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123ª Leva - 01/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

As variantes do conto

Por Daniel Russell Ribas

 

 

O livro de estreia do autor César Manzolillo, Angústia e outros presságios funestos (Gramma Editora, 2017), possui as marcas de uma obra iniciante. Sem esconder suas referências literárias, também demonstra uma visão própria para as mesmas. Como em projeto “Mix Lit”, que promove a construção de um novo texto através dos trechos previamente conhecidos, Manzolillo relembra seus ídolos em luz própria. No caso, sua interpretação se sustenta acima dos gigantes em que se apoia.

O estilo breve, quase telegráfico de alguns contos, remete a Rubem Fonseca. Contos como “Cibele”, “Gabriel” e “Gilmar”, inclusive, referenciam imediatamente o universo de submundo e violência exposto no seminal “Feliz ano novo”. Entretanto, são exceções na maneira como o autor se apropria de sua fonte. Se a secura de Fonseca servia a um propósito realista e de choque, Manzolillo reutiliza esta artimanha como uma forma de conduzir o leitor às entrelinhas das narrativas. Ele insinua, no lugar de situar seu receptor. No caso, ele opta por uma desconstrução. Quando mimetiza na superfície o mestre, abre o espaço para a análise de seu uso. Manzolillo, então, oferece uma interpretação labiríntica, em que o narrador descreve uma cena que não se apresenta como uma saída, mas uma nova passagem para a compreensão íntima de seu leitor. O leitor é provocado a criar sua versão, como um novo escritor. O autor mostra as ferramentas e oferece as reticências entre as frases.

Estruturado em relatos breves, todos em 22 linhas, com os nomes de personagens como títulos, há um instigante experimento sobre a função da informação. O fato de não se tratar de contos fechados é a isca para que o ato da criação seja a força motriz. Mais do que a psicologia e o cenário, é a interpretação dos elementos o protagonista frequente do livro. A falta de localização dos atores neste palco, cujas escolhas e vidas são questionadas em múltiplas vozes, forma uma colcha opaca. O resultado é irregular, mas segura o interesse.

Os contos variam em gênero e alcance. Enquanto alguns são simples em sua estrutura, outros arriscam em uma miscelânea de vozes cujo atrativo é o impacto. Como em Dalton Trevisan, outro grandioso a que o livro presta homenagem, não é necessariamente o ato final o ápice dramático. A virada pode surgir logo na metade, um efeito que mexe em toda a compreensão do resto da história. O conto “Bianca” é um ótimo exemplo. A princípio um texto inofensivo, torna-se voraz após uma frase específica inserida em meio às cartas que a protagonista recebe. É um ótimo exemplo de como o minimalismo pode abrir o portal para uma nova visão sobre as ações de seu personagem. O que Bianca fez?, o leitor pode se perguntar.

Já em contos como “Arnaldo” e “Rita”, as narrativas são diretas, cujo propósito é o punch line. Embora sejam seguros, funcionam dentro do corpo da obra. O livro forma um padrão em que estes contos funcionam como alicerces, ou “respiros”, para mergulhos mais expressivos na metalinguagem. Manzolillo os intercala, de modo que a leitura de cada unidade passa ligada a uma anterior, mas com um todo que busca a surpresa do leitor. O autor é bem-sucedido neste aspecto, pois não é fácil adivinhar o que virá em seguida. A sensação de “caos organizado” carrega uma vitalidade que sustenta o espetáculo. Mesmo em contos que não alcançam seu potencial, como “Saulo” e “Clara”, há uma indagação preciosa para manter o interesse. A construção, o caminho, vale mais do que a jornada. Se em textos como esses a proposta torna-se mais óbvia, é quando se arrisca na seletividade de informações que funciona a contento. Matérias crípticas, como “Helena” e “Bartolomeu”, mostram que os personagens são o que menos importa na tapeçaria. São meios para um fim.

A que se destina, então, Angústia e outros presságios funestos? Com seus altos e baixos, é um inteligente exercício sobre escrita iniciante. Não ironicamente, diversos textos lidam com escritores em começo de carreira. Ao mesmo tempo que mostra uma voz ainda presa a seus ídolos, o efeito final é de uma reconstrução, jamais imitação. Há uma relevante questão que permeia o livro: o que torna um material único: originalidade ou uma maneira como nos debruçamos sobre o passado? Como encaramos o que se passou, expandimos nossa visão de mundo e acrescentamos ao jogo da literatura uma possibilidade refrescante. Nossos mestres não precisam ficar presos numa cápsula. Podemos resgatá-los com uma voz nova. A angústia da desconstrução é o que surge no livro de César Manzolillo, cujo presságio e a apreciação literária formam a cumplicidade criativa entre autor e leitor. Se nada é o que parece, cabe ao próximo elemento na cadeia completar os espaços em branco.

 

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo literário Clube da Leitura, no Rio de Janeiro. Escreve crônicas quinzenais no site RUBEM. Organizou e participou de diversas coletâneas de contos. Ganhou o Prêmio Argos pela edição de “Monstros Gigantes – Kaiju”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez.

 

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122ª Leva - 07/2017 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Trama (L’Atelier). França. 2017.

 

 

L’Atelier, filme de Laurent Cantet, chegou aos cinemas brasileiros como A Trama. O título do filme em português não trai o motivo da história, mas introduz certo deslizamento semântico que torna o filme ainda mais interessante.

O atelier, no caso, é uma oficina de escrita. A escritora de romances policiais Olivia (vivida por Marina Foïs) ministra a oficina para uma turma de jovens “problemáticos”, periféricos ou marginalizados. O objetivo da oficina é a escrita coletiva de um romance policial pelos alunos. A atividade tem um fim de integração social e os alunos ganham uma bolsa pela participação. Eles são franceses de famílias de ascendência africana ou árabe. Mas há dois franceses tradicionais, brancos, e um deles é Antoine (vivido por Matthieu Lucci), que se sobressai como o outro protagonista do roteiro.

A reunião do grupo fornece um microcosmo das tensões sociais que afetam a sociedade francesa, em particular os jovens. A história do filme acontece após o assassinato em massa ocorrido na boate Bataclan em novembro de 2015. As tensões aparecem entre os jovens e entre eles e a professora, que é uma mulher branca, de cerca de 50 anos e bem sucedida como escritora. Ela ministra a oficina com idealismo, acreditando não apenas conduzir o grupo para uma boa realização de sua tarefa (o romance que será publicado), mas também que esta oficina ajudará os jovens em sua inserção na sociedade e na difusão do interesse pela literatura.

 

Foto: divulgação

 

Laurent Cantet é o diretor do aclamado Entre os Muros (2008), ganhador da Palma de Ouro em Cannes e do excelente Em Direção ao sul (2005), entre outros filmes. A Trama tem uma estrutura de roteiro que se assemelha a Entre os Muros. Mistura habilmente as esferas da realidade e da ficção. Sobretudo, em ambos os filmes há um conflito etário e social entre jovens e uma personagem de mais idade, numa posição de autoridade e conhecimento. No filme de 2008, há um confronto aberto entre os alunos e o professor que desfaz as relações de hierarquia dentro do aparelho escolar.

No filme mais recente, Olivia é uma escritora mais experiente, mas a literatura não é um aparelho de hierarquias rígidas.  A literatura é justamente o tipo de atividade que desestabiliza as hierarquias sociais porque embaralha as pontas entre a ficção, que é a técnica de construir um mundo imaginário, e a realidade, que não é outra coisa senão aquilo que contamos sobre ela. A questão é que aprendemos na literatura que ficção e realidade não se opõem, mas são complementares, que não há realidade que não seja também ficcionalmente elaborada.

Daí porque o título de A Trama faz um comentário a esse imbricamento entre realidade e ficção. É verdade que se fosse apenas por isso não teria alguma novidade no filme de Cantet, pois a confusão entre literatura e realidade é trabalhada em muitos outros filmes como, por exemplo, o filme Dans la maison, de seu compatriota François Ozon. No filme de Laurent Cantet, esse imbricamento tem uma conotação política e sexual.

No início do filme, pode parecer estranha a razão pela qual o roteiro escolhe a personagem de Antoine para seu foco narrativo. Entre jovens multiculturais é justamente o mais francês entre eles que protagoniza o enredo. A razão dessa escolha torna-se mais clara aos poucos: descobrimos que o jovem Antoine está para se envolver com grupos da extrema-direita francesa. Junto com seu primo e amigos, Antoine frequenta as reuniões de um líder extremista que prega a França para franceses, o ódio aos migrantes, o direito ao porte de armas. No entanto, Antoine não vê esse movimento como político, mas como um tipo de diversão. Ele acompanha apenas seus amigos aos encontros e a passeios onde brincam com armas. Durante as reuniões da oficina, ele é aquele que rejeita qualquer filiação do argumento do roteiro que está sendo construído coletivamente a uma motivação política como querem alguns dos outros jovens. A localidade onde o filme se passa, La Ciotat, é uma zona portuária que abrigou no passado muitos movimentos grevistas. Familiares de alguns desses jovens fizeram parte desses movimentos grevistas.

