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90ª Leva - 04/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Sem coragem de continuar nem força de terminar

Por Sérgio Tavares

 

‘But now that I’m older,
my heart’s colder,
and I can see that it’s a lie.’
Arcade Fire, Wake up

 

 

 

‘Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar essa história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha. Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para se contar’.

O excerto acima, tirado de ‘Conto (não conto)’, de Sérgio Sant’Anna, é possivelmente o mais preciso retrato literário de um recorte temporal. Escrita nos anos 80, a obra suscita a sombra de descrença que pairava sobre a época, amargada pelo baixo astral decorrente da frouxidão dos ideais nascidos no processo de redemocratização do país. O sentimento inexcedível de que não se andava para frente, de que nada realmente acontecia.

Sant’Anna transporta esse travo para a ficção, instigando um questionamento sobre a tessitura da própria narrativa, onde cobra do leitor a participação no fazer ficcional, ao tensionar uma linha fina entre realidade e invenção. Anulado de ânimo, esse leitor não se incomodaria com uma narrativa desfalcada de seu elemento principal. Uma história que, à medida que tenta avançar, diminui, que está aferrada a um momento difuso, eleito ponto de origem, sem que isso determine um desfecho. Mas poderia um enredo se desdobrar sem que o protagonista (narrador) tivesse motivação para que isso ocorresse?

Em seu romance de estreia, ‘Não muito’ (7 Letras/2013), o jornalista Bolívar Torres espreita a pergunta, deslindando suas imediações para oferecer ao leitor um espectro de resposta, uma insinuação de certeza que dá a medida de quão ardiloso pode ser esse processo. Sua matéria é o desalento, uma rede de personagens-fantasmas que subsistem num tipo de limbo, uma existência exangue, uma letargia que caracteriza um estado de tempo. Não se trata de um romance de geração, contudo, e sim, ainda que de maneira oblíqua, um de formação. Um clima de melancolia e receio que intratavelmente perpassa décadas, uma espécie de angústia geral que é própria da transição da juventude para a vida adulta.

Nesse intervalo está Dalton, universitário que mora com os pais, cujo relacionamento é fundamentado numa inação quase sobrenatural. O pai é uma figura inexpressiva constantemente banhada pela luz fria da tevê, a mãe passa os dias confinada no quarto, flanando numa frequência de devaneios e sedativos. Os diálogos são lacônicos e dispersos, como que sem força para empreender compreensão. A mesma apatia rege o universo do protagonista, acessado por seres descartáveis em suas desnaturações afetivas, onde o passo seguinte tem a impossibilidade de um trauma insondável. Ao saber que o pai de um amigo cometeu suicídio, decide ir ao velório, no entanto passa horas circulando com o carro até chegar ao local, de onde sai sem cumprir o intento. Dalton não consegue ter atitude, há uma âncora dentro de si.

Desse modo, o presente se amua numa zona cinzenta fronteiriça a um futuro inalcançável e a um passado ainda em execução. Conforma-se com o agora, o agora perene e estéril. Sem gana, sem direção. Longe da sua cama, da imagem da “tomada que sempre lhe acalma”, Dalton vagueia pelos corredores da faculdade, por festas, bebe, faz sexo, firma encontros com jovens que compartilham o mesmo despertencimento pela vida. Entre os quais, Daniel, o filho do suicida, que oculta seus medos sob uma conduta inconsequente, e Cecília, colega de sala com quem protagoniza a melhor passagem do romance, onde se estabelece conexão com uma ocorrência pregressa que fornece a Dalton uma sensação que para ele tem o significado de felicidade.

Retomar esse momento específico é o único refúgio em meio ao vazio de tudo, o espasmo que consegue lhe destravar do cotidiano embotado, onde haverá sempre “uma coisa a ser feita, mas sem saber o quê”. Há tintas beckettianas nessa desolação, da mesma forma que evoca o ‘Baterbly’, de Melville, o escriturário ‘sem coragem de terminar nem força de continuar’. O fim para Dalton, todavia, é algo inacessível, pois demanda romper as amarras que enxerga como proteção. Incapaz de defrontar a outra margem, ele segue à deriva sem coragem de continuar nem força de terminar.

Bolívar Torres demonstra incrível habilidade ao se fechar numa ideia narrativa e bem utilizá-la para estruturar um mundo assombrado e exteriorizar as aflições de seus personagens. Sua prosa é econômica, porém rica e densa, emulando o ritmo moroso, por vezes hesitante, que embala os atores de sua história. Por trás dessa realidade, no entanto, há nuances e sobreposições de camadas que apontam para interpretações subjetivas. Prova disso, é a personagem Ana Lauren, que se desenha um antigo interesse amoroso de Dalton, mas que pode também ser entendida como a voz da consciência dele. É dela que vem a frase mais impactante do livro, digna de preceder o oportuno título e sua simbologia: ‘Você sabe o que você vai fazer amanhã?’.

Nas últimas páginas do romance, há um jogo de cartas, e a isso se resume a vida de todos ali, um jogo. Porém um jogo sem vencedores ou perdedores, um jogo que segue aberto por falta de motivação. Esse, afinal, é o sinal maior do talento de Bolívar Torres: fazer o leitor entender que a história está em curso, ainda que o protagonista prefira ficar ausente.

 

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – VISTA PRO MAR

 

 

‘(…) Basicamente é isso. “Vista pro Mar” surgiu numa tarde ensolarada em uma piscina – como se fosse um caso de amor adolescente, daqueles que nos rende um ano de dor de cabeça criativa… E terminar um disco é como reencontrar aquele amor adolescente anos depois, mais velha, mais madura e bonita e pensar: “Acho que vou chamá-la pra sair”’. (SILVA)

 

Se depois da tempestade vem a bonança, podemos dizer que depois de Claridão, vem Vista Pro Mar. O denso e minimalista álbum de estreia do cantor e compositor Lúcio Silva Souza – ou simplesmente SILVA – tem como sucessor um conjunto de canções otimistas e ensolaradas. O músico capixaba de formação erudita continua mesclando MPB com bases eletrônicas e versando sobre o amor e suas vertentes, de maneira que se confirmam todas as expectativas em si depositadas como o novo nome da música nacional. O artista continua também dividindo a parceria das canções com o irmão Lucas Silva, seu letrista predileto. Gravado em Portugal, as onze faixas de Vista Pro Mar possuem 48 minutos de duração e soam muito mais orgânicas do que as canções de Claridão (2012), disco gravado praticamente de modo artesanal e solitário.

Produzido pelo próprio músico (e com uma bela arte gráfica), o álbum foi revelado aos poucos, antes do lançamento oficial, através de quatro singles: Janeiro, É Preciso Dizer (que ganhou clipe rodado entre França e Portugal), Universo e Okinawa, parceria com Fernanda Takai. Mais melódico, coeso e com menos manipulação eletrônica, Vista Pro Mar reafirma o processo de amadurecimento do artista e propõe certa reinvenção precoce: SILVA poderia repetir o óbvio experimentalismo para burlar a síndrome do segundo disco, mas não, a densidade do álbum de estreia agora dá vazão a momentos elaboradamente despretensiosos. Disponível no iTunes, o registro físico foi lançado em abril pelo selo SLAP, braço independente da Som Livre. No mesmo mês, SILVA apresentou-se no Palco Ônix, na 3ª edição do Lollapalooza Brasil e prepara-se para tocar no Rock in Rio Lisboa, em maio.

