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75ª Leva - 01/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

ORQUESTRA IMPERIAL – FAZENDO AS PAZES COM O SWING

 

 

Se no começo da década passada Los Hermanos e seu Bloco do Eu Sozinho indagavam Cadê Teu Suín-?, quase num poema concretista, 11 anos depois a Orquestra Imperial – coletivo de músicos nada solitários radicados no Rio de Janeiro – parece responder: aqui está! Lançado em outubro pela Universal, Fazendo As Pazes Com O Swing celebra os 10 anos da big band e é dedicado a Nelson Jacobina, integrante do grupo desde sua fundação, morto em decorrência de um câncer poucos meses antes do disco ser finalizado. Não por acaso, uma espécie de Jacobina-Frehley verde-amarelo – que apesar da enfermidade participou ativamente como compositor, instrumentista e/ou arranjador em todas as faixas – estampa a capa do disco numa tônica da sempre aflorada brasilidade e irreverência da banda.

Formada pela vanguarda da cena musical atual e composta por mais de 20 nomes – entre eles, Wilson das Neves, Domenico Lancellotti, Moreno Veloso, Rodrigo Amarante, Rubinho Jacobina, Kassin, Duani Martins, Thalma de Freitas e Nina Becker, para citar alguns – e com apresentações ao vivo repletas de convidados especiais do porte de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jards Macalé, a Orquestra Imperial definia-se no início como um grupo de amigos dispostos a formar uma banda de gafieira descompromissada, que interpretasse boleros, marchinhas e clássicos de salão com novos arranjos. Dez anos se passaram e a definição foi atualizada (e sintetizada) para “jardim de infância para adultos”, tamanho o clima de alegria e diversão entre os integrantes, que fazem do grupo seu projeto paralelo-central.

Há muito tempo os bailes pré-carnavalescos da Orquestra Imperial movimentam os verões cariocas, desfilando em shows Brasil afora e em diversos festivais internacionais. Além de homenagear o eterno parceiro de Jorge Mautner, Fazendo As Pazes Com O Swing (batizado pelo bem-humorado percussionista Léo Monteiro, padrinho oficial dos dois álbuns) tem o compromisso de ser mais festivo e coeso que o estreante Carnaval Só Ano Que Vem (2007), quase unicamente composto por boleros e sambas-canções. Com produção de Berna Ceppas e Kassin, ambos componentes do coletivo, o álbum oscila entre bossa nova, samba, gafieira e demais ritmos latinos, com temáticas nostálgicas sobre o amor e os festejos de fevereiro. Salve às bodas [dançantes] de confete e serpentina.

Baile comemorativo 10 anos Orquestra Imperial / Foto: Caroline Bittencourt

Nina Becker introduz-nos ao álbum com a [des]aceleradora Moléculas e seu aglomerador de partículas eletrônicas e de percussão. Na sequência, a gafieira Tamancas do Cateretê, interpretada por Rubinho Jacobina, é uma boa prévia do tal swing que está por vir. Duani empresta sua voz e sua presença de palco à lá Tim Maia setentista (porém, sem os reclames) para, talvez, os melhores e mais carnavalescos momentos do disco: Cair na Folia e Velha Estória, esta última, composição de Domenico e Kassin. Completam o auge samba-no-pé, Aguenta Mais e a malandragem dos versos de Rubinho (pra viver na maciota dispensei o caviar/quando o santo não ajuda vou subindo devagar) e o sensacional pseudo-maxixe A Saudade É O Que Me Consola, onde Moreno Veloso e Wilson das Neves dividem os vocais. Thalma canta a doce Fala Chorando (ouço vozes que me dizem: nada tem explicação/pois mesmo a dor quer ser alegria), composição de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, e a sexy Enquanto A Gente Namora, parceria com João Donato. Para os saudosistas dos barbudos, tem Rodrigo Amarante e a sua poética-temporal Pode Ser (que presente eu ganhei/se o futuro ficou pra trás/o quê o passado tem pra dar?).

A sequência final traz a literalmente adocicada Alcaçuz e seu eterno jogo do amor e da mágoa, mais uma dobradinha Jacobina/Mautner interpretada por Nina Becker, e o lamento lírico de Moreno em Ouvindo Vozes, no melhor estilo pierrô & colombina. O veterano Wilson das Neves e sua bela Apaixonado (a paixão dói um bocado/mas quem rasga cicatriza o corte) encerram com romantismo o segundo cd da banda. Possui ainda a instrumental Mocotó em Tijuana, do trompetista Altair Martins, que poderia ser uma perfeita vinheta introdutória com ares de filme de ação para o novo baile-show da Orquestra. Em suma, a verdade é que, apesar de ser um álbum de estúdio e de inéditas, as 13 faixas de Fazendo As Pazes Com O Swing parecem captar a energia contagiante que a banda possui ao vivo, em todas suas nuances, desde a urgência de um grito pré-carnavalesco, passando pela folia em si e pelos amores de quatro dias, até a melancolia de uma quarta-feira cinzenta. Quem disse que todo carnaval tem seu fim?

(Larissa Mendes é ouvinte-plebeia e faz mensalmente as pazes com as palavras escrevendo para a Diversos Afins)

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

DA CARNE E SEUS SUBTERRÂNEOS

Por Fabrício Brandão

 

 

Para quem se embrenha pelo pantanoso terreno da criação literária, talvez não haja desafio maior do que adentrar as alamedas do erotismo. E não é simplesmente isso. O dilema que é posto aqui remonta à hercúlea tarefa de se transpor as muradas do óbvio e da gratuidade, construindo uma narrativa que se firme apartada de elaborações banais e, por assim dizer, descartáveis.

