Não seria exagero afirmar que o cantor e compositor Wado tem o mesmo atrevimento daquele [quase] homônimo falecido que o separava por uma letra ene. O catarinense radicado em Alagoas entrega-se à variedade rítmica e poética com a mesma paixão de um colecionador excêntrico. A voz metálica que já derivou álbuns de sonoridades diversas e títulos criativos, como O Manifesto da Arte Periférica (2001), Cinema Auditivo (2002), A Farsa do Samba Nublado (2004), Terceiro Mundo Festivo (2008), Atlântico Negro (2009) e do elogiado Samba 808 (2011), assume agora um tom delicado, melódico e, por que não, mais acessível. Lançado em junho, Vazio Tropical é fruto do Festival MPTM (Música Para Todo Mundo), promovido em 2012 pela Oi, que premiou quatro artistas com a gravação de um disco físico pelo selo Oi Música (os outros contemplados foram Bárbara Eugênia, com É O Que Temos; Nevilton, com Sacode e Pedro Morais, com Vertigem). Produzido por Marcelo Camelo – que tocou vários instrumentos no álbum e já havia colaborado na faixa Com a Ponta dos Dedos, em Samba 808 – e abarrotado de convidados, o sétimo trabalho de Wado evoca um sentimento bem próximo ao do título sugerido e da ‘doce solidão’ já proposta pelo eterno hermano.
A primeira faixa, a bela Cidade Grande, abre o álbum tecendo uma crítica social à nossa própria trivialidade (e segue os mendigos nas multidões/já são tão normais que nem mais emocionam). A canção seguinte, Rosa, parceria com o músico Cícero, ensina que, como quase tudo na vida, ‘vai doer, mas depois vai passar’. O lirismo fica a cargo de Canto dos Insetos (co-autoria de Cícero e Momo) e Flores do Bem, única canção não-autoral, assinada inteiramente por Momo. Em Carne, Wado faz dueto com o uruguaio Gonzalo Deniz, do projeto Franny Glass e discorre sobre a iguaria em todas as suas acepções (me chamam carne dentro do açougue/me chamam carne, temos açoite).
Cícero, Wado, Marcelo Camelo e Momo / Foto: Divulgação
A ciranda Quarto Sem Porta, faixa mais ensolarada e suingada do álbum, tem a discreta participação [e a risada] de Mallu Magalhães (pra um casal um quarto sem porta é mais que um tormento/como qualquer visita depois de um certo tempo). Zelo e Tão Feliz são, indiscutivelmente, as melhores canções do disco. Na primeira, o músico divide os vocais com Cícero, amparados por solos de instrumentos de sopro que lembram muito a sonoridade de Los Hermanos; na segunda, é a vez de Marcelo Camelo e Wado revezarem os microfones na faixa que possui certa aura de Radiohead (eu me sinto tão feliz/a ponto de explodir/e divertir um campo inteiro de futebol). Se Primavera Árabe (é que quando você cala/é que mais você me fala) e Cais Abandonado (eu mantenho a língua afiada/mastigando o vidro da ilusão despedaçada) apontam para o melhor da poesia musicada, a instrumental Vazio Tropical, que intitula o trabalho, em menos de um minuto de duração, parece sintetizar a agradável melancolia do álbum, tal qual um passeio por uma praia deserta num entardecer frio e nublado.
Mesmo sendo um disco de inéditas “canções-sobras” de trabalhos anteriores do músico, em nenhum momento isso compromete a atemporalidade e homogeneidade das 11 faixas. Ao contrário, despido de recursos eletrônicos e orgânicos, os versos de Wado soam introspectivos e confessionais, representando uma nova MPB [sub]tropical, porém temperada de sensações.
A poesia de Oleg Almeida, belíssimo texto, fluente como o rio de Heráclito, no qual homem algum se banhará duas vezes, permite muitas interpretações: é difícil. E difícil não quer dizer hermético, o sentido desta longa e informal reflexão, na qual afloram lembranças de que não se pode libertar, que cortam como estilete agudo e incômodo, e cada vez que se move enterra mais fundo e sangra, inundando o coração de imagens dolorosas. Ao tentar livrar-se, muito mais se maltrata, magoa-se, acordando recordações vivas de vozes e gestos perdidos na distância dos tempos.
No íntimo vive ainda – e viverá para sempre, pelo milagre da permanência da palavra – o herói que foi, de quem sente saudades. Deslocamentos constantes trouxeram-no para nós, sempre em busca da terra ideal, da pátria perdida e distante no espírito do homem que é salvo pela poesia, mas incapaz de esconder as cicatrizes das quais jamais se libertará, porque foram impressas na alma a ferro e a fogo.
Texto belíssimo, que não se oferece fácil, ou melhor, que permite muitas leituras, entre elas uma aparente, e outra, mais difícil ou impossível de ser desvendada, sob o signo de uma tristeza mansa.
Perpassa uma poderosa imagística nessas cores que desdobram imagens nítidas. “Uma gota de tinta lilás”, na ponta de uma pena, abre um portal para a filosofia com seus questionamentos sobre um tempo que não pode ser medido convencionalmente. Cerejas e papoulas vermelhas, o amarelo, o verde, o preto, o azul nos olhos da inesquecível avó, e finalmente o branco, a fusão de todas as cores, colocando num mesmo plano imaterial toda a massa pesada das experiências que moldaram sua personalidade final, motivo da sua indefinição enquanto indivíduo.
Numa primeira e superficial leitura observa-se explícita memorabilia. Sabendo-se que veio de longínquas paisagens, de frias e intensas névoas, que não foi capaz de “abdicar do sonho em prol da memória”, isto permite ao analista vários caminhos de abordagem. Confessa trazer dentro de si um mundo: um sítio impossível de localizar no meio de uma campina – cujo nome a memória rejeita – coberta de flores exuberantes. Mais tarde identificaremos essas flores que enfeitam esse espaço sem nome, onde viveu sua infância e começou a plasmar sua personalidade. São papoulas vermelhas. E saberemos: há frutos também; cerejas maduras, suculentas, pretas e vermelhas. A se destacarem como mancha colorida sobre este campo impossível de nomear.
