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133ª Leva - 05/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

De que geografia e de que mortes, afinal, Priscila Pasko fala?

 Por Helena Terra

 

 

“Como se mata uma ilha”. O título, se fosse um livro de poemas, já seria impactante e original verso.

Mas não é.

É um livro, não, é mais que um livro, é uma requintada literatura de contos e de alegorias de várias ilhas ou torrões ou grãos de areia humanos ou, ao contrário, da comunhão de toda essa humanidade em um arquipélago de palavras ancoradas na perspectiva, na sensibilidade e no desprendimento da escritora e de cada leitora ou leitor.

Umberto Eco diria se tratar de uma obra aberta pronta para se desdobrar e desdobrar.

Salvador Dalí a pintaria com sua visão de mundo surrealista, exigindo o olhar astuto e atento aos símbolos em crítica e em movimento que permeiam as entrelinhas.

Simone de Beauvoir, acredito, aplaudiria, assinando embaixo de cada texto, de cada potente testemunho e testamento de que o que somos nem sempre é o que nascemos e menos ainda por nossa livre e espontânea vontade.

Por quê?

Porque o “Como se mata uma ilha” fala de nós, as mulheres, dentro dos territórios sociais, culturais, corporais e psicológicos em que vivemos e dentro de nós mesmas. Nós, as mulheres, sendo o útero e o parto que embala a criação – em seu sentido mais óbvio e, também, em seu mais complexo – e nós, as mulheres, sendo forçadas a ser os limites e a sepultura do que inspira e dignifica a existência em seu todo e em nossas particularidades.

O “Como se mata uma ilha” fala sobre quem somos, nos discute e debate. No entanto, não nos julga. E quem não julga, não condena. É preciso coragem para evitar a autoridade das sentenças, para não optar por elas, para não aceitar e perpetuar os estigmas, os rótulos e os preconceitos. É preciso coragem para não condenar com a própria ignorância. E é preciso consciência, acréscimos de consciência, para não se deixar moldar e constituir por meio de opiniões carregadas de experiências, valores e indiferenças alheios.

As personagens, da Priscila Pasko, se parecem e não se parecem umas com as outras, exatamente, como nós, mulheres e homens, também, nos parecemos e não nos parecemos. Em comum, elas têm uma espécie de apego pela verdade e de intimidade com ela, do mesmo modo que a escritora tem com a laboriosa tarefa que é escrever.

Por incrível que pareça, o “Como se mata uma ilha” é o seu livro de estreia. Talvez, todos os livros, os bons livros, sejam mesmo de estreia por não se parecem com nada além de obras de arte.

 

Helena Terra é escritora, jornalista e coordenadora literária do grupo de leitura “A literatura tem nome de mulher”, que se propõe a ler e a pensar as obras escritas por mulheres, em Porto Alegre, na Livraria Cultura.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Parasita. Coreia do Sul. 2019.

 

 

Parasita (Gisaengchung ), de Bong Joon-ho, é o filme ganhador da Palma de Ouro de Cannes de 2019. Original da Coreia do Sul, ele repete o sucesso de crítica do cinema oriental que em 2018 fez de Assunto de Família, filme japonês, o vencedor do mesmo festival de cinema (resenha aqui).

Há muito em comum entre o filme de Kore-eda e de Joon-ho. Ambos retratam a vida de famílias japonesa e coreana, respectivamente, pertencentes ao estrato mais pobre da população em seu cotidiano de pequenos golpes por sobrevivência. No entanto, no primeiro filme temos uma família fictícia, enquanto no filme coreano é uma verdadeira família. Em comum, há também o apuro da produção estética. Parasita se utiliza de todos os recursos técnicos da edição contemporânea, incluindo a trilha-sonora pop, numa linguagem cosmopolita e globalizada.

E ambos os filmes também encenam a luta de classes no seio desta globalização estética: a vida das famílias que precisam se virar para poder sobreviver são exemplos do precariado global que sustenta com trabalhos completamente informais, e não raro clandestinos ou ilícitos, o cosmopolitismo estilizado de consumo nas sociedades ricas.

Parasita logo nas cenas iniciais apresenta sua metáfora principal. A família que vive no térreo de uma construção abaixo do nível do asfalto se mostra desesperada pela perda do sinal da rede sem fio que usufrui clandestinamente de algum vizinho, pois este resolveu colocar senha de acesso. Assim, o termo parasita assinala essa figura informática que intercepta uma comunicação que não lhe pertence.

 

Foto : The Jokers – Les Bookmakers

 

A família nuclear formada por pai, mãe e dois filhos jovens embala caixas de pizza para um delivery da vizinhança. A perda de acesso à rede é um desastre para a família que depende da internet para poder realizar seus negócios de sobrevivência. O filme se passa na Coreia do Sul que é um dos países com maior densidade de acesso digital. Justamente na Coreia, não acessar a rede é estar fora da cadeia de valor altamente informatizada que fez de um dos países do Terceiro Mundo, com renda menor do que o Brasil nos anos oitenta, grande referência na produção tecnológica avançada.

Mas um lance casual muda a sorte da família. O filho adolescente Ki-Woo é convidado por um amigo refinado a substituí-lo como professor nas aulas de inglês para uma família da classe rica de Seul. Ki-Woo começa então a dar aulas para a filha do casal endinheirado que mora com seus dois filhos menores numa mansão construída por um famoso arquiteto coreano. É então que o jovem vê a oportunidade, através da astúcia e do logro, de inserir toda a sua família para trabalhar na casa. Mas para isso é preciso não apenas enganar a família rica, mas também afastar dois serviçais de confiança, o motorista e a governanta, esta última trabalha na mansão desde o antigo dono. Os dois serão despedidos pelo conluio da família que se insere no cotidiano da mansão.

Assim, a primeira metade do filme se passa como uma comédia de costumes. A malícia da família pobre ludibria a ingenuidade da família rica para usufruir dos confortos dos privilegiados e de seus signos de ostentação. A família pobre então parasita a riqueza da outra família a partir de verdadeiros “golpes de mestre”. O problema é que a perfídia para afastar os também pobres serviçais de seu caminho retorna amargamente para estragar sua gozosa parasitagem. Eles descobrem através da volta da governanta demitida e ultrajada que a casa possuía outro habitante escondido num bunker subterrâneo da casa, construído pelo antigo arquiteto como refúgio de um possível ataque nuclear da vizinha Coreia do Norte. Trata-se do marido da governanta, há anos escondido no bunker, fugindo supostamente da cobrança de dívidas. Como mostra o filme Pietá do também sul-coreano Kim-Ki duk (2012), a cobrança violenta de dívidas é um dos maiores problemas sociais da Coreia do Sul.

 

Foto: Koch Films

 

A partir dessa reviravolta, a comédia se transforma em humor negro e macabro. A divisão de classes entre família rica e pobre é transposta para a guerra cruel entre as famílias pobres que toma lugar na mansão durante a ausência da família rica, em viagem de feriado, como um tipo de ocupação política de seu espaço. O enredo escalona vários níveis de parasitagens: o casal formado pela antiga governanta e seu marido também parasitava a família rica, assim como o bunker no porão parasitava a mansão. E alegoricamente a nunca terminada guerra com a Coreia do Norte parasita o imaginário do sucesso econômico da Coreia do Sul.