 

Foto: divulgação

 

No fundo está a questão do terrorismo, pois o assassinato em massa da boate Bataclan ou o atentado em Nice e a onda islamofóbica que invade a França estão muito presentes para os jovens e alguns deles sofrem na pele as consequências. Antoine expõe sua tese: a motivação política ou religiosa dos atentados é mero pretexto e deve ser posta em dúvida. Esses motivos apresentados pelas mídias não passam de narrativas ficcionais a seu jeito. O que realmente leva os jovens a matar é puramente o desejo de sentir a experiência do assassinato e da morte. Ele apresenta um trecho ficcional de seu próprio punho para o roteiro que escrevem. Nesse texto, apresenta a cena de um assassinato com os detalhes sádicos de realismo, o que provoca a repulsa nos demais jovens do grupo. Para Antoine, no entanto, não ser possível estabelecer uma causalidade política ou religiosa para os assassinatos acaba servindo muito mais à causa dos imigrantes, pois tiraria deles o peso da responsabilidade. Na verdade, apenas o desejo de matar dos jovens do Bataclan explica o assassinato e não o fanatismo religioso ou mesmo a filiação a movimentos extremistas islâmicos.

O que supostamente Antoine defende é não apenas a despolitização do romance (e da literatura), bem como da própria política. É como se ele encarnasse literariamente o absurdo do Estrangeiro de Albert Camus: para matar não há necessidade de nenhum argumento. De fato, assim como o personagem de Camus, Antoine vive uma vida de absoluto vazio existencial e tédio. Ainda próximo da adolescência, ele é um caráter que está à espera de seu destino, como uma página em branco.

Laurent Cantet, através da personagem de Antoine, está discutindo o apelo crescente da extrema-direita entre os jovens franceses. Curiosamente, esses jovens fazendo política não acreditam que são políticos. No grupo da oficina, Antoine está sempre contestando seus colegas de um ponto de vista que se quer neutro ou não engajado e desse suposto não engajamento vem parte de sua força argumentativa. O problema é que tal não engajamento não consegue se sustentar. Olivia, que estuda esses círculos de extrema-direita para seu próximo livro, observa que Antoine é sempre “do contra”, procura a cada momento o conflito com os colegas. Ela se aproxima dele para tentar talvez ajudá-lo, ou por causa de um fascínio erótico pelo rapaz mais jovem.  E é aí que aflora no roteiro uma tensão de fundo sexual não resolvida entre a escritora de meia idade e o jovem pós-adolescente.

 

Foto: divulgação

 

Tensão libidinal que é vivida pelo jovem principalmente como um grande incômodo. Pois ela penetra sub-repticiamente além de toda vontade, consciência ou determinação contrária. Isso acaba por atingir sua suposta neutralidade ou individualismo exacerbado. Mas não há neutralidade e sim um alheamento. E a libido fala de uma ligação afetiva mais primordial e inescapável em relação ao outro. Impossível não sermos afetados pela presença física e corporal dos outros. A oficina de escrita mostra que literatura não é só a arte de contar histórias, mas de colocar em perspectiva as diferentes visões de mundo. E o ateliê é o centro mesmo de onde essas perspectivas e suas tramas se encontram. E a partir daí acontece o que é comum a todas as tramas, que é se enredar. A Trama é assim um filme sobre as redes que a imaginação traça para agarrar a realidade e, justamente, o filme fala de um cargueiro que se desprendeu de amarras e avançou sobre a cidade num grande desastre. É para não se perder num “sentimento oceânico” freudiano de morte e aniquilamento que Antoine entrou para a oficina, apesar de seu suposto alheamento. Algo que faz todo sentido numa cidade portuária em que até os grandes cargueiros podem navegar desgovernados.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

 

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122ª Leva - 07/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

Contos que traduzem a conflitante realidade do povo negro brasileiro

Por Geraldo Lima

 

 

Cristiane Sobral [poeta, escritora, atriz, diretora e professora de teatro, nascida no Rio de Janeiro e radicada em Brasília] é uma das vozes mais contundentes da literatura negra brasileira. E, ao falar de literatura negra, falo do texto literário (poesia ou prosa) que, segundo Zilá Bernd, no seu livro Introdução à literatura negra (Editora Brasiliense, 1988, pág. 95), “configura-se como uma forma privilegiada de autoconhecimento e de reconstrução de uma imagem positiva do negro”. É, também, literatura que tem o compromisso de denunciar a discriminação racial e o quadro de exclusão em que vive a maior parte da população negra no Brasil. É, em suma, uma literatura que se propõe como militante, engajada, com todos os riscos que isso acarreta. E é assim nos dezoito contos que compõem o livro O tapete voador (Editora Malê, 2016), de Cristiane Sobral.

Nesse seu livro, Cristiane Sobral nos dá mostra de como esse tipo de narrativa se propõe como objeto estético e, ao mesmo tempo, como instrumento de conscientização do indivíduo negro sobre a importância de assumir a sua verdadeira identidade racial e cultural. O confronto, aí, é contra a ideologia do embranquecimento. A estratégia, nesse caso, é tomar uma situação cotidiana que exponha o problema da discriminação racial ou do conflito identitário do negro brasileiro, de modo objetivo, quase didático, de maneira que o leitor saia da leitura do texto com sua consciência mudada, ou, na linha do que alguns dos contos de O tapete voador sugerem, renasça com nova identidade cultural ou resista sem abrir mão das suas convicções raciais.

De imediato, ficamos tentados a ver nesse tipo de procedimento literário um defeito ou uma pobreza estética, ao qual faltaria sutileza na construção da narrativa e na representação psicológica das personagens. Sobre isso, nos alerta Zilá Bernd (ibid., pág. 98): “Assim, em literatura negra, a questão de avaliação do nível estético atingido não deve se pôr como elemento exclusivo de análise, ou como preocupação única da crítica. Jack Corzani, autor da importante obra La Littérature des Antilles-Guyane Françaises (1978), (…) recoloca o problema de privilegiar o estético no estudo de obras que se querem essencialmente funcionais, concluindo que esse critério corresponderia a condenar a pesquisa, a priori, à esterilidade”. Assim, devemos ver, em primeiro plano, o caráter de funcionalidade desse tipo de procedimento narrativo para explicitar, no caso, os problemas raciais e sociais que afetam o negro brasileiro.

E é de modo consciente e corajoso que Cristiane se equilibra entre estes dois polos (o estético e o ideológico) na construção dos dezoito contos que compõem esse seu livro. A sua habilidade na construção da narrativa que privilegia o elemento estético e a fabulação fica visível no conto Bife com batatas fritas. Nesse conto, a questão estética e a temática social são bem articuladas, de modo que o leitor não tem como não se comover com o quadro de miséria e orfandade de uma criança de periferia. Esse é, aliás, um dos melhores contos do volume e poderia figurar em qualquer antologia dos melhores contos brasileiros. No conto O limpador de janelas, o que chama a atenção é o modo como a narrativa se constrói a partir de frases muito curtas, fragmentadas, o que torna o ritmo acelerado e surpreendente, dando conta das várias peripécias amorosas do protagonista.  Ao final, o personagem Samuel, um quase pícaro, um “pegador” nato, verá que a sua condição de negro em terras tupiniquins vai sempre lhe reservar surpresas desagradáveis. Por falar em final, é de se observar que há, propositalmente, um elevado tom de idealização em alguns casos, beirando o inverossímil, como o que acontece no conto Metamorfose, em que tudo acaba exageradamente bem.

Ainda que predomine o realismo, algumas histórias flertam com o fantástico, como nos contos O galo preto e A samambaia.  O tom de sarcasmo, de deboche e de ironia molda algumas dessas narrativas, tornando ainda mais agudo e crítico o olhar da autora sobre os episódios de discriminação racial e de negação da própria negritude, como é o caso dos contos Lélio e Afrodisíaco (neste, ironiza-se o propalado vigor sexual dos negros). Ora narradas em terceira pessoa, ora em primeira – nesse caso, majoritariamente narradas por mulheres –, as histórias compõem um painel de situações variadas em que o indivíduo negro se vê frente a frente com a questão do preconceito racial, da miséria ou da crise de identidade. A subjetividade feminina é também ponto de destaque nessas histórias de enfrentamento e reconstrução da imagem, como nos contos Vox mulher, em que a protagonista expressa, numa linguagem marcadamente poética e intensa, seus desejos e seu orgulho de ser mulher negra, e Pixaim, no qual uma mulher rememora, de modo comovente, sua infância passada no Rio de Janeiro e marcada pelo sofrimento de se ver obrigada a mudar sua imagem, com o alisamento desastroso do cabelo, e reafirma, já residindo em Brasília, seu orgulho e sua alegria de se ver no espelho como ela realmente é: uma mulher negra e madura. “A gente só pode ser aquilo que é”, afirma ao final, num claro recado aos que procuram negar a sua origem.

