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145ª Leva - 05/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Entre o Rio e a Riviera

 Por Gustavo Rios

 

 

Sou mais um que acredita no poder de uma boa história. E quando falo em acreditar, me refiro àquele tipo de encantamento simples e direto que flui numa boa, num tipo de literatura em que tudo se encaixa e funciona, também de forma simples e direta, de acordo com as escolhas feitas pelo autor.

Considero-me um escritor. Diante disso, declaro ter sido esse o motivo principal (ler uma boa história) que me fez querer ser um. Obviamente, com o decorrer dos anos, e o significativo aumento de livros em minha estante, algumas vezes derrapei na pista. Tentei ser mais “cabeça”, mais sabido, envolvido pelo suposto poder da palavra em detrimento ao que realmente interessa: a vida, no sentido mais franco do termo.

Em vez de seguir reto na boa estrada da clareza, andei pegando uns atalhos. Atitude que, no fim, apenas confundiu os meus pouquíssimos leitores (e não enxerguem ironia aqui). Pois ainda que lhes pareça piegas falar sobre vida, esse é o único fundamento que resguarda e mantém a melhor literatura existente no mundo: Henry Miller, Bukowski, Hermilo Borba Filho e Kerouac não me deixam mentir – só para citar alguns, pois a lista é imensa.

Foi então que percebi claramente: independente da forma usada num texto, precisamos estar ligados ao entorno (a vida, no caso) para que uma obra se mostre verdadeira.

E assim foi e é com Riviera.

Francamente não sei se Rodrigo Melo alguma vez em sua trajetória, que envolve dois livros de contos (Jogando dardos sem mirar no alvo e O sangue que corre nas veias) e um de poesia (Enquanto o mundo dorme), embarcou nessa viagem de experimentar e se perder. Riviera, romance publicado em 2020 pela editora Mondrongo, é a primeira coisa que leio dele. E, ainda que Rodrigo tenha supostamente derrapado em algum momento de sua carreira, coisa que repito não saber, acho que Riviera poderá o redimir. Colocando-o de novo na reta.

Michel Rodrigues, o protagonista, é um cara apaixonado. E o nome dela é Sandra D’Angelo. Sandra, uma poeta (ou poetisa, nunca sei direito) do tipo que curte saraus, praias e outras ondas, depois de viver um romance de verão com nosso herói, na Bahia, acaba voltando para sua cidade, o Rio de Janeiro.

Daí é que Michel Rodrigues, o apaixonado, resolve correr atrás dela algum tempo depois. Munido de um número de telefone, ele pega uma grana com um primo agiota, se despede da mãe, e segue reto, ou nem tão reto assim. É quando o encontramos já na primeira página, num “final de uma tarde de domingo”, sobre a Ponte Rio-Niterói, em que o “asfalto tremulava por conta do mormaço e o céu rebentava em uma mistura de azul claro, cor de rosa e laranja”.

Com base no resumo dos parágrafos anteriores (quase uma sinopse fuleira de Netflix), o autor inicia sua bela jornada. Junto ao protagonista, Michel. Logo, e fazendo jus à tradição dos bons livros que, em essência, se resumem a poucos elementos principais (o amor, as descobertas e uma viagem, no caso de Riviera), mas que crescem e se dignificam no percurso, Rodrigo nos conduz por essa estrada (ou ponte). No que ficamos gratos.

 

Sobre influências

 

Não creio que Rodrigo ficará ofendido se eu disser que John Fante foi uma das grandes referências. Claro, não estamos aqui reduzindo sua escrita a uma única fonte, visto que outros matizes surgiram na leitura que fiz. Entretanto, as semelhanças e as convergências (um tipo de zona comum aos dois em que, suponho, Knut Hansum reside) com Fante são claras.

E isso é bom, em minha opinião. Ainda mais inferindo que a “forma” desse grande escritor não foi aceita de maneira premeditada e infantil, aquela coisa em que o autor imita determinado estilo na cara dura, tentando disfarçar sua incompetência.

Rodrigo Melo escreve bem, muito bem. Por méritos próprios.

Ainda que o Fante tenha tido lá sua importância no chamado “paiol de influências” de Melo, como bem afirmou Marcus Borgón na orelha de Riviera, essa influência, quando surgiu, foi algo que ele soube dosar e aproveitar.

Temos o protagonista incondicional e crédulo, na acepção mais legal das palavras. Temos os diálogos bem estruturados e sem firulas, além de um elenco de personagens marcantes com suas características e particularidades, meio que gravitando ao redor do protagonista em situações e cenários em que Melo se mostra bastante à vontade, num tom aparentemente confessional – suspeito que alguns trechos só puderam existir graças às experiências de vida do seu autor; ainda assim, não posso bater o martelo e dizer que Riviera é uma obra fortemente autobiográfica.

No conjunto do livro existem descrições que se equilibram bem entre a beleza pungente, que define o nosso herói e o mundo que o cerca, e a riqueza de detalhes, que nos coloca dentro de determinada cena sem nunca nos deixar enfadados.

Das ruas de uma cidade em que os “prédios gritavam por conta de tanta história para contar”, aos cômodos de um imóvel pronto para venda, em Riviera nada-nos-agride-e-tudo-nos-agrada (Pignatari gostaria dessa frase). Acompanhar Michel em sua busca, “arrebatado pela vastidão da cidade que se espalhava ao seu redor: maior e mais frenética do que imaginara, mas que, de fato, existia, porque estava bem ali” é uma das formas de confirmar a qualidade do livro.

E essa discussão de termos ou não muito de autobiográfico, me fez lembrar outro escritor estadunidense, o grandioso Nathanael West. Lembrança trazida pelo próprio Rodrigo numa entrevista recente a uma rádio.

West, que se utilizou da própria vida em prol de seus livros, tendo sido um grande observador nos períodos em que trabalhou em hotéis baratos em Manhattan, também pode ser identificado na “realidade” mostrada em Riviera, bem como nas escolhas do autor: para mim, o romance de Melo possui muito da poética e da também famosa carga imagética, tanto no sentido da imagem transformada, quanto no sentido de descrição pura e simples.