 

Show de SILVA no Lollapalooza Brasil 2014 / Foto: Eduardo Magalhães

 

Um trio de metais em Vista Pro Mar, canção-título, abre o álbum com otimismo e valentia, anunciando que ‘não há mais maré baixa em mim’ e que ‘eu sou de remar/sou de insistir/mesmo que sozinho’, para em seguida declarar (-se), na melódica new age de É Preciso Dizer, que ‘esse mar já deu ’ (é preciso dizer/quando olhas assim/uma coisa me atropela/dentro o peito). A irresistível Janeiro e seus instrumentos de sopro mantêm uma cadência festiva numa típica história de amigo que gosta da amiga, tem medo de perder a amizade, mas não aguenta mais calar o sentimento (justamente no mês em que é sempre tempo de [re]começar). Entardecer possui um clima praiano de pôr-do-sol, com o barulho das ondas e um pseudo-reggae no final, que informa que ‘pra nós/não é questão de sorte’ e ‘o que há de ser/sim, será’. Okinawa, dueto com Fernanda Takai, apresenta um tom acústico-oitentista e o refrão adverte sobre a fragilidade das relações (faz chuva, esconde o horizonte/a cada vez que você não vem/não vale se amar tão de longe/é de perto que a gente se faz um bem).

A segunda metade do álbum destaca o pop dançante de Disco Novo (já amei, amei/também já desanimei/insisti em não lembrar/depois lembrei), candidata a hit e talvez a melhor canção do álbum. Se Universo aborda um mundo particular entre duas pessoas que não precisam ‘fazer tipo’ (o que eu quero/é sua companhia/o restante a noite faz), Volta (quem é de mim não se esconde/nem recusa o meu olhar), e seu quase assobio eletrônico-oriental, fala de um provável regresso. Na sequência, a romântica Ainda – bossinha com canto de pássaros – contrasta com a malemolência de Capuba. Maré encerra o disco com a mesma satisfação que um belo dia se despede nas areias, com os aplausos dos súditos ao astro-rei. Em dias nublados de verão ou ensolarados de inverno, definitivamente SILVA é som de todas as estações. É amor que sobe a serra.

 

 

Larissa Mendes gosta mesmo é de sombra e água fresca.

 

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88ª Leva - 02/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GRAVEOLA E O LIXO POLIFÔNICO – 2 e ½ – VOZES INVISÍVEIS

 

 

Inventariar fragmentos da memória, esta ciranda de lembranças que recende a pó da estrada. No meio do trajeto, também não se deve esquecer de cultivar raízes e frutos duma cumplicidade. Se a vida é feita de momentos compartilhados, os sentidos da amizade revelam muito mais do que meras marcas do tempo. É o gosto primevo das coisas quem deixa a face de coadjuvante e atua com destaque no palco duma existência que pode ser mais leve do que se supõe. Mas por que carregar mais fardos do que suportamos quando nada na vida pode ser mais urgente do que apenas respirar os instantes?

Talvez o parágrafo acima ouse definir uma pequena parte do ambiente de sensações que pairam pelo mais novo disco do grupo Graveola e O Lixo Polifônico. Tal como a vida nem sempre nos dá a chance de reescrevermos através das suas vacilantes linhas, assim o é quando vivemos saboreando o gosto incerto dos esboços. E esse sentimento de permanente incerteza parece reinar nos arremates poéticos do álbum 2 e ½ – Vozes Invisíveis. Certo mesmo é que em seu quarto disco, os mineiros da Graveola depositam suas impressões sutis sobre o tecido inexplicável dos dias sem buscar razões que se dignem a qualquer tipo de exatidão.

Se a própria vida jamais será uma equação matemática, é porque os caminhos não formam desenhos lógicos. E como saber disso nos serve de alento para continuarmos respirando sem os achaques científicos. Definitivamente e em matéria de sentimentos, a orientação meramente cartesiana das coisas é algo pronto a ser repelido. Assim, ao ouvirmos as composições musicadas da Graveola, temos a mínima noção de que estar no mundo é, acima de tudo, reverberar os acordes dissonantes dos devaneios que nos acometem por todos os cantos da mente. Para cada ouvido, uma experiência de percepções próprias se instala. E é justamente isso que faz de 2 e ½ um disco incompatível com bulas e manuais de instrução.

 

Graveola e o Lixo Polifônico / Foto: Flávia Mafra

 

A julgar pela escolha do título, o álbum já nos traz certa atmosfera de provocação e algum questionamento, pois as ações humanas, travestidas que estão pelo jogo das emoções e das ínfimas certezas, cabem num espaço de incompletude absurdamente colossal. É nesse momento que o novo trabalho da Graveola ganha proporções que flertam com traçados existencialistas.

As vozes invisíveis da banda evocam uma poesia que se situa no plano das ruas, dos becos errantes ou em sinas mergulhadas na rotina do tempo. Ao passo que revisitam afetos compartilhados, cantam a saudade, a transformação dos caminhos, as escolhas, o lado sublime das coisas e o gosto incessante pelo mistério. Numa tentativa de autodefinição, o próprio grupo se considera uma comunidade em movimento, repleta de investidas não necessariamente finalizadas. Pelo somatório de cenários, conduzidos pelos laços das afinidades em vida, fica a impressão de que ouvimos a expressão moderna de um outro clube da esquina.

Da escuta de faixas como Vozes Invisíveis, Cafeína, Canina Intuição, Escadaria, Maquinário e Da Janela, percebe-se que os caminhos percorridos não são nada uniformes. Refletem elementos rítmicos e melódicos bem típicos duma brasilidade carregada de pluralidade sonora. Assim, vocais e instrumentos estão a serviço de um verdadeiro mosaico de intenções puramente comprometidas com um certo ímpeto de acolher a porção sublime e indescritível da vida. Noutros momentos, há referências explícitas ao legado da MPB, como é o caso da canção Envelhecer, que entoa um “preciso aprender a ser só”, frase presente na composição dos bossanovistas Marcos e Sérgio Valle.  Em a Lenda do Homem Pássaro, há um pungente sentido de reflexão sobrevoando resultados de algumas escolhas nossas.

Quando o Graveola resume seu novo rebento como sendo fruto de andanças entre amigos, é porque o melhor significado é resultado direto e inexplicável da arte do encontro. A despeito de se levar em conta a capacidade que temos de alimentar o jogo das complementaridades, reconhecemos que a inteireza do ser não passa de uma quimera. Entramos e saímos dos inefáveis cenários da existência sem ocuparmos todos os espaços eterna e teimosamente vazios. A vida não passa de uma obra em construção.