Nem sempre os personagens são pessoas que negam a sua negritude. Algumas, pelo contrário, assumem a sua ancestralidade e suas características negras e as defendem com convicção. Tomemos, como exemplo, o conto O tapete voador, que abre o volume, e o conto Renascença, que o fecha. No primeiro conto, narrado em terceira pessoa, a personagem Bárbara, de origem humilde e orgulhosa da sua cor, é funcionária de uma grande empresa e tem o reconhecimento pelo seu trabalho. No momento, ela pretende se aperfeiçoar mais ainda e pede o apoio da empresa para fazer uma pós-graduação. Mas qual não será o seu espanto e a sua decepção ao ser levada à presença do presidente, que deve autorizar esse apoio, e encontrar lá, no posto mais alto, um homem negro? A decepção ficará por conta do que ele, partindo da sua estratégia de ascensão profissional e social, vai lhe aconselhar a fazer em relação à sua aparência. No segundo conto, também narrado em terceira pessoa, encontramos a personagem Teresa prestes a romper com a sua orientação religiosa. Negra, charmosa e orgulhosa da sua cor, sente-se preterida pelos homens negros da igreja evangélica que ela frequenta. “Teresa gostava muito da sua igreja, mas seu corpo negro também sentia naquele ambiente o peso do preconceito, da discriminação. Isso gerava muitos questionamentos. Por que não despertava o interesse dos rapazes da congregação? (…) O fato é que, naquela comunidade, os homens negros normalmente costumavam casar com mulheres brancas…” O fato de ser independente e ter um estilo próprio (“não alisava os cabelos”), chocava os outros fiéis, e sempre era aconselhada a mudar a sua aparência. Assim como Bárbara, só lhe resta resistir e ir em busca de um convívio em que seja valorizada sem precisar negar a sua identidade racial.

Num país em que a representatividade da população negra é baixíssima nos meios literários, nos quais circulam com maior desenvoltura as obras dos autores brancos e das autoras brancas, é de se celebrar o trabalho de escritores e escritoras como Cristiane Sobral, que dão voz e vez em suas narrativas e poemas à nossa gente tão excluída.

 

Geraldo Lima é natural de Planaltina-GO e reside em Brasília, DF. É escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, “Baque” (conto, LGE Editora), “UM” (romance, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco), “Trinta gatos e um cão envenenado” (teatro, Ponteio Edições) e “Uma mulher à beira do caminho” (Editora Patuá). Participou de algumas antologias literárias e tem textos publicados em jornais, suplementos literários, revistas impressas e revistas eletrônicas, sites e blogs. É autor do roteiro do longa de ficção “O colar de Coralina” – direção de Reginaldo Gontijo – e da peça de teatro “Trinta gatos e um cão envenenado”, encenada em 2016 em Brasília. E-mail: gera.lima@brturbo.com.br

 

 

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121ª Leva - 06/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Cidinha da Silva e a crônica como ato de nomear

Por Saulo Dourado

 

 

Números sobre a mortalidade negra no Brasil estão à disposição para quem quiser buscar e se inteirar. Gráficos, porcentagens, tabelas comparativas, que mostram o mapeamento de homicídios, um dos mais graves do mundo. Dos 30 mil jovens assassinados em 2012, 77% são pretos ou pardos, diz a Anistia Internacional. A CPI do Senado de 2016 conta que, a cada 23 minutos, um homicídio de mesma ordem acontece no país, e não há sinais de diminuição. Nas chacinas, autoridades discutem quantos foram os massacrados afinal, com 1 ou 2 a mais ou menos, como um placar.

O livro #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016), de Cidinha da Silva, traz os dados e as evidências das mortes físicas e simbólicas de toda uma população, mas os ultrapassa: dá forma e nome aos números. Afinal, com valores absolutos se consegue convencer a razão daquilo que deve importar, mas não o afeto. Quanto mais se banaliza em ofício e em notícias um acontecimento, menos o sentimos, e disso é preciso curar-se. Como antídoto, devemos entrar no particular e no miúdo para que fatos se conectem de novo às tripas e às mãos, para o sentimento e para o rebote.

A crônica tem um papel fundamental, o de tornar especial uma pessoa e um acontecimento a ponto de formar o elo de sentimento entre o particular e o todo. Eis o gênero literário que Cidinha da Silva conduz com ritmo e amplidão, e o mote que ela alcança. Seus textos dão nome, corpo e presença: Maria Julia Coutinho, Sueli Carneiro, Taís Araújo, Lázaro Ramos, Mirian França, Antônio Pompêo, Luiza Bairros, Aranha, Claudia da Silva Ferreira, Livia Nathália, Liniker… Em uma crônica sobre a postagem de Fernanda Lima que elogia as empregadas domésticas como “batalhadoras”, há uma pergunta pontual da autora: “E por que não pôs os nomes dessas mulheres?” Por que seriam anônimas batalhadoras, e mais uma vez todo um povo ser uma massa anônima? Esta reivindicação percorre o livro: a de tirar a mortalha da despersonificação, causa e efeito do prosseguimento de um genocídio.

Ao contrário da Odisseia de Homero, em que o herói Ulisses se salva de Ciclopes ao se chamar Ninguém, na realidade brutal e de negligência institucionalizada as quais vivem o povo brasileiro, aquele que for Ninguém, pelo contrário, é o alvo fácil. Não se trata de cada um ascender e se tornar Alguém para salvar-se; trata-se de narrarmos e escutar as narrativas dos nomes, como um princípio, para que o Alguém seja por princípio dignidade, e não camadas de ocultação e cinismo, como é no Brasil. “É preciso ir mais fundo”, diz Cidinha em Desde dentro, “É preciso ouvir a estas e a milhões de famílias desde dentro, desde antes das tragédias anunciadas (…) É preciso olhar com os olhos de ver e ouvir com ouvidos de escuta. Desde dentro.”

Os assuntos de #Parem de nos matar! são tantas vezes críticas ao lugar da banalidade das informações: as mídias em geral. A princípio, pode-se questionar: se há tantos casos cruéis contra a juventude preta, guerra civil entre policiais e narcotráfico, por que dedicar três crônicas a Maju do Jornal Nacional, programa de uma emissora eminentemente chapa branca? Está diretamente ligado, pois é preciso assistir e cobrar no palco dos afetos, em filmes, partidas de futebol, novelas, palestras, ministérios, àqueles com os quais a comoção, a admiração, os desejos se tornem vistas e refletidas. Eu preciso ver aquele que me faz sentir: eu preciso sentir candura ou raiva, ternura ou desprezo sem elos específicos de corpo e de pele.  Tudo aquilo que dirige os afetos a tornar um massacre um fato menos sensível é cúmplice de seus acontecimentos.

Sem o sentimento, é muito mais fácil esquecer-se e deixar acontecer. Eu particularmente fico contente por este livro ter-me feito passar irritações, náuseas, estranhezas, comoções, raivas e risos, ter-me deixado baqueado em uma tarde de domingo. Quer dizer que há energia de movimento pelas páginas e que passam por mim. Porque sentir é dar força, é vigor de natureza, e nessa dança não há sentimento ruim ou bom, há aquela que provoca o movimento de dentro para fora, a vontade de ser para além de si. Há métodos de ação? Provoca-se a consciência como as crônicas à Carolina Dieckmann e à Patrícia Moreira, ou por marchas, rolezinhos e protestos, ou por dentro das estruturas para refazê-las, como a política em Luiza Bairros, ou a música de Ellen e o humor de Chris Rock na abertura do Oscar. Ou tudo junto, nisto como em tudo que envolvam coletividades e mudanças.

São vários os subtemas dentro de um grande tema, em circunstâncias diversas. O cronista também é um rebatedor: a realidade se lança plural e inverossímil, e a crônica a devolve menos bruta, talvez mais brutal, tangida por olhar e saliva. O cronista cria veículos de sensações e também organiza e interliga acontecimentos, dá linhas de pensamentos. #Parem de nos matar!, então, enquanto uma compilação de dezenas de textos, está sob o desafio de traçar algum caminho, de ligar uma ideia à outra, e ganhar unidade. Consegue. A princípio, pensei que fosse uma ordem cronológica dos acontecimentos, depois vi que era por temas, e talvez sejam os dois movimentos se costurando. Misturou-se a tal ponto que um texto mais denso, como “Tempo Novo!”, que vai do racismo no futebol ao golpe parlamentar de 2016, seja coeso com o belo “Matias e o Boneco de Star Wars”.

