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84ª Leva - 10/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

JENECI – DE GRAÇA

 

 

“De Graça é um espelho.
De um lado ele reflete você, de outro, o universo.
Que é como a gente, sem fim.
O De Graça aconteceu.
Como o sol, que não é meu, nem seu.
É nosso”.
(Marcelo Jeneci)

O melhor da vida é de graça. Sob essa tônica de ‘celebração 0800’ o multiinstrumentista Marcelo Jeneci acaba de lançar o sempre mítico segundo trabalho na carreira de um artista. E o herdeiro do bem sucedido Feito Pra Acabar (2010) apresenta-se como um álbum tropical, dinâmico e autobiográfico. Na contramão do hermetismo dos lançamentos nacionais de compositores da nova geração, como Rodrigo Amarante e seu Cavalo (aliás, se depender do visual atual, Jeneci seria facilmente confundido com um barbudo dos Hermanos), a verdade é que o paulistano nunca temeu parecer popular. E é assim que ele soa: leve e pop (jamais simplista) em pelo menos metade das 13 faixas inéditas que compõem De Graça (2013). Nas canções restantes, Jeneci mantém certa aura épica-intimista-melódica consagrada em seu disco de estreia, porém sem perder o tom esperançoso que envolve todo o repertório.

Curioso é o fato de o álbum manter esse astral mesmo sendo concebido após o fim de seu casamento. Por vezes, a temática e a própria sonoridade expõem certo sentimento de ruptura, mas tudo sem dramas ou pesares. É como se Jeneci tivesse profetizado que amores têm prazo de validade pré-determinado (a gente não é feito pra acabar?), mas colocasse em prática toda a filosofia de auto-ajuda de Felicidade, carro-chefe de seu primeiro disco. Assessorado por velhos (Arnaldo Antunes e Kassin, que produziu Feito Pra Acabar e dessa vez assina a produção junto com Adriano Cintra) e novos parceiros (Eumir Deodato e Isabel Lenza, atual namorada, com quem divide as composições em 6 faixas), De Graça foi contemplado pelo Programa Natura Musical e está disponível em streaming no site do artista. Já o álbum físico será lançado em novembro pelo selo Slap (Som Livre).

 

Marcelo Jeneci / Foto: Divulgação

 

A deliciosa e radiofônica Alento e seus versos de consolo (se alguém se for, não tente entender/o que se passou segue com você) abrem o álbum apontando o lado bom de todo revés e avisa que ‘tudo se desestrutura pra você se estruturar’. Espécie de baião eletrônico, De Graça, primeiro single e canção que dá título ao trabalho, mantém o ritmo frenético e indaga: ‘sentir o sol te acordar, bem de manhã, quem acha pra comprar?/viver na pele um grande amor e o seu calor, quem acha pra vender?’. Ironicamente, Temporal fecha o primeiro bloco de canções mais ensolaradas, não sem antes anunciar seu arco-íris otimista (o que tem começo, tem meio e fim/deixa passar o dia ruim/que a tempestade resolve com Deus).

Nas melódicas Tudo Bem, Tanto Faz (letra de Arnaldo Antunes) e Pra Gente Desprender, quem assume completamente os vocais é a doce Laura Lavieri, cantora que já acompanha Jeneci desde o primeiro álbum. O cantor reassume os microfones no pop-rock de Nada a Ver, que fala de um amor que já não se pode disfarçar, e de Sorriso Madeira, onde afirma estar em extinção e propõe plantar no quintal ‘um pé de nós dois’. A psicodelia de A Vida é Bélica (tire a distância entre você e eu/sejamos um/sejamos Deus) lembra Os Mutantes, enquanto a despretensiosa Julieta (você não sabe ler/uma carta de amor/muito menos contar/quantas silabas têm/uma desilusão), balada sessentista, poderia tocar no bailinho pré-trocadilho de Genival Lacerda.

Os versos de O Melhor da Vida reiteram a intensidade de nossa existência (sinto que o melhor da vida sempre vem de graça/sinto que o melhor momento é aquele que não quer passar/e que dura toda a eternidade/e isso é só pra começar). A majestosa Um De Nós (um de nós/vai sentir a falta/de um de nós) fala do caráter insubstituível de um grande amor e têm os mais belos arranjos do pianista Eumir Deodato, que assina também a orquestração de outras quatro canções. Composta para a trilha de Vila Sésamo, a graciosa Só Eu Sou Eu (tem muita gente tão bonita nessa terra/nas minhas contas são 7 bilhões/mais eu) é praticamente uma cantiga de roda com direito a burburinhos e gargalhadas infantis. O lirismo e a introspecção ficam a cargo de 9 Luas, faixa soturna que encerra o registro e remete a um comportado Ney Matogrosso.

Nestes três anos que separam primeiro e segundo álbum, definitivamente Marcelo Jeneci amadureceu (e emagreceu). A feição de bom moço agora dá lugar a certo ar de mistério e de um charme desleixado. A temática sentimental/existencial está presente nos dois registros de estúdio e, de forma discreta ou não, a sanfona continua assumindo sua importância. No entanto, agora, a sonoridade jeneciana assume um novo groove e suas composições estão ainda mais seguras. Se Feito Pra Acabar era considerado brega, De Graça virou indie e está um barato. E ache graça quem quiser achar.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é sua graça. E, escrevendo, tenta levar a vida em estado de)

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Catarse e lirismo na poesia de Rita Moutinho

Por Hilton Valeriano

 

“Que as pétalas subjuguem
os dolorosos espinhos!”
Rita Moutinho

 

Confrontar-se com situações limites, com obstáculos interiores contínuos às ações corriqueiras do cotidiano, defrontar-se com a busca de superação da ausência de sentido, existir sob a tensão do viver! Esse quadro característico de estados de depressão reflete a poesia lírica presente no livro “Psicolirismo da Terapia Cotidiana” (Ateliê Editorial), da poeta Rita Moutinho. Uma poesia marcada pela permanente tensão entre o “Eu” e um mundo interior fragmentado, instável, fugidio: “Frente a mim,/no meu presente,/não me desvendo/e assim permito/arroubos de pensamento/e justifico, que lá dentro,/há de estar o que não penso.” Lirismo dramático expresso em versos que mostram a crise da exacerbação do “Eu”, marcas de um Século Pós-moderno e que ainda se estabelece sobre a herança do Iluminismo, do Secularismo e do esvaziamento do referencial transcendente, ou seja, do sentido metafísico, portanto um “Eu” labiríntico: “Deve haver um lento tatear-me,/pois em mim não há outra coisa que não eu/a me querer nascer.