Assim, o estilo da escrita de Rodrigo também pode ser comparado ao de Nathanael, de várias formas. Da escolha de um hotel como um dos cenários, local que, nas palavras de um tal Brad Darrach, para West era como “zoos de fracasso, enfermarias terminais cheias de ‘inocentes desmantelados’”, aos parágrafos que, apesar da fluidez, são seguros e bem estruturados, e visam atingir em cheio o leitor, Rodrigo também não se importou em escutar mais essa “voz” – uma das mais aguçadas da literatura, em minha opinião.

Nathanael West, que foi considerado pelo Nabokov (o “pai” da Lolita) um “fenômeno visual”, foi certamente mais uma figura a ajudar o autor baiano em sua escrita. Tanto na questão das imagens que constroem e determinam o andamento de um bom romance, bem como no belo jogo de metáforas, eufemismos e similares. Recursos que embelezam demais a escrita de ambos.

 

Imagética versus poesia?

 

O leve arranhar sobre os trilhos, o pulsar da fera de metal que cortava a cidade com o seu rugido silencioso e veloz. Botafogo, Flamengo, Catete, Glória, Cinelândia, Carioca, Central do Brasil… A cada estação, as pessoas iam se transformando, ganhavam outras caras e jeitos. Em vez de madames e jovens com fones de ouvido, Michel passou a ver office boys, vigias, vendedoras da Avon, caixas de supermercados e toda aquela gente que vivia nas sombras dos cartões postais, enchendo filas, morrendo nas ruas e em corredores de hospitais.”

Grosso modo, a prosa, ao menos a que considero boa, quando contém em si elementos da poesia (eufemismos legais, metáforas certeiras e ritmo), ganha bastante com isso – e notem que essa é uma opinião que se repete em minhas análises. Então, desconsiderando a obviedade terrível do que acabei de escrever, venho pedir desculpas afirmando apenas o seguinte: quando o escritor possui talento e competência, o uso da imagética, da poesia e de quaisquer outros expedientes não põe em risco seu trabalho.

Rodrigo tem a manha. Ele é o tipo de artista que, acima de tudo, enxerga o lado humano na literatura. E o coloca em primeiro lugar, entendendo que uma escrita sincera e direta não deve ser necessariamente tosca e simplória.

Filosofando um pouco durante a leitura, algumas perguntas surgiram em minha cachola: de que adiantaria usar a tal “carga imagética” sem sacar um tanto de poesia? E o contrário disso, daria certo? Como encantar o leitor sem pôr no livro figuras humanas, mas humanas-de-verdade, do tipo que se presta ao salto, à busca e a felicidade?

Não dá para ficar imune à força de um Michel Rodrigues, por exemplo. Bem como não há como fingir que não viu Louis Buade de Frontenac, o francês boa praça, vizinho de quarto de nosso herói, só para ficar no básico de série, por enquanto.

Como já dito antes, o rol de personagens, bem como o uso de seu “paiol de influências”, ainda que lembrem o West ou o Fante, ou qualquer outro, é formado por figuras arrancadas da cuca, da vivência e, com certeza, do coração (arrisco, sim, uma boa pieguice!) de Rodrigo.

No caso de Melo, eu até consigo imaginá-lo numa noite insone, naquele tipo de luta que só escritores bons travam, tentando reescrever, encaixar, fazer surgir ou mesmo comemorando efusivamente uma boa página ou um vacilo de nosso Michel, justamente por esse vacilo conter muito de ingenuidade, sentimento, beleza e, principalmente, busca.

Ter essa imagem em minha mente já justifica esse trabalho.

Suas inserções poéticas são exatas, firmes, sem pieguices nem choramingos. E quando lemos algo que chega perto daquele sentimentalismo barato (que no fundo muitos de nós curtimos), tal trecho ou frase se revela somente um importante mecanismo que visa dar fala e personalidade ao jovem Rodrigues:

“Siga em frente, ó, contrafeito taxista — Michel pensou —, uma vez que todo homem tem direito à glória e estou prestes a alcançá-la. Se quisesse, poderia passar um longo tempo falando sobre a pessoa que encontrarei, não no hotel para onde me leva, pois já é tarde e a felicidade nos força a certas provações: uma admirável e encantadora poeta de nome Sandra D’Angelo, ou simplesmente Sandy.”

Com o trecho seguinte, destacando a parte em que lemos “alma esquiva e saturada”, talvez eu consiga fazer uma boa comparação entre a poética usada para dar voz ao Michel (acima e, digamos, piegas) e a usada pelo narrador para seguir com o livro (abaixo e, digamos, mais madura):

“Era uma morena baixa com os cabelos negros até a cintura. Seus olhos transitavam entre uma malícia dissimulada e algum tipo de tédio ou cansaço, como se o tempo inteiro estivesse prestes a abandonar o palco ou a gritar. Mas ela não gritou, apenas continuou a rebolar e a tirar as peças de roupa, enquanto Tina Charles cantava “Love to Love”. Por vezes, seu gingado não batia com o ritmo da música, talvez rápida demais para o estado de espírito em que se encontrava (…). Ela se agarrou ao poste e começou a girar. Possuía uma boa elasticidade, mas nada parecia muito natural. Somente a repetição de um movimento que aprendeu, a saga de uma alma esquiva e saturada.”

Para encerrar, ainda falando sobre o imagético e o examinando de forma isolada, arrisco dizer que ele embasa e justifica todo o livro – dentro do equilíbrio e da beleza já descritas nas linhas anteriores. Na descrição da cidade ou na cena de sexo num banheiro de escritório, tudo se mostra visceral. Afinal de contas, Rodrigo quer nos falar de vida, antes de tudo.

Diante disso, quem leva a melhor mais uma vez é o leitor.

 

Arco narrativo e tigelas de açaí

 

Considerando o entendimento de que arco narrativo é simplesmente a divisão de uma história em partes ou capítulos (uma ideia simples, apesar do nome marrento), Riviera tem, sim, o seu arco. E ele funciona.

Valendo-me desse jargão (arco), usado largamente para analisar livros e para fundir nossa cabeça nas aulas de geometria, acredito que o risco que todo autor mediano corre ao usar o seu “arco” é o de se perder em algum “ponto da curva” (o “mediano” se atrapalhando no “radiano”?), pois, ainda que os capítulos não precisem ser fundamentalmente lineares, a coerência ajuda no entendimento geral. Seja na trama, seja no estilo, ou mesmo na definição clara da personalidade do protagonista e de todos os outros “participantes”.