Ou ainda, de forma mais sugestiva: o sucesso econômico da Coreia do Sul é parasitado por sua condição de país periférico, cuja função é gerar mais-valia para as economias centrais. Os novos ricos da economia coreana são parasitados pela crescente desigualdade social que alinha as economias globais. E aqui se abre então um paradoxo que o filme de Joon-ho articula: não são os ricos que efetivamente parasitam a produção de riqueza dos mais pobres? Quem parasita quem é uma questão de perspectiva.

Parasita então revira através de uma espécie de geo-estética a lógica hierárquica do cosmopolitismo liberal da linguagem cinematográfica globalizada. Para usar um termo do ensaísta Silviano Santiago, há um “cosmopolitismo dos pobres” neste filme sul-coreano. Se por um lado, a Coreia do Sul, com seu novo cinema de sucesso e a linguagem comercial do K-Pop, consolida um eixo hegemônico internacional de consumo estético e figura um novo imaginário cultural para a região extremo-oriental, no filme de Bong Joon-ho a luta de classes é interiorizada como guerra bruta do precariado. Pois, mais do que qualquer outro, o trabalhador precário é o símbolo corporal da nova economia neoliberal. Ele marca a fronteira pela qual essa economia se expande e se globaliza. O filme figura a má consciência, ou mesmo o inconsciente recalcado dessa expansão.

 

Foto: The Jokers – Les Bookmakers

 

O cosmopolitismo dos pobres sul-coreanos devora por dentro a perfeição técnica da cinematografia do país emergente com cenas de brutalidade próximas ao pastelão. De fato, a cultura de exportação se tornou um elemento poderoso no PIB oriental que abala a hegemonia estética ocidental. A família rica, no entanto, dá mostras do desejo de imitar e simular os padrões ocidentais. São os pobres que vivem do trabalho cada vez mais informatizado e informalizado que realmente se tornam internacionais. Que sabem inglês melhor do que os ricos, que usam a internet para aprender sobre arte-terapia. A pobreza se globaliza, enquanto a riqueza se torna ridiculamente provinciana. A riqueza parasita o conhecimento de vida dos mais pobres que experimentam o real para além do fetiche das imagens publicitárias. E o real retorna no filme como um elemento intimamente corporal: o odor.

O odor é aqui um sinal do real que insidiosamente penetra as barreiras porosas entre as classes. Num certo sentido, é o odor que traça a distinção entre elas. Entre uma classe “pura” e “higiênica” que se relaciona sexualmente apenas no conforto do lar e uma classe “impura” e “suja” que transa com qualquer um e ainda fede. Iguais em suas próprias ilusões de posição, parasitas de um sistema globalizado que se expande numa lógica algorítmica e automática, a fantasia das classes reduz as pessoas a seus corpos-objetos. E a distinção de classe se marca nesses corpos impuros e vulneráveis. Fora do corpo e de suas emanações, a vida é não mais do que a projeção fantasiosa ou fantasmática do sucesso profissional, da riqueza fácil e da ostentação, fantasias parasitadas pelos sonhos utópicos de reconciliação.

 

 

Guilherme Preger é natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Oito e Meio/2014). É organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro coletâneas de contos. Atualmente é doutorando de Teoria Literária pela UERJ com a tese Fábulas da Ciência. É colaborador do site de produção poética Caneta Lente e Pincel (canetalentepincel.art.blog). Escreveu sobre cinema para o site Ambrosia.com.br.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Uma pequena-grande amostra da condição humana: o originalíssimo impacto do conto “A História, um pouco de blush nas bochechas e um número tatuado no braço”, de Mário Baggio

Por W. J. Solha

 

 

O ancião que acaba de receber o Nobel de Literatura vai dar entrevista na TV, pelo que, antes, é encaminhado à maquiadora do canal. “Ela o cumprimenta, olha-o de maneira profissional e avisa que lhe aplicará um pouquinho de base no rosto e tirará o brilho da cabeça pelada e das mãos, ´porque em televisão uma pele oleosa fica horrível e desvia a atenção do que realmente importa´”.
Ponto pra ela: lembro-me – e o velho escritor também deve se lembrar – de que Nixon começou a perder a eleição pra Kennedy , em 60, pela pele oleosa, o descuido da aparência num debate em que teve de enfrentar o outro . Os que acompanharam a coisa pelo rádio acharam que ele fora o melhor. O outro foi eleito pelos que viram o confronto pela TV.

Bem.

Colocados Nobel e maquiadora em cena, Mário Baggio dá um show no diálogo.

– Sobre que assunto o senhor vai falar no programa?

– Perdão?

Você, como eu, vê surpresa e ironia na resposta à pergunta infame. Mas é apenas um problema de audição do gênio. Ela capricha na dicção:

– Qual será o tema da entrevista?

– Ah, isso. Será sobre um livro que escrevi, eu acho – e sorri, embaraçado.

– O senhor vai vender bastante, esse programa tem muita audiência.

Quando ela quer saber quantas obras ele já publicara, ele, pra simplificar a coisa, diz “muitos”.

– Mais de quatro? Mas então o senhor é profissional. Como se chama?

– Alberto – gagueja – Gerber;

– Gerber, Gerber. Acho que já ouvi falar.

O conto já nasce curta-metragem. Um bom ator maduro e uma grande atriz ainda jovem matariam o público de rir, a princípio, de emoção, em seguida. Principalmente porque tudo é extremamente real, convincente. José Saramago soube que ganhara o Nobel por uma TV de aeroporto. Olhou em volta: ninguém – fora ele – prestara atenção na notícia.

– Agora um pouco de blush – diz a maquiadora -. Pra mim, o blush é a maior invenção da humanidade.

Ela é uma figura antológica.

Mas vamos ao final, que só conto por que é um dos 63 do volume e já está no título. Como já vira até degola de crianças, nos outros, eu esperava, qualquer um esperaria algo na mesma linha – mas Mário Baggio mereceria estar no lugar do Alberto Gerber, por ele.

– Agora vou maquiar um pouquinho as mãos. Pode arregaçar as mangas? Assim não mancho os punhos de sua camisa.

– Ah, sim, claro – o escritor levanta as mangas até os cotovelos. Tem as mãos trêmulas. Bia percebe e o ajuda. Interrompe o gesto, admirada.

– Ah, olha só. O senhor tem uma tatuagem, que moderno! O que é? Simboliza alguma coisa?

– É só um número… – o escritor responde, com um fio de voz.

Baggio resume toda a tensão do Nobel com aquele “tem as mãos trêmulas” ao arregaçar as mangas e, agora, ante a total desinformação da moça a respeito de uma enorme tragédia humana, ainda com sobreviventes: “É só um número… – responde, com um fio de voz.”

Depois do punhal enfiado, o contista revira-o no peito do leitor e do personagem:

– Um número. Que original! Eu também tenho uma tatuagem, pequenininha, no ombro – afasta a alça do sutiã e mostra a ele.

