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72ª Leva - 10/2012 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Psi, a penúltima

Por W. J. Solha

 

 

SF,

fica difícil falar sobre seu Psi, a penúltima depois de ler o Apêndice III do livro, com o que você chamou de Ecos da Crítica e da Generosidade. Não desato as sandálias de nenhum de seus comentadores, com os quais concordo totalmente, claro. Mas – como também faço versos – chamou-me a atenção a declaração de Lorca, citada no prefácio do Gerardo Mello Mourão:

Yo no puedo, yo no sé hablar sobre poesia. Yo la tengo aqui en mis manos, sé que está quemando mi piel, pero no lo sé lo que es.

Essa afirmação me leva diretamente às Confissões de Santo Agostinho:

O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei

Coincidência ou não, vejo-me, de repente, com dois enigmas colocados de um mesmo modo: poesia e tempo. E me pergunto – oportunista – se o segredo da poesia, o segredo da sua poesia, não estaria…  no tempo.

Explico-me.

Lembro-me de que quando era garoto, lá em Sorocaba, São Paulo, ouvia sempre um vizinho, mineiro, cantar, deitado na rede, acompanhando-se no violão, a música “Felicidade”, apressada, como Lupicínio Rodrigues a compusera. Nem perca tempo de ouvi-la inteira, aqui. Basta a primeira estrofe, pra ver, em seguida, onde quero chegar:

Felicidade foi embora
e a saudade no meu peito
ainda mora,
e é por isso que eu gosto
lá de fora,
porque sei que a falsidade
não vigora:

Anos depois, quando eu já vivia na Paraíba, surge um novo sucesso de Caetano Veloso, e vi que se tratava da mesma “Felicidade” do Lupicínio, mas.. transfigurada  por aquela preguiça baiana. Basta, novamente, a primeira estrofe, pra que você sinta a diferença obtida com a mudança de tempo na interpretação, de modo a fazer com que uma grande poesia – que eu não sentia na versão original – de repente aflorasse das mesmas palavras e partitura:

O que isso tem a ver com a sua poesia. Bem.

Não sou grande romancista nem poeta, mas tenho trabalhado nas duas áreas e me parece que sei – com aquele saber no sabiendo / toda ciência tracendiendo de San Juan de La Cruz (e de Lorca e Agostinho) – quando devo me estender na prosa e me conter em versos. Umberto Eco goza com todos nós quando garante que poesia é aquele texto que não vai até o fim da linha. Só isso. Mas me parece que na brincadeira ele deixou escapar uma verdade, pois esse é um modo de se tirar o pé do acelerador de um texto, mudando – de modo mais imediato – o tempo do seu conteúdo.

O que noto de imediato é que você gosta de poemas que poderiam ser contos ou crônicas. Como Antífona, onde há uma estrofe que poderia estar assim:

Depois me mudei: fui para além das cabeças da Serra Branca, para além do lado de lá, atravessei o crepúsculo, debandei para etc etc.

Prosa. Mas…  “atravessei o crepúsculo”? Poderia ter dito “fui para o poente” ou “para oeste”. Seria mais pragmático. Mas o resultado é que imediatamente sacamos que a prosa foi pra cucuia e o primeiro mandamento de Eco nos vem à baila: nada de chegar ao fim da linha.

Assim,

Depois me mudei:

(tempo)

fui para além das cabeças da Serra Branca,

(tempo para degustar das cabeças da Serra Branca)

para o lado de lá,

(tempo pra sentir: para o lado de lá?)

atravessei o crepúsculo.

(Caramba!)

Mais adiante:

Passava
tonitruante o Poti,
um  rio velho, cobarde e mentiroso.

O poeta – ante o adjetivo “cobarde” -, puxa o freio de mão e faz o replay, em slow motion:

Era de medo da seca,
fugindo do Ceará;

(Pausa. Pra que se sinta a beleza, a força da imagem que vem a seguir:)

troava o Poti, dentro dos abismos da serra,

Claro que não estou a lhe dizer novidade. No Apêndice I do Psi, “Os Poemas da Besta (ensaio)”, seu tema é justamente o tempo. Logo na epígrafe, tirada do Apocalipse 10, 5-6, você se extasia com a frase terrível do Anjo: a de que “já não haverá mais tempo!” Desencantei-me com a redução prosaica de outra versão, onde li: “Já não haverá mais demora!”, e fui à Vulgata:

Tempus amplius non erit.

E à fonte grega:

Χρονος. Cronos.

Volto às “Confissões” de Agostinho. Ele tenta responder, no capítulo XIII, a pergunta O que fazia Deus antes da criação. E conclui como Einstein, dezesseis séculos depois:

Se antes do céu e da terra, Senhor, não havia tempo algum, porque perguntam o que fazias então? Não poderia haver então se não existia o tempo.

Genial.

Tempo, matéria-prima do poeta, daí essa sua epígrafe.

Curiosa – por causa disso – a quantidade de notas que seguem todos os seus poemas. Lembram-me o glossário que acompanhava o romance também inaugural, “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida, ao apresentar – em 1928 – a Paraíba ao país, como uma terra ainda tão ignota quanto a civilização futura de a “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, romance também com seu glossário de gírias ainda não criadas. Lembra-me “Cem Anos de Solidão” começando assim:

El mundo era tan reciente, que muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas con el dedo.

Assim é o Siarah que você nos traz como que de um tempo-espaço que não nosso.

Acudam-me os cantadores:
Ignácio da Catingueira, negro e escravo;
Romano da Mãe d´Água;
vocês fundaram
o galope, a cantoria
(…)
Também a dona Barrósa, a senhora dona Barrósa,
De seu Neco das Martins, o desafio,
que também me acuda,
eram poetas,
ganhou, ganharam,
fundaram este país!
(…)
Ai do cantador que se atrever,
ai daquele que não possa dizer:
eu sou,
eu venho,
eis a essência,
a chave-mestra,
a gota primeira:
nós!!!  

 

 

Soares Feitosa / Foto: David Feitosa

Daí sua poesia frequentemente me lembrar a prosa de Guimarães Rosa, que falou de homens e terras de Minas tão de dentro deles, que apelou para os neologismos joyceanos, como Shakespeare fez ao praticamente inaugurar seu idioma, ainda sem sequer dicionários.

Você diz:

Venho de um poeta, digamos Euclydes,
Capitão Ocrides.

(…)

Falemos
do fogaréu deste meu chão sem águas,
Siarah de chãos e terra!

Siarah! Temos, realmente, de puxar – de novo – o freio de mão ante a beleza de seu desafio ao poeta Thiago de Mello:

Não te pabules dos teus rios
que (…) escorraço-te com os meus peixes,
não esses “peixes” de lenda-de-beira-de-rio  –
com os peixes verdadeiros, porém, peixes-de-mar,
de-mar-cheio, do-mar-oceano;
e os meus tubarões de vinte metros
e as baleias de duzentos

Pabulagem? Fantasia! Como as de Chagall, judeu com seus milenares mandamentos. Por que não, então, os do sertão profundo de sua distantíssima infância?

Não podia era tirar ninho,
nem judiar de inocente,
nem abrir-a-porteira-do-curral,
nem mangar do desvalido,
nem desrespeitar o mais velho,
nem deixar de socorrer, doente, o animal.
Tocar fogo no capim?
Nem pensar,
Pois o Cão “aparecia”…

Não à toa você se refere tanto a Jeremias, Salmos, Apocalipse. A memória de sua terra se enche da mesma linda magia, nos seus poemas, com que você a via:

Pois o vento dos céus, elemento novo,
d´abastança,
expulsava do ventre do tanque seco
aquele outro vento,
vento velho,
encardido, das vacas
magras!

O vento bom,
túrgido,
que descia dos céus,
entrava em luta com o vento do abismo,
trevas;
o mormaço era expulso
ao ribombar dos céus,
farra dos ventos!

Isso tudo é de uma beleza tão densa, intensa, que nos impõe seu tempo, seu próprio espaço-e-tempo.