Dessa forma, afirmo sem gaguejar que, ao longo dos 25 capítulos, Melo não derrapa nesse quesito.

Do francês à tia amargurada; do corretor de imóveis Aldo Lomma (não sei se uma sutil homenagem ao Alto Loma Hotel, que se erguia “numa colina, lá na crista de Bunker Hill”) à Arlete, Melo segura bem a onda. Na base da simplicidade que busca a fluidez na leitura e a cumplicidade do leitor.

Pois para todo artista, sempre existe o risco do erro, ao se firmar a personalidade e a voz de cada pessoa que habita o seu trabalho, já que muitas vezes nos deparamos com obras onde não identificamos o ponto de mutação de determinado personagem, muito menos a transição de algo que ocorreu com ele. Transição que, “noves fora”, foi somente uma derrapada do artista, no arco, na tangente ou mesmo na reta, certamente preocupado com sutilezas, concretismos e bricolagens.

Portanto, quando numa boa história a forma linear é quebrada sem aviso prévio – o que seria legal quando temos uma proposta adequada e um escritor com moral para tanto -, nos deixando confusos e perdidos, é nessa hora que geralmente abandonamos o livro.

Isso não ocorre com Riviera. Independente da situação ou da ruptura, temos o estilo que se preserva e não nos engana de forma grosseira, mudando somente quando o livro exige, no caso do andamento da trama e das experiências de Michel. Dessa maneira, temos um jovem se transformando, sentindo medo, vacilando feio e devorando tigelas de açaí, além de seguir apaixonado, tentando encontrar a sua poetisa (ou poeta, nunca sei direito) em meio “a complexidade da tal Cidade Maravilhosa”, conforme Kátia Borges citou no posfácio, no que ela também chamou de “mescla de paraíso tropical e pesadelo”.

Como conclusão, digo que Riviera segue seu rumo (ou estrada, ou ponte…), pois não são poucos os que consideram o livro interessante, ainda que, por conta da pandemia e por conta do fato de Rodrigo Melo não residir no chamado eixo, o romance ainda não tenha alcançado o seu devido status.

Status que o deve colocar como um grande lançamento de 2020, no mínimo. Além de colocá-lo também como uma obra belíssima, franca e humana. Bem ao gosto do que todos nós precisamos em tempos tão bicudos, toscos, demorados e doentios.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

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135ª Leva - 02/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Do corpo surrado ao corpo encantado: um drible no precário

 Por Vinicius Gaudêncio de Oliveira

 

 

Talvez se vivencie no Brasil um dos períodos mais difíceis e contraditórios da história do país. Difícil por conta dos ataques sistemáticos à cultura, à educação, às religiões de matrizes africanas, sem falar na precarização da vida, acentuada pela expropriação do trabalhador, esta materializada na ideia de que se virar para ganhar a vida é empreendedorismo; contraditória porque os ataques vêm de governos instituídos democraticamente. Tudo isso toma proporções maiores na cidade do Rio de Janeiro quando o chefe do executivo estadual diz que vai passar de helicóptero por cima de uma favela atirando em quem portar fuzil, desconsiderando que uma boa parcela da massa de trabalhadores lá reside; ou as absurdas afirmações do chefe do executivo municipal quando diz que investirá em creches ao invés de investir no carnaval, como se uma coisa anulasse a outra.

Os problemas de ordem estrutural da cidade do Rio de Janeiro, como a falta de vagas em creche na rede municipal, na qualidade da água fornecida pela CEDAE, na mobilidade urbana, na qual os moradores da Zona Oeste da Cidade são os mais prejudicados, tendo que levar três horas para chegar ao centro da cidade, ou ir espremido no BRT (ou nem mesmo conseguir entrar) para trabalhar na Barra da Tijuca, passando pelos ataques a terreiros cada vez mais frequentes e pela “milicianização” da vida, desenha as linhas de uma Cidade doente e mítica. Diante deste cenário caótico, como pensar a Cidade sem romantizar o precário? O corpo encantado das ruas, de Luiz Antônio Simas, faz isso ao narrar a história de gente miúda que faz “da chibata de surrar o lombo a baqueta de bater no coro”.

Com o título inspirado no livro do João do Rio, A alma encantadora das ruas, que discute as contradições da Cidade com olhar sobre os tipos humanos e sobre a desigualdade social no início do século XX, o autor de O corpo encantado da rua flaina pelas ruas do Rio de Janeiro observando aquilo que contrasta com o modelo de Cidade que se quer europeia. Enquanto João do Rio fala sobre pequenas profissões, músicos ambulantes, mulheres mendigas e pessoas encarceradas, Simas narra história de “capoeiristas, malandros, sambistas, chorões, vendedoras de comida de rua, mãe de santo, coveiros, empregadas domésticas, caçadores de rato” e, não se limitando apenas a isso, conta como essa gente miúda inventa a vida na fresta “dando um nó no rabo da cascavel” e como ela produz cultura “onde só deveria existir o esforço braçal e a morte silenciosa”.

Com um baralhamento de linguagem, ora historiográfica, ora literária (ou encantada?), o autor de Pedrinhas Miudinhas fala de fé, de encruzilhadas e intuições que perfazem caminhos que nos transportam de uma situação aparentemente precária e de desencanto para caminhos de riquezas de saberes e modos de vida geralmente entendidos por alguns como desimportantes. Através de seus 42 ensaios, todos começando por “As ruas” e terminando com “rua”, o craque Simas vai inserindo na gira todo tipo de gente massacrada pelo projeto colonial, pensando a Cidade a partir do mito de origem da Umbanda, que consiste em um culto no qual pretos e índios poderão dar sua mensagem, criando, assim, uma “história a contrapelo”, na qual gente miúda vai contrapor o projeto de identidade nacional de cunho eurocêntrico.