Assim, me deixo levar totalmente por uma crônica como “Obituário de uma lembrança”, com a qual me reconheço nas palavras de conselho feitas da autora ao amigo anos antes, e aqui a recorto:

És a primeira pessoa de meu círculo próximo de convivência assassinada e quero que seja a última. Não sei lidar com isso e não quero aprender. Sou fraca e insignificante. Não tenho a força da poeta que declara firme: Dos nove homens de minha família assassinados, sete foram mortos pela polícia…

Cada um dos que se vai nesse massacre é a primeira de algum círculo, é sentido com uma força que não acreditaríamos se apenas o subtraímos ou o somamos. Do contrário, se não conseguimos religar as dores aos sentidos, o que senão as palavras para fazerem a força de ligação? As crônicas, lumiares das pequenezas, indo do cada um para o todo, e do todo para cada um, formam. O livro de Cidinha da Silva reúne.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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120ª Leva - 05/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Das profundanças

Por Geraldo Lavigne de Lemos

 

 

Há livros que são decisivos para a interpretação de um tempo. Registram fatos. Abordam temas. Promovem o diálogo. Fazem as pessoas avançarem, evoluírem. Alguns desses livros são constituídos de entranhas. São matéria viva, pulsante. São palavras vindas das profundanças. E tal conteúdo adere ao corpo do leitor. Quem o lê, ressignifica o mundo e o que nele existe. Antes, ressignifica-se.

Profundanças 2 reúne 16 escritoras: Aidil Araújo Lima, Ana Mendes, Andréa Mascarenhas, Daniela Galdino, Dayane Rocha, Débora Ramos, Erika Cotrim, Haísa Lima, JeisiEkê de Lundu, Laiz Carvalho, Larissa Pereira, Lílian Almeida, Mel Andrade, Miriam Alves, Rita Santana e Thalita Peixe de Medeiros. Não cabe a mim falar sobre cada uma delas, pois sendo uma, elas são todas, e sendo todas, elas são uma. O que eu poderia dizer sobre uma que não coubesse a outra? Incapaz de distingui-las dentro do discurso uno que o livro traz, e que assim foi feito para assumir a voz de cada mulher, coube-me expor o livro que não inaugura eventos sobre suas vidas – posto que está carregado da luta para livrarem-se de uma condição imposta –, mas assume uma voz antes inaudita, pois era calada.

Daniela Galdino organizou a antologia, que é literária e fotográfica. Ela também foi responsável pela apresentação e expõe sem meias-verdades o que precisa ser dito. A cada frase, o eco de quem hasteia uma bandeira com todos os brasões. O trecho de Conceição Evaristo que serve de epígrafe fala sobre o livro, colhido no céu da imaginação, repartido em folhas dadas às autoras e fotógrafes – como grafado no livro –, e, depois, aos leitores, antes que o sonho perca o penetrante toque da arte pura. Profundanças 2 ressalta a trajetória da mulher pelos caminhos da resiliência. Diz claramente que há um gene comum entre Frida Kahlo e elas, seja biológico ou não, e a sociedade insistentemente fracassa em desativá-lo.

Se uns textos tiram a mulher do sofrimento cotidiano e passam-lhes bálsamo nas feridas, outros são reações enérgicas contra as injustiças que lhe são imputadas. O leitor encontrará o depoimento de todas elas. E preste atenção: eu não disse confissão, segredo, desabafo… eu disse depoimento. Em alguns casos, sentirá o vento frio do inverno sobre o corpo nu; em outros, o sopro abafado do verão no areal. A própria voz é a principal ferramenta adotada pelas autoras, que, sabendo-se parte de um todo, dialogam de mãos dadas com as mulheres e olhos nos olhos com a sociedade. Quando alguma autora assume outra voz, retoma, em verdade, aquele gene comum citado acima, de forma que fala também sobre si. No entanto, não cala a outra voz. Serve, sim, de canal, para que todas sejam ouvidas. Elas são voz e porta-voz.

O leitor, por outro lado, conforme se apresente, terá orvalho ou geada, mas ambos resultantes da noite que elas atravessaram. A leitura poderá incomodar o leitor, se a mordaça estiver em suas mãos. Digo, porém, que o leitor de mãos livres sentirá confiança, se partilhar dos sinais que o livro aponta. Não vou falar ainda em felicidade e justiça, porque são dois estados a serem alcançados quando não houver mais obstáculos causando sombras e penumbras.

Tem-se prosa e verso. Na prosa, vemos regras clássicas e novas aplicações gramaticais. No verso, há os livres, os rimados, os metrificados, e as formas preestabelecidas, como o soneto. Em todo caso, há precisão. A linguagem dos textos é moderna e, embora às vezes pareça truncada, traduz o discurso interrompido pela sociedade e terminado pelas mulheres, porque elas são fortes. A inovação da literatura está presente no livro como está presente nas frestas de luz que os textos permitem ver. A novidade literária surge no desdobramento da própria reinvenção existencial das autoras, que sem perder a identidade e a meta, conseguem construir caminhos em qualquer ambiente.

A leitura flui muito bem, sempre alerta e renovada. Quando os temas são pontuais, a autora vai bem fundo, sem perder o fôlego. Quando os temas são mais abrangentes, a visão amplia sobre uma extensa superfície, até que o ponto nevrálgico seja atingido de uma forma contundente. O leitor permanece desperto a cada página, enquanto o cotidiano passa cru e objetivamente.

Umas das qualidades que se procura na literatura é a condição imagética, capaz de conduzir o leitor por cenários diversos a partir dos enredos. Os textos têm tal condição trabalhada com primor. E vão além. Em Profundanças 2 há uma via de mão dupla com a iconografia, pois as autoras foram registradas em ensaios por 19 fotógrafes, que foram, na respectiva ordem de apresentação das autoras, Camila Camila e Letícia Ribeiro, Josi Oliveira, Henrique Valença, Ana Lee, Cláudio Gomes, Andrezza Tavares, Haísa Lima, Catarina Barbosa, Lanmi Tripoli, Mariana Lisboa e João Caique, Adrian Greyce e Rodrigo Iris, Inajara Diz, Brenda Matos, João Santana, Shai Andrade, e Ytallo Barreto. Cada autora ainda recebeu uma ilustração de Bruna Risério. As fotos e ilustrações são figuras poéticas que acompanham os textos das autoras e trazem mensagens agora capazes de conduzir o observador por enredos a partir das imagens. É a inversão da arte que se espera em uma antologia literária; a transmudação para uma antologia fotográfica. A perspectiva muda. Contudo, leitor, lá estão os mesmos sinais.

Os ensaios e as ilustrações avançam sobre a descrição biográfica das autoras que, tendo deixado detalhes nas entrelinhas das poesias, deixam também nas entrecores e entreposes das figuras. Fotógrafes e a ilustradora conseguem traduzir em imagens as autoras, aproximando-as ao leitor. Um trabalho exitoso, que dá continuidade ao conteúdo, sem sabermos qual antecede qual, porque literatura e iconografia se combinam em busca de traduzir sentidos e sentimentos. Resolve-se, por ora, o impasse entre a palavra imagética e a figura que vale mais que mil palavras. O objetivo é trazer à tona aquilo que por muito tempo foi depositado no fundo.

Se o primeiro volume de Profundanças criou um neologismo, o segundo volume fixa definitivamente o verbete no vocabulário brasileiro, significando aquilo que vem do íntimo, que é da sensibilidade humana e se expõe de forma transparente. Diga-se mais. O livro não se encerra no conteúdo literário e iconográfico. Há, ainda, uma valorosa equipe de produção que permitiu tamanha qualidade. Isto porque a intenção não se resume a publicar o livro. É trazer o tema à baila, discuti-lo repetidamente até que se afastem as grades da imposição.

 

 

* Para baixar Profundanças 2, clique aqui

 

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta. Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem publicações em jornais, revistas, blogues e antologias. Desenvolve os poemas furta-cores desde 2014. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus (2017). Mantém o instagram @geralavigne.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Dividir-se para multiplicar: uma leitura de “Desinteiro”, livro de poemas de Guelwaar Adún

Por Alex Simões

 

“É colocando a violência do signo poético no interior da ameaça de violação política que podemos compreender os poderes da linguagem” (Homi Babha, O Local da Cultura, p. 97)*

 

 

 

O que pode ser um livro de poesia? Uma arrumação de poemas temporariamente suspensos no tempo, espacialmente dispostos num livro, ou unidade de sentido mediante o esforço de um artista que o assina e o pensa e o executa como projeto? Desinteiro, livro de estreia do experiente poeta-editor Guellwaar Adún, publicado em 2016 pela Ogum’s Toques, é um projeto desconcertante e consistente, um livro cuidadosamente pensado e executado para abalar a cena literária brasileira. Um livro de 164 páginas, dividido em quatro partes (Corda Retesada para Tiro, o Arco Armado, A Flecha, O Alvo), conta com capa belíssima de Dadá Jaques, ilustração de Raimundo Santos Bida e projeto gráfico do poeta que assina a obra.