“Quem sou?” – questiona-se, indaga em longas lucubrações mentais, em muitos e profundos mergulhos interiores, num corte vertical à procura do verdadeiro eu. E o encontrará? Homem algum é singular, e ele se reconhece múltiplo. Definir-se é importante, lhe concederá segurança. Chão para pisar. A infância é o território mítico que dará suporte à envergadura do jovem, do guerreiro que é preparado para as lutas que o esperam e não o pouparão na escalada em busca de sua realização humana. Mas essas vivências intensas serão sua reserva e segurança quando tiver que deixar o espaço protegido para enfrentar os mares bravios que o aguardam ao Norte, nas tentativas de regressar a Ítaca, ele, um ser hiperbóreo. Na alma levará marcas indeléveis. Adquiridas nessas excursões comandadas por Khronos X Kairos em confronto, meditando, em consequência, longos poemas intimistas. Como se cavando fundo na memória, material de que se utiliza para uma viagem ao âmago de si mesmo em busca de claridade para ver a luz (para ficarmos no clima filosófico que será sempre a sua escolha de voo). Não qualquer luz, mas uma luz “olímpica”, clama ao Senhor, porque deseja iluminar grandes feitos, e pede lhe conceda calma; talvez para organizar o grande conteúdo mental que guardou de uma vida rica e descuidada, incapaz de prever a hecatombe que daria fim ao seu amável mundo (Khronos em atividade).
E, através de uma caminhada existencial por estes dois tempos completamente antagônicos, descobrirá sua vera persona. Em oposição estão o tempo do não-ser e o tempo da realidade transubstanciada em experiências do possível imaginado, enquanto ente movido por várias dimensões que correspondem a toda sua trajetória humana.
Oleg Almeida / Foto: arquivo pessoal
E então já dispomos de alguns elementos para o esboço que perseguimos: é alguém que diz chamar-se Crates e ser natural de Tebas. Entretanto, mostra-se um desconhecido (pois indaga sobre quem é!). Insatisfeito, procurando definir sua identidade, realiza um longo mergulho interior à procura da sua verdade: a meninice feliz, as figuras inesquecíveis, marcantes, deixando na alma, impressas, influências benfazejas que formarão o arcabouço desta definição e o farão concluir – sou um homem. E um homem, sabemos, é a medida de todas as coisas. Mas para que o desvendemos, é dizer pouco.
A partir daí será um fugitivo, concluímos, que se acoberta sob uma personalidade angustiada que sofre “saudades de um Éden desmoronado”. E uma ligeira vista por outras páginas desvendará a razão do seu estranhamento: as muitas lutas, as imensas perdas e por isso “a morna tristeza que (o) borrifa”. Que perpassa esse texto sutil e fortemente marcado por melancólicas e pungentes lembranças. Ao acaso, deslindamos outros enigmas. Sua origem longínqua, vindo de um país ao Norte, razão por que se denomina “um hiperbóreo”; habitou, crédulo, uma cidade varrida do mapa pelos romanos, na exacerbada ambição por aumento do Império, apesar dos avisos do onisciente pai que previu a derrocada da Grécia. Viu ruir o mundo antigo, seus habitantes feitos escravos, cerca de dois séculos a.C., e no retorno a Corinto atravessou o nebuloso período da juventude, viveu sagas que lhe permitiram ingressar no mundo adulto (Kairos, um tempo sem medida).
Sob forte clima sinestésico, onde as cores e os gostos têm papel predominante, desfilam visões nas telas do espaço vivido e projetam-se para o futuro, quando suas lembranças habitarão o território do que foi. Assume-se um heleno, habitante de Corinto, já sabemos, e vivencia experiências fabulosas, patrocinadas pelo próprio processo de existir: a ilusão da maturidade, incluindo armadilhas; incorporando Midas, sentindo o poder da posse material com toda sua carga de equívocos não estranhos ao amadurecer. São indícios ainda nebulosos para nós que buscamos conhecer este que se oculta por trás dos disfarces da poesia. O poeta, afinal, segundo Fernando, o Pessoa, é um fingidor.
Teimosamente procuramos acompanhar essa trajetória poética inteiramente marcada pelas referências eruditas de um mundo perdido, entretanto real a partir de figuras míticas, de aventuras de antigos heróis que, a bordo de antigas embarcações, cruzavam o Mediterrâneo, levando um jovem. Que, deixando a segurança da torre onde guardou o que de mais caro a vida lhe deu, sabe cultivar aquele tesouro que é a fonte de toda sua inspiração neste novo tempo (Khronos) em que se define como Oleg Andréev Almeida e escreve um poema único em quase setenta páginas, tentando livrar-se do peso memorável. Dividindo a emoção que do contrário o subjugaria irremediavelmente. Nesse território onde a morte não tem poder, as coisas em sua frescura e nitidez se oferecem, “o vinho caro na geladeira, a mesa e a poltrona de palha” do tempo de agora, como também a lembrança viva das pessoas que se preservam para sempre. O acesso é restrito, entrada negada a estranhos, mas ele, parte deste mundo preservado, poderá voltar quando queira, e encontrará um riso amigo da avó, um companheiro sempre disposto a embarcar numa trirreme ou fazer velas, chegar a cidades perdidas – através dos livros, através das grandes epopeias, ir e regressar de acontecimentos que revivem etapas, seja no Egito, na Grécia ou noutro lugar qualquer ao longo do Mediterrâneo, integrar-se nelas, ser um natural e praticar atos comuns à época, tais como comerciar com grandes capitalistas de épocas remotas, gastar sua bolsa em tabernas vulgares com bebida e jogo de dados, desfrutar de prazeres baratos e sem poesia com hetairas vulgares, passar por sustos e perigos de salteadores que por sorte o libertaram, após despojado daquilo que o fazia sentir-se dono de metade do mundo e em seguimento o reduz à expressão mais simples do despojamento e da carência. Sempre os dois tempos em luta a determinar o destino de um homem.