Grosso modo, Simas discute de que forma se dá o movimento do Corpo nos espaços, que são as ruas. Corpo aqui entendido como os elementos menores da sociedade carioca, que não fazem parte da cultura oficial. As ruas são entidades representativas, são lugares nos quais acontecem manifestações diversas. O autor, no ensaio que fala da “Arenização da cidade”, cita a morte simbólica do Maracanã, que teve  extintas a geral e a arquibancada, acabando com “espaços coletivos de movimentação imponderáveis, soluções criativas do ato de torcer, lugares de abraços suados e eventuais porradas”. Porém, cita também uma disputa que mostra que o debate continua vivo ao observar faixas reivindicando justiça: “As faixas para Marielle mostram que o jogo não acabou. Tem gente disposta a continuar disputando as arquibancadas, e consequentemente, a cidade”.

A cidade em disputa, tensionada, que “ama e odeia carnaval”, está o tempo todo nos dando amostra desse embate. Assim como o Maracanã, o Sambódromo, local no qual acontecem os desfiles do grupo de acesso e do grupo especial das escolas de samba, sofre com a “arenização”, tendo sido invadido pela “cultura do evento”, onde se formam camarotes com preços altíssimos que abrigam gente que não está nem aí para o “evento da cultura”. Mas as escolas de samba sabem driblar o oportunismo e preservar suas bases comunitárias. Assim como fazia em épocas de letras de sambas-enredo que falavam da história oficial, mas a batida da bateria era para Oxossi, no carnaval de 2020, o desfile das campeãs teve enredos sobre as Lavadeiras da Bahia, sobre Joãozinho da Goméia, sobre Exus e o Povo da Rua, sobre Elza Soares, sobre Benjamin de Oliveira e sobre um Jesus pobre e negro, todos eles dialogando com a cultura de matriz africana no meio de um lugar “arenizado”, porém “terreirizado”.

Nessa esteira do carnaval de 2020, no exato momento em que a Escola de Samba da Mocidade Independente de Padre Miguel, situada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, passava na avenida, caía uma chuva torrencial no bairro de Padre Miguel, e em grande parte da Zona Oeste, que fez estragos no bairro. Qual a relação entre os dois fatos? Simas diria a máxima de Beto sem Braço: “o que espanta miséria é festa”. Isso é cultura de síncope. O povo precisa gingar para escapar do precário; precisa ter a inventividade do surdo de terceira para sair da previsibilidade. No último carro da escola, passa Elza Soares, homenageada com o enredo “Elza Deusa Soares”, com os punhos erguidos e com os dizeres na parte traseira do carro alegórico: “Nós não vamos sucumbir”. Ao ver a escola passar e o bairro alagar, um delírio duplo tomou conta de quem vos escreve: o do encantamento da Elza Deusa Soares na avenida e do desencanto de quem precisou atravessar a outra avenida (a Brasil) para chegar até a Zona Oeste. Num Rio cheio de contradições, a Escola de Padre Miguel deu o recado: não vamos sucumbir, ainda que tenhamos um ano cheio de quartas-feiras de cinzas, e com ela a dureza da travessia de caminhos submersos pelo descaso.

Embora apenas um ensaio cite um lugar inserido na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a Vila Kennedy, as formas de reivindicar saberes e visão de mundo são genéricas. A Zona Oeste do Rio de Janeiro se configura como um subúrbio com características diferentes como em outros. Nela, conjugam-se favela, milícia, rural com o pior do urbano, que são os engarrafamentos. Com uma linha de metrô no final da Barra da Tijuca e uma estação ferroviária em Santa Cruz, estes dois ramais polarizados são “ligados” por um BRT que contraditoriamente significa Transporte Rápido por Ônibus, do inglês Bus Rapid Transit. Os usuários do transporte público sentem diariamente a precariedade para trabalhar e, registre-se, para se divertir também, visto que aos finais de semana o número de veículos é drasticamente reduzido. Com isso, cria-se um lugar exclusivo para dormitório, no qual brincar é proibido.

Num lugar em que surgiu a “liga da justiça”, que teve apreendidos 117 fuzis em um condomínio de bacanas e com um número cada vez mais expressivo de evangélicos fundamentalistas, surge na “fenda da pedra” o Instituto Onikoja, localizado em Sepetiba, cujo objetivo é preservar e difundir a cultura de Matriz Africana, solidificando os saberes da herança africana. No local, são ministradas aulas de capoeira, oficina de percussão e uma oficina de bonecas africanas Ahosis, “terreirizando” Sepetiba e mostrando que lá tem um exército de guerreiras dispostas a combater a intolerância religiosa. Surgem também rodas de samba nos bairros dominados pela milícia, como em Cosmos, com o samba da Casa Velha Verde, Samba da Aurora, Samba Fulô e Samba da Ingrid, estes em Campo Grande. Com isso, há um resgate da ancestralidade da região, pois “nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidade comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão”.

Samba, futebol, macumba, festas, brincadeiras e Cidade são temas tratados pelo neto da Dona Deda, uma mãe de santo versada no xambá, jurema e encantaria. O babalaô não se acovarda diante de uma Cidade à beira do precipício. Suas reflexões encantadas sobre ela traz à tona não a resistência para dias difíceis, mas a reinvenção da vida precarizada, através de saberes, práticas e visão de mundo daqueles relegados ao nada, fruto da lógica de uma Cidade, que, como diz o autor, foi fundada para expulsar franceses, mas que um dia resolveu ser francesa para esconder suas africanidades.

 

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lucia Fonseca

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Manhã

 

Naquela madrugada de encantamento e lenda, naquela madrugada atravessada de sombras e presságios, Rosa acordou antes de todos. Abriu os olhos ainda nas trevas absolutas do primeiro galo e, só depois de escancará-los no escuro e permanecer um instante com o coração aterrado e os ouvidos à espreita, é que escutou, muito longe, o lamento da primeira sereia. Talvez porque, ao longo dos meses que antecederam o prodígio, ela tivesse se habituado a aguçar os olhos e ouvidos e perscrutar o coração em busca de vozes e sinais. Porque, desde os primeiros tremores da natureza, foi sempre ela a única a perceber que eram avisos:

“Começou aqui em casa. Pus o leite para ferver, lembro muito bem, não tinha dormido quase aquela noite, as janelas estremecendo, sacudidas por um vento ruim, e me distraí varrendo o quarto. Quando voltei para a cozinha, corri direto ao fogão, vi da porta que o leite já ia derramando, o balão estufado e branco transbordando da panela. Mas logo percebi que não derramava, alvo que nem camélia, a pele cada vez mais fina e esticada, em vez de branco era assim quase transparente, por pouco não se desprendia em direção ao forro. E quando, num susto, arredei a leiteira da chapa, ele afundou tão depressa, as pétalas de magnólia murcha mergulharam, macias, e uma gota grande respingou no seio esquerdo, é essa marca de queimadura e aviso que tenho até hoje. Em cima do coração.