Uma das características da poesia de “hoje” tem sido o experimentalismo, muitas vezes questionável, que transita entre o minimalismo, releituras do Concretismo e da poesia de João Cabral de Melo Neto, uma poesia que tem como objeto estético a própria linguagem, não obstante sua dimensão semântica “impenetrável”. A poesia de Rita Moutinho se apresenta em polo oposto. Seus versos são líricos e a linguagem apresenta-se como instrumento estético e não objeto estético. A temática subjetiva de sua poesia e a tensão de seu lirismo a aproxima de poetas como Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca, poetas do drama do “Eu”:

Aonde irei neste sem-fim perdido,/Neste mar oco de certezas mortas?/Fingidas, afinal, todas as portas/Que no dique julguei ter construído...” (Mário de Sá-Carneiro – Ângulo).

Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,/É um brasido enorme a crepitar!/Ânsia de procurar sem encontrar/A chama onde queimar uma incerteza!” (Florbela Espanca – O meu impossível).

Inspiro e sou a musa avessa/explorando avidamente/aquilo que não aflorou:/certeza” (Rita Moutinho).

Mas, ao contrário dos poetas suicidas, Rita Moutinho faz de seus versos uma verdadeira catarse, no sentido aristotélico do termo, ou seja, purificação de suas vivências. Podemos dizer que a poeta faz da linguagem uma autoanálise de seu drama interior, itinerário catártico do “eu”:

Iluminar o lado escuro/da penumbra/e se fazer radar/até que me descubra”.

Os poemas acalmam ou são proféticos,/lavam ou surpreendem a alma quando criados./Ei-los, a um tempo, deuses e miméticos.”

Eu lavo as veias com água e após transfiro/o sangue da ansiedade às palavras (…)”

O itinerário existencial presente nos versos de Rita Moutinho mostra-se titânico em sua recusa a uma referência semântica transcendental – “E eu, lírico clown, cato – com os demônios! -,/os piolhos que infestam meus neurônios!” – característica de um Século Pós-moderno como já assinalamos. Assim, a poeta apresenta-se como uma anti-heroína mesmo tendo a linguagem poética como uma estética catártica dos mares tempestuosos de sua subjetividade: “Os versos são fragmentos de epopeia/falsa, pois falsa heroína é a poeta,/falsa, fraca, falida, mas não cética:/crê que a maré se abaixa, mas não seca”.

Uma poesia para se ler. Uma poesia para pensar.

 

(Hilton Deives Valeriano é filósofo, formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Unicamp. Editor do blog Poesia Diversa. Autor de poemas, epigramas e aforismos. Livro no prelo: “Nas mínimas coisas – aforismos”)

 

 

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84ª Leva - 10/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Fabrício Brandão

 

A Música segundo Tom Jobim. Brasil. 2012.

 

 

Uma câmera acelera seus percursos e varre a secular capital do Rio de Janeiro. Como num álbum de memórias, coleciona retratos de um tempo-berço, pano de fundo de um ambiente regado a contemplações e uma boa dose de romantismo. Quem pensa que com ela se inicia mais uma viagem do tipo cartão-postal da cidade maravilhosa, não imagina que está prestes a acontecer um caminhar fora do comum por sobre a trajetória de alguém.

Ao vislumbrarmos de pronto o nome de batismo do filme, A Música segundo Tom Jobim não nos deixaria pista alguma a respeito de como a narrativa do maestro soberano poderia ser contada num modus operandi cinematográfico. Muito pelo contrário: é preciso deixar que a sucessão dos instantes iniciais da obra se instale e reste bem clara a sua forma diferenciada de abordagem. Nela, o conceito padrão do gênero documentário é magnificamente substituído pelo que de mais especial a trajetória de um artista pode conter – a viva exposição de seu trabalho.

A partir do momento em que Gal Costa surge interpretando Se todos fossem iguais a você, no show “Tributo a Tom Jobim”, de 1993, abrem-se as portas de um delicado e emocionante trajeto pela obra do compositor. Tal como o título desta canção anuncia, a primeira sensação é a de que o legado do artista paira como um modelo de se creditar à existência um exercício constante de perceber a beleza das coisas que nos cercam. Depois desse começo clímax, um sem número de cantores e músicos do mais alto quilate revezam-se em recortes precisos sobre o ato de celebrar a carreira de Tom Jobim.

Dirigido por ninguém menos que Nelson Pereira dos Santos e também por Dora Jobim, o documentário deixa de lado a forma tradicional de se narrar a vida e obra de alguém. Não há depoimentos, entrevistas, narrações em off. Sequer há fala alguma. Predomina um acervo fotográfico e audiovisual meticulosamente selecionado para dimensionar a importância do compositor na formação musical brasileira. Tudo flui única e exclusivamente pelas ricas alamedas sonoras que a música em si é capaz de proporcionar. Diga-se de passagem, o próprio conteúdo de certas composições de Tom Jobim norteia a sucessão do tempo, especialmente pelo modo como cada intérprete mergulha no universo jobiniano.

Tom Jobim / Foto: Divulgação

Em meio à sequência de momentos marcantes da carreira de Tom, colecionando tanto aspectos íntimos quanto profissionais, um vasto painel de lembranças surge vigoroso. São passagens antológicas, tais como a sua estreia no palco do Carnegie Hall (famosa casa de shows de Nova Iorque), a parceria com o poetinha Vinícius de Moraes, os duetos com Frank Sinatra e o momento em que a composição Sabiá, feita juntamente com Chico Buarque, veio à tona num dos festivais da canção, e cujo registro imagético traz as vozes de Cynara e Cybele, integrantes do Quarteto em Cy. No que se refere aos apelos jazzísticos que sempre rondaram a figura do maestro, o filme mostra desde a magistral voz de Ella Fitzgerald, em Desafinado, como também assinala a presença de nomes como Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Errol Garner e Oscar Peterson.