Se serve de consolo, há quem ainda consiga materializar em palavras impulsos valiosos numa literatura que se digne a decifrar certos esconderijos da carne. É quando um autor, utilizando-se de recursos cuidadosamente arquitetados, consegue efeitos que redimensionam a experiência de se estar vivo. Exemplo disso é o que acontece com Carnebruta (Ed. Apicuri/ Oito e Meio), livro de contos de Rodrigo Novaes de Almeida. Nele, o escritor, mais do que nos apresentar situações e cenários envoltos numa forte carga sexual, propõe um percurso por outros tantos becos do homem.

Conduzindo uma obra esculpida em carne e palavras, Rodrigo não nos conta boas novas nem tampouco atiça descobertas próprias do instinto humano. Se a cada um de nós é dada a faculdade de conhecer do próprio corpo um receptáculo portentoso do prazer, por outro lado, a mera representação de um desfrutar dos sentidos dá lugar a uma constatação de que o gozo maior se instala na crueza do ser.

Em Carnebruta, a pulsão sexual deixa de lado o simplismo da contemplação e canaliza suas forças para cruzar certos labirintos. E, assim, seu autor aposta em narrativas decididas, muitas vezes diretas, viscerais e ácidas, como se a intenção fosse golpear as percepções dos leitores mais desavisados. Não há espaço para devaneios, tampouco delírios baratos. Nesta viagem, somos convidados a perceber alguns aspectos que põem em xeque nossas vãs convicções, chacoalhando quaisquer enquadramentos que se pretendam moralistas.

Rodrigo é, antes de tudo, um provocador, tanto em seu modo de desarrumar os móveis da secular “casa dos costumes” quanto pelo fato de celebrar as pequenas epifanias da carne nossa de cada dia. Um jogo cênico vibra por entre seus contos, fazendo-nos crer que estamos diante de um livro de imagens. Numa aproximação com o cinema, os relatos desfilam arremates dignos de um bom curta-metragem. Seus personagens sabem tão pouco de suas imprecisas trajetórias como qualquer mortal que se preze.

Engana-se quem pensa que Rodrigo Novaes de Almeida, soando, alguns momentos, pornográfico, concentra seus esforços apenas numa frente. O percurso em Carnebruta visita todo tipo de paisagem, desde a mais cotidiana possível até aquela que é fruto de nossa projeção imaterial. Nesse ínterim, há espaço para uma curiosa nostalgia do futuro, marcada em passagens como as do conto inicial Valete-de-espadas. Nele, a “oportunidade única de uma segunda vida” contrasta com as inúmeras mortes que podemos experimentar quando nos achamos absolutamente vivos e respirando.

Com doses muito bem aplicadas de sarcasmo, algumas passagens do livro têm um arremate que lembra Nelson Rodrigues, sobretudo quando o assunto é a surpresa de certas revelações, encerradas no porão da consciência dos personagens. No confronto com o mundo de aparências ao qual estamos acostumados, Rodrigo posiciona o homem em toda a extensão de sua autofagia, traído que está pelos sentidos e pela miopia inerente à existência.

Carnebruta é um roteiro de percursos que retiram da vida seu véu sobejamente pudico. Demovendo excessos, seu autor forja os idiomas da pele e os converte em instrumentos hábeis das diversas e malfadadas travessias que fazemos. Mais do que desnudar a matéria que habitamos, é a alma quem aparece, arranhada e nada impune, a flutuar nas águas turvas do existir. Melhor assim, pois ao menos em parte estamos quites com nossos subterrâneos.

 

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Destaques Olhares

Olhares

MUNDOS NO MUNDO: A ARTE DE LUIZA MACIEL NOGUEIRA

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

A cada um, sua maneira de tingir o mundo. A cada um, a forma de emprestar significado às diferenças, espaços onde a singularidade aguarda ser descoberta. Uma poesia dos dias refugia-se em toda a sorte de recônditos. Ao artista, a tarefa de trazer à tona o despercebido, o algo que pulsa incessante nas camadas sensíveis da vida.

Quando a arte promove um encontro, celebra, sobretudo, as delicadezas da existência. Se alegria ou dor, pouco importa, a catarse ante a criação mais parece uma personagem bipolar, cujo temperamento firme e decidido nos projeta em múltiplas e inexplicáveis dimensões.

É bom identificar muito do que foi dito acima nos traços de artistas como Luiza Maciel Nogueira. Em seu ofício, a desenhista engendra mundos e confere a eles vibrações de mistério. Sua arma, a profusão de cores e formas que conclamam uma espiral do tempo. É como fazer uma viagem a paisagens familiares e, noutros momentos, a domínios distantes e inusitados.

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

No apelo sugerido por suas marcantes cores, Luiza mergulha fundo no frágil fio da vida, como se fosse possível reter dali alguma espécie de acalanto para a alma. Neste trajeto, há muito por se deparar. Seja na representação do universo feminino, no olhar sublime em torno da natureza ou na dimensão conferida ao amor, a artista consolida a seu trabalho uma inalienável força lírica.

Fazendo girar o ciclo da invenção de outros mundos, alguns dos desenhos de Luiza Maciel Nogueira também incorporam arremates psicodélicos. Tal sensação experimenta percursos em outras tantas vias que os sentidos, nos mais variados níveis de abstração, podem ofertar.