Detalhe deslumbrante:

Era de noite que chovia:
gotas amarelavam
à luz frouxa da lamparina de querosene.

Há todo um trecho igualmente cosmogônico no poema “Panos Passados”, em que você nos leva a assistir a um fenômeno único: o nascimento de um rio! Permita-me uns grifos:

Chuva primeira:
folhas,
folhas secas, caducas, garranchos,
pó,
folhas formando levas
– retirantes –
tangidas ao estrondar,
relâmpagos e coriscos,
gentilíssimas gotas primeiras,
um leve fio d´água,
e era ali, solene, mítico,
que se fundava,
refundavam-se os fundamentos
renascidos,
refundados,
pela enésima vez,
do velho rio,
rios,
rios secos,
meus rios,
do quintal da nossa aldeia:
rio do Governo,
Jaguaribe,
Macacos,
Curtume,
Acaraú.

(…)

E o fantástico cheiro da terra,
da terra fêmea, terra molhada:
mais uma vez,
as primeiras estrofes do Gênesis,
como se fosse a vez primeira.

Assisti uma infinidade de vezes a este pequeno flagrante cinematográfico de “Convite à Saudade”:
Mestre Besouro Preto olhou e olhou,
avoou de uma árvore a outra,
fez um cocuruto de vôo, mais alto

Tudo, no seu livro, vive muito próximo da criação bíblica. Como em “Rio Macacos”:

Porque as vertentes disseram às águas:
– desçam!
E as águas desceram!

No poema Psi a penúltima, dou com sua poética:

Gritei:

– ἀλώπηξ (alopex)?!
Vulpes?!
Renard!?
Renaaard???

(…)

Fale simples,
Chame a “Comadre”
(disse o Santo).
É a senha,
batei, abrir-se-vos-á!

Pra encerrar: você diz, no ensaio já citado, que o baiano Luís Antonio Cajazeira Ramos “não sabe a força que tem (… ou sabe?)”. Acho que sabe. Você talvez não soubesse da sua. Pois ele diz:

– Que nos resta? Dessacralizar os sacros (ou sacralizar a Poesia?) Antes que blasfememos, leiamos Psi, a penúltima, caldeirão febril sobre uma trempe cultural – grecirromana, judicristã e mundinordestina – , de onde sai cozida a palavra justa, e mais:

o abismo.

 

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Pintura: Sylvana Lobo

AOS EDITORES, UM NOVO AUTOR E SEU BELO LIVRO

Por W. J. Solha

Dois dias depois de me dizer que não lera meu poema longo Marco do Mundo porque uma virose que lhe afetava os olhos o atormentava, deixando-me muito preocupado, Esdras do Nascimento me passou e-mail falando da entrevista que eu dera aqui para o Fabrício Brandão, no Diversos Afins, e, mais:

– Gostei muito e me interessei por um romance que você elogia muito, nela, O Autor da Novela, de Tarcísio Pereira, que permanece inédito. Você poderia conseguir os originais para mim?

Tarcísio Pereira é um profícuo dramaturgo, romancista de excelente nível e ganhara a Bolsa de Incentivo à Literatura da Funarte com esse livro. Residente, como eu, em João Pessoa, é oriundo de Pombal, no alto sertão daqui da Paraíba, cidade onde vivi oito anos como funcionário do BB. Ele se entusiasmou com o prêmio, e imaginava, por causa dele, ser procurado por grandes editoras afins de publicá-lo, mas botei seus pés no chão:

– Olha, Tarcísio: para mim, pelo menos, a Bolsa não me rendeu nada além do dinheiro que me permitiu uma deslumbrante viagem pra Londres e o pagamento de uma edição do Relato de Prócula pela A Girafa. Quem sabe meu nome – depois de editar pela Record, Bertrand Brasil, Ática, Moderna, Codecri e Itatiaia – esteja em alguma lista negra e pra você, desconhecido delas, a reação seja diferente.

Não foi. Daí que pensei duas vezes, olhando para o e-mail do Esdras, e concluí que deveria fazer a ponte entre ele e Tarcísio. Sua opinião – se favorável – poderia, quem sabe, abrir caminho pro amigo em dificuldade. Fiz isso e, dois dias depois, Tarcísio me manda uma cópia da mensagem que recebera do grande autor de A Rainha do Calçadão, romance para o qual, aliás, eu fizera alentada e entusiasmada resenha para o mesmo Diversos Afins:

Em 19/06/2012 16:06, esdrasn@uol.com.br escreveu:

OI,
Acabo de ler seu romance.
Excelente.
Há muito tempo eu não lia texto tão
bom, tão bem estruturado, tão divertido,
com personagens admiravelmente bem criados.
Parabéns.
Vindo ao Rio, me telefone para um chope. 22851682.
Espero já estar recuperado da paralisia facial que vem
me aporrinhando há dois meses, para que possamos conversar
à vontade.
Semana que vem lhe mando “A dança dos desejos, Opus 13”,
publicado pela A Girafa.
Li a resenha do Solha sobre “O autor”. Muito boa.
Vc deve conhecer o romance do Vargas Llosa sobre
tema idêntico.
O que achou?
Um abraço.
Esdras

Well, I… welll, I…. não veio  nenhuma promessa de intervenção para publicação da obra, mas esse e-mail pode ser lido por algum bom editor, agora, que adquira os direitos do achado.

O que é O Autor da Novela?

É um romance que literalmente li – como se diz – de uma sentada só. Faltavam cinco para as onze da noite quando cheguei à última das 170 páginas em A4, que devem dar cerca de 210 em livro. Tive a alegria de telefonar pro Tarcísio às oito da manhã seguinte, pra lhe dizer que gostara muito do livro. Muito mesmo. E que me surpreendera ver quanto o nosso escritor crescera como romancista, de Agonia na Tumba – que já é muito bom – pra cá.

O Autor da Novela tem uma desenvoltura, uma fluência impressionante, por servir-se do expediente das novelas radiofônicas – como a Maria de Todos, criada e dirigida por seu personagem principal – que é a de terminar cada capítulo curto deixando o ouvinte (e o leitor) com a velha pergunta “e depois?, e depois? ”, num macete – salientado pelo próprio Tarcísio, no livro – que já vem da Sheerazade de As Mil e Uma Noites.  Para minha felicidade, o romance não só sacia, como sempre supera essas expectativas. Para isso, conta com uma série de personagens dignas de Dias Gomes (que inclusive aparece na narrativa), e várias situações novelescas, todas criativas como o diabo.

A história se passa por volta de 1970, quando a televisão chega a Pombal e  à região circunvizinha, onde tudo acontece. Eu estava lá, por sinal, e trabalhei para isso – como presidente do Conselho de Desenvolvimento do Município – sem saber que estava – rs rs rs – lascando o personagem de Tarcísio. Explico: sem se imaginar às vésperas desse evento marcante na vida sertaneja, Diá – O Autor da Novela – evolui de seus trabalhos na difusora do lugarejo onde mora, aproveitando-se de sua experiência de escrevinhador de cordéis desde a infância, para passar a produzir em prosa, na forma de novela de rádio, nos moldes da extremamente popular O Direito de Nascer, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que marcara sua infância. As repercussões de sua criação, bem local, na audiência da cidadezinha e arredores, são todas inteligentemente, humoristicamente exploradas por Tarcísio. E é aí, quando tudo vai bem, no melhor dos mundos possíveis, que o prefeito instala a tal TV na praça central do município, esvaziando toda a audiência do radialista que já se tornara celebridade. Por sinal, em 2002, quando eu trabalhava no filme Lua Cambará, vi, num lugarzinho assim, 70 km ao sul de Fortaleza, uma televisão acoplada a um poste, numa praça cheia de gente assistindo à novela das oito. O efeito dessa novidade no nosso herói fez com que ele me lembrasse Chaplin revoltado com o advento do som no cinema.

Meu grande medo era Tarcísio não sustentar o ritmo contagiante até o fim. Mas ele se sai notavelmente bem também nisso, de modo que a Paraíba já pode se orgulhar de mais uma obra literária à altura de seu invejável currículo.

