

Sem artificialismos e arranjos premeditados, Sinisia Coni é uma genuína testemunha do mundo, seus arroubos e sua gente.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

* As fotografias de Sinisia Coni são parte integrante da galeria e dos textos da 106ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

CAIM – CIÊNCIA, ARTE, IDEOLOGIA E MÚSICA

 

Capa do disco - Caim

 

A canção pede passagem para sondagens da alma. Vem com a suavidade de um vento estrangeiro, desses que percorrem os mais inusitados lugares como se estivesse à procura de testemunhas para seus imprevisíveis arroubos. E nos rendemos aos seus caprichos indomáveis. Quem canta entoa hinos que cruzam espaços, tempos e paisagens intimistas. Como mensurar sentimentos que brotam dessas escutas?

A voz desse mesmo canto fala de ternuras, inquietudes, perplexidades, belezas, serenidade. Convive com as artimanhas do amor, enfrenta as contendas do ser, questiona o tecido social, sugere poesia. Por trás da canção, a tradução de tantas difusas sensações aqui já descritas vem caracterizada pela performance de Achiles Neto, o condutor das sonoridades amalgamadas no trabalho da banda Caim.

Mas eis que Achiles não está sozinho. A Caim é levada a cabo pela sua parceria com o músico Marcus Marinho. O resultado dessa união de ideias e sentimentos está refletido no trabalho de estreia da banda, o disco Ciência, Arte, Ideologia e Música. Diga-se de passagem, o nome de batismo do álbum é adequado porque sugere uma amplitude de horizontes, olhares devotados para um bojo de questões nem um pouco monotemáticas.

Os recursos vocais de Achiles Neto são, sem dúvida, um primeiro e imediato atrativo do disco. Há não somente uma intensidade vocal presente nele, mas principalmente uma extrema capacidade de mergulhar nas canções e extrair delas uma atitude poética, verdadeiro sopro de vida. Nessa representação sensível de cenários humanos, Achiles conduz seu canto com personalidade própria, tornando o ambiente de escutas algo instigante e sedutor.

Achiles Neto e Marcus Marinho - Foto - Arthur Garcia
Achiles Neto e Marcus Marinho / Foto: Arthur Garcia

Ciência, Arte, Ideologia e Música é um rico mosaico de imagens transposto para a linguagem musical. Há de um tudo ali a refletir um traço essencialmente brasileiro e que, no entanto, se expande para um sentido universal, tendo em vista a percepção de que a música desconhece fronteiras delimitadas. Com seus acertados trajetos, a Caim transita por gêneros como o samba, reggae, blues, rock, dentre outros elementos mais. A presença marcante do violão de Marcus Marinho incrementa o sentido de brasilidade presente no álbum, dialogando com recursos que tanto podem ser tomados de um ponto de vista local quanto global. Para o conjunto harmonioso da obra, acrescente-se a bateria de Júnior Andrade e o baixo de Tiago Menezes.

Pela alta qualidade das composições e arranjos não é algo fácil escolher canções que predominem. Mesmo assim, salta aos olhos, ou melhor, aos ouvidos, uma música como Disfarce, canção que fala do amor entre dois homens com uma rara sutileza. Sob o efeito dos ímpetos amorosos, também há espaço para as constatações presentes em Quem Ama e Dei Conta. Na trama social que nos envolve cotidianamente, canções como João do BNH e Amoral evidenciam tons equilibradamente irônicos e críticos.

Um caráter regionalista povoa os cenários de uma composição como Cocoa. Nela, todo um sentimento voltado para as reminiscências dos opulentos tempos do cacau no sul da Bahia explicita tensões e contrastes sociais. Acrescente-se aqui o fato de que os integrantes da banda são baianos e trazem em si uma forte referência de uma alma nordestina.

Caim - Foto - Arthur Garcia
Caim / Foto: Arthur Garcia

É relevante perceber que músicas como Agonília e Vestido de Caim denotam um valioso viés poético. Com isso, um sensível olhar sobre os lampejos da existência mostra que viver é ultrapassar as barreiras da contemplação, dissecando vestígios e sentimentos ocultos, prenhes de uma libertação.

No terreno da apreensão das subjetividades, a musicalidade da Caim exalta hinos de liberdade, tanto no que se refere à consciência quanto a tudo aquilo que demanda um entendimento delicado do ser/estar no mundo. Esse ideal libertador é algo inalienável e não está sob o jugo de quem quer que seja. Não se submete a obscuros acordos e tampouco obedece a ritos moralistas. Expande a vida para além dos seus muros. Assim, podemos mais do que supomos.