Empreender batalhas, desbravar espaços desconhecidos, desvendar territórios ignotos, tudo são experiências a somar e refinar o espírito, ritos de passagem para a madurez. Algumas vezes vence, noutras é dominado pelas Fúrias atentas ao pêndulo da sorte. Mas estes confrontos com o lado sórdido e sem poesia da vida o fizeram crescer. E sempre regressará à sua Ítaca, ferido, coberto de cicatrizes, mas de alma íntegra, porque foi bafejado por Orfeu que lhe ofertou, ao nascer, um presente inestimável: uma lira de onde tira as mais belas notas. Isto o defenderá do canto das sereias que não conseguirão distraí-lo da rota que traçou, passando ao largo da ilha maldita onde perderia sua alma, mas que o surpreendeu quando ali encontrou, deus que era, uma bela mortal que o fez desistir da sua condição divina e o trouxe para “um país singular”, terra dominada por Phebo, cuja bandeira reproduz “um losango e uma esfera”, a qual assumiu para sempre.
E a nós cabe lamentar pelo fracasso em desvendar esta poesia belíssima quanto estranha. Difícil, havíamos dito…
(A carioca Rejane Machado é romancista, professora e crítica literária. Com Licenciatura em Português/Literatura (UFRJ), Mestrado em Literatura Brasileira (UFF) e Doutorado em Linguística e Filologia Românica (UFRJ), também atua como revisora e colabora com diversos jornais e revistas do Rio de Janeiro. Dentre seus livros publicados, estão: “A dimensão das Pedras” (Contos/1973), “Réquiem para Mário” (Romance/2010), “O médico das Flores” (Infantil/2013), “O Momento mais bonito da Literatura Brasileira – Gonçalves Dias e outros” (Ensaio/2013), “Contando até dez” (Crônicas/2012))
Por vezes nos deparamos com uma assertiva a dizer que certos autores, ao desenvolverem sua bibliografia, estão escrevendo e reescrevendo sempre o mesmo livro. Alargando um pouco mais a ideia, muito me chama a atenção a hipótese de certos autores nordestinos formarem uma família antropoliterária, os quais traçam e trançam na mesma renda a inesgotável e árida epopeia da vida e da morte agrestes.
Vou omitir, por falta de lembrança ou de conhecimento, nomes importantes, mas penso que tal família tenha seu precursor em Augusto dos Anjos, sendo configurada por Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ronaldo Correia de Brito e Daniel Mazza. Não se pode negligenciar as miríades de poetas cordelistas e cantadores espalhados pelas feiras e empalhados nas prateleiras do menoscabo da “alta cultura”.
Tais autores irmanam-se ao tomarem mutuamente os procedimentos formais e os temas constantes da obra de seus entes, sem que isso nos cause, admiravelmente, a sensação de previsibilidade ou mau epigonismo. Todos eles desautorizam a visão pitoresca do espaço sertanejo, encravam a caatinga em seus parágrafos e estrofes, tornando-a metáfora de espaços e tempos de todos os lugares e épocas, sejam as ágoras mitológicas da Grécia, sejam os bíblicos e empoeirados caminhos da Palestina. São eles xilos ou litogravadores da palavra, visto lançarem-se de encontro ao hiperbólico mosaico da linguagem para dele extrair ou nele imprimir, à mão de faca, a palavra certa e seca. Sublimadores da brutalidade, valem-se de mão de vaqueiro, que por um instante é capaz de domar a vida: domadores do discurso, penduram a encharcada escrita à cerca e ao sol para que se lhe retire toda a gordura, até que sobre apenas o substantivo couro. Alunos dos seixos, concebem a partir do vento quente e da areia seca, pois tanto o sopro como o barro têm uma saúde incoerente para esta gênese.
Assis Lima pertence à linhagem desses escritores, umbilicalmente ligados ao sertão e espiritualmente dados ao mundo. Nascido no Crato, interior do Ceará, Assis, médico de profissão, fixou residência na urbaníssima São Paulo. Nela desenvolveu o notável estudo Conto popular e comunidade narrativa, que a um só tempo registra e abraça a vocação do povo nordestino para a oralidade, a qual, de tão bem aprendida com os gregos, tornou-se invenção patrimonial sua. Como poeta, Assis presentificou os aspectos mais representativos de sua genealogia artística em Poemas arcanos, livro repleto de evocações locais e translocais, todas enoveladas em cantigas, “incelenças”, lendas e evangelhos.
E para perpetuar o movimento contínuo de ressurreição de sua família autoral e assinalar seu fio particular, Assis Lima dá ao primeiro texto do seu Marco misterioso o aqui infiltrado título de “Água”, com o qual diz não e sim à sua sina – “O deserto esteve fincado dentro de mim” (…) // “Que me cubra o nevoeiro!”. Essa peleja, típica do homem em apreço e repulsa pela matéria de que se constitui, tem presença cativa em diversas passagens do livro, e em textos como “Caleidoscópio” ganham a feição de arena onde duelam ser e transcender: “As pedras, uma extensão de mim. / E dentro das nuvens, a extensão de todas as pedras”.
Assis Lima / Foto: Divulgação
Assis Lima é a assinatura literária de Francisco Assis de Sousa Lima (com o nome civil ele registrou sua tese acadêmica). Há nessa heteronímia o amálgama de símbolos próprios da literatura que o autor desenvolve e da casta à qual pertence. Francisco (de) Assis é nome de um dos mais expressivos personagens bíblicos, ao passo que “sousa” – registram os dicionários portugueses – é um tipo de pombo aguerrido, não por acaso tomado como imagem de brasões familiares. No Brasil, Sousa é uma cidade do sertão paraibano. Já então se vê o anelo do local e do universal, ao qual se liga a fusão da figura do santo e do bicho guerreiro, ambos imagens diletas da cultura nordestina. “Lima” é uma fruta cítrica, ácida, cortante, e mais ainda o é a lâmina com que o autor decepou sua identidade em consonância com o corte literário: os Poemas arcanos, da primeira para a segunda edição, foram reduzidos a quase metade, e este Marco misterioso já vem ao mundo com uma seção amputada, visto ser e não ser pertencente ao conjunto do que agora se publica. E não nos esqueçamos: o Rio São Francisco encrava-se gigantesco no solo e na sola do Nordeste, cercado de seco por todos os lados, cortando-o de ponta a ponta.