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte I

Por Claudia Rangel

 

Jogo de Cena. Brasil. 2007.

 

 

“For what is a man, what has he got?
If not himself, than he has naugth
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
And did it my way”
(Claude François/Jacques Revaux/Paul Anka – 1967)

 

Eu gostaria de falar especialmente sobre Jogo de Cena, um filme do Eduardo Coutinho que me marcou muito. Talvez porque ele seja um filme sobre mulheres, feito por um homem que possuía a incrível capacidade de ouvir as pessoas para além do que elas dizem. E talvez porque ali eu tenha me identificado profundamente com cada uma daquelas histórias contadas e recontadas por aquelas mulheres. E talvez porque eu seja uma mulher e sinta uma enorme necessidade de entender o que é ser uma mulher estando no mundo. Neste mundo marcado por milhares de anos de dominação masculina, no qual a cada meia hora uma mulher é morta no Brasil (dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Aplicada).

Mas o fato é que eu queria falar de Jogo de Cena e revi o filme para lembrar alguns trechos e, principalmente, reencontrar os elementos que nele me impactaram tanto da primeira vez que o vi. E ao revê-lo, com os olhos de releitura e do distanciamento, entendi outra coisa para além do fato de Eduardo Coutinho ser um arqueólogo de almas. Entendi que, na verdade, ele é um desnuda-dor de almas, e que, ao entrevistar uma pessoa (as mulheres de Jogo de Cena ou qualquer outro personagem real), ao mesmo tempo em que ele usa sua capacidade de entrevistador para que o entrevistado se sinta à vontade e abra seu coração, também faz com que o entrevistado, de certa forma, se represente dizendo aquilo que tem a dizer. É um jogo que lembra o poema do Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor, e finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”. Esse é o tal Jogo de Cena, que ele deixa explícito no filme ao colocar em diálogo os depoimentos de mulheres e as representações feitas por atrizes desses mesmos depoimentos.

Para quem não teve oportunidade de ver o filme, nele algumas mulheres são levadas a um palco de teatro e lá, diante de Coutinho e de costas para a plateia vazia, contam suas histórias. São diversas mulheres e diversas histórias que depois são recontadas por diversas atrizes. Para filmar Jogo de Cena, Coutinho usou uma estratégia inusitada num documentário publicando um anúncio com os seguintes dizeres: “Convite. Se você é mulher com mais de 18 anos, moradora do Rio de Janeiro, tem histórias para contar e quer participar de um teste para um filme documentário, procure-nos.” Além do local e horário do teste, acrescido dos telefones da produção, o anúncio nada explicava. Esse convite abre o filme.

O que torna o jogo mais instigante e emocionante é que algumas atrizes são muito conhecidas de nós (Marília Pera, Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Mary Sheila), enquanto outras são totalmente desconhecidas. Por isso, em muitos momentos, nós não sabemos se quem está falando é o personagem real ou o fictício (e, às vezes, chegamos a duvidar de que as atrizes estão contando a história de outras e não a sua própria história). Principalmente porque, em alguns momentos, a interpretação parece mais convincente que a narração real da história, e o real e a representação do real se confundem de tal maneira que já não sabemos mais quem conta qual história, pois o que Coutinho deixa claro no documentário é que todas as histórias são narrativas e, como tal, são representações, são “jogos de cena”.

Tentando entender como Coutinho teria chegado a essa técnica tão sua de demonstrar essa tese, procurei rever alguns trechos de outros documentários dele. Revi Santo Forte e Edifício Master, outros dois filmes que me impactaram muito. E por isso a abertura deste texto com um recorte da letra de My Way, música imortalizada na voz de Frank Sinatra, que é reinterpretada pelo Sr. Henrique, um dos moradores do Edifício Master entrevistados para o documentário do mesmo nome, no qual Coutinho dá voz aos moradores de um imenso condomínio de quitinetes em Copacabana. Nós entramos na casa dele guiados pelo Coutinho. E o Sr. Henrique, ao cantar sua música favorita junto com seu ídolo (que canta no CD player), quase chora, se emociona, pois essa é a música da sua vida, o seu resumo pessoal. E ele canta, apesar de não saber cantar, apesar de saber que está sendo filmado. Ele abre essa janela da sua alma para Coutinho e para nós. Coutinho faz isso com a gente: nos faz ver aquele que não veríamos. Aquele que é desconhecido e indiferente. Ele extrai de cada entrevistado o diamante interior que talvez jamais percebêssemos naquele outro que esbarra conosco nas calçadas da vida. Como ele próprio falou ao amigo José Hamilton Ribeiro, “Cada história vale por si. Cada vida vale por si.” E ele nos faz olhar para uma pessoa comum como alguém totalmente singular e especial e nos faz perguntar, como na letra da música My Way: “E pra que serve um homem, o que ele tem? Se não ele mesmo, então ele não tem nada”.

Rever algumas cenas desses filmes talvez tenha me desvirtuado do caminho de uma análise sobre o documentário Jogo de Cena. Mas, na verdade, o que me desvirtuou desse caminho foi o próprio filme, ao me levar a uma reflexão maior sobre a questão da narrativa. A pergunta que Coutinho parece fazer no documentário é: quando falo de mim, quem me diz? Quando uma mulher senta diante de um entrevistador e uma câmera e conta sua história, qual é a história que ela conta? A narrativa, mesmo a pessoal, exige de quem narra um distanciamento da história. Então, cada pessoa se reconstrói a partir da narrativa de sua história. Eu acho que é isso que ele quer demonstrar em Jogo de Cena quando coloca atrizes para reinterpretar as histórias contadas por mulheres anônimas. E, ao fim, acaba tornando essas atrizes também entrevistadas do documentário.

O filme tem camadas que demoramos a perceber, pois elas se sobrepõem e interagem. Na primeira entrevista, por exemplo, a atriz Mary Sheila fala como começou no teatro. Quando ela diz que está fazendo atualmente a releitura do clássico Gota D’Água com o grupo Nós do Morro, Coutinho pede que ela faça a cena do envenenamento dos filhos. E ela faz imediatamente, saindo de si para o personagem com uma naturalidade admirável. E a fala da peça que ela reproduz é uma espécie de introdução para todas as histórias que virão depois. Então, começando o filme com o depoimento real de uma atriz sobre ela própria e finalizando a cena com a mesma atriz representando um texto clássico relido pelo teatro, Coutinho já nos dá a chave do seu documentário. Mas nós não sabemos, a princípio, o que fazer com essa chave, pois logo depois ele nos confunde com o depoimento de uma moça desconhecida, falando sobre sua própria experiência de ser mãe. E amarra esse depoimento ao da atriz Andréa Beltrão, que nós pensamos ser real. Somente quando as falas começam a se repetir (na boca da atriz e da mulher entrevistada) é que entendemos que a atriz está relendo, reinterpretando o que outra mulher diz. Mas ele não deixa que essas reinterpretações sejam apenas simples releituras e tira delas algo pessoal das atrizes, ao conversar com elas sobre as dificuldades de interpretar uma história real. E ele é magistral na técnica da entrevista.