Bem.

Conclusão. Não vou mais atormentar o Esdras a ponto de fazê-lo constranger-se ante o fato de não querer me dizer que não tolerou meu poema longo. Ele é apaixonado. Quando gosta de uma obra, gosta. Quando não gosta, não gosta mesmo. Nunca me incluiu em sua reiterada lista dos melhores romancistas brasileiros, mas chegou a dar uma oficina sobre meu Relato de Prócula, no Rio, o que me pareceu muito.

Que o livro do Tarcísio Pereira decole.

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Intocáveis (Intouchables). França. 2011.  

 

 

 

 

Os portadores de deficiência ou doenças crônicas retratados pelo cinema costumam viver dramas mórbidos e penosos, como nos densos (e excepcionais) Mar Adentro (2004) e O Escafandro e a Borboleta (2007). Ao contrário do suposto e previsível viés trágico, o longa-metragem francês Intocáveis (não confundir com o clássico policial Os Intocáveis, de Brian de Palma, Al Capone e cia) assume uma postura mordaz e até mesmo politicamente incorreta da situação. Em vários momentos o filme faz com que ignoremos as condições limitadas do protagonista para focarmos em outras questões não menos delicadas. Até porque, como ele mesmo diz em determinado ponto, sua deficiência não é física, e sim viver sem o amor de sua falecida esposa.

Philippe (François Cluzet, cuja fisionomia lembra muito o ator Dustin Hoffman) é um milionário colecionador de arte que ficou tetraplégico após um salto de parapente. Para seu enfermeiro, ele contrata o candidato mais improvável de todos: Driss (Omar Sy), um robusto senegalês sem nenhuma experiência como cuidador e com antecedentes criminais por assaltar uma joalheria. Escolha justificada pelo tom arredio, debochado e sem nenhum sentimento de piedade do ex-presidiário tratar o aristocrata na entrevista de emprego. A propósito, Driss nem sequer aspirava à vaga, estava interessado apenas que assinassem um documento para que continuasse recebendo seu seguro-desemprego do governo. A aproximação gradativa desses dois homens de mundos opostos faz com que Philippe reavalie sua autocompaixão e recobre o bom humor, qualidade intrínseca do novo amigo, enquanto um Driss em processo de lapidação encontra uma válvula de escape para fugir do seu drama pessoal de morador de subúrbio às voltas com os problemas familiares.

A brilhante atuação de François Cluzet, que mesmo mexendo só o pescoço transmite toda a carga emocional do cadeirante, o carisma do personagem Driss (não por acaso Omar Sy tornou-se o primeiro negro a ganhar um César, o Oscar do cinema francês, superando Jean Dujardin, de O Artista) e a química entre os atores talvez expliquem o sucesso do longa escrito e dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache. A comicidade atinge seu ápice nas cenas em que o cuidador flerta com sua colega Magalie, tece uma análise sobre música clássica e experimenta diversos cortes para a barba do patrão. Philippe também tira proveito da situação, enquanto simula um ataque para despistar a polícia na sequência inicial, quando tenta convencer um colecionador a adquirir um quadro pintado por Driss por alguns milhares de euros ou mesmo quando sente os efeitos da maconha. De forma simples e sem digressões, Intocáveis questiona o preconceito, as diferenças raciais e sócio-econômicas, alfinetando a França quanto ao problema da imigração. Em escala universal, contempla o valor da amizade, da arte e a complexidade da própria existência.

Baseado na história real de Philippe Pozzo Di Borgo e Abdel Sellou – que inclusive aparecem nos créditos finais do filme –, e em seus respectivos livros lançados recentemente no Brasil sob os títulos de O Segundo Suspiro (Editora Intrínseca) e Você Mudou Minha Vida (Editora Record), Intocáveis é uma celebração positiva do que podemos fazer com os percalços impostos pela vida. Exibido durante o Festival Varilux de Cinema Francês (mostra realizada na segunda quinzena de agosto simultaneamente em mais de 30 cidades brasileiras), e atualmente em cartaz nas salas nacionais, o filme obteve a segunda maior bilheteria da história da França, com cerca de 20 milhões de espectadores no país, atrás apenas de A Riviera Não É Aqui (2010). Definitivamente, Intocáveis é uma comédia tocante e imperdível.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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70ª Leva - 08/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

 

A SUÍTE DE SILÊNCIOS DE MARÍLIA ARNAUD

Por W. J. Solha

 

 

Deixo-lhe a melodia tecida nas cordas da minha carne, nos acordes da minha memória, na cadência do meu coração, a melodia-existência, labiríntica como o espírito, misteriosa como o tempo, definitiva como a morte. Último parágrafo do romance

Aquela que até agora era conhecida como brilhante contista, não começa o seu primeiro romance (Editora Rocco, Rio, 2012) com ganas de deslumbrar o leitor. Nada parecido com as quatro notas iniciais da Quinta de Beethoven; com a chamada da orquestra e as marteladas de piano que abrem o concerto número um, pra piano e orquestra, de Tchaikosky; com a clarineta virtuosística de Rhapsody in Blue; com a imponência da Abertura de O Guarani. Porque a violinista Duína – a personagem-narradora de Marília Arnaud – não nos quer levar a nada de grandioso, imponente, grandiloquente, arrebatador. Seu clima é o da Ária na Quarta Corda Sol, de Bach; do Adagietto da Quinta de Mahler; a do tristíssimo, lento – e maravilhoso – solo das peças para piano de Éric Satie, como Trois Gymnopédies e Trois Gnossiennes.

– A vida – ela escreve – é uma suíte de silêncios, a longinqua música de Deus.

O cuidado com que Marília Arnaud nos apresenta cada nota de sua Suíte, é o de um solista que fecha os olhos com força,  com doloroso gozo, pra obter os sustenidos mais difíceis e perfeitos do instrumento. Que instrumento, no caso?

Meu corpo, minha unidade. Meu corpo, minha vida. Meu corpo, eu.

É curioso o fascínio que o mundo das mulheres exerce, principalmente sobre os homens. Quando eu trabalhava no filme Era uma vez eu, Verônica – igualmente confessional – perguntei ao diretor e roteirista Marcelo Gomes, se ele iria dizer, depois, como Flaubert sobre sua Bovary, que “Veronique c´est moi”. E ele, rindo:

– Não, não…

Mas eu vi, passo a passo – no papel de pai da personagem – o esforço ingente da grande atriz, que é Hermila Guedes, pra chegar à perfeição de dar corpo à proposta do cineasta. Quem se esquece de Laura, Lara, Scarlett O´Hara, outras grandes personagens femininas do cinema? E de Aída, Carmem e La Traviata, na ópera? E das figuras femininas de Shakespeare, como Ofélia, Cordélia, Rosalinda, Desdêmona, Cleópatra, Julieta, Lady Macbeth? E acabo de ler os originais do excelente Palavras que Devoram Lágrimas, do paraibano Roberto Menezes, que será lançado em outubro, pelo estado, em que há um fluxo de memória de uma personagem louquíssima à la Molly Bloom, via Almodóvar; e leio a sólida resenha do também nosso  Rinaldo de Fernandes sobre Suíte de silêncios e me lembro de seu premiado Rita no Pomar, e não há como não citar  a Ana Karenina, de Tólstoi; a Capitu, de Machado; a Lolita, de Nabokov;  Anna Terra, de Érico Veríssimo; a Diadorim, do Guimarães Rosa; a Gabriela, Tieta e Dona Flor, de Jorge Amado, etc, etc, etc..

Mas

é notável como aumenta o interesse dos leitores quando encontram tais almas em livros diretamente de autoras.  Como Clarice Lispector, Françoise Sagan, Jane Austen, Virginia Woolf e assim por diante, simplesmente porque delas é que se espera mais… verdade.