Mas a coisa não se fia por aqui: dentro deste volume a escrita se mostra mais muscular quanto mais se depura da carne das palavras, como se fosse (e é) possível enrijecer-se de ossos. É o que se observa no finamente geométrico engenho de “Ângelo Monteiro”, ou no obsessivamente talhado “Sem título”, capado até no nome:
………………………………………………………..Pelo verso ………………………………………………………..e avesso ………………………………………………………..em teu colo ………………………………………………………..me teço.
………………………………………………………..Por teu vinho ………………………………………………………..e chama ………………………………………………………..minha sede ………………………………………………………..clama.
………………………………………………………..Em teu seio ………………………………………………………..redoma ………………………………………………………..me rendo ………………………………………………………..genoma.
Essa poética busca uma dicção quite em seus desacordos, e o poeta desgarra-se do parentesco a fim de tanger os próprios passos e o próprio canto. Por isso o leitor verá também um feito marcante do livro no caudaloso “Via Sacra pela morte do filho”. Trata-se de um poema de alta voltagem dramática, construído a partir do arranjo das vozes do pai consternado e do coro que se encarrega de verbalizar o roteiro fúnebre: “Prepara-te, corpo / que chegou teu dia, / recebe esta roupa, / vai em boa companhia”.
E dentro do rio turvado de lágrimas brotam as teimosas águas de “Vida de violeiro”, poema nordestiníssimo por suas cores e sons. O ritmo cantante da redondilha heptassilábica embola na malha do texto a evocação de cantadores lendários, como Cego Aderaldo e Zé Limeira, quando toda a embolada ganha o tom de uma ciranda, viva porque cantada: “‘Quem não canta neste mundo / no outro fica engasgado, / pois o nosso mundo é este, / que o outro, é do outro lado, / por isso cante com a alma / que a vida lhe deu de agrado / para alegrar quem não canta / e alegrar quem está calado!’”.
Foi o poeta-violeiro quem mandou. Que a sua leitura seja, portanto, a rima a unir poesia, alma, corpo e alegria.
(Marcos Pasche nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1981. Cursa doutorado e leciona Literatura Brasileira na UFRJ. É crítico literário, autor de “De pedra e de carne: artigos sobre autores vivos e outros nem tanto”. Neste momento, pede aos acidentais leitores que não deixem de assistir ao documentário “Garapa”, de José Padilha)
Para a psiquiatria, monomania “é a definição de uma obsessão doentia por uma ideia, objeto ou pessoa”. Em seu álbum de estreia, a atriz, roteirista e compositora Clarice Falcão parece ter apenas uma fixação: a meiguice. Filha do cineasta João Falcão e da escritora Adriana Falcão, esta pernambucana criada no Rio de Janeiro transita desde cedo entre diversas esferas da arte. Aos 23 anos, Clarice já possui um extenso currículo – como atriz e roteirista – na televisão, teatro, cinema e principalmente na internet, onde há pouco mais de um ano e meio começou a postar vídeos de suas canções de voz e violão, somando mais de 10 milhões de visualizações. Aliás, sua primeira composição foi a trilha sonora do curta-metragem Laços (2007), também estrelado por ela, que ganhou o concurso mundial Project: Direct, do YouTube. Parte deste sucesso virtual deve-se ao canal de humor Porta dos Fundos, onde a multifacetada artista escreve e participa ativamente das esquetes, muitas vezes ao lado do namorado Gregório Duvivier, um dos idealizadores do coletivo.
Suas canções de amor – de rimas fáceis e melodias suaves –, repletas de ironia e humor negro, são na verdade pequenas construções narrativas, o que talvez justifique a ausência de refrão da maioria das faixas. Lançado pelo iTunes no final de abril, Monomania não possui gravadora ou formato físico oficial, visto a relação direta que a cantora já estabelece com seu público. Atualmente, o álbum figura entre os mais baixados na Apple Store brasileira e é comercializado, de forma quase artesanal, apenas em suas apresentações ao vivo. Com influências de Magnetic Fields, Kate Nash e Chico Buarque e comparada à atriz e cantora Zooey Deschanel (da dupla She & Him), Clarice soa como um mix da canadense Feist com Mallu Magalhães. O primeiro registro de estúdio da menina de voz doce e canções despretensiosas ganha arranjos mais elaborados do que as versões acústicas disponibilizadas na internet e conta com a consultoria e produção musical da sogra, a cantora Olívia Byington.
“Só pra você saber”,como um mantra, Eu Esqueci Você abre o álbum enumerando as vantagens de superar um amor do passado. Na sequência, a insensata Macaé (e se eu mostrar o cianureto que eu comprei pra gente se matar/você manda me prender no amanhecer?) e Monomania (se juntar cada verso meu e comparar/vai dar pra ver/ tem mais você/que nota dó) elucidam a tal patologia do título. A minimalista Um Só talvez seja uma de suas letras mais inspiradas (o meu desespero/é que quando acaba/você fica inteiro/e eu fico o pó), juntamente com o filmete-dançante Fred Astaire (mas, cuidado/me deixa no canto da sala/que se eu tiver alguma fala/eu mudo pra “amo você”), que ganha também uma versão em inglês no encerramento do álbum. A divertida Talvez (se eu não tivesse um troço/lá dentro da barriga/que eu sinto que está dançando a dança da garrafa) e Qualquer Negócio são sussurradas quase à capela – a última na companhia do violoncelo de Jaques Morelenbaum, que assume o instrumento em outras três faixas do disco.
