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97ª Leva - 11/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

Relatos Selvagens (Relatos Selvajes). Argentina/Espanha. 2014.

 

Relatos Selvagens

 

O cinema argentino tem se mostrado cada vez mais robusto, presenteando os amantes do cinema com excelentes películas nos últimos anos. Filmes como O Segredo dos seus Olhos, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, O Filho da Noiva, Um Conto Chinês e Medianeras vêm contribuindo para firmar o interesse internacional pelo cinema latino-americano. No recém-lançado Relatos Selvagens (2014), nossos “hermanos”, mais uma vez, acertam a mão e constroem um filme pujante, que tem como grande qualidade o potencial de agradara diferentes tipos de público, dos mais exigentes aos que não buscam nada além de uma boa diversão no fim de semana.Temos, assim, uma exuberante tragicomédia apresentada em seis histórias que não têm nenhuma relação entre si, a não ser a demonstração da ira, intolerância e insanidade humana.

A primeira história já vale o filme: partimos de um encontro casual a bordo de um avião de passageiros que se segue à efusão de estapafúrdias coincidências e culmina em um desfecho surpreendente, que consegue ser tão hilário quanto macabro. Eis um humor de primeira, escrachado, criativo, passando a compor certamente uma das cenas memoráveis do cinema. Após assisti-lo, temos a certeza que fizemos um bom proveito do nosso tempo. Mas isto é apenas o começo, degustamos mais cinco contos urbanos que nos trazem situações cômicas que beiram ao absurdo, mas ao mesmo tempo trágicas, pois nos reconhecemos nelas, e, por mais improváveis que pareçam, sentimos que estão fortemente presentes em nossos dramas cotidianos e afetivos.

A obra percorre os mais inusitados temas, seja uma briga no trânsito, reduzindo os seus condutores a uma situação de selvageria animalesca, ou a burocracia pública que atropela o bom senso, desrespeita a dignidade humana e atenta contra a sanidade até mesmo do mais equilibrado dos cidadãos. A trama flerta, ainda, com o suspense ao explorar de forma precisa o dilema de uma garçonete dividida entre seus valores morais e o indomável instinto de vingança. Em seu episódio menos eloquente, mas não menos engraçado, a farsa para livrar um jovem da responsabilidade de um atropelamento revela, em tons de um cinismo escarnecido, a falência moral e a ganância sem limites do homem. O final se dá de forma frenética, em uma alucinada e angustiante festa de casamento ou, melhor dizendo, “descasamento”, que tira o fôlego e deixam atônitos, e com os olhares perplexos, os expectadores até o apagar das últimas luzes. Estas que poderiam ser chamadas de parábolas modernas trazem à tona sempre alguma mensagem subliminar de fundo moral que nos fazem indagar e refletir sobre a realidade em que vivemos.

 

Ricardo Darín em cena de Relatos Selvagens / Foto: Divulgação

 

A película é uma coprodução espanhola assinada pelos irmãos Augustin e Pedro Almodóvar, mestre do cinema espanhol que se encantou pela pulsante vitalidade da história. Tanto a direção como o roteiro são assinados por Damián Szifron, que, aos 39 anos, dirige o seu terceiro longa. Szifron tem se destacado também à frente de seriados de TV que são veiculados por toda a América Latina. A excelente trilha sonora fica ao encargo de Gustavo Santoalalla, responsável pela sonorização de filmes como Diários de Motocicleta, Amores Brutos e Babel, pelo qual foi premiado com o Oscar em 2005. Embora a imprensa dê grande destaque à participação do astro Ricardo Darín na trama, em uma atuação realmente brilhante como o técnico de implosões soterrado pelos descaminhos burocráticos, o elenco conta com muito mais do que a sua presença, desfilando em cada novo episódio uma constelação de excelentes atores latinos.

Relatos Selvagens foi escolhido para realizar a abertura do último Festival de Cannes e ainda da 38ª Mostra Internacional de São Paulo, evidenciando o seu prestígio no circuito internacional. Em seu país de origem, levou mais de três milhões de expectadores às salas de cinema, marca impressionante para os padrões nacionais. A película foi indicada pela Argentina para representá-la na disputa ao Oscar de filme estrangeiro deste ano, possuindo, segundo a crítica especializada, grandes chances de levar a estatueta.