Batido o prego, o reviramento da ponta:

– Se eu fosse o senhor, faria uma igual, no braço esquerdo, pra ficar simétrico.

 

W. J. Solha nasceu em 1941. Escreveu romances e poemas longos premiados nacionalmente, trabalhou em filmes como O som ao Redor, pintou cento e tantos quadros, montou peças de sua autoria, foi parceiro de grandes compositores, continua na ativa.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Gramofone

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

KANYE WEST – JESUS IS KING

 

 

Kanye West é o mais importante artista para compreender o nosso tempo, uma controvérsia ambulante, o supremo idiota, gênio multimídia, trendsetter supreme, traíra, tudo ao mesmo tempo. Ye é o hip hop (dividido entre ativismo e o bling), é  o “palmiteiro mor” que pegou a Kardashian  da sex tape e casou. É o cara que pulou de Nike para Adidas e criou a percepção da Sneaker Culture pro mainstream. Sem ele não haveria Drake  e dezenas de outros. O rapper não gangsta que dividiu um disco com Jay Z e o traiu, o homem negro que admite seus problemas mentais, que chora em praça pública, que se diz Deus e põe o boné do Trump. Judas, Exu e Hermes ao mesmo tempo. Kanye é o troll  do século.

No meio de mais uma reinvenção, ele volta à sua Chicago natal e começa a fazer missas cantadas nas igrejas locais. Cercado de ótimos músicos e um coral, vai  de  Gospel (raiz da música negra americana, fonte de Aretha e Sly, entre tantos outros), atitude recebida com cinismo e desconfiança por parte dos  fãs e críticos (me incluo aqui). Resisti a ouvir Jesus is King, mas a curiosidade venceu o ranço e o disco é tão gostoso, tão… pop que tocaria em qualquer lugarzinho “muderno” sem que se note sua temática, afinal, gospel por aqui soa chato e careta.

 

Foto: : Kevin Winter

 

O álbum abre com “Every Hour”, a faixa mais típica do Gospel, uma “abertura de terreiro” com o coral e a vibe da Igreja negra dos Blues brothers, faixa curta e que te coloca no mindset das intenções do disco. Em seguida, temos “Selah”, com seu órgão, e onde Kanye começa seu sermão com a frase “… God is king, we the soldiers…”, evocando grandeza e a beleza clássica. Quando o coral entra nos “Aleluia! Aleluia!”, esperei o beat dropar e a gente cair num house. Mas ele vai de colagem e deixa esse crescendo tomar conta, faixa poderosa.

Em “Follow God”, um rap com um flow estrito e direto, daqueles pra tocar no carro ou no fone saindo para a batalha, daqueles que movem o peão.  “Closed on sunday”, canção leve com cordas, baixo pesado e aquela sensação de oitenticidade que Ye capta desde faixas como “Get by”, que ele produziu para Talib Kweli, citando o Chick a Filet, rede fast food de donos evangélicos (polêmica calculada), na qual o tema é  o amor e a família. “On God” é mais uma faixa altamente influenciada pelos 80 com seu tecladinho fazendo uma base e bateria eletrônica, caberia no Arcade Fire fácil.

“Everything we need” (com Ty Dolla $ign e  Ant Clemons), outro rap com lindos vocais de Clemons e  Ty, é curtinha (uma característica do disco, que foge da estrutura do Gospel e se integra ao déficit de atenção do nosso ambiente hiperconectado), tem batida trap e uma mensagem de gratidão. Em “Water” (com Ant Clemons), Kanye se utiliza da imagem da água, tanto como símbolo da uma pureza batismal, como da nossa busca com o cloro (elemento externo) por essa mesma pureza, faixa que evoca  e reafirma o disco como pop fundamentalmente. Por sua vez, “God is” remete ao início do disco, a canção é um soul puro, soa como  “Crazy” do Gnarls Barkeley, podia ser cantada pela Amy Winehouse e tocada pelo Dap kings, básica e focada na emoção tosca da voz de Ye.

 

Foto: Rich Fury

 

Em “Hands On”, voltamos ao ano de 2019, com o vocoder e Ye soltando os versos calmamente, indiciando os supostos “cristãos” que julgam primeiro. Mas na suave, claro. Na canção “Use this Gospel”, Ye reforma os mesmos teclados e convenções do seu último disco, com Pusha T tacando os versos com força em contraste com o minimalismo. É “Jesus is Lord” que fecha o disco numa coda imensa, hora dos abraços.

Gospel é Bob Marley, Bob Dylan (fase linda) e Take 6. Kanye traz o gênero pro século 21, explorando os temas que já trabalhava desde seu disco passado (insegurança emocional, solidão no sucesso etc.) e resolve seus medos tão nossos, com uma simples fórmula: Louvor + Humildade = terapia.

Não sei se essa fórmula funciona, se é um golpe de pastor, mas sei que funciona nos ouvidos e que o Papa é pop…

 

 

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra III

Um recorte da construção de Brasília no romance de Lima Trindade

Por Geraldo Lima

 

 

Brasília tem servido de cenário ou tema para obras de gêneros literários diversos, mostrando, com isso, sua importância como centro do Poder e, ao mesmo tempo, como cidade que vai, aos poucos, criando sua própria identidade cultural. Quase sempre a vemos retratada já como centro urbano consolidado, em pleno desenvolvimento, exibindo tanto sua beleza arquitetônica, seu inusitado plano urbanístico, quanto os problemas sociais que a cercam ou espalham-se em seu interior. Vê-la retratada ainda durante a sua construção, ora com olhar de encanto, ora com olhar de crítica severa, é coisa rara de se ver. Em As margens do paraíso [romance, Cepe Editora, 2019, 269 páginas], o escritor Lima Trindade, nascido em Brasília e vivendo atualmente em Salvador, cumpre esse papel e nos transporta para o cenário de avenidas empoeiradas, canteiros de obras sob o comando de empreiteiras e empresas públicas, alojamentos precários, escritórios, boates e zonas de baixo meretrício, numa Brasília que marcha para ser inaugurada, impreterivelmente, no dia 21 de abril de 1960.

Antes, porém, de fazer com que a vida de seus protagonistas – três jovens brancos de diferentes camadas sociais – convirja para esse cenário épico da construção da nova capital do país, ele apresenta cada um deles em sua respectiva cidade: Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro. É nessas localidades, distantes umas das outras, que vemos como se deu a formação intelectual e afetiva desses jovens e de como os ecos da construção de Brasília chegavam até eles.

 

A estrutura do romance e a vida dos personagens

 

Como há dois momentos importantes marcando a vida dos protagonistas Leda, Rubem e Zaqueu, Lima Trindade optou, acertadamente, por dividir o livro em duas partes.