Movida apaixonadamente pelos quadros de Van Gogh, a artista confessa que o desenho se manifestou em sua vida como instrumento de expansão da consciência e do autoconhecimento.  Abraçada à poesia da existência, Luiza vivencia caminhos, deixando se levar pela observação de tudo aquilo que é compatível ao ritual dos mistérios humanos.

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

* Os desenhos de Luiza Maciel Nogueira são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 75ª Leva

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TRANSMISSOR – NACIONAL

 

Não há nada mais valioso do que poder usar dos recursos da liberdade e fazer ecoar a própria voz. Na seara musical, isso até pareceria uma mera redundância não fosse a perspectiva de também se poder passar algo coerente através das canções. E é aí que entra a veia autoral a atravessar espaços com sua sedutora proposta de autenticidade.

Talvez seja um exagero falar de originalidade abundante em matéria de criação musical. Mesmo a máxima caricatural do “nada se cria, tudo se copia” revela em si o germe da transformação das coisas que, ao final das contas, sempre estiveram no mundo, seja de modo latente ou explícito. Importa mesmo saber quem percebeu a faísca inicial de algo e, com isso, promoveu a aparição do supostamente novo?

Escutar o trabalho da banda mineira Transmissor pode servir como uma sucinta e serena resposta a isso tudo. E predicados não faltam aos moços de Belo Horizonte quando o assunto é converter olhares sublimes sobre a vida em forma de letra e música de qualidade. Da reunião de Thiago Correa, Leonardo Marques, Jennifer Souza, Henrique Matheus e Pedro Handam, surge um ambiente sonoro carregado de sensibilidade e, o que é melhor, conteúdo.

Nacional, segundo disco da banda, é desses álbuns que atrai pelo conjunto. Há lugar para tudo ali, tanto para densidades típicas de nosso incorrigível trajeto pelo mundo quanto para a leveza necessária ao olhar por vezes aborrecido de todo o tipo de gente. É assim que, sem levantar falsas esperanças e tolas bandeiras, a trupe do Transmissor chega desnuda aos nossos ouvidos e nos apresenta um trabalho cuja simplicidade nem de longe representa um raso mergulho por sobre as coisas da existência.

Transmissor / Foto: divulgação

Pensando um pouco sobre essa miríade de sensações, é que conseguimos entender porque uma canção como Bonina merece ser eleita uma espécie de síntese do disco. Há ali uma leitura possível sobre as relações que suplanta a gratuidade tão recorrente do tema. Fala-se de amor sem, no entanto, repetir fórmulas, apelos desgastados ou subestimar a inteligência de quem escuta cada uma das faixas. Nesse percurso, músicas como Vazio, Outra Ela, Longe Daqui e Hoje ilustram bem a habilidade do grupo em se mover pelo pantanoso território das emoções.

Ao traço pop rock de Transmissor vem se juntar um repertório cujas escolhas melódicas refletem um cuidado com arranjos e outros importantes detalhes. Além disso, o revezar de vocais entre Jennifer Souza, Leonardo Marques e Thiago Côrrea é um retrato lírico de como as composições são interpretadas no seu mais preciso teor. Transportar, por exemplo, a especialíssima Nada Será Como Antes, canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e que é verdadeiro símbolo do Clube da Esquina, para Nacional só trouxe mais vigor ainda ao disco. Sem dúvida alguma, um ingrediente bem digno de uma valiosa referência das férteis paragens mineiras.

Num cenário no qual se multiplicam artistas e bandas das mais distintas frentes, não seria precipitado apontar Transmissor como sendo um grupo que tem muito ainda a oferecer. Pelo engajamento de seus componentes e, claro, o resultado direto de seus dois trabalhos já lançados, o caminho futuro afigura-se aberto. E a espera vale a pena quando se tem algo consistente e despretensioso a dizer.

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Caminhando descalço sobre o piso de tábuas

Por Adriana Zapparoli

 

 

 

Para sobrevoar o livro “Nagasakipanema” (Editorial Práxis, México, 2011) de Víctor Sosa há de se estar disposto ao acolhimento da contradição: pairar com uma asa por sobre a bomba atômica e com a outra sobre a ambiência delicada de uma praia brasileira.

Coleóptero no ambiente. Atravessa janelas, o nácar das savanas, o desprendimento da infusão (jasmim), os anais de Larousse abertos em sua boreal quietude.

Coleópetero en lá habitación. Atraviesa ventanas, el nácar de las sábanas, el desprendimiento de la infusión (jasmín), las analectas del Larousse abierto en su boreal quietud (46)

Posiciono-me perante a tradução de poesia na qualidade de leitor e nunca como tradutor profissional que viaja permanentemente entre duas línguas. Interessam-me, sobretudo, as emoções e as experiências que recebo de uma construção poética agregada à liberdade de sua manifestação e cercando o leitor para diferentes saídas e entradas diante das múltiplas possibilidades.

Víctor Sosa (Uruguai, 1956) é um poeta de inserção, e começa o seu livro anunciando um motim com uma capacidade imagética muito sofisticada. Há liberdade em código de escrita.  No decorrer do livro, os textos apresentam a quebra da sintaxe. As palavras assumem significado próprio.  São curvas e híbridos com um toque de surrealismo, em tempos históricos, com a mistura incomum de diferentes elementos.

Há ratas no porão – lhe sussurra ao ouvido a advogada – mas ele entende mal e diz: ratos no ático.

Hay ratas en el sótano – le susurra al oído la abogada – pero él entiende mal y dice: ratones en el ático (163).