 

 

Porém, mais que um filme de entrevistas e depoimentos reais, Jogo de Cena é um tratado sobre a narrativa. Eu realmente gostaria de ter conhecimento da psicanálise para entender o filme, pois é da narrativa (do que é dito e do que não é) que a psicanálise se alimenta. O documentário, enquanto gênero, também se fundamenta a partir da narrativa. O documentário clássico, porém, constrói sua narrativa sobre um fato real, interpretando esse fato conforme as crenças e idéias do diretor. Coutinho não é um diretor que faz esse tipo de documentário. Ele buscou em todos os seus filmes a narrativa do outro. Em Jogo de Cena, porém, ele próprio questiona essa possibilidade quando desconstrói a narrativa do outro colocando no espelho da atriz a fala de uma mulher real e sua história real.

E voltamos à questão: quem é que me fala quando eu falo?  Em Santo Forte, dona Thereza, que incorpora entidades da umbanda, ao contar sobre a morte da irmã, para em determinado ponto da narrativa, vira a cabeça por cima do ombro e diz algo para alguém que não está ali. Coutinho então pergunta com quem ela está falando e ela responde que está falando com a irmã. Ele pergunta se ela está ali. Dona Thereza sorri e diz que todos estão ali, que em volta deles tem muitas pessoas que não podemos ver. E eles estão sempre falando com ela. Na simplicidade (ou complexidade) de sua crença, dona Thereza traduz o que os linguistas dizem o tempo todo: nós falamos com a língua do outro, nos constituímos na narrativa, que não é nossa, é anterior a nós e nos constitui. E é disso que Jogo de Cena trata. Ao mesmo tempo, não é só disso: é também sobre a dor de viver sendo mulher. E o diretor consegue juntar as duas linhas principais do filme – a narrativa e a dor feminina – quando, na última parte, uma das mulheres pede para voltar, pois queria ainda cantar uma música, começa a cantar a cantiga de ninar “se essa rua fosse minha” e, ao fundo, ouvimos Marília Pêra cantando a mesma canção.

No entanto, ao final do filme, que até então utiliza apenas uma câmera em plano fechado mostrando as entrevistadas e a plateia vazia (com poucas e raras inserções da chegada das mulheres ao palco), Coutinho nos surpreende novamente mostrando o teatro vazio visto do fundo da plateia, com as duas cadeiras vazias no palco. E percebemos que a cadeira que está de frente para a plateia é a dele, o diretor. E é ele quem está narrando uma história para nós.

 

 

Claudia Rangel é jornalista, Mestra em Educação e servidora da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo). A fotografia e o cinema são suas fontes de alegria.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

O amor enquanto privacidade

Por Sérgio Tavares

 

 

Superado o queixume sobre a disseminação irrefreável da tecnologia portátil, o escritor norte-americano Jonathan Franzen chega ao baú onde guarda as velhas cartas de amor compartilhadas por seus pais, no terço final do ensaio ‘Só liguei para dizer que te amo’, abrigado na coletânea ‘Como ficar sozinho’ (Companhia das Letras, 2012). Para ele, os registros dos vocábulos sedimentares para a edificação do amor de que foi resultado servem para confrontar o uso indiscriminado do ‘eu te amo’ ao término de uma chamada telefônica, um tipo de código vulgar do século XXI para dar fim a uma conversa. Franzen questiona a qualidade do sentimento. Se há, em sua manifestação pública e suplementar, a mesma textura conservada naqueles papéis enviados com a carga de quem, debruçado sobre as margens, perdeu-se em horas a fio, exilado num universo bidimensional, para condensar em poucos parágrafos a imensidão dos desejos, das angústias, da vontade incessante de estar junto. O amor a sério, conclui-se findada a leitura, carece de pertencimento. Ocorre num grau sobrelevado de intimidade necessário para projetar no outro a mesma voltagem que pulsa em si.

Em seu magnífico romance de estreia, a escritora e artista plástica gaúcha Helena Terra trata da complexa gestação do amor enquanto privacidade. Narrado em primeira pessoa, ‘A condição indestrutível de ter sido’ (Dublinense, 2013) traz a lume a amostra de um movimento nato da era hipertecnológica: os flertes firmados no mundo virtual que, justamente por prescindir de pessoalidade, acabam por minguar sem culpados e feridos. A protagonista, de quem não se sabe o nome, entretanto, vai além. Depois de criar um blogue com conteúdo munido por postagens coletivas, ela se atrai por um participante em especial, Mauro, um sujeito que se apresenta bem letrado e cativante, propondo um diálogo privado, uma troca rotineira de e-mails suscitada à base de elogios correntes e versos de Baudelaire. A narradora de pronto se envolve e, à medida que o interlocutor virtual vai trazendo à tona aspectos da sua vida real, um estreitamento de afeto se consolida, bombeando, interações após confissões, combustível necessário para rutilar um sentimento incapaz de ser expresso apenas com a ortografia computadorizada. A maneira de lidar com essa emoção sem freio é o ponto de partida da trama.

Helena Terra propõe acompanhar o erguimento de uma construção que, a qualquer instante, inevitavelmente se demolirá. Por certo, desdobramentos malconformados para relacionamentos não são nenhuma novidade na literatura contemporânea. Basta escolher um livro do Ian McEwan, a seu gosto. O diferencial (e o brilho) fica por conta da visão sobre o tema. Nesse caso, a tessitura da relação compete efetivamente ao relato de apenas um dos envolvidos, fornecendo um ponto de vista, senão suspeito, ao menos desfalcado. O outro, enxergado sob um anteparo, se desenvolve a partir das qualidades e dos defeitos que se convencionam a ele, portanto uma projeção dos próprios desejos e aflições daquele que narra, o produto idealizado de um processo psíquico. Ao situar o despertar dessa paixão no plano virtual, a autora potencializa o mergulho às cegas na experiência de amar. As veracidades das palavras e da própria afeição, a armadilha do anonimato, perdem atenção diante da ansiedade do próximo contato, do piscar do novo e-mail na caixa de entrada, uma espécie de dependência que ocorre de um sentimento transtornado já sem nome, uma condição intratável.

O resultado é a quebra de todas as regras, a perda das rédeas do próprio domínio. Em dado momento, a narradora condiciona que não trocariam imagens, não obstante a promessa será desfeita por ela mesma numa decisão extrema. Mauro conta ser casado, com dois filhos. Fato moralmente questionável diante do rumo do envolvimento, mas ela frivolamente não leva em conta. O mundo inventado para ambos, que se deslinda à redoma que a protege em frente ao monitor, é sustentado por uma sobrecarga sensorial, ou melhor, unicamente pela idolatria. Tanto que, ao surgir uma pausa na comunicação, o efeito é de abstinência, uma avalanche de autoquestionamentos sobre o motivo do sumiço que a arrasta para fora dos limites interiores, numa viagem tomada em revide para o mais longe possível daquilo tudo (um país insular espertamente escolhido pela autora, cujo acesso a internet é caso de censura). Em território estrangeiro, a narradora interage com outro homem, porém Mauro, o seu Mau, é uma sombra constante, dado que, apesar da distância geográfica e da escolha de não ligar o computador, o mundo segue funcionando dentro de si, um mundo imantado pela carência. Não por menos, quando retorna, ela resolve agir de forma contundente, derrubando a barreira dos caracteres na tomada da tal decisão extrema com o uso de fotografias.

