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153ª Leva - 01/2024 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Motel Destino. Brasil. 2024.

 

 

Nono longa-metragem ficcional do diretor cearense Karim Aïnouz, Motel Destino fez sua estreia no Festival de Cannes de 2024, sendo aclamado pelo público, porém sem prêmios. É estrelado pelo veterano ator Fábio Assunção, e pelos jovens atores Iago Xavier e Nataly Rocha.

Heraldo (Iago Xavier) é um jovem de 21 anos, morador de uma cidade no litoral do Ceará, que faz negócios escusos para uma misteriosa gangue que serve a uma pintora local. Apesar de sua atividade ilícita, Heraldo sonha mesmo em juntar dinheiro para ir morar em São Paulo e procurar por seu desaparecido pai. Porém, por causa de uma mal sucedida tarefa, o jovem é obrigado a se esconder num motel na periferia da cidade e permanece lá trabalhando clandestinamente. Então conhece Daianna (Nataly Rocha), que é a gerente do lugar e casada com Elias (Fábio Assunção), o dono do estabelecimento.

Elias, a princípio, acolhe bem o rapaz, que ajuda na manutenção do estabelecimento, porém, como era de se esperar, Heraldo e Daianna se envolvem amorosamente, de maneira furtiva. Assim, à clandestinidade do trabalho do rapaz se soma a clandestinidade erótica do encontro com Daianna.

 

“Motel Destino” / Foto: divulgação

 

Motel Destino, assim como Praia do Futuro (2014), é um filme de cores contrastantes e luz forte, ensolarado. Em Praia do Futuro, a luz solar e o clima quente do litoral nordestino contrastam com o frio e o cinza de Berlim, onde metade da história se passa. Em Motel Destino, não há essa oposição. A distinção neste filme se dá entre a liberdade do corpo e o confinamento do espaço, que não é só físico, mas também o da precariedade da existência, um confinamento social.

O filme está cheio de reminiscências, tanto da vida nordestina, que vai do sotaque da fala, aos modos corporais e às formas de convivência locais, mas sobretudo de reminiscências (ou seriam referências?) de seus filmes anteriores, particularmente de uma de suas primeiras obras, O Céu de Suely (2006). Assim, embora em Praia do Futuro reapareçam o verde do mar, as hélices das usinas eólicas, as dunas e as falésias das praias, em O Céu de Suely há mais similaridades de enredo, como citações cinematográficas, algumas mais evidentes, outras mais sutis.

Tanto Suely (Hermila Guedes), do filme de 2006, quanto Heraldo, protagonistas de vida precária, querem emigrar do Nordeste (particularmente do Ceará) para São Paulo como fugitivos da existência sem futuro.  As praias cearenses podem ser do futuro, mas o destino do precariado não. Ambos buscam reencontrar pessoas que perderam: Suely, o pai de seu filho e Heraldo, seu próprio pai, para então poderem seguir em frente. Suely vende seu corpo numa rifa, Heraldo de certa maneira também vende o seu num trabalho subalterno e clandestino. Mas diferentemente daquela, que não encontra prazer em seu ato, Heraldo busca em Daianna uma alegria erótica genuína.

Já o nome dessa personagem, vivida por Nataly Rocha, é uma sutil referência à canção que abre O Céu de Suely, uma versão do clássico do grupo Bread, cantada pela cantora Diana. E, curiosamente, Motel Destino termina precisamente tal como se inicia esse filme anterior, dando a entender que a obra cinematográfica de Karim teria fechado um ciclo. Ora, ambas as cenas musicais, filmadas em super-8, são passagens utópicas de um destino mais feliz.

Esses filmes citados se passam no Ceará, terra natal do diretor. Como mencionado, o cinema de Karim é feito de reminiscências, onde se destaca e resplandece a luz solar desse Estado Nordestino, que abre aos personagens uma vida intensa, porém sem futuro, quando a fuga parece ser a melhor opção. No caso do jovem Heraldo, o motel é primeiramente o lugar onde ele é vítima de um logro. Depois, já trabalhando lá, torna-se um lugar de refúgio. Finalmente, torna-se junto a Daianna um recôndito lugar para a existência libidinal e amorosa, entre os gemidos obscenos dos demais frequentadores. Esses gemidos, que se sobressaem do cenário de luzes fosforescentes, perdem sua característica obscena para se tornarem o fundo sonoro dos encontros do casal. Mas, há também a figura tanto cordial quanto amedrontadora de Elias, para compor o triângulo amoroso desse roteiro.

 

“Motel Destino” / Foto: divulgação

 

Elias, vivido em grande participação por Fábio Assunção, é o dono do estabelecimento e marido de Daianna. Sua recepção de Heraldo é inicialmente cordial. Mas tal cordialidade aparente é ambígua como no mito cordial do brasileiro, tanto econômica quanto emocionalmente. Heraldo é a rigor um trabalhador barato para Elias, pois consegue fazer pequenas obras sem cobrar, ou seja, através de trabalho não remunerado. O fato de ser um foragido o coloca numa posição ainda mais precária. Mas Heraldo não é tanto um rival amoroso para Elias, quanto também é um objeto sexual, já que a “macheza” encenada de Elias esconde uma dissimulada homoafetividade.

Como em outras obras, o sexo tem como pano de fundo a violência. Os filmes de Karim procuram fazer uma mediação entre as promessas tropicais da liberdade erótica do corpo e as necessidades de sobrevivência que quase sempre tomam um rumo violento. Esteticamente, há uma composição entre o contraste das cores e dos filtros, acentuadas em Motel Destino pelo ambiente ao mesmo tempo libertino e clichê, e a excitação da música que, nesta e em obras anteriores, assume os timbres extáticos das festas eletrônicas.

O filme, portanto, não é o retrato de nenhuma brasilidade nordestina profunda e sim a construção de um imaginário mais rico de nuances que desafia a monocultura estética, política, ideológica e amorosa que tomou conta do país, com a recente emergência ressentida dos movimentos de extrema-direita.  Este desafio fica claro numa das últimas falas de Heraldo, após um momento paradigmático que traz a reminiscência de uma cena de antiga novela televisiva de Jorge Amado.  Retoma-se, em outra chave, mais afetiva, um tema típico da cultura brasileira, a relação entre o clima tropical, com sua exuberância natural, e o transe dos corpos, que inclui também a violência. Trata-se de fazer emergir no cinema de película (com a qual o filme foi gravado) o cromatismo das luzes abundantes e o vigor das formas eróticas do corpo para o enfrentamento da precariedade da existência. Neste filme, em particular, do choque entre o estreito das condições sociais e o excesso da libido saltam as faíscas de mundos possíveis, mais plenos.

 

 

Guilherme Preger é carioca, engenheiro e escritor. Doutor em Teoria da Literatura pela UERJ. Autor de Fábulas da Ciência (ed. Gramma, 2021) e Teoria Geral dos Aparelhos (Caravana, 2024). Mantém o blog Resenha Cibernética e faz curadoria do cotidiano diária no Mastodon no endereço @gfpreger@piupiupiu.com.br. Escreve sobre cinema na Diversos Afins desde 2015.

 

 

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153ª Leva - 01/2024 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Um olhar sobre O Risco e o Laço – traçados do destino nagô

​​​​Por Maria de Lourdes Netto Simões

 

 

Da larga produção de Ruy Póvoas, deparo-me agora com o seu mais recente livro, de 2024:  O Risco e o Laço – traçados do destino nagô.

Perpassando um olhar pelas publicações que tenho acompanhado desde Vocabulário da Paixão (1985), posso afirmar da riqueza e singularidade dessa produção que, através do olhar do Babalorixá que é Póvoas, resgata a história da gente nagô, ao tempo em que ensina, passa uma cultura singular e diverte o leitor.

Afora a sua produção literária, há a científica, desse que também foi Professor Titular de Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, onde recebeu o título de Doutor Honoris Causa (2018).

A exemplo das publicações não ficcionais, é imprescindível referir a trilogia que denominou O labirinto Preto e Branco. Num mundo preto e branco, essa rica e instigante trilogia culmina com o terceiro volume, publicado neste 2024: Perfis da Resistência – deslindando as várias faces. A trilogia evidencia uma caminhada de reflexões, relatos de lutas e conquistas sobre o status quo do negro no Brasil.

Agora, na sua vertente literária, está o quinto de contos, Risco e o Laço – traçados do destino nagô.  É uma ficção que, valendo-se dos Odu de Ifá, ensina e diverte. Ilustrado pelo autor, os desenhos e figuras remetem ao seu tema de fundo – o jogo de búzios, prática dos terreiros de candomblé para tratar dos arquétipos da criação, representados nos Odu de Ifá.