Em Desinteiro o fragmento nos leva ao duplo, ao múltiplo, ao mesmo tempo que compõe um todo, por ser desinteiro, e não suas partes, suas metades. I-Tal e qual o livro, este ensaio de leitura pede licença a Exu para falar, Padêlicença. O “signo-como-símbolo” ** é tanto o dono do falo quanto o dono da palavra. É assim que se pode entender o trocadilho como estratégia de contra-ataque, de leitura descolonial da tradição, do poema como lugar do isso-e-aquilo. Eixo e Exu são muito mais que simples contraposições, são índices de um ouvido atento para a diferença entre o que se escreve e o que se diz, de um poeta que traz o que traduz, que se revela no que escuta e que problematiza na escrita o que a própria escrita pensada acriticamente não assimilaria como semelhante-quase-igual. Quando “encruzilhadas” é preterido por “encruzas”, tradições discursivas aparentemente distantes são alinhavadas: os pontos de candomblé e as rimas do rap. Ou como explicar a presença do étimo “encruzas” como item lexical no repertório de um poeta meio carioca, meio baiano? O seixoLalu acompanha Ogum(‘s Toques) e Oxóssi. Cancela ejós, dando luz a outros nós, sóis.

O filho de Oxóssi é guerreiro por definição. Reteza a Arca para o tiro e acerta o alvo branco. Desafia o olhar simplista, mostra o poder dilacerante que se exerce pela palavra, no alvo da página, no jogo entre palavra e alvo, nos interstícios, nas apropriações e nas aproximações: o rondeme é tanto o lugar do sacrifício ritual, quanto o panóptico sagrado a que voluntariamente se dirige o iniciado. Aqui o yorubá (e outras línguas africanas que meu ouvido colonizado não identifica), o espanhol, o francês, o inglês e o português se encontram no mesmo poema, dizendo serem os mesmos os problemas enfrentados na diáspora pelos filhos de África em seus encontros e desencontros, mediados pelos modos de gritar contemporâneos. Desse modo vemos um “eu” que vai aos poucos se dilacerando, em consonância com o rito de iniciação: meu eu,/ despido de meu corpo, (Diga a verdade às crianças); um eu que é um lugar sagrado: Meu corpo é meu templo (I-tal); um eu que se retesa no Arco Armado.

E é n’O Arco Armado, que o guerreiro e sua autoapresentação cede lugar para a cena da guerra e para a heteroapresentação (Ferdinandeando, Roteiro para Semembe). A guerra se dá na linguagem, na disputa por um território, naquilo que tem lugar (tempo) em e toma lugar de(espaço), relembrando Fanon, porque “Relembrar Fanon é um processo de intensa descoberta e desorientação. Relembrar nunca é um ato tranquilo de introspecção ou retrospecção. É um doloroso re-lembrar, uma reagregação do passado desmembrado para compreender o trauma do presente.” (Babha, 2005, p. 101) Fanon que, por sinal, é explicitamente retomado no texto de Guellwaar, não só em nome próprio e intimamente citado pelo prenome, como pela apropriação em forma de verbo em primeira pessoa, num dos poemas que, segundo minha limitada e parcial avaliação, constitui um dos momentos mais potentes do livro, inclusive por nele ouvirmos ao fundo a música versista de Cruz e Souza arrematando a polifonia complexa desse ouvido de músico-e-poeta: Frantz palavras e sotaques, fanoneio / portal do inverno, me recolho e me esgueiro. (Portal)

Já em A Flecha, muda-se a estratégia em relação aos nomes próprios. O que, em outros momentos é apropriação e de nomes próprios, para sinalizar afeto e/ou citação como estratégia poético-discursiva (baldwinamente, saramagueando, fernandiando, fanoneio), aqui é enfrentamento e nomeação: Thomé de Souza, não por acaso, vem em primeira pessoa logo após um poema em que é mencionada uma encomenda do rei (o rei e o mar) e antes do poema dedicado a Hamilton Borges Walê, um guerreiro nomeado e uma espécie de irmão-poético de Guellwaar, com quem compôs o grupo “Os Maloqueiros”, levando a poesia e o teatro para as ruas de Salvador. Essa parte termina no que seria o livro como tradicionalmente o concebemos, com a autoria assinada por um sujeito empírico, que assina uma construção verbal, mas que aqui é arquearia do verbo, em que o alvo é sempre o alvo.

Em O Alvo, o desinteiro se realiza, pleno. Lugar de inscrição do leitor, de incompletude assumida, de assunção da página em branco como locus do entrave, do conflito e da negociação entre leitor e autor, do princípio de cooperação entre o leitor que escreve e o poeta que lê: rasura e traço, poesia militante e não limitante, porque incompleta por consciência de si, por consciência do outro. Poesia em favor de, por ser poesia contra, no sentido formulado por Ricardo Aleixo (2000)***:

 

Vejo….. a ….“boa poesia” ……como…. .sendo ….aquelaque é,
independentemente. de. seus assuntos, contra. Contra a língua
cotidianaa. e ..a ..literária, contra. a …poesia anterior, contra os
conceitos correntes ..de poesia,. contra .a .poesia das palavras
“poéticas”,..contra ela mesma,contra a comunicabilidade fácil,
contra…. .o difícilde superfície, ..contra a.. História, ..contra a
filosofia,…… contra. .a. ordem.. social e .política vigente, contra a
ditadura do sentido único, contra a ideia de identidade (étnica,
cultural, …….religiosa,….. sexual etc.) ….enquanto uma “ficção
simplificadora” …..que ..tem como ..fim último ..a .exclusão da
alteridade, …..contra, ..enfim, ..a enfadonha.. convicção. de que a
poesia está morta.……………… ………………………………………………………..

 

Desinteiro é, portanto, um aceno em direção à poesia viva, que assume riscos, que interpela a participação ativa de leitoras e leitores, que dá a cara a tapa, propondo desafios e trazendo à cena vozes silenciadas, é a pergunta de Fanon “O que quer um homem negro?” tentando ser respondida: o homem negro quer, entre outras coisas, escrever poemas, dizer que está vivo, que caminha sobre espinhos brancos, assumindo sua condição de guerreiro em combate.

E eis a Dicção da Flecha, que prepara a cena do combate ao mesmo tempo que afirma o sagrado do combate, porque a guerra se faz no discurso, na inscrição do sujeito nesse discurso,  e também na cisão desse sujeito, deslocado, diferenciado, reencenando as autoabolições, para, re-nascer. E aqui encerro a minha cena da cena, encerrado nesse discurso em que também me vejo, re-nascido, dividido e multiplicado, desinteiro, irmanado ao sujeito que opera o procedimento cirúrgico e demiúrgico na linguagem:

 

Em busca da paleta imperfeita
na mosca, sem vida fácil,
fixação, incerteza,
zarabatana espreita
olho ácido,ágil
mira acesa

 

 

Notas:

 

* Trad. de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis e Gláudia Renate Gonçalves.

 

** Barthes, segundo Babha.op. cit.

 

*** Na Encruzilhada, no meio do redemoinho. In: Pedrosa, Célia (org). Mais Poesia Hoje. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2000. P. 154.
 

 

Alex Simões é poeta, escritor, professor, performer e tradutor de poesia. É autor de “Estudos para Lira” (inédito, Menção no Prêmio Copene 2001), “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (Domínio Público, 2013), “(hai)céufies” (Esquizo Editora, 2014) e “Contrassonetos Catados & Via Vândala”(Mondrongo, 2015). Colabora em Revistas Literárias, antologias e em blogs/sites de literatura. Ministra oficinas de poesia, com foco em versificação e ações performáticas em poesia. Recentemente traduziu o livro “Entonces Daniela” (Lummen Editora, 2015) e coeditou um número da Revista Organismo. Integra o Mapa da Palavra e é um dos colaboradores da Revista Barril.

 

 

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119ª Leva - 04/2017 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Degradé. Palestina/França/Canadá. 2015.

 

 

Degradé (2015) é um filme “made in Palestine”. A informação que vem numa das cartelas de abertura é crucial. São poucos ou raros os filmes que chegam da Palestina no Ocidente. Só este fato já justifica uma visita ao filme. Veremos que a questão da visibilidade é um dos elementos mais importantes de sua proposta estética.

Uma das principais virtudes do filme dos diretores irmãos Arab e Tarzan Nasser (pseudônimos de Mohammed Abunasser and Ahmed Abunasser) é evitar o caráter de denúncia ou mesmo a posição de vitimismo nessa visibilidade. Embora as condições da ocupação israelense sejam efetivamente trabalhadas no filme, elas serão tratadas “metonimicamente”, isto é, de forma deslocada.