Há manifestação de inteligência criativa. Além da força sonora há conflito e tensão de linguagem.  Muitas vezes, a leitura promove a sensação de se caminhar em areia movediça. Identifica-se uma tentativa de recompor a confusão mental que o poeta sofreu no momento de sentir ou intuir a prosa-poética. Ironia e criatividade.  Cada prosa-poética possui uma velocidade de respiração própria e organizada.

Pode ser cancerígeno se olhar de frente… Catorze dedos na garganta da menina puxaram o cação ali atracado.

Puede ser cancerígeno si se mira de frente… Catorce dedos en la garganta de la niña sacaron al cazón ahí torado. (53)

Nagasakipanema é um livro escrito em castelhano, mas contaminado por outros idiomas. Utiliza-se de termos técnicos, de referenciais acadêmicos em ciências médicas e biológicas de maneira pontual.

O caráter espasmódico do ódio feito que se deletara. A vasodilatação da bochecha chegou a tal ponto que desviou o eixo da medula espinhal e secretamente, entre a quarta e quinta vértebras, uma protuberância côncava que podia se palpar desde o paladar.

El carácter espasmódico del odio hizo que se deletara. La vasodilatación de la mejilla llegó a tal grado que desvió el eje de la médula espinal y secretó, entre la cuarta y quinta vértebra, una gibosa protuberancia que podía palparse desde el paladar. (207)

Nagasakipanema não é um livro fácil. O autor trata a poesia que pode se tornar um tormento para o seu leitor. Porque fatalmente o faz mergulhar na sua brutal ignorância ou ascender a uma condição intelectual imensurável. Dada a sua robusta condição formal, a poesia exige do leitor paciência. Ele deverá investigar a linguagem e desfazer o poema para buscar o seu entendimento.

Apenas alguns golpes na nuca apressadamente dados com o cotovelo; um trovejar amostrado de metatarsos amplificado pela fossa séptica.

Apenas unos golpes en la nuca apresuradamente dados con el codo; un sampleado tronar de metatarsos amplificado por la fosa séptica. (101)

Investigar a forma permite reavaliar a capacidade múltipla e inquietante de pensar e agir. Diria que esta é exatamente a sua essência; ela é única e, ao mesmo tempo, múltipla.

E segue a prosa-poética, que se esquadrinha em exercício estilístico inventivo rico, onde Víctor não precisaria finalizar o livro.

Você participa, apesar da enxaqueca, e caminha descalço sobre o piso de tábuas sentindo os tendões, os músculos, o movimento e a resistência de suas pernas diante de um exercício sem sentido.

Te incorporas, a pesar de la jaqueca, y caminas descalzo sobre el piso de tablas sintiendo los tendones, los músculos, el movimiento y la resistência de tus piernas ante um ejercicio sin sentido. (123)

Traduzir Víctor Sosa para o português é um desafio. Diria quase um delírio.  Porque ele é livre.  Nele nada é tão linear, tão lógico e previsível.

 

Referências:
 
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo na poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

HUTCHEON, Linda. Poética da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 2003.

 

PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1996.

 

 

(Adriana Zapparoli  (Campinas – São Paulo) é escritora e poeta. Realizou pós-doutoramento pela Universidade Estadual de Campinas (SP). Publicou A Flor da Abissínia (versão bilíngue), em 2007; Cocatriz, em 2008; Violeta de Sofia, em 2009; Tílias e Tulipas (versão bilíngue), em 2010; O Leão de Neméia, em 2011; Flor de Lírio (versão bilíngue), em 2012, todos editados pela Lumme Editor (Bauru – SP))

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Jogo de Cena

Jogo de Cena

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEATRO DE ARTHUR MILLER

Por Geraldo Lima

 

Arthur Miller / Foto: Monica Almeida

 

Devemos nos alegrar sempre com o surgimento de um dramaturgo que consiga explicitar, de modo criativo e contundente, as múltiplas facetas das relações humanas.  E que o faça de tal modo que o espectador, diante do palco, sinta-se instigado a refletir profundamente sobre si mesmo e sobre o mundo em que habita, embora toda a ação dramatizada ali transcorra num cenário e numa cultura bem diversa da sua. Arthur Miller, autor de algumas das peças mais importantes da cultura ocidental, pode ser citado como um desses dramaturgos fundamentais para entendermos a alma humana.

Arthur Asher Miller, filho de um casal de imigrantes judeus polacos, nasceu em Nova Iorque, no ano de 1915, e faleceu na cidade de Roxbury, estado de Connecticut, em 2005.  Viveu, portanto, um longo período e pôde, como dramaturgo, jornalista e cidadão norte-americano, vivenciar momentos dramáticos da História humana e do seu país, como a Segunda Guerra Mundial e a Crise de 29 (ou Grande Depressão).

Este último fato histórico teve impacto direto na vida do autor de A morte de um caixeiro-viajante porque afetou, diretamente, a vida financeira de sua família: seu pai, empresário do ramo têxtil, viu-se falido e obrigado a mudar, com a família, para o bairro do Brooklyn. Esse acontecimento dramático na vida do autor vai ser retomado na peça Depois da queda, mais precisamente no embate entre o protagonista Quentin e o seu pai surpreendido pela bancarrota dos negócios.  A peça é, na verdade, um acerto de contas do autor com o seu passado, e esse confronto entre pai e filho, num momento de crise financeira, representa o que Arthur Miller viveu na juventude, daí Quentin poder ser tomado como seu alter ego. Desse modo, o teatro que ele vai desenvolver refletirá, sobremaneira, a sua experiência de vida.  Sem cair, obviamente, no mero registro autobiográfico: a crítica feroz ao american way-of-life e às injustiças sociais impostas pela competitividade capitalista estão no cerne de boa parte de sua obra teatral.  Um exemplo claro disso encontra-se na já referida peça A morte de um caixeiro-viajante (Death of a salesman), escrita em 1949 e pela qual ganhou o prêmio Pulitzer.