Ao mesmo tempo em que se traduz como um verdadeiro registro sonoro, o documentário possui um valor histórico inquestionável, pois a própria caminhada de Tom se confunde com passagens importantes da nossa música, sobretudo pelos movimentos que agregaram emblemáticas expressões, como é o caso da Bossa Nova. Um dos pontos do filme que reforçam essa ideia é a cena de “Um Desconhecido Bate à porta”, de 1958, na qual Elizeth Cardoso aparece cantando Eu não existo sem você, ao som do violão de um ainda jovem João Gilberto. E o que dizer também de Agostinho dos Santos interpretando A Felicidade ou Silvia Telles vivendo, à flor da pele, a canção Samba de uma nota só? Como esquecer Elis e Tom no dueto antológico em torno de Águas de março?

A Música segundo Tom Jobim é capaz de repercutir um intenso efeito de encantamento pela falta de interferências narrativas tradicionais. Isso faz com que cada espectador encaixe seu próprio roteiro, demarcando na trajetória do artista aquilo que implica em começo, meio e fim, se é que é possível se falar na figura de um instante derradeiro. Abolida toda e qualquer noção de linearidade, certamente o maior sentido aqui é o de confirmar a imaterialidade da música, dando vazão ao que mais importa: penetrar numa camada onde apenas as sensações fazem morada. Não há espaço para reflexões complexas e tampouco se almeja um grande feito cinematográfico. Como diria o próprio Tom, a linguagem musical basta.


 

 

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Ressaibo de uma geração de chuteiras douradas

Por Sérgio Tavares

 

 

 

Subindo o primeiro lance da escada com degraus de mármore rajado, é possível divisar a imagem do bebê com um boné de pano sobre a cara larga, um menino bem fornido para os primeiros meses. Esse bebê sou eu. A imagem é um desenho feito a lápis numa folha de papel manteiga, acomodada sob uma lâmina de vidro retangular que se fixa no alto da parede revestida por folhas de lambri pardacento por conta de uma moldura resistente. É ela que recepciona aqueles que avançam para o segundo andar da casa dos meus pais. O autor é o meu padrinho, irmão da minha mãe, que, embora fosse um mero entusiasta, reproduziu com impressionante talento os traços da minha fisionomia, os olhos vagos de criança amamentada.

Durante muitos anos, esse quadro permaneceu no quarto dos meus avós, localizado no primeiro andar da casa. Depois que eles faleceram num espaço de tempo comum daqueles que convivem uma vida inteira e se apressam para se reencontrar, minha mãe o cambiou para o living no segundo andar. Recordo-me, salvo engano, de ter escutado que foi a minha avó quem encomendou o desenho ao meu padrinho. Contudo não me custa acreditar que a muito gosto do meu pai. Na imagem, o bebê está vestindo uma camisa do Botafogo. Por alguns anos, meu pai paparicou a ideia de ter um filho botafoguense, que cresceria compartilhando da mesma paixão que enroupa seu coração de alvinegro. A questão é que meus pais sempre foram pessoas trabalhadoras, de modo que fui criado por meus avós. Meu avô, clandestinamente, convenceu-me tricolor. Sou Fluminense, torço pelo time tantas vezes campeão. O quadro, portanto, passou a ser uma espécie de totem para o meu pai, um símbolo sagrado de um afeto que não se perpetuou.

Eu nasci em 1978, poucos meses antes da Copa em que a seleção Argentina eliminou o Brasil por conta do saldo de gols, naquele jogo suspeito em que Passarella & Cia derrotaram o Peru por 6×0. Obviamente (e fortuitamente) não me ocorre nada daquele mundial. Quatro anos depois, por outro lado, havia uma onda de entusiasmo que eletrizava o ar. Tenho a imagem difusa e um tanto granulada da minha família (como de hábito) em festa. Elepês de samba, cerveja, fogos de artifício e gente fantasiada, eu fantasiado. Mas o que trago de mais caro daquele ano de 1982 está novamente relacionado à habilidade artística do meu padrinho. Lembro-me de um varal de bandeirolas enfeitando a fachada feia da primeira casa em que moramos. Cada retângulo trazia a caricatura de um dos integrantes do escrete canarinho. Falcão, Sócrates, Zico, todos estavam lá retratados de maneira ímpar. Por isso tanto me marcou presenciar, mais tarde, os desenhos sendo rasgados como um tipo de mau agouro. Algo próprio daquela casa insalubre, com piso de tacos soltos e teto conformado por telhas de cerâmica espessas que, anos depois, desabou, por circunstâncias estranhas não matando a todos nós.

Hoje eu tenho 35 anos e essas recordações exumadas do manto transicional da minha memória me revisitaram terminada a leitura da preciosa antologia 82 – Uma Copa/Quinze histórias, editada pela baiana Casarão do Verbo. O volume, organizado por Mayrant Gallo, com assistência de Tom Correia e Lima Trindade, reúne interpretações, confissões e pontos de vista imantados pelo dia cinco de julho de 1982, em que a seleção brasileira de futebol foi eliminada do Mundial na Espanha, por um desacreditado time italiano. Aliás, pelo franzino Paolo Rossi que decretou o placar de 3×2, batendo um time glamorizado, onze jogadores no auge de suas carreiras, um Davi toscano que, com uma funda de couro, derrubou um gigante de chuteiras douradas chamado Brasil. O desencanto, o travo provocado pela derrota, é o eixo que conduz as quinze histórias, embora nem sempre o luto é o verniz que define o tom das narrativas. Conforme um bom escrete, o livro conta com diversas qualidades, soluções para o riso, o choro, o grito retumbante de gol.

Incomum em antologias, aqui há uma relação harmônica entre os contos. Fazendo uso do exercício de reminiscências, do humor ferino, do nonsense, da crônica jornalística ou mesmo tomando emprestado a estrutura da narração esportiva, os autores encontram versões interessantes para o tema, sem forçar contextualizações ou torná-lo um intruso no fluxo narrativo. A Copa e/ou especificamente a partida contra a Itália tampouco figuram como intransmutável elemento central. Do olhar pueril que alguns escritores resgatam da infância a personagens cativantes, ao exemplo do taxista verborrágico e do sujeito que incorpora nacionalidades, o recorte trágico do tempo ora ganha a textura de pano de fundo, ora é apenas sugerido, dando espaço para inspirados enredos que se substanciam, sobretudo, no arranjo familiar e na infiltração do cotidiano pelo extraordinário da circunstância. A lamentar apenas a ausência de escritoras, ainda que entenda (caso seja um argumento plausível) que estávamos bem distantes da Geração Marta naqueles anos.