A segunda metade de Monomania inicia com a balada De Todos os Loucos do Mundo – uma declaração à Duvivier – e fala do encontro de dois seres pra lá de criativos (de todos os loucos do mundo/eu quis você/ porque a sua loucura parece um pouco a minha). A etílica O Que Eu Bebi narra as mágoas amorosas que todos já tentamos afogar (o que eu bebi por você/dá pra encher um navio/e não teve barril/que me fez esquecer), enquanto A Gente Voltou oferece um clima circense à reconciliação do casal da canção (não entra na bad, Romeu/Julieta morreu/mas a gente voltou). O ponto alto do disco fica a cargo do dueto de Clarice com o capixaba SILVA (que também toca violino em algumas faixas) na valsinha Eu Me Lembro, com as impressões masculinas e femininas do primeiro encontro. A deliciosamente mórbida Oitavo Andar, uma de suas letras mais teatrais, (e aí, só nos dois no chão frio/de conchinha bem no meio fio/no asfalto riscados de giz/imagina que cena feliz) reforça toda sua veia literária, bem como a singela Capitão Gancho e sua listagem de coisas que fizeram Clarice ser quem é. Definitivamente, a graça da autora/obra é a simplicidade, doçura e frescor adolescente. Sua audição provoca aquela sensação de riso bobo nos lábios: quando você se dá conta, já está totalmente arrebatado.
LUIZA BRINA E O LIQUIDIFICADOR – A TOADA VEM É PELO VENTO
A grande metáfora que suscita o valor da impermanência das águas é substancial alimento de muita coisa em matéria de arte. Assim como não é possível banhar-se duas vezes numa mesma porção aquática, muita coisa escapa ao controle dos sentidos num átimo de nossos lampejos pela vida. O que seria de nós se tudo fosse absolutamente fixo em todas as suas formas e proporções? Como curvarmo-nos frente à ciranda viciosa dos determinismos que nos soam muito mais como armadilhas do que qualquer outra coisa?
Desejosa mesmo seria a perenidade de saborearmos o sublime e toda a surpreendente força que brota de sua delicadeza. E quanto a nós, cabe bem entregarmo-nos ao fluxo constante das marés que assinalam o tempo das transformações. Ainda que típicas incertezas se façam companheiras dessa jornada, viver traduz-se por um mergulho atento ao presente.
Tudo principia no mar: eis uma definição especial para o disco de Luiza Brina. Juntamente com a banda O Liquidificador, a artista nos apresenta um álbum repleto de signos os quais evocam as imagens que correm paralelas ao dinamismo das águas. É uma verdadeira viagem pelas dimensões sensíveis tão peculiares aos olhares poéticos sobre a vida. De modo marcantemente autoral, Luiza penetra nas veredas dos dias, visitando os vestígios e povoando de esperanças e serenidade a existência. O resultado aponta para uma reunião de canções que primam pelo lirismo e cujo teor das letras reflete um vigoroso arremate filosófico.
A toada vem é pelo vento é um trabalho feito de arranjos e cuidados melódicos que não passam despercebidos. Há de um tudo no disco, principalmente estilos como o maracatu, salsa e boi, entre outros mais. Sem dúvida alguma, o aporte vocal tanto de Luiza quanto do coro da turma de O Liquidificador tornam as escutas bastante atraentes. A acertada reunião de violoncelo, sopros, percussão e violão constrói um painel que reforça um especial sentido de brasilidade ao disco.
Luiza Brina e O Liquidificador / Foto: Divulgação
Entre as faixas que roubam a cena, está a bela e intensa Catamarã, canção que situa a voz de Luiza numa ambientação precisa e forte. Ali, a letra harmoniza o denso contraste entre mar e sertão, exaltando um equilíbrio possível entre forças que se opõem por natureza. No jogo de palavras, o “tão” do ser explicita as distâncias entre dois mundos supostamente improváveis de conciliação, evocando momentos como na passagem “O meu violão é Dorival / o dele é obrigação”.
Também não há como deixar passar a presença extremamente virtuosa de Back in Bahia, desejoso retorno a uma terra idealizada, e que aqui aparece materializado numa vontade sublime de ouvir o canto de Maria Bethânia. Diga-se de passagem, o título da música deixa entrever as sensações advindas da homônima composição de Gilberto Gil quando do seu desterro em Londres. No entanto, essa valiosa referência não retira a originalidade da letra escrita pela jovem compositora. Atravessando a canção, eis que um disco de Gil irrompe ao fundo, entrecortado por um liquidificador, retrato de sentimentos misturados, uma alusão a um baú de lembranças, abrigando a procura serena e nostálgica de uma Pasárgada cuja musa é Bethânia. Em meio a isso tudo, a voz de Luiza penetra nos ouvidos como uma espécie de acalanto.
E tudo também se prolonga no mar, esse colossal reservatório de sentimentos, que, aos olhos de muitos, abriga o desejo do infindável. Assim, somos conduzidos pelo balançar de águas. Assim, Luiza Brina e seus companheiros de existência nos relembram os caminhos que vão e vem, exaltando a sede do inominável, esse deus que habita todas as dúvidas.
O cantor e compositor capixaba Lúcio [da] Silva Souza – vulgo SILVA, assim mesmo, em maiúsculas – carrega no nome a brasilidade de um som universal. Se à primeira vista, alcunha e letras soam minimalistas, é na riqueza sonora que o músico derrama toda sua eloquência. Com uma formação musical erudita calcada em piano e violino, Lúcio mescla clássico e moderno, pop e experimental, orgânico e sintético. Lançado em outubro pelo selo SLAP (Som Livre), Claridão, seu álbum de estreia, figurou em várias listas de melhores de 2012, o que valeu ao jovem músico de voz suave o prêmio de melhor cantor do ano, concedido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Ainda ano passado, sem mesmo ter gravado o disco, o artista teve a oportunidade de se apresentar no Sónar São Paulo – Festival Internacional de Música Avançada e New Media Art – em sua segunda edição brasileira. O multi-instrumentista conta com a parceria do irmão e letrista Lucas Silva para compor (sempre em português) os quase-poemas que parecem preencher suas elaboradas notas de MPB de vestes eletrônicas.
Com algumas alterações instrumentais, 5 das 12 faixas de Claridão pertencem ao seu elogiado EP lançado em 2011 e disponibilizado via web, enquanto as inéditas conferem o tom de unidade que talvez faltasse na ocasião. Vale ressaltar que mesmo com o respaldo de uma grande gravadora, o músico não perdeu sua essência caseira, optando por registrar o álbum de forma quase artesanal, revezando-se entre voz, piano, violão, guitarra, violino, percussão, sintetizadores e programação eletrônica. Os vinte e poucos anos e a doçura do rapaz de Vitória contrastam com a segurança impressa em Claridão, fazendo de SILVA nome e sobrenome da autenticidade.