Na primeira, a narrativa é feita em 1ª pessoa e cada capítulo recebe o nome do narrador-personagem [Leda, Rubem, Zaqueu], assemelhando-se, nesse aspecto, ao romance Enquanto agonizo, de Faulkner. Desse modo, ficamos sabendo das frustrações, desejos e aspirações de cada protagonista, quase sempre em confronto com o meio em que vive. Leda sofre ao ser explorada na casa do padrinho, em Juazeiro, enquanto sonha com os artistas do rádio e do cinema. Aos poucos, o desejo que sente pelo padrinho vai complicando sua vida, a ponto de levá-la a um desfecho trágico.  Rubem, ao mesmo tempo em que se anima com a ascensão no emprego, frustra-se na vida amorosa, e isso será decisivo para que mude radicalmente seu projeto de vida longe dos bares e praias do Rio. Zaqueu, filho de pais ricos, pertencentes à elite anapolina, rebela-se e nega-se a continuar os estudos. O pai, que o leva ao prostíbulo para que se inicie na vida sexual, é o mesmo com o qual tem duros embates. Todos eles, impactados por acontecimentos trágicos, como é o caso de Leda e Zaqueu, ou frustrantes, no caso de Rubem, vão amadurecer e ganhar, praticamente, uma nova personalidade no universo agitado e tenso da capital que se ergue em pleno cerrado.

Na segunda, ainda que haja dois capítulos curtos, que recebem também o nome do narrador-personagem [Mauro] e com narrativa em 1ª pessoa, vai predominar a narrativa em 3ª pessoa no longo capítulo intitulado “Brasília”.  No novo cenário de cidade em construção, de busca de novos horizontes, de adaptações ao novo ambiente, o narrador onisciente cumprirá bem a função de nos apresentar os personagens com maior riqueza de detalhes, tanto física quanto psicológica. Assim, ficará bem clara a mudança de caráter de Zaqueu e de estilo de vida de Rubem, e isso terá papel fundamental no desfecho da história. O uso do narrador onisciente permitirá, também, que o autor nos forneça um panorama das atividades desenvolvidas na construção da capital, envolvendo desde as empreiteiras até os prostíbulos na Cidade Livre, os quais, de certo modo, ganham relevo nesta narrativa de Lima Trindade. Aliás, o sexo tem um grande destaque nessa história, chegando a influenciar no seu andamento. Assim, podemos perceber que é nos prostíbulos e boates da Cidade Livre que ocorrerá boa parte dos encontros dos personagens. “Zaqueu estivera em outros bordéis da Cidade Livre antes. Divertira-se, bebera e, afora o prazer que desfrutara nos braços femininos, descobriu ser nesses espaços que as oportunidades de negócios se apresentavam com maior frequência. Não quaisquer negócios. Mas justamente os mais lucrativos. Assim como não se apresentavam em quaisquer bordéis” [página 180].

É interessante observar também que a construção frasal muda de uma parte para outra. Na primeira, ouvimos a voz de cada protagonista narrando, no presente, seu cotidiano e os conflitos nele inseridos, e sempre num ritmo mais acelerado, entrecortado, devido ao uso sistemático de frases curtas. Esse procedimento está bem de acordo com a estratégia narrativa adotada pelo autor para esse momento da história. Já na segunda, sob a ótica do narrador onisciente, com amplitude de olhar, as frases longas imprimem à narrativa, que se dá no passado, um ritmo mais lento e possibilitam um maior detalhamento do espaço, dos estados psicológicos e das características físicas dos vários personagens que aí transitam.

 

Pesquisa histórica e imaginação

 

As margens do paraíso é fruto de apurada pesquisa histórica realizada por Lima em cada localidade em que ocorrem os fatos narrados. Durante sua leitura, deparamo-nos com personagens reais envolvidos na construção de Brasília, como é o caso do político Israel Pinheiro e do escritor e também engenheiro Samuel Rawet, e com fatos do conhecimento de todos hoje em dia, como o massacre no alojamento da Pacheco Fernandes. No livro, já com a interferência da imaginação do autor, assistimos a esse triste episódio acontecer em outro lugar: “Meia hora depois, dois caminhões repletos de soldados da GEB ultrapassaram a fronteira dos portões da Estevão Muniz e estacionaram na parte dianteira do alojamento de solteiros, onde havia a maior concentração de operários da empreiteira” [página 258]. Em Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro, percebe-se o cuidado do autor em apresentar ambientes e situações culturais pertinentes ao momento histórico em que os personagens vivem. Vemos já a presença de mulheres com discurso e postura feminista, jovens articulando ações de esquerda no ambiente estudantil, uma juventude influenciada pelas novidades no campo da música e da moda etc.

Assim, a trama deste primeiro romance de Lima Trindade envolve um elemento ficcional, em que a imaginação do autor molda e move as ações dos personagens, até se cruzarem no cenário da construção de Brasília, e um elemento histórico, que serve tanto como cenário, ou pano de fundo, quanto como elemento fundamental no desenvolvimento da história e do seu desfecho.

Lima Trindade, nesta sua obra, além de nos apresentar de modo intenso a trajetória de três jovens brasileiros na década de 1950, nos transporta a um momento singular da história do nosso país, em que se sonhou verdadeiramente grande. Porém, ele não se furta ao dever de apontar os sérios problemas que essa empreitada, levada a cabo por Juscelino Kubitschek, produziu, como, por exemplo, a exploração da mão de obra dos candangos pelas empreiteiras. Em As margens do paraíso, como o título mesmo sugere, de modo irônico, já anunciam-se os graves problemas sociais que ainda hoje cercam o Plano Piloto e dão conta do fracasso do sonho de JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

No tempo da delicadeza

Por Lima Trindade

 

 

Publicado pela Patuá em 2018, Por assim dizer recusa neons e maneirismos. O livro vai na contramão de boa parte do exibido nas páginas das redes sociais e nos estandes das livrarias em que as capas das publicações precisam desesperadamente chamar a atenção de um público não mais tão interessado em atributos como discrição e  elegância. Basta ver a predominância de best-sellers nas vitrines, suas capas carregadas de cores berrantes, seus títulos ofensivos (tanto pela gratuidade do uso de palavras de baixo calão quanto pela “originalidade” de sua poesia). Perto deles, Por assim dizer soa prosaico demais, dito quase como um sussurro para não incomodar a sensibilidade de seus possíveis leitores. No entanto, observemos que a utilização da locução por assim dizer enquanto nome da obra também guarda uma valiosa declaração de intenções, uma não aceitação de um único modo de se ver e se falar sobre as coisas do mundo, uma necessidade de relativização (e reflexão) que julgo extremamente bem-vinda para nosso cenário cultural contemporâneo.

São 16 contos a compor a primeira parte e a reverberar numa segunda. São 16 contos que tratam da condição humana num cenário muito, muito, muito próximo ao que vivemos, presenteando-nos cada um deles com uma centelha de emoção que jamais esbarra em pieguismo, retórica maniqueísta nem pirotecnias linguísticas.

Os temas são variados e estão divididos em “Dos amores”, “Das dores”, “Das viagens”, “Das memórias” e “Das paragens”, desdobrando-se em muitos outros subtemas e situações de conflitos em que os protagonistas lidam com diferenças sociais, violência, desamor, sonhos, esperanças e perdas, as personagens agindo e reagindo como seres autônomos, vivos, senhores e senhoras do próprio destino, muitas vezes nos surpreendendo por suas escolhas e pontos de vista únicos.