Se no espaço narrativo a antologia se sai bem, o mérito se estende a dois golaços, digamos, fora das quatro margens. O primeiro é a escalação de Tostão, meio-campo campeão do Mundial de 70 e hoje craque da prosa, que assina a orelha. O outro é a escolha da capa, a histórica imagem do menino com a camisa do Brasil chorando no Estádio de Sarriá, onde ocorreu a fatídica partida. A fotografia de Reginaldo Manente, reproduzida na capa do Jornal da Tarde no dia seguinte, foi laureada com o Prêmio Esso justamente por capturar, no semblante compungido do hoje advogado José Carlos Villela Jr., a fratura do lúdico, do deslumbramento que provocava a seleção ao embarcar do Brasil rumo ao sonho do tetracampeonato. Como aquele menino (e aproximadamente com a idade daquele menino), quatro anos depois, nas quartas de finais da Copa de 86, era eu quem chorava atracado à grade da janela da casa de um tio, segundos depois que, na dramática disputa por pênaltis contra a França, Fernandez venceu o goleiro Carlos, enfiando a bola no canto esquerdo.

Post scriptum: Quinze anos após meu nascimento, meus pais tiveram o segundo filho e, para esse, meu pai não deu brecha e o tornou botafoguense. Hoje, ele tem com quem compartilhar a paixão alvinegra, embora, mesmo torcendo pelo tricolor das Laranjeiras, eu guarde simpatia pelo clube da estrela solitária. Inclusive uma das minhas caras lembranças relacionadas ao futebol vem da conquista do campeonato brasileiro pelo Botafogo, em 1995. Mas essa já é outra história, que fica para uma futura ocasião.

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente)

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

RODRIGO BEZERRA – TEMPO ILUSÃO

 

 

 

Cultivar os arremates do tempo como se eles fossem fiéis companhias. Se cada instante encerra uma surpresa, o que seria de nós sem o sabor de certas revelações trazidas com o vento que circula entre nossos devaneios? Há um sentido avarandado na porção serena da vida. Isso traz calma, cor e luz para o sopro que alimenta nosso caminhar de mortais.

Como materializar um pouco toda esta sensação? Talvez abrindo as escutas para o disco de Rodrigo Bezerra. Apegando-nos de imediato ao nome de batismo do álbum, ficamos imaginando qual signo melhor acolhe o teor cronológico da existência. E não se está a falar aqui duma mera feição concreta das coisas, algo que busque elementos sequenciais de uma trajetória de vida qualquer. Pelo contrário, a ideia de Tempo Ilusão sugere uma perspectiva a mais imaterial possível, sobretudo pelo fato de o que presenciamos no fluxo cotidiano poder ser tão fugaz quanto uma lembrança perdida.

Deixando de lado as divagações, o ponto é que o ambiente sonoro criado por Rodrigo não deixa dúvidas quanto ao caráter sublime de suas canções. Para perceber isso, basta se deixar levar pela letra e música de Mais é menos, cujo jogo de oposições dos sentimentos acaba por flertar com o equilíbrio entre certas tensões que suportamos. Ao ouvirmos Circular, fica a impressão de que o dinamismo que conduz a existência torna tudo passível de renovação. Mesmo se insistirmos em revisitar começos, ainda assim somos impelidos a avançar rumo ao desconhecido e vislumbramos nisso algum sentido de libertação.

Na canção Esperar, reforçamos o ato impreciso de sempre aguardarmos que o intangível afague nossos ombros e retire a sobrecarga deles. Para quando o tempo com seus ardis nos oferte respostas, estaremos sempre a apostar que tudo se explica de algum modo. Se a jornada parece angustiante, o cenário pueril de A criança vem nos sussurrar que a liberdade é um recurso para quem não se deixa levar por questionamentos excessivos e inúteis.

 

Rodrigo Bezerra / Foto: Diego Bressani

 

Tempo Ilusão é um disco que enaltece a formação musical de Rodrigo Bezerra, principalmente no que se refere aos arranjos regados a violão e guitarra, instrumentos bem íntimos do artista. Além disso, a conjugação de outros aparatos como bateria, saxofone, trompete, flauta e flugenhorn traz uma pegada jazzística bastante interessante. Aliada à concepção do jazz, a brasilidade do álbum ganha corpo com elementos que derivam do samba.

Afora o time de músicos que emprestam vigor ao trabalho, reunindo nomes como Felipe Viegas, Renato Galvão, Bruno Patrício e Westonny Rodrigues, não há como ignorar também a bela participação vocal de Ana Reis na faixa Além de acordes, composição que enaltece o espírito do jazz presente ali.

Segundo trabalho solo de Rodrigo Bezerra, que foi o primeiro aluno formado pelo departamento de guitarra Elétrica da Escola de Música de Brasília, Tempo Ilusão apresenta uma proposta bem definida, que é a de harmonizar sentimentos que nos atingem indistintamente a todos rumo a um caminho sonoro marcado pela simplicidade. Sem pretensões e arroubos vazios, o artista deixa a impressão de que a estrada da música pode ser trilhada sem o tradicional peso da espetacularização das coisas. Na leveza das ações, um grande trabalho funda seu próprio território.

 


 

 

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82ª Leva - 08/2013 Gramofone

Gramofone

Por Rodrigo Melo

 

JAIR NAVES – E VOCÊ SE SENTE NUMA CELA ESCURA, PLANEJANDO A SUA FUGA, CAVANDO O CHÃO COM AS PRÓPRIAS UNHAS

 

 

 

Jair Naves é um sujeito magro, de nariz grande e olhar perdido que, ao vê-lo na rua, você provavelmente ficará a imaginar que é mais um órfão de Ian Curtis ou Kurt Cobain, um desses rockers que perderam o bonde, mas mantém a pose, o jeito um tanto tímido e enigmático no caminhar. Há uma porção por aí, e eles passam as tardes zanzando de um lugar para o outro, fumando cigarros, olhando as coisas, criando teorias sobre como tudo poderia ter sido se seus ídolos não tivessem morrido. Jair, entretanto, embora pareça, não é um desses órfãos, tampouco perdeu o bonde para algum lugar. Circulando há um bom tempo pela dita cena alternativa nacional, a primeira vez que soube dele foi através da banda Ludovic. Lançaram dois discos muito bons, cultuados hoje, com um hardcore de primeira linha, sem frescuras, por alguns alcunhado de hardcore pé de cana – em cima do palco, e ele era o frontman, o seu jeito retraído desaparecia, como se assumisse outra personalidade ali. Antes da Ludovic, participou, ainda, como baixista no último disco da Okotô, outra banda de destaque.