Nessa obra, de uma carpintaria dramatúrgica impressionante, o ambiente naturalista vai sendo envolvido pouco a pouco pelo onírico e pelos efeitos delirantes da memória do protagonista, o caixeiro-viajante Willy Loman. Miller retrata a queda desse homem, cujos alicerces éticos e morais foram erguidos sobre a frágil segurança da mentira e dos sonhos de grandeza, com rigor psicológico e olhar crítico.  São “fraturas no sonho americano’, nas palavras de Otavio Frias Filho, que vão sendo expostas nesse caso. Diante das atitudes do protagonista, somos levados, pelo talento dramatúrgico de Arthur Miller, a dupla reação: ora aderimos à sua causa, ora nos opomos a ele com quase nojo. Aderimos à sua causa ao percebermos que ele está sendo engolido pela máquina capitalista e sem se dar conta disso. Mas rejeitamos, com veemência, o modo com que ele, na posição de pai e marido, vai, ao longo do tempo, estragando os filhos e sujeitando a esposa ao seu comportamento obsessivo, egoísta e estúpido. O conflito familiar que se instaura aí, com uma força assustadora, é resultante dessa cultura forjada a partir das exigências de um sistema econômico que leva alguns indivíduos a buscarem de forma predatória o seu lugar ao sol. O fracasso de Willy Loman, como pai, marido e caixeiro-viajante, expõe, assim, a fragilidade de um projeto de vida cujo valor maior se encontra alicerçado na supremacia da aparência física sobre a do conhecimento sistematizado – este último, representado pela figura vitoriosa do jovem Bernard. São palavras de Willy dirigindo-se aos filhos Biff e Happy: “Foi isso mesmo que eu quis dizer, o Bernard pode ter as melhores notas da escola, entende, mas quando sair para o mundo, entende, vocês dois vão estar cinco vezes na frente dele.  Por isso é que eu agradeço a Deus do céu vocês dois serem feito dois Adônis”. No entanto é ele, Bernard, que, trilhando o caminho apontado pelo sonho americano, triunfa como advogado.

Arthur Miller e Marilyn Monroe / Foto: Evening Standard/Getty Images

Dentro do otimismo do sonho americano não há lugar para fracassos, não há lugar, enfim, para indivíduos como Willy Loman. As palavras da professora Daise Lilian Fonseca Dias, no seu artigo “O fracasso do sonho americano em A morte do caixeiro-viajante de Arthur Miller”, iluminam mais ainda o que foi dito: “Seu sonho fracassou porque estava centrado na fantasia e em ideias tão vagas e contraditórias quanto as que seus antepassados idealizaram e que até hoje impulsionam o homem americano para uma busca frenética pelo sucesso econômico, sem, contudo, permitir a ideia de um fracasso”.

O teatro de Arthur Miller desnuda, de forma corajosa, todas essas contradições presentes no arcabouço do tão propalado sonho americano. Miller é, ainda, nas palavras da professora da Universidade Federal de Campina Grande, Daise Lilian Fonseca Dias, “o poeta da consciência política”. Essa sua consciência política estava, de certo modo, ligada às ideias comunistas. Por conta disso, em 1956, após ser denunciado pelo diretor de teatro e cineasta Elia Kazan, viu-se intimado a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso. Num gesto de extrema nobreza, recusou-se a apontar colegas ao Comitê. Na peça Depois da queda (After the fall), o autor enfoca, de maneira crítica, essa passagem lamentável da História da democracia americana. E é sobre essa peça, a cuja montagem tive a oportunidade e a felicidade de assistir em Brasília, no teatro do CCBB (Centro Cultura do Banco do Brasil), que falo na resenha abaixo:

 

Um Arthur Miller de encher os olhos

O bom texto teatral, como qualquer obra de arte, é aquele que nos faz penetrar num mundo vasto, do qual só podemos emergir outro. Uma obra assim nos permite perceber as relações humanas nos seus mais diversos matizes, dos conflitos amorosos ao embate político ou ideológico, da amizade mais sincera à traição que sempre aniquila. Vemos o ser humano, nesse caso, em sua plenitude: capaz de mesquinharias e de gestos heroicos. Tomando emprestado o discurso de Nietzsche, humano, demasiado humano, é assim que o vemos. A sua alma vaza pelos poros. Ali, no palco, na figura dos atores e das atrizes, a vida se descortina assustadoramente bela e trágica diante de nós. É para fora do nosso eixo de comodidade que somos arrastados todo o tempo. É nossa consciência que é fustigada sem trégua.

Tudo isso pode ser atribuído à peça que Arthur Miller escreveu após a morte da atriz Marilyn Monroe, com quem foi casado de 1956 a 1961. Depois da queda, escrita em 1964, mostra, de modo impiedoso e, às vezes, bem-humorado, o cenário político dos Estados Unidos durante a caça aos comunistas (e aqui o autor dessacraliza também a visão romântica do intelectual engajado), sua relação com a família e, obviamente, com o mito Merilyn Monroe. Arthur Miller não fala diretamente da sua vida. É na figura de Quentin, um advogado bem sucedido, e de Maggie, uma pop star depressiva, que ele traz à tona o seu passado.  É, claramente, uma obra autobiográfica, mas que vai além do expor os percalços amorosos e familiares do autor.