Yara Camillo nos faz adentrar a mente de um criminoso quando ele aplica um golpe por telefone num velhinho, permite que acompanhemos os impasses de uma mãe excessivamente protetora em admitir a escolha amorosa do filho, que compartilhemos as alegrias etílicas de uma sem-teto que não sabia rezar, o choro de uma cafetina pela morte de uma das suas protegidas, o pavor que um notório malandro tem de noites de temporal e escuridão, a estranha e compulsiva relação entre uma fã e uma escritora novata e, até mesmo, lança um petardo contra a indústria farmacêutica em sua ânsia monetária.

Esses são alguns exemplos que demonstram vividamente seu interesse em entender de maneira mais profunda a sociedade em que vivemos, mas que seriam vazios se ela não potencializasse a linguagem a seu favor, se não fizesse da técnica uma aliada.

Yara Camillo é adepta da economia verbal. Ela sugere muito mais do que afirma, mostra muito mais do que conta, diz muito ao dizer pouco. Segue o caminho dos mestres, sobretudo Tchekov, Cervantes e o uruguaio Juan José Morosoli, na delicadeza com que constrói suas cenas e explora a tensão de experiências aparentemente banais, assenhorando-se de um tempo com um compasso menos apressado, muito menos leviano. É o que constatamos na abertura de “Duas vias”:

“Ele abria a porta do carro para que ela entrasse.

− A velhice dando passagem à juventude?

− Não: a sabedoria dando vez à pretensão.”

Já neste começo entrevemos o jogo de poder entre o casal, a provocação inteligente, a sedução, o humor, os embates que terão no futuro.

“Com fatos banais e incidentes corriqueiros é possível entrever toda a transformação de uma vida passada a limpo”, diz Arlete Cavalieri ao comentar a síntese poética da narrativa de Tchekov, acrescentando ser essa vida “fragmentária, sem relações imediatas de causa e efeito, sem respostas definitivas aos conflitos e predisposta ao inesperado e ao inexplicável”, juízo esse que se adequa perfeitamente a Por assim dizer, um livro que se presta a mais de uma leitura e não se rende à pressa dos relógios nem à brutalidade das cifras dos mercados. Sua arte está inserida num tempo outro: o tempo da delicadeza.

 

*Para adquirir a obra, clique aqui

 

Lima Trindade é escritor e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal da Bahia.

 

 

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128ª Leva - 06/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

O mundo é uma roda e nós no meio ou como se deu minha Trans forma são

Por Mayana Rocha Soares

 

 

Platão tinha mesmo razão em temer a presença de poetas em seu projeto de pólis. É gente perigosa, que faz movimentos curandeiros com palavras. É brincando de transmutar que o poeta Alex Simões ginga formas, palavras e sentidos, em seu recente livro de poesia Trans Formas São, lançado em 2018, pela editora soteropolitana Organismo. Esses giros de poesia não foram por mim lidos na racionalidade pretendida de uma crítica literária, mas atingiu o corpo. Taí o seu perigo! Atingindo o corpo, ela (a poesia e seu efeito alucinógeno) tem o poder de agir como feitiço e reorganizar sentidos, desejos, gestos de afeto. Alex nos deu um roteiro de transmutação. E mudar é perigoso para os desejos da nação. Há sumários por todos os lados como bússolas para gente poder se perder à vontade. Há o sagrado “no meio do caminho, entrelugares”, entrecaminhos, encruzilhadas tecnológicas, cantos, sons, Exu, ebó, padê. Sem eixos centrais de sustentação. “Mas há um centro?” Só o habitar do fora.

Alex Simões é poeta, professor e performer baiano. Além de muitas outras publicações em livros e coletâneas, realiza no próprio corpo a experiência literária, através da performance. O livro é composto de 37 poemas. Por meio destes, Alex Simões expõe o mundo através dos olhos apaixonados de quem não apenas observa a vida passando, mas a vive. Por quem atravessa a vida transformando e sendo transformado por ela. Trans Formas São é um livro de performances artísticas das palavras, das formas e sentidos todos, reorganizados a partir do que sentimos, de como amamos e de como seguem nossos desejos e afetos.

O poeta admite fingir, mas não só como o Pessoa, o português. Melhor. Não finge só a dor. Ele diz: é que “me faltam boas ideias e tendo a apelar para grafismos”, há que “fingir que já li muitos calhamaços, roubar, plagiar, sempre negar”. É que “a vida sem sentido dá avisos / há vida pulsando / o tempo urge e às vezes dói lembrar”. Eu também roubo suas palavras agora, mas não sou poeta. Me permito transbordar nessa lama de palavras. Mergulho nela e me transformo também. Aquela mulher que abriu a primeira página do livro não é a mesma quando encerrou a leitura. Alex é modesto. “embora não despreze o métier, e seja mau poeta, é de outra subárea: dos que temos alguma vocação, não pra poesia, mas pra gambiarra”. Acha que é um poeta ruim. Se ser ruim é cumprir essa difícil tarefa de trans forma são, sem controle de como isso é possível, sem reconhecer seu alcance, então, fique satisfeito: você é muito ruim nisso! A gambiarra é que salva! “Toda/o poeta é experimental / obcecado por buceta” [de minha parte, também gosto] / transgênero por vocação / híbrido por definição / fundado na incerteza”. A gambiarra é essa arma que faz da literatura ser aquele menor, conforme Deleuze e Guattari nos ensinaram.

As certezas todas foram embora. Em Trans Formas São nos instalamos no oblíquo, na experiência do quase. “é quase um manifesto / por um quase negro / que é quase um homem / quase filho caboclo eké orixá santo sem base”. “O mundo é uma roda e nós no meio” e a “minha vida é um baile entre seus braços”. Transmutei seus versos para senti-los, novamente, dentro de mim de outros modos, em outras velocidades. Eu também não sei ao certo “que porra é mesmo o contemporâneo”. Mas sei que a poesia underground não tem limites temporais, porque vive nos subterrâneos. Depois discutimos “se houve mesmo uma autoria ou criação coletiva”.

Walter Benjamin, sabiamente, uma vez disse assim: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie”. Ainda bem que não estamos tratando de um documento, mas dá sua potência significativa, da poesia em seu estado de resiliência. Em sua formulação viva e pulsante nos corpos. “então pergunto: memória e corpo / há distintos um do outro?”. Recortes palavreiros de uma nação colonial em ruínas. Alex dispara um ciclo de notícias: das desalianças internacionais à barbárie da civilização. Em terras brasilis, “Aqui tudo parece que era ainda construção, e já é ruína”, como cantou Caê. Alex nos joga na parede e nos constrange a pegar visão: “em suspenso ninguém vive nem se acerta sem medida”. Vê isso? É o sangue das ossadas da barbárie ainda fresco batendo nas paredes da memória. Afrodiasporicidade. Ancestralidade. Abre o olho, é preciso ver: “escravizados desembarcaram de navios negreiros / morrendo por maus tratos e/ou de orgulho, talvez numa recusa por servir, morrendo como parte de um processo histórico e de resistência em luta”. Marielle, quem matou? David? Luana? Dandara? “escondemos de nós mesmos trezentos anos de escravidão”. Mas de lá dos escombros nos assombram com seu sangue, sua ossada e sua vingança, “enquanto segue o porto maravilha / com o futuro museu do amanhã / o que fazer dos crimes insepultos?” É verdade, “a gente tem de dar uma de louco porque senão ninguém presta a atenção”. É Grada Kilomba que diz “corpos brancos são sempre corpos que pertencem a algum lugar”, posto que nossos corpos negros foram desterrados e mal enterrados pela colonialidade. Acredito que Trans Formas São territorializa, em alguma medida, esse nosso cuíerlombo, para usar uma expressão de Tatiana Nascimento, de gente preta, insubmissa, dissidente e selvagem.