 

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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105ª Leva - 08/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Comentários sobre Corpo Sepulcro ou O extenuante júbilo da morte

Por Maurício de Almeida

 

 

1. O corpo sepulcro

 

Autor dos romances Retorno ao pó, No vale de ossos secos, Amor em tempos de solidão e Terapia das almas suicidas, Mike Sullivan lançou recentemente mais um trabalho, que nasceu reconhecido: o romance Corpo Sepulcro recebeu menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 2013.

Corpo Sepulcro é um livro trágico. Resumidamente, o narrador sofre de uma doença degenerativa que o paralisa por completo, fazendo-o perder não apenas a independência funcional, mas progressivamente todos os sentidos. Ao receber o diagnóstico, o narrador se questiona:

Como seria ver meu corpo morrer pouco a pouco, transformando-se num sepulcro a envolver minha mente ainda viva?

Da resposta provém o romance: absolutamente incapacitado e deixado à morte, ao narrador resta apenas o olfato e a capacidade cognitiva que o permite realizar um exame de consciência, rememorando as culpas que guiaram implacavelmente a vida e que, afinal, resultaram na situação absurda em que morrerá.

Nessa revisão, recupera-se a trajetória de um tradutor que se vê obrigado a retornar ao Brasil para amparar a mãe no momento em que o pai fica inválido por conta de um AVC. Esse retorno ao país é também um retorno ao passado – e a todas as culpas que o pautam e das quais quis fugir em um intercâmbio para a Inglaterra. Embora tente reiniciar a vida, ao assumir a tradução de Orlando (Virginia Woolf) e se embrenhar em um relacionamento casual com a editora Jasmine, compreende-se que a culpa do personagem é inescapável e se tona força motriz de uma vertiginosa derrocada.

Narrado em primeira pessoa, há dois elementos que conduzem a trama por serem obsessões do personagem: o olfato, único sentido que lhe resta no momento em que narra e, portanto, por meio do qual ele conduz suas recordações, e a morte, constante dramática que guiou a vida ao estabelecer com ele um jogo – a morte o persegue na medida em que ele persegue a morte.

 

2. O cheiro ou He was born a scentless apprentice

 

Já nos primeiros capítulos do livro somos informados sobre o evento fundador do personagem, seu drama de origem: a morte de Dominique, a irmã gêmea. Constante e veladamente reiterada pelos pais, a culpa do narrador decorre de sua participação na morte. Contrariando a mãe, foi por insistência do personagem que o pai retornou com os filhos ao lago no qual haviam passado o dia. Uma fatalidade faz submergir a irmã, que nunca mais foi encontrada.

Esse fato leva uma família aparentemente comum à ruína. E sob o signo dessa morte vive o narrador de Corpo Sepulcro. O mérito de Mike Sullivan é demonstrar como o personagem reencontra o evento da morte da irmã em todas as tragédias que o cercam e, por isso, se responsabiliza por elas. Não por acaso, a culpa já insuportável transforma-se em autoflagelo, como se a expurgação fosse impossível e a única solução é tornar-se vítima constante de uma morte perpétua.

Interessante notar o funcionamento dessa engrenagem: devido ao seu estado debilitado e tendo à disposição apenas o olfato, é por meio do cheiro que o personagem conecta todas as tragédias à tragédia fundadora. No entanto, ele não possui registro algum desse acontecimento originário que, justamente por isso, aceita todo e qualquer odor que o personagem entende por trágico.

Assim, as iniciativas desesperadas e inúteis de expurgar a culpa são direcionadas por esse entendimento: mijo, merda, suor, porra, corrimentos e inúmeros odores hediondos o rementem ao sexo furtivo e marginal. E, afinal, rementem a ele mesmo:

Dei-me conta então de que a origem da podridão se dava em mim, incrustada nessa personalidade de estrutura arenosa. Aceitei essa condição. Entreguei-me aos perfumes mais ordinários, e passei a extrair prazer daquilo que era considerado repugnante pela maioria maciça dos humanos. Eu queria ser apenas um libertino, um depravado, um imoral.

Eis o movimento circular que inicia o giro: a culpa que leva ao sexo que retorna à culpa – e a espiral que se realiza tem como ponto central (e inatingível) a morte.

 

3. A morte ou Wine is fine but whiskey’s quicker, suicide is slow with liquor

 

Ao longo de toda história que antecede a invalidez, o narrador consome quantidades excessivas de álcool. Tal qual o sexo, o álcool corresponde a uma suspensão da consciência que de certa forma o aproxima da morte, possibilitando, na verdade, que ele morra indefinidas vezes, e criando também uma punição constante às tragédias pelas quais se responsabiliza.

Dessa forma, justifica-se o jogo que ele estabelece com a morte: ela o persegue na medida em que ele a persegue, pois, devido à culpa que assume pela morte da irmã, ele pauta a vida por todas as mortes que o rodeiam, uma vez que é responsável por todas. E elas são muitas: o intercâmbio à Inglaterra para fugir da irmã, o retorno ao Rio de Janeiro para acompanhar a agonia do pai, a esbórnia deflagrada pelo acidente do cão. E é, afinal, em sua derradeira tentativa de reverter o desgoverno da vida que o narrador encontra a morte derradeira: a esposa.