Sem precisar recorrer a centenas de páginas para dar profundidade e alcance ao enredo, Helena Terra demonstra habilidade e segurança ao ir fundo na análise da vulnerabilidade humana. O risco de dar voz a uma personagem definida por uma confusão de emoções, aferrada numa busca indomável pela completude em outro corpo, é anulado por uma prosa delicada e bem polida, que recorre a paralelos e metáforas sem derrapar na pieguice, encontrando, em capítulos curtos, a dinâmica perfeita para provocar no leitor o interesse pelo desdobramento até a última página. A escritora propõe o amor como uma reação incendiária dentro de uma cápsula que, ao entrar em contato com o exterior, não queima, sofre desnaturação ao alcançar intimidade. Se existe uma cumplicidade em seus atos, a narradora dessa história de (des)amor é cúmplice exclusivamente de si.

No passado visitado por Franzen, sua mãe questiona o grau de afeição do seu futuro esposo, dado que este nunca tinha assinado uma carta com ‘eu te amo’; fato contestado pelo filho-escritor diante de outros gestos do pai que igualmente exprimiram amor de uma forma particular. Antes e depois do advento da internet, quando alguém tenta conformar um outro a ser amado, paixão e ilusão se confundem.

 

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TONO – AQUÁRIO

 

A possibilidade de ressignificar estados da alma é uma das grandes benesses proporcionadas pela música. No caso da banda carioca Tono, isso parece ganhar um sentido ainda mais amplo. Basta observar a trajetória do grupo para perceber que os caminhos sempre estiveram voltados ao modo sublime de olhar e sentir as coisas da vida. Em Aquário, mais novo trabalho da banda, prova-se não somente do sabor dos temperos do tempo, que só fez bem aos músicos, mas principalmente da afirmação de um jeito muito particular e consistente de se fazer música.

A moçada da Tono chega a seu terceiro rebento sendo fiel a tudo o que fez até aqui.  Ressalte-se, sobretudo, a força autoral de letras e músicas, traço marcante deles. E tudo ali se harmoniza favoravelmente ao conjunto da obra. O que se vê nas onze faixas do disco é uma verdadeira profusão de melodias, arranjos cuidadosamente pensados e um preciso equilíbrio entre vocais e instrumentos. O saldo disso é que cada canção, além de possuir roupagem própria, funda em si um microuniverso de sensações. São mundos num mundo, fazendo do disco um organismo único, porém com onze momentos autônomos.

O jeito suave e delicado da voz de Ana Cláudia Lomelino é uma verdadeira marca da banda. E ela não está sozinha nesse quesito, pois a presença vocal do baterista Rafael Rocha, compositor de boa parte das canções, é outro ponto de destaque. Diga-se de passagem, os dois artistas já são fiéis representantes da proposta sensível e poética da trupe carioca. Só para se ter uma ideia da sintonia musical dessa dupla, prestemos atenção no modo como eles passeiam sublimes pelas vias delicadas da bela Sonho com Som, canção que discorre tanto sobre levezas quanto densidades do amor.

Pelos quatro cantos do disco, fala-se de amor e outros tantos temas que absorvem a natureza humana sem, no entanto, pesar a mão nas questões da alma, o que fatalmente poderia tornar mais labiríntica a tarefa da banda, com sérios riscos de algo essencial se perder no caminho. Para a felicidade de quem aprecia a boa música, os rumos aqui não se desorientam. Ao contrário, observa-se a vida sem deixar que a consciência das coisas se atole num fundo de poço qualquer.

Tono / Foto: divulgação

Por ser um álbum completo em todos os seus arredores, é bem ingrata a ideia de eleger faixas que se destacam em Aquário. Instantes como os de Murmúrios, Como vês, Leve e Do Futuro (Dom) dão uma boa mostra da viagem musical vislumbrada pelo grupo. Diluído pelo jogo sonoro das palavras em Tu Cá, Tu Lá, emerge um caminho feito de ímpetos filosóficos. Merece também atenção a roupagem especial dada à canção Chora Coração, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Aqui, a banda trouxe sua identidade para interpretar e viver a música do maestro soberano. Nesse sentido, a composição ganhou novo ambiente, mantendo a carga lírica que lhe é peculiar.

A flauta de Danilo Caymmi (Sonho com Som e Como Vês), a percussão de Gustavo Di Dalva (Leve e Do Futuro) e a voz e violão de Gilberto Gil (Da Bahia) acrescentam um ingrediente a mais no consistente caldo sonoro de Aquário. Marcado por elementos do rock, jazz, samba e música eletrônica, o álbum conta com a produção do experiente Arto Lindsay.

Pensar o disco é imaginar uma morada onde coabitam versos, sons e imagens dotados de uma estética pura e que prima por um sentido descomplicado para celebrar a existência.  Assim, pegando o gancho da canção A Cada Segundo, tudo pode se condensar num único e fugidio instante, inclusive nossa mais tímida percepção da beleza. Ana Cláudia, Rafael Rocha, Bruno Di Lullo, Bem Gil e Eduardo Manso são valiosos mensageiros dessa ainda espantosa constatação.

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Ela (Her). EUA. 2013.

 

“O passado é só uma história que nos contamos”.

 

No poema Não Deixe, o escritor Charles Bukowski adverte:

‘Não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
(…)
Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.
(…)
Qualquer coisa
comparada às pessoas,
é um alicerce melhor a se procurar.
Qualquer coisa’.

Influenciado ou não pelo conselho do velho safado, o homem tem procurado na tecnologia seu firmamento. São jogos, gadgets, aplicativos. Redes sociais que, ao clonar nossa melhor versão, expõem nossas maiores fragilidades. É da mente fecunda do cineasta Spike Jonze – responsável por obras como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002) – que surge um dos mais instigantes filmes sobre a era digital. Com estreia prevista nas salas brasileiras no próximo dia 14 de fevereiro, Ela analisa de maneira bastante peculiar a mecânica das relações humanas estabelecidas a partir dos avanços tecnológicos.

Em uma futurista Los Angeles retrô, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) é um introspectivo escritor que trabalha na agência “cartasescritasamao.com”, redigindo correspondências de pessoas com dificuldade em expressar seus sentimentos. Separado da esposa Catherine (Rooney Mara) há quase um ano, ele ainda se culpa pelo que possa ter minado a relação com seu amor de adolescência. Certo dia, movido por curiosidade e carência, Theodore adquire um revolucionário sistema operacional com inteligência artificial, cuja tecnologia permite que o software evolua e se adapte conforme sua interação com seres humanos. O OS1 apresenta-se como “uma consciência que promete ouvir, entender e conhecer” seu operador.