Trans Formas São também são formas trans, trocadilho barato, mas tem seu efeito. Entre cores e amores, essa poesia carrega uma inquietação, um não sei bem o que de agonia. É por isso que “meu coração não tem memória / nem sabe decorar / então decola”. Corpos trans que nos transmutam, pois se “a moda agora é ser sóbria, nós não podemos ser”. É porque “é uma questão política: o contraste é estratégia de quem milita a alegria”.

Trans Formas São é também leveza e beleza, “com os dois pauzinhos, que às vezes se esfregam aligeirados e outras que se atravessam como pontes”, criando conexões, rasuras e misturas no “perder-se entre outros corpos”. Sem esquecer de “respeitar o tempo”, lograr o tempo e aquela “puta censurada suposta martelada”.

Bom, nem todos os poemas couberam nessa leitura, mas como abarcar toda essa imensidão?        “e para amarrar essa corda / andorinhas passarão” – Mas #elenão!

 

Mayana Rocha Soares é feminista interseccional, decolonial e sapatão. Doutoranda no programa de pós-graduação Literatura e Cultura (PPGLITCULT/UFBA). Mestra em Estudo de Linguagens. Graduada em Letras e Ciências Sociais.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo Palavra II

“Felicidade é a queda, o abismo”

Por Gustavo Rios

 

 

Autor de vários livros, entre eles o comovente O caçador de mariposas (Mariposa Cartonera, 2013) e o romance Estrangeiro no labirinto (Confraria do Vento, 2013), semifinalista do prêmio Portugal Telecom, o escritor pernambucano Wellington de Melo deve gostar bastante do que faz – e ele faz muitas coisas – para conseguir juntar tudo, ou quase tudo que envolva seu interesse, em seu mais recente livro.

Ele, que foi traduzido para o espanhol e francês, e é editor pelo selo Mariposa Cartonera, com o qual publica diversos autores de forma artesanal, é também figura atuante nos meios literários, defendendo claramente suas escolhas políticas, ministrando oficinas cartoneras pelo Brasil e comandando a Cepe Editora.

Não bastasse ele é professor e tradutor. E um sujeito com estilo (não “estilagem”, é bom frisar).

Felicidade, sua mais recente obra, saiu em 2017 pela Editora Patuá. O livro em si é um primor em sua parte gráfica. E um petardo em sua essência.

Dividido em três partes (Beleza, Julgamento e Misericórdia), Felicidade é resultado de um trabalho extremamente poético, sucinto e poderoso. Um trabalho onde o autor consegue unir assuntos relevantes (coletividade, poesia, luta de classes, questões de gênero etc.) com habilidade, sem se perder no caminho – até porque o caminho é ele quem cria.

Em cada página o leitor se sente livre para escolher como construir em sua mente essa ou aquela cena (a necessidade básica de “entender” o enredo e apreender o estilo, simplificando-os na busca de repetições e convergências). Porém, essa sensação é aparente, na medida em que Melo tem o intuito de nos manter por perto, na base da rédea curta – e a tal simplificação cai por terra: cada nova leitura força a admitir que algo sempre nos escapa, que não vamos aprisionar a escrita de Wellington. E ficamos gratos por cair na armadilha.

A poesia (ou prosa poética, fiquem à vontade) serve como base para as situações a priori surreais, mas que trazem em si o elemento político tão caro ao autor– falo de 40 pessoas prontas para um suicídio coletivo na mesma noite em nome de uma causa, dentre outras coisas. Contudo, ao seguir adiante com Ademir, o personagem principal, começamos a perceber que as cenas e os acontecimentos se tornam parte do jogo. Um jogo que vai se mostrando profuso, verossímil e doloroso, onde o indivíduo não se dilui em nome da tal causa. Para nossa sorte.

Um jogo saturado de brutalidade, desespero, poesia e coesão. Uma incrível história.

Então, seguimos. E nos jogamos de edifícios altos e imponentes em nome de um ideal. E caminhamos pela cidade, onde “Duas colunas com capiteis sobre as quais dormem cabeças infantis fraturadas pelo vento e pela cal (…)” surgem numa “ (…) paisagem precária e teimosa, babel silêncio argamassa tijolos e desejo”. E somos violentados, encarando nosso passado, desprovidos do conceito tacanho de gênero (uma aposta certeira do escritor, não somente para aderir ao discurso tão atual, mas para dar a um dos personagens a merecida amplidão), sem paz e sem chances, buscando qualquer tipo de redenção.

Nada é fácil em Felicidade. Mas tudo é sucinto. E direto. E belíssimo.

Wellington faz parte daquele time de escritores que subverte a lógica na descrição de qualquer cena, seja ela crucial ou simplesmente transição entre acontecimentos: são frases curtas e afiadas, em diferentes ritmos. Contudo, essa subversão não é a impossibilidade da leitura e do entendimento, mas a chance de multiplicar esse entendimento, essa construção – sempre lembrando de que existe uma trama por trás e que nada é gratuidade, muito menos confusão.

Não foi raro me deparar com trechos onde supus não entender a ”cena” e o momento. Todavia, uma nova leitura (a doce armadilha do autor) me fez perceber as diversas chances de reconstruir aquilo, sem sair do rumo – o lance da rédea curta. Eu poderia reinventar um determinado instante, um rosto, uma dor, um suicídio, mas estava sempre jogando dentro das regras estipuladas pelo escritor pernambucano, pois havia uma história a ser narrada.

Então a cena era recontada, sempre com um novo brilho (não me arrisco a entregar o enredo, por medo que isso reduza as escolhas do leitor; e vamos em frente).

Num texto onde “(…) pombos de chumbo e acrílico zumbem (…)”; onde os sorrisos dos meninos estão “(…) mergulhados no vácuo (…)”, é fundamental entender que, mais cedo ou mais tarde, durante a leitura, estaremos subjugados e entregues. E que os trechos acima, ainda que pareçam belíssimas falcatruas poéticas, servem para compor a narrativa. Na base da boa literatura.

Em Felicidade existe maestria na condução do texto. Há uma trama sutil em sua forma (poesia ou prosa poética, mais uma vez fiquem à vontade), mas brutal em sua essência (a sequência dos acontecimentos, a tal história; a morte e o esquecimento como atos políticos; o passado dos personagens à tona).

Um movimento de distração nos custa o retorno à página. E esse retorno, curiosamente, pouco nos custa – considerando o ganho na nova leitura, sai barato, uma pechincha. É nessa volta que surge o renovado entendimento.