Nessa mesma semana, começaram a aparecer as formigas. Nas primeiras horas eram poucas, achei uma na minha cama, outras em cima da mesa, rondando o açucareiro. Logo eram fileiras engrossando, jorravam de todas as frestas da casa, centenas de milhares de formigas mansas. Também começou aqui, mas em seguida espalharam-se pelo povoado. Apareciam nos jardins e quintais, não tocavam em nada, em planta nem bicho, algumas subiam num voo cego e tonto, voo pesado de bicho da terra, sem vocação de asa, já reparou que formiga voa diferente de pássaro e borboleta? Morcego também, parece que ele guarda no ouvido o guincho do tempo em que foi rato. Por isso voa espantado. No terceiro dia, a doença da terra se alastrou ainda mais. E cada fresta, cada fenda, cada buraco, por toda a vila, regurgitava golfadas negras de formigas. Até que não houve pedaço de chão ou parede que não estivesse coberto delas. Tentaram veneno, tentaram querosene e fogo, só serviu para matar os ratos e cachorros da vizinhança, as formigas aumentando sempre. E então resolvemos esperar.

A terra passou sete dias vomitando insetos e, então, na tardinha do último dia, fui ao quintal procurar uma abóbora e elas tinham desaparecido. E pelas mesmas fendas e frestas começou a soprar o Terral insistente que crestou o capim, levantou rodamoinhos de pó na estrada, chamuscou as árvores e deixou o mar transformado numa chapa de aço polido onde se refletia, duro, o branco das nuvens mormacentas. A lagoa, ao contrário, encrespou-se toda verde, e subia dela o bafio de enxofre do lodo revolvido.”

Quando começou a rondar o sudoeste, cheirando a tempestade salobra, Rosa correu ao quintal. E enquanto recolhia a roupa, olhou para os lados do mar. O vento soprava agora do fundo dos seus abismos gelados, levantava as ondas em verde e branco, espumando. Só no horizonte, uma faixa clara ainda iluminava uns restos de dia. Para cima, os rolos de nuvens que vinham empurrando o vento e rebocando a noite já se espalhavam numa frente que escurecia o céu. Nesse momento estalou o raio, Rosa persignou-se, chamou Santa Bárbara e sentiu no ombro direito a primeira gota de chuva. Soprou outra rajada de vento e ela ouviu ao longe a algazarra dos homens recolhendo as redes e fugindo para casa. E o último grito de pássaro rasgou os ares.

Choveu seis meses. E o mar fervilhou de peixes. Os homens não se aventuravam a sair de barco com medo de perder o rumo no meio dos aguaceiros e cortinas de névoa, ou estilhaçar os cascos de encontro às ondas de vidro. Mas iam todos os dias à beira da praia buscar as corvinas e tainhas que a maré deixava pulando na areia. Quando a coleta era pequena, andavam até a restinga e, debaixo da chuva, jogavam as redes e recolhiam à flor das águas os cardumes que entravam barra adentro.

Durante cento e oitenta dias os peixes desfilaram numa procissão serena. A lagoa chegou a ficar tão cheia que cheirava a peixe, e os meninos esbarravam nos lombos frios quando iam se banhar debaixo do temporal. Do canal, transbordavam vez por outra para as ruas e, num dia de enchente, desfilaram como num aquário em frente às vidraças das casas mais baixas. Nos meses seguintes era comum acharem-se conchas, estrelas do mar, restos de sargaços e medusas nos canteiros da praça. E um polvo foi encontrado nadando dentro da cisterna do armazém.

Choveu seis meses e todas as casas mofaram. Não houve teto, parede ou chão que não amanhecesse com desenhos de borboletas e pássaros infiltrados, castelos de bolores esverdeados, teias de filamentos lívidos, serpentes e dragões de óxidos alaranjados que avançavam mordendo os canos. Nas primeiras semanas, as mulheres se esforçaram numa guerra sem quartel, varrendo, esfregando, polindo. Mas no fim do segundo ou terceiro mês, perceberam que não adiantava lutar contra aquela flora que ameaçava invadir-lhes também os ossos e convenceram-se de que já era uma boa fortuna manterem os cabelos livres de algas, a pele lisa e os dedos enxutos. E em cada cozinha ardia um candeeiro durante todo o dia, à volta do qual costuravam e preparavam o alimento, e cuja luz orientava a volta de seus homens.

Na última noite do sexto mês de trevas, Rosa acordou com um silêncio pavoroso alastrado nos ouvidos. Acostumada ao ruído constante das águas caindo, fossem os tamborins da chuva miúda, ou os surdos tambores da chuva grossa, fosse a peneira do chuvisco ou o rolar do temporal, aquele silêncio de faca penetrava-lhe os ouvidos, abria um clarão assombrado, ofuscava como luz cegando um olho habituado à penumbra. Em seguida ouviu longe, como um navio distante, o lamento da primeira sereia. Pedro dormia ao lado, e ela empurrou as cobertas com cuidado e calçou os chinelos. Fora, o ar estava fresco e leve, levantou os olhos devagar, e devagar girou a cabeça e olhou para cima. E nunca vira tantas estrelas juntas, tantas, tantas, a Via Láctea inteira, caminho de leite no céu. Estrelas riscavam o horizonte e caíam no mar, acendendo espumas frias.

– Acorda, Pedro, olha, vem ver o céu, vem, escuta o chamado das buzinas, pode ser um navio perdido, vamos à praia, anda, as outras casas estão se acendendo, olha, todo mundo nas ruas… – Rosa, parou de chover?  O que foi? – Tanta estrela, o chão está fresco e cheio de frutas, dá a mão, vamos, não precisa se vestir, olha a Deolinda de camisola, põe uma toalha nos ombros, vem Pedro, vamos pra ponta do farol olhar o mar.