As bandas, no entanto, acabaram, e Jair sumiu.

Em 2010, ouvi falar dele outra vez. Ensaiava uma carreia solo. O nome do ep era Araguari, e há toda uma história sobre a escolha desse nome. Araguari é, na verdade, a cidade mineira em que Jair nasceu. Em 1967, Luís Sérgio Person dirigiu o filme “O Caso dos Irmãos Naves”, que contava a história de Sebastião e Joaquim Naves, parentes distantes do nosso rocker, acusados, presos, e torturados por um crime que não cometeram. O filme foi premiado, a história ganhou destaque e um dia, muitos anos depois, chegou às mãos de Jair. Identificando-se com o filme, ele viveu um tipo de resgate, usando a história e lembranças que tinha da cidade como alimento para voltar a criar. Numa das músicas, Araguari I(Meus Amores Perdidos), ele diz: “As lembranças que guardo de Araguari/ Resumem-se ao dia em que fugi/ Caçado de perto por uma multidão/ Decidida a fazer justiça com as próprias mãos”. Entre uma faixa e outra do ep, trechos de áudio do filme de Person.

Um ano depois, ele lançou o single “Um Passo por Vez”.

 

Jair Naves / Foto: Divulgação

 

Mas vamos a 2012, é por isso que estou aqui. Foi neste ano que saiu o disco E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas. Quase ninguém mais consegue, ou pelo menos tenta, títulos assim. Pensei que era ousado, sobretudo por flertar, perigosamente, com o lugar comum. Um monte de gente já sucumbiu a esse ardil. Mas devo dizer que, quando se é honesto e o sujeito gosta do que faz, os riscos diminuem. E o disco de Jair é bastante verdadeiro, dá para saber logo nos primeiros minutos de audição. Com uma pegada mais leve, mas ainda assim densa, o disco é cheio de melancolia e de um tipo de desespero contido, as músicas iniciando-se e acabando como se estivessem de mãos dadas, uma ligada à outra, por vezes transparecendo influências (de Wander Wildner, ao folk, pós-punk e algumas bandas dos anos oitenta), só que com uma atmosfera contemporânea e por demais particular, sem, justamente por isso, soar datado ou como se fosse alguma repetição. Sem perceber, você aos poucos se acostuma àquela toada de trovador perdido que Jair tem.

Outro fator que diferencia o disco são as letras. Mesmo quando fala de assuntos comuns, como amor e desilusão, seu jeito de tratar o tema chega a ser em alguns momentos literário, não se contentando em apenas rimar ou agradar. Um exemplo disso é a letra da música A Meu Ver: “Então me recebe/ Como eu te receberia/ No melhor dos momentos/ Ou no pior dos seus dias/ Estou tão esgotado/ Tudo é frágil demais/ Posso não estar aqui/ Quando olhar para trás/ Então hoje me abraça/ Como eu te abraçaria/ No pior dos seus dias”.

Ian Curtis, tudo faz crer, gostaria disso aí.

E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão Com as Próprias Unhas é um disco que vale ser conferido. Talvez não te encante logo de cara, ou do jeito que me encantou. Meu conselho é este: escute algumas vezes mais, depois a gente conversa novamente.

No mesmo ano, 2012, Jair Naves ganhou o prêmio Revelação da Associação de Críticos de Arte de São Paulo, e foi considerado um dos mais talentosos e promissores compositores de sua geração.

Ele é aquele sujeito do início: tímido e narigudo, de jeito meio enigmático ou estranho, que, ao passar por você na rua, talvez olhe para o chão.

 

 

(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo. Recentemente, integrou a coletânea de contos 82 – Uma Copa l Quinze Histórias (Ed. Casarão do Verbo)

 

 

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Esse é o homem: um tratado do homem – rente ao chão

Por Jorge Elias Neto              

 

 

Comecei a ler o livro Esse é o Homem – TRACTATUS POÉTICO-PHILOSOPHICUS do poeta WJ Solha, pensando: uma trilogia de poemas longos é algo de difícil concepção. Se um compositor acaba se repetindo, tornando-se previsível e monótono, fazendo com que nos lembremos mais de suas primeiras músicas em detrimento das mais recentes, como poderá um poeta não resvalar nesse mesmo sortilégio da criação?

E isso não é bom, pois estabeleceu uma prioridade: a busca das semelhanças. De início, observei as rimas que se repetiam e fiquei desconfortável. Lembrei-me de quando conversamos sobre meu poema Ode à bandeira, e Solha criticou o fato de eu ter rimado Solha com poalha como se a palavra somente estivesse ali para rimar. Casa de ferreiro espeto de pau?

Não satisfeito, interrompi a leitura.

Por ser livro para mergulho de apneia (já havia constatado isso em seus livros anteriores), busquei um recanto e reiniciei o livro.

E inicia-se o livro com a criação das palavras, a corporificação e socialização do objeto; e tudo se inicia pelo fluido, o mesmo fluido que, ao longo das 98 páginas do poema, nos levará e nos percorrerá e persistirá com a nossa partida.

Todas as interjeições já foram ditas e não se incorporam ao poema.

Depois veio o osso que virou arma, a dualidade bem e mal a nos olhar, o nosso olhar (olhar humano – demasiadamente humano), desde os primórdios de nossa existência. Vejo a odisseia de 2001 viva, estabelecendo quem é o verdadeiro Homem, sem firulas e dissimulações. E diz-nos o poeta que existe a arte, e existe a guerra, e existe uma retroalimentação, um feedback positivo renegado, mas legítimo.

E vão surgindo os nomes, cada vez mais complexos (na criação e multiplicidade de usos, finalidades estéticas e atrozes). E aí – repetindo o poeta – a suprema criação da consciência humana: surgem os deuses com os quais não se lida com conforto, os quais são temidos, pois trazem a morte.