Suíte de Silêncios é um romance extremamente feminino, extremamente bem escrito, extremamente triste e – sabe o que é dizer isso como elogio? – extremamente lento. Aborrecido? Nunca, never, jamás! E como ela conseguiu? Há uma cena incrível de equitação, no filme Mazeppa, de Bartabás, no qual ocorre uma demonstração de absoluto controle de um galope ao fazer a montaria – a cada movimento – quase não sair do lugar.  Assim, Marília Arnaud – no que tange ao tema de sexualidade de sua narrativa de 190 páginas, por exemplo – entrega-nos um primeiro toque íntimo, o de Victor em Duina, apenas na página 174, e – na seguinte -, a do prof. Ramon. Só na página 179  o grande amor da jovem, João Antonio, faz amor com ela pela primeira vez.  De novo a questão: Como ela consegue nos manter presos a seu depoimento? Como os cavaleiros de Bartabás: entregando-nos – perfeito em si mesmo – cada momento, cada etapa de sua evolução.

1) Foi quando passei a usar camisetas por baixo das blusas e vestidos, para disfarçar os seios de pitomba. Justamente nessa época começaram os constantes suores nas mãos, as espinhas purulentas no rosto, o odor repugnante nas axilas

2) Existiria algo mais bonito do que meu corpo, livre de qualquer reserva, à espera do seu?

3) A carne! (…) Porque tudo é carne, cavidades, secreções, odores, e é tanto, e tão intensamente, que chego a pensar em seu mistério como sendo tão grande ou maior do que o da Santíssima Trindade!

4) Eu o amei como só é possível amar em tempos de guerra, com a lucidez alucinada de quem sabe que aquela pode ser a última vez.

5) Guardar segredos. Sempre fui boa nisso.

Marília Arnaud faz um instigante jogo de espelhos em sua história. A Duína que narra, padece de uma dor insuportável desde que foi abandonada por João Antonio. E conta para ele (na verdade para nós) o que está sentindo e o que está rememorando, também: a angústia terrível – na sua infância – causada pela fuga da mãe com um amante, deixando o marido – e a filha – arrasados.

– Mamãe não voltou. (…) uma manhã como nunca houve outra igual! A primeira sem ela.

O desespero da rejeição que Duína sente e que também vê no pai a  desesperam:

Será que não existe nada mais indigno do que ser abandonado?

Quem viu Morangos Silvestres, de Bergman (Suíte – diga-se de passagem – também me lembra Bergman pela lentidão densa – é óbvio – e pelo  forte vínculo Eros e Tánatos: sexo e morte). Pois bem: quem viu Morangos Silvestres,  lembra-se do velho professor que, em meio a uma viagem de carro, para no lugar em que vivera muitíssimos anos antes, e se vê – a maneira bergmaniana de lhe mostrar a memória – em várias passagens decisivas de sua vida.

Observe a acuidade feminina destas observações de Duína sobre sua mãe, num detalhe dessa imensidão de um passado que não passa:

Um homem atravessou-se na minha infância (…) calçando sapatos brancos.

E ela anota:

– Parecia agitada, a todo instante arrumando o vestido do corpo, ou passando as mãos pelos cabelos. E que jeito de falar era aquele, em um tom frágil e cantado, que eu não conhecia?

É num momento desse que se conhece o romancista. E, mais precisamente: a romancista. E o efeito na própria garota é descrito por ela mesma, décadas mais tarde:

Nesse dia, tive a repentina compreensão de que  (…) em minha mãe existia algo indefinível, que transcendia a obviedade. (..) Essa descoberta foi o meu primeiro abismo.

Claro que o abandono da mãe a seu pai (e a ela) cala mais fundo quando a situação se repete com a partida de João Antonio, de volta para a esposa, deixando Duína, pela segunda vez, dolorosamente rejeitada. E essa última dor torna a primeira maior. Borges fala que Browning é kafkiano escrevendo muitos anos antes de Kafka, mas alerta que atentamos para isso – evidentemente – só depois que Kafka existiu.

Você se fora e eu me dava conta de que, enquanto vida houvesse, sempre se podia perder um pouco mais.

E ela realmente perde tudo: a mãe, Victor, João Antonio. A queridíssima vó Quela não morre, simplesmente: Deixou-me no meio de uma noite, sem despedida. E o maestro? Ao final da apresentação – ela conta do primeiro concerto de que participa – busquei, no momento dos aplausos, em meio aos olhos da plateia, os de meu pai, e o que enxerguei neles me deixou prostrada.

Duína, entretanto, não tem reações como a da personagem de Liv Ullman quando é humilhada pelo comentário da mãe – pianista famosa – à sua performance, no Sonata de Outono, de Bergman.

Toco razoavelmente bem – analisa – na medida da minha mediocridade, que hoje encaro com uma quase indiferença.

Mas a perda de João Antonio – apesar de aceita (Não o culpo por haver partido) – é definitiva.

Fora de mim, além do meu patético mundo de dor e autopiedade, não existia nada. Nada.

Mas Duína tem seu resgate num golpe de mestre de Marília Arnaud:

Agradava-me aquela sensação ambígua e inconfessável de entrega à dor.

Masoquismo? De Duína. Da romancista, orgasmo criador:

Me deixe ficar quieta em minha concha, você bem sabe como aprecio essas zonas sombrias, que me são quase uma carícia.

E foi na frase seguinte que ela descobriu que tinha um belo romance nas mãos:

– Só  a dor nos faz chegar à essência das coisas.

Marília Arnaud prefere selos a um outdoor. Música de câmera à orquestral, sinfônica, coros, trompas, trombetas. Prefere sussurros aos gritos. E, segura da qualidade do que produz, mantém-nos, passantes, no seu passo, compasso. Veja como ela descreve a capela da escola de sua infância:

É um mundo vagaroso, apartado do que zune lá fora, onde o ar é feito de um silêncio solene, que incha nos ouvidos, como se estivéssemos embaixo d´água.

 

(W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

CURUMIN – ARROCHA

 

 

 

Quais sentidos poderíamos atribuir ao termo arrochar? No dicionário, o primeiro teor que se tem à vista é o de apertar algo com força, quiçá comprimir ao máximo para se obter algum efeito premeditado. Em se tratando das escolhas do músico paulista Curumin, batizar seu terceiro disco pela alcunha de Arrocha parece ter soado como uma necessidade de extrair ao máximo uma sensação extrema das coisas. Trata-se do trabalho mais eletronicamente carregado do artista e, segundo o próprio, construído quase que inteiramente de modo doméstico, num estúdio caseiro.

Desde Japan Pop Show (2008), segundo álbum de sua trajetória e talvez o mais emblemático de todos, Curumin deixou marcada uma forma de trilhar caminhos sonoros de modo bastante diferenciado, dialogando com elementos eletrônicos, dub, funk, jazz, samba, reggae, afropop e outras tantas possibilidades. Tudo longe de soar pretensioso, sem a necessidade de emplacar qualquer arremate vanguardista. Esse tipo de comportamento é sempre muito bom, principalmente porque retira o fardo de se esperar do novo algo sensacional sob os mais variados aspectos. Quiçá até este seja um vício perigoso de nossos tempos. E em Arrocha o músico revela-se afinado com esse descompromisso supremo da estética, passeando despercebidamente pelos difusos sentimentos de uma tônica acentuadamente urbana.

O disco pode muito bem apontar para o fato de se estar vivo e respirando a partir de uma metrópole como São Paulo, mas reforça também uma aparição de elementos da natureza. Esse tipo de contraposição de perspectivas aparentemente tão antagônicas parece revelar um desejo de suavizar tensões cotidianas. Quiçá isso prove que não consigamos viver sem mordiscar os lábios sedutores da extremidade das coisas. A sensação que fica é a de que, mesmo sendo mais fácil apostarmos na zona de conforto, a nos entregar tudo quase que falsamente acabado, há sempre um convite tentador de se saborear o limite ou algo além dele.

O caminho eletrônico escolhido por Curumin agora tem momentos especiais. Como exemplo disso, podemos destacar faixas como Afoxoque, Treme Terra, Passarinho, Paris Vila Matilde, Doce e Pra Nunca Mais. Noutro ponto, a regravação de Vestido de Prata, composição de Paulinho Boca de Cantor, caiu feito uma luva no disco, sobretudo pela interpretação.