E quando chegaram, já os botos vinham em bandos, gritando e pulando, e atirando-se, cegos, na praia, em busca dos homens. Não havia naufrágio no horizonte, mas as sirenes chamavam, e todo o povoado se reuniu no promontório. E Padre Salustiano benzia as águas agradecendo a provação passada, “…e não faltou peixe para estes homens, e a chuva passou e agora Deus nos mandou de novo um céu cheio de estrelas…”

Mas não se ouvia a voz do Padre, as sereias cantavam mais alto, os botos espadanavam água e espuma e as estrelas caíam em chuveiro. E quando um menino com olhos de sonâmbulo quis se atirar no mar, foi Rosa quem segurou. Logo fez-se um cordão dos homens mais fortes. E, sem que o Padre mandasse, ela se benzeu e caiu de joelhos, depois o menino, e uma a uma as mulheres e crianças, e depois os homens, todos se benzeram e ajoelharam-se rezando.

Não se sabe quantas horas ficaram assim imantados, entre o sortilégio dos ouvidos e o murmúrio das rezas, o fascínio dos botos e o cuidado de conter os encantados. Mas a força de todos segurou cada um. E os que olharam para o alto viram: um Anjo se despenhou do céu, muito branco e leve, cisne e homem de alvas asas, todo plumas. O Padre falou que foi invenção, cuidado com o sacrilégio, mas nós vimos, os botos já se aquietavam e regressavam em fila para o fundo; e as estrelas se apagavam num céu lívido de espanto. O Anjo se despenhou do alto e as águas se tingiram de vermelho. E as sirenes se calaram todas de uma vez.

 

E então era o Sol no horizonte.

 

Lucia Fonseca nasceu no Rio de Janeiro, em 1940. Começou a escrever regularmente no início da década de 70, publicando poemas em suplementos literários de alguns jornais.Dentre outros livros, são de sua autoria:“Invenções do silêncio”, pela Livraria José Olympio Editora, “Rede fluvial”, ainda pela José Olympio,“Cadernos de geografia”(Editora Mitavaí), “Confissões de penumbra” (Ed. Rosa dos Tempos/Record), “Cantares”e “O paraíso era antes” (estes dois últimos pela Editora da Palavra). Mantém o site Vestígios.

 

 

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96ª Leva - 10/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Um escritor e a força de sua obra. Nada melhor do que a conjunção desses dois componentes para conferir sentido a qualquer tentativa de desferir linhas a respeito de um criador. E não há dúvida de que o motor da leitura é a gênese de todo o processo criativo, bem sabemos. No caso de Anderson Fonseca, o que ousamos denominar por propriedade narrativa vem dotado dessa noção primeira de que um autor, em matéria de escrita, é parte integrante e viva daquilo que lê. Mas eis que isso não basta e, no caso específico de Anderson, um aspecto chama atenção em especial: o domínio sobre a condução das histórias.

Como todo percurso autoral impõe sabermos de suas epifanias, nada melhor do que abordarmos alguma essência que perfaz obras. Com o vigor de quem cria mundos paralelos, reforçando dimensões possíveis do humano, Anderson Fonseca estreia em livro com os arremates densos de “Notas de Pensamentos Incomuns”. Naquele instante, fica claro para quem lê que o território complexo e instigante do realismo fantástico irá marcar a trajetória do autor com pungência. Nesse primeiro momento, além de vislumbrar dimensões paralelas ao mundo tangível, Anderson mergulha de cabeça na vastidão de mistérios que nos atravessam. Mais tarde, a capacidade inventiva e o controle sobre as estratégias narrativas vêm somar esforços e, ainda com o encantamento proporcionado pelos ímpetos do fantástico, surge “Sr. Bergier & Outras Histórias”, livro cujo tom confessional e quiçá epistolar envolve o leitor e o conduz como testemunha dos acontecimentos minuciosamente relatados.

Hoje, o momento que marca essa entrevista feita com Anderson aponta para uma outra faceta importante do escritor, qual seja a de não passar impune sobre os imperativos de seu tempo. E ele o faz, impregnado de lucidez e sensibilidade, quando oferta ao mundo seu mais novo rebento, “O que eu disse ao General”. Os contos presentes ali encerram uma atmosfera de resistência e poesia, através da qual a voz do autor se insurge contra a tirania universal, que não se restringe àquela associada a determinados personagens da história do mundo, confinados a contextos geopolíticos, mas sobretudo aos pequenos grandes delitos do cotidiano que protagonizamos. Diante desse rico painel de constatações, esse carioca que hoje reside em Brejo Santo (Ceará), expõe um pouco de si numa conversa regada fundamentalmente aos sabores proporcionados pela Literatura.

 

Anderson Fonseca
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – “O que eu disse ao General” é uma obra que, fazendo alusão a figuras e situações históricas, rompe barreiras e se situa num plano bastante amplo, capaz de dialogar com práticas cotidianas tão nossas. Diria que o livro pode ser também entendido como um levante contra a tirania sob as suas mais variadas formas?

ANDERSON FONSECA – Eu diria que sim. Mas a questão central em relação à tirania é a opressão do Estado sobre o indivíduo. O indivíduo, ao abrir mão de seu poder e doá-lo a outro, permite que este, seja quem ele for, oprima sua liberdade, seu desejo, seu erotismo. Quando o Estado decide e age em vista de reforçar essa liberdade (o erótico, a fruição do corpo movente no espaço), estabelece-se uma harmonia. Quando não, surge a opressão do poder e a morte. A realização do indivíduo está associada intimamente à Vida em sua plenitude Erótica. Os conflitos que assisto pela TV são uma negação do erótico, da afirmação da vida.

DA – A frágil liberdade que gozamos, sobretudo numa era de abundante informação, faz parte de um ciclo transitório ou dificilmente seremos livres para conjugar pensamento e ação?