E, ao longo do poema, o homem se desencontra, se repete, cria, procria, nomeia bem e mal, traduz toscamente imbuído da tonta ideia da literalidade. E faz a arte, cria a metáfora e dribla a realidade numa tentativa de destrinchar a vida. E é bom e é mau.

Vou esquecendo as rimas, mergulhando em tudo de história que me traz o poema. E, como leitor, estabelecendo as conexões (está aí um bom poema para manter ocupadas as sinapses cerebrais) necessárias para ver no homem de Solha, o mesmo que vejo com meus olhos miúdos. Vou entendendo que as palavras e as rimas contidas no poema não existem apenas para manter uma musicalidade: elas são um mote, um sinalizador de percurso do homem Solheano. E esse homem, após nomear a natureza, nomeia suas crias, suas buscas, achados e desespero.

De uma forma sutil, um certo menino nos conta histórias breves que cruzaram com seu olhar. E é do olhar do poeta que falo, aquele olhar envolto pelas circunstâncias. Aquele olhar da consciência de um poeta que representa em seus poemas o Universo e o Homem. Pois o olhar do poeta é mais que antena, o olhar do verdadeiro poeta, parafraseando o grande poeta baiano Ildásio Tavares, tem a humildade de se reconhecer homem e nos dizer estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte. Eis aí o homem e o poeta.

 

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))

 

 

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82ª Leva - 08/2013 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Antes da Meia-Noite (Before Midnigth). EUA. 2013.

 

“Ninguém é nada mais que si mesmo”.

 

Um sábio amigo costuma dizer que o amor deveria vir com prazo de validade. É como se algumas relações estivessem fadadas a existir por apenas uma noite ou determinado período de tempo e qualquer tentativa de prolongá-las só trouxesse estragos e dor. Até porque – como é pontuado em determinado momento de Antes da Meia-Noite – estamos todos de passagem e talvez seja pretensioso almejar um amor eterno. Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) são uma espécie de Romeu e Julieta (de carne e osso) de nossa geração. Conheceram-se em um trem, em Viena, em Antes do Amanhecer (1995), reencontraram-se quase uma década depois, em Paris, em Antes do Pôr-do-Sol (2004) e desde então estamos na expectativa em saber se Jesse perdeu ou não seu avião.

A tomada inicial – que funciona como uma espécie de elo com o filme anterior – traz Jesse no aeroporto despedindo-se do filho Hank (Seamus Davey-Fitzpatrick), fruto de seu primeiro casamento, depois de passar o “melhor verão de sua vida” com o pai, a madrasta Celine e as irmãs gêmeas, no Peloponeso. Não por acaso, a locação europeia da vez sugere a ambiguidade das ensolaradas ruínas gregas; e o título do filme, o lado sombrio que está por se anunciar. O americano e a francesa estão na casa dos 40 anos e vivem em Paris com as filhas Ella e Nina (Jennifer e Charlotte Prior). Por conta da distância de Hank e do mau relacionamento com a ex-mulher, que moram em Chicago, Jesse sente-se um pai ausente. Celine assume o papel triplo de toda mulher moderna (e como tal, ressente-se por isso). Está travado o embate de mais um casal que precisa lidar com o amor, o cotidiano e o fatídico passar dos anos. Um amor que resistiu à ausência durante tanto tempo pode sobreviver à convivência e burlar qualquer prazo expirado?

 

 

Jesse e Celine em cena de Antes da Meia-Noite / Foto: Divulgação

Antes da Meia-Noite mantém o formato clássico, com diálogos longos e inteligentes e planos-sequência, marca registrada da série. Porém, inova (e acerta) ao introduzir outros personagens que se relacionam com os protagonistas, representados pelos casais de amigos do anfitrião – o renomado escritor Patrick (Walter Lassally), onde discutem o amor e todas suas vertentes, incluindo o afeto em tempos de Skype e Facebook, tecnologia ignorada (e inexistente) pelo par em seu primeiro encontro. Justamente pela maturidade de agora, o longa dispensa a pureza dos filmes anteriores. É nítido que há amor, cumplicidade e química entre o casal, mas algo se modificou. Jesse continua o mesmo escritor romântico que transformou sua noite de amor em livro e o fez reencontrar sua amada no segundo filme (reencontro que também virou literatura). Celine, porém, perdeu seu idealismo juvenil e é a primeira a perceber que eles não apontam mais para a mesma direção. Tal condição faz de Antes da Meia-Noite um filme pós-conto de fadas, franco e um tanto quanto amargo: algo próximo de um casamento de verdade. A sequência no quarto de hotel, onde Jesse e Celine travam uma honesta DR é de fazer inveja ao casal formado por Michelle Williams e Ryan Gosling, em Blue Valentine (2010).

Ainda que encarada como uma trilogia, e com mais um final em suspenso, a ideia inicial do diretor Richard Linklater e de seus co-roteiristas Ethan Hawke e Julie Delpy, é acompanhar a dupla até a velhice, com um reencontro há cada 9 anos. Antes da Meia-Noite até funciona de forma independente, porém não há sentido assisti-lo de forma isolada. Os dois filmes anteriores aumentam gradativamente nossa intimidade com os protagonistas e sutis detalhes podem se perder, como o tal avermelhado que Celine dizia observar na barba de Jesse sob o sol, o mesmo tom que vê no cabelo das gêmeas. Será que 2022 nos reserva mais algum momento do dia?

 

 

 

 

(Larissa Mendes ainda é uma coadjuvante à procura de seu “antes”)

 

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Augustine. França. 2012.

 

 

Seria por coincidência ou por um estranho “Zeitgeist”, mas vários filmes recentes voltam a uma questão que parecia ultrapassada clínica e historicamente: a histeria. Depois de Um Método Perigoso, de David Cronenberg, sobre a relação entre Jung e uma de suas clientes, Sabina Spielrien, e da comédia Hysteria, de Tania Wexler, sobre a invenção do aparelho vibrador, chega agora aos cinemas Augustine, de Alice Winocour, sobre a relação entre um dos fundadores da neurologia enquanto ciência, o médico Jean-Martin Charcot, e uma de suas principais clientes. Em comum, esses três filmes abordam a desordem mental ambiguamente epidêmica que mexeu com os corpos femininos de meados do século XIX e interrogou como um mistério indecifrável e oracular as cabeças dos médicos da época. Ou teria sido bem o contrário?