E um novo livro aparece. Com a mesma trama, todavia: é o desejo do autor.

A liberdade conduzida em Felicidade nos permite interpretações, mas sem nos perder numa narrativa ilógica e supostamente poética – aquele amontoado de palavras soltas; a manjada armadilha das vanguardas vazias, onde o leitor é sempre o ignorante, não importa se a obra foi publicada em mandarim: a gente que se vire com a “lisergia autoral” do gênio.

Wellington nos mostra que a literatura de qualidade, aquela que arrebata e instiga, sempre é resultado de escolhas, labuta e talento. E que é possível converter em poesia qualquer enredo, causa, tragédia, narrativa ou recurso literário, sem se extraviar no percurso.

Felicidade deve ter também alguma relação com o trabalho de um bom carpinteiro (Monteiro Lobato foi mais feliz no uso da metáfora, mas enfim), consciente do resultado de seu ofício. Um troço que transforma madeira rude em alicerce. Aprumado e firme, sim senhor. Mas igualmente repleto do que a literatura e a arte têm de melhor.

 

Gustavo Rios é baiano e escritor invisível.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Contações: a voz que canta ou A memória é editada porque nela habita

 Por Marcelo Labes

 

 

Não sou ainda um leitor antigo da poesia de Tiago D. Oliveira, mas já me considero um leitor próximo. Tive a oportunidade de ler seus dois primeiros livros de poemas, Distraído (Pinaúna, 2014) e Debaixo do Vazio (Córrego, 2016), e tive muito prazer em resenhar estas duas obras para a revista Mallarmagens assim que terminei sua leitura. Naquela ocasião, relacionei os dois livros com uma distância obstaculizada que exigia do leitor mais que olhos. Explico: diferente do lirismo luso-baiano que havíamos lido no primeiro livro, o segundo desmontava, passo a passo, a própria poesia de Tiago e nós, leitores, íamos desmontando junto.

Leitor já de um livro inédito, fui há pouco agraciado com a leitura de Contações, recentemente publicado pela Editora Patuá. E se eu ainda não havia me recuperado de minha leitura de Debaixo do Vazio, esta leitura serviu para me mostrar que de Tiago sempre posso esperar mais, muito mais: eis um poeta que lida com a poesia, própria e alheia, com uma seriedade e uma dedicação difíceis de se deixar passar sem perceber.

Tenho comigo que são poucos os temas que os poetas abordam durante a vida. Ou são muitos os temas, mas poucos eixos em torno dos quais estes temas giram. Ou são muitos eixos e temas para uma quantidade limitada de neuroses. Acho que escrever é lidar consigo e com sua história, sobretudo. Ou tentar lidar, posto que a memória é terreno movediço onde nem sempre conseguimos pisar firme. Contações, de Tiago D. Oliveira, porém, é um elevado, um viaduto: o poeta não somente está seguro do que conta como nos convida a transitar com segurança nesse seu mundo feito de ontens.

A epígrafe do itaparicano João Ubaldo Ribeiro dá o caminho: “Já estou, ou já cheguei à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo” acompanhada da do baiano Jorge Amado: “Tudo que é bom, tudo que é ruim, também termina por acabar”. Chamo os aclamados autores para dizer que não há nostalgia em Contações. Há revisita, retorno, recaminho. Nostalgia não.

Tiago retoma, neste livro, personagens da infância baiana que viveram consigo, muito de perto, para investigar em cada uma delas o porquê de permanecerem tão próximas. De elzinho, abreviação carinhosa de cruelzinho, menino sem mãe que se escondia da chuva sob marquises, sabemos através de loló, personagem que é narrada pelo poeta num poema próprio dela. O mesmo acontece com zé fim, que posfacia o poema arlinda de são pedro – uma melancólica narrativa sobre a mulher mais rica e menos amada do país – para depois ser narrado pelo poeta num poema com seu nome.

A riqueza de Contações, eu dizia, não está no que poderia haver de nostálgico. Continuo afirmando que a construção de Tiago é sólida, capaz de nos fazer atravessar certos de seus pântanos – e isso se demonstra na polifonia constante em alguns de seus poemas: não há um poeta, há um homem diluído em sombras, pois o sol da razão talvez desfizesse aquelas memórias pondo-lhes luz em cima. À sombra, portanto, caminhamos. Mas nunca incertos, apesar do que apregoa zé do rio, uma das personagens, ao reclamar que a cabeça / da gente é assim, falha / quando a gente mais  precisa, / diabo de memória.

O lirismo múltiplo e multiplicado da voz de Tiago permite que não haja um, mas vários eus-líricos – já que a memória, esse terreno pantanoso, não pertence a uma, mas a diversas pessoas. Por isso, podemos às vezes nos perguntarmos se quem fala é o poeta ou uma de suas personagens que a memória, turva, na confusão da lembrança, tornou a escrevente destes versos. Como em dia de fevereiro, onde em torno de um corpo que boia nas águas, o poema esclarece, confundindo: “enquanto as autoridades responsáveis / não chegavam para dar um fim ao espetáculo, / ambulantes vendiam bebidas e espetinhos. / crianças corriam, outros dançavam, / o sentido da vida, do que era elástico”.

Bahia, Itaparica, lugares onde nunca estive, mas que conheço através da poesia de Tiago, e que relembro como se tivesse lá vivido; inclusive é minha a pergunta que faz o poema: “toda dor é esquecida, / toda fome é suprimida, / todo morador é turista, / ou seria, / todo turista é morador?”. Não há, aqui, em momento algum, uma territorialidade excludente, mas a partir do que suponho ser viver num dos maiores rincões turísticos do país, me pergunto – ou é a poesia de Tiago que pergunta através de mim – se há quem seja de fato baiano na Bahia, Itaparicano em Itaparica, que não sejam os devoradores de fotos e paisagens.

A resposta à pergunta anterior é sim, há personagens para além das criadas pelos romancistas e poetas românticos; há pessoas para além das personagens de Jorge Amado e Tiago nos faz ter com elas, cara a cara, como num encontro adiado por muito tempo, mas que finalmente alcança o contato quase físico, quase real, deixando de ser memória para habitar a imaginação comum a quem tenha de quem se lembrar: “lizete / enlouqueceu / quando belo fugídio a abandonou no altar, / não antes de matá-lo / com 42 facadas no mesmo lugar”.

Há isso em poesia: quando os comos importam mais do que os quês. Mas se as experimentações com as vozes – que se misturam – nos dão oportunidade de contato com uma escrita inovadora e forte, há que se pensar que quando o poeta volta-se para si e os seus, ele procura nesse não apenas resolver-se, pois que a poesia confessional e memorialística pode ser desinteressante. Não: Tiago vai mais longe e busca de suas ruas, as nossas; de sua infância, a nossa; de suas personagens, as minhas e, certamente, as tuas.