Em verdade, no livro, não só a apresentação gráfica dos desenhos e figuras comunica; também, a referida comunicabilidade com o leitor é acrescentada pela estrutura, integrada de esclarecedores paratextos. Aliás, esse uso dos paratextos já é uma estratégia do autor, em trabalhos anteriores, dos quais especialmente cito A Viagem de Orixalá (2015).

Em O Risco e o Laço – traçados do destino nagô, os paratextos deixam entrever o conhecimento do babalorixá que é Ruy Póvoas, como o articulador da ficção, que recorre a dois tipos de paratextos, para informar ao leitor a sua estratégia ficcional (não autoral e autoral).

​Conforme esclarece no paratexto que abre o livro, Odu de Ifá é “oráculo dos babalaôs, sacerdotes de Ifá”. O livro é estruturado em dezesseis Odu. Os vários contos se relacionam com os Odu que “representam os Arquétipos da criação; as narrativas são voltadas para as variadas vivências humanas” (2024, V).

O paratexto autoral, que interroga “Por que narrar os Odu de Ifá?”, é bastante esclarecedor para o leitor que não conhece os preceitos nagôs. Por outro lado, também informa a concepção da criação literária dos dezesseis Itan –  contos que buscam se relacionar exemplarmente com os Odu.

Assim, as 16 partes em que se estrutura O Risco e o Laço, cada uma, é um Odu, antecedido pela descrição-síntese de cada arquétipo: Òkànràn, Òyèkú, Ògundá, Ìròsùn, Òsé, Òbàrà, Òdí, Èjìogbè, Òsá, Òfun, Òwónrín, Ìwòrí, Òtúrúpòn, Ìká, Òtúrá, Ìretè, Opira. E são dezesseis contos, itans que exemplificam os traços de cada signo – “o caminho, isto é, aquilo que faz parte da destinação da pessoa” (2004, p. 18). São textos que, em contando uma história, ensinam, sinalizam caminhos, divertem e dão lições.

E o texto finaliza, mas fica com o leitor o sugestivo convite apresentado no paratexto inicial, para que, cada um, se identifique com uma das narrativas.

Eu, cá para mim, busquei a minha identificação… E conclamo cada leitor a fazer o mesmo; mas sem que deixe de observar o pensar do citado Paul Sagan (p. 213)

 

A imaginação
muitas vezes nos leva
a mundos
que nunca sequer existiram.
Mas sem ela
não vamos a lugar nenhum

 

E o leitor não negligencie essa última lição do livro!

 

Maria de Lourdes Netto Simões (Tica Simões) é doutora em Estudos Portugueses e Pós-Doc em Literatura Comparada e em Turismo Cultural (UNL, Portugal). Profa Titular aposentada/UESC, onde foi pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação e pesquisadora CNPq.  Comendadora da Ordem do Ensino Público (Portugal); Mérito São Jorge dos Ilhéus (Bahia, Brasil).  Produção científica em literatura e turismo, publicada em livros, artigos e documentários, no Brasil e exterior.  Integra as Academias de Letras de Ilhéus (cadeira 19) e de Letras de Itabuna (cadeira 31).  

 

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153ª Leva - 01/2024 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

notas dispersas e submersas com alguns grãos de areia colhidos no bolso*

Por Alex Simões

 

 

não, não é de agora que poesia e poetas nadam sobre o mar e passeiam sobre e sob as águas doces e salgadas. Homero e Caymmi cantaram seus  mares respectivos, Sapho tirou sua  própria vida se atirando ao mar Egeu e Camões salvou os Lusíadas nadando com apenas um braço livre sobre o mar da Cochinchina, após o naufrágio ter levado sua Dinamene embora. Alfonsina Storni submergiu as saudades de um grande amigo no Mar del Plata, Waly Salomão tomou o mar de  sargaços de Ezra Pound e o ofertou a Maria Bethânia, que canta “Eu e água”, de seu irmão Caetano Veloso, que junto com Gilberto Gil compôs “Beira-mar”.

Matheus dos Anjos traz um livro de poemas encharcado de água do mar, do rio, da chuva e das lágrimas, com cheiro de salitre e uns grãos de areia, pois o “solo de praia cabe no bolso” (limo dos dias).  seus versos passeiam sobre e sob as águas, doces e salgadas, e lançam mão de diversas estratégias formais para imprimir movência em meio à “liquidez  farta – diferenciada / negando Bauman com a força / de sete mares” (menino da costa do dendê). temos haikais e  outras formas curtas da lírica e outras formas com versos tomando mais fôlego a ponto de plasmar-se em um poema em prosa cheio de memórias de uma infância em um certo “paraíso alagado”.

aqui alguns topônimos e gentílicos escondem água dentro. há água em todos os cantos deste livro, inclusive nos títulos, inclusive em outras línguas que não a portuguesa. se Kirimurê é “o mar interior” – como assim os tupinambá denominavam  a Baía de Todos os Santos –,  é com este título que Matheus nos apresenta uma cartografia de uma Salvador muito nos moldes oswaldianos e nos dá a primeira pista para vislumbramos aonde nos quer levar o título enigmático deste livro: “o côncavo onde a água sempre faz a curva”. “axiluandas” significa “homens do mar” e é como os portugueses chamavam os falantes de quimbundo, os ambundos, grupo étnico que, por uma dessas etimologias mitológicas, ao responder sobre o que estavam fazendo, lançaram um “trabalhar com redes de pesca”.

“um marinheiro ao contrário” vive em exílio em seu próprio apartamento no 5o andar de onde recolhe areia guardada nos bolsos. o tema do marinheiro exilado presente em Álvaro de Campos e em Sophia de Mello Breyner Andresen, e não só neles, ressurge aqui plantando o mar numa horta vertical. neste, que talvez seja meu poema predileto deste livro, a segunda parte de um tríptico, encontramos outras pistas para entendermos o que faz Matheus escrever o que escreve e como escreve: “a natureza do mar é não ter paredes” e “[…] a revolta é / estender os formatos” (II – plantei o mar na minha horta vertical).

um marinheiro ao contrário vê as coisas fora de lugar porque despatriado. algas são vomitadas, o tempo deve vir sem relógios e o corpo é “bom de bagunçar”. o erotismo passeia pelas formas estendidas às vezes nada discreto, como em “prepara tua canoa/ se pretende me cruzar” (igarapé).

leia esse livro como quem nada ou sobe uma ladeira durante uma chuva torrencial até passar por uma curva cheia de água que atravessa o teto de uma casa e pinga sobre sua cabeça. tudo nele é água, doce ou salgada, em estado líquido, sólido e gasoso. leia movendo-se entre o mar exterior e o mar interior, não só Kirimurê. se, por um lado, “cada banho leva em si um cadáver” (renovo diário); por outro lado, há um clima de intensa umidade provocando esse mar de dentro a emergir pelos poros, como o poeta, que se equilibra em uma corda bamba e bomba, nos canta e conta em “mormaço”:

 

“se escrevo
é pra fazer meu sertão de dentro
virar mar”

 

* Este texto era para ser posfácio do livro a pedido do autor, mas, por algum mistério da senda literária, ficou inédito.

Alex Simões é poeta e performer.

 

 

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152ª Leva - 02/2023 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

A “segunda natureza” de Santiago Fontoura

Por Gustavo Rios

 

 

Influenciado em certa medida por gente como Gullar, Bandeira e Drummond1, com alguma coisa da postura do João Cabral de Melo Neto, Antipática Lira, do escritor Santiago Fontoura, parece ter sido concebido a partir do observável e do trivial. O miúdo e o comezinho surgem como matéria e o ponto de partida desse trabalho. Lançado pela editora Segundo Selo, no livro percebemos o olhar do poeta que abarca o todo. Que o expande e o reverbera, sem vacilar em seu trajeto.

O poema Empada de Belém talvez seja um bom exemplo para tentar explicar essa minha primeira impressão: “Há eternidade nesta empada de Belém / (é que ela desperta em mim, / já na primeira mordida, / a certeza – que me foge nos intervalos / em que não degusto a guloseima – / de que a vida, somente a vida, / interessa)”.

Do simples ato de comer a iguaria de origem portuguesa, conhecida também como pastel de Belém, Santiago Fontoura desenvolve um dos fundamentos de sua escrita, que é: todo momento vale a pena; tudo merece atenção e questionamento; todo pequeno gesto contém mais do que mostra, e pode se eternizar para quem tem talento e firmeza.

Daí, as perguntas: qual o verdadeiro alcance da ideia que une, num corpo textual, a eternidade presente num momento tão comum (comer algo) e a comoção causada por esse mesmo momento? Talvez um devir em que a vida, “somente a vida” interessa, e que poucos conseguem expressar? Pensemos no ponto de partida, a empada (sim, a empada!). Na motivação que deu origem ao poema. Agora adicionemos o olhar certeiro do poeta (e o paladar também: a empada vale uma epifania, sim!).

Não é exclusividade de Santiago o uso de tal modus operandi, por assim dizer. Essa coisa de converter momentos imperceptíveis aos olhos cegos em literatura de qualidade já vem de longe, sabemos. E os já citados grandes poetas, assim como outros que também influenciam Antipática Lira e que desconheço, agiram ou agem dessa forma; flâneurs ou não, eles arrancam do banal algo maior do que se mostra.

 

O EU E O CABRAL

 

Quanto ao Cabral, na leitura que fiz do livro entendo que a influência do pernambucano reside na ideia da construção pensada. E numa diluição marota do “eu” sem resvalar para a frieza. Nem para a rigidez.

Santiago Fontoura, o tal “eu” dessa minha teoria amalucada, está presente como persona e pronome-da-primeira-pessoa, até, quando necessário, não escondendo a inquietação diante das coisas simples e de um mundo cheio de pressa e ruínas. Mas a forma escolhida para o texto dialoga com o leitor de perto, digamos. Sem firulas nem hermetismos.

Os chamados versos livres despertam um genuíno interesse pela apresentação e pela integração desses versos à construção do resultado final. Tudo flui, numa boa. Fontoura finca pé trabalhando com o trivial, com o alcançável em termos de linguagem. Contudo, apesar do uso de palavras corriqueiras, o poeta onsegue usá-las de uma maneira em que a cadência do texto, assim como sua força metafórica, instiga.

A tal lira surge não de forma esquemática: não cabe o tal decassílabo, muito menos uma estrutura “rígida de rimas consoantes” ou mesmo toantes, usadas pelo “poeta engenheiro” (o nosso João Cabral). Assim como não há a defesa peremptória de qualquer estilo, formalidade, modernidade fajuta, questionamento banal ou posicionamento estético que trave sua criatividade. Antipática Lira nos conquista pelo pungente, essencial no fazer literário, e por um tipo de clareza transcendente, fruto das escolhas de seu criador.

 

A POESIA QUE PERGUNTA

 

No caso de Santiago, o empenho é pela poesia como veículo de indagação sincera e expressão elevada, sem barroquismos. E esse talvez seja o seu trunfo, se levarmos em conta outra obra, Leitura Neon-reciclada, indicando a mesma linha – ao menos em relação ao tratamento formal e o intuito em se fazer uma literatura de respeito.

Vejamos agora se o exemplo abaixo consegue explicar o que digo: “Macho Ômega / “Ninguém sabe, / mas sou um homem triste. / “Desconheço as ternuras cotidianas: / grandes árvores centenárias, / beijo amigo sem escárnio, / música que somente o vento é capaz de reger. / “Trago entre as pernas uma angústia / – esta carne mole (que faz parecer / que apodreço) explicita que, de fato, / sou feito de camuflado tormento / e nenhuma sabedoria.”

Assim sendo, para melhor definir a visão de Fontoura talvez eu deva apostar minhas fichas no que o velhinho Pound um dia escreveu sobre a chamada “segunda natureza”2, em vez de vinculá-lo à obra Cabralina. Quem sabe seja mais próximo da realidade do que uma possível influência do pernambucano que, com seu belíssimo trabalho, deu “à vertigem, geometria”.

 

OS TEMAS

 

Quanto à temática, nas 122 páginas Fontoura reflete sobre muita coisa: religião, ao menos em seu aspecto humano (“Ratzinger”; “Oração”); o amor real, sem um traço de pieguismo sequer; a amizade franca e a questão do “macho”; a literatura e a sua relação com a vida; a própria vida em si (“Antibudismo”, um dos melhores); a política sem partidarismos (“Conclusão de um homem sem partidos ou legendas”); a paternidade; e, para encerrar, a relação dele com nossa cidade, Salvador, com suas ladeiras e idiossincrasias, sendo o poema abaixo um exemplo válido:  “A praia é o limite – e a cidade, então,/ chega ao fim: não há curvas, becos ou ladeiras. / Mesmo a pressa – tão típica –, mesmo a desordem / – inevitável –, assumem uma estranha distância / quando é a ilha o horizonte alcançável.”

Dando uma olhada no conjunto, penso que o autor consegue a proeza de ser cuidadoso na forma abarcando, com seu olhar atento, diversos conteúdos. Isso sem transigir no seu belo trabalho – fato que tornou seu livro um achado para mim. Santiago pode não ter inventado a roda, ao escolher trabalhar com elementos conhecidos (e acho que nem foi essa a ideia, para ser bem sincero). Mas sua escrita, extremamente pessoal muito por conta de sua personalidade, se mostram ao leitor como verdadeira poesia, entendendo (e estendendo) o termo da melhor forma possível.

Assim sendo, vos digo que, se um dia me perguntarem o que resta aos escritores contemporâneos, ficarei em dúvida entre o pastiche proposital e a cópia descarada – a falsa noção de que está se fazendo e se discutindo algo novo. E o poeta “antipático”, foco desta resenha, me pareceu não se perder, sabendo muito bem o que faz e para onde ir ao evitar ao máximo um desses possíveis extremos.

E caso algum dia me perguntem sobre o que achei do livro dele, acho que vou sugerir uma olhada no Ezra Pound3. Ao menos em alguns dos seus conceitos sobre o fazer literário, antes que meu interlocutor pense em julgar Santiago Fontoura. Ou supor que faltou ao cara arrojo e “novidade”.

 
1 Drummond: mais para a chamada “fase do não”, seguindo a crítica; Bandeira: “Estrela da Manhã” já resolve a parada. Gullar: na forma e na poética em si, desconsiderando a fase “partidão”.

 

2 “É precisamente aqui que tem lugar o sistema usual de sofismar com meias-verdades. De fato, as melhores obras provavelmente ‘brotam’, mas só DEPOIS que a técnica se tornou uma ‘segunda natureza’, e o escritor não precisa mais pensar em CADA DETALHE, da mesma forma como Tilden não precisa pensar na posição de cada músculo em cada lance de tênis. A força, o impulso, etc., seguem a intenção principal, sem dano para a unidade do ato.” Ezra Pound em Abc da Literatura, página 72.

 

3 Como disse um amigo escritor: “O livro é quase um manifesto e, pra isso, é preciso ler um pouco a história da literatura, onde estava e para onde ele queria levar. Depois tem isso da tradução. Bom, vencidos esses pequenos obstáculos, o livro flui na leitura ahahahaha”. A gargalhada é verídica.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.

 

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152ª Leva - 02/2023 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Mato seco em chamas. Brasil. 2022.

 

 

Lançado em 2022 no Festival de cinema de Berlim, sendo aclamado em outros festivais internacionais, como o “Cinema du Réel”, em Paris, ou o Festival do Rio (2022), a última obra da dupla Adirley Queirós e da portuguesa Joana Pimenta só foi lançado em cinemas comerciais no Brasil neste ano de 2023. Para falar desta obra insólita, no entanto, é preciso retornar à obra anterior da dupla, Era uma vez Brasília, de 2017.

Em Era uma vez Brasília, o agente intergaláctico WA4, após fazer um loteamento ilegal em seu planeta de origem, chamado de Sol Nascente, é preso e para ser perdoado deste crime e receber uma moradia para ele e sua família, recebe a missão de viajar no tempo e no espaço e matar o presidente Juscelino Kubitschek no Brasil.  No entanto, devido a problemas em sua nave precária, WA4 cai em Brasília em 2016, precisamente no momento histórico em que ocorre o processo de impeachment da Presidente Dilma Roussef. Sua história é contada por Marquim da Tropa a Andréia Vieira, a Rainha das Kebradas, que será a responsável pela rebelião para expulsar os monstros que tomaram conta da sede do governo brasileiro.

Assim, nesse filme de 2017, o estilo da ficção científica fornece uma alegoria cinematográfica para confrontar o retrocesso representado pelo impedimento da Presidente deposta: só através do desaparecimento da capital brasileira seria possível salvar o Brasil. Contra o projeto golpista da “Ponte para o Futuro” (expressamente citado no filme), Adirley e Joana apresentam a viagem no tempo para o passado e a temática do “paradoxo do avô”, temas clássicos dessa abordagem narrativa. O filme também recupera o personagem viajante e cadeirante Marquim da Tropa, do filme anterior de 2014 (apenas de Adirley) Branco Sai, Preto fica, assim como a temática das viagens no tempo através de naves precárias (neste último filme representada por um container). Por sua vez, o personagem de Andréia Vieira estará presente em Mato seco em chamas, de 2022. Assim, os três filmes de Adirley, os dois últimos com Joana Pimenta, estão conectados, menos como uma saga ou uma série, mas como uma passagem cinematográfica de bastão. Cada filme recupera do anterior um gancho, uma peça do argumento, que serve como um “fio” para sustentar o roteiro minimalista da obra seguinte.

Em Mato seco em chamas, três ex-presidiárias, Léa (vivida por Léa Alves da Silva), sua irmã Chitara (vivida por Joana D’Arc Furtado) e Andréia Vieira (ela mesma), acham petróleo num oleoduto que passa no subsolo de seu terreno de moradia (de Chitara) e montam uma refinaria “caseira” para extrair o combustível e vendê-lo a um preço barato aos motoboys da favela Sol Nascente em Ceilândia. Elas se tornam então famosamente as “gasolineiras”. Ao mesmo tempo, Andréia começa a campanha para se eleger deputada pelo PPP – Partido do Povo Preso. O negócio das meninas é visto com preocupação pelas forças da lei, da ordem e do mercado, e as amigas precisam montar guarda na refinaria, que está ameaçada por uma espécie de caveirão, um blindado com agentes fiéis ao lema Deus, Família e Pátria. O enredo se desenrola entre as eleições de 2018 até o momento da posse do ex-presidente Jair Bolsonaro, em janeiro de 2019.

 

Mato seco em chamas / Foto: divulgação

 

Há, portanto, pontos de contato, como “encaixes” narrativos entre os três filmes, mas o que de fato os liga definitivamente é o “estilo” cinematográfico de Adirley e Joana. Os diretores são conhecidos por construir cenários e roteiros de “ficção científica periférica”, ou ficção científica precária. De fato, o autor brasiliense, com sua produtora 5 do Norte, assim como seus colegas de Contagem (MG), da produtora Filmes de Plástico, já bastante comentados nesta revista, são cineastas da periferia, ou como disse um crítico, do “ponto de vista da laje”. Esses autores não fazem filme sobre a periferia, mas da periferia. É a perspectiva (ou a objetiva) da própria periferia que está em ação. Seus filmes comungam do registro não só da realidade como da fantasia das comunidades periféricas.  Assim, em Marte Um, de Gabriel Martins, um menino da periferia de Contagem, que já é periferia de Belo Horizonte, sonha em estudar astrofísica e viajar para Marte. Este sonho recupera um ideal tecnológico como utopia da periferia, num momento em que justamente os horizontes utópicos se rebaixaram. As amigas Léa, Chitara e Andréia, que montam uma refinaria e extraem petróleo com seus próprios meios e braços, já produzem sua própria utopia, e sonham a partir daí com uma vida melhor, transformada.

Comum também a todos esses filmes é a indeterminação entre realidade e fantasia. A fronteira ficcional nunca está completamente clara, sobretudo em Mato seco. As moças que são, na ficção, ex-presidiárias, também o são na “vida real”. Léa também se chama Léa e Andréia, Andréia. Chitara era o apelido de capoeira de Joana Furtado. Léa e Chitara são efetivamente irmãs. Numa das cenas do filme elas conversam sobre seu pai. Este é ao mesmo tempo um registro documental e ficcional, pois está inserido dentro da trama, das moças que conversam enquanto montam guarda na refinaria fictícia (que, no entanto, é um cenário dramatúrgico efetivamente construído para a realização do filme e que permaneceu na comunidade durante alguns meses). Por outro lado, a própria atriz Léa torna a ser presa durante as filmagens. Essa prisão é incluída igualmente na montagem final. E finalmente, há as cenas referentes ao contexto histórico. Distante alguns quilômetros da refinaria, Jair Bolsonaro toma posse. O filme inclui as cenas, feitas pela própria equipe produtora, do dia da posse presidencial, quando a Praça dos Três Poderes é tomada pelo público “verde-amarelo” apoiador do ex-presidente. A história ficcional se passa paralelamente à História oficial. Os mesmos fogos de artifício que iluminam a sede de governo também iluminam a laje da refinaria.

No entanto, este paralelismo gera no filme de Adirley e Joana um estranhamento cognitivo: o tempo da ficção se ramifica e se dobra em torno de si mesmo gerando efeitos não-lineares. A montagem cinematográfica privilegia não uma narrativa de temporalidade linear, mas se desenvolve em torno de eventos singulares, cuja localização temporal é indefinida. Léa, que é presa numa cena e encaminhada ao presídio feminino, reaparece depois livre conversando com seu irmão motoqueiro. Não sabemos se esta conversa acontece antes ou depois da prisão. Ele, o irmão, mostra a Léa a comunidade transformada e eles passeiam pela construção do que será, futuramente, um enorme presídio federal bem no meio da comunidade. Sol Nascente, recentemente recenseada como a maior favela brasileira, é transposta então para um tempo feérico. O estilo de ficção científica periférica, pela qual o diretor Adirley é conhecido, se torna fantástico, como um Mad Max brasileiro ou, ainda melhor, como um novo Bacurau.

 

Mato seco em chamas / Foto: divulgação

 

No entanto, a ficção científica de Mato seco é mais um “mcguffin” do filme. Ela permite embaralhar fato e ficção, o real e a fantasia. Como disse Adirley numa entrevista, para falar de futuro é só ligar uma câmera na periferia. Há neste filme, como nos anteriores, uma “estética da sucata”. Assim como as naves construídas em containers ou em kombis, agora é toda a refinaria que é construída de forma “artesanal”, com os materiais disponíveis. A fábrica de petróleo é movimentada inteiramente por braços femininos, que recuperam para o contemporâneo toda uma nova dignidade para o trabalho físico e manual. A sonoplastia do filme é um elemento fundamental dessa estética. O som incessante das máquinas funcionando ressoa como elemento acústico de atrito e de intervenção de um real material, obrigando a que o próprio contexto histórico (que acentua o trabalho imaterial) pareça fantasioso.

Essa fantasia não serve para borrar a fronteira entre fato e ficção, mas para figurar outra temporalidade que transcorre cortando a realidade histórica dominante. O filme de Adirley e da portuguesa Joana Pimenta (com fotografia e cenografia primorosas) tem a linguagem do corte ríspido (na edição incrível de Cristina Amaral) e do choque estético que contrapõe nossas noções de classe (como na cena do churrasco na refinaria, quando sentimos aflição com as moças comendo com as mãos cheias de graxa). A cena em que a quarta parede cai é uma intrusão diegética súbita do real na ficção. Se os espectadores ficam “chocados” com as personagens fumando ao lado de tanques de petróleo, era essa mesma a intenção dos diretores. Esse choque estético tem um elemento de real que se contrapõe à cena esdrúxula da posse do ex-presidente. Seus apoiadores, em seu culto desvairadamente kitsch, parecem mais irreais do que as personagens ficcionais.

É incrível que filmes como Marte Um e Mato Seco sejam precisamente obras que abordam os modos como a periferia teve que se “virar” no período bolsonarista. Ambas as obras se passam exatamente no mesmo período histórico, quando as periferias brasileiras se defrontaram com o fato da extrema-direita chegar ao Poder. É, no entanto, uma estética sobre a pluralidade dos mundos: cada periferia é um mundo autônomo não só do ponto de vista da realidade, bem como de seu imaginário. No filme de Adirley e Joana estão justapostos na noite seca de Brasília o Poder e a Periferia. A estética da sucata funciona como um modo próprio (ou impróprio) de se trabalhar materiais e signos em reciclagem e para construir outro mundo autônomo em coexistência. Esta obra tem base numa filosofia da gambiarra, numa gambiologia. Isso significa não apenas um elogio ao precário, ou mesmo ao precariado, mas antes a uma ideia de que a obra de arte não é um produto acabado, mas que funciona com “ganchos” ou “puxadinhos” semióticos, com ligações com outras esferas de reprodução da vida, como a economia ou a política, ou ainda com a própria estética. E finalmente entre realidade e imaginário. A estética ficcional “gambiarrada” do filme não é afinal a da tradicional montagem cinematográfica, mas sim a de uma DESMONTAGEM poética do padrão global, hegemônico, da verossimilhança dos paradigmas narrativos dominantes e sobretudo das falácias da ideologia de extrema-direita, com suas conspirações, mentiras e violência.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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152ª Leva - 02/2023 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

CRÔNICAS DE VIDA E OBRA

 

Por Sandro Ornellas

 

 

O chileno Benjamín Labatut, em Quando deixamos de entender o mundo (2022), é um escritor borgeano que abandonou o misticismo gnóstico presente no argentino para se dedicar a tratar literariamente da ciência moderna em narrativas igualmente desconcertantes e de gênero incerto. Algo entre biografia geracional, poesia cosmológica e ensaio especulativo. Mas o que me chamou a atenção num primeiro momento foi o esforço de caracterização de cientistas como aquele tipo de herói que parece decalcado do que eram os poetas românticos do século XIX: obcecados por suas ideias brilhantes, excêntricos, doentios, gênios incompreendidos, místicos, competitivos, trágicos e apaixonados. Muito do que marca o estilo dessas caracterizações é uma adjetivação implacável, seja através dos próprios adjetivos – como os que usei acima para seus personagens –, seja por orações adjetivas. Além de caracterizar sujeitos que o senso comum toma por alheados do mundo, tal procedimento dá sabor e riqueza literária aos textos.

Um outro traço das histórias de Labatut – mais sofisticado do que essas representações romantizadas – é sua capacidade de articular narrativamente enredos, o que dá aos seus textos certo caráter de crônicas da vida e da obra de uma geração de cientistas. Um dos elementos de que lança mão são as datas, o que possui lá sua objetividade histórica, embora a articulação não seja verídica, e sim verossímil. Isso é reforçado por aspas retiradas de cartas e diários como fontes comprobatórias do que narra. Mas é a especulação o que mais me chama a atenção, e o que pode nos levar a nomear suas narrativas como ensaios especulativos. Encontramo-la às vezes como um tipo de poesia cosmológica, que são as tentativas de Labatut em verbalizar as brilhantes equações matemáticas que os obcecados cientistas formulam para fenômenos de existência puramente teórica.

Há uma passagem do conto “Quando deixamos de entender o mundo” em que Werner Heisenberg ouve de Niels Bohr que “o físico – como o poeta – não devia descobrir os fatos do mundo, mas apenas criar metáforas e conexões mentais. […] Esse aspecto da natureza requeria um novo idioma”. É como se essa passagem, que Labatut reputa como de Bohr, referendasse as próprias descrições de Labatut das equações de Heisenberg e seus rivais. Falando do matemático Alexander Grothendieck em “O coração do coração”, Labatut escreve que “adorava escolher le mot juste para os conceitos que descobria, como uma forma de amansá-los e torná-los familiares antes de que fossem compreendidos sem uma totalidade. Suas étales, por exemplo, evocam as ondas tranquilas e dóceis da maré baixa, o mar como um espelho imóvel, a superfície de uma asa esticada ao máximo ou os lençóis com os quais se cobre um recém-nascido”.

Se, então, essa poesia descritiva da cosmologia científica dá às narrativas seu traço de ensaio especulativo, há também algo dessa especulação ligada a uma outra cosmologia, talvez o principal arcabouço do livro, amarrando textos autônomos. Refiro-me ao contraste estabelecido entre a última das narrativas e o “Epílogo”. Ela ocupa metade das páginas e com o mesmo título da tradução brasileira, é a que trata da história de alguns dos principais físicos teóricos que depois se reuniriam na Bélgica no ano de 1927 para de alguma forma fundar a física quântica. Trata-se de uma geração dourada de cientistas europeus nobelizados que pareciam, com suas formulações brilhantes e rivalidades teóricas, alheios ao mundo de ascensão do nazifascismo no período entreguerras, bem como às arriscadas consequências de suas invenções.

Não é uma história nova essa contemporaneidade entre a criação de uma ciência teórica, distante anos-luz do mundo cotidiano, a ascensão do nazismo, a guerra daí decorrente e a bomba que pôs fim ao conflito no Japão. No livro, também encontramos essa contemporaneidade logo na primeira narrativa, “Azul da Prússia”, sobre a origem, como pigmento azul para pinturas, e os usos do cianureto para suicídio por oficiais nazistas. “Azul da Prússia” é um exemplo da habilidade de Labatut em amarrar histórias aparentemente díspares. Essa especulação narrativa, encontramos, por exemplo, no enredo que entrelaça de modo misterioso as histórias do matemático japonês Shinichi Mochizuki, admirador de Alexander Grothendieck, cuja vida e obra são contadas até seu voluntário isolamento nos Pirineus. Na hora de sua morte, em 2014, lemos a sugestiva hipótese de o japonês estar ao seu lado do leito hospitalar. Pura ficção entrelaçando vidas de dois matemáticos brilhantes e desconfiados das instituições responsáveis por financiar pesquisas avançadas.

Já o Epílogo, todavia, intitulado “O jardineiro noturno”, aponta para o título original do volume, Un verdor terrible, e explicita um contraponto a todas essas histórias trágicas: um narrador (o próprio Labatut?), entre reflexões sobre a vida junto à natureza, descreve a exuberante paisagem andina encontrada no Chile, em especial junto de uma pequena cidade onde se depara com um ex-matemático que abandonou a profissão para se tornar jardineiro e aprender a lidar com plantas. Teria abandonado a matemática inspirado justamente pelo desaparecimento voluntário de Grothendieck. O jardineiro lhe conta saber como árvores cítricas morrem: “sucumbem por superabundância”. Então o narrador lhe pergunta quanto tempo de vida teria seu limoeiro, ao que o jardineiro lhe responde que “não havia como saber, pelo menos não sem antes cortá-lo e olhar dentro do tronco. Mas quem iria querer fazer isso?”. Assim, o livro se encerra e deixa para o leitor a tarefa de comparar esse limite de curiosidade do jardineiro com a hybris trágica que brilhantes cientistas legaram à humanidade.

Concluí a leitura notando que Einstein pouco aparece em suas páginas, sendo esses momentos preciosos contrapontos ao brilho científico dos demais, como quando ele acusa Bohr e Heisenberg de, com seu princípio da incerteza, desmaterializar a realidade física, afirmando que “Deus não joga dados com o universo”. Inspirado pela presença sibilina de Einstein nas narrativas, lembrei de outro livro, No tempo das catástrofes, da filósofa da ciência belga Isabelle Stengers. Nele, ela faz invectivas para que os cientistas politizem suas pesquisas, diante da catástrofe ambiental instalada e crescente, a que chama “Intrusão de Gaia”. Stengers sugere a ciência e os cientistas passaram a ser hoje cultuados, como se tivessem

muito a ver com a ideia de que o pensamento “é algo que se conquista’” [que] pede renúncia e solidão. Por isso muitas daquelas “cabeças pensantes” poderão, por outro lado, se curvar com respeito diante da paixão de Antonin Artaud, que berrava e vociferava que o pensamento não estava “na cabeça’” Mas o que é importante para eles é que berros e vociferação traduzam uma experiência radical, na vizinhança mais próxima possível da loucura. Artaud, promovido a herói cultural, nos oferece então a confirmação de que o Homem é capaz de afrontar, ainda que se perca nele, o caos abissal que é preciso manter a distância para pensar.

Há algo nessa passagem de Stengers que liga Artaud aos cientistas de Labatut que propiciaram, com seus ímpetos de conquista científica, a criação da bomba atômica e, daí, a crise ambiental que proporções planetárias e que apenas começamos a adentrar. Esses “heróis culturais” do século XX afrontaram “o caos abissal” e, se nos legaram orgulhosas fórmulas de enorme conhecimento abstrato, também nos puseram na rota de um risco iminente. Mas isso não é Labatut quem diz – sou eu, leitor, que concluí com o fim dessa leitura fascinante.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.

 

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152ª Leva - 02/2023 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

MATEUS FAZENO ROCK – JESUS Ñ VOLTARÁ

 

 

A pseudo-semelhança com Matuê e o sorriso fácil do jovem de 29 anos é só uma faceta das águas profundas em que Mateus Henrique Ferreira do Nascimento flutua. Depois de algumas tentativas de redigir acerca do mais recente álbum de Mateus Fazeno Rock logo após o lançamento de Jesus Ñ Voltará (2023), em abril, e após ter perdido tudo que já havia rascunhado sobre criador e criatura, nada mais justo do que revisitar este álbum que tanto me impactou no primeiro semestre para celebrar os 17 anos de Diversos Afins. Hoje entendo que o tempo foi crucial para que eu conseguisse expor em palavras o impacto que a obra adquiriu em mim. Até porque 6 meses se passaram e poucos discos me agradaram tanto – do início ao fim – quanto este.

O segundo álbum de estúdio do artista, ao contrário do que sugere seu título, não faz das matrizes religiosas sua fonte principal de discussão. O trabalho dialoga sobre vivências e dores atemporais, que vão além do que limites geográficos ou socioeconômicos supõem. Criado no bairro da Sapiranga, periferia de Fortaleza, além de músico, Mateus é ator, cantor, compositor e performer. O artista também é fundador do “Rock de Favela”, termo que identifica a cena de rock que vai além de questões clichês e aborda a temática negra e periférica. Ele também é a cachola criativa à frente da banda que o acompanha em suas apresentações ao vivo, composta por: Roberta Kaya (guitarra), Eric Lennon (contrabaixo), Glhermee (bateria) e DJ Viúva Negra. Completam o time as backing vocals Mumutante, Bianca Ellen e Jocasta Brito, e os dançarinos Larissa Ribeiro, Rafael Lima e Rafael Tomás.

 

Foto: Jorge Silvestre

 

A faixa-título Jesus Ñ Voltará (a autodestruição começa quando descobrimos quem somos/e principalmente quem somos e aonde estamos) tem a participação de Jup do Bairro e é o abre alas do seu rock de favela, onde logo adverte que o salvador não retornará, mas mesmo assim “quer(o) crer num Deus que bota fé em mim”. A resiliente Pode Ser Easy (firme eu sigo na disposição/se me fazem mal não aceito como algo vital) desemboca num refrão otimista e fácil, extremamente fácil (para não perder o trocadilho) capaz de nos fazer cantarolar por dias a fio: e pode ser easy/e pode ser que eu aterrize/e pode ser que faça bem/eu ir além do mundo que eu sempre estive. Pose de Malandro/Me Querem Morto é outro ótimo momento do disco. Trata-se de uma parceria com Big Léo, que se divide em dois atos, mesclando uma vibe de charme de baile funk com um rap que lembra Criolo em suas canções mais politizadas. Nome de Anjo é poesia pura e talvez uma das mais belas canções do disco – quiçá do ano – sobre alguém que, como dizia Renato Russo em Love In The Afternoon, foi embora cedo demais. Enquanto o reggae Melô de Aparecida (favela pra mim é horta/e fruta podre é composta/bota na terra de volta) é divertida, a doce Pôr do Sol Marrom – composta enquanto pedalava pela orla num entardecer em Fortaleza – tem a profundidade de canções como “Cru”, que lançou Liniker ao grande público.

O “intervalo” entre o primeiro e segundo bloco de canções é composto pela declamação da carta intitulada Feito Um Porco Indo Pro Abate (é difícil pensar que temos que nos cuidar/por saber que nos matando/nós estamos matando alguém/é difícil pensar que temos que nos cuidar porquê…/porque já estão nos matando, aliás, como é isso?), uma reflexão visceral sobre as mazelas que nos assolam. Na sequência, a “no love song” Indigno Love, parceria com Brisa Flow, fala da própria arte de fazer música e é “um caô que você vende como amor”. Apesar do refrão angelical, Da Febre e Rezo lembram os bons tempos d’O Rappa, enquanto a potente Só Suor e Lágrima (eu, de manhã vou pro trabalho/mas quando é tarde da noite eu choro) parece mais a melô de todo trabalhador brasileiro. Se Vontade Nego é contação de histórias da melhor qualidade, Da Noite (e não é só de mitologia/que se vive que se tem prazer/em dizer que a favela venceu/quando ainda estamos a morrer/a gente corre/a gente insiste) é quase uma ciranda de oração (coincidentemente à capela) e tem um pequeno coral formado por Mumutante, Bianca Ellen e Jocasta Brito.

O artista tem como inspiração o grunge capitaneado por Nirvana e Djavan – aliás, o ídolo lhe rendeu a faixa Melô de Djavan, presente em seu primeiro álbum Rolê Nas Ruínas (2020) – e “não sustenta a pose de malandro”, até porque não o é. Mateus Fazeno Rock é um operário da poesia, maior que qualquer gênero possa encaixar ou definir. Não à tôa, compõe a partir da narrativa e só depois constrói a melodia. Criativo e performático, é um sopro de fertilidade no terreno da Nova MPB. O suburbano – que já fez de tudo na vida – hoje faz rock, rap, reggae e R&B como veterano, ainda que contestador como toda juventude sugere. Mateus e sua trupe começam a se aventurar em mares além Nordeste e fazer shows em todo o Brasil, incluindo o lendário Circo Voador, no Rio de Janeiro, e é uma das atrações confirmadas do Primavera Sound que acontece em São Paulo, em dezembro. Jesus pode até não voltar, mas Mateus Fazeno Rock chegou para ficar.

 

 

Larissa Mendes não tem nome de anjo, mas carrega Maria em sua identidade e o rock como oração.

 

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151ª Leva - 01/2023 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Marte Um. Brasil. 2022.

 

 

Marte Um é um filme brasileiro dirigido e roteirizado por Gabriel Martins. Foi o vencedor do Festival de cinema brasileiro de Gramado de 2022, ganhando nas categorias de melhor filme de júri popular, júri oficial, direção e roteiro. A produção esteve indicada para representar o Brasil na premiação do Oscar de 2023, porém acabou cortado da seleção final. Gabriel Martins é um premiado diretor da cidade de Contagem, MG, diretor e roteirista dos excelentes Temporada (roteiro e parceria com André Novais, 2019) e No Coração do Mundo (como diretor), entre outros. Marte Um teve ampla repercussão e podemos dizer com tranquilidade que, na exclusão para a premiação do festival americano, quem saiu perdendo foi o próprio festival.

O roteiro aborda a vida de uma família de classe média baixa em Contagem. Há Wellington (vivido pelo ator Carlos Francisco), o pai de família, zelador de um condomínio de classe média alta, onde mora entre outros o ex-jogador argentino Sorín. Wellington é um ex-alcoólatra que frequenta o AAA. É torcedor apaixonado do time Cruzeiro (onde jogou Sorín) e sonha para seu filho Deivinho a carreira de jogador profissional no seu time preferido. Há Tércia (Rejane Faria), sua mulher, doméstica. Tércia fica traumatizada por ser vítima de uma pegadinha televisiva. Ela acredita que esse incidente lhe trouxe uma aura negativa que recai como infortúnio para aqueles com quem se relaciona; Há Eunice (Camilla Damião), a filha mais velha, que já tem um emprego de salário modesto numa escola e que sonha sair da casa dos pais para viver com seu súbito novo amor libertário, Joana, porém teme a reação preconceituosa de seus pais. E há finalmente o garoto Deivinho (Cícero Lucas), adolescente que se esforça no futebol para agradar seu pai, mas que sonha mesmo em participar da expedição Marte Um, projeto que pretende realizar a primeira viagem ao planeta vizinho. Deivinho é apaixonado por astrofísica e gosta de assistir pela internet os vídeos do divulgador negro Neil deGrasse Tyson.

 

Cena do filme Marte um / Foto: divulgação

 

A narrativa de Marte Um é toda tecida em torno dessa família de quatro personagens. Uma das grandes virtudes do filme é o equilíbrio de tratamento entre os quatro protagonistas. Cada um vive a sua vida de forma bastante autônoma, mas há um cruzamento complexo das expectativas e dos afetos. Assim, o sonho de Wellington em ver o filho como jogador profissional de seu time de coração se cruza contraditoriamente com o sonho do filho em estudar astrofísica. A busca de liberdade existencial e amorosa de Eunice se cruza com a luta de seu pai contra o alcoolismo. E há também uma conjugação entre os sonhos utópicos de Deivinho em participar de uma missão espacial e as suspeitas de mau agouro de Tércia, após o episódio da pegadinha.

O pano de fundo, o contexto histórico, é a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. A história se passa nos meses entre a eleição e a posse presidencial. É justamente esse fato que surge como sendo de mau agouro sobre a vida dos personagens: a certeza que num regime de extrema-direita a situação dos moradores das periferias urbanas iria certamente piorar. Assim, a eleição de um presidente funesto é um sinal de azar e pesa sobre a vida de Tércia que, após a pegadinha, se acha vítima de poderes nefastos sobrenaturais. É assim que a Grande História recai sobre as pequenas estórias dos personagens. Como o poeta paraibano Augusto dos Anjos, os personagens de Marte Um também poderiam dizer que “Um urubu pousou sobre a minha sorte”. Tanto os personagens como todos os trabalhadores das regiões periféricas brasileiras tinham razões de sobra para preocuparem-se com a chegada do bolsonarismo ao poder.

 

Cena do filme Marte um / Foto: divulgação

 

Uma das curiosidades marcantes do filme é que ele foi filmado naqueles mesmos meses de 2018 e, no entanto, só está sendo lançado e apresentado ao grande público quatro anos depois, exatamente num momento histórico ao reverso daquele, com a derrota histórica do movimento de direita então vitorioso. Essa diferença temporal entre a produção do filme e sua recepção influi de sobremaneira na sua interpretação. Assim, se por um lado as marcas pessimistas do mau agouro estão presentes nos infortúnios e conflitos que se abatem sobre os personagens, também está presente um fio de sonho e de esperança que os conduz. Um elemento utópico se configura no sonho de Deivinho de participar da missão espacial marciana (projeto que existe de fato sob a direção de Elon Musk, o bilionário americano que comprou o Twitter). Mesmo que essa missão científica seja ela própria signo de uma grande catástrofe (a promessa de colonização de Marte se liga às condições cada vez mais inóspitas da existência no planeta Terra), ao se tornar objeto de desejo de um adolescente pobre da periferia capitalista seu lado negativo é invertido e o pesadelo se torna então sonho.

É este sonho que leva Deivinho a se colocar existencialmente e a construir, com seus próprios dotes de experimentador e com o material recolhido em ferro velho, um telescópio artesanal. Como disse seu diretor Gabriel Martins numa entrevista, Marte Um é sobre a “resiliência” do povo pobre e trabalhador das periferias brasileiras, colocados diante da severa adversidade histórica. É dessa resiliência que vem a força do sonho e do desejo. E é desta mesma resiliência que vem a força do cinema da cidade de Contagem, especialmente aqueles da produtora Filmes de Plástico. Já mencionei aqui em outro ensaio que o cinema de Contagem é um verdadeiro acontecimento, o maior da cinematografia brasileira desde o Cinema Novo. Contagem não produz filmes sobre a periferia com o olhar de fora. É periferia falando e retratando a periferia. Como diz Wellington ao final do filme: “a gente dá um jeito”. http://(https://diversosafins.com.br/diversos/dropsdasetimaarte-6/Os filmes de Contagem são também fruto da luta por sobrevivência periférica, e mesmo com o governo Bolsonaro, a produtora conseguiu produzir muitas obras. Marte Um é um desses “jeitos” estéticos que agora nos restitui o direito de sonhar com outro país.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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151ª Leva - 01/2023 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

PAIXÃO SEM ETERNIDADE

Por Sandro Ornellas

 

 

 

O Deus do Trovão e No chão, o anjo são dois livros de Ivan Castilho, escritor capixaba nascido em Parintins-AM, lançados em 2022 pelas coeditoras Cousa e Villa Olívia. No caso do primeiro livro, uma segunda edição, sendo a primeira do longínquo ano de 1988 e que parece ter assumido ares de livro cult no Espírito Santo, pois o autor não voltou a publicar nada, até No chão, o anjo. Aliás, o nome do estado de adoção e publicação de Ivan parece estar subjacente a ambos os livros naquilo que eles têm de inocência e imoralidade, seja para as novas, seja para as velhas sensibilidades. Isso porque Ivan Castilho parece escrever em muitos momentos como um coroinha que sonha com devassidões e luxúrias, para depois contá-las no confessionário ao leitor. Ou melhor, escreve como um adulto que conta suas memórias de pornógrafo voyeur das mazelas morais e sociais da humanidade brasileira. Ou ainda, como um moralista que sabe muito de perto a alma perturbada que ele próprio e o mundo em que vive possuem, e fala dela para expiar todos os seus pecados. Por fim, como fino observador narra as contradições humanas que muitos querem obrigar a ser coerentes em julgamentos sumários.

Coerente é, na verdade, o próprio Ivan, pois tudo isso vale tanto para o livro de 1988 quanto para o de 2022, apenas um pouco mais amplo na rede temática, embora estejam lá os mesmos tipos e a mesma linguagem. O mundo de Ivan Castilho é o dos que frequentam o subsolo moral da sociedade, à caça de sexo safado, perdidos nas ruas e “bares atômicos” ou entediados em casa, com suas famílias, seus casamentos ou subempregos. Em nenhum desses casos, a felicidade é de fato realizada, apenas sonhada e trocada por um tesão onipresente e grotesco, ou abandonada na frustração pelo alto grau de indignidade em que vivemos. São homens e mulheres em casamentos falidos, malandros mutreteiros, gays solitários e infelizes, estudantes vagabundos, desesperados crônicos. Todos sempre cansados da vida e, ao mesmo tempo, com um tesão irrefreável e pronto para descarregar-se junto à primeira pessoa que o capture, fazendo desses personagens seres apaixonadamente humanos no tratamento que lhes dá Ivan.

Essa contradição, entre o cansaço e o tesão, torna-se evidente porque o autor não deseja despertar pena para seus personagens. Muitos deles, cheios da radioatividade lírica dos homens alcoólatras, das esposas impuras, dos velhos priápicos, dos pedófilos condenáveis, dos adolescentes espinhudos, das mulheres lascivas, dos artistas da vida, dos bêbados tombados, das ex-prostitutas – todos assediados e assediadores profissionais. Profundamente solitários e silenciosos em sua dor.

Enquanto lemos seus minicontos, somos geralmente tomados por diferentes afetos em relação aos personagens. Se começamos algum texto sentindo identificação e tesão, podemos passar rapidamente à repulsa e reprovação – dos personagens e, discretamente, também de nós. Ivan dá voz a homens e mulheres que carregam vidas de desesperança e culpa, de inocência e crueldade, de humor e violência. E que não desistem de vivê-las, apesar de algumas vezes assomar nos enredos algum desejo suicida. É o que Ivan parece traduzir ao evocar repetidamente a figura do anjo, caído e abandonado pelos deuses para vagar sem destino na superfície do mundo: “O anjo, então, caiu de joelhos, ajeitou cabelão loiro, falou mal dos últimos deuses pelo abandono, cuspiu sete espinhas de peixe miúdo e deu um longo suspiro”, ou “Caem alguns anjos – aqueles que desistiram da eternidade”.

Nos dois livros, a vida é o que transcorre fora das telas, rodrigueanamente como ela é, desidealizada, sexualizada, dolorosa, fora-da-lei e triste, muito triste: “Tristeza da porra, tristeza que não tem fim não tem não tem”. O olhar de Ivan para o mundo é de um ceticismo apaixonado, de quem investiga com detalhes o desespero de que é feito o ser humano nesta quadra da história. Isso faz da paixão de Ivan pelos tipos populares uma paixão sem eternidade e sem amor, senão o fugaz e grosseiro. O autor parece cético também em relação à própria literatura – “grandes merdas, esta folha branca, esta caneta preta” –, com apenas dois breves e muito espaçados, embora intensos, livros publicados.

Se seus textos podem ser lidos como minicontos naquilo que possuem de enredos elípticos, muito do efeito criado é próprio da poesia lírica: “Dia a dia simples: minha estrada de tijolos amarelos é aceitação da morte lenta, aquela que sempre chega no fim da tarde: chega macia e rasteira, quase cinza – puã de caranguejo – e aperta aperta aperta aperta”. Na maioria das vezes, um único parágrafo de poucas linhas desenhando vidas menores. É como se Ivan não acreditasse mais nas potencialidades do romance, ou mesmo do conto de maior extensão, de uma narrativa mais estruturada em torno de uma vida. Tudo que sobra são restos de histórias e de vidas. Que Ivan trata de colecionar e experimentar como fragmentos de vidas falhadas. Pois é disso que se trata nos relatos de Ivan: o que resta de possível nessas vidas, que são vividas com tanta força e fragilidade. Para contá-las, no entanto, só sobraram restos de biografias, de romances e de linguagem. Em O Deus do Trovão, percebe-se uma maior experimentação sintática, enquanto No chão, o anjo há um pouco mais de coesão narrativa e reflexiva. Embora nunca nada que se coloque com autonomia de pé. Nada que não solicite do leitor imaginar aquilo apenas recolhido em palavras:

“Seis e meia. Hora sagrada da grande caçada. Ônibus escolhido a dedo: o que passa pela praia do morro. Linha preferida das pobres moças balconistas da rua do trabalho. O herói na melhor roupa: bermudão de marca óculos chingling ráibam chinelão ráider. Barrigão espremido, peito de pombo estufado, cabelão repartido. Olha aquela que pegaria todinha aquela aquela faria amor selvagem nas pedras do siribeira clube. De noite noite toda noite toda toda noite.”

São cenas o que os textos de Ivan constroem, o que os faz imagéticos e com precisão descritiva, quase cinematográfica: “Camisa de seda branca, marcada ao meio por um filete de sangue; pulso esquerdo com fita azul, traçada sete vezes, pelos sete santos; no peito – sem pelos – a estaca brilha, grávida de tantas mortes”. É o texto que abre O Deus do Trovão, “O franco-atirador”, exemplar por muitos motivos: 1) a habilidade em descrever histórias com a precisão de um poeta em fazer imagens, 2) a síntese narrativa conduzida discursivamente a partir do título, 3) a caracterização psicológica do personagem através de elementos concretos e 4) a repetição de marcas estilísticas que, presentes nesse texto, continuam 34 anos, no outro livro. Por exemplo, no uso enigmático do número sete, que aparece acima na contagem dos santos, mas que vemos em inúmeros outros textos de ambos os livros como sete selos, sétimo banco, sete chagas, sétimo dia, sétimo prédio, sétima vértebra, dentre outros. Muito se poderia dizer dos significados místicos do número sete, mas Ivan vai do sagrado ao profano no seu uso. O mesmo vale para a figura do anjo, do tubarão radioativo e da castanheira: “para mim, toda árvore perto do mar é castanheira ou coqueiro”.

É, portanto, nas repetições temáticas, estilísticas e vocabulares de Ivan que encontramos o escritor com suas obsessões mais íntimas. Os textos são escritos com o sarcasmo que parece hoje um tanto démodé, mas que afirma uma parcela da humanidade para quem bem e mal não se diferenciam. Ao contrário, encontram-se unidos, principalmente no corpo apaixonado. Eu poderia listar aqui escritores que formam par com Ivan, mas evito apagar sua singularidade literária, submetendo-o a nomes consagrados. Por isso, concluo apenas registrando que é a paixão sem desejo de eternidade o que move a literatura de Ivan Castilho.

Vale!

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Herberto Helder e a questão dos fins (Villa Olívia, 2022), Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), dentre outros.

 

 

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151ª Leva - 01/2023 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Mohamed Mbougar Sarr: o gênio senegalês e o novo compasso literário

Por Viviane de Santana Paulo

 

 

Mohamed Mbougar Sarr é um escritor nascido no Senegal, ganhador do Prêmio Goucourt de 2021, o mais prestigiado prêmio literário francês, com a obra A mais secreta memória dos homens (se bem que, nos dias de hoje a palavra homem para definir toda a humanidade deveria ser substituída por humanidade, ou seja, A mais secreta memória da humanidade). O romance trata do racismo no meio literário e da paixão pela criação literária, além de aspectos sobre a imigração e o colonialismo africano, e é uma crítica ferrenha contra o meio literário francês. Mas sendo este meio nada diferente de outros, nos quais rege a classe dominante de homens brancos provenientes de países ricos, a crítica de Mbougar Sarr é válida para a maioria dos meios literários mais influentes do planeta Terra.

O enredo é complexo, narra a Odisseia do protagonista, estudante senegalês de filosofia em Paris, chamado Diégane Latyr Faye, e a sua obsessão em torno do romance fascinante intitulado O labirinto do inumano, publicado há setenta anos, que conta a história de um rei sanguinário que através do Mal absoluto pretende alcançar o poder. Com a ajuda da polêmica escritora senegalesa, sexagenária, Maréme Siga D, o protagonista inicia uma pesquisa sobre T. C. Elimane, o autor do livro, que foi acusado de plágio nos anos trinta, em Paris, e sua obra retirada de circulação. Por consequência, o escritor desaparece, transformando-se em numa lenda. Mbougar Sarr inspirou-se na verdadeira história do escritor maliano Yambo Ouologuem, que em 1968 publicou o romance Le Devoir de violence (O Mandamento da Violência), com o qual ganhou o Prix Renaudot.

As referências a Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, são óbvias em vista das muitas reflexões. Aliás, o enrendo é repleto de diversas referências culturais. Como, por exemplo, T.C. Elimane procura o assassino de seu editor Charles Ellenstein, na América do Sul. Ellenstein morreu em um campo de concentração denunciado e torturado pelo literata nazista Joseph Engelmann. Neste trecho, Sarr menciona autores como Ernesto Sábato e o exilado Witold Gombrowicz. A busca pelo misterioso autor da fantástica obra dá-se em vilarejo senegalês, na Paris contemporânea e na Argentina pós-guerra.

No decorrer do enredo, Mbougar Sarr levanta questões controversas sobre o meio literário e seus vícios e limitações, como, por exemplo, na voz da personagem Siga D., ao indagar se alguma coisa mudou no meio literário: Fala-se sobre literatura, sobre valores estéticos, ou fala-se sobre a pessoa do escritor, sua cor da pele, sua voz, sua idade, seu cabelo, seu cachorro, sobre o pelo do cachorro, sobre a decoração do apartamento, da cor de suas meias? Fala-se sobre a escrita ou sobre a identidade, sobre o estilo ou sobre a imagem midiática do/a autor/a? Fala-se sobre criação ou sobre sensacionalismo e culto ao/a autor/a? Mbougar Sarr confronta-nos com a dúvida: deve a literatura estar imprescindivelmente encarcerada na nacionalidade, na cor da pele, na idade, no meio social, no gênero do/a autor/a? Ou devemos interpretar estas características como um aspecto adicional?

 

Mohamed Mbougar Sarr / Foto: Bertrand Guay 

 

Segundo o crítico literário alemão Tilman Krause, no jornal Die Welt: “Sarr refere-se inteligentemente aos discursos mais atuais sobre identidades e políticas de identidade, por exemplo, transformando um romance fictício de 1938, escrito por um senegalês fictício, em um “campo de batalha ideológico” onde, ao invés de questões sobre qualidade, são negociadas ou discutidas questões sobre a identidade do autor. Sarr não está preocupado com qualidades particulares, mas com o que significa ser humano.”

Igualmente, o escritor argentino Juan Jose Saer trata sobre este tema em seu ensaio La selva espesa de lo real, no qual ele menciona: la narración no es un documento etnográfico ni un documento sociológico, ni tampoco el narrador es un término médio individual cuya finalidad sería la de representar a la totalidad de una nacionalidad. Saer repudia a tendência dos críticos europeus em interpretar as obras de autores latino-americanos exclusivamente através do olhar folclórico e colonialista e indiretamente esperar que autores latino-americanos escrevam estritamente sobre temas relacionados à cultura e política de seus países, ou seja, escritores de nacionalidades e procedência não europeia, não branca, estariam condenados a escrever somente sobre questões sociais, culturais e políticas de seus países de origem. Caso contrário, a autenticidade desta obra estaria prejudicada.

Em A mais secreta memória dos homens o personagem Stanislas, tradutor do polonês trabalhando na nova tradução de Gombrowicz Ferdydurke, está convencido que os autores devam ter permissão para escrever o que quiserem, independentemente de onde moram, de onde venham ou da cor de sua pele, e que a única coisa que você tem a exigir dos autores é talento.

Mbougar Sarr, como escritor negro, africano, imigrante, denuncia esteticamente esta falha no meio literário. O fato de a crítica trazer à tona termos generalizados como emigração e exílio sempre que se trata de autores não brancos e não nacionais é um de seus equívocos, como aponta o protagonista Diégane. Sarr antecipa e responde a muitas destas críticas no próprio romance. Além disso, parte da obra é sobre ativistas políticos e a manifestação pela democracia no Senegal.

A mais secreta memória dos homens possui gêneros e temáticas diferentes, e é uma reflexão poética e metafísica sobre a escrita e a literatura em geral – a literatura em geral.

 

Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Em parceria com Floriano Martins, Em silêncio (Fortaleza, CE: ARC Edições, 2014) e Abismanto (poemas, Sol Negro Edições, Natal/RN, 2012). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007).  Seus poemas têm sido publicados em várias revistas e jornais na América Latina e Europa. Em 2012, participa do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua, e em 2016, do XX Festival Internacional “Noites de Poesia”de Curtea de Arges, Romênia. Atualmente, vive em Berlim.