Depois da Queda / Foto: Daniele Avila

 

Esta nova montagem da peça do dramaturgo norte-americano, ganhador do Prêmio Pulitzer de 1949, tem tradução e direção de Felipe Vidal e conta com a participação de um elenco afinado: Simone Spoladore, por exemplo, se sai muito bem no papel de Maggie/Marilyn Monroe. Lucas Gouvêa (Quentin/Arthur Miller), com memória invejável, leva sua fala ácida e caudalosa de ponta a ponta sem grandes escorregões. Gostei, particularmente, da atuação da atriz Thais Tadesco (Holga, Rose): sensível e ágil na passagem de uma personagem a outra. Repito: o elenco é afinado. E é isso, aliado à qualidade magistral do texto, que faz com que o espectador se mantenha ligado durante as três horas de duração do espetáculo.  A peça fez sua estreia nacional aqui em Brasília no dia 19 de outubro de 2012, no CCBB (escrevo esta resenha no dia 10 de novembro, um dia antes de ela encerrar sua temporada por estas bandas). Daqui, parte para uma turnê nacional (só não sei se será apresentada apenas em teatros do CCBB).  Fiquem, portanto, bem atentos, pois este é um espetáculo teatral imperdível.

(Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo. Tem alguns livros publicados, dentre eles Baque (contos, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado (peça de teatro, Ponteio Edições).  É colunista dos sites Dona Zica tá braba, O BULE e Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Amor (Amour). Áustria/França/Alemanha. 2012.

 

 

 

“- É bela.
– O quê?
– A vida. Tanto tempo. A vida longa”.

 

Os passos juntos já não são os “da dança sob a Ponte d’Avignon”, são de suporte para atividades básicas como sentar em uma poltrona ou levantar do vaso sanitário. O auxílio para despir a roupa, não mais erótico e sim de amparo. O desjejum na cama, outrora sinônimo de romantismo, é hoje uma necessidade. O vigor do sentimento mais sublime que pode existir é tão feroz quanto à degradação da matéria e da memória. Ambientado em Paris, Amor, longa-metragem mais recente do cineasta austríaco-alemão Michael Haneke e vencedor da Palma de Ouro como Melhor Filme no Festival de Cannes 2012 é um retrato seco e dilacerante (de 125 minutos) da inevitável passagem do tempo.

Anne (Emmanuelle Riva, da nouvelle vague Hiroshima Mon Amour, de 1959) e Georges (Jean-Louis Trintignant, afastado há quase 15 anos das telas) são octogenários ex-professores de música erudita. A única filha, Eva (Isabelle Huppert, que volta a trabalhar com o diretor 11 anos após A Pianista), também instrumentista, vive com o marido em Londres. Após um procedimento cirúrgico, Anne sofre um AVC e tem o lado direito de seu corpo paralisado. Diante da decadência gradual provocada pelas sequelas da cirurgia, a idosa diz ao marido que não vê mais nenhuma razão para continuar vivendo. O que se observa, a partir disso, é um constante esforço do casal Laurent em aceitar o sofrimento da perda iminente à base de muita paciência, elegância e de todo o amor sugerido pelo título da película.

Aliás, mais que o amor, é o comprometimento com a dignidade o verdadeiro sujeito do filme. Compassivo e realista, Haneke traz uma abordagem rigorosa para a velhice, sem, contudo, tornar-se piegas ou alarmista. Nunca veremos Anne na assepsia de um leito hospitalar, por exemplo, já que praticamente todo o longa se passa dentro do amplo apartamento do casal. Repleto de simbolismos e elementos oníricos, Amor celebra vida e morte, sacrifício e piedade, sanidade e demência, além de tecer uma crítica velada à terceirização de cuidados em clínicas e asilos. Haneke  contempla-nos ainda com sopros de ternura e humor, principalmente quando Anne aprende a locomover-se em uma cadeira de rodas motorizada ou quando uma verborrágica e inconveniente Eva discorre friamente sobre o mercado financeiro enquanto sua mãe, confusa, balbucia palavras desconexas. E a filha tem o disparate de protestar ao pai: Ela só diz bobagem!”.

Protagonizado por dois lendários atores do cinema francês em densas interpretações e eleito como o Melhor Filme Europeu do ano pela Academia Europeia de Cinema (conquistou também os prêmios de melhor atriz, ator e diretor), Amor é o representante da Áustria como pré-candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2013 e acaba de ser indicado na mesma categoria ao Globo de Ouro. Tal qual em Caché (2005) e A Fita Branca (2009), Haneke prossegue seu cinema cadenciado, polêmico e violento mesmo que a violência aqui assuma outro viés , capaz de colocar a plateia numa desconfortável posição de “voyeur apocalíptico”. Ainda que menos impactante que seus outros premiados filmes, é impossível sair incólume do cinema, justamente pela simplicidade e crueza emanada pelo Amor hanekeano. Afinal, de uma forma ou outra, o amor quase sempre provoca dor.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. Brasil. 2010.


 

“(…) Mas só viveu de fato quem conheceu luz e sombras”.