E assim nasce sua relação com Samantha (Scarlett Johansson), uma entidade intuitiva de voz suave, espirituosa e inteligente (quem mais conseguiria ler um livro ou compor uma canção em frações de segundos?) que se encanta com o mundo e faz com que o autor recupere seu entusiasmo pela vida. Tal encantamento transforma-se no mais legítimo afeto. Porém, estabelecer uma relação amorosa com “alguém” tecnicamente perfeito e ao mesmo tempo limitado pela ausência de um corpo físico, é de fato criar um vínculo real?

 

Theodore (Joaquin Phoenix) em seu contato inicial com o OS1

 

A delicadeza com que o diretor trata o assunto e a sintonia entre “o casal” é tão grande que em nenhum momento Theodore soa bizarro por apaixonar-se por uma máquina. Ao contrário, a impressão é que qualquer um poderia ser cativado pela voz (e é somente este seu recurso cênico) de Scarlett Johansson. Aliás, como diria a vizinha Amy (Amy Adams) em determinado ponto: “qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração”. Escrito e dirigido por Spike Jonze e vencedor do Globo de Ouro como Melhor Roteiro, Ela concorre ao Oscar 2014 em cinco categorias: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora (executada pela banda canadense Arcade Fire), Canção Original (The Moon Song, composta por Karen O, do Yeah Yeah Yeahs e interpretada pela própria Scarlett, acompanhada por Joaquin no ukulele) e Direção de Arte.

Apesar da atmosfera científico-ficcional e da crítica ao cativeiro tecnológico do qual o homem se faz refém, Ela foge do lugar-comum para contar uma história genuinamente de amor. O filme apresenta um romance em seu estado mais puro e com toda a complexidade que o sentimento compreende. Sensível até em sua paleta de cores, o longa alia de forma genial passado e futuro, confrontando uma das mais primitivas formas de comunicação – a carta – com o que há de mais avançado em um computador. Certamente Samantha seria a destinatária da mais bela carta de amor já publicada por Theodore. E quanto ao poema de Bukowski, um adendo: Não deixe… de assistir esta pequena obra-prima do século XXI.

 

 

 

 

Larissa Mendes também quer um OS1 para chamá-lo de Him.

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GAL COSTA – RECANTO

 

 

 

 

A voz atravessa uma alameda de aparatos eletrônicos. Insere-se no outro lado de um mundo imerso em tantas e tamanhas reflexões. O que está por trás de seu canto revela-se como uma intensa ciranda de perguntas. Mas poucas são as respostas quando sabemos que tudo acontece diante de nossos indomáveis olhares e percepções. Definitivamente, a modernidade é um vão onde alguns poucos se sentem à vontade para desfilar suas convicções. No entanto, Gal Costa, penetrando outras esferas do tempo e da canção, vem nos lembrar de alguma coisa que não sabemos bem onde se abriga. Seja numa porção obscura da memória ou no ato de flagrar o que explode em nossa realidade, o disco Recanto nos lembra que a vida é uma estrada teimosamente sinuosa.

Desde o início do álbum, somos impactados pela densa atmosfera duma abre-alas Recanto Escuro, restando prenunciado que tipo de percurso seremos levados a experimentar daí por diante. Como numa viagem carregada de signos múltiplos, o disco flui pelas vias hesitantes dos sentidos humanos. Um eixo filosófico cruza a obra de norte a sul. Talvez aqui um parêntese seja fundamental: considerar que as letras são todas compostas por um inquieto Caetano Veloso. E o ato de flertar permanentemente com os impulsos da modernidade parecem não apenas fazer parte das acepções do compositor baiano, mas também atraem Gal para um terreno pouco usual em sua carreira.

Esqueçamos, temporariamente, da Gal Costa acostumada a interpretar com os arremates puros da delicadeza para considerar que certas ousadias fazem bem a uma artista de trajetória inquestionável. E por que não dizer que Recanto é um disco ousado, forte e necessário?

Num tempo em que a globalização de nossas virtudes e misérias uniformiza até mesmo modos de pensar, o cenário pode ser um pouco menos desolador. Talvez, nesse aspecto, o disco de Gal chacoalhe ideias e pontos de vista buscando afirmar que, entre mortos e feridos, sempre restará algo por dizer. Munida com a armadura de sua magistral voz, ela cruza os áridos caminhos propostos pelo verbo de Caetano e confere um recorte insone à vida.

Não são poucas as canções que traduzem o espírito indócil presente no álbum. Faixas como Cara do Mundo, Autotune Autoerótico, Madre Deus e Segunda reverberam a constatação de que nosso tempo é um verdadeiro painel de imprecisões. Mas é em Tudo Dói que o todo se desnuda. Nela, um exercício de deslocamentos ganha corpo, demonstrando a unicidade dos momentos que ignoramos com certa frequência.

Não seria possível trilhar as vias da dita pós-modernidade sem cutucar a sociedade de consumo e suas clássicas distorções. É o que fica evidenciado em letras como Neguinho e Sexo e Dinheiro. Para ambas, Gal insinua sua verve afirmativa como quem pontua uma adequada crítica ao colossal modelo impregnado pelo capitalismo. Se nessas duas canções os ânimos estão mais ácidos, o contraponto vem da suavidade inserida em Mansidão, música que festeja o dom do cantar, sem dúvida alguma a ferramenta mais preciosa da artista. Noutro momento, ainda há espaço para o estreitar de laços entre o funk carioca e o maculelê, ritmos que se unem acertadamente em Miami Maculelê.

Recanto, sobretudo por sua proposta inovadora, não é uma obra fácil de se apreender numa primeira escuta. É necessário um mergulho mais aprofundado, algo que faça com que os ouvidos percebam as convergências e nuances entre texto, voz e arranjos. Diga-se de passagem, a atmosfera eletrônica é ponto de destaque no disco, evidenciando a alternância de sentimentos ali misturados. Mesmo saindo dessa viagem musical e poética constatando que “tudo dói”, ainda podemos ser atenuados pela singularidade das coisas que fingimos não ver.

 

 

 

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Frances Ha (Frances Ha). EUA. 2012.

 

 

‘Gosto de coisas que se parecem com erros’.
(Frances Ha)

“Ninguém passa incólume aos 27”. Seja você um astro do rock ou um reles anônimo, colecione sucessos ou fracassos, a verdade é que tal combinação numérica parece desencadear uma crise existencial em qualquer jovem-adulto. Com a cativante e atrapalhada Frances (Greta Gerwig) não seria diferente. Assistente de uma companhia de dança de Nova York, seu sonho é integrar a trupe no cargo de bailarina e atuar no aguardado espetáculo de Natal. Inocente, sonhadora e quase infantil – mesmo próxima a tornar-se uma balzaquiana –, a moça divide um apartamento no Brooklyn com Sophie (Mickey Sumner, filha do cantor Sting), por quem nutre uma amizade incondicional que, em determinado ponto, mostra-se praticamente unilateral, pois a amiga não pensa duas vezes antes de abandoná-la por uma morada em melhor localização. A partir disso, observamos (e nos identificamos) com as agruras da personagem em busca de realização pessoal e profissional. Além, claro, de um novo lar.