SILVA / Foto: divulgação
Se a apocalíptica de batidas modernas 2012 abre o álbum sugerindo o otimismo do artista diante do caos (gosto mesmo do incerto/pode ser belo o feio visto de perto/o avesso às vezes dá certo), a ritmada Falando Sério reitera sua ambivalência (não curto o tédio/mas ele é tão “cute” em você). Aeletro-erudita Cansei, possivelmente uma das melhores canções, dita a tônica mais poética do álbum, juntamente com as intimistas Ventania e Posso. Aliás, certa melancolia – pontual ao longo de quase todas as faixas – está presente também na atmosfera etérea de Mais Cedo, que fecha a primeira metade do álbum. Enquanto a dançante Claridão, que intitula o disco, possui elementos de uma espécie de drum’n’bass oriental, em determinado ponto o instrumental folclórico de 12 de Maio lembra os americanos do Beirut. Acidental e Imergir, ambas integrantes do EP do cantor, possuem um tom mais delicado e um lirismo peculiar. A graciosa e penúltima faixa Moletom (não quis o frio de só te ver/agasalho é ter você) parece aquecer o ouvinte tal qual o tecido da canção. Com som de cantiga de ninar ao violino e ukulele, a bela A Visita, composta ainda em sua passagem de estudos pela Europa, encerra Claridão de forma mais orgânica e alegre, demonstrando toda a versatilidade do artista.
Comparado ao britânico James Blake e aposta entre os nomes da nova geração, talvez a dificuldade de se rotular a sonoridade de SILVA seja proporcional à quantidade de referências acumuladas pelo músico, que, apesar da formação e refinamento melódico, nunca pretendeu soar elitista. Seria redundância (e exagero) afirmar que Claridão é um lampejo de criatividade no atual cenário musical brasileiro?
(Larissa Mendes carrega no DNA o silva de qualquer brasileiro que se deixa ofuscar pela boa música)
‘Estilo é o plágio de si mesmo’.
(Alfred Hitchcock)
Considerado pelo American Film Institute como o melhor thriller de todos os tempos, Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, é um marco não só para o cinema – por ter matado sua protagonista na primeira meia hora de filme e por proibir que as pessoas entrassem na sala com a sessão já iniciada – como para a própria carreira do cineasta, que, nesta altura, já era um sexagenário com mais de 40 filmes no currículo. O que talvez o grande público desconheça é que a ParamountStudios vetou o projeto e Hitch o bancou de forma independente, hipotecando sua casa para arcar com a adaptação para o cinema do livro Psycho, de Robert Bloch, o qual classificou como “diabolicamente divertido”. Baseado em fatos reais, o enredo e o personagem Norman Bates são inspirados em Ed Gein, assassino que dissecava suas vítimas e construía objetos com partes do corpo humano, no interior americano, no fim dos anos 50.
Mais de meio século depois, chega às telas Hitchcock, primeiro trabalho de ficção do londrino Sacha Gervasi, que aborda os bastidores do filme e a relação de Sir Alfred (interpretado por um caricato Anthony Hopkins) com a esposa Alma Reville (Helen Mirren). Baseado no livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose (Ed. Intrínseca), de Stephen Rebello, talvez o maior trunfo do filme esteja em não se levar demasiado a sério nem assumir um caráter de cinebiografia, diferente, por exemplo, do tenso The Girl (2012), que aborda os escândalos envolvendo Alfie e a atriz Tippi Hedren enquanto rodavam Os Pássaros (1963) e Marnie – Confissões de uma Ladra (1964). Aliás, com maior ou menor intensidade, Hitchcock costumava apaixonar-se platônica e doentiamente por suas blondie girls.
Como de praxe na época, o roteiro de Psicose (assinado por Joe Stefano) precisou da aprovação do departamento de censura cinematográfica, o que, aliás, rende uma boa sequência na trama, principalmente quando Hitchcock é questionado quanto à nudez no assassinato no chuveiro (‘ela não estará nua, usará uma touca de banho’) e pela filmagem de um vaso sanitário aberto, fato inédito até então. O filme transita desde o casting de atores, curiosidades do set até sua exibição e consagração. Revela ainda a mágoa do cineasta com Hollywood (Hitchcock nunca foi premiado com um Oscar, apenas homenageado com o prêmio memorial Irving G. Thalberg, pelo conjunto da obra, em 1979), seus transtornos alimentares e crises emocionais. Aliás, durante seus devaneios, Hitch chega a dialogar com o serial-killer Ed Gein (Michael Wincott).
Helen Mirren e Anthony Hopkins em cena de Hitchcock - Foto: divulgação
Paralelo ao making of, o filme explora a máxima “por trás de todo grande homem há uma grande mulher”. Assim sendo, detrás do egocêntrico mestre do suspense havia Alma Reville, sua companheira por toda a vida e peça ativa em todas suas produções, seja como consultora, revisora ou montadora. Inclusive a trilha sonora da cena do chuveiro – composta por Bernard Herrmann – foi insistência sua. A ideia de Hitchcock é que a sequência de golpes fosse muda. Alma suportava, ainda, os flertes do marido com jovens atrizes e sofria com o ciúme provocado por sua aproximação com o escritor Whitfield Cook (Danny Huston). Aliás, há que se destacar a inspirada interpretação de Helen Mirren como a espirituosa e decidida Alma e o elenco estrelar do longa, que conta com Scarlett Johansson como Janet Leigh/Marion Crane e James D’Arcy interpretando Anthony Perkins/Norman Bates, além de Jessica Biel, Toni Collette e Ralph Macchio (o eterno Daniel San, de Karatê Kid). Sente-se, porém, a ausência na trama – tanto em sua figura familiar quanto profissional – de Pat Hitchcock, filha do casal e atriz em Psicose.