Mais do que passar uma noção de compressão tida pelo significado imediato do título do álbum, Arrocha equilibra sentimentos, pois traz em si a vontade de atenuar certos deslizes de nossa contemporaneidade. Buscar nos elementos da natureza uma forma de conter o avanço devastador de nossa selva de pedra é uma das mensagens presentes no disco. Tudo feito com leveza, sem repetir velhas fórmulas já tão desgastadas quando o assunto é preservar o todo em que habitamos. Com um fio condutor desse porte, Curumin nos oferta um percurso sonoro agradável, deixando cada vez mais aberta a estrada de suas realizações.

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69ª Leva - 07/2012 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

God Bless America. EUA. 2011.

 

 

“Por que ter uma civilização se não queremos ser civilizados?”

 

Programas sensacionalistas, fofocas sobre o mundo das celebridades, reality shows de todas as espécies. Quem nunca sentiu sua inteligência subestimada pela TV aberta (e por que não, a cabo), com vergonha alheia da exploração consensual numa tarde de domingo (ou num dia qualquer), exceto os que desligaram o televisor e foram ler o tal livro sugerido pela campanha da MTV? A banalização da liberdade de expressão reduzida aos meros 15 minutos de fama, de Andy Warhol, e demais lixo midiático é tema de God Bless America, filme de humor-negro escrito e dirigido pelo comediante e ator Bobcat Goldthwait (o Zed, de Loucademia de Polícia). Trata-se de uma crítica feroz e politicamente incorreta justamente ao culto do politicamente incorreto, através de um filme tipicamente americano, em sua linguagem e formato.

Frank Murdoch (Joel Murray) é um cinquentão divorciado, aterrorizado pela imbecilidade humana. As paredes de sua casa em Syracuse são tão finas (não por acaso, tem o número de 5773 ½), que ouve todos os estúpidos comentários de seus vizinhos. Após perder o emprego e ser diagnosticado com um tumor cerebral letal, extremamente deprimido, Frank pensa em suicídio. É interrompido de tal pensamento enquanto assiste um reality show estrelado por Chloe (Maddie Hanson), adolescente rica e mimada que fica inconsolável por ter sido presenteada pelos pais com o modelo errado do Cadillac que queria. Inconformado com tamanha futilidade e temendo que sua filha Ava (Mackenzie Brooke Smith) cresça da mesma forma, Frank decide matar Chloe. Roxy Harmon (Tara Lynne Barr), testemunha ocular do crime e colega da garota morta, aprova sua atitude e juntos, tornam-se parceiros de crime, viajando pelo país exterminando sub-celebridades [de]formadoras de opinião e demais anônimos sem ética contrários as suas convicções. Ou seja, a famosa “escória da sociedade”.

Misto de Um Dia de Fúria (1993) com Beleza Americana (1999), God Bless America satiriza e critica severamente a indústria do entretenimento e o “american way of life”, bem como o consumismo e a superficialidade sócio-cultural em escala mundial. Como enfatiza Frank num excelente diálogo travado com um colega de trabalho: “Já ninguém diz nada. Apenas regurgitam o que assistem na TV, ouvem no rádio ou veem na internet”. Esquerdista, violento e avesso a sutilezas, God Bless America tem a seu favor as inúmeras cenas de carnificina e a verborragia dos carismáticos matadores, sobretudo em suas divertidas análises sobre Diablo Cody, Alice Cooper e demais personagens da cultura pop americana. Aliás, o contraponto entre o entusiasmo da cativante Roxy e a aparente apatia de Frank torna a dupla de anti-heróis ainda mais inusitada. É memorável a cena em que Roxy – com uma pistola em punho – afirma ser contra o armamento da população, justificando que assim “qualquer idiota teria uma arma”. Destaque ainda para a excelente trilha sonora, principalmente nas cenas de morte. Não esqueçamos, contudo, que a grande discussão do filme é a inversão de valores da sociedade contemporânea e não uma reles apologia à violência como solução imediata ao processo de emburrecimento de uma ou várias nações. A propósito, God Bless Brazil.

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

 

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Affonso SÍSIFO de Sant’Anna

Por W. J. Solha

 

 

 

Zaratustra – aos trinta anos – desce a montanha pra levar sua mensagem à humanidade, que está lá embaixo.  Sísifo, aos setenta e tantos, cansado de tanto sacrifício por nada, faz o mesmo, mas pra se despedir. Pois nós – seus leitores ou não – fomos contados, medidos e pesados por ele… com resultado bastante negativo:

A mim me tocou
viver numa época em que miúdos seres
rastejam sem visão no pó do instante
(DEPOIS DE TER VISTO)

Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
(RITUAL DOMÉSTICO)

Onde estão esses
que ao nosso lado
parecem tão passivos
com o ar silencioso
e corrosivo?

Onde estão?

Estão apenas vivendo
morrendo
como sub ser vivos.
(ONDE ESTÃO?)

Banqueteiam suas fezes em alarido
como se ouro fossem
e dançando à borda do abismo
se rejubilam
– com a vertigem.
(DEPOIS DE TER VISTO)

E isto – em ESCLEROSE E\OU MALEVITCH – é terrível:

Depois de aprisionar figuras
nas molduras de seus quadros
chegou ao ápice da arte
– e do espanto:
Emoldurou
– o branco sobre o branco. 

Sísifo, ante tal pedra no meio do caminho, dá um basta. Affonso Romano de Sant´Anna, que além de grande poeta é um contumaz viajante, dá com ela encalhada no Egito:

 

 

 

Vê, inacabado porque fraturado, o que seria o maior obelisco da terra em que tudo era gigantesco:  sua concreta pedra de Sísifo\Drummond. E escreve um dos melhores poemas de seu novo livro, com uma forte compulsão de se servir de um recurso… concretista:

Esse obelisco     inacabado
fora de Assuam     esse obelisco
o maior de todos    com a quarta
face não cortada     da pedra no chão
esse obelisco sem     inscrição alguma
a não ser as rachadu     ras do terremoto
que o partiu  esse  ob     elisco
abandonado ontem  ho   je visitado
por multidões atônitas    esse obelisco
inerte tem algo huma     no perturbador
em torno dele assim     morto e torto
estirado como se fo    sse um osso
ou algo nosso inse     pulto em torno
dele circulamos o     lhando o chão
como se algo e      m nós também
tivesse se par    tido
sem alcançar a perfeição

“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

Embora a tradição diga e Vinicius sustente que “poeta só é grande se sofrer” e o tema da proximidade da morte seja um achado – no Sísifo desce a montanha – do porte do corvo repetindo o nome da finada Lenora pro amante desconsolado – em Poe -, é claro que (para mim, pelo menos, que o considero nosso maior poeta vivo – e também, talvez, morto) não existe motivo real pro desconsolo. Pelo contrário: Affonso deixa o nome na História de nossa literatura, e – enquanto vai pra Cartago e Assuam, Chicago mais Teerã – nos intervalos descansa carregando pedra:

Sinto que o incomoda o fato de sua poesia, em certa fase, ter tomado partido por causas arriscadas, por conta dos sub ser vivos. Ele diz, em PAREM DE JOGAR CADÁVERES NA MINHA PORTA:

Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
– na Cidade Proibida na China.
(…)

Impossível ficar no tempo que me coube
o  tempo todo
Preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de
como um Sísifo moderno
desesperado
julgar
– que o tinha que carregar.

A epígrafe de seu livro, a propósito, vem de Clarice Lispector:

A gradual deseroização de si mesmo \ é o verdadeiro trabalho que se elabora \ sob o aparente trabalho.

Deseroização.

Seria isto?:

Olho e acaricio meu cão.
e apagando a luz da sala,
tranco as portas
exilando o medo.
(AQUELAS QUESTÕES)

É estranho ouvir sobre tal busca de autodesmistificação em Affonso, que me foi apresentado por Sérgio de Castro Pinto há séculos, e que me lembrou, na época – pelo gigantesco A Catedral de Colônia, que tentei emular com meu Marco do Mundo, e pelo bravo QUE PAÍS É ESTE?, sendo ele próprio de ombros largos e grande charme –  a mais marcante figura épica de minha adolescência:

 

 

 

 

Mas o tema é A Morte.