Dirigido por Noah Baumbach, que assina também o roteiro em parceria com a própria Greta, e filmado em preto e branco, Frances Ha possui certo ar nostálgico e quase atemporal: presta uma bela homenagem à nouvelle vague (sobretudo na lacônica passagem da protagonista por Paris), remete ao emblemático Manhattan (1979), de Woody Allen (Frances herda o estilo neurótico do nova-iorquino) e possui certa aura loser de O Balconista (1994), outro clássico P&B, de Kevin Smith. Comparado à série Girls (ao menos o ator Adam Drive está presente em ambas as produções), talvez a originalidade desta comédia dramática resida justamente em sua simplicidade e no inquestionável carisma de Frances, uma espécie de Amélie Poulain monocromática.

 

Frances (Greta Gerwig) em performance pelas ruas de NY / Foto: Divulgação

 

Mesmo sem decretar julgamentos, Frances Ha traça um perfil bem-humorado e sincero dos confusos jovens do século XXI, estes adolescentes tardios, equilibristas entre tantos anseios e poucos resultados. Leve, mas nem por isso menos complexo, a narrativa verborrágica jamais chega a soar filosófica ou fatalista: ao contrário, a personagem é só mais um ser “bagunçado” e “inamorável” tentando administrar suas frustrações cotidianas. Impossível não se emocionar, por exemplo, com a descrição de Frances do que seria “a sua pessoa nesta vida”, uma das únicas passagens “românticas” do filme. Outro ponto de destaque é a animada trilha sonora, com David Bowie (ela dança ao som de Modern Love pelas ruas de NY), Paul McCartney e o oportuno hino Every 1’s a Winner, do Hot Chocolate.

O longa (nem tão longo assim, pouco mais de 80 minutos de exibição) retrata as relações e rupturas que se estabelecem na vida dos imaturos kidults. Inspirado na própria experiência de Greta Gerwig e na vida de seus amigos artistas que vivem na Big Apple (a atriz contracena inclusive com sua família real na sequência da cidade natal, Sacramento), Frances Ha (aliás, o significado de Ha é elucidado nos minutos finais) tem a verdade e o improviso que a vida coreografa. Apesar da atmosfera cult, não se trata de um enredo hermético ou experimental: é a história de altos e baixos de qualquer ser humano errante e passional. O erro aqui é perder este pequeno clássico moderno.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é uma Frances Ha tupiniquim, sem Sophie e sem o lance da dança)

 

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Do sonho ao pó… ou breves considerações sobre o livro  O Chão e a Nuvem de Heitor Brasileiro Filho

Por Silvério Duque

 

 

 

 

ao poeta e amigo Antônio Brasileiro,
pois tudo que, aqui, se aplicar ao brasileiro de Jacobina-Ilhéus,
aplicar-se-á, muito melhor, ao brasileiro de Feira de Santana…
Esquecida no tempo, a alma procura
algo que, já não é, porque era tanto…
Emílio Moura

 

Fui presenteado, por seu próprio autor, com o livro O chão e a nuvem (Mondrongo, 2013), de Heitor Brasileiro Filho, e, sem perder tempo com a tamanha falta de tempo que muito me desagrada ultimamente, li-o de pronto e com muito apetite. E posso confessar que, com o manjar poético que Heitor Brasileiro Filho preparou para mim, bem como aos seus outros leitores, dei-me muito por satisfeito.

Poeta de alma e coração de ouro – por ter nascido na cidade baiana de Jacobina – e de verso e prosa atrelados a uma consciência tão lírica quanto rebelde – pois é escritor radicado em Ilhéus –, Heitor Brasileiro Filho revela-se um poeta de temas e formas tão engenhosos quão bem realizados, por mais que lhes faltem, muitas vezes, as técnicas clássicas que formaram nossa consciência literária ao longo de séculos e lhe sobrem aquele impulso de liberdade e, muitas vezes, de libertinagem, que nos é inerente desde a aurora do século passado. Dizer mais o quê, então…?!

Vejamos… À primeira impressão, o livro (com uma primorosa edição, diga-se, bem típica à qualidade que a Editora Mondrongo tanto gosta de prezar e presentear aos seus consumidores) não poderia me parecer melhor, porque os elementos estruturais da poesia de Heitor Brasileiro Filho revelam-se frutos de uma consciência artística muito vigorosa, sem que, em algum momento, venham perder-se de uma identificação realista tanto com a vida, em suas mais diversas impressões, quanto com a natureza, em seus mais diferentes sentidos, mostrando pouquíssimos traços com as influências românticas e modernas das quais a expressão poética brasileira, em sua atualidade, ainda se fia e se confia. Não que Heitor Brasileiro Filho não as possua; só não se dá ao luxo idiossincrático de revelá-las, sem nenhum pudor, a um público tanto preparado, bem como àquele pouco afeito a discussões poético-formais de quaisquer tipos, como é o caso deste que vos fala… – Oh, meu Deus!

Também, não é preciso, todavia, um diploma universitário de qualquer tipo para perceber que, em sua poesia, Heitor Brasileiro não é um homem de comportamento fechado – defeito terrível de muitos pequenos e grandes bardos –, digo: de se apresentar (enquanto poeta que é) fechado ao mundo. Como queria um T.S. Eliot, o autor de O chão e a nuvem não foge “ao desenho de autorretratos nem de confissões pessoais”, sem que sua veia poética se perca por causa disso. Tudo que se lê, em O chão e a nuvem, é de uma autonomia muito sagaz, e digo até sem vergonha, pois se lá existem temas fortes à pessoa de Heitor Brasileiro Filho, os mesmos poderiam ter um alto preço ao poeta.

Uma coisa é certa, este versificador de formas livres e, às vezes, até descuidadas, sabe (como poucos) captar a essência espiritual de pessoas de modos e vidas simples, somadas, evidentemente, aos modos e, quem sabe, à vida simples dele próprio. Seus versos, diga-se não só de passagem, têm uma espécie de engenharia que muito contribuem para isso. E, se não bastasse, aglomeram um imenso cabedal de sons, imagens e efeitos sinestésicos tão dissonantes, muitas vezes, que só poderiam terminar numa mistura tão inusitada quão intensamente reveladora. É o caso de versos como os contidos em Soluços Sísmicos:

Farto é o fogo
dos vulcões
julgados extintos

soluço sísmico
na contração do parto

pende um quadro
trêmulo
na parede do útero

Sem a distorção
da moldura
arde uma tela
de Cícero Matos:

deserto
a ser florido
rio morto
a ser aguado

Jacobina
não é apenas um retrato
na parede
um berço
a ser embalado.