São poemas ou retratos tirados por uma câmera antiga. Antiga? Se contarmos que dos 80 para cá a tecnologia tem nos deixado tontos, penso que sim: somos antigos os da década de 80. Já antigos. E compartilho deste sentimento de que se não resgatarmos o que nossos olhos viram e aquilo pelo que o coração bateu forte (e hoje bate com saudade, ainda mais quando as recordações afloram), seremos nós mesmos esquecidos. E não podemos esquecer nem deixar que esqueçam as pequenezas que nos fizeram gente, substância de nossa poesia.

Tiago, que experimenta com sua poesia desde o primeiro livro, teve Debaixo do Vazio, aquele monolito instigante, uma mostra de um poeta para fora, em contato com o mundo que o rodeia. Contações nos mostra o poeta voltado para dentro: da memória e da poesia – mas fazendo crescer a própria obra, que deixa agora de ter lado de dentro e lado de fora, e passa a ser o grande momento em que o poeta, novamente e ainda mais, se revela.

 

Marcelo Labes nasceu em Blumenau-SC, em 1984. É autor de Falações [EdiFurb, 2008], Porque sim não é resposta [Antítese, Hemisfério Sul, 2015], O filho da empregada [Antítese, Hemisfério Sul, 2016], Trapaça [Oito e Meio, 2016] e Enclave [Patuá, 2018]. Integrou a mostra Poesia Agora (edição carioca), em 2017. Tem poemas publicados em Mallarmagens, Livre Opinião – Ideias em Debate, Ruído Manifesto, Enfermaria 6 e Revista Lavoura. Edita a revista eletrônica ‘O poema do poeta’, onde publica originais manuscritos, esboços e rabiscos de poetas e ficcionistas.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Lúcida distração

Por Saulo Dourado

 

 

Temos Vagas é o título do primeiro poema de O Exercício da Distração (Penalux, 2017), de Kátia Borges. A escolha da entrada funciona como um aviso na porta: aqui o preço do feijão cabe no poema. Se em Não há vagas Gullar reclama que a poesia só traz “homens sem estômago”, a primeira parte do livro de Kátia se chama “Como se fosse o órgão vivo”. Mas a sutileza e a transmutação é que o órgão vivo também é o próprio poema. Em O gourmet momentâneo, versos de Margaret Atwood estão em papel amassado, no meio de uma aula, “passados em mão em mão como se fosse o órgão vivo”. O ciclo se completa: a poesia, qual um contrabando no mundo oficial, a um só tempo evidencia o cotidiano e se torna outra coisa, reinventando-o.

Outras referências a autores aparecem quase página a página. Poderíamos chamar de intertextualidade, se nesse O Exercício o tema da saudade e da ausência não aparecesse com tanta frequência. Como muitos versos parecem conversas com pessoas ausentes, o uso do contato com outros autores parece também um bate-papo com uma gente que não está ali, ou seja, gente como Quintana e Bandeira seriam conhecidos íntimos que deixam saudades como os amados e os amigos da vida do eu-lírico. O cotidiano na poesia de Kátia Borges assume assim o diálogo permanente com pessoas invisíveis, e o seu olhar as traz para a presença, as coloca ao lado da pedra na praia. Odisseia mostra:

 

Já não espero teu regresso
enquanto teço – a beleza
servirá para os que chegam
ainda que inalcançável
aos que retornam.

Há certa Ítaca intangível
em meu peito
que não se demora.

Um segundo e verte-se
vórtice inatingível
em Itaparica – e na dura
pedra fria dos dias deposita
seus destroços.

 

Há uma tendência ao imaterial, ao universal – uma “certa Ítaca intangível” -, mas que logo se verte e se toma pela realidade mais imediata, ainda que pior, fria e destroçada. É uma decisão de conduta que faz desta distração não uma fuga, um alheamento, um devaneio para sair do mundo tal como é, e sim o aproveitamento das brechas das coisas para trazer o “inatingível” para cá, do céu das ideias para as águas do tempo e das águas para o solo da vida vivida. Se na primeira grande sequência de poemas podemos sentir às vezes ainda o peso do Intangível, e algumas oscilações em Cais e A dor fantasma com desejos contraditórios por um mundo que não está aqui, a partir de Alegria Alegria a poesia de Kátia escolhe a vontade de enxergar ao redor (com a ironia, claro, de “perder os óculos na bolsa” e só encontrá-los nos “cabelos”).

A partir do verso “Nada no bolso ou nas mãos” – que foi um desprendimento para Caetano Veloso em relação aos deveres de sua época, já uma citação d’As Palavras, de Sartre, no qual o filósofo se entende liberado de sua neurose burguesa enquanto busca de ser um homem de exceção -, Kátia se descontrai. Seus versos ficam mais cheios de coisas, justo porque é preciso perdê-las. “Imersa, sigo firme/no exercício que me atrela/a este ofício: perder coisas”. Para perder é preciso estar em permanente contato, sentir, pegar, observar, escolher. É a partir daí que seu olhar pelo cotidiano assume o seu ponto mais alto, e longe da banalidade ou do excesso de idealismo, alcança o meio.

Se o poema Odisseia condensa o primeiro movimento do livro, o singelo Pragmatismo poderia representar o segundo. “Tenho me ocupado com coisas práticas./Se há água ou não há água no pote do cachorro”. Ao descrever acontecimentos de um dia, com o cão cego, as pistas de skate no Jardim dos Namorados, sente-se a vida ali, e o que poderia ser a burocracia do dia-a-dia é, com uma disposição de espírito maior, a própria vida. Os versos finais trazem o segredo e quase pedem a cumplicidade do leitor: “Às vezes penso que seria bom ter um cágado,/daqueles que se escondem durante anos debaixo dos móveis,/de modo que fosse sempre necessário procurá-lo”. Como no poema Infância de Drummond, a própria história se torna mais bonita que a de Robinson Crusoé.

A terceira parte de O Exercício da Distração traz um título autoexplicativo: As Pequenas Vilanias da Cidade. É quando o cotidiano público, visível nas calçadas, marquises e praças, é feito de tristezas e brutalidades. Na lida diária da cidade, a rotina é forte, as ruas não perdoam, a noite por vezes é indigesta. O eu-lírico, que poderia se distanciar das cenas como um mero olhar externo, poetiza uma relação imbricada com o que vê, e faz de seu sentimento o sentimento da cidade, e vice-versa, a exemplo de “A Praça da Piedade”.  Um blues da piedade? Seus poemas tornam-se mais próximos ao rock, letra, música e referência, como já é uma marca em outros livros, Balada de Janis (P55, 2010), Ticket Zen (Escrituras, 2011) e São Selvagem (P55, 2014). Se nos livros anteriores já estavam o rock’n’blues, o I ching, a proteção de Arcanjo Miguel e “o preço do feijão”, em O Exercício de Distração os poemas ganham ainda mais em precisão, visão de mundo e imagem.

Em The End, poema final do livro, tal qual na música de mesmo título dos Beatles no Abbey Road, o livro compreende seu caminho e seu sentido de distração:

 

essa vida que sabemos sem lugar,
posto que o coração não se publica
nos murais, é ócio diluindo o sangue,
manchetes sem fundo
de verdade, qualquer distração
que agrade a audiência.
Sobre o tempo, não sou dessas.
Quando desço a Contorno,
a beleza me golpeia feito o vento.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.