A história do filme se passa inteiramente dentro de um salão de beleza feminino e é protagonizado quase que exclusivamente por mulheres. A dona do salão é uma russa que diz que dá na mesma morar na Rússia ou na Faixa de Gaza. Ela é ajudada apenas por uma jovem palestina. Ambas atendem uma moça jovem e uma mulher mais velha, enquanto outras mulheres aguardam a vez de atendimento sentadas nas poltronas.

O cenário poderia perfeitamente se passar no Brasil devido ao caráter periférico e precário do estabelecimento. As mulheres também poderiam perfeitamente se passar por brasileiras, dada a tez morena da pele, certa malícia de comportamento e até mesmo por causa do vestuário. As mulheres vestem-se casualmente, com jeans e algumas de camiseta. Em particular, a jovem cabeleireira ajudante, sempre ao celular, se comporta não muito diferentemente de qualquer moça brasileira das periferias urbanas. Apenas uma das mulheres que aguardam sua vez, a mais religiosa, usa véu escondendo o cabelo.

 

Cena do filme “Degradé” / Foto: divulgação

 

O fato de representarem para as câmeras sem o véu cobrindo os cabelos é um elemento fundamental na estética de Degradé. O salão cabeleireiro é um espaço de intimidade feminina. As mulheres fazem os cabelos, as unhas, se depilam e até mesmo tomam banho, pois há uma sala de banho no andar superior. Também conversam sobre suas vidas amorosas e até mesmo sobre sua sexualidade. Uma das mulheres diz que seu marido perdeu o apetite sexual e ela está ali para se embelezar e tornar-se mais sexualmente desejável, segundo suas palavras. A moça sendo atendida está se embelezando para um possível casamento (que ela rejeita), enquanto a ajudante do salão não sai do celular, angustiada com o namorado que está do lado de fora do salão, carregando uma arma. Há também uma mulher, negra, que é divorciada.

O espaço de intimidade feminina do salão é, na verdade, um espaço fechado sem homens. Os homens estão do lado de fora, armados até os dentes, prontos para um conflito, não se sabe exatamente com quem. Um deles (vivido pelo próprio diretor) é o namorado ou o apaixonado pela jovem ajudante do salão, que aparentemente o rejeita por sua participação na guerrilha ou na milícia. Ele passeia armado e conduz uma leoa sequestrada do zoológico e que teve, supostamente, seus dentes arrancados pelos guerrilheiros/milicianos. A ajudante do salão tenta equacionar, sem sucesso, um equilíbrio entre seus deveres profissionais e sua agitação amorosa pelo homem que a persegue.

Assim, o filme figura uma demarcação rígida de espaços: o ambiente do salão é o espaço feminino de intimidade, como extensão do espaço doméstico, porém mais livre, pois as mulheres podem comentar sua vida íntima e amorosa, suas frustrações ou alegrias, umas com as outras. Do lado de fora, é o espaço masculino da guerra, do confronto, do poder e da dominação. Entre os dois, há a janela do salão e as conversas de celulares. Os celulares são usados abundantemente para as conexões entre esses mundos.

A repartição entre o mundo público masculino e o mundo privado feminino é uma divisão conhecida nas sociedades islâmicas; no entanto, o filme desconstrói essa ordenação assimétrica de poderes introduzindo outras perspectivas. Se a câmera cinematográfica confinada ao salão de beleza pode ser uma metáfora da clausura feminina ao mundo doméstico e da suposta falta de liberdade das mulheres muçulmanas no Oriente Médio, no entanto, a própria esfera masculina do poder, nos territórios palestinos, está enclausurada entre os muros da ocupação e da segregação. O confinamento do foco cinematográfico ao espaço interior do salão não é tanto uma metáfora, mas uma metonímia, um deslocamento do isolamento murado e restringido da Faixa de Gaza, e da restrição ao ir e vir, tema de várias conversas entre as mulheres.

O salão de beleza é antes um espaço de liberdade feminino do que de reclusão. Num certo sentido, as mulheres estão mais livres lá dentro do que os homens do lado de fora, com seus conflitos de território. Mas há um aspecto ainda mais sutil nessa assimetria de perspectiva: a presença da câmera no interior do salão abre uma brecha na visibilidade proibida da intimidade feminina: as personagens mulheres são filmadas sem o lenço, com seus cabelos gloriosamente livres e à mostra. A proibição das mulheres exibirem publicamente seus cabelos é reiterada no filme e será um elemento dramático no final da história. Portanto, há uma ambiguidade estética na exibição cinematográfica desses cabelos femininos. A questão não é apenas que Degradé desafia uma restrição de ordem imagética ao dar visibilidade ao proibido. O “controle do imaginário” é antes colocado em jogo. O jogo de esconder e exibir os cabelos e a narrativa ficcional que nos apresenta as divisões de territórios são um único e mesmo jogo encenado pela montagem cinematográfica.

Daí porque o título do filme seja Degradé, o nome que se dá a um corte de cabelo em camadas. Inicialmente um corte de cabelo militar masculino, tornou-se moda entre as mulheres que lhes deram outra conotação, própria ao embelezamento. Degradé é uma ressignificação do conteúdo militar e masculino do corte, traduzido para o mundo feminino e também indica o deslocamento de uma realidade que é mais complexa do que divisões estritas de sexo, poder e política. Pois a exibição dos cabelos femininos pelas câmeras, para o espectador, por um filme “feito na Palestina”, relativiza a proibição do tabu e revela, num jogo de aparências, as camadas intermediárias de visibilidade.

 

Cena do filme “Degradé” / Foto: divulgação

 

Mas “degradé” também sugere aquilo que é “degradado” e a degradação se intensifica no filme com o decorrer da narrativa e a presença dos “ruídos” e do “caos” do mundo de “lá fora” para o interior do salão. Pois o mundo do exterior também é o mundo do confinamento e da segregação. A condição de desespero da situação palestina se degrada pelas divisões políticas internas entre os grupos que disputam o poder. Numa das cenas mais interessantes do filme, é proposta uma inversão de perspectivas: uma das mulheres do salão começa a imaginar o que seria se as mulheres palestinas tomassem o poder dos homens. Ela começa a distribuir os cargos de um novo governo entre as demais mulheres presentes. Essa tomada imaginária de poder é interrompida pelo aumento de tensão exterior que acaba invadindo o espaço interior do salão. A luz é cortada, não há gasolina para o gerador, os barulhos de bombas e tiros de fora impedem qualquer paz interna. As próprias mulheres começam a brigar entre si. A entropia de um mundo fechado começa a tomar todas as relações e os ruídos crescentes impedem as conversas e o compartilhamento das intimidades.

Curiosamente, a situação de confinamento de Degradé é semelhante a de outro filme recente, o egípcio Clash, filme que se passa inteiramente no interior de uma camburão policial, com detidos das manifestações após a queda de Hosni Mubarak. Simetricamente, o filme egípcio focaliza apenas homens dentro do espaço estreito e interior da viatura. Como no filme palestino, também sabemos pouco ou nada do que se passa no exterior. No entanto, a situação de fora é trazida para dentro com toda sua carga de tensão e violência. Clash é um filme mais bem “fechado” e “redondo” do que Degradé. Neste, temos um excesso de personagens, algumas sem função essencial na trama. O resultado é a impossibilidade de se aprofundar em seus dramas, de modo que, em alguns casos, temos personagens rasas, tais como a moça que está grávida e sente as dores do parto no interior do salão, exatamente quando um conflito acontece do lado de fora. Apesar disso, a questão do jogo de aparências, dos cabelos que não podem ser mostrados aos homens, mas que são ostensivamente exibidos pela câmera, bem como a abordagem de temas sobre desejo e sexualidade feminina e a crítica ao mundo violento e corrompido dos homens dá ao filme palestino uma sutileza ausente no filme egípcio.

Mas é sintomático que esses dois filmes recentes apresentem os dramas do Oriente Médio sob a perspectiva do confinamento do espaço. Devemos mesmo expandir esta percepção e olhar essas obras como artefatos estéticos da periferia capitalista, aquela que outrora se chamava de Terceiro Mundo. Mesmo que a situação da Palestina seja fruto de uma ocupação neocolonial, a sensação de uma experiência “sem saída” é a tônica da vivência de muitos povos e uma das razões do desespero dos deslocamentos imigratórios. E poderíamos igualmente imaginar este filme tendo como ambiente uma comunidade periférica carioca, em meio ao conflito entre traficantes, milicianos e policiais. É exatamente dessas situações de clausura existencial que os imigrantes procuram escapar. Embora termine tragicamente, Degradé, por sua vez, é um filme que abre suas objetivas para ampliar a visão estética dos espectadores. Nas telas, suas protagonistas femininas não são apenas vítimas, mas sujeitos capazes de fazer a vida continuar, com suas lutas, mas também com experiências de libido, afeto e solidariedade. Como diria a teórica Donna Haraway, é preciso “lutar na barriga do monstro”. O filme dos irmãos Nasser joga uma luz nessa barriga e expande as fronteiras da obscuridade produzida pelos muros da segregação.

 

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

 

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118ª Leva - 03/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

A busca de si e as formas fixas, a Mecânica Aplicada de Nuno Rau

Por Roberto Dutra Jr.

 

Veio o pós-modernismo e nós nos fragmentamos em tantos pedaços quanto uma tela cubista comporta. Surgiu a world wide web e nos fragmentamos mais ainda em avatares e perfis, redes sociais, raves cibernéticas e encontros virtuais. Uma nova realidade abraça a todos nós e a cidade em que circulamos circula em cada dispositivo móvel em níveis que nos viciam sugando o nosso tempo como vampiros instalados nos chips.

Estas imagens e outras povoam irremediavelmente a minha mente quando carrego as páginas de Mecânica aplicada, o novo livro de Nuno Rau, que saiu recentemente pela Editora Patuá. Façamos o reload.

Nuno Rau faz uma mescla de imagens e narrativas versificadas, surgindo rápidas como flashes entre um fluxo de consciência que também engloba samplers de outros poetas e compositores. A desapropriação de um verso alheio é a identidade de um novo poema. O indivíduo entre estas páginas, que vaga numa polis cyber-punk perdeu as ilusões e dialoga ora com um outro, que pode ser ele mesmo ou um sampler de um poeta (ele mesmo se constrói? Ou uma voz do cânone?). Não temos certeza de quem está lá, à solta; quem é este observador do fluxo de informações, desolado em reflexos de si mesmo que não reconhece. É preciso quebrar os espelhos: “… erradicar / os artefatos / da ilusão”. Fica no ar sempre a pergunta se o indivíduo é o sintoma ou a doença de si.

Uma máquina do mundo revisitada não seria uma leitura extrapolada de Mecânica aplicada. Entretanto, os poemas de Nuno Rau, com um ritmo ainda mais fragmentado, comunicam-se com suas referências drummondianas e haroldianas (de Campos) e revelam uma profunda angústia de ser no século XXI um homem (poético) sampleado.

Ora com modos de graphic novel, algum desvio surrealista e certamente impregnado de distopia, os poemas de Mecânica aplicada não encontram caminhos nessa cyber-cidade, a única fuga é a para dentro de si, como nos versos de “por dentro, por fora”: “vivendo pela margem, neste exílio / de uma pátria que não existe, a não / ser na mais absurda alucinação, / nenhum dia me abre o seu sentido; / … / além do corpo, / … / as coisas seguem normais / … / sob a pele das coisas arde um tal incêndio”.

Mecânica aplicada tem uma unidade conceitual dividida em cinco partes, sendo Subversio machine, Imago mundi, Fenomenologia dos materiais, Opera mundi e Mecânica aplicada. Os poemas “Fragmentação”, “Romantismo mode on mode off” e “Ars poetica” são o ponto de convergência deste eu fragmentado do poeta (sua consciência dentro da máquina do mundo) e dividem o livro em uma tomada de estilo e de forma.  As duas seções finais são compostas de sonetos. O caminho para dentro de si é o encontro de uma forma fixa tradicional da literatura. Seria um retorno à infância ou à infância cultural de um ser poético desiludido num mar de informações e referências, impossível de ser filtrado?

Nuno Rau não reinventa o soneto, mas utiliza o recurso como uma oposição à fragmentação. Se havia uma busca, esta deveria ser por concisão e a aplicação da mecânica surge no verso e sua prática. Versos como: “a forma fixa: o conteúdo, não. / A mente é livre, o pensamento inquieto, / e exposto a mais esta contradição / cometo – extemporâneo – outro soneto”, demonstram o jogo metalinguístico montado.  Tendo a língua como referência na busca de uma possível identidade, este indivíduo, que pode não se perceber na polis cibernética e sampleada, encontra dentro de si uma sample anterior e nela tenta se elaborar, reconhecer-se como tal. A reflexão seria um questionamento constante de muitos autores: existimos apenas enquanto linguagem?

O emprego do soneto dá um frescor no texto, embora fique também outra pergunta latente na leitura dos poemas de Mecânica aplicada: o pós-pós da linguagem literária é a forma fixa? Ainda: a resposta da fragmentação de si na linguagem é o retorno ao cânone? Incluso das alegorias da infância, do amor, do encontro do outro e demais temas que podemos considerar como universais. Creio que faço perguntas demais nessa resenha, isso me intriga, mas também elucida algo muito claramente: uma das funções da arte é nos compelir ao questionamento, além de conformismos, certezas e confortos. Tendo isto em mente quero finalizar dizendo que Mecânica aplicada, de Nuno Rau, acima de tudo, deixa claro que: reload>code = poesia.

Boas leituras.

Roberto Dutra Jr. é um carioca, suburbano e deslocado. Escritor em resistência, mestre em Letras; foi editor da Revista Escrita e contribuiu para o jornal Panorama da Palavra, e escreveu artigos acadêmicos. Atualmente oferece consultorias literárias, e leciona quase na clandestinidade. É colunista regular do blog literário Zonadapalavra, resenhista da revista de artes Mallarmargens e usa o Instagram para experimentos fotopoéticos. Foi recentemente publicado na antologia Escriptonita (Patuá).

 

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117ª Leva - 02/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

A criança como o estado da criação em Poética na incorporação – Maria Bethânia, José Inácio Vieira de Melo e o Ocidente na encruzilhada de Exu, de Igor Fagundes

Por Alexandra Vieira de Almeida

 

Igor Fagundes faz do sagrado, em Poética na incorporação (Editora Penalux, 2016), oitavo livro do autor e quarto de ensaio, um caminho para o novo e desconhecido, sem a roupagem velha e puída com a qual se acostumam aqueles que estão presos à tradição mais gasta do pensamento. Traz o olhar da criança, não em sua pura inocência, mas naquilo que ela tem de esperteza, de astúcia e curiosidade pelo fogo do conhecimento na abertura à indagação.

Uma revelação infantil, um erê, na fonte do riso, no rio, é o ponto de partida para a construção poético-filosófica deste livro magistral, que não se quer mais um monumento de saberes a serem seguidos, mas de questões e descobrimentos de novas veredas vivas. A raspagem é o desnudamento de toda nossa tradição cultural, ocidental e oriental, quebrando as dicotomias e trazendo a infância do mítico à lume, à presença, o originário em toda sua força.

O grande mestre poeta Alberto Caieiro já nos revelava este desvestir, este retirar, na violência, no sangue da palavra, o que se tem de mais tradicional em nossa cultura. Igor Fagundes, com todo seu dom pela e na palavra, nos encanta com um canto trazido pela Mãe Oxum. No encontro, nas incorporações entre Exu, Hermes e Cristo, o poeta-filósofo, por aqui estudado, faz da “encruzilhada” um grande trabalho intertextual de confluência entre vários lugares: o grego, o cristão e o africano. Faz da morada do mítico, do filosófico e do poético um trabalho grandioso de esquecimento e memória, sem tomar a água da repetição, porque a incorporar uma nova vida, um pensar nunca antes visto, mas inovado com palavras originárias.

O sagrado, livre dos pré-conceitos da tradição ocidental, perfaz os entrecruzamentos de territórios que poderiam parecer à primeira vista inconciliáveis, mas que pela artimanha arquitetônica da criação de Igor Fagundes, nos leva, com a cantora Maria Bethânia, da Musa à Pombagira, do mar ao sertão baiano. Faz do poeta José Inácio Vieira de Melo um Ulisses que incorpora Exu. O trabalho de incorporações é o diálogo possível que encontramos presente também nos pré-socráticos, sobretudo em Heráclito, que pela “harmonia dos contrários”, torna admirável esta encruzilhada entre tradições distintas, mas próximas pelo olhar agudo de Fagundes.

Nessa “estória”, como o autor mesmo chama, encontramos um trabalho de raspagem, de desnudamento da tradição, para que o novo da criação, da poesia possa nascer. Pois, só abandonando as velhas roupas, o peso, que a leveza do poético pode advir. É intenso o jogo de paralelismos, espelhamentos neste livro original de Igor Fagundes. O livro não segue um sumário tradicional: são versos que alinham as páginas e os capítulos são belíssimos batuques, não só a críticos, mestres e professores homenageados, mas a entidades como Maria Padilha e Exu Tranca-Rua, da tradição afro-brasileira. Em cada capítulo se constrói um mergulho ao universo do Erê, a criança sempre eterna, que caminha para o processo criativo do nosso imaginário, daquilo que incorpora novamente e, sempre presente, se atualiza.