Sou apenas um pouco mais “novo” que ele. Affonso é de 37; eu, de 41. Tenho, portanto, sentido a aproximação dela, também. E, como sempre me pareceu caber à poesia tirar as palavras de nossa boca, os melhores momentos do Sísifo desce a montanha são – para mim – aqueles em que o poeta aborda – heroicamente, apesar da inspetora Lispector – o tão temido tema. PREPARANDO A CREMAÇÃO, por exemplo, é antológico. Pela simplicidade veraz ou feroz com que Affonso revela ter feito o que ainda não me decidi a fazer, embora seja um ato inevitável:

Levanto-me. Vou ao cartório
autorizar minha cremação. Autorizar
que transformem
minhas vísceras, sonhos e sangue
em ficção.

O que pode haver
de mais radical?
Assinar este papel
tão simples
tão fatal.
Autorizar a solução final
de todos os poemas.

“Solução final”. Veja a sutileza com que ele nos remete à Solução Final da Questão Judaica, como foram considerados os terríveis crematórios nazistas nos campos de concentração. Mais sutil ainda é o fato de que ele não lamenta ter o corpo em chamas e reduzido a cinzas, mas “todos os poemas” desintegrados com ele.

Confirmando a imagem que sempre tive a seu respeito, o poeta tem amor intenso pela vida. Daí que é comovente vê-lo dizer mais adiante:

Há muito venho me preparando
me despedindo do sorriso da mulher, das filhas
da rua onde diariamente passo
me despedindo dos livros
vizinhos e paisagens.

Claro: em RITUAL DOMÉSTICO ele nos fala do aconchego do seu lar, com toques de extrema delicadeza.

Toda noite
acendo algumas velas na sala
enquanto minha mulher prepara o jantar.
somos nós dois
e essa cachorrinha meiga
com seu estoque inesgotável de afeto.

Essa cachorrinha meiga é presença recorrente no livro. Algo como a cadela Baleia de Vidas Secas ou o cão interpretado por Servílio de Holanda no espetáculo Vau do Sarapalha. Num desses instantes, Affonso se excede. Talvez haja me comovido mais porque tive, durante anos, uma pequinês chamada Lady, como a de Disney, e vi em casa cenas como essa, fantasticamente flagrada em LEVARAM OS SEIS FILHOTES. Não à toa os olhos de minha mulher marejaram quando li para ela:

Levaram os seis filhotes dessa cachorrinha
que chora
geme de desespero
procura suas crias pelos cantos da casa
sob a mesa
no jardim
na lareira
e pede socorro com seus olhos
exigindo explicação.

“E pede socorro com seus olhos exigindo explicação”!

É com detalhes assim que Affonso ressalta o apego à vida que sente estar por perder. Ainda em PREPARANDO A CREMAÇÃO, diz:

Olho cada parte de meu corpo
que vai se desintegrar:
mexo os dedos, vejo as veias
e no espelho esse olhar
que nada mais verá.

Já me vi fazendo o mesmo inúmeras vezes e me pareceu bem rever isso em versos.

Mas de repente, em COMPREENSÃO – num surto de otimismo – ele conclui que não há morte, tudo é recomeço. Daí que – tal qual num sonho – implicitamente evoca para si – ao optar pela cremação – um fim igual ao do profeta Elias… com o que tudo se transfigura:

Espero que um carro de fogo me arrebate numa tarde dessas
e sem estremecimento
me dissolva de vez na eternidade.

Mas  enigmas o cercam de todo lado e o angustia saber que a Esfinge vai devorá-lo sem que eles os decifre. No INDEPENDEM DE MIM diz:

Meus rins, meu pulmão, meu fígado
(e o coração)
não carecem que lhes ordene
o que fazer.
Na verdade me antecederam.
me hospedaram apenas. E se rebelam
se os forço a me obedecer.
são autônomos
mais que autômatos.
Eu é que sou essa estranha coisa
pensando movê-los.
(…)

E aqui termino, anotando o que ele diz a respeito, NO LABIRINTO:

Habito o mistério que me habita

O que me remete a uma frase do Ulisses que vivo me repetindo:

– Falar do mistério no seio do próprio mistério: isso é arte.

É, na verdade, arte.

 

 

 (W. J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lançou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo)

 

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68ª Leva - 06/2012 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

 

PEQUENOS DELITOS E EPIFANIAS

Por Jorge de Souza Araújo

 

 

 

 

Diante destes textos (ou peças literárias maxi-minimalistas, ou contos de feições microscópicas pluralizados por visão macro, ou crônicas abstratas derivando para contos fantásticos e, no entanto, intimistas, confessionais) é mais adequado pensar que a escritura de Antonio Nahud Júnior transcende seu mais exato mister, ultrapassando o que quer que se declare na ficha catalográfica do livro.

Dessa forma, “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” representa também exercício filosófico numa linha de investigação ontológica, metafísica, expressionista e existencial. E, por exemplo, “Love is a Many Splendored Thing”, que abre a coletânea de pasmos e pathos humanoides, ressalta uma fragrância de Poe, do épico e dramático de “O Corvo”, com a amada morta do protagonista entrando janela adentro na noite iluminada de Selton, o amante para sempre fiel e siderado pelas chamas da fornalha passional.

Assim, o que leremos doravante são mini ou macro textos parodísticos da existência pânica, imprimindo e imprimidos, não obstante, de frêmitos de lucidez em meio à voga lúdica, elíptica, espasmódica e diversionista da palavra em febre de dizer-se para além das eventuais obscuridades. O que mais neles avulta é a surpresa do insólito, não apenas reservados aos finais consagradores do clímax e do desfecho, mas por toda a rede de intrincadas e complexas teias, cujos enunciados se confundem com seus signos. O lírico sempre pesponta o outro lado do trágico e o humor cerrado em sorrisos contrafeitos observa a vida sob as escamas de um amplo e entrechocado mistério. A ambiência de sugestões de hiatos de percepção muda supre a necessidade de concretude do real. Por isso nem sempre as personas são nomeadas e a sensação do provisório e efêmero de nomes, pessoas e coisas produz a inércia do pensar, quase valendo qualquer nome para designar qualquer coisa ou pessoa.

Antes de se constituírem densidades dramáticas, oscilantes entre o trauma psicológico e a violência grosseira, contos como “Os Negros e outros são mais perceptíveis como registros de instantes fugazes ou prolongados, sinestesias dos impactos de sentidos múltiplos, em particular a visão e o olfato, o detalhe significante (e machadiano, que nisso é avant la léttre) da metonímia de uma nesga de rosto, mãos, cabelos, cores, cheiros, perfumes, com predominância de assunção e projeção de flagrantes e diálogos envolvendo o desejo homossexual, tudo feito com refinamento, sutileza e inteligência dinâmica e superadora de vãos preconceitos. Cito diálogo de “Os Negros”:

— “Acredita em romances entre machos?”, atacou Glauber.

— “Sei que uma relação bem sucedida não depende do sexo dos envolvidos, mas da comunhão inevitável”, respondeu pausadamente o garçom.

