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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Tanussi Cardoso

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

PAISAGEM INÚTIL

 
porque não haverá segunda vez
meus domingos hão de ficar
plantados
na terra ou nos fios
onde se aninham os pássaros

errar não é humano – é santo

pecar é carregar nos ombros
os erros de Deus

 

 
***

 

 

 

AUTORRETRATO

 

 
O tigre, em silêncio,
é o que penso.

Quando ataca,
é o que posso.

 

 

 

***

 

 
A HORA ABSOLUTA

 

 

“Sou como o corifeu medieval
que percorre as aldeias e vai embora.
É necessário que quando eu partir
o palco não fique vazio.”
Franco Basaglia

 

 

Estranhos
meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes
me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos, minhas partes
e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham
calafrios.
Ousados
vêm no breu do sono
e dormem em minha cama
e me despem
e se debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam
e choram por mim
como a lua clamando
sua outra metade
como um espelho
colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim.

 

 

 

***

 

 
QUADRO

 
As moscas impacientes
da rodoviária
espantam o sono
das estátuas.

 

 

 

***

 

 
RETRATO

 
Sou o que escrevo.

A busca permanente
da palavra exata.

E sua ausência.

 

Tanussi Cardoso nasceu e vive no Rio de Janeiro. Formado em Jornalismo e em Direito. É poeta, crítico, contista e letrista de MPB. Tem poemas publicados em diversos países e 11 livros lançados.

 

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106ª Leva - 09/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Roberta Tostes Daniel

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Deus me abre a corcova de pregador
esqueço parábolas.
O ódio acumula no tempo, nos móveis pesados.
Tudo perdi. No entanto, o amor das coisas breves.
No entanto, a ancestralidade.
Com os olhos desfolhados, as mãos cheias de feitiço
póstumas as mãos, a rondar o real além do real.
A neve suja do sol, Simenon, três vidas
a mancha o eixo infinito
do homem ordinário.
Quisera esvair o deserto
chamar de norte o começo
traficar palavras.
Tornei-me a arma
que me cala.

 

 

 

***

 

 

 
Uma casa perto
de um vulcão
pode ser
um rastro da gente
jamais extinto
a ciência nega
mas a lógica subvulcânica
do povo sustenta
evidências de nós
uma casa-oferenda
há quarenta milhões de anos
lava oceanos
e um barco de orixá
faz a vez de vaso
de planta
subvertemos o risco:
imergir e germinar
são movimentos
inerentes às casas
às gentes
e aos vulcões
um subúrbio ou iguaçu
nada é novo no epicentro
desse rio
que não nos suplanta
somos o alicerce
a planta da casa
nasce dos pés.

 

 

 
***

 

 

 
Rio-Niterói, 1973

Os senhores me veem derrubando pistas
como se desmonta estrada
como se inventa ponte
emerjo de nada a nada
cresço com minha surdez.
Feita desaparecida
santa metálica
dos lábios de esterco
baía, vem me dizer
por caminhos de resvalo:
uma mulher ou uma cidade
se arrastam por enigmas.

 

 

 
***

 

 

 
Retrato

 

Algo da dureza dos séculos
lança sobre meu rosto
os faunos da tarde.
Lívido ante laranja
mágicos, incautos
traços – traçantes.
Sabem sazonalidades
zonas de sombreamento
contornam o queixo
regam a fome –
entorta a boca.

 

 

 

***

 

 

 

Escrevo para satisfazer o desejo de Deus.
Este que aponta – Nonada.
Escrevo para ser Deus.
Com a fortaleza dos dedos fracos.
Dos dedos sós, dedos de vício
dedos brincantes.

 

Roberta Tostes Daniel é carioca nascida em 1981, cursou jornalismo, mas se formou em Letras. Escreve em blogs há mais de uma década. Já colaborou com diversas revistas literárias pela internet e participou de algumas antologias. Não tem livro publicado. Mantém o blog Sede em frente ao mar.