A verdade é que a “franquia psicótica” rende frutos até hoje, a exemplo da série Bates Motel, do Canal A&E, que foca na adolescência de Norman e estreou sua primeira temporada dia 18 de março nos EUA. Ainda que muito inferiores ao original e dirigidas por três cineastas distintos, não esqueçamos das continuações Psicose II (1983), Psicose III (dirigida pelo próprio ator Anthony Perkins, em 1986) e Psicose IV – O Começo (1990), além do (desnecessário) remake para o clássico, do cineasta Gus Van Sant (1998) e do documentário The Psycho Legacy (2010). Mesmo apresentando algumas falhas e divergências em relação ao livro que o originou e um Anthony Hopkins um pouco aquém da expectativa gerada, Hitchcock (talvez até mesmo o título esteja equivocado) possui seus méritos, seja por introduzir ao público Alma Reville ou simplesmente homenagear criador e criatura. Trata-se de um bom pretexto para (re)conhecer o cineasta inglês e suas vastas obras-primas e/ou para debruçar-se sobre a mente do perturbado Norman Bates, um dos personagens mais complexos e intrigantes que o cinema já conheceu.
(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)
Segundo místicos, o “Portal 11:11” foi aberto em 11/01/1992 e teve seu ciclo por um período de 20 anos. Concebido como uma lacuna ou ruptura entre dois mundos, este portal energético estaria ligado ao conceito de sincronicidade, de Jung. Entusiasta de tal filosofia cabalística a qual tem como preceito a coincidência desta combinação numérica (principalmente em relógios digitais), o compositor pernambucano Otto – que possui inclusive uma tatuagem dos dígitos nos dedos – lançou no final de outubro (o álbum chegou às lojas mais precisamente em 11/11) seu mais novo registro de estúdio. Cercado de simbolismos, definitivamente The Moon 1111 é um disco conceitual. Influenciado pelo “bombeiro incinerador de livros” Guy Montag, protagonista do filme Fahrenheit 451 (1966), do cineasta francês François Truffaut, o quinto álbum solo do artista mescla música [pop]ular brasileira com a psicodelia de The Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd e o afrobeat de Fela Kuti, músico nigeriano que Criolo nos ordenou escutar em Mariô.
Com uma discografia que transita por diversos estilos, do eletrônico à MPB, do manguebeat ao romântico, a verdade é que Otto sempre foi um transgressor de ritmos (não à toa a banda que o projetou como percussionista atende pelo nome de Mundo Livre S/A), que o digam Samba Pra Burro (1998), Condom Black (2001), Sem Gravidade (2003) e Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009). Ancorado pelos músicos Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Dengue e Pupillo (Nação Zumbi), que assumem respectivamente guitarra, baixo e bateria e a co-autoria em diversas canções, o álbum tem a produção também assinada pelo baterista da Nação e conta ainda com a participação do multifacetado Kassin. Figurando em várias listas de melhores discos de 2012, The Moon 1111 não tem analogia imediata com nenhum de seus trabalhos anteriores (seria cada álbum o fechamento de um pequeno ciclo?) e, apesar do título lunar é, até então, sua obra mais ensolarada. Gravado entre Peixinhos e São Paulo, o álbum mescla sonoridades orgânicas e experimentais, num paralelo entre a periferia afro (“qualquer favela carrega a África”, disse certa vez o cantor) do Recife e a cosmopolita terra da garoa.
Nos primeiros acordes de Dia Claro, canção que abre The Moon 1111, um Otto que parece saído da Jovem Guarda lamenta em off: ‘e pensar que sonhar era só viver/e pensar que amar era só se perder’, para logo desembocar num grito de libertação (era um sofrimento, um tormento, um sentimento que acabou!). A regravação de A Noite Mais Linda do Mundo – autoria de Donizete e famosa na voz de Odair José nos anos 70 – mantém a tônica piegas que permeia todo coração apaixonado. O primeiro single do álbum, a radiofônica Ela Falava – tecnopop oitentista que traz nos vocais a discreta participação da atriz Tainá Muller – parece evocar lembranças peculiares desse tal amor não-linear documentado no álbum. Na sequência, o candomblé eletrônico Exu Parade brinca com a sonoridade do título e eterniza o bordão populesco ‘chupa que é de uva’, presente namúsica homônima da banda Aviões do Forró. Já The Moon 1111, faixa que dá nome à obra, tem um groove regional que já acompanhava o músico em seu elogiado disco anterior.
A segunda metade do álbum traz Selvagens Olhos, Nego!, homenagem ao rapper paulista Sabotage, morto em 2003. Composta há quase 10 anos, a canção conta com os vocais da jovem cantora paraense Luê Soares nos belos versos ‘a vida bate calada, desafogada, bota pra valer/ensaiou o ano inteiro e por derradeiro, escorreu pelas mãos, entre os dedos’. Se HDeus flerta com uma espécie de disco rígido divino em clima psicodélico, Miss Apple e Zé Pilantra tem batuque e refrão incisivos (na vida tudo clareia/na vida tudo se apaga). Talvez a mais bela canção fique a cargo das cordas de O Que Dirá O Mundo, inspirada parceria com Lirinha (extinto Cordel do Fogo Encantado), onde declara: ‘eu divido contigo minha angústiae o meupão’. A ousada DP (gíria para dupla penetração) encerra o álbum celebrando o erotismo. Ao mesmo tempo em que Otto visita uma estética retrô-futurista, as 10 faixas de The Moon 1111 confirmam sua singularidade artística e apontam para “um novo começo de era”, onde todo aparente cenário caótico é transformador e revolucionário. Se ‘o melhor da vida é quando a vida se acaba’, não podemos dizer o mesmo sobre o álbum. Bora lá decorar o conteúdo desta obra.
(Larissa Mendes é dona de ouvidos lusco-fuscos e tem na Diversos Afins seu portal particular)
O diretor norte-americano Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums” e “Viagem a Darjeeling”) é reconhecido por seu perfeccionismo formal e por exibir em seus filmes um mundo particular povoado por personagens excêntricos que quase sempre apresentam algum tipo de desajuste social ou afetivo. Ele está longe de ser uma unanimidade. Seus detratores condenam os exageros e as “afetações” de seus trabalhos, outros conseguem enxergar nele a genialidade de grandes mestres, como o do seu conterrâneo Woody Allen, que imprimem em sua obra uma marca própria, tornando-a inconfundível.