Uma acentuada dose de coragem de se expor trescala desse e de inúmeros outros trechos e textos do livro que ora se ostenta sem pregar slogans nem bandeiras. Antonio Nahud Júnior, entre o escracho ou deboche e a estreita visão do córner discursivo dos guetos, opta pela sinceridade. Estará, portanto, na boa companhia dos bons textos de uma Állex Leilla, por exemplo, um dos mais agudos e penetrantes da geração da prosa curta contemporânea na Bahia. O que pretende, então, quem fere as nebulosas humanas destas “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” das tribos antropocêntricas? Vejamos o que tem a dizer o próprio autor, em entrevista. À pergunta de Gustavo Atallah Haun (jornal Agora, 03 a 10 de julho de 2006, Banda B, p. 8) — Em sua opinião, qual é o aspecto mais difícil do ato de escrever? Ele responde: — A construção de um universo mágico que me emocione e, consequentemente, emocione o leitor. Transformar a literatura num oceano de prazer. É a parte mais difícil. Sou exigente, faço questão que o texto ou o poema me comova. Sobre os temas que mais se impregnam em sua narrativa, provoca: Os elementos sensuais desempenham papéis-chave na minha literatura: odores, texturas, sexualidade, funções corporais. No entanto, seria incorreto classificá-los como especificamente homossexuais, bissexuais ou sei lá o que, pois eu não acredito numa literatura homoerótica, assim como não acredito numa literatura feminina ou masculina. Todos os escritores são seres andróginos.

Polêmicas à parte, “Pequenas Histórias…” é mesmo um livro de textos que respiram situações de claro/escuro no mundo das relações humanas. E também de interinfluências, algumas até de origem inconsciente, talvez. Um trecho aqui lembra Adélia Prado e seu poema descritivo de um rapaz que palita os dentes com ruído, esgaravatando o coração de cadela de quem o observa. Outro flagra decrepitudes fetichistas e ásperas solidões homoafetivas, com suas gruas de martirológio afunilando dificuldades existenciais. Noutros, ainda, predominam sensos parabólicos, ascéticos e um mistifório de alteridades. “Chá com Harpias contém cenas, alegorias, analogias e alusões de teatro cosmopolita.

Enquanto “Sem Notícias de Deus” — o melhor do conjunto, na modesta opinião de quem escreve estas notas — é um conto soberbo, antológico e definitivo, com a pungência sincera da realidade fotográfica e a comiseração mais nítida do narrador, numa dimensão de permanência que não se subordina à claque e avança para a perenidade do documento humanista; “Noites de Ninguém tem o pathos de Dalton Trevisan e o lógos protestatório de Glauco Mattoso ou Caio Fernando Abreu. “Fim de Caso” é drama burguês que não contemporiza, mas purga as dobras da agonia pânica, avizinhando-se da solidão da incompletude, aquela que se tem a sós ou acompanhada com a invisibilidade do outro. “A Dor no Coração da Deusa do Sexo” flagra o pungente retrato urbano dos que vivem sem felicidade no coração. Em “Brinquedo do Cão” o monólogo nunca personalizado ou exclusivo fala de todos os emparedados discursando sempre na primeira pessoa do singular. Imagens insólitas, arrimadas num lirismo oblíquo e dissimulado, constituem o perfil de “Apenas uma Mulher”.

Por vezes, a tibieza do lugar-comum ocupa as frestas do texto que cede à fala natimorta. Contos sem vínculo com Tchecov ou Maupassant florescem mechas para o psicodelismo, o delírio, até a paranoia do novo mundo concebido à sombra de florestas espessas das exclusões. Outros são os textos apaixonados por cinema, como os do argentino Manuel Puig, quase todos untados com malícia, alguns reiterativos do antes já dito. Por alguns também perpassa o melodrama a la Nelson Rodrigues. Melhor quando a linguagem advoga a primeira pessoa, mais espontânea, Antonio Nahud Júnior dissipa seu estilo com o Expressionismo e suas imagens derivárias do patético. Em “Tentativa de Controle”, o estilo é típico de “Matou a Família e foi ao Cinema”, de Júlio Bressane, incluindo o ciúme vampiresco de Otelo, o patetismo melodramático de Nelson Rodrigues e o corte incisivo do expressionismo alemão. “Da Utilidade da Poesia” poderia suscitar lembranças, ainda que vagamente, de Tchecov (“Teoria da Arte”), Tolstói (“Sonata a Kreutzer”) e do brasileiro João Antônio (“Afinação da Arte de Chutar Tampinhas”).

Algumas das peças literárias de “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano”, apesar dos temas, da fluência da linguagem, não buleversam, resguardando-se o leitor do sorriso enigmático da Mona Lisa. O tédio, o non-sense, o ar blasé, a cultura cosmopolita, o existencialismo a la Clarice Lispector, as buscas ásperas, a guarda baixa na auto-estima, a deserção, a desistência, a entrega solitária dos emparedados, tudo comove, mas nem sempre com a eficácia legitimadora da solidariedade. As palavras, o ritmo, as imagens e sensações que provoca, o texto de Antonio Nahud Júnior poderia desvendar-se no que o próprio texto determina e projeta na personagem de “Um Fluxo”: Aprofundando-se no cenário mental, entrega-se à selva de letras, obstinado, entre versos-insetos e parágrafos de flores carnívoras, vivenciando equinócios, constelações e centelhas: dialogando com árvores na trilha da montanha lírica. Sintomática a citação de Jorge de Lima do romance “O Anjo”, cujas fosforescências de idioma lírico Antonio Nahud Júnior parece também intuir, revestindo-se a palavra-emblema no primeiro texto surrealista publicado na voga do regionalismo de 30: “O Homem Nasceu para Contemplar. Só por Castigo Ele Luta e Trabalha”.

O universo das “Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano” é quase exclusivo do dialeto autoral, particularmente o pitoresco e exótico, bem como são particulares os códigos de escrita e os motivos temáticos. Mas o humor rebelde e insubmisso traz vestígios, por exemplo, de Drummond (aposentado consumido por uma melancolia inexplicável, “Lulu”); “Vertigem” tem a ousadia pornográfica de Henry Miller ou a parábola fugaz de um Sade, que indetermina as razões do desejo e o sem-limite das perversões. Um conto muito longo (“Imagens”, por exemplo) termina vampirizando as energias do narrador e do leitor mais concentrado, ainda que ambos possam ser expertos e expeditos, antenados na ironia de um texto, mesmo o que não provoque empatias.

Este livro de Antonio Nahud Júnior é uma espécie de almanaque visceral, revolvendo sensações em perfis caleidoscópicos, flagrando instantes de perdas e descobertas, epifanias e registros documentais das hecatombes humanas e de pessoas singulares. A maioria dos textos imprime-se de contornos intimistas, confessionais de aparência ora gozosa, ora culpada de ocultamentos. Conforme a nomenclatura, contos se apresentam com finais oscilando entre o surpreendente e o óbvio. Tematizando os povos da diáspora genérica presas da sexualidade sob o arbítrio das convenções, realizam-se ainda pela reflexão a ser reverberada no âmbito da consciência crítica.

É livro inquieto e inquietante, que convida ao debate e à inteligência não conformados ainda à inércia do pensar de calças curtas.

(Jorge de Souza Araújo é poeta, Mestre e Doutor em Letras pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-professor de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Comparada na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Dentre suas publicações, estão: “Os becos do homem” (poesia – Rio de Janeiro: Antares, 1982), “Profecias morenas: discurso do eu e da pátria em Antônio Vieira” (Salvador – Assembleia Legislativa/Academia de Letras da Bahia, 1999), “Dioniso & Cia. na moqueca de dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado” (Rio de Janeiro – Relume Dumará, 2003), Floração de imaginários – o romance baiano no século 20 (Itabuna: BA, Via Litterarum, 2008))

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67ª Leva - 05/2012 Drops da Sétima Arte Outras Levas

Drops da Sétima Arte

 

Por Larissa Mendes

 

Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto (Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo). Argentina. 2011.

 

“A vida é um bolo de merda e cada dia há que se comer um pedaço”.
(Alberto Laiseca)

 

Quem jamais proferiu a melancólica frase “ah, se eu tivesse 20 anos com a cabeça que tenho hoje…” (salvo os que mal saíram de tal faixa etária), que atire a primeira pílula da juventude. A oportunidade de voltar ao passado para reparar um erro ou meramente para se dar bem paira no subconsciente do homem desde que este usa a desculpa de comprar cigarros. Com enredo inspirado no diabólico poema Fausto, de Goethe, e baseado em um conto inédito do escritor Alberto Laiseca, que faz as honras de narrador da película, Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto traça um retrato amargo, porém franco, das frustrações, da mediocridade e da insignificância do ser humano.