Os três filmes mostram o surgimento, ou melhor dizendo, o reconhecimento de uma estranha desordem chamada de “Histeria” (de Hysteros, ou útero em grego), que teria  abalado e desorientado os corpos de milhares de mulheres das sociedades europeias do século retrasado, como um verdadeiro enigma a questionar não apenas os fundamentos dos médicos oitocentistas, em sua quase totalidade homens, bem como do próprio estatuto científico da medicina mental reclamado por muitos e o poder alcançado por essa disciplina sobre os corpos e mentes das pessoas, sobretudo mulheres.

Entre os três, é a comédia da britânica Wexler, o roteiro menos sisudo e que, dentro de uma linha que poderíamos chamar de “pragmatismo anglo-saxão”, vincula a histeria à invenção histórica do apetrecho sexual feminino. Mas é esse filme que mais claramente demonstra o caráter social e classista da desordem a incidir majoritariamente não apenas em mulheres casadas insatisfeitas sexualmente, mas sobretudo mulheres ociosas, na posição de dependência econômica de seus maridos provedores e da subalternidade moral derivada desta dependência.

Em Um Método Perigoso, Cronenberg apresenta o diálogo tenso entre as duas figuras mais proeminentes da psicanálise, Freud e Jung, mas o mérito maior do filme está em introduzir ao grande público a figura de Sabina Spielrien, uma cliente histérica de Jung que se tornou ela mesma psicanalista. O filme demonstra como o desenvolvimento da psicanálise deveu muito a uma paciente mulher histérica que teria dado a chave a Freud para formular seu conceito de Pulsão de Morte. Assim, o filme defende que a psicanálise não surgiu como um saber específico sobre a histeria, mas num sentido inverso, como a própria – ou imprópria – histeria forneceu os subsídios teóricos para a sua evolução, como se a psicanálise tivesse surgido do interior desse transtorno.

Em Augustine, voltamos ainda mais no tempo para conhecer a figura polêmica de Jean-Martin Charcot, um dos fundadores da neurologia. Charcot foi professor de Freud e é conhecido historicamente por ter descrito um grande número de doenças ou transtornos mentais, muitos deles levando seu nome, entre as quais a esclerose múltipla, uma doença auto-imune cujos sintomas são muito parecidos com os sintomas histéricos misteriosos que acometiam muitas de suas pacientes. Uma delas, de quem se sabe pouco, se chamava justamente Augustine.

Iliterada, Augustine era uma serviçal de uma rica casa burguesa, uma personagem praticamente invisível e insignificante. É durante o serviço de um grande jantar burguês que ela, logo após ser observada pelo olhar insinuante de um rapaz, sofre seu primeiro ataque histérico com fortes convulsões corporais que acabam por deixar um lado de seu corpo paralisado e um olho fechado. Augustine é então levada para o famoso hospital-escola Salpetrière, na época dirigido por Charcot e dedicado ao estudo psiquiátrico, sobretudo de mulheres. Lá a moça se tornará não apenas uma cliente à procura da cura de seus males, mas um caso clínico, um objeto de estudo e uma cobaia para novas formas de tratamento mental cujo diagnóstico era tão difícil como um verdadeiro mistério.

A histeria era um nome genérico dado a um transtorno que apresentava uma série de “sintomas”, males corporais, sem que, no entanto, qualquer anormalidade orgânica se apresentasse. Assim, Augustine, aparentemente uma mulher sadia de 19 anos, não apresentara até então sinais de menstruação (no caso real, no entanto, Augustine tinha apenas 15 anos). A personagem se torna um caso exemplar de histeria, para ser apresentada em conferências médicas, submetendo-se a procedimentos terapêuticos tão dúbios quanto a hipnose, muito utilizada por Charcot numa época pré-psicanalítica.

 

Soko e Vicent Lindon em cena de Augustine / Foto: divulgação

 

Marcada por sintomas de assimetrias corporais, um olho fechado, um lado paralisado e insensível à dor, ou uma das mãos fechada em gancho, Augustine é, sobretudo, uma mulher que se recusa a ser um “objeto de estudo” numa posição de passividade, uma mera serviçal de mais um mestre ou um “doutor” clínico. Ela quer ser antes um sujeito que possui um corpo. E esse corpo-sujeito está também sujeito a uma série de relações de assimetria que se estabelecem: médico e paciente, homem e mulher, burguesia e proletariado.

A diretora Alice Winocour estrutura essas relações de assimetria como relações de poder e também de desejo. Um dos alunos de Charcot censura seu professor por ele negligenciar a evidência de que os sintomas histéricos aparecem quase sempre associados à questão da sexualidade. As cenas de exames clínicos, supostamente frias e neutras, tornam-se no filme cenas eróticas: a cliente é colocada nua para os olhares voyeurísticos de jovens estudantes, um tratamento com objetos compressores lembra uma cena de sado-masoquismo.

O desejo é aquilo que faz com que um corpo se recuse a ser um objeto para ser um sujeito e é também o que cria polos de tensão numa relação de poder. O que acontece entre Charcot e Augustine é algo que se passa entre doutor e paciente, entre aquele que supostamente “sabe” e aquela que supostamente “ignora”, entre a consciência do professor e a inconsciência de seu “objeto-sujeito” e, finalmente, entre o homem e a mulher. Ou, em outras palavras, o que acontece é uma transferência, num sentido psicanalítico.

Mas estamos numa era pré-psicanalítica e Charcot, por mais importante médico e estudioso da mente que tenha sido, dessa vez é aquele que “ignora” e se “perde” nessa relação de transferência. A histeria é justamente o fenômeno social que produz uma clivagem no interior da neurologia, como estudo da mente, que abre uma brecha num campo social dominado pela ideologia da medicina enquanto ciência. Em um momento do filme, Augustine censura seu médico porque este não a escuta. É exatamente essa “escuta” que a psicanálise através de Freud introduz no estudo da histeria.