É inquestionável que O Bandido da Luz Vermelha (1968), primeiro longa-metragem de Rogério Sganzerla, então um jovem crítico de cinema de 22 anos, tornou-se um manifesto do denominado cinema marginal. O filme – baseado na história de João Acácio Pereira da Costa, lendário assaltante de mansões paulistanas que usava um lenço para cobrir o rosto e uma lanterna de bocal vermelho – revela todo o experimentalismo, estrutura díssona e estética radical que romperam o tradicionalismo narrativo da época, ignorando censura e mercado e conquistando público e crítica. Endossado por nomes como Ozualdo Candeias, Andréa Tonacci, Júlio Bressane e João Silvério Trevisan, os marginais foram grandes entusiastas da ironia e da subversão da linguagem cinematográfica brasileira. Pressionado pela ditadura militar, o movimento teve seu fim em meados da década de 70, com vários cineastas exilados na Europa. Sganzerla faleceu em 2004, vítima de um tumor cerebral, mas deixou como legado o que seria o roteiro original de uma continuação deste clássico: Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, adaptado anos depois pela atriz Helena Ignez (viúva do cineasta e sua eterna musa) e transformado quase em projeto familiar, produzido e protagonizado pelas filhas do casal.

Jorge Prado – uma das identidades do Bandido da Luz Vermelha – ou simplesmente Luz (Ney Matogrosso) é um prisioneiro de si mesmo. Condenado a 300 anos de cadeia e recluso há 30, o “malandro forçado pelas circunstâncias” viu sua pena gradativamente reduzida (e suas regalias atendidas) de acordo com os crimes não-resolvidos que assumia ser autor. Os mais atentos logo questionarão: como pode Luz estar preso se ele morre eletrocutado no filme de 68? Ao que o próprio detento protesta enquanto assiste a cena: “– Não foi assim que eu ensaiei pra morrer!”. Jorge Bronze (André Guerreiro Lopes), codinome Tudo-ou-Nada, é filho de Luz, fruto de seu relacionamento com Olga (Sandra Corveloni), uma das muitas mulheres que realizam suas fantasias sexuais em visitas íntimas na prisão. Tudo-ou-Nada ingressou na marginalidade ainda moleque, cometendo pequenos furtos antes mesmo de saber sua filiação famosa. Após a revelação da mãe, torna-se uma espécie de sucessor de Luz Vermelha (ou de Michel Poiccard, em referência ao personagem de Acossado, de Goddard), tanto na indumentária criminal quanto ideológica, cujo lema é “ouro ou euro”.

Ney Matogrosso na pele do Luz Vermelha

Vale salientar que em nenhum momento Ney Matogrosso fica intimidado pela sombra de Paulo Vilaça (o bandido original): o cantor está magnífico e totalmente entregue no papel de um Luz Vermelha enjaulado e amargo, que se exercita com aparelhos improvisados, lê Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, recita Kant em espanhol, declama com veemência profundas reflexões sobre a prisão e a vida, e faz uma performance de seu próprio Sangue Latino. O longa (que à primeira vista pode ser confundido com título de terror) conta ainda com rápidas participações de Bruna Lombardi, Maria Luísa Mendonça, Simone Spoladore, Paulo Goulart, Sérgio Mamberti, Arrigo Barnabé, José Mojica Marins, Thunderbird e Criolo. A própria Helena Ignez está no elenco como Madame Zero, uma antiga confidente de Luz, assim como sua filha Djin Sganzerla, que interpreta Jane, personagem homônima e semelhante (inclusive fisicamente) ao de Helena no primeiro filme. As “Janes” são namoradas, respectivamente, de bandido-pai e bandido-filho e protagonizam a mesma cena a bordo de um Galaxie conversível em direção à praia.

Menos que uma sequência e mais que um remake (além da inserção de cenas do original, estrutura, planos e mesmo determinados diálogos se mantêm idênticos), Luz nas Trevas é um tributo a criador e criatura. Montado em 2010, o filme participou de alguns festivais e sofreu vários cortes até chegar a sua versão definitiva, lançada oficialmente sem muito alarde somente este ano. Dirigido por Helena Ignez em parceria com Ícaro C. Martins, a película revisita e reverencia um artista e sua principal obra que – mais de 40 anos depois – continua moderna e transgressora. Mantendo o discurso político do filme referencial, através de locuções radiofônicas sensacionalistas (com narrações também de Helena, Ney Latorraca e Gilcivan Carvalho) e de uma coletânea de frases de efeito (várias delas em letreiros luminosos), Luz nas Trevas permanece criticando a mídia e a polícia, o sistema carcerário (“numa penitenciária ninguém se penitencia de nada”) e a justiça brasileira (“os grandes espertalhões do Brasil não vão pra cadeia”). Definitivamente o cinema-herança do catarinense Sganzerla segue vivo, contestador e atemporal. Se há luz nas trevas [da prisão], por que não haveria originalidade na aparente mesmice?

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

DELIA FISCHER – PRESENTE

 

 

Quando nos deparamos com a descoberta de um disco, muitas podem ser as direções para as quais nossos sentidos apontam. Se arranjos, vocais e toda a ambientação instrumental já são, por si sós, componentes indispensáveis de um adequado conjunto sonoro, imagine os efeitos quando uma determinada obra transcende a materialidade e nos desloca para um cenário onde habita o intangível.  É o que a cantora e compositora Delia Fischer nos proporciona em seu Presente, álbum que nos conduz por uma atmosfera de sensações etéreas.