 

4. A curva extrema do caminho extremo ou Die, die my darling

 

Por vezes, o narrador soa como se rodeasse o problema, mas temesse eviscerá-lo. Nomeá-lo é um primeiro passo: a morte da irmã, a responsabilização e fúria passiva-agressiva da mãe, a doença do pai, o ressentimento de Jasmine, o escapismo pelo álcool e o sexo como entorpecimento. Que esses fatos são mobilizados pela culpa que sente e da qual não consegue abrir mão, ele assume com todas as letras. Entretanto, existem situações e reações do personagem que soam amenizadas em seu relato, como se declinasse uma análise mais profunda para somente descrever os acontecimentos.

É verdade que, feito um autômato, o personagem apenas reage obsessivamente e a repetição do ciclo álcool-sexo-culpa-álcool leva à insensibilidade. É verdade também que a história narrada são reminiscências que, por sua natureza, permitem distanciamento. Mas julgo haver um elemento que justifique esse comportamento quase desinteressado e passivo: a impossibilidade.

Considero Corpo Sepulcro um livro sobre a impossibilidade. Lidando constantemente com a morte, a maior das impossibilidades, e encenando-a de diversas formas sem conseguir de fato realizá-la ou ao menos expurgar a culpa, o personagem relata desvarios, pois sabe que eles foram vãos. Corrobora com essa leitura um símbolo persistente na maior parte da história: a tradução inconclusa de Orlando. Antes de ser solapado pela doença, o personagem faz a seguinte confissão à editora:

É que me vi impossibilitado, de maneira muito misteriosa, de traduzi-lo.

Ademais, não se pode esquecer que a narração acontece quando o personagem se descobre finalmente realizando a curva extrema do caminho extremo, o que a ele significa alívio, mesmo que a situação seja absurda e angustiante. No limite, portanto, ele discorre sobre situações impossíveis e passadas que, se possuem desdobramentos, no momento em que são narradas significam muito mais despedida, uma vez que será permitido a ele esquecer. E, como não poderia deixar de ser, não haveria outro desfecho ao livro senão o personagem ser velado pela própria morte.

 

Maurício de Almeida é autor de ‘Beijando dentes’ (Ed. Record), livro de contos vencedor do Prêmio Sesc de literatura 2007.

 

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105ª Leva - 08/2015 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A linguagem e o limite

Por Gustavo Rios

 

 

Talvez uma das formas mais comuns de literatura seja aquela que está vinculada a um território. E aqui uso a palavra não como representação de lugar, mas sim de um nicho. Fundamentalmente, uma escolha.

Grosso modo, temos autores “regionais” na forma e na construção de seu eu-personagem – a imagem que o mesmo escolhe de si para o mundo; o chapéu na foto, a biografia na orelha do livro. Outros preferem a urbanidade em suas infinitas formas. E se inventam. Muitas vezes indo além do tripé “asfalto, quebrada, concreto”.

Usando o raciocínio simplório acima, quando o autor faz sua escolha traz consigo a linguagem, matéria e antimatéria de seu trabalho. Isso é terrivelmente óbvio, sei. O “urbano” vai buscando o entendimento através das gírias, do fraseado louco e comum das ruas, enquanto o “regional” se vincula ao que de mais rincão existe. Tal situação os obriga a uma busca incessante. Talvez na tentativa de manterem proximidade com seu universo, seu quinhão. Ainda que as novas possibilidades artísticas os afastem de suas raízes, é preciso encostar o ouvido ao chão. Sentir a trepidação, escutar; manter a essência – seja ela inventada ou não, pois quem cria a paisagem é o autor, não o contrário.

Existe, porém, outra espécie de escritor. Um tipo que vai além. Geralmente tal artista em algum momento arrancou de si a aldeia. Aquela, universal por natureza. E nesse movimento certamente revelador, se fez completo, um autor sem amarras. Arrancando de si também a linguagem que o vinculava ao seu possível território. Convertendo-a, de limitadora em ilimitada.

Em Fernanflor (Iluminuras, 2015, 112 páginas), de Sidney Rocha, tive tal impressão logo no começo. As palavras existem, não fogem de nossa compreensão. Os elementos narrativos não são disparates. Nem viagens sem volta no doce mundo das abstrações. Todavia, Rocha demonstra saber utilizar a linguagem a seu favor. Ampliando-a até outro patamar. Indo além.

Para ele, o território, o lugar, ou qualquer conceito semelhante é a própria linguagem.

