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150ª Leva - 05/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Isadora Pessoa

 

Foto: Yuri Bittar

 

síndrome de circe

 

Por baixo da face lisa e superficial das coisas, 
há outra que aguarda para rasgar o mundo em dois 
(Madeline Miller)

 

 

por trás de um rei ou governante
há sempre seus conspiradores

dentro de um cavalo………. já coube
[disseram]
a queda de uma cidade

………………………….no focinho subterrâneo de um panteão
rela,,,,,outro ………………..adormecido
………………………………….mas não vencido
…………………….e por trás de um olimpiano
-quem sabe-uma titânide….com planos insondáveis

….dentro de uma horda de porcos
pode habitar uma comitiva de tripulantes
em lenta metamorfose anacrônica

a história se repete …..veja bem
se repete…..se repete…..se repete
….. ….. ….. ..só não se repete mais
do que os homens…..e os deuses
….. ….. ….. repetem a si mesmos

 

 

 

***

 

 

 

devagar

 

com o pensamento em Ana C.

 

troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
………..por outro

………..a pele
………..por outra

flor

escrita nas imediações
…………….das catástrofes naturais

 

 

 

***

 

 

 

prece para acelerar o fim do mundo

 

senhor, fazei com que eu evite a caixa. eu quero abri-la.
quero abrir, mas não posso.
penso que há qualquer coisa de luxuriante em caixas
e não sei o que fazer com as minhas mãos

senhor, que eu mantenha distância segura.
que eu mantenha as minhas mãos longe dela. da caixa.
de dentro vaza um zumbido,
como se vespas estivessem esperando
apenas uma breve oportunidade para escapar.
a caixa é quadrada e hermética,
como um experimento de Haldane.

peço que eu mantenha as minhas mãos pousadas sobre o colo.
mas, senhor,
os meus dedos passeiam pela caixa,
pela rugosidade de sua tampa, por seus sulcos e reentrâncias.
sinto que são sinais, símbolos que não compreendo.
não sei decifrar.

ela queima ao toque, a caixa.
no seu verso há uma inscrição onde lê-se:
“propriedade de pandora.
abra por sua própria conta e risco”.

senhor, fazei com que eu não abra a caixa.

sim, sei que vou abrir.

 

 

 

***

 

 

 

duas árvores

 

a árvore relembra …..o tropismo
primordial……do broto pela luz

como a madeira antecipa tambémna lenha
a brasa …….. e o metal deseja no fogo….a forja

 

 

 

***

 

 

 

primavera autocrata politeísta apocalíptica

 

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
………e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
……………..anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.

 

aqui nos movemos
………..na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
os holofotes
e apreciem
aquilo que cresce e goteja
úmido entre as frestas.

 

 

 

***

 

 

 

jantar com panteras

 

estar com você e seus comparsas
era como jantar com panteras
a consciência
do risco
sempre presente
nos dentes faiscantes
um gesto em falso
[ um movimento abrupto ]
e o cardápio muda de direção

estar com você
como quem observa
a barba de um homem
crescer
o milagre de uma barba
a barba deste homem
despontar
ao longo do dia
e das semanas
no aprendizado de um tempo outro
[ um tempo medido na grandeza
de capilares quebrados e brotos
recém rompidos
de sementes
e afluentes
um tempo medido
na velocidade de gotas
forjando um novo estuário ]

estar com você, criatura dupla
habitante de dois mundos
o estuário….o mangue….a encruzilhada
metade homem metade cavalo
no galope compassado dos alagadiços
entre juncos cobertos de sal e mel

você me interrompe
e diz ‘ela não gosta de leite vaporizado’
é preciso que seja líquido
‘também não sou fã de expresso’

amor é quando eu o observo
do outro lado
diretamente do mundo dos mortos
a reler todos os meus livros
mesmo os digitais
memorizando
cada passagem sublinhada
criando um novo texto
no qual reconta
a história da minha morte

 

Rita Isadora Pessoa é uma escritora nascida no Rio de Janeiro. É Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e doutora em Literatura Comparada (UFF). Publicou em 2016 seu primeiro livro de poemas, “A vida nos vulcões”. Foi vencedora do Prêmio Cepe Nacional de Literatura 2017, com o livro “Mulher sob a influência de um Algoritmo” e seu terceiro livro, “Madame Leviatã”, foi lançado em 2020 pelas Edições Macondo. Participou da antologia organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, “As 29 poetas hoje” (Companhia das Letras, 2021).