Moonrise Kingdom, o novo trabalho do diretor, traz todas as características recorrentes em suas criações, no entanto, este não é um filme fácil de ser rotulado ou enquadrado em um determinado gênero. Ele é conduzido em tom de fábula unindo realidade a acontecimentos fantásticos, tornando-se assim rico em simbolismos e metáforas cujos sentidos vão além do que é meramente apresentado na tela. Se fôssemos descrever a história, não encontraríamos nada assim tão surpreendente. Contudo, não está aí o ponto forte da produção, o que impressiona mesmo é a forma que a narrativa é contada. As situações simples parecem adquirir um maior relevo e todos os elementos cinematográficos encaixam-se perfeitamente como em uma harmoniosa sinfonia ou nos movimentos mágicos de um malabarista.
Não é à toa que Anderson faz uma referência aos instrumentos musicais na película, a todo momento sentimos a sua presença a reger uma enorme orquestra. Tudo conduz sinestesicamente o espectador a se envolver com a trama. Os dinâmicos movimentos de câmera parecem nos colocar no interior de cada acontecimento e os enquadramentos da tela fazem com que vejamos através dos olhos dos personagens. A envolvente trilha sonora tem o poder de nos transportar para outros mundos. O artifício da narração e da leitura utilizado pelo roteiro cria um clima de cumplicidade ímpar com a história e seus intérpretes. As cores (em tons pastéis), o apurado figurino do anos 60, as encenações teatrais, tudo contribui para que os amantes do cinema sintam prazer do início ao fim da exibição. Algo mágico, difícil de ser descrito, instala-se.
Kara Hayward e Jared Gilman / Foto: divulgação
A trama se passa no verão de 1965 em uma fictícia ilha (New Penzance) na costa da Nova Inglaterra. Ela irá mostrar a aventura de um garoto (Jared Gilman) e uma garota (Kara Hayward) de 12 anos que se enamoram e decidem fugir juntos. A partir daí, viajaremos também em uma jornada sobre as descobertas do amor, amizade, companheirismo e dos percalços que marcam a passagem da infância para a vida adulta no melhor estilo de grandes filmes como Conta comigo (1986), de Rob Reiner, protagonizado por pequenos astros do cinema e baseado em um conto de Stephen King.
Os personagens do pessimista universo adulto são interpretados por grandes nomes do cinema. Bruce Willis desempenha o papel do carente e solitário policial da ilha; Bill Murray e Frances McDormand (Fargo), pais da protagonista, representam um casal de advogados que se sentenciam a viver uma relação fracassada e, Edward Norton, um desencontrado professor de matemática, incorpora o chefe dos escoteiros no seu tempo livre.
Moonrise Kingdom foi esnobado pelo Oscar 2013, sendo indicado apenas à categoria de roteiro original, assinado por Anderson e Roman Coppola. É, contudo, uma obra não usual que necessita ser descoberta. Um filme milimetricamente pensado e perfeitamente lapidado como um brilhante que brinca e arrisca com as formas e a arte de fazer cinema. Tudo isto, no entanto, sem perder a delicadeza e explorando com grande propriedade as sutilezas do sentimento humano.
(Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana)
Paisagem com cavalo (Editora 7Letras)é um romance-ensaio, uma metaficção, uma narrativa que brinca e desloca os conceitos literários. Já na página de abertura, deparamo-nos com um narrador nada complacente com o leitor, é um narrador saído das profundezas do subsolo. Embora se trate de um romance de estreia, ouso afirmar que Halley Margon queimou tantos outros antes deste, recuso-me a acreditar que estou lidando com um romancista inaugural.
Halley é o tipo de escritor que não precisa mendigar por leitores, não espera aflito por eles, até suspeito que os renega*. Mas, se por acaso os conquista, não os subestima. O autor em questão não precisa alimentar e nem manter os cães na soleira, quem decide segui-lo terá que acompanhar seus devaneios, embrenhar-se nas suas matas fechadas por conta própria, porque ninguém mais dormirá um sono sem pesadelos, ninguém sairá ileso ao corte de sua narrativa. Como o narrador alerta, a previsibilidade é uma das características mais nobres do aço. Talvez, o autor comungue dessa opinião, pois ele não tem medo de começar o romance contando sobre um suposto assassinato. Tal ousadia é a marca dos grandes, dos destemidos, como Sábato em O túnel. Ele tem essa coragem porque não precisa de leitores, somos nós quem precisamos dele.
Encontramos, nesse romance, todo tipo de linguagem. Em algumas partes, experimentamos uma linguagem mais poética, em outras, mais filosófica, em outras, tão fria e direta que se assemelha a uma literatura médica.
Tanto a arquitetura quanto a linguagem desse romance são impressionantes, ainda mais em uma época como a nossa em que se procriam (como se procriam bactérias e tão nocivas quanto) fórmulas fáceis. Ele não é um autor que acredita na facilidade, no enxugamento das frases, na eliminação da língua, é experimental e sabe que é necessário se submeter aos caprichos da escrita. Sabe que a escrita se esconde nas brechas, nas lacunas, nos devires, no fora de Blanchot. A língua é um fosso e apenas os escritores autênticos têm permissão para escavá-la.
No final do trajeto, percebemos que o verdadeiro drama relatado não é o assassinato, ele é ínfimo comparado ao resto. A verdadeira tragédia é o esquartejamento do homem contemporâneo, é a apresentação de um sistema (político, social, econômico, pessoal) precário, de engrenagens que não funcionam, não acoplam. A tragédia é a exposição de rostos sem face, de rostos suturados, de uma humanidade em estágio avançado de putrefação.
* O ouvinte não tem nenhuma importância. Não é para alguém que você tanto anseia contar. Você apenas conta/relata porque precisa. (p. 19)
(Marcia Barbieri é paulista. Possui textos publicados nas Revistas Literárias Coyote, Cronópios, Germina, Escritoras Suicidas e Meio Tom. Tem três livros publicados: dois de contos e um romance. É colunista da Revista Literária O BULE)