Ernesto Zambrana (Emilio Disi) é um corretor de imóveis de 63 anos, que leva uma vidinha pacata em Olavarría, província de Buenos Aires. Com a nítida impressão de que é um fracassado e nunca teve boas oportunidades na vida, um dia, enquanto almoça com a mulher Rosa (Emma Rivera) em um restaurante simplório, é abordado por um homem misterioso e sem nome (interpretado por Eusebio Poncela), que lhe propõe o seguinte acordo: Ernesto pode voltar no tempo e passar 10 anos em qualquer época de sua vida e, quando retornar a 2011, receberá uma recompensa de 1 milhão de dólares.  Para sua mulher, entretanto, não se passarão mais que 5 minutos, tempo que justifica a frase-título do filme. O que se vê a partir daí é uma realidade paralela, com um Ernestito desculpando-se com a mãe enferma, implantando o (até então inédito) formato reality show no Canal 3, em Olavarría, tentando impedir o atentado às Torres Gêmeas, plagiando antecipadamente Imagine, de John Lennon, entre tantas outras passagens jocosas e mal-sucedidas.

Se a temática ‘viagem no tempo’ já foi explorada com exaustão pelo cinema e o próprio título possa parecer repetitivo, o filme ganha em seu argumento e estrutura, a começar pelos poderes conferidos ao anônimo imortal (ou seria ele o demônio?): contrariando o matemático Gauss, ele foi atingido duas vezes por um raio, que o fez morrer e reviver, no Marrocos lugar onde, segundo o narrador, qualquer coisa impossível pode acontecer.  Outro diferencial é a narrativa fragmentada, com inserções do próprio Laiseca justificando algumas passagens do conto/filme. A propósito, o carismático escritor é uma enciclopédia de frases de efeito[-riso]. É interessante observar também que uma tartaruga – animal de estimação de Ernesto – pontua a passagem dos anos, como que advertindo que o tempo tem um caráter de efemeridade relativa.

Com roteiro e direção de Mariano Cohn e Gastón Duprat, os mesmos cineastas de O Homem Ao Lado (2009), Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto é uma comédia non-sense da qual os hermanos parecem ter se tornado especialistas. Abordando a trinca tempo-vida-morte de forma crua e com certo humor negro, é um filme leve e divertido, porém altamente reflexivo, principalmente porque subverte o tom existencial pela pura fatalidade. Queridos, vou comprar pipoca e já volto.

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)

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67ª Leva - 05/2012 Aperitivo da Palavra Destaques Outras Levas

Aperitivo da Palavra

UNIVERSO MENTAL POVOADO POR SERES MINÚSCULOS

Por Geraldo Lima

 

O que se pode esperar de uma obra literária é que ela provoque, no mínimo, o estranhamento no leitor, arrancando-o do automatismo da vida ordinária. O leitor que se aventurar na leitura de ‘Notas de Pensamentos Incomuns’, de Anderson Fonseca (Editora Multifoco, 2011), será, com certeza, tocado por esse estranhamento. O livro é composto de minicontos, sem título, e quase sempre narrados em primeira pessoa, ou fragmentos que se articulam como se fizessem parte de uma única história, mas que, ao mesmo tempo, mantêm uma independência em relação ao todo. E esse já é um dado do estranhamento que o livro provoca, pois, ao final, sabemos tratar-se de uma obra cuja tessitura só se completa com a junção de todos esses fragmentos aparentemente autônomos.

E o estranhamento se aprofunda com a presença dos seres minúsculos, bizarros, fantásticos, que povoam o universo ficcional criado por Anderson Fonseca. Tamagotchi, Delírios, Gloeb, Jhungols, Flopers, Dabie-Dabie e Móbile são alguns dos estranhos personagens com os quais o leitor irá se deparar durante a leitura de ‘Notas de pensamentos incomuns’.

Alguns desses seres minúsculos habitam a cabeça (e às vezes dela brotam) ou outras partes do corpo de um quase sempre atormentado narrador-personagem. É o caso de Apple, um “bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso” que um dia escapa da cabeça do narrador-personagem: “E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que me lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça” (pág. 51). Às vezes esse processo de coabitação é mais radical, e o ser intruso penetra o corpo do narrador-personagem ou interfere na sua capacidade de articular o pensamento. Imagine uma mosca que pousa certo dia na mão do sujeito e, depois de algum tempo, já se encontra morando embaixo da sua pele. Ou seja, ele se torna o seu hospedeiro. Noutro miniconto, uma bactéria começa a interferir nos pensamentos do narrador-personagem. Diz ele: “Faz um tempo que meus pensamentos estão sob a regência de uma bactéria” (pág.85). E para que o leitor não ache que isso seja inverossímil, improvável, o narrador-personagem cita como argumento de apoio a matéria publicada na Scientific American confirmando a existência de uma bactéria capaz de “alterar o estado cognitivo do ser humano”. Mas nem precisava usar esse argumento, pois, desde o início, o leitor terá notado que a narrativa de Anderson Fonseca, nesse ‘Notas de pensamentos incomuns’, dá-se fora dos limites do realismo. O que se vê aí é a mais viva manifestação do fantástico e do absurdo.

E é nesse sentido, dessa forte presença do fantástico e do absurdo, que podemos falar das influências que permeiam essa obra de Anderson Fonseca. É visível o diálogo dessas suas narrativas curtas com a obra de Jorge Luís Borges (estão lá os espelhos que simulam outras realidades ou imagens, os corredores formando labirintos, o espírito de fábula), a de Julio Cortázar (o seres minúsculos e fabulosos lembrando cronópios, famas e esperanças), a de Kafka (a metamorfose, a sujeição do personagem a uma realidade que escapa à sua vontade) e, também, o universo mágico da obra de Escher. Esse, aliás, é citado literalmente numa das narrativas: “É embaraçoso viver numa casa desenhada por Escher, e muito mais embaraçoso saber que ela existe numa folha de papel…” (pág. 73). De tudo isso surge um texto de feições próprias, mas que mantém suas raízes fincadas na tradição que subverte o real.

Mais que qualquer outro mecanismo de forjar realidades, é a imaginação que prevalece nesses textos ficcionais de Anderson Fonseca. É da imaginação do narrador-personagem, do seu pensamento incomum, atormentado, que brotam todas essas notas e todos esses seres e universos perturbadores. E, aqui, o leitor irá se deparar com outro elemento que destoa do normal: o narrador-personagem e o autor fundem-se, aparentemente, numa só pessoa. O autor Anderson Fonseca, à maneira de Borges, se coloca na narrativa. (E os limites entre realidade e fantasia quase que se dissolvem.) Todo esse universo de perturbações e estranhamentos situa-se na sua mente. E diante da sugestão do médico para extirpá-lo (a cura mataria a capacidade criativa do autor), ele escolhe permanecer coabitando com os seres que, muitas das vezes, sugam a sua energia e a sua paz de espírito: “Vendo hoje o meu estado, tenho vontade de esmurrá-lo, lançá-lo para longe dos meus olhos; (…) me apeguei de tal modo a essa pequena criatura inocente, que sacrificá-la seria o mesmo que me destruir”, diz ele sobre Gloeb (pág. 18).  Criador e criatura estão, nesse caso, unidos de maneira indissociável. Criar é, de certa maneira, deixar-se habitar pela existência do ser criado. E o leitor que se aventurou por esses estranhos mundos criados por Anderson Fonseca não escapará ileso: os minúsculos seres que pululam na mente do autor, ou do narrador-personagem, passam a habitar também agora a sua imaginação.

 

(Geraldo Lima nasceu em Planaltina, GO, em 1959. Mora, atualmente, em Sobradinho, DF. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, escritor e dramaturgo. Já publicou seis livros, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), UM (romance, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites: O BULE, Dona Zica tá braba e Portal EntretextosColabora com o Jornal Opção, em Goiânia, o Jornal de Sobradinho e a Revista TriploV. Contato: gera.lima@brturbo.com.br)