Nas três metamorfoses do espírito, de que falou Nietzsche em Assim falou Zaratustra, seria preciso o ser humano atingir o estado final de criança, paradoxalmente, para que se fizesse a ponte para a liberdade completa. Da fase do camelo, passando-se para a do leão, atinge-se o estágio da criança, quando as cargas pesadas são deixadas de lado até que surjam novos valores. Não valores que venham a servir de modelos, mas valores que os questionam.

A “raspagem” é o retorno a este estágio de infância, onde se busca a liberdade dos paradigmas do mundo adulto e institucionalizado. O erê – a Lagriminha de Ouro da Oxum – surge como apelo ao filósofo-poeta, que, abarcando novos mares, chega ao sertão das criações. Igor Fagundes, a partir de uma vontade de potência, conquista um mundo que é todo seu e que leva o leitor não a respostas prontas, mas às indagações, conforme o universo da criança. A “raspagem” produz seu efeito: o leitor se desnuda de suas antigas vestes conceituais.

Alexandra Vieira de Almeida é escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ).

 

 

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116ª Leva - 01/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra III

Os Trezentos curtas de Wilson Guerreiro

Por W. J. Solha

 

Comemorando seus 70 anos de idade com estes haicais de Grãos de Esperança – 300 haikais guilhermianos, que acaba de sair pela editora Chiado, de Portugal, ele me lembra que em 2011, seis integrantes do grupo COMPOMUS, da UFPB, criaram – em comemoração dos meus mesmos 70 – a Cantata Bruta,  a partir de curtíssimos contos meus sobre a violência contemporânea.

Estou me exibindo?

Não.

É que, nesse concerto, um trecho particularmente me deslumbrou. De quem, caramba?!

– Wilson Guerreiro!

Estes haicais foram, pra mim, nova surpresa. Daí que parti pra Wikipédia, para saber, afinal, “com quem estava lidando”! E… meu deus!

Wilson Guerreiro nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul, 1945. Em 1959, mudou-se com a família pra Campinas-SP, e em 66 ingressou no ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica, como Engenheiro de Eletrônica. Mestre em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica da UFPB, Campina Grande (1973), Master of Science (M.Sc.) em Eletrônica pela University of Southampton, Inglaterra (1975), e Ph.D. em Eletrônica por essa universidade (1979), atuou como professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPB no período 1971-1999,

E o que tem isso a ver com haicais? Calma. Prossigo de Wikipédia:

Teve sólida formação musical em cursos de composição, harmonia e instrumentos, tendo estudado com renomados professores, entre os quais Eli-Eri Moura, Marco César de Oliveira Brito e Liduino Pitombeira. Sua produção inclui peças para diversas formações camerísticas, orquestra sinfônica e trilhas sonoras para teatro e vídeo. Recebeu o Prêmio de Melhor Música no VI Festival Nacional de Teatro de Guaçuí, Espírito Santo (2005), e no XIII Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, Ceará (2006), pela trilha sonora, composta em parceria com Marcílio Onofre e Samuel Correia, do monólogo gogoliano Diário de um Louco, dirigido por Jorge Bweres e André Morais.

Wilson Guerreiro se descreve no haicai 282, desta edição:

Vivo sem conflito,
na calma, mas a minh’alma
busca sempre o agito.

Genial!

E vamos aos haicais. Guerreiro assume, no subtítulo de seu livro, que os seus são guilhermianos. Como Guilherme de Almeida (poeta paulista, 1890-1969), estabeleceu para si tercetos de 5, 7 e 5 sílabas, rimas do primeiro com o terceiro verso, o segundo com rimas internas na segunda e sétima sílabas. Também assimilou o espírito guilhermiano da coisa:

Haicai é um mero enunciado: lógico, mas inexplicado. Apenas pura emoção colhida ao voo furtivo das estações, como se colhe uma flor na primavera, uma folha morta no outono, um floco de neve no inverno.

 Sobre essa base… técnica surge o estilo Guerreiro, cuja primeira característica é a preocupação social. E outra: paixão pelo sertão nordestino brasileiro, patético e, muito mais: estético. Tanto, que as grandes obras de arte do país são todas dessa região ou sobre ela: Os Sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, bem como os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Os Fuzis, de Ruy Guerra, e novamente Vidas Secas, agora de Nelson Pereira dos Santos. Destaque para A Pedra do Reino, do Ariano, e Dom Sertão, Dona Seca, de Otávio Sitônio Pinto. A Portinari essa área rendeu a impactante série de quadros Flagelados ou Retirantes. Ao poeta João Cabral de Melo Neto, deu Morte e Vida Severina, grande poema tornado popular pela música de Chico Buarque. E bombou na Globo, a novela Velho Chico. Mas eu falei de duas características marcantes destes haicais. Uma terceira: rigor. Músico da Orquestra Sinfônica da Paraíba, Guerreiro – metaforicamente – confessa:

Sustento meus filhos
com canto. A viola, portanto,
deve andar nos trilhos.

Quarta: no espaço tão exíguo do férreo terceto de cinco-sete-cinco sílabas, próprio pra poucas imagens, ele às vezes nos entrega uma bela natureza-morta:

À mesa, moqueca
com coco e pimenta, e um pouco
de chá na caneca.

Mais fotógrafo que pintor – pelo rápido clique – colhe cenas da caatinga, a selva selvaggia de exclusividade brasileira, aspra e forte, como nesta série de cinco haicais, que tiro da ordem, numa atrevida “montagem”:

Sertão. Descampado
sem sombra. A todos assombra
a morte do gado.

No pequeno aterro,
exposto ao tempo, ali posto
já morto, um bezerro.

Sofrida imburana
insiste, mas não resiste
à seca tirana.

No bruto sertão,
carcaças e mais carcaças
dispersas no chão.

Nunca se viu tanta
carência. Uma consequência:
o nó na garganta.

Veja a força disto:

No rosto, a dor muda
de quem tem sede e também
passa fome aguda.

E isto, que nos espanta pelo último verso:

Lar de massapê:
janela, porta, cancela,
antena e tevê.

Claro, nem tudo é trágico. Ou, bem: é, mas – se não desconcertante – deslumbrante:

Solitária flor,
num sulco do solo inculto,
em pleno esplendor.

Guerreiro, porém, supera o fotograma e ousa, quase sempre, um breve… cinema.

A mãe chama o filho
à mesa posta. Surpresa:
só cuscuz de milho.

Põe movimento até para o que não o tem:

Os dedos aflitos
dos galhos de alguns carvalhos
buscam o infinito.

O que tem a ver com outro espetáculo triste que se vê em todo o Brasil:

Entre as grades de aço,
mil mãos suplicam em vão
por mais ar e espaço.

Aqui, a curta ação é promovida por três verbos:

Maitaca chilreia,
quati treme. Sucuri
no chão serpenteia.

Como aqui:

Vento rodopia,
avança mais forte e alcança
frágil moradia.

Ou aqui, em que um dos verbos – queimar – implícito, é limitado pela expressão latina do segundo verso, e se solta, implicitamente, no terceiro.

Seca. Cai a tarde.
Um foco de fogo in loco,
e toda a mata arde.

Aqui, Guerreiro parte para quatro verbos, que são como claquetes no poema:

O sapo coaxa.
A cobra dá o bote e… sobra:
ao sapo não acha!

Take 1 – o sapo coaxa.
Take 2 – a cobra dá o bote.
Take 3: e… sobra.
Como?
Take 4: ao sapo não acha.

Esses… filmetes prosseguem num momento em que ele – abandonando o campo, já no final do livro – parte pro que vê nas cidades. “Estiremos” os haicais, e… cinematograficamente… montemo-los também:

O povo se atiça em becos, ruas, botecos: clama por justiça. // Nas ruas, na praça, país melhor, mais feliz, reivindica a massa.// O povão audaz protesta e se manifesta sob bombas de gás!// Um estampido alto e seco ecoa no beco. Corpo jaz no asfalto.// O Estado recua diante da voz vibrante do povo na rua.

– Atenção: Luz! Câmera! Ação!

Take 1: Árido sertão.O cacto floresce em pacto co’a essência do chão.
Take 2: Tragédia anunciada: grotesca seca, dantesca; gente em retirada.

Bem, isto é uma espécie de trailer. Cabe ao leitor, agora, puxar o freio de mão e, em câmera lenta, usufruir – de um a um – estes belos achados e centenas de outros. Guerreiro, ao contrário do sertão, é tão generoso quanto muito farto.

W.J. Solha lançou Relato de Prócula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Prêmio Graciliano Ramos por sua História Universal da Angústia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Prêmio João Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Arkáditch, pela Ideia Editora, pela qual também lançou seu segundo poema longo, Marco do Mundo, em 2012, a que se seguiu Esse é o Homem, em 2013. Em 2015, lançou “DeuS e outros quarenta PrOblEMAS” pela Editora Penalux.