 

 

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113ª Leva - 07/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Isadora Pessoa

 

renata-ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

“a paixão segundo”

 

mordo e observo partes duras
movendo-se na oscilação entre
luminosidade e desaparecimento.
mordo,
em busca de algo que reflita luz, sem
pontos de interferência, sem
sobreposição de planos sensoriais,
essa sinestesia opressiva que anuncia
que toda alegria é temporária.
ando mordendo a ponta dos dedos,
mordendo as páginas estrategicamente
abertas
e a essas alturas do quase verão
do rio de janeiro,
eu preciso de neve como quem precisa
acordar de um sonho excessivo,
lindo sim, mas
com a beleza descomunal
dos colapsos e vulcões despertos.
tenho sentido uma compressão lenta
da alma, como se estivesse me tornando
uma pessoa pequena aos poucos, diminuindo
milímetro por milímetro, ainda assim
mantendo as proporções,
como uma anã liliputiana de Rosa Montero,
aguardando o eventual desaparecimento.
“é um engano”, é o que você diria,
e eu ainda estou esperando,
estou esperando que você me diga
“sim, você está enganada”, mas eu não estou.
sim, pequenas surpresas ardem na virada do dia,
mas não estou enganada quanto a isso:
hei de inventar um outro nome para isso que morre
na virada do dia e renasce bicho difuso, ainda sem
penugem, sem consciência
da metamorfose que guarda em si.

 

 

 

***

 

 

 
“síndrome de estocolmo”

 

[ …..isso é o ensaio de algo?…… ]
, você me pergunta na porta
………..do quarto – os hiatos
em meu discurso abertos à tua
observação, ao teu toque ruidoso.
…….centro ….e margem dispostos,
como num jogo de tabuleiro
e eu peço um tempo para responder,
pois não sou boa com cenas, com cri-
anças ou fogões, você sabe e sorri teu
sorriso netuniano. eu meio que desvio
o olhar e busco, nas paredes de cal,
por um orifício, um traço que turve
………o teu corpo solarizado, bruto,
logo você me pergunta, irisado
de repente:
[….. mas isso, isso tem nome?….. ]
……………..não, eu digo.
volto-me para a cama, desolada, pois
estes lençóis freáticos de crisálida
…….em desalinho, desaguam
…….no mar
…….e não retornam jamais.
………………………e esse é o ponto angular
da tua célula terrorista, amor,
cá estamos a lutar pela terrível liberdade
de bater os dentes , tremer de fome,
sede, amor,…………………. hipnotizados
[…. e agora, ainda é um ensaio? ….]
…………….pela oportunidade
de morrer, amor,
de morrer de medo.

 

 

 

***

 

 

 
“nascimento de vênus”

 

 

……primeiro
……………hei
……de lavrar
esse teu mar
guardando
……..na terra
.o que funda
……..o seco

…….é preciso
toda uma era
para indicar
….o nascimento
…………..da ilha
………..e seu eixo

…..imprimo
de ….leve
na tua imagem
.ossos inteiros
…..e tua dupla
Exposição
…..emerge
…….óbvia
..tal qual paleta
…..de cores
….primárias
no auge do verão

cai a tarde
e circulam
..silêncios
como aves
em torno
…….de um
coração
que parte
…..à vela

inteiriço
………ainda que
……curvo

 

 

 

***

 

 

 

“diário do ano da cabra”

 

{caro centauro}

 

decidi ignorar
solenemente
o som de seus
…………cascos

soterrar
essa mulher
de mistérios
alagados
bárbaros

porque isso
NÃO É
um poema

porque o ano
da madeira
[suas lascas
goivas foices]
termina aqui

~lembre-se
de que isto
não é um poema~

………………é que
………………morrer
d.e.v.a.g.a.r.i.n.h.o
……exige fleuma

delicadeza suprema
.uma certa finesse
..que não possuo
…………………:….não é
…………………..fácil cair
…………em…. câmera …. lenta

 

 

 

***

 

 

 

“dos rumores que se instalam”

 

….não posso dizer que
..ignoro com seriedade
a consciência do medo
……………nas gengivas
e a eletricidade que alimenta
o corpo venoso brutal
da vergonha porcamente
equilibrada nos joelhos.
………como é possível
que a despeito de tudo
………as gentes sejam?
que sejam com pavor,
e dentes caninos a mostra,
……………..mas que sejam.
a mim, é impossível
deslizar com graça
por essa existência
de pequenos naufrágios
de impossibilidades rotundas
de quebra-mares.
ouço um fino assovio
…………..que assegura
o cativeiro de muitas feras
nos porões deste navio
……..e sei dos rumores
instalados, pesando sobre
grossas cordas e velas içadas:
o coração batendo vivo
no fundo desta caixa.

 

Rita Isadora Pessoa nasceu no Rio, em 1984, é graduada em Psicologia e não graduada em Estudos de Mídia. Estudou a poeta Sylvia Plath, no mestrado em Teoria Psicanalítica (UFRJ), e é atualmente doutoranda em Literatura Comparada (UFF), onde estuda o duplo em sua modalidade animal. Trabalha como tradutora, revisora, astróloga e taróloga. Seu primeiro livro de poesia, “A vida nos vulcões”, foi lançado no final de agosto de 2016 pela Editora Oito e Meio.