ANDERSON FONSECA – Enquanto o homem tiver certeza, ele será escravo de qualquer ideologia, sofisma, dogma. É necessário, para que haja uma liberdade efetiva, de forma pragmática e não conceitual, que a dúvida se torne um exercício do pensamento. Para ser mais claro, o homem é escravo de suas certezas, porque estar certo de algo é mais confortável ao espírito. Entretanto, quando a incerteza emerge no pensamento, o homem com todas as suas forças, temendo a verdade, ergue contra este terrível “monstro” as mais fortes muralhas dogmáticas, as quais são reforçadas com novos dogmas. Não ter certeza, contudo, seria a plena liberdade, pois a incerteza em sua essência abarca qualquer afirmação autoconsistente, ela não rejeita e não invalida, apenas desconfia. Entretanto, para que a dúvida se torne pragmática, a mudança deve partir da educação presente nos sistemas de ensino, deve partir de sua principal base, o professor. O mestre, hoje presente nas escolas, ou defende sua fé religiosa, ou seu ateísmo, e ambos levam como fundamento de suas certezas os livros sagrados ou a ciência. O mestre, antes, deveria exercer a dúvida para que o aluno escolha seu caminho e, em sua jornada, respeite outros caminhos. Hoje, além da religião e ateísmo, em que seus defensores tomam como referência livros de autores cujas culturas e visões são reféns do tempo, surgem os fiéis da mídia. Vejo muitos crentes da internet e que a usam como meio de propagação do ódio, intolerância, preconceito contra a diferença. Eles não têm dúvida. Não tenho fé e nem por isso não tenho paz de espírito. Meu pensamento é uma porta aberta para outros pensamentos. Busco exercer a dúvida como uma forma de abertura para outras percepções. E, enquanto houver crentes a defenderem com armas seus dogmas, haverá guerras e massacres. Enfim,acho que a dúvida é chave para a tolerância e a liberdade.

DA – O cenário de tensões presente em “O que eu disse ao General” vem também revestido por um manto poético.  Nessa perspectiva, o exercício da subjetividade entra em cena e conduz as narrativas num contraponto às situações extremas ali relatadas.  O que dizer desse tão vigoroso recurso?

ANDERSON FONSECA –Escrevi essa obra mergulhado em um insondável silêncio, durante a noite,para ouvir apenas as palavras que sussurrariam em minha mente. A poesia, segundo Bachelard, “é um olhar silencioso que suprime o mundo para fazer calar seus ruídos”. A guerra é um ruído em nossa realidade, a melhor forma de entendê-lo é silenciando sua voz para que as imagens sobressaiam. Se o ruído fosse permitido a invadir as letras, as palavras não se fariam ouvir. Bachelard ainda escreve que a poesia “deixa vivo, sob as imagens, o silêncio atento”. O silêncio emergiu no instante em que, vendo as imagens da guerra, não poderia ser narrado como era diante dos olhos, mas de outro modo, como um símbolo do homem, de sua decadência moral, metafísica e política.

Eu poderia ter escolhido outra forma, mas essa forma não corresponderia à necessidade que a minha alma buscava.A linguagem escolhida é um reflexo dos conflitos internos que eu sofria naquele momento. Essa mesma linguagem não é somente um reflexo, mas a expressão máxima de meu espírito. Eu deveria dizer daquele modo, porque de outro, estaria me traindo.

DA – De algum modo, escrever é um ato de redenção?

ANDERSON FONSECA – Sinto certa repulsa com palavras cujo significado é teológico. A palavra redenção inevitavelmente me remete ao mito messiânico da religião judaico-cristã. Quando termos como esse são aplicados à Literatura, fico apreensivo. Não consigo ver a Literatura com uma ótica teológica e evito termos que carreguem esse sentido. Creio que o escrever não é a expressão do pensamento, mas seu construtor. Acho equivocada aquela frase do Descartes: “penso, logo existo”. Descartes não faria tal afirmação se não fosse pela linguagem, ou seja, a linguagem constitui o pensamento, o elabora. Em seu lugar, eu diria: “escrevo/falo, logo existo”. Portanto, no instante em que me debruço sobre o papel, pego a caneta (não tenho o costume de escrever primeiro no computador) e traço a primeira frase, estou aprimorando meu pensamento, estou o construindo.

DA – Em “Sr. Bergier & Outras Histórias” você transita pelo instigante e complexo território do realismo fantástico. Que desafios engendram essa sua vertente criativa? 

ANDERSON FONSECA –Creio que o realismo fantástico não seja tão fácil para trabalhar, porque é preciso distorcer a realidade para revelar sua natureza oculta. Penso em Murilo Rubião, que obsessivamente revisava seus contos até a exaustão, penso em Ivan Bunin, outro obsessivo pela revisão de suas obras, e Buzzati, mais um obsessivo. Nunca me sinto satisfeito com o texto, e confesso que me sinto mais feliz enquanto estou escrevendo, mas, depois que o conto é publicado, fico melancólico e frustrado, pois passo a pensar que poderia estar melhor, e aí começo a revisar. O maior desafio é encontrar o argumento adequado para a ideia, e nem sempre é fácil. Depois se inicia a luta com a palavra até o ajuste final. É claro, tudo feito com bastante humor. Lembro que Flaubert escreveu: “eis o que a prosa tem de diabólico, ela nunca está terminada”. Flaubert foi outro autor obsessivo na tentativa de conciliar o significado que a palavra carrega a uma forma proporcionada pela literatura. Acho que é a luta de todo autor.

DA – Essa, digamos assim, angústia criativa é capaz de impactar radicalmente as suas convicções de autor?

ANDERSON FONSECA –Sobre esta questão colocada, eu diria que se trata da história de uma ideia. A ideia que tenho para um conto não surge do nada, mas contém em si uma história, ou seja, uma relação com outras ideias apanhadas de diversas leituras, essa história que a ideia carrega consigo, que a estrutura, eu não posso negar, mas admiti-la. O que acontece comigo é que esta ideia será reformulada, assumirá um novo sentido em outro contexto (forma). Nesse sentido, eu reinvento a cadeia de ideias que construíram esta última, quando atribuo a ela um novo formato, o qual é a narrativa em que ela se reflete. A dúvida, portanto, de se estou sendo original ou não, não me preocupa. Acho importante o diálogo de uma obra com outra, até porque a própria história em si é uma sucessão de ideias.