Médico neurologista, “Napoleão das neuroses” como foi chamado, porém incapaz de dominar os conceitos básicos psicanalíticos da transferência e da escuta, Charcot se deixa seduzir por sua cliente mulher mais do que é seduzido por ela. Numa das cenas mais interessantes do filme, a diretora nos mostra um Charcot nu e fragilizado diante do espelho. Por outro lado, Augustine, uma moça virgem, é também um corpo de desejo. A todo momento questionando o renomado médico se ele trará sua cura, ela também será aquela que seduz e é seduzida como mulher. Ela é paciente e também sua parceira: suas convulsões histéricas motivadas por regressões de hipnose em conferências estão na fronteira entre um processo inconsciente e uma atuação performática sob medida para os olhos dos alunos e pares de Jean-Martin Charcot, que está afinal em busca de um reconhecimento social.

Mas essa performance histérica do corpo feminino através de seus sintomas é menos uma exibição de sinais corporais passíveis de diagnóstico clínico do que expressão de uma linguagem em busca de decifração. Não são sinais, mas signos. No filme, a diretora Alice Winocour interrompe a narrativa para exibir mulheres com problemas mentais vestidas em trajes de época narrando suas visões, alucinações ou devaneios. Tal como a famosa e igualmente polêmica síndrome do déficit de atenção que supostamente acomete milhares de crianças nos dias de hoje, a histeria foi uma grande mensagem no final do século XIX a uma possível interpretação histórica. Em seguida, viria Freud com sua “Traumdeutung”, sua interpretação dos sonhos traumáticos. Presas em seus sintomas, as histéricas buscavam as escutas e interpretações para poderem tomar posse de seus corpos e escapar rumo ao desconhecido.  Como descobriu Augustine, o trauma é tanto aquilo que adoece, mas também o que liberta.

 

 

(Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e organizador do Clube de Leitura da Baratos da Ribeiro)

 

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81ª Leva - 07/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

ABISMOS OBSCUROS DE “OS ENCANTOS DO SOL”

Por Luciana Oliveira

 

 

“E é sempre sobre ruínas que se faz uma vida”. Este é um dos muitos aforismos com que topam os viajantes que aceitam embarcar nas histórias cruzadas e ardentes de Os encantos do Sol, último livro de ficção de Mayrant Gallo, lançado no início de maio deste ano pela editora Escrituras. Conhecido como poeta e contista perspicaz, Mayrant agora resolveu nos fisgar com uma narrativa mais longa, que carrega, no entanto, a marca registrada do seu estilo muito contemporâneo: o ritmo acelerado que prende a nossa atenção desde a primeira palavra até a última ironia, assim como a fragmentação narrativa, os cortes de cenas, as mudanças temporais e espaciais; tudo no estilo do melhor cinema moderno, nos envolvendo de maneira irredutível numa espiral movente, que, não raramente, nos faz sentir certa vertigem.

Aliás, é preciso dizer que a novela (conforme o autor classifica o livro), cujo título nos guia para o lado místico e fantástico que compõe todas as coisas comuns, pode ser encaixada entre as narrativas pós-modernas, não apenas pelas técnicas apresentadas, mas, sobretudo, pelos assuntos que movimentam os personagens, tão improváveis como são todas as pessoas de carne e osso, com as quais esbarramos durante a nossa brevíssima caminhada.

A vida de um escritor de meia idade, confuso e deslocado dos espaços em que transitava, e que parece precisar entrar em contato – quase sempre superficial – com as vidas de outras pessoas para se convencer de que jamais poderá ser e sentir como elas, aparece como ponto de partida para as histórias. Ele não compreende as necessidades alheias, e quase nunca quer compreender. Percebe-se mesmo inabilitado para entender o que ele próprio demanda, ao mesmo tempo que se sente apático demais para mudar as situações que vivenciava.

Então Dino Endre, como se chama o personagem, é o retrato de um homem que tem problemas para definir coisas que geralmente julgamos cruciais para traçarmos os roteiros de nossas viagens, como o tipo de afeto que sentimos pelas pessoas, o objetivo de estarmos ao lado delas e, principalmente, o que devemos esperar da vida.

 

Mayrant Gallo / Foto: arquivo pessoal

 

Casa-se, descasa-se, aceita fazer trabalhos que não lhe apetecem, bem como manter relações que não o satisfazem, e tenta conviver com tudo que lhe espinha a alma, como se portasse um enorme peso inútil, mas de cuja presença incômoda já não pode prescindir. Aliás, sabe que suas questões insolúveis são as únicas coisas que de fato lhe pertencem. Então, o que tem o narrador d’Os encantos do Sol em comum conosco, homens e mulheres destes tempos? Quase tudo, a não ser por uma certa indiferença com relação ao acaso que governa todos os destinos. Dino sabe que não adianta lutar contra a mais impalpável das verdades: A vida é incontrolável. Daí o narrador citar Albert Camus, que nos aponta de forma contundente: “Não existe destino que não se supere pelo desprezo” (CAMUS, 2013, p. 113)

Os acontecimentos da vida de Dino são dispostos em vários capítulos, alguns suportando narrativas independentes, que imprimem marcas e deixam ecos no todo da história, que nunca chega a ser inteira. Condiz perfeitamente com os retalhos da colcha que se tornam nossos dias imersos em mil pequenos acontecimentos e que, chegando ao final, nos deixam apenas uma sensação estranha de um delírio incoerente. Assim, Os encantos do Sol acontecem a partir da ideia de que, como disse alhures o poeta espanhol Calderón de La Barca, “A vida é um bem ilusório porque tem a duração e a consistência dos sonhos”. Talvez por isso os capítulos do livro sejam curtos, alguns representado flashes de pensamentos.

Nos relatos, está presente tudo que é demasiadamente humano, inclusive as nossas ficções de cada dia, sem as quais talvez, sequer, existiríamos. Há também a reflexão acerca da ideia midiática de amor que se tornou tão banal quanto irreal; a impossibilidade de felicidade na profundidade do eu e de sua manifestação fácil, quase sempre no que há de mais material e superficial, como no sexo, nos desejos que sentimos e, principalmente, nos que esperamos despertar. Ainda comparece ali o pavor da solidão e da rejeição, e as formas de como nos deixamos cooptar para não termos de enfrentá-lo. Mas, para além de qualquer outra coisa, Os encantos do Sol nos ensina que são nos abismos mais obscuros que encontramos o germe mais genuíno da vida.

 

(Luciana Oliveira é doutoranda pelo programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS))