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144ª Leva - 04/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Do sentimento à ação: um olhar sobre a prática amorosa

Por Vinícius Gaudêncio de Oliveira

 

 

As relações amorosas, sejam elas românticas ou comunitárias, têm sido impactadas diante do enfrentamento de males estruturais e estruturantes da sociedade, como o racismo e o patriarcado, elementos que operam através do domínio exercido pela força.

O combate ao racismo e a luta por igualdade de gênero, lutas legítimas e temas da ordem do dia, encontraram nas redes sociais um novo espaço público. Nesse sentido, as divergências entre amigos, familiares e até mesmo entre casais que vivem uma relação amorosa estão cada vez mais expostas, trazendo para o debate público a necessidade de uma autocrítica enquanto seres dispostos a abrir mão de relações opressivas, de maneira que o amor se manifeste de forma autêntica.

Nesse contexto, “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, de Bell Hooks, dá uma substantiva contribuição ao debate, colocando o amor na centralidade das relações humanas: “Nós nos tornamos completamente humanos até que nos entreguemos uns aos outros no amor”.

O livro, primeiro da Trilogia do Amor, seguido de Salvação: pessoas negras e amor e comunhão: a busca feminina pelo amor, traz no capítulo 1 a importância de saber nomear o amor. O encaminhamento narrativo, sempre quando se referir a palavra amor, vai sugerir, para além de um forte sentimento, que o amor é a ação de comprometimento que promoverá crescimento mútuo. A autora, na sua busca pelo entendimento da palavra e pela palavra, traz definições intertextuais decisivas para formulação da sua tese, ao citar o psiquiatra M.Scott Peck, que vai dizer, no seu livro A trilha menos percorrida: uma nova visão sobre a psicologia e o amor, que o amor é “a vontade de se empenhar ao máximo para promover o próprio crescimento espiritual ou de outra pessoa”.

Desesperança, medo, solidão e desamor são elementos constitutivos e condicionantes da vida humana. Bell Hooks vai dizer, a partir da observação minuciosa do desespero de seus alunos, que a espiritualidade ajuda na superação de sentimentos de isolamento, proporcionando mais uma ferramenta na busca pelo amor, uma vez que ele, o amor, proporciona também elevação espiritual. “Todos precisam estar em contato com as necessidades de seu espírito. Essa conexão nos chama para o despertar espiritual para o amor’.

O capítulo 4, intitulado “Compromisso: que o amor seja o amor-próprio”, foi, segundo a autora, o mais difícil de escrever. Isto porque se faz uma confusão ao atribuir ao amor-próprio ideias equivocadas. “Precisamos parar de igualar covardemente o amor-próprio a egoísmo ou egocentrismo”. Não é difícil perceber nas redes socias essas ideias equivocadas. Basta observarmos páginas de influenciadores digitais de público majoritariamente feminino – que até formam redes positivas de acolhimento, de sororidade – mas por não saberem nomear o amor e entenderem que a base do amor-próprio é a prática amorosa, acabam passando uma mensagem distorcida e egocêntrica, desconsiderando que o amor-próprio genuíno é quando nos conhecemos e reconhecemos no outro aquilo que transborda da gente.

A autora de Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra faz importantes considerações sobre a baixa autoestima, uma vilã da busca pelo autoconhecimento. Para isso, o livro aborda as seis dimensões para elevar a autoestima, dimensões propostas por Nathaniel Branden, no livro Autoestima e seus pilares. Chamo a atenção para a primeira delas, “a prática de viver conscientemente”, que vai significar pensar criticamente sobre si e sobre o mundo, nos ajudando a entender as transformações sociais ao longo do tempo e, fundamentalmente,  buscando entender qual o nosso papel diante delas, nos aceitando e nos reconhecendo enquanto seres em permanente mudança e constituídos por dores, perdas e tristezas, mas também com capacidade de reinvenção e superação: “O coração ferido aprende o amor-próprio começando por superar a baixa autoestima”.

Após reconhecer as origens que levou a baixa autoestima, como socialização negativa, abusos e traumas, Bell Hooks fala da importância da atividade laboral na busca pelo amor-próprio, afirmando que, ainda que trabalhando com o que não gostamos, a única forma de lidar com a insatisfação é executar bem aquilo que nos é confiado, como melhor forma de lidar com as dores. A narrativa segue discutindo a relação entre vocação e dinheiro, e como podemos tirar proveito de situações as quais não nos agradam. Para isso, ela cita como o seu trabalho de cozinheira, do qual ela não gostava por odiar o barulho e a fumaça, se tornou uma oportunidade para realizar o seu sonho: “Trabalhar a noite me deixava livre para escrever durante o dia. Cada experiência aprimora o valor da outra”.

Autora de O Feminismo é para todo mundo, Bell Hooks, ao falar de amor, dá uma consistente contribuição para o movimento feminista. Isso porque, embora militante fervorosa, a autora não cai no radicalismo de afirmar que o feminismo é um movimento que exclui o homem do debate, ao contrário, vai afirmar que a luta das mulheres por igualdade de gênero é, ao mesmo tempo, uma luta que vai combater a masculinidade tóxica que acaba por afetar também os homens: “A masculinidade patriarcal distancia os homens de sua identidade”.

Como o patriarcado é historicamente atravessado pelo desejo de poder, o feminismo é também, em última instância, a luta pelo resgate do amor genuíno. “Onde o desejo de poder é primordial, o amor estará ausente”. Nesse sentido, a honestidade diante da pessoa amada e o desejo de desconstrução de padrões machistas, nos quais os homens rigorosamente se inserem, são condições fundamentais para que o amor possa penetrar e encontrar terreno fértil, livre de opressão, fazendo com que o encantamento pela pessoa amada seja maior que o encantamento pelo poder.

Em geral, quando falamos de amor, facilmente incorremos em clichês do tipo “felizes para sempre”, o que não ocorre em “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”. Com uma linguagem simples, porém contundente, o livro assume a sua potência na medida em que define o amor sem apelar para uma autoajuda barata – e aponta caminhos consistentes para alcançarmos o amor, seja ele romântico, familiar ou entre amigos.

Na minha última resenha publicada nesta revista, falei sobre livro “O amor como revolução”, do pastor Henrique Vieira. Bell Hooks e Henrique conversam entre si e, através da palavra, concordam que é decisivo, se quisermos viver o amor genuíno, romper com padrões eurocêntricos de opressão, como o racismo, sexismo, exploração e preconceito religioso. Se a autora diz ser possível viver um grande amor sem ao menos ter contato com a pessoa amada, bastando que a prática amorosa eleve a si e o outro, por que os seres humanos, nas diversas relações de sociabilidade, ainda não são capazes se se abrir plenamente para o amor?

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

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144ª Leva - 04/2021 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

O GRILO – VOCÊ NÃO SABE DE NADA

 

“(...) Faça como o grilo
Sem grilo canta pro seu bem chegar”
(4 Cabeça, Quem Canta)

Se a adolescência é a etapa da existência que nos dá toda a coragem e certa petulância para enfrentar a tudo e a todos, é no início da vida adulta – e provavelmente durante toda ela – que nos damos conta de que “por mais que a gente cresça, há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender”, como diria Humberto Gessinger e seus Engenheiros do Hawaii em Terra de Gigantes, no já distante final dos anos 80. Mais de trinta anos depois, a banda paulistana O Grilo dispensa o apoio de hey, mãe (!) para reafirmar que ninguém sabe de coisa alguma. Composto atualmente por Pedro Martins (voz e composição), Felipe Martins, o “Fepa” (guitarra) não, eles não são parentes! —, Lucas Teixeira (bateria) e Gabriel Cavallari (baixo), o grupo formado em 2017 (entre o final do Ensino Médio e o início da vida universitária) que queria fazer covers de música indie nacional passou por uma reformulação em 2019 e define-se hoje como um grupo de “Rock Popular Brasileiro”.

Depois de alguns singles e dois EPs lançados, o contagiante Herói Do Futuro (2017), com destaque para o hit Serenata Existencialista e de O Grilo no Estúdio Showlivre — Ao Vivo (2019), os meninos (sim, meninos; eles estão na faixa dos vinte e pouquíssimos anos) — que abriram o Lollapalooza Brasil 2019 (sonho de muito artista veterano) após vencer um concurso lançado pela Rádio Rock 89 FM — estão de volta. As 13 faixas autorais do disco de estreia Você Não Sabe De Nada (2021), gravado pelo selo Rockambole, foram produzidas pelo quarteto em parceria com Hugo Silva e alternam ritmos dançantes com momentos mais introspectivos. A sonoridade pop-tupiniquim mistura bossa, baião, new wave, indie, pop, rock e outros elementos brasileiros, que agora se apresentam de modo ainda mais intenso.

A despretensiosa Trela (o meu amor vem da terra e do mar/uma musa estendida na areia/anjo de um céu de estrelas do mar/um balé de mulher e baleia), primeiro single divulgado abre o álbum em ritmo de pop. A canção seguinte, Guitarrada (é que eu sou mais eu, mas eu queria ser você/eu sou mais você/mas se você sou eu, agora eu quero te esquecer/eu quero me esquecer), é um carimbó ou forróck, como a banda gosta de chamá-la e já tem videoclipe em fase de pós-produção. O samba-rock Contramão (nada novo sob o sol/são aquelas mesmas mentiras/banhadas em formol), segunda música lançada, lembra de um carnaval de outrora, um amor entre coisa de cinema e quarta-feira de cinzas. Ainda há espaço para Tudo e Mais um Pouco e para a balada Vou Levar. A levemente vingativa Meu Pior Amigo (eu só quero ver você cair/eu só vim pra ver, ver você cair/eu só quero ver você cair/em si) manda um recado praquele alguém que você já guardou no lado esquerdo do peito e hoje figura no hall dos seus desafetos, enquanto Infinito (-1) (vou partir o horizonte ao meio/vou me dividir/por todos os caminhos que eu quiser seguir) passeia por caminhos mais experimentais.

 

O Grilo / Foto: divulgação

 

Na “mini-música” Você Não Sabe de Nada, O Grilo divide o refrão da faixa de pouco mais de 1 minuto e meio com diversos convidados, entre eles Gabriel Aragão, Reolamos e as bandas Maracatech e Pluma (da qual Teixeira também é baterista), o que é a deixa perfeita para a setentista Meu Amor (meu amor/as coisas não precisam ser assim/pega uma lata de tônica, um copo de gin e vai dançar), que alterna refrão engraçadinho com uma crítica à indústria fonográfica, na qual “a música mais bonita d’O Grilo tem que ter/um bilhão de curtidas/10 mil cópias vendidas/lotar estádios e avenidas/e tocar o coração das rádios Brasil afora”. Se a vinheta E daí, eu sei lá prefere não opinar, eu me arrisco a dizer que ela é o abre-alas para o melhor bloco do álbum, composto pelas três últimas canções: a disco Adeus (não dá pra esquecer alguém como você/mas bem que eu queria/o que te encanta em mim é você/sempre foi você e eu sabia/mas resolvi não me abandonar), que ganhou até coreografia oficial no TikTok; a festiva Onde Flor (onde flor não for jardim/eu não vou, eu sou assim/algo que não cabe mais em mim/ôô, eu quero viver um grande amor/e morrer de saudade), que pode figurar ao lado de Todo Carnaval Tem Seu Fim, do Los Hermanos no catálogo de canções-foliãs que alegram nosso “carnaval fora de época” instantaneamente; o belíssimo bônus-track de voz e violão Malabarista de Granadas (malabarista de granadas/me conta quantas fardas você já vestiu/pra manter a cabeça ocupada/enquanto o mundo te estraçalha como um tiro de fuzil), que finaliza o álbum com toda a doçura que pode haver na voz de Pedro Martins.

Responsável pelo projeto gráfico da obra, o cartunista Pietro Soldi idealizou também um livro que acompanha o disco. O personagem central de Você Não Sabe De Nada – o livro, é Lauro, sujeito de poucas palavras que traz em sua personalidade características físicas ou psicológicas de cada um dos integrantes da banda. Lauro já deu o ar da graça em 2020 nas capas dos três singles lançados: Trela, Meu Amor e Contramão. Além das tirinhas, o livro traz ainda cifras, fotos e canções comentadas, com direito a rabiscos, anotações e muita criatividade (revelada inclusive à luz negra). Os integrantes são bastante atuantes nas redes sociais e chama atenção a constante interação com seu público, seja através de lives, posts, tweets ou dancinhas no TikTok. Ou mais especificamente em seu podcast (ou melhor, Grilocast) e no canal no YouTube (o GriloTube), com destaque para Você Não Sabe de Nada — o Mini Doc. Aproveitando o lançamento de VNSDN no final de março, os músicos têm disponibilizado em seus stories do Instagram cifras das canções no violão, comentários sobre as inspirações das faixas, enquetes e versões das músicas feitas por seus fãs. O Grilo está mais falante, dançante, maduro e criativo do que nunca. E é só o começo.

 

 

 

 Larissa Mendes se identifica com Lauro e tampouco sabe de muita coisa.

 

 



		
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143ª Leva - 03/2021 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

TAGUA TAGUA – INTEIRO METADE

 

 

“Se eu nunca vir você de novo
Eu sempre vou levar você
dentro
fora
na ponta dos meus dedos
e nas bordas do meu cérebro
e em centros
centros
do que eu sou do
que restou”.
(Charles Bukowski)

O Modelo Kübler-Ross aponta que os cinco estágios do luto compreendem: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Nem sempre as etapas seguem exatamente esta ordem, podendo haver oscilação entre os estágios, que inclusive podem ocorrer de forma simultânea. E o que é o fim de um relacionamento senão uma experiência de morte? Atualmente, porém, a positividade tóxica parece tentar impedir o “estado de não estar bem” e sugere que na manhã seguinte a gente vire a página e faça a fila andar. O produtor musical, instrumentista e ex-vocalista da banda gaúcha Wannabe Jalva, Felipe Puperi, não é o primeiro a transformar seu período de luto (profissional , geográfico e amoroso) em arte, porém muito bem o fez normalizando-o como uma etapa necessária para a transmutação gradual das emoções.

Tão logo trocou Porto Alegre por São Paulo, em 2017, Felipe formou seu projeto solo denominado Tagua Tagua, referência ao lago que banha o pueblo de San Vicente de Tagua Tagua, no interior do Chile, berço dos primeiros povos sul-americanos. Cantando dessa vez em português – curiosamente as composições do Wannabe Jalva eram quase em sua totalidade em inglês, enquanto o primeiro instrumento de interesse de um Felipe ainda menino foi o luso-brasileiríssimo cavaquinho –, o projeto explora elementos percussivos de MPB associados à música eletrônica, soul e rock. Após dois EPs lançados, Tombamento Inevitável (2017) e Pedaço Vivo (2018), Tagua Tagua apresenta seu primeiro álbum de estúdio, o intitulado Inteiro Metade (2020), fechando uma espécie de trilogia dos dissabores.

Com 9 faixas autorais, o disco mergulha entre timbres eletrônicos e orgânicos e apresenta uma faceta mais madura do artista. Se o lirismo intimista lembra um pouco o início de Silva em Claridão (2012), as melodias envolventes mesclam-se a letras inspiradas (praticamente poemas musicados) e sintetizadores que vão desacelerando ao longo das faixas. É como se o álbum traçasse uma linha do tempo desse processo reflexivo, girando em torno da ressignificação de sentimentos que vão sendo diluídos com o passar do tempo, desde seu estado mais efervescente até a nostalgia, às vezes em looping.

 
Felipe Puperi / Foto: Guillermo Calvin

 

A retumbante Mesmo Lugar (e ele vem, dá volta e volta/pro mesmo lugar/parece até que sabe onde chegar/andam dizendo que o agora/é tão diferente/e a vida vai passando pela frente), soul composto em 2019, mais parece uma canção premonitória para nosso longo período de isolamento social. Só Pra Ver (eu vou até o fundo só pra ver/que eu ando e só acabo em você/eu vou até bem longe só pra ver/que eu ando e só acabo em você), primeiro single divulgado, trata com irreverência, tanto no arranjo quanto na letra, da dificuldade em se desvencilhar de alguém. Com levadas orgânicas, mas baseadas em beats eletrônicos, 4AM (deixo a poeira me levar/corro, escorro sem ter hora pra chegar/me encontro com o dia que já se foi/e eu nem vi) aponta para um caminho mais introspectivo, como o próprio “sonho” que a letra propõe. A balada 2016 (parou pra ver ela escorregar/por entre as minhas mãos/parou pra ver ela voar), de fato gravada naquele ano, tem um clima saudoso de quem aprendeu a [sobre]viver “tão longe de mim”.

Com naipe de metais, Bolha (eu vivo na bolha existencial/indiferente, espero ir tudo pro lugar/discretamente, eu saio sem me retirar) retoma a pegada soul e faz uma auto-análise bem peculiar. A embargada Até Cair (feito folha seca desvendando o quintal/roupa enxaguada esperando o varal/xícara molhada desfazendo o jornal/quase em paz), talvez a canção mais séria do disco antecede Inteiro Metade (feito ferro no sal/eu sou inteiro e metade/risco de verso final/vou deslizando em saudade), faixa que leva o nome do trabalho e sintetiza o conceito do álbum. A experimental Sopro (não chegue tarde na minha vida/que eu já não posso te esperar/tô nessa vida/e o tempo pode nos terminar), com pseudo-gingado e verso único é um fragmento de alegria, como todo [re]início prevê. Assim como o encerramento de um ciclo, o álbum termina em clima de renascimento com o “poema etéreo” Do Mundo, avisando que “agora eu sou o/do mundo”.

A questão estética sempre esteve presente na obra de Felipe Puperi, que já trabalhou, inclusive, na produção de trilhas sonoras para cinema. O clipe de Rastro de Pó (faixa de Tombamento Inevitável), por exemplo, rodado no interior da Bahia, aborda a guerra de espadas que ocorre durante as festas juninas e ganhou o prêmio latino do Ciclope Festival, como Melhor Vídeo Musical. Inteiro Metade flutua entre recortes ensolarados e sombrios, como bem ilustra João Lauro Fonte, designer responsável pela arte do disco. Ele traduz nas capas (do álbum e dos singles) e lyric videos a vastidão do universo de Tagua Tagua.

Impedido de divulgar o álbum na estrada por conta da pandemia, Tagua Tagua lançou no final de janeiro uma live session para que os fãs tivessem uma experiência sonora e estética do disco. As 9 faixas – que passeiam entre MPB, indie, R&B e soul – foram apresentadas na íntegra com um belo conteúdo audiovisual. Disponível nas plataformas de streaming e também em vinil, o disco foi lançado simultaneamente no Brasil (Natura Musical), Europa (selo Costa Futuro) e Estados Unidos, de forma independente, aproveitando a exposição internacional do single “Peixe Voador”, presente na trilha do jogo FIFA 2020 e de sua apresentação no Brasil Summerfest NYC e a abertura de uma mini-turnê do The Growlers, ambas em 2019.

Como consta no release da obra, “Inteiro Metade é um disco sobre o processo de encontrar novos espaços pras mesmas pessoas dentro da vida. É ser inteiro num dia e metade noutro. É a caminhada da transformação, da aceitação dessa mudança dentro de nós. Nesse percurso, aparecem os mais variados sentimentos: euforia, alegria, gratidão, saudade, tristeza, luto. Morre uma relação pra nascer outra”. E Tagua Tagua [re]nasce como um dos grandes nomes da nova música brasileira. Como diz o compositor em certo verso de seu primeiro EP: “tua dor é uma dádiva”. Aceita que dói menos: o mergulho é inevitável.

 

 

 

Larissa Mendes, nasceu em Caçador/SC, banhada pelo Rio do Peixe.


 
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143ª Leva - 03/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

QUAL A DISTÂNCIA ENTRE OS HOMENS E OS BICHOS?

 Por Gustavo Rios

 

 

Júlia Grilo poderia ser apenas uma jovem estudante com pretensões artísticas não muito bem definidas. Afinal e a priori, o que às vezes se mostra na superfície é tão somente isso: uma escritora que publica um livro, num contexto em que publicar (no sentido de imprimir, divulgar nas redes e se considerar literato) se tornou relativamente fácil. Mas eis que esse “relativo” pode muito bem nos enganar.

Afora esse papo cabeça que mistura relatividades e jovens com ganas de escrever, o que posso dizer é que, com seu primeiro livro, Cães, publicado em 2021 pela bravíssima Penalux, Júlia me pegou na contramão e no contrapé, no sentido de boa surpresa, não aquela surpresa que vem depois do desdém; aquele lance de olhar a pessoa e pensar em segredo “Esperava bem menos de você”, ou “Achei que você fosse mais uma nesse mercado de pulgas”. No único encontro que tive com ela, numa live de divulgação da coletânea Soteropolitanos, de cara percebi a firmeza e a seriedade do propósito da quase-psicóloga Grilo.

Portanto, e lutando contra esse desdém paternalista (o cara de quase-cinquenta que resenha versus a jovem escritora), tentarei explicar minhas ideias acerca do livro (que, é bom frisar, conta com uma belíssima capa). E logo de imediato, já posso usar a meu favor o fato dela ser uma futura psicóloga – isso se ela não se invocar e enveredar de vez na escrita; coisa que, acho, ela faria com moral.

Vamos falar então sobre análise. Mas não no sentido “Jungiano” da coisa. Eu quero falar é sobre o olhar atento e extremamente “analítico” de Júlia, já que em Cães uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o interesse da autora em esmiuçar e detalhar todas as questões propostas por ela mesma e pela história em si – o andamento de um bom livro às vezes foge de nosso controle e de nossa vontade; daí que ele se impõe e também propõe.

Os parágrafos às vezes parecem longos, e os instantes em que a descrição chega no limite não são poucos. Todavia, ainda que tal recurso seja frequente, nada é sacal. A escrita de Júlia sempre exige do leitor atenção, inteligência e entrega. Mas nunca paciência, ao menos aquela do tipo “estou de saco cheio”.

 

“Júlias”

 

Ainda que a autora se mostre firme em seu trajeto, considerando parte das ideias expostas no tópico acima, é bom que se repita que tal escolha não implica num livro maçante.

Nos trechos em que Júlia é descritiva e, digamos, cerebral, podemos enxergar facilmente um bom bocado de poesia (misturada à prosa, por supuesto). Além do mais, ao se pôr inteira na história, talvez de acordo com uma ideia de Coetzee, em que “no calor extremo da criação a identidade individual do artista é consumida e monopolizada por seu lado criador” (1), a escrita de Júlia Grilo se mostra bem acima e além de um simples amontoado de frases cabeçudas e falsamente poéticas.

A complexidade no texto algumas vezes se encerra com uma frase simples que busca concluir uma ideia. E tal movimento se mostra eficaz, na medida da poesia utilizada, e, principalmente, do momento vivido – por vezes a narradora se mostra belamente pueril, noutras arredia e rebelde; as metáforas e as reflexões se encaixam numa boa, enquanto isso.

Como exemplos, destaco:

“Vinha até meus pés, esticava as patinhas e enfiava a cara por entre meus joelhos, lambendo-os até ser atendida. Eu atendia; não demorava muito para atender, exceto quando queria vê-la gracejar por mais tempo, os olhinhos brilhando. A vontade era sufoca-la de beijos – e torcer para que nenhuma pulga me atingisse.”

“Nesse mesmo período, meus pais começaram a carinhosamente me chamar por lobisomem, numa tentativa desconcertante de amenizar o espanto que causavam os meus olhos vívidos, cintilantes, contra os quais eles se chocavam em quase toda madrugada (…). O dia me irritava, o calor incessante, a quantidade de gente que se movia, que me atrapalhava.”

“Já seus ossos, por sua vez, foram vinculados conjuntamente dentro de uma designada lógica própria, reminiscência bruta dos vincos de sua mãe, dos sulcos do seu pai, da posição em que brotou do ventre, de como de lá foi retirada e passou a rastejar faminta para as tetas pingando leite; do sangue fetal que lhe permaneceu seco e digno.”

Os poucos momentos em que a sonoridade me incomodou não reduziram em nada o andamento da obra (“A culpa ecoava ininterruptamente ao meu redor, perseguia-me com violência, num fulgor insuportável”; “Qualquer coisa que ameaçasse fissurar a consistência deste véu era recebida com muita violência.”). Mas sugiro revisão, se possível.

Ao abrir o jogo e contar sua vida, essa jovem soteropolitana, criada no Recôncavo Baiano, eleva a qualidade do seu trabalho, o particularizando (o mundo a partir de sua individualidade, mesmo que na dedicatória do meu exemplar ela meio que defenda outro ponto de vista). Dessa maneira, Cães se torna único e cativante, a partir do olhar e da vivência de uma garota que, afinal, vai crescendo e sentindo tudo de maneira intensa.

Para “fechar essa conta”, concluo que a tal complexidade de que tanto falo não é daquelas que servem para justificar braçadas no raso em temas profundos. Aquele papo furado de quem sempre se esquiva do problema ao dizer para si e para o mundo “Isso é muito complicado. Não arrisco um juízo de valor”. Júlia não foge ao nado, nem à luta; e tanto um quanto o outro possuem muito de coragem, fôlego e escrutínio. Dessa forma, somos levados a refletir sobre várias coisas. Tendo como ponto de partida as diversas “Júlias”. Que seguem evoluindo a todo instante, na cara, no crown e na coragem.

Eis alguns exemplos:

“Eu fui convocada a assistir ao espancamento como se fosse ele um espetáculo, estruturado de tal forma para que assim eu aprendesse as consequências que recairiam sobre meu corpo, caso eu me comportasse mal também” (sobre um fato ocorrido com uma prima).

“Mas o amor e o conhecimento carregam a mesma lógica por trás de seus funcionamentos. Talvez não só se assemelhem, feito coisas distintas que se encontram em paralelo, como cheguem a ser exatamente o mesmo: é preciso amar para estar disposto a conhecer, e é preciso estar disposto a conhecer para amar.”

“Há quantos passos de distância entre a maciez curiosa de um recém-nascido e a esperteza barbada de um homem adulto, de pênis rijo e lábios ágeis? Quão fina é essa linha que separa as suas mamadeiras de leite dos seus sagrados copos de cerveja puro malte? Mas o que é que separa estes tão fortes e espertos e cerebrais meninos das lágrimas primitivas que lastimavam quando foram paridos.”

 

Feminismos e protagonismos

 

Dentro de uma visão esquemática, mas não menos importante, que define protagonismo como uma ou poucas figuras centrais em detrimento a todo o resto, eu até poderia me contentar em dizer que em Cães temos somente duas protagonistas: Júlia e, de certo modo, Cafeína, a cadela – se isso for possível, conforme os estudiosos.

Entretanto, e não querendo contestar quaisquer teorias (não tenho cacife para tanto), posso afirmar que senti o peso de outra personagem na história: a mãe da autora-narradora.

Entendendo peso como algo marcante, me aventuro a dizer que, sem essa “persona”, talvez o livro não tivesse tanta força. Evidentemente ao me ler assim, você pode ficar confuso. O que é cabível (afinal, ela é ou não é protagonista? Gustavo anda fumando o quê?). Com os fragmentos abaixo, porém, talvez eu consiga me explicar, mesmo correndo riscos ao expor uma pequena parte do que li sobre:

“Ela mesmo me dizia, fingindo brincadeira, que eu havia roubado a sua beleza. Nasci parasita insaciável, tirando-lhe a graciosidade, obrigando-a a permanecer acordada por noites a fio, sugando-lhe os peitos doídos. Minha mãe quase morreu ao me parir. Seus pés saltaram do número 35 ao número 38. Até hoje eu desconfio que a violência que ela impunha contra mim na infância foi uma resposta à violência imposta sobre ela, imposta por um mundo inteiro.

“O feminismo acadêmico do qual eu tanto me orgulhava não havia me ensinado metade do vigor que mamãe me ensinou.”

Levando-se em conta o fato de que, apesar da importância, a mãe de Grilo não é única mulher a surgir e a definir o rumo do livro (que foi dedicado a ela, é bom que se diga), isso sem falar nas cadelas, mais uma vez invento outra teoria: para mim, Cães é um livro essencialmente feminino. E boa parte de sua beleza vem daí.

O que nós, homens, costumamos chamar de “universo feminino” parece se mostrar um pouco para o leitor. E Júlia mais uma vez me surpreende ao se utilizar do alegórico e de uma boa dose de fabulação, na tentativa de nos fazer enxergar esse universo, que atrita com a realidade ainda hoje “imposta” às mulheres, realidade bem distinta da que nós, homens, conhecemos.

No caso de Cães, porém, a fábula quando utilizada não se parece com aquela tradicional, em que a “moral da história”, necessária em algum momento de nossas conquistas cognitivas, é a única resposta viável (o Lobo que sopra enquanto os Porquinhos trabalham; moral: dê duro e tenha uma casa de tijolos). Para mim, o uso de animais no livro, no caso os cachorros, tem mais a ver mesmo com o esperto Pedro Vermelho, citado no prefácio pelo professor Wagner Teles. Ou até com um pouquinho do Orwell, sem o lance da distopia.

No entanto, e acima de tudo, os cães que existem e coexistem na obra são escolhas feitas pela autora. Prioritariamente por causa de seu declarado afeto por Cafeína – a mesma que, segundo Júlia, “era tão miudinha que cabia nos meus sapatos” -, além de ser fundamento para Grilo desenvolver bem a sua arte. Arte que, conforme escreveu Laerte (sim, ela: a Laerte-Genial!) na orelha do livro, se organiza “(…) às vezes em folia, às vezes em sofrimento.

 

A humanidade em Cafeína

 

Com o desejo de se tornar humana, pois só “quem pode abrir os portões são os humanos”, em determinado momento do livro Cafeína foge. E dentre todos os acontecimentos envolvendo de forma direta a cadela, talvez esse seja o mais importante para mim, pois ele causa uma mudança no ritmo, na forma e na narrativa de Grilo.

Após um acidente corriqueiro e um distanciamento entre Cafeína e a sua dona (a própria Júlia Grilo), presente no capítulo 8, “Café” começa a planejar sua fuga, ainda que o desejo de partir talvez não seja resultado direto desses dois eventos. Então à noite, quando a garagem se abrisse para a entrada do carro do pai de Júlia, “Café” iria se esgueirar entre o veículo e a parede, correndo para bem longe em seguida.

“Foi o que ela fez.”

A partir desse ponto, o rumo da história dá uma boa guinada. E mais uma vez somos pegos de surpresa. No contrapé e na contramão.

O que vemos a seguir é uma sucessão de fatos e acontecimentos envolvendo os cães. E aqui Júlia consegue desenvolver a história com uma petulância incomum, como se ela não enxergasse sequer os riscos adiante: o de misturar formas de escrita e cair inevitavelmente num buraco sem fim de obviedades infantis, tolices, falcatruas intelectuais e imitações no varejo.

São poucos os capítulos onde acompanhamos Café em seu mundo. Mundo em que cachorros conversam, sentem inveja, lutam por posições de poder e se afeiçoam uns aos outros. A petulância da autora, todavia, em vez de cegá-la para os erros, confirma seu talento e se converte em moral, intenção e mais uma vez coragem, principalmente numa estreia. Pois, para mim, muita gente competente na escrita derraparia nessa vereda.

Júlia nos provou que o risco valeu a pena.

A transição entre uma visão “humana” para uma visão “canina” não nos agride. E a mudança se faz numa boa, a partir da simplicidade de uma frase-ato (“Foi o que ela fez.”) que nos mostra a concretização da fuga e do plano (eu disse “plano”) de uma cadela (eu disse “cadela”).

Daí que Cafeína, com “os olhos saltando como espátulas de batedeira, brilhando junto à lua”, segue “passando em frente a árvores que miavam, capins que coaxavam, muros que latiam, sempre adiante, empurrando com as fuças a vontade de escorrer diluída, desgarrada das coleiras.”

Ratificando, digo que colocar num animal o desejo de se tornar humano, e fazer isso de forma bacana e coerente, não é para muitos. Agora imaginar que esse desejo de se humanizar surgirá com leveza e poesia, servindo também de suporte para questionamentos, já paga o preço e justifica minha labuta ao tentar explicar a vocês o romance.

“ – Quem é você?

– Eu sou Cafeína (Por que sempre faziam essa pergunta?)

– E o que você está fazendo aqui?

Ela não sabia como explicar. A mãe, os humanos, a dor, Duquesa (a boxer alemã que divide a casa com Café), o portão, tudo, ela não sabia como explicar.

– Eu estou me tornando humana.

Riram.”

Entendo que as palavras “mãe”, “dor”, “portão” e, principalmente, o ”tudo” que encerra a frase dizem muito sobre Júlia Grilo, nossa estreante-petulante.

Portanto, afirmo que o fato do livro ser feminino ou não, fábula ou simples ficção, não tem importância. Cães é merecedor de elogios e de atenção, e pronto. Pois a obra, ainda que não se dê ao luxo de ser facilmente entendida, dentro da definição de um estilo, se mostrou para mim profunda, interessante e envolvente.

Mesmo que a gente não entenda de que se trata (ficção, fábula, autoficção ou literatura à toa), digo que Cães é uma estreia “de prima”. Além de ser uma amostra da literatura feita na Bahia atualmente. Pouco importando o resto, pois, conforme E. M. Foster, o “(…) teste final de um romance será a nossa afeição por ele, o que é o mesmo teste dos nossos amigos e de todas aquelas outras coisas que não conseguimos definir direito.” (2)

 

……………(1) Trecho extraído da resenha “A literatura segundo Coetzee”, de Willian Vieira; revista Quatro Cinco Um, edição 41. Mas relaxem: o livro resenhado já está nos Correios. 

…………..(2) Trecho da página 44 do livro “Aspectos do Romance”. Esse eu li até o final.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

 

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143ª Leva - 03/2021 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

UMA FORMA DE CONTEMPLAÇÃO

 Por Sandro Ornellas

 

 

A teoria da felicidade é o sétimo livro de Kátia Borges, primeiro de crônicas, publicado no final de 2020 pela Patuá. O livro ideal para uma hora tão desidealizada como a da pandemia em que todos nos metemos e não sabemos como sair. Mas o que à primeira vista pode parecer algo escrito com tino comercial para a sobrevivência nesse contexto, é na verdade fruto de alguns anos de exercício semanal da autora na crônica, conforme podemos acompanhar no jornal Correio da Bahia.

Quem conhece a poesia de Kátia, reconhece seu estilo, temas e atmosfera. E até pode confundir alguns dos textos com poemas – o que não seria errado, já que a crônica é um gênero eminentemente fronteiriço e híbrido, misto de jornalismo, literatura, memorialismo, comentário e, entre os melhores, poema em prosa. E o Brasil a elevou ao estatuto de arte no distante século XX, com nomes de peso praticando-a, de João do Rio a Drummond, passando por Bilac, Bandeira, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e Rubem Braga. Nas últimas décadas, quando o pragmatismo neoliberal assumiu nossos desejos mais íntimos, a crônica perdeu espaço nos jornais para o artigo de opinião, transbordando sangue nos olhos, urgência político-institucional e descartabilidade crítica, tão típicas do nosso tempo de iscas para o agressivo debate público.

Daí eu sentir uma profunda lufada de ar fresco durante a leitura da A teoria da felicidade. A promessa do título se cumpriu à risca e abriu uma janela na sufocante quadra em que vivemos. A “teoria” anunciada se faz na contemplação e observação (do grego, “theoría”) lançada para os minúsculos instantes que só notamos se suspendemos o fluxo ininterrupto do tempo e detemos nosso olhar na captura dessa felicidade. Logo em seguida perdida.

É, portanto, do tempo que Kátia fala. Não do “nosso” tempo, da nossa “contemporaneidade” compartilhada, mas do que há de contemporâneo a todos os tempos, entre todos os tempos. Aquele átimo de poesia que a fotografia consagra nos instantes eternizados. Kátia os captura pelas palavras, transformando-os em imagens. Em crônicas. Em poesia.

Há qualquer coisa de fragmentário nessas imagens escritas. São mesmo fotografias, não filmes. Em vários fragmentos, percebo Kátia costurando assuntos como quem caminha pelo centro de Salvador, não com o objetivo de chegar a qualquer lugar que a coloque à salvo e em melhor posição (impossível nessa cidade), mas desejando se equilibrar (física e emocionalmente) em meio ao violento giro das informações, das vozes, da memória e dos acontecimentos. Numa única crônica, os assuntos se sucedem com inteligente fluidez, sem qualquer pretensão a esgotá-los, ensiná-los ou dar lição de moral crítica. A quem assim deseja, ela apenas diz, no início de “As pequenas vilanias do cotidiano”: “Entrego a vocês a nobre missão de tomar conta do planeta. Fiquem com ela, resolvam todas as pendências seculares, revolvam os arquivos e os acervos, estabeleçam um novo cânone. Se preciso, lutem para subir algum pódio imaginário. Reservem espaço em suas estantes para expor os troféus colecionados, providenciem um armário com muitos cabides para o alinhamento das medalhas”. A poesia de suas crônicas está em fazer do fragmento a melhor forma para representar a felicidade que jamais se realiza por completo. É como se Kátia soubesse que conquistar completamente a felicidade arrisca a se confundir com o show de autoritarismo que presenciamos crescentemente. Por isso, apenas fragmentos de felicidade. Essa, sua teoria. E prática.

Por isso, também, certa melancolia nessa teoria. Tristeza mesmo, pois “para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”. Aquele tipo de nostalgia do perdido que faz da memória lugar privilegiado das crônicas (de Cronos, desnecessário lembrar) que dizem da passagem do tempo. E as memórias fazem desses textos de Kátia solo ideal, alternando o que há de pessoal, geracional e cultural, às vezes misturados a ponto de não conseguirmos discerni-los muito bem. Exemplares são “Sobre a fragilidade da esperança”, “Uma menina vinda de Marte”, “A aerodinâmica dos pássaros”, “A nostalgia, esse demônio”, “Felicidade a gente aprende; é preciso treino”, “O casaco esquecido de Janis Joplin”, “Na malinha do meu coração”, “O grande circo lírico”, “Sobre andar em silêncio”, “Dez coisas a fazer quando se está exausto”, “Civilidade e inutensílios”. Todos recheados de referências pessoais, coletivas, literárias, musicais e cinematográficas. E em tom distante do pedagógico, mas próximo do afeto reflexivo. Como é típico seu.

Nosso mundo – e não me refiro apenas à Covid ou ao sujeito que ocupa a presidência (eles são os últimos avatares de um longo processo) – tornou-se refém da ação produtiva e do desempenho performático. Ambos misturam no mesmo gesto trabalho e consumo e os mascaram como política e cidadania. Daí que ler alguém capaz de parar, olhar, pensar e escrever sobre isso com delicadeza, inteligência e comprometimento é coisa rara – ao menos para mim, e para quem fez das redes sociais seu habitat na última década.

Na crônica que dá título ao livro, Kátia apresenta-nos a teoria da felicidade de Albert Einstein. Ele teria escrito um bilhete a um camareiro do Hotel Imperial de Tóquio dando um conselho: “uma vida calma e modesta traz mais felicidade do que a busca de sucesso e a inquietação constante”. O bilhete fora dado como uma espécie de gorjeta ao camareiro e depois vendido por 1,5 milhão de dólares por seus herdeiros. A seguir, Kátia passa aos conselhos que Rainer Maria Rilke dá ao jovem Franz Xavier Kappus para que se torne poeta: “confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever?”. Depois dos dois exemplos famosos de conselheiros, a autora apresenta-se como “conselheira compulsiva” e dispara o seu: “‘Cabeça erguida, sempre’, dizia minha mãe, diante de qualquer derrota”. Escrevendo com calma e modéstia, Kátia Borges reúne os conselhos de seus dois ilustres personagens e nos dá a melhor síntese do que é seu próprio livro: calma em tempos inquietos e modéstia em tempos soberbos são os ingredientes de uma escrita capaz de formular a teoria da felicidade possível nesta nossa época derrotada.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

UMA QUASE RESENHA

 Por André Rosa

 

 

A beleza da existência humana se apresenta nas páginas do livro intitulado Barroquinha (Ed. Via Litterarum), do escritor Carlos Vilarinho, testemunha contemporânea de uma Salvador visceral. Suas histórias revelam a complexidade humana em uma sociedade cada vez mais apegada a projetos individualistas pretensamente vitoriosos. Na emergência de um cotidiano excludente, em meio a dias cada vez mais acelerados, revelam-se histórias de pessoas comuns que se operam em rede, entrelaçadas pela imaginação de um literato.

Sou lento, portanto insurjo-me. Ao ler Barroquinha, vou-me sem pressa: quero da vendedora, à porta da loja, notícias das novidades chinesas. Também sorver uma xícara demorada de média pingada. Saber do cobrador os horários mais tardios da linha de São Cristóvão. Talvez contar calmamente, ao apontador do bicho, um sonho esquisito com livros e traças em um sebo recentemente fechado. Continuo, assim, lentamente pelas calçadas do livro. Com passos e olhos atentos, passeio entre as páginas e a imaginação.

Como relata Elieser César, na sua apresentação, esse livro espelha uma outra cidade, fora dos clichês turísticos, tal como tantas outras locações de vidas soteropolitanas. Uma Barroquinha composta de trabalhadores, donas de casa, excluídos. Um povo de tantas religiosidades, com seus trajes coloridos e aparatos diversos. Lojas repletas de gente e bugigangas essenciais nos fazem arrefecer o passo nos parágrafos. Gritos de compra e venda, corpos astutos embaixo dos toldos de lona gramatical, nos dirigem imantados ao norte da poesia urbana dos seus meios-fios.

Vilarinho tem como cenário uma área geográfica e cultural bem específica, uma parte do todo-caleidoscópio Cidade do Salvador: a Barroquinha, artéria-abrigo incessante de uma população flutuante, que a habita entre o nascer e o pôr do sol. Findo o dia, uma outra Barroquinha se apresenta: face noturna de um mesmo universo cênico, cujo artefato de cimento e asfalto permuta os sons de músicas, motores e vozes pelo silêncio estranho de outras personagens.

Retrato ficcional e representação simbólica de uma Salvador em meio a tantas outras, o livro de Carlos Vilarinho inebria. Cada página, um cálice. Cada personagem, uma dispersão em mim mesmo. Inebriei-me de vida, pujante vida: soteropolitana e contemporânea. Como agora retornar à Barroquinha, sem olhar de soslaio para os transeuntes, admirá-los em sua simplicidade e festividade urbana. Também suas dores, percalços e sonhos. Especular, inconscientemente, em qual deles se encaixaria tal personagem. Onde morariam, o que desejariam? Seus amores, seus gostos. Torceriam, almas tricolores, pelo Baêa ou, rubro-negros corações, pelo Vitorinha da Barra? Ainda existiriam reminiscências ipiranguenses entre legítimos barroquenses, ou seriam barroquinos? Aceitariam um trago no botequim mais próximo, em prosa ligeira? Nela tudo caberia: seus medos, se de noite choveria, o preço da carne, a festa de Santa Bárbara. Como ir agora à Barroquinha e não pensar nos semblantes literários ao sabor do sol refletido nas suas calçadas atemporais?

Como cidadão afeito ao passado, ao ler Vilarinho penso em abandonar nostalgias. Abrandar o vínculo afetivo a uma Salvador da pesada arquitetura colonial, para apreciar a deliciosa beleza de um DVD pirata, a capa plástica de um guarda-chuva made in Taiwan, os tabuleiros dos ambulantes que mercadejam com seu suor o dia a dia. O casal de namorados com seus trajes escolares. Os garis imprescindíveis, suas vassouras a varrer para os meus olhos os cristais das gentes.

Sou daqueles que penso em Salvador enquanto um polígono imaginário que, partindo da Praça da Sé, desce ao cais e retorna ao Pelourinho via Baixa dos Sapateiros. Estendo-me, por vezes, ao Engenho Velho (de Brotas e da Federação) e ao Retiro de São Gonçalo. Fixo-me agora, no entanto, na velha Barroquinha, a do primeiro terreiro nagô. Desde os fundos da igreja / espaço cultural ao porvir. Nesse espalhar de letras no teclado em prosa do autor, surgem suas páginas de cimento e cal, abarcam seus contos repletos de humanidades precisas.

Enfim, fica por aqui essa quase resenha. Valeu, Vilarinho!

 

André Rosa é nascido na antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus. Professor titular da Universidade Estadual de Santa Cruz, atualmente exerce a presidência da Academia de Letras de Ilhéus. Coordena o Prêmio Sosígenes Costa de Poesia e participa da Comissão Organizadora da Festa Literária de Ilhéus. Autor de livros de caráter acadêmico e literário, entre os quais: “Família, Poder e Mito”, “Identidade e Memória”, “In Memoriam”, “Quintais do Tempo” e “Inventário do Caos”. No terreno religioso, tem o cargo de Tata Mabaia no Terreiro Matamba Tombenci Neto, de nação Angola, o mais antigo templo de matriz africana em atividade no sul-baiano.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Formas de Cair: Um Projeto de Não Ser!

Por Rita Santana

 

 

Eu, filho do carbono e do amoníaco,/Monstro de escuridão e rutilância.” Eis a epígrafe do livro Formas de Cair & outros poemas (Letra Capital), do escritor Sandro Ornellas, cujo paradoxo final guiará, sobremaneira, o livro e o sujeito de enunciação, ambos imersos em jogos de luz e sombra. É preciso demolir os velhos paradigmas – quando opressivos – e Sandro os conhece de muito perto, com profundidade porque sabe das suas fundações e dos seus pilares estruturais. Ao trazer Augusto dos Anjos, o maldito, prepara os espíritos leitores para as estranhezas capturadas pela vida afora e trazidas à luz para que nós as vejamos sem filtro, sem maquiagem; na crueza e no malabarismo das desventuras existenciais suspensas aqui. Tudo ornado com apuro e requinte lírico. O leitor, que tenha certa proximidade com o escritor, não ficará imune aos conflitos e dilemas criados para este projeto que temos em mãos. Porém, o precipício será lançado, inescapavelmente, a qualquer leitora ou leitor que o abra: estaremos em plena queda!

 O livro é dividido em três partes: 1. ROMANCE DEFORMAÇÃO, 2. URBI ET ORBI e 3. FORMAS DE CAIR.  Na primeira seção, o Poeta ironiza, questiona, ludibria conceitos e a seriedade do universo em que vive, em que tece existência e criação, o universo acadêmico. Temos expostos alguns procedimentos de desconstrução do próprio cânone e descontração pândega de pilares caros à tradição. O autor já nos lança uma provocação inicial, ao intitular o primeiro movimento do livro, onde aciona um desconcerto entre os gêneros e indica denúncias de “deformidades” ou “deformações” primordiais, de origem, que formam o sujeito do enunciado. O humor é, certamente, um dos pilares da sua obra: o riso, o desconcerto, o sarcasmo e a ironia. Constam desse momento poemas que demarcam o território da Identidade. O sujeito poético está em busca de um eu que se funde em tantos outros e que, juntos, engendram uma unidade absolutamente tosca, culminando em um processo de construção de um autorretrato cubista. Talvez o autorretrato tecido seja um caleidoscópio absolutamente revelador de assimetrias e incertezas. Um Pablo Picasso, demolindo as expectativas em torno do que seria um autorretrato. Diante de uma sociedade cada vez mais ávida por definições identitárias, exigindo que o indivíduo assuma uma identidade definitiva, torna-se um transtorno não ter ou não ser uma resposta. Uma sociedade capaz de reger processos excludentes aos que não estiverem de acordo, aos que não se encontram dentro de um pacote fechado do que seja considerado um modelo identitário, dentro dos padrões, das nomenclaturas possíveis e aceitáveis, em determinado tempo e contexto social específico.  O eu poético, enfático, desilude-nos, de cara, ao negar tais possibilidades, ainda no poema 1. (inquietante rosto):

……………………………  inquietante rosto
……………………………………….que não sabem
……………………………………….nunca saberão

……………………………………..ex-crer-ver

Ao dissecar e expor o ato da escrita, no desnudamento da palavra, ele tenta nos persuadir à desistência: é inútil tentar decifrar palavra e rosto. Enquanto tantas identidades convivem, contaminam-se, flertam com outras, num intercâmbio cada vez mais violento, veloz, fluido ou líquido, pois mediado pelos processos tecnológicos, transcendentais, ancestrais, inauditos e geográficos que seguem o fluxo complexo e mutável da própria existência. Processos que sempre estiveram em nosso/seu âmago e perpetuar-se-ão até a morte do Ser.

O dialogismo ainda nos atravessa, durante a leitura do primeiro poema.  A Terceira Margem do Rio de Guimarães Rosa nos chega, através da primeira estrofe: “terceira via/terceiro homem/terceiro olho”. Aqui, já temos uma condição existencial que transpõe a lógica regente do universo dos homens. Transitaremos numa terceira margem, alargando nossos limitados horizontes, nossa visão, nosso olhar, num sentido holístico sugerido pelo próprio Poeta. O eu da escritura deixa-nos com o indecifrável que é: “inquietante rosto/que não sabem/nunca saberão.” O tom profético já aniquila qualquer esperança de compreensão futura. Mais que um rosto, uma identidade impenetrável. Descrever, “ex-crer-ver”, virar o avesso da palavra, separar-se dela, da crença, apartar-se para, enfim, compreendê-la, ampliá-la. Descrença, abandono, desistência, ceticismo, estamos diante do inescrutável que habita a busca do que somos. Quanto de significados ele nos impõe na ludicidade com a palavra refeita, numa anatomia que esmiúça e refaz sentidos contidos no ato de escrever? A partícula ex atribui um caráter pretérito à crença, à visão e à escrita, pois desarticula, desestabiliza e põe tudo em estado de evidência e questionamento. Tudo foi ou terá sido. O campo semântico ainda nos liga ao que foi separado, apartado. Ornellas nos traz a ludicidade como uma de suas características. Bella Josef assinala o caráter lúdico da escrita:

 “O jogo da linguagem é o da busca do sentido, não encontrado no objeto, mas armado na própria linguagem que o constrói. A arte literária passa a ser o espaço privilegiado da “doação de sentido”, através do inter-relacionamento de todos os elementos do texto.”                     

E completa:

“A linguagem lúdica é a mais significativa, no sentido da expressão do homem como ser simbólico, e, portanto, criativo, e a mais adequada à construção do pensamento autônomo. A comicidade e o humorismo atuam como catalisadores numa tentativa de diminuir a separação entre objeto e sujeito, recuperando a natureza lógica da arte. Se o humor matiza, o jogo liberta”.

Em 2. (arte do autorretrato), vemo-nos diante da representação de um rosto, num autorretrato que poderia elucidar uma identidade, já anteriormente negada e anunciada como inviável. A busca frustra-se novamente, ao percebermos que o sujeito do enunciado deixa pistas de que não há vestígios. Antes, o que há é: “uma montagem adúltera de tudo/ uma mistura muito funda/muito bruta muito puta”.  Percebemos uma revolta, forjada no emaranhado de origens, além de misturas e etnias que convergem para o projeto de não-ser que se monta diante dos nossos olhos: “monturo que dá em nada/em noves fora/projeto sem forma/projeto de não ser/face mestiça/etnia postiça/massa de tudo.“  Uma confusão descomunal com um suposto pertencimento que não se realiza e não se realizará. Lembro do entre-lugar do discurso, hibridismos e uma série de estudos identitários que se fundem diante de um eu em vertigem, turbulento, entre as buscas ou desistências do ser. Diante de tamanha liquidez, trago Bauman:

“Tornamo-nos conscientes de que o “pertencimento” e a “identidade” não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e  a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o “pertencimento” quanto para  a “identidade”. Em outras palavras, a ideia de “ter uma identidade”, não vai ocorrer às pessoas enquanto  o “pertencimento” continuar sendo o seu destino,  uma condição sem alternativa.” 

Estamos diante de um autorretrato com a orelha cortada, um Van Gogh que se procura e denuncia desilusões, imperfeições, perdas. Ou uma Frida Kahlo, que também se expõe em dores, aflições e pensamentos, através dos seus autorretratos. Ornellas, que assina o livro utilizando um pseudônimo, Sandro So, destitui-se, despe-se de tudo e nada lhe pertence. Um ser poético que busca formas de cair. Um sujeito desalojado, desencontrado: “Em todo e qualquer lugar eu estava – algumas vezes ligeiramente, outras ostensivamente – “deslocado””. Aqui, o nosso eu lírico também se mutila em exposições, desnudamentos, em cortes profundos diante de todos nós, seus leitores, suas leitoras, e nos entrega – em nossas mãos – reflexões que geram perplexidades.

Há uma constatação, em Formas de Cair, sobre a impossibilidade de conseguirmos atingir esse retrato indefinível. Ele prossegue: “projeto de não ser/face mestiça etnia postiça/massa de tudo/rebarba caliça resto rebite/que não existe/bricolagem de branco com-banto/neto-de-filha-de santo/linhagem de negro e galego”. Um sujeito inautêntico, um terceiro homem indefinido, exposto à terceira margem. Eis o fio condutor deste livro: um sem-lugar, um sem-jeito. Desfazer-se de si mesmo ou assumir a sua especificidade de ser, que carrega em si tantos outros seres, além de também habitar uma canoa que segue o curso da água, sem aportar em margem alguma, sempre em trânsito. O não ser é a loucura. É não ter digitais, nem face. E o ex-eu declara: “falsa persona do próprio rosto”.

Um homem imerso em teorias, pelo ofício que exerce, tem pleno conhecimento das distorções e indefinições de uma identidade e, por isso, a persegue, não em busca, mas em caça, em perseguição acusatória, persecutória; em denúncia de si mesmo e de suas farsas ou revelação do que em sua história fictícia pode sugerir farsa ou inautenticidade, quando, na realidade, é o que é e é o que não é. O desconcerto e o desassossego estão instalados. Detetive e criminoso ou inocente, Javert e Jean Valjean. Enquanto nós, leitoras, talvez sejamos testemunhas do seu processo de anunciar a ausência de digitais autênticas para a carteira de identidade. Nós, leitoras, estamos a acompanhar o indigitado nesse descampado solitário; desnudo campo do corpo, da cidade. Ele, o eu, descreve e revira o avesso da palavra. O terceiro olho e a terceira via atuam em todo o percurso do desconcerto, enquanto outros caminhos apontados pelo Poeta surgem. Uma terceira margem da imagem, da representação semiótica do rosto; uma persona que não se decifra e que se torna a obsessão do eu- lírico desiludido, nesse escrutínio por uma decifração da identidade. Há, em quase todo o livro, uma dramaticidade niilista, um olhar agudo para a sociedade; a escrita busca uma identidade que ele percorre apenas para, ao final, desmascará-la.

Ouço ecos de João Cabral de Melo Neto na cadência do poema 3. (dialética negativa), onde, além do ritmo marcado, de uma métrica permanente, versos talhados, aqui, em redondilha maior, observamos a musicalidade, o ritmo dos versos que percorrerá todo o livro. O poema é a pontuação musical dos desencontros cravados nas identidades dissolvidas em nossa sociedade brasileira, baiana. Assim, prossegue em poemas como 4. (mito) e 5. (clandestino), onde podemos vislumbrar origens, causas do desconforto étnico que perseguirá o eu lírico, durante toda a queda.  O vocabulário transita entre palavras do universo afro-brasileiro, como forma de encontro, semelhança, familiaridade, pertencimento: “ela é meu horóscopo/meu ouro meu ori/ meu faro/ meu anjo…”. O eu do poema prossegue em processos antitéticos luminosos e obscuros, que são suas pérolas barrocas perenes. Há ritmo, dança de sons, aliterações, métrica na seleção e organização das palavras, primor no artefato poético. O rosto, o autorretrato busca por si mesmo e pela definição do outro: personas em busca. Desconstrução, desnudamento arqueológico da palavra e das identidades. Há uma exposição de não seres que nos jogam em questionamentos sobre as exigências sociais por definição, pertencimento.  A mestiçagem está na roda das suas preocupações e de suas consequências na existência; danos, dores, medidas, questionamentos em “suas funduras suas fissuras/as origens duplas/do atravessador”.

Confessa-se clandestino e atravessa fronteiras, ainda fixado em seu rosto com e sem barba, partido em dualidades, num jogo de desconfiança, de quebra de ilusões, ilusionismos; como se não fosse possível mantermos expectativas em torno de um apátrida, um pária, um aventureiro clandestino, em constantes migrações, além fronteiras. A própria convivência é redimensionada diante das flutuações, viagens, inconstâncias do ser cujo trajeto e travessia acompanhamos. Um ser transitório. Um sujeito sem teto, sem lar, sem casa, sem porto. Incapaz de se fixar em qualquer parte e que insiste em reafirmar sua natureza peculiar de homem em constante trânsito, em constante queda e que nos apresenta suas formas de cair. Talvez assim, possamos nos aproximar dos seus descaminhos:

“Estar total ou parcialmente “deslocado” em toda parte, não estar totalmente em lugar algum (ou seja, sem restrições e embargos, sem que alguns aspectos da pessoa “se sobressaiam” e sejam vistos por outras como estranhos), pode ser uma experiência desconfortável, por vezes, perturbadora. Sempre há alguma coisa a explicar, desculpar, esconder, ou, pelo contrário, corajosamente ostentar, negociar, oferecer e barganhar.” (Bauman).

O amor perde-se em lapsos barrocos que se jogam em versos modernos rapidamente, como se fosse preciso estar no aqui e escapar da linguagem rebuscada, elaborada com certa sofisticação e exasperação dos rococós. Mas ela está presente: a arquitetura que propicia à linguagem um tratamento envelhecido, como uma pátina capaz de cobrir com camadas de tempo o verbo e dourar – ainda que em gotas – as páginas que escapam às permanências e ao conforto do íntimo, ao conforto do que vigora e persiste. O sujeito do enunciado nega-nos qualquer acomodação ou facilidade: escapa, foge, nega-se a nós! Aventura-se em mil rostos para dissolver, definitivamente, qualquer esperança de encontro, de busca. E percorremos o suaveduro de suas histórias de desistência, enquanto paroxismos nos atravessam.

Parece que estamos numa ficção, narração das origens. Perambulamos por esses cobogós sem encontrarmos o todo, pois o sujeito está perdido no princípio e nos precipita em sua própria queda vertiginosa e dura. A desconstrução e o desnudamento da palavra, a fragmentação da ideia causam um efeito de transe, como se o Poeta  nos desse um quebra-cabeça, faltando peças para decifrarmos sua angústia existencial, seu olhar agônico diante da consciência do que somos, sua náusea. Orpheu e Heuterbise de Jean Cocteau percorrendo os labirintos de Hades em busca de Eurídice, mas também em busca da Morte sedutora, intensa, bela, a sua princesa. A vertigem da caminhada, a vertigem do atravessamento dos espelhos, calçando luvas que são o passaporte para a viagem, o atravessamento do Tempo. Assim, também o nosso Poeta desfila suas inquietações existenciais.

A dimensão da beleza das imagens apresenta-se corajosa e intensa no poema 10. (corpo sem pouso) que desenlaça no trágico, afinal, não há pouso, repouso nem refresco na queda em que estamos imersos, num gerúndio que se reafirma a cada página aberta, durante o processo de leitura. Vejamos o desfecho do poema: “na hora das coisas cruéis/decisivo é ultrapassar/ a planta carnívora da história/para flertar/ com a beleza do mundo/em fulgurante desaparecimento.” Sem dúvida, um dos poemas mais belos do livro, composto de uma tragicidade final, pois, agora, todo o mundo desaba. A queda sobrevoa todas as espécies, como se estivéssemos atravessando um longo plano sequência que, velozmente, percorre o planeta. E nos atinge: “um zangão à beira do gozo/à beira da abelha-rainha/agoniza em seu amor à morte.” Mesmo trágico, encanta e arrebata por sua beleza, por sua construção imagética, capaz de provocar suspiros estéticos. Mas a leitura nunca está imune a desdobramentos, ela sempre nos suscita lembranças, complementos e elos com o que estamos vivendo ou lendo, num dialogismo inesgotável. Assim, surge Simone de Beauvoir, no início do Segundo Sexo, capítulo Biologia, onde a autora discorre, com o seu estilo vigoroso e belo de filósofa e escritora, um pouco sobre o quanto a abelha e o zangão estão atados à espécie.

“O mesmo ocorre entre as abelhas: o zangão que se une à rainha no voo nupcial, onde levam uma existência ociosa e embaraçante. No início do inverno são executados. Mas as fêmeas abortadas, as operárias, pagam seu direito à vida com um trabalho incessante; a rainha é, de fato, escrava da colmeia: desova incessantemente. E, quando da morte da velha rainha, várias larvas são alimentadas de maneira a poderem disputar a sucessão; a que nasce primeiro assassina imediatamente as outras.”

Assim, descortina-se esse aspecto de sacrifício do zangão, como se fosse ele o único a sacrificar-se pela espécie. Mais adiante, ao abordar a espécie humana, ela dirá: “… ao passo que a humanidade está em permanente vir a ser”.

Ou ainda:

“É somente dentro de uma perspectiva humana que se podem comparar o macho e a fêmea dentro da espécie humana. Mas a definição do homem é que ele é um ser que não é dado, que se faz ser o que é. Como o disse muito justamente Merleau-Ponty, o homem não é uma espécie natural: é uma ideia histórica. A mulher não é uma realidade imóvel, e sim um vir a ser; é no seu vir a ser que se deveria confrontá-la com o homem, isto é, que se deveria definir suas possibilidades.”

O fio que tento estabelecer aqui é exatamente o olhar existencialista para a transcendência, ”este ultrapassar de uma situação presente por um projeto futuro”, segundo Sartre. Trago para estas reflexões o vir a ser que é constante e que toca também uma identidade que não é estática e talvez nunca tenha sido tão velozmente mutável, influenciável: líquida!

O poema 11. (travessias) irrompe cruzamentos inúmeros com dores e confissões cotidianas, de quem se perde em ressacas, em portas, numa convulsão de desencontros, situações sem saída. Mas ali, há a quimera e isto restitui o caráter onírico do nosso sujeito de enunciação, que sofre o desterro em que vive, em que delira em estado bruto de consciência; um eu cortado por desencantos, empurrões do destino. Um ser tortuoso de onde conflitos abundam. Com o poema 12. (inverso), fecha-se a primeira parte com uma tentativa metalinguística de organizar o caos.

Temos, então, o segundo momento do livro, intitulado URBI ET ORBI, em que os poemas tocarão a cidade, o corpo inserido no mundo, nas ruas, em outros continentes, na órbita universal.  Em 1. (carteira de identidade), vemo-nos às voltas com os complexos psicanalíticos que trazem a presença do Pai e da Mãe, em seus arquétipos, para a cena: “esta cidade não me salva/nasci fora de suas fronteiras/pai e mãe são meu medo/dupla derrota/tatuada em meu corpo/como cicatriz da história.” Mais uma vez, a origem umbilical dos dramas ou dos traumas; a busca por seu território ou a constatação de estar ausente do seu lugar e a circunstância de não ter lugar: “esta cidade não me basta/sou bastardo em sua memória/tenho um não-lugar além/sou estranho a toda estória/irredutível ao que se exprime/em seu fado/em suas horas”. Um inadequado, um inadaptado numa cidade, onde ele se sente – como tantos de nós – um estrangeiro, um estranho, um forasteiro, em situação incômoda de bastaria. A única forma de subverter o estranhamento é pular seus muros e desafiar suas fronteiras, como um clandestino em travessia, em fuga. Assim, o livro trafega entre o abandono em que nos encontramos na cidade que nos vigia, a nós, estrangeiros, e entre o sentimento de nomadismo muito presente no livro. Temos ainda as especulações sobre o tempo, que chegam através de rugas sobrecarregadas de significados. O eu do poema critica a oligarquia que preside o ritmo da cidade. Sutilmente, aponta a cartografia do lugar dividido em andares, elevadores e elevados. Entre arrastares de pés que caminham e percorrem a cidade, vemo-nos atravessados também de amores frustrados. Há desilusão e pessimismo nestes versos que caem. Marcas de uma cidade bem distinta daquela encontrada pelos turistas. Há uma desconstrução ou exibição e desnudamento de mazelas e odores de uma cidade que não acolhe. É o que pontua o olhar e as idiossincrasias do eu poético desencantado, devido ao abandono em que nos encontramos na cidade, devido à solidão e à estranheza que sentimos.  O poema 4. (Casa corpo cidade) traz, em seu título, invólucros que nos resguardam e nos massacram aos olhos do Poeta, que sente ímpetos terroristas: “a sanha por penhascos/o desejo de explodir /o centro em pedaços/ a convivência com o tráfico de afetos e fracassos/e vício compartilhado”.  O Poeta revela-se personagem que vive a crueza da cidade; alguém que a sofre porque está nela e não apenas assiste, distante, aos acontecimentos. Ele, transeunte, vive a cidade. Seguimos em encontros remotos com Gregório de Matos, num diálogo de denúncias comuns das mazelas da cidade, enquanto o próprio leitor é convidado a entrar em sua festa de desencantos, cúmplice, seguindo memórias machadianas: “Estranha virtude nos une/ hipócrita leitor/ meu igual meu irmão”. Assim nos sentimos atravessados pelo mesmo desencanto e amargura, diante dessa fera que nos devora, também a nós que, hipócritas, fingimos que tais dramas não são nossos! Fingimos ler o outro! No entanto, o Poeta nos convoca à Consciência, à Cumplicidade irmanada.

A partir daqui, invade-nos uma atmosfera de sensações, onde a solidão e a estranheza permeiam as páginas do livro. A queda intensifica-se vertiginosamente, pois a insatisfação e a crítica invadem todos os espaços, poros, pele do papel. O tempo e a constatação da impotência diante da vida. A presença do corpo. Lugares. O lugar da Poesia. O contato, a proximidade, os contratos sociais, as redes familiares, o país: “Algo de podre parece viver nesse país de fácil sorriso”. O que um livro traz, o que ele nos ensina. Migrar, migrações transmigram, identidade em vertigem: o lar, a família, o corpo, a cidade, o país, o mundo. A cidade personificada urra e todas as suas imundícies são compartilhadas conosco: família, amor, tesão, fracassos, tudo se mistura e é observado pelo Poeta, em delírio, em vertigem, em queda. Há a presença do corpo que sente e cheira todas as sensações, numa atmosfera sinestésica, apocalíptica, feroz, mortal. Todas as memórias estão impregnadas de fracassos e, mesmo quando vislumbramos um oásis de amor, a penumbra cerca aquela paisagem onírica, permeada de beleza, como acontece no poema 8. (memórias dos carnavais): “o Jardim que você prometeu matou meu serafim.” Ouço bandas de rock de Brasília presentes no poema, consigo ouvir toda uma geração 80, entremeada nesses versos tristes. Em outros momentos, sentiremos ecos de Augusto de Campos em tentativas do Poeta  de explorar imagens, linguagens, sons, experimentos.

Viajamos por lugares especiais, enquanto experimentamos o abandono. De que trata o poema? Memórias de amores, de outros carnavais? Memórias literárias que atravessam oceanos e deixam marcas na pele do Poeta? Do que se trata? A atmosfera nos penetra em interrogações e nos perdemos em devaneios; nos movemos em dúvidas, desejos que já são nossos e perdas que também são nossas. Uma viagem de ônibus é matéria de reflexões tão filosóficas e tão amplamente profundas que mergulhamos com nossas bagagens na viagem, com o eu do poema, sem que ele o saiba. O amor está presente nas páginas deste livro com ares de melancolia. Entanto, há prazeres pelo instante vivido, pela alegria de viver o cotidiano simples e grandioso de conversar, durante o trajeto do ônibus, ao lado de quem nos ama: “íamos no ônibus e falávamos e o ônibus ia em nós/e viajávamos acompanhados de quem nos ama/na solidão do grande rio que margeamos” (11. (intermunicipal)). Aqui, um momento lírico-amoroso, pleno de beleza, de amor e de juventude, onde uma outra margem surge, sinto desejo de permanecer no poema!

O Poeta, que confessa viver, estar num supersonho, trafega por outros continentes e traz aspectos dos povos que frequenta, traz o outro e suas influências; modifica-se com o outro, torna-se outro, numa geopolítica íntima que traz leveza à leitura: “carrego comigo/ muitas outras viagens/ do atlântico sul” (13. (geopolítica íntima)). Viagens como busca de possíveis identidades perdidas, que trazem histórias inscritas na própria pele, em suas origens, mas também trazem as marcas de outros povos, outras culturas que permanecem. A África faz-se presente, assim como Lisboa e Brasília também delimitam influências.  Quando dialoga com Drummond, deixa na página a ausência da cidade; ausência espacial, que, no entanto, está lá, marcada pelo vazio. Tal dispositivo estético-semântico pontua a importância do signo cidade, corpo, cidade-eu no livro. Busca por uma identidade atmosfera de desencanto, de ausência, desesperança; um olhar que perscruta o mundo. Migrações internas e externas, identidade em vertigem. Encerramos a segunda parte do livro com uma sensação de encontro, movimento e busca de possibilidades dentro das linguagens urbanas de expressar e imprimir a si mesmo em seus muros, suas paredes, numa queda mais branda.

Iniciamos o movimento final do livro com tons de metalinguagem e questionamentos acerca do lugar do poeta no mundo, onde a “tradição” entra na mira do eu lírico. Em Formas de Cair, terceira parte do livro, encontramos uma epígrafe que simboliza e sintetiza todo o projeto, pois é o título de um texto da Poeta portuguesa Luiza Neto Jorge, “O poema ensina a cair”, que será  imediatamente mencionado no segundo poema, indicando que,  apesar da queda, o poema cumpre uma função  importante  em nossas vidas e é uma Poeta quem nos sinaliza, como nos informa o nosso sujeito de enunciação: “É é bom saber que se/ocorrer de nós cairmos/e não  nos ferirmos é/porque o poema ensina/ a cair – conforme Luiza/ categórica explicou/ e que humilde subscrevo/ ciente de que neste jogo/erro, vertigem e queda/são as verdadeiras vitórias/que o poema pode pode ter”. Permanecerão os dilemas cotidianos, mas serão iluminados pela máxima deixada pela Poeta e o poema guiará o eu vertiginoso que acompanhamos até aqui. No poema 5, teremos uma exposição  mais íntima do eu lírico, pois o contato social, o estar com outras pessoas na sociedade será tratado com extrema delicadeza e profundidade, dando-nos um retrato mais nítido do ser que enfrenta a sociabilidade, como tantos de nós, com extrema dificuldade, quase sempre disfarçada. Ele traz no desfecho ao poema: “As convenções são o trono/ das perversões mais severas“. Os embates permanecem, mas há uma outra respiração  musical nos textos; momentos onde o arrebatamento poético nos toma e sentimos vontade de dançar, como no poema 7. O Poeta segue desenhando desejos, sonhos, paixões com mais suavidade. O cinema se apresenta como uma força que move o eu lírico. Estamos aprendendo a cair com seus textos, com suas perdas. O Poeta nos deixa uma interrogação, antes do seu posfácio aos pedaços:

“Mas afinal quem juntou os cacos
dessas histórias de erros e quedas
que tanto lemos?”

 

Rita Santana nasceu em Ilhéus, Bahia, a 22 de agosto de 1969. É graduada em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz. É atriz com trabalhos em teatro, cinema e televisão; escritora e professora. Em 2004 ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Em 2006, Tratado das Veias (poesia) é publicado pelo selo Letras da Bahia. Publica Alforrias (poesia) em 2012, pela Editus. Em 2019 publica Cortesanias (poesia), pela Caramurê, e participa do Festival Internacional de Buenos Aires.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Febre. Brasil. 2019.

 

 

Vencedor do Festival de Brasília de 2019, com vários prêmios em festivais internacionais, A Febre, filme de Maya Da-rin, infelizmente não pôde ser assistido nos cinemas brasileiros por causa da pandemia. Infelizmente porque ele é a prova de como uma obra de arte é capaz de premonição, de absorver imperceptíveis sinais de perigo e traduzi-los em imagens significantes. Filmado antes do período pandêmico e concebido há mais de uma década, o filme trabalha com a ideia de uma misteriosa febre que ocorre na cidade de Manaus. Essa febre ressoa no recente desastre sanitário do Coronavírus e a catástrofe das mortes sem atendimento na capital amazonense, bem como da variante da doença gerada na cidade.

O protagonista do filme é Justino (vivido pelo ator Regis Myrupu), de origem indígena da nação dos Tukanos, que trabalha como vigilante no cais das docas do grande porto de Manaus. Justino abandonou sua aldeia há muitos anos, é viúvo e tem uma filha, Vanessa (vivida por Rosa Peixoto), que é enfermeira e sonha em estudar medicina numa universidade pública. Vanessa passa no Enem para a UNB e está feliz com a possibilidade de estudar em Brasília. Deixará então sozinho seu pai com quem mantém forte relação de afeto. Logo após receber a notícia que sua filha passou no Enem, Justino passa a apresentar sintomas de uma misteriosa febre que não encontra diagnóstico. Paralelamente, a cidade de Manaus testemunha misteriosos ataques de supostas feras sobre porcos e outros animais domésticos. Alguns acreditam serem ataques de cães selvagens.

A proposta de ver além do que aparece está inscrita na própria concepção do filme. “O homem branco só consegue ver o que está diante dos seus olhos” é a ideia que faz mover o roteiro. O filme tem forte componente alegórico que contrasta com a descrição realista do cotidiano de Justino em suas idas e vindas de ônibus do trabalho. Mas a característica alegórica busca um efeito de tradução entre mundos incomensuráveis, não só aqueles entre brancos e indígenas. Logo na primeira cena do filme, Vanessa, filha de Justino, atende uma paciente indígena idosa num hospital público. A senhora lhe conta uma história em linguagem tukana que é incompreensível tanto para Vanessa como para os espectadores. Vanessa fala a língua geral tucana, mas essa nação tem muitos dialetos que são estranhos uns aos outros. Trata-se de uma nação de povos diferentes, enquanto os homens brancos veem apenas uma unidade étnica de “índios”.

 

Regis Myrupu no personagem de Justino / Foto: divulgação

 

Para traduzir as imagens entre mundos diferentes, a diretora Maya Da-rin se utiliza da força da fábula alegórica. Vemos Justino, também em fala tukana traduzida para a língua portuguesa em legendas, contando uma história para uma criança indígena. A fábula conta de um sonho em que um homem branco se perde na floresta e não consegue encontrar saída. Um casal de macacos então lhe aponta o caminho para o retorno à cidade. Como todo sonho, a história não fala apenas do progressivo desenraizamento de Justino, que na cidade grande vai perdendo o contato com o mundo da floresta. A narrativa também lhe vem como um presságio, como veremos adiante, e como o próprio “fio de Ariadne” que lhe permite se orientar nos labirintos formados pelas fronteiras. Como diria o doutor Freud, todo sonho é a realização de um desejo.

Na montagem de A Febre são figuradas várias fronteiras: a fronteira entre brancos e índios, a fronteira entre línguas, entre cidade e floresta, entre sonho e vigília, entre narrativa oral e linguagem cinematográfica digital. É, por assim dizer, um filme fronteiriço, e uma de suas principais virtudes é permanecer na habitação dessas bordas, simuladas ao enquadramento da câmara. Uma dessas fronteiras figuradas é a do vestiário do cais do porto, onde Justino tira o uniforme e troca de posto com um colega. Este é um segurança branco que chegou de Rondônia e tem enorme preconceito de índios. Debocha de Justino chamando-o de “índio amansado” e diz que já enfrentou e matou muitos “índios de verdade” em seu trabalho anterior. No vestiário, encena-se então as divisões entre o branco racista e o índio oprimido, entre o dia e a noite, entre o trabalho e a folga e entre a lei e a criminalidade. O trabalho de Justino não lhe exige muito. Ele se mantém em vigilância como um “caçador sem caça”, como ele mesmo diz. Mas muitas vezes, com a falta do que fazer, Justino cai no sono e então sonha, configurando então mais outra fronteira entre a vigília e o sono e entre a alienação do trabalho e a polissemia oracular do sonho.

E nas várias cenas de retorno de Justino do seu trabalho, num ônibus lotado, descobrimos que ele mora na fronteira da fronteira de Manaus. Para chegar em sua casa ele atravessa uma pequena mata a partir da estrada, traçando a mais importante de todas as divisas figuradas pelo filme: aquela entre a cidade e a floresta. Sua casa, que tem um quintal bucólico onde Justino pode ficar “à vontade” sem camisa, se localiza justamente entre o meio urbano e o meio rural. A floresta é o “outro lugar” que se estende além da vista e onde o homem branco se perde por não conseguir enxergar através de sua intrincada complexidade.

 

A Febre / Foto: divulgação

 

No roteiro, dois eventos cruzam essa fronteira nebulosa. Um deles é a visita do irmão de Justino e de sua companheira. Eles permaneceram na comunidade indígena e se mantêm ligados às suas tradições. Há um mal-estar familiar de que Justino deixou para trás sua comunidade para viver no mundo dos brancos. Eles trazem uma visão estrangeira (para o filme e para a cidade) que é crítica, mas também compreensiva: seu irmão percebe com agudeza o dilema de Justino entre a felicidade por sua filha passar no Enem e a melancolia pela solidão que o espera. O segundo evento se refere aos misteriosos ataques de feras a animais domésticos. Essas feras são animais da cidade como cães ou animais selvagens da floresta? Essa fantasmagoria atravessa a fronteira entre o realismo da narrativa cinematográfica e o imaginário onírico da fábula.

No final das contas, é a capacidade de olhar para além dessas fronteiras que decidirá o dilema de Justino. Essa capacidade exige a sabedoria de reconhecer e decifrar as mensagens desconhecidas que vêm do outro lado. Entre os mundos incomensuráveis não há apenas uma linha, mas uma faixa ou zona de passagem. Interpretar nas entrelinhas significa a capacidade de entender a linguagem do outro ao deixar suas marcas exatamente nessa zona de passagem.  A febre é assim a metáfora maior das várias linhas divisórias que o filme apresenta e que se bifurcam: ela abre o espaço emaranhado de coexistência entre a sentinela e o sono e entre o imaginário e a corporeidade. A febre é o sinal de alarme que oscila entre a doença e a saúde.  Se é verdade que a palavra “filme” se referia originariamente à pele de animal, a película de A Febre expressa a pele de um corpo febril, o da obra. Na cena em que Justino atravessa o sinuoso rio de igarapés, raízes e cipós e desembarca na outra (terceira?) margem, a câmera se mantém na pequena canoa enquanto o personagem se distancia pela floresta. A grande virtude do filme de Maya Da-rin é sua decisão por habitar e permanecer nessa zona febril, o que faz de seu enredo um tecido entrelaçado de ideias e imagens, uma floresta impregnada de sinais, premonições e augúrios.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

NOTAS SOBRE UM POVOADO MÁGICO

Por Gustavo Rios


 

São evidentes os elementos que vinculam o livro Rio das Almas, do escritor baiano Pawlo Cidade, à tradição do Realismo Fantástico. Das famílias que atravessam o tempo da narrativa com suas histórias e idiossincrasias, às situações inusitadas envolvendo determinado rol de personagens, Pawlo nos traz uma obra interessante. E parece bem à vontade nesse universo.

Publicado pela portuguesa Chiado Editora, o romance Rio das Almas conta a trajetória de um povoado de mesmo nome que viveu seu apogeu com a extração de carvão (fato importante na trama) e com as ferrovias. Em suas 304 páginas, somos convidados a conhecer esse lugar mágico, que aos poucos vai se mostrando a alegoria perfeita para as ambições do seu criador.

No primeiro capítulo nos deparamos com o hidrólogo Pedro Parigot. Pedro, movido por uma espécie de milagre (uma cura que o personagem tenta entender com o olhar da ciência), viaja até o povoado na busca de respostas. O ano é 1968, período marcante para a história brasileira – e não é raro encontramos laços entre o mundo proposto pelo autor e o real, historicamente falando.

Dentro desse enredo inicial e aparentemente simples, e entre observações precisas e competentes do ambiente e da situação em si (o encontro entre dois desconhecidos, Pedro e o andarilho de nome Miguel Cervantes, num cenário que tenta fugir do trivial tão comum nos livros “regionais”), Pawlo dá início à sua jornada. E o que poderia ser o “núcleo duro” do livro, no caso a busca de Pedro Parigot por respostas, acaba por se converter numa parte. Fundamental no todo, mas nunca limitadora do muito.

E não demora nada para que outros personagens, com suas histórias inusitadas e bem construídas, surjam, ampliando o escopo do autor e nos mostrando o tamanho exato de suas ambições.

A mudança de cenário, por assim dizer, já começa no segundo capítulo. Nele, embarcamos com Pawlo Cidade, enxergando cada vez mais seus propósitos e a força de sua escrita.

 

O “povoado dos Santos”    

Seguindo a linha de trabalho escolhida pelo artista ilheense, é importante destacar algo que prende o leitor e terá certamente a capacidade de mantê-lo no prumo: a história dos Santos.

Em minha opinião, as páginas em que ele descreve as peculiaridades dessa família (para usar um termo bem comportado) são umas das melhores partes do romance – talvez pela lembrança que me trouxe dos tipos que habitam Macondo.

Da família que “(…) todos os sábados, no lombo de burros, iam à feira de Rio das Almas negociar os alimentos que produziam na fazenda: leite, batatas, alface, mandioca, inhame, gabiroba e algumas peças artesanais como embornais (…)”, avançamos entre belas representações (lembro que a crueldade apresentada é parte do jogo; parte da necessária construção literária: aqui, então, justifico o termo “belo”), envolvidos por um ambiente mítico.

Para exemplificar parte dessa ideia inicial, e mostrar como Cidade trabalha tais questões, cito o trecho abaixo:

“A cada meia hora, Jairo Santos, arrastando os pés nas tábuas aparelhadas do piso da sala, saía na varanda e olhava para o céu, anunciando a chegada de uma chuva que nunca vinha. Com o dedo em riste, dava ordens à mulher e às filhas, apontando a direção, sem precisar dar uma palavra. De tanto apontar o dedo na direção das coisas e dos acontecimentos, o indicador da mão direita endureceu. A mulher, que era espichada, achou engraçado. Disse que o dedo duro foi castigo de Deus pelas vezes que ele a fez crescer, forçada, mas ‘por amor’, até ficar do tamanho dele. Dona Santaninha dos Santos cedera ao desejo desvairado e esdrúxulo do marido de fazê-la se esticar até ficar de sua estatura, para que os filhos, quando nascessem, tivessem o mesmo tamanho dos pais”.

Então, usando o “amor” como justificativa, “(…) antes mesmo do sol cobrir todo o Vale dos Absurdos, Jairo Santos deitava a mulher sobre o ‘estirador’, um instrumento que inventou para alongar a estatura do corpo, embora um aparelho similar tenha estado em uso durante toda a Idade Média, sobretudo por padres inquisidores que o utilizavam para extrair confissões e que ficara conhecido com a alcunha de ‘cavalete’”.

Pawlo Cidade, pseudônimo do escritor João Paulo Couto Santos, prossegue com firmeza no uso dos ingredientes comuns a essa literatura chamada de fantástica: a família que “conversa animadamente” com os animais do pasto; a família que cria gatos selvagens em coleiras para torná-los mais mansos; os Santos, que devem aprender a viver como raposas e corujas que se escondem em buracos no chão, pois “(…) lá será o destino de toda vida na face da Terra.”, já que, segundo o velho Jairo Santos, “um dia o sol cresceria tanto que queimaria quase toda a terra e só depois de tanto crescer ele explodiria. ‘Toda a luz se tornará em trevas para sempre’”.

Ainda que eu destaque o uso de tais elementos, que vão muito além da família Santos no decorrer das páginas, devo lembrar que essa escolha não restringe as ideias do autor. Ou seja: não existe cópia, apenas inspirações certamente assumidas (a citação do livro Incidente em Antares, por exemplo), e outras talvez mais sutis (o cheiro dos grãos de mamona num copo de metal me lembrou das amêndoas amargas que deram fim às “inquietações da memória” de um tal refugiado antilhano; mas isso é pura especulação de minha parte). Para fechar a questão, digo que nada é deliberado nem confuso, apesar de nos parecer muitas vezes que a cronologia e o enredo se perdem.

A verdade é que Pawlo também joga com isso, e joga bem. Ele nos traz novos personagens, novas vidas que se mostram ao longo da obra. Em seu romance, o tempo pode dar um salto entre um capítulo e o outro (anos, às vezes décadas), mas essa escolha tem o efeito de nos manter interessados em seus desfechos, na promessa de algo mais.

E essa diversidade de personagens, de casos, de tempos que saltam e de vidas distintas, acaba sendo a grandeza do livro. E o enredo ganha com isso.

 

Ressurreição e Bíblia

Deocleciano, um velho que após perder o grande amor de sua vida está “determinado a morrer”, sem conseguir finalizar o ato, é o primeiro a perceber que a morte talvez tenha abandonado o povoado. E para um livro que tem como epígrafe um trecho da Bíblia (“’E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles’”), não à toa do famoso Apocalipse (que também significa Revelação), é interessante analisar o romance na tentativa de ligar os pontos. Tentar associar uma ideia bíblica com a vida da localidade em si.

O livro sagrado (ao menos para algumas religiões) vez por outra é citado na história, seja pelos personagens ou mesmo pelo autor-narrador. Quando Deocleciano grita na página 35 que “A morte morreu, Céo!”, ou mesmo quando ele escuta sua amiga, Céo, repetir o mesmo trecho da epígrafe, “(…) meio absorta, olhando através da janela, os malditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos”, podemos inferir a ideia de Pawlo em colocar na obra uma ideia comum, mas bastante aceitável e apropriada: a religiosidade característica em diversas regiões do país. Na literatura brasileira os exemplos são fartos. E, para não ficar no vazio, cito Dias Gomes e Hermilo B. Filho, entre tantos outros.

O cotidiano do povoado merece destaque, visto que é o arcabouço do romance, obviamente. Todavia, aqui a gente também enxerga o fabuloso na medida certa, no detalhe e no comezinho, não somente no evento que pode mudar de alguma forma o destino da trama.

Além disso, suspeito que nesse fabuloso “miúdo” exista um pouco de cinematográfico, do tipo cinema-que-devaneia-e-amplia: parte do trecho citado acima (“malditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos”) deve me ajudar a explicar a ideia, na medida em que surge como algo trivial. Como se “malditos redemoinhos” não fossem acontecimentos tão incomuns para aquela gente.

Do Conselho de Anciãos que “(…) se reunia para tratar dos assuntos mais complexos do povoado.”, podendo ser convocado por qualquer cidadão, à uma rotina que envolvia um Deocleciano que às “(…) 15h, lia sobre os grandes filósofos da humanidade: Sócrates, Descartes, Aristóteles, Platão; às 16h, compartilhava o que havia lido com os jovens que o esperavam na praça do Chafariz, induzindo-os à busca de si mesmos e à solução dos problemas mais simples da humanidade, sempre com base na filosofia e nos seus questionamentos pertinentes (…)”, o leitor vai construindo em sua mente Rio das Almas. Suas ruas, seus habitantes, os acontecimentos e a magia que cabe dentro dele. Assim, esse mesmo leitor vai se tornando algo além de um mero espectador. Seu olhar vai se igualando em essência aos dos moradores do lugar.

Também a forma escolhida pelo escritor para pôr no livro tamanha variedade de situações se mostra acertada, na proporção em que ele resolve os dilemas propostos, e faz as devidas ligações ao longo do texto: a falsa impressão de que, em parte da obra, estamos diante de cenas descontinuadas, não impede de vermos a beleza do conjunto (o capítulo 17 pode ser um bom exemplo, e não só pela questão da cronologia, mas pela inventividade). No final das contas, esse método valoriza o trabalho, na justaposição de situações curiosas, belíssimas, engraçadas, incríveis e literárias, no sentido lato da palavra.

Usando como base o Realismo Fantástico, Cidade nos agrada com os mais diferentes acontecimentos, tendo como pano de fundo aquilo que chamamos realidade. Mas que podem muito bem subverter essa mesma realidade amuada e sem graça, extraindo dela o encantamento, o pomposo, a picardia e o mundano. Tudo que esperamos para combater essa vida que insiste num cinza duradouro e sufocante.

 

O protagonista que interessa: o ser humano

É um erro pensar, todavia, que Rio das Almas não passa de um amontoado de histórias absurdas, com personagens marcantes e loucuras no atacado e no varejo. Ainda que Pawlo tenha optado por uma narrativa não linear em parte do livro – como já dito e recontado acima, às vezes um detalhe só é explicado alguns capítulos depois (vide o momento em que Chico Rola ressuscita “sem mastro e sem bandeira”, fato explicado várias páginas depois) -, o que prevalece mesmo é a história do humano em si. O verdadeiro eixo de tudo. Para o autor, o que importa é o que cada indivíduo sente e como ele age diante do mundo que se apresenta, ainda que esse mundo seja do tipo que acolhe, sem sustos, uma Mulher Pisadeira que esmagava o peito das pessoas que dormiam de barriga cheia.

Rio das Almas, povoado, é uma potente metáfora sobre as tais idiossincrasias do ser humano. Tornando-se uma espécie de síntese criativa e instigante que coloca o homem no protagonismo, à frente e acima.

Em Rio das Almas, livro, o que salta aos olhos de verdade são as pessoas. Os amores, as amizades, as crenças e os rancores. O que releva nas 304 páginas são as fronteiras e as nuances. As buscas e as perdas. Tudo bem estruturado num cenário fascinante, que não confunde o leitor com enganações.

Não é a ressurreição ocorrida na história que se destaca no final das contas, mas os motivos e as causas da morte que não acontece. Da traição nunca perdoada, à velhice que deixa o Chico Rola impotente (“deixou de ser cavalo para ser égua”), passando pela dor da viuvez, onde Deocleciano vê a interrupção dolorosa de uma rotina em que ele “(…) às 17h, voltava correndo para casa, pegava a esposa, e regressava outra vez para a praça, onde podiam contemplar, às 17h45, carinhosamente abraçados, o pôr do sol, a hora mais espetacular do povoado, em que o céu tingia-se de tons azul-violáceos, rosa choque, roxo, tons alaranjados e uma infinidade de tons vermelhos que se distribuíam em degradê pelo Monte Marrom.”, o que enxergamos é o personagem no centro de tudo.

A injustiça social causada pelo lucro e pela ganância também é assunto presente no livro, tendo como mote a existência da Betânia and San Francisco Railway Company, empresa de mineração de carvão. Desse modo, além de conter os tais elementos fantásticos (forma, labor e estilo), o livro traz também a lembrança de quanto os humanos são absorvidos e devorados pela ganância, pela desumanização e pela fome de lucro (realidade e conteúdo).

 

A voz narrativa e as escolhas

Um ponto que talvez incomode a quem vai ler a obra é o jeitão por vezes empolado com que o artista prossegue no romance. Mesmo em cenas engraçadas, provavelmente ao se deparar com trechos tais como “(…) inalar, involuntariamente, os odores nada agradáveis de suas flatulências” o leitor vai achar algo exagerado.

Outros exemplos reforçam tal impressão: “chorou copiosamente”; “Cria nisso. Como creu naquela noite”; “nitidamente absorto”; “assaz eufóricos”; “desmesuradamente perplexos”, entre outros.

Todavia, diante do que li (a obra em seu conjunto), consigo entrar em defesa do Cidade com alguns argumentos que talvez consigam explicar o caso: para mim, é outra voz que nos narra Rio das Almas; além disso, Pawlo trabalha no livro com um tipo de narrador que conversa diretamente com quem o lê.

Sobre a primeira hipótese, posso resumir da seguinte forma: a voz do livro pode não ser a do João Paulo ou mesmo a do Pawlo Cidade. Mas a de alguém criado por ele (ou eles) para tal.

Deixando de lado a questão do pseudônimo para não confundir, e sendo o autor do livro um dramaturgo, acredito na capacidade dele em “dar voz” a outros – como um “item de série”, digamos, para um bom homem de teatro. Com isso, e considerando sua experiência, acho que Cidade optou por criar uma persona que deve falar desse jeito “assaz” presunçoso.

Um narrador que precisa explicar o que é bronha (“o ato de se masturbar”), por exemplo, é o mesmo que pode nos deixar um pouco confusos quando fala sobre os telômeros que não conseguem mais se dividir (outros trechos me fazem suspeitar que a voz do livro seria a de um médico aposentado, meio sábio, bom de copo e de prato, chegado numa picardia e um grande observador; mas isso é especulação minha, um jogo interessante para o Gustavo leitor).

Sobre a voz ser a do tipo narrador que conversa com o leitor, diferentes momentos podem comprovar essa ideia. Na medida em que ele opina e compartilha experiências.

Como exemplo, cito os trechos a seguir (com grifos meus):

“Se fôssemos enumerar as coisas absurdas (e incríveis!) que povoavam o Vale, como o fato de uma vez por ano o sol brilhar em plena meia-noite, seria preciso escrever outro livro.

Vamos ver se consigo explicar. Quando completou sete décadas de vida, o filósofo professor leigo e funcionário da Estação de Tratamento de Água de Rio das Almas (…)”

Enfim, Rio das Almas é um livro que merece ser lido. Com atenção e prazer, se permitindo entrar no jogo proposto por seu criador.

E entre coveiros gêmeos bivitelinos de pais diferentes, burros alados, olhos violetas e assombrações, acredito valer muito a pena entrar, sim, no jogo. Na deliciosa leitura desse mundo-povoado. Lá, onde bar se chama taverna. E onde “A fragrância das gardênias só era abandonada quando as flores da Praça da Matriz desabrochavam com grande intensidade e magnificência”. Um lugar que eu gostaria muito de passar uns dias. Ou mesmo passar uma vida inteira, quem sabe.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.

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141ª Leva - 01/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

 Amém e Axé: o diálogo que emana afeto

 Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira

 

 

Em agosto de 2014, oito traficantes cariocas foram presos por ataques a terreiro de candomblé, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Na investigação conduzida pelo delegado do caso, identificou-se que a ação foi coordenada pela Facção Terceiro Comando Puro, chefiada por um suposto pastor.

Parece um contrassenso falar de traficantes evangélicos, porém, o fundamentalismo religioso em ascensão no Brasil, com sua face mais exposta na Cidade do Rio de Janeiro — tendo em vista a entrada política de líderes religiosos neste cenário, desacredita toda e qualquer forma de espiritualidade diferente do cristianismo, além de produzir um discurso de ódio e de morte.

Nesse sentido, o livro  O amor como revolução, do pastor Henrique Vieira, é esperança em meio à brutalidade e um convite para o exercício permanente do amor nas nossas relações: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”.

Quem lê a “Oração da felicidade”, que funciona como o prólogo do livro, terá noção daquilo que vai encontrar ao longo da obra. À exceção do leitor dogmático e fundamentalista, o livro, por falar de diálogo e do poder renovador do amor, pode circular com tranquilidade por leitores de todos os credos, tanto que na capa temos relatos da Jornalista Flávia Oliveira, cuja fé é professada na Umbanda.

Pastor, escritor e militante de direitos humanos, Henrique Vieira conta que sua experiência com Deus ganha maiores contornos aos 16 anos, diante do desamparo da vida, condição que, segundo o autor, acomete a todos, independentemente de credo. “Nessa solidão há um drama existencial que atravessa todas as pessoas, uma comunhão universal na condição do desamparo”. É nessa busca pelo encontro consigo mesmo e pelo autoconhecimento que, em geral, os seres humanos procuram uma experiência transcendental que proporcione a superação do desamparo, sem deixar de perceber que também no sofrimento é possível evoluir como cidadão e como ser.

Diante do seu desamparo, a fé. Ao chegar ao oftalmologista para fazer um exame de vista, constatou que sofria de neurite óptica bilateral: “Voltei chorando para casa enquanto minha mão ligava para outros médicos pedindo orientação. Nos olhos da minha mãe, via minha dor sendo compartilhada; meu pai com semblante sempre sereno, me transmitia calma e confiança. Mais tarde, chegaram meus irmãos mais velhos, Ghilherme e Marcele, e todos juntos começamos a orar naquele quarto”.

O amor é definido como uma atitude revolucionária, que tem uma relação direta com a inconformidade, capaz de provocar comoção e reação diante de uma cena tão comum e naturalizada nas ruas cariocas, que é a da mendicância, e em muitos casos em ruas de áreas nobres e com grandes concentrações de templos evangélicos. Diante da sensibilidade do olhar afetuoso e do amor como prática diária, o autor afirma que ser cristão é se comover perante um mendigo, um detento, um jovem negro sendo sufocado, uma criança morta em uma favela ou por um assassinato motivado por orientação sexual: “O amor como atitude, caminho e fazer diário é o único meio generoso de acolhimento da perplexidade humana”. Diante disso, pode a igreja se calar perante a morte de Marielle Franco? Ou da morte de Maria Eduarda dentro da Escola Municipal Daniel Piza, em Acari? É inaceitável que na Cidade do Rio de Janeiro lideranças religiosas dialoguem com um tipo de segurança pública forjada na lógica do extermínio, ignorando que Jesus foi preso sem culpa, torturado e morto pelo império romano, em uma sucessão de absurdos cometido pelo Estado.

Durante toda a obra, Henrique Vieira parece se vestir de palhaço para quebrar hierarquias e criar um ambiente de afeto e livre de preconceitos. O autor encaminha a narrativa para uma abertura espiritual que rejeita o dogmatismo e o fundamentalismo religioso, desconstruindo mentes machistas, apurando o olhar para entender que toda forma de amor é justa, aguçando a sensibilidade para nunca naturalizar desigualdades sociais e, fundamentalmente, apostando na convivência e respeito entre as religiões para desconstruir a noção de exclusividade de fé, que encoraja traficantes a agirem violentamente contra templos de religião de matriz africana: “Precisamos construir juntos um amém e um axé pela paz”.

Em tempos em que líderes disciplinam a experiência com Deus e criam uma agenda em que na segunda-feira Deus tem que dar uma bênção material; na quarta-feira uma cura e no domingo uma resposta para algum problema, crianças, expostas nas calçadas de caminhos de templos religiosos, seguem pedindo esmolas e desamparadas pelas famílias, pelo Estado e pela igreja. Da Sara Nossa Terra à Cara de Leão, seres humanos com cara de fome seguem ignorados nas suas individualidades e nas suas necessidades básicas, não respeitados em seus desejos sexuais, e quando são presos, torturados e mortos, agora pela máquina do ódio e pelo fundamentalismo religioso — não mais pelo império romano — a igreja silencia. E agora, Pai, que eles sabem o que fazem?

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.