Quando se escolhe ser escritor, trazemos conosco a glória e a miséria. Depois de sermos escritores, apenas o texto carrega nossa glória e felicidade, tudo demais se torna miserável. Tornamo-nos miseráveis financeiramente, no amor, na amizade, na vida e na saúde. A certeza que temos é que a obra viverá. Eis a condição que assumimos: sacrificamos as demais coisas (efêmeras)pela perenidade da palavra, e então nos tornamos miseráveis. É como um deus que assume a forma humana, despindo-se de sua glória para sofrer as vicissitudes do tempo. Ele se torna miserável para que sua palavra dure pelos séculos vindouros. Não há glória em ser escritor, a glória pertence ao texto.Por isso, a humildade diante do Mundo e do Verbo, o qual veneramos.

Anderson Fonseca
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – Partindo da ideia de que tudo sempre esteve no mundo, o que confere mais propriedade à obra de um autor?

ANDERSON FONSECA –Se tudo sempre esteve no mundo, se tudo é eterno, se a existência é simultânea ao espaço e ao tempo, o que resta ao autor?As imagens, porque elas surgiram quando o homem surgiu, pois são o fruto de uma relação sujeito/matéria. Lembro-me de uma parábola do profeta/poeta Jeremias. Um dia, Jeremias desceu as escadas da casa e viu o jarro de um vaso quebrado. O oleiro pegou o vaso quebrado, trabalhou o barro, e reconstruiu o vaso. O vaso já estava ali (a forma), assim como o barro (a matéria); foi necessária, contudo, a visão (ideia) de um artista para (re)modelar o barro e dar-lhe a forma imaginada. A matéria preexiste, mas o artista a destrói (destrói seu signo), refaz (atribui-lhe outro significado) e doa-lhe a forma que lhe “parece bem aos olhos” (Jeremias 18:4).

Se tudo já existe, se a matéria sempre existiu, a propriedade do autor encontra-se no modo como ele trabalha as imagens, como ele atribui a elas um conteúdo, uma relação de sentido. Este molde é um reflexo do sujeito criador, do indivíduo.

DA – O modo como você articula as imagens é fundamental na percepção de um livro como “Sr. Bergier &Outras Histórias”, algo que promove aproximações com a linguagem cinematográfica. A sétima arte é um universo de referências que lhe atrai conscientemente?

ANDERSON FONSECA –Não, sou atraído mais pelas histórias em quadrinhos como as da editora Vertigo e DC Comics. O que me atrai nelas é a ciência vista como uma fantasia humana. Além disso, o enquadramento e a sequência de ação e diálogo me chamam bastante a atenção. Nos últimos meses, por exemplo, tenho lido Planetary e O Inescrito, duas revistas esplêndidas.

DA – O quanto a sua feição de educador reflete no seu olhar sobre a literatura? Você busca pontos de convergência?

ANDERSON FONSECA –Ser um educador é um imenso desafio.Diariamente, nos confrontamos com realidades mais absurdas que a ficção, realidades que nos põem a indagar sobre a estupidez humana, como também sobre sua graça e beleza. Estou em confronto com a realidade a todo instante. Minha literatura é uma forma de devolver o soco que recebo. Quando estou em sala de aula, além de ensinar a língua e sua poética, busco apresentar o campo de batalha que é a vida. Saio com a vontade de socar o mundo, e aí a palavra carrega em sua força o soco devolvido. Meus alunos sentem a mesma vontade, mas é através da escrita que eles, como boxeadores, nocauteiam o mundo que os aflige.

DA – Somos um país de potenciais leitores subestimados?

ANDERSON FONSECA –Somos um país de leitores e autores subestimados. Vivemos ainda a velha frase de Lautréamont: só os poetas leem poetas. Só escritores brasileiros leem escritores brasileiros, ou só os escritores brasileiros se leem. Esta frase necessita sofrer drásticas mudanças, porque ainda hoje, embora se veja uma grande produção de livros de autores nacionais, não existe projeto de distribuição desses livros para atingir os leitores brasileiros, de forma a disputar de igual para igual com autores estrangeiros. Percebo a juventude brasileira cultuar estes autores estrangeiros, e menosprezar alguns autores nacionais (nem todos, há quem escape). Isso precisa mudar.

DA – Na sua opinião, de que forma podemos alterar esse cenário?

ANDERSON FONSECA –Não sei como alterar esse cenário, sinceramente. Trata-se de algo enraizado em nossa cultura. Talvez devêssemos começar pela educação, atualizando os professores a respeito dos autores brasileiros da geração 00 até os mais recentes. O professor é o canal certo para atingir leitores jovens e famintos de obras boas, mas se eles não estiverem atualizados e propensos a conhecer o cenário atual, os alunos muito menos estarão.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

ANDERSON FONSECA –A questão “pós-modernidade” é ambígua.Quando a ouço, sinto-me lançado contra a frase de Rimbaud: “é preciso ser absolutamente moderno”. Ter uma posição a respeito da pós-modernidade deixa-me estranho, pois não sei claramente o que é. Mas quando se fala em mercantilização da arte, penso isso ser necessário, porque a arte é uma forma de mercadoria. Nessa ótica, o livro é um produto que deve ser vendido. Entretanto, o artista não pode se despersonalizar e se tornar ele uma mercadoria, isso leva a uma descaracterização de si mesmo, de sua obra e arte. Não endosso, portanto,  que escritores que hoje assumem uma postura diante de sua obra e arte, amanhã, depois da fama, mudem essa postura.  A crítica deve desvincular-se um pouco do jornalismo que, em geral, direciona o discurso a favor de certas obras de duvidoso mérito. O artista deve abandonar a República, porque ela não o quer dentro de seus muros.

DA – “Notas de Pensamentos Incomuns” marca sua estreia em livro. Depois disso, vieram os outros dois que mencionamos anteriormente por aqui. Diante desses percursos, quem é hoje Anderson Fonseca e quais marcas traz consigo?

ANDERSON FONSECA –Sou um homem mais paciente  graças à palavra.  E graças à literatura conservo alguns sonhos, mas percebi, ao olhar para o mundo, que todo bem só existe em sua relação com o mal e, diante disso, não há utopia, tenho que aceitar a realidade como ela é.Valorizo, hoje, a simplicidade, a beleza e a elegância das palavras e das coisas. O universo é deslumbrante e fico pasmo ao olhá-lo.  Desde o momento em que passei a olhar o universo com os olhos do poeta, deixei o medo para trás e comecei a ter esperança.