Esta preciosa obra de humor negro se destaca por seu apuro técnico e pelo excelente roteiro, elemento tão caro ao cinema e, por vezes, tão descuidado em nossas produções nacionais. Felizmente este quesito tem se mostrado um dos grandes diferenciais da filmografia argentina, que vem realizando trabalhos coesos, coerentes e dotados de uma enorme originalidade. Um filme para ser assistido com sorrisos soltos e largos, mas, muitas vezes, com o rosto contorcido pelo espanto.

 

 

Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana.

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72ª Leva - 10/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

Elefante Branco (Elefante Blanco). Argentina. 2012.

 

 

 

‘Sonho em morrer por eles. Ajuda-me a viver para eles’.
(Pe. Carlos Mugica)

Como bradaram os Titãs, no final da década de 80, em uma de suas músicas mais emblemáticas do álbum Õ Blésq Blom: ‘miséria é miséria em qualquer canto’. Ainda que tal problema atinja dimensões universais, o cinema lírico-realista do portenho Pablo Trapero – um dos diretores sul-americanos mais renomados no exterior – explora o tema de um modo peculiar. Em Elefante Branco, seu sétimo longa-metragem, ele desconstrói o que poderia se tornar mais um abrasileirado favela-movie para questionar o papel do estado, das milícias e principalmente da igreja no conturbado ambiente das periferias. Há uma humanização simbólica por parte dos sacerdotes: eles vestem jeans, falam palavrão, bebem e fumam. E isso não só os aproxima dos habitantes da favela onde pregam como conquista a simpatia dos espectadores. A película dialoga com a floresta e o subúrbio, a brutalidade e o altruísmo, a caridade e a (in)justiça. Sim, riquezas são diferenças.

Sobrevivente de um massacre, enquanto estava em missão na selva amazônica, o padre belga Nicolás (Jeremie Renier) foi resgatado por Julián (Ricardo Darín) para ser seu sucessor no trabalho religioso-social da Villa 31, uma das maiores favelas dos arredores de Buenos Aires, onde vivem mais de 30 mil pessoas. Ali, Julián comanda uma paróquia e, com o apoio da assistente social Luciana (Martina Gusman, esposa do cineasta e atriz de quase todos seus filmes), supervisiona a construção de casas populares no terreno onde seria instalado o maior hospital da América Latina – projeto idealizado pelo socialista Alfredo Palacios, em 1937, e inacabado durante diversos governos – ou seja, o elefante branco que dá título ao filme. Mediadores entre traficantes, moradores e policiais, os três voluntários dividem o hospital abandonado com cerca de 300 famílias e o utilizam como QG para administrar seus projetos sociais, conflitos internos e dramas pessoais, sobretudo quanto à contribuição real de seus esforços e à vocação celibatária.

O sucessor de Carancho (2010) – denúncia sobre a máfia dos seguros de automóveis na Argentina, também protagonizado por Martina Gusman e pelo sempre intenso Darín, que empresta mais uma vez todo seu talento e carisma ao roteiro de Trapero (novamente em parceria com Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre) – tece, simultaneamente, uma crítica social, política e religiosa acerca do processo de favelização e da violência gerada pelo narcotráfico. Se no filme anterior os personagens eram parasitas uns dos outros com o intuito de enriquecer, aqui eles doam seu tempo e sua própria vida unicamente na tentativa de salvar o próximo. Mesmo que a situação seja dura, fica subtendida a mensagem esperançosa de fé, seja de forma prática ou espiritual.

Com uma temática visceral, porém de muito apuro estético, o filme abusa dos planos-sequência desde cenas prosaicas até as mais violentas, conferindo um caráter coadjuvante e quase documental à trama. Exibido no Brasil de forma inédita durante o Festival do Rio 2012 (27 de setembro a 11 de outubro), Elefante Branco é inspirado e dedicado ao Padre Carlos Mugica, mártir ligado ao Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo (MSTMU) – espécie de ‘socialismo religioso’ originário na Argentina nos anos 60 – assassinado em 11 de maio de 1974. Em escala local e contemporânea, estendamos a homenagem a todas as vítimas do massacre do Pinheirinho e aos desabrigados das comunidades de São Paulo, atingidos por mais de 30 misteriosos incêndios. É, a morte não causa mais espanto.

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)