Desde seus primeiros caminhos, Presente se revela um trabalho que prima pela densidade. Tudo ali é dotado de uma força delicada e de uma maneira sublime de se sentir e perceber a vida. É como se cada canção fosse revestida de uma aura carregada de contemplação e êxtase. E não é prematuro arrematar que o fio condutor do álbum é uma vigorosa celebração da existência. Quiçá um caminho de escutas espirituais.

De imediato, duas virtudes são caras ao belo resultado do disco: a interpretação e o piano da artista. Nenhuma música passa despercebida por seu canto suave e cativo. E as composições, quase que inteiramente arquitetadas por ela, pedem uma entrega à qual Delia não se furta. Sentir faixas como Vozes no Mato, Das Plantas (com uma participação bastante especial de Hermeto Pascoal), Aluvião, Nascimento da Vênus e Sozinhesa é constatar que Presente é um disco feito de profundidades. Avançando nas escutas, não tem como deixar passar impune a força de canções como Das Águas, Mercado e Minha Avó, todas elas a construir um painel feito de memórias e apelos sinestésicos.

Sem dúvida alguma, um aspecto marcante no disco é a influência de Egberto Gismonti que, além de ser parte fundamental da formação musical de Delia, assina juntamente com ela a canção que dá título ao álbum. Outros nomes são também importantes na construção de Presente, tais como o de Pedro Mibielli (violino), Luciano Correa (cello), Pedro Guedes (violão, programação e arranjo) e Marcio Bahia (bateria e percussão).

Misturando evocações à natureza com percursos pelos recônditos humanos, Delia Fischer consolida um trabalho marcado pela singularidade. Há um caminho pelo qual um olhar sereno e poético confere amplitude ao fato de se estar no mundo. As imagens que povoam o álbum revelam que, por mais delicada que seja a vida, urge-nos atravessá-la com toda a sorte de coragem e entrega. O resto da travessia é feito de luz e mistério.

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TULIPA RUIZ – TUDO TANTO

 

 

 

Tulipa Ruiz ataca de novo: fato consumado. Não foi uma emoção “efêmera” acreditar que a cantora e compositora aconteceria bem mais do que um instante primeiro. Não, não foi. E o ato de pensar que as coisas não cabem em si mesmas pode até justificar, de imediato, o título da nova investida. Tudo Tanto é, sim, uma espécie de incontido, talvez o algo indefinido da pós-modernidade. E deixemos de lado as redundâncias aparentes desse somatório de palavras que se traduzem no rumo da intensidade.

O segundo disco dessa arrojada criadora é um beijo de língua na contemporaneidade. Sem exageros e afetações, a moça se agarra ao presente como o único lugar quase certo que habitamos. Seu canto preciso emana de lugares que não deixam a vida parar de girar. Nada de promessas do paraíso nem tampouco receitas prontas de felicidade, principalmente quando a tônica é falar do amor e seus apetrechos. Viver, aqui, é fazer travessias sem saber o que está do outro lado. A receita é tatear o invisível e não profetizar os desvios. Apenas seguir.

A marca autoral de Tulipa confere uma singularidade aos caminhos percorridos, tanto que seu traço criativo está espalhado por todas as faixas do disco. Diga-se de passagem, o peso que a porção de compositora exerce sobre o trabalho da artista é significativo e reforça as bases de um perfil cada vez mais próprio. Se em Efêmera (primeiro disco da cantora) já tínhamos pistas do terreno valioso no qual nossos ouvidos estavam penetrando, agora fica a certeza de que algo muito melhor estaria à nossa espera.

Tudo Tanto é, sobremaneira, um disco sensorial, repleto de experiências não apenas sonoras, mas também imagéticas e quiçá táteis. A canção “É”, por exemplo, espécie de abre-alas, já nos coloca em conexão com a dinâmica dos sentimentos sublimes em torno do amor e da vida. E tudo ali a passar como num filme no qual cada um de nós se identifica à sua maneira. De fato, o que há de sobra no álbum é uma multiplicidade de cenários possíveis para nossa volátil existência.

Cada trecho desse agradável percurso musical tem algo a ser degustado e digerido sem medo de reações adversas. Mais provas? Basta captar as vibrações de Ok, Quando eu achar, Desinibida, Dois Cafés (com Lulu Santos), Bom e Cada Voz. Em Víbora, canção escrita em parceria com Criolo e que pode muito bem servir como verdadeiro ápice do disco, Tulipa mostra que seu momento é precioso, intenso e agarra com todas as forças de sua lírica voz o universo que a canção lhe oferta.

Para tornar o ambiente ainda mais especial, é impossível passar despercebido pelos arranjos de cordas e madeiras assinados por Jacques Mathias e devidamente regados a violino, violoncelo, viola, clarinete, flauta e clarone. Some-se a isso o dedo valioso de Gustavo Ruiz, irmão da cantora, na produção do álbum e na composição de algumas canções.

Em sua atmosfera essencialmente pop, Tudo Tanto é bem construído em forma e conteúdo. A simplicidade das letras ganha uma dimensão mais ampla quando somada ao precioso trabalho vocal de Tulipa e aos vigorosos arranjos. Falar de relações, sobretudo amorosas, não é tarefa das mais fáceis. E isso parece fluir com certa leveza nas mãos habilidosas da artista que sabe, como ninguém, transitar por lugares que tiram a maioria das pessoas do sério. No embate entre sentimentos certeiros ou imprecisos, tudo se desloca para adiante e o passado pode representar apenas uma mera lembrança nada nostálgica. Tudo isso talvez “porque estar vivo já foi mais estranho”.

 

 

* Tudo Tanto está disponível para download no site da artista