 

os do intricado e revelador O grande espetáculo da terra:

 

Hoje não vou à Broadway –
pois não é que nunca vou à Broadway –
que importa fogo ou neve em New York?
Vou ficar para o grande espetáculo da terra

como o circo de Maru
com a rumbeira Margareth
e os clowns Chega-Chega e Batatinha
no ritmo inebriante de Tijuana Taxi

meu Deus, que fim levou a rumbeira Margareth
delírio da criançada de perdida infância
casou-se e foi para Feira de Santana

véus – muitos véus – iam-se dissolvendo um a um
agora grinaldas, o buquê, girândolas de pétalas
uma tiara de corações partidos
e aquela calda toda
……………………………..de branco

imagino-a sob o altar da Catedral
da sagrada Nossa Senhora de Sant’Anna
ao eterno som de Tijuana Taxi

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

(apoteose dos grotões de minha terra:
na aurífera
na agrícola
nessa imensidão distante e tão próxima
como a antiga cidade de Jacobina

sem o arpejo, o canto, o desespero de Bob Silva
sem o auto-faltante da Rádio Nacional
nem a doce viola de Paulo da China
numa esquina perdida da Rua Ana Nery
mas cristalizada numa antiga cantiga)

Há um momento em que os malabares
…………………………………..eternizam-se no ar

e o trapezista projetava-se
para o alto e precipitava-se
sobre um assoalho de taipás
para o delírio da meninada
………………………sem infância
sem rede
sem coração

e lá estava o homem-borracha
estatelado em linha reta
– e a linha tênue –
Na linha oblíqua do chão

“Pã! Parampampã-pã-pã-pã!”

Têm-se infância e memória?
A quem importa a ruína do Empire State?
Que importa a estrutura vítrea do Louvre
o burburinho do Quartier Latin
as ruínas gregas e as pirâmides no Cairo
o Coliseu e o túmulo de Tutacamon?

Meu Deus, o que importa
a privada de ouro de um sultão em Omã
se o levante do Oriente
é o que há de mais moderno?

Que importa aquele edifício em Dubai
ante o singelo pedido da natureza –
subcutânea tatuagem e a fina estampa da pele?

Deem-nos infância e memória
e ficaremos para o grande espetáculo da terra.

 

ou mesmo nos versos, como dirá Jorge de Sousa Araújo, de “solução simples e grande gozo estético”, contidos em Lirium:

 

quem
bem me
quer
não me
despe
……ta
……la

 

Mas cuidado, confissões de poetas não têm valor algum para a obra de arte se não forem compostas como obras de arte. E versos como os contidos em Soluços Sísmicos e O grande espetáculo da terra, bem como a todos pertencentes em O chão e a nuvem são bem mais que meras confissões de um menino ainda presente num homem adulto – tema, aliás, caríssimo ao velho Manuel Bandeira – mas que não se encaixa muito bem à obra de nosso jacobino-ilheense que, acima de tudo, quer se vestir de muita maturidade em tudo que faz e escreve. É preciso, antes de qualquer interpretação ligeira, ler tais poemas como uma grande crítica à política, ao mundo, ao cotidiano, à hipocrisia dos homens e outras tantas temáticas ali presentes e tão prontamente reveladas por uma poesia muito fácil de compreender; contanto que não se entenda “fácil”, aqui, como sinônimo de coisa pouca ou sem grandes significados, pelo contrário: um bom poeta, formal ou não, erudito ou afeito às cantigas populares, tem de saber dialogar com o público que carrega sua poesia e a quem ela pertencerá quando este se for deste mundo para se misturar ao húmus dos monturos e coisa e tal.

É impressionante a capacidade que Heitor Brasileiro Filho tem em criar uma espécie de background emocional em seus poemas, fazendo com que a força dos elementos significantes de seus versos pouco precise dever aos elementos de sua estrutura sonora ou rítmica, ao tempo que tudo isso nasce de uma disposição muito engenhosa, como já disse. Assim sendo, Heitor Brasileiro Filho pode muito bem se sentir à vontade para reivindicar temas tão pessoais e que lhe trazem conflitos tão arrebatadores, pois, ao se reportar novamente à infância, e com ela, por exemplo, a um circo de onde a alegria e a ingenuidade de menino dão lugar aos primeiros delírios eróticos de rapaz – como se pode facilmente perceber em O grande espetáculo da terra –, fica fácil, ao leitor, mergulhar no turbilhão composto tanto de alegrias bem como de profunda angústia; de esperança e tristeza; fantasia e realidade… e tudo o mais que se pode extrair mesmo de uma leitura menos cuidada de versos como os de Heitor Brasileiro Filho e que, em certos momentos, nos parece ser tudo que ele possui de real e de valor. Eis a força da sinceridade de sua lírica e da maneira apaixonada com a qual o poeta entrega-a ao seu público.

A facilidade em captar diferentes planos para um mesmo tema ou efeito imagético, independentemente de se tratar de um tema autobiográfico ou uma evidente intertextualidade, é, quem sabe, a parte mais bem elaborada de O grande espetáculo da terra e um caractere muito revelador em tudo que diz respeito ao seu livro, O chão e a nuvem. Com isso, Heitor Brasileiro Filho consegue poemas ao mesmo tempo tão belos quanto elaborados dentro da melhor técnica artística possível e compreensível, ou como dirá o professor Jorge de Souza Araújo, na apresentação deste mesmo livro: “um poeta que se chama Heitor – evocando acordes de um Villa Lobos – e é brasileiro no sobrenome e na natividade de ações afirmativas, tem, neste O chão e a nuvem, um agudo repertório de espantos, uma frequência de ironias, uns remates de mímeses, coincidências fabulares, diálogos e interlocuções com outros comparsas (a exemplo de Ferreira Gullar) a que não podemos deixar de apreciar e refletir”. Em suma: a poesia de Heitor Brasileiro Filho se quer uma poesia plena em sua essência, ou seja, quer nascer e se firmar através da documentação dramática que só a perplexidade aliada a uma carga lírica, tão técnica quanto emotiva, pode nos trazer.

Se há algo de realmente muito agradável na poesia de Heitor Brasileiro, mais até que a sua evidente capacidade poética, é a sua total incapacidade para o “mascaramento”, tão comum tanto ao poeta moderno quanto ao contemporâneo. Por isso mesmo, é mais que evidente que um poeta que escreve um livro como O chão e a nuvem se sinta tão livre para eleger temas como os que nele se encontram; capazes mesmos de fazer com que uma linguagem que não se pretende mais do que simplória adquira conteúdos às vezes tão mágicos e cujas metáforas possam abrir mãos de suas relações analógicas criando imagens tão dissonantes e símbolos tão dissolventes que, aliados a temas tão pessoais, e, não raramente, caros ao seu autor, capazes de trazer à superfície dos versos uma pesada carga de emoções – nem sempre agradáveis – possam criar poemas como esses: frutos de sonhos e de pó.


(Silvério Duque é poeta, professor, formado em Letras pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), e músico. É autor de “A pele de Esaú” (Via Litterarum, 2010), “Ciranda de Sombras” (É Realizações, 2011), “Do coração dos malditos” (Mondrongo, 2013). Seu próximo livro, “A moldura vazia”, está no prelo)