Não existem ali as dificuldades comuns aos pretensiosos. Dos que se excedem no uso de palavras complicadas. Nem tampouco o fluxo de consciência, tipo de arte que, nas mãos dos tolos, se torna artifício. Apesar da velocidade com que o ganhador do Jabuti de 2012 desenvolve seu romance, fica bem evidente o cuidado com a construção, com a estrutura e com a intenção, principalmente. A velocidade aqui é fruto de seu intento. A rapidez é resultado de trabalho, um artesanato, lido, relido, analisado não de forma obtusa e engessada, mas com a paixão dos que sabem aonde querem estar – não por acaso, o livro levou cerca de oito anos para terminar, além de ter sido submetido a uma leitura pública há cerca de quatro anos em várias capitais do Brasil.

Apesar de não ser hermético, Fernanflor também não pode ser lido de forma desleixada. O fato de Sidney ser um autor que subverte a noção/ideia de território nos obriga a reinventar nossa leitura. A literatura flui e nos escapa, se a gente vacilar.

Cada página nos força a construção de possibilidades. E nunca estamos satisfeitos, pois a todo instante vemos algo distinto. Jeroni, o protagonista, poderia ser resumido a um dândi. Talvez possua as mesmas posturas e angústias comuns aos outros da história da literatura. Porém, cada novo instante é de fato novo, exige mais do leitor.

Sidney consegue uma literatura de deslocamentos. E, antes que tal afirmativa se transforme somente numa frase de efeito, é possível tentar justificá-la com uma ideia simples: a cada página conquistada entendemos que nada é linear nem previsível. Em nenhum aspecto.

Do enredo à linguagem, as coisas se renovam. O novo não surge somente nas ações do personagem – aonde ele vai, o que fará em seguida, qual seu destino, sua tragédia e seu triunfo. O novo surge também na linguagem. Na escrita. Em diálogos que aparecem do nada, surpreendem, dilatam a literatura “deslocada” de Rocha.

Uma epifania não é fato isolado. Ela se desdobra. Atinge não somente o instante na história, mas também a linguagem que lhe dá guarida. É um conjunto de sensações. Pluralidade, literal e literária:

“Retirada a laje, a areia volta ao bojo das pás. Milhões de pétalas são lançadas para cima e, outra vez, se pode ver o vidro limpo. Os cordames grossos, de algodão puro, se enfiam na terra e içam o diamante. Sentimos o cheiro das rosas, mas é a respiração da terra ruminando o odor da terra molhada. Por um segundo crê que o diamante levita, depois as mãos o carregam até o suntuoso catafalco.

“Na câmera ardente, não há mais espaços para mais rosas nem palmas.”

E presenciamos cisnes que “desnadam”. E um Jeroni que vê “(…) lágrimas subirem das faces das mulheres e serem sugadas de volta ao fundo dos olhos”.

Outro ponto a ser destacado é o uso de elementos pictóricos. Sendo Jeroni pintor, tal recurso é fundamental. Justificável em maior ou menor escala. Contudo, aqui mais uma vez insisto nas teses do deslocamento e da pluralidade, para dizer que em cada trecho onde Sidney resolveu usá-los, o risco (ou seria traço, ou pincelada?) valeu.

Ou seja, supondo que o autor não seja artista plástico, ou que ele tenha algum grau de intimidade com a pintura, os trechos onde isso foi necessário não serviram somente de arcabouço para o protagonista. Nem descrições frias resultantes de pesquisas. A pintura que Lourenço Mutarelli cita na orelha do livro tem a ver com a linguagem – e opiniões como as dele, escritor e um dos melhores quadrinistas do país, tem peso e medida, assim como as do português Gonçalo M. Tavares, dono de um texto fundamental sobre Fernanflor. Provando mais uma vez que ela é o alicerce. A mesma linguagem inovadora que nos conduz desde a primeira página. Com cores, vibrantes ou não – o vermelho e o cinza são escolhas firmes do autor, mesmo quando desbotam: o desbotamento também sendo escolha, recurso. Com os retratos e com a vida que deixam Jeroni Fernanflor sempre à beira de um precipício. Usando seus sapatos lustrados, suas roupas bem cortadas.

Somos seduzidos pelo artista. Pelo dândi que desde novo olhava o mundo como um quadro vigoroso, mas nunca estático. Pelo artista que se mostra nos silêncios que o Mutarelli diz, mas que se esconde nas “(…) frases claras, mas nunca evidentes.”, opinião do escritor português Gonçalo M. Tavares em seu texto.

Fernanflor é o começo. A primeira parte de uma trilogia arquitetada por um grande autor. Um inventor de possibilidades: e que os outros dois livros nunca encerrem a aventura, ainda que tenham um fim.

 

Gustavo Rios é autor do livro de contos “Allen mora no térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), entre outros.