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118ª Leva - 03/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

A busca de si e as formas fixas, a Mecânica Aplicada de Nuno Rau

Por Roberto Dutra Jr.

 

Veio o pós-modernismo e nós nos fragmentamos em tantos pedaços quanto uma tela cubista comporta. Surgiu a world wide web e nos fragmentamos mais ainda em avatares e perfis, redes sociais, raves cibernéticas e encontros virtuais. Uma nova realidade abraça a todos nós e a cidade em que circulamos circula em cada dispositivo móvel em níveis que nos viciam sugando o nosso tempo como vampiros instalados nos chips.

Estas imagens e outras povoam irremediavelmente a minha mente quando carrego as páginas de Mecânica aplicada, o novo livro de Nuno Rau, que saiu recentemente pela Editora Patuá. Façamos o reload.

Nuno Rau faz uma mescla de imagens e narrativas versificadas, surgindo rápidas como flashes entre um fluxo de consciência que também engloba samplers de outros poetas e compositores. A desapropriação de um verso alheio é a identidade de um novo poema. O indivíduo entre estas páginas, que vaga numa polis cyber-punk perdeu as ilusões e dialoga ora com um outro, que pode ser ele mesmo ou um sampler de um poeta (ele mesmo se constrói? Ou uma voz do cânone?). Não temos certeza de quem está lá, à solta; quem é este observador do fluxo de informações, desolado em reflexos de si mesmo que não reconhece. É preciso quebrar os espelhos: “… erradicar / os artefatos / da ilusão”. Fica no ar sempre a pergunta se o indivíduo é o sintoma ou a doença de si.

Uma máquina do mundo revisitada não seria uma leitura extrapolada de Mecânica aplicada. Entretanto, os poemas de Nuno Rau, com um ritmo ainda mais fragmentado, comunicam-se com suas referências drummondianas e haroldianas (de Campos) e revelam uma profunda angústia de ser no século XXI um homem (poético) sampleado.

Ora com modos de graphic novel, algum desvio surrealista e certamente impregnado de distopia, os poemas de Mecânica aplicada não encontram caminhos nessa cyber-cidade, a única fuga é a para dentro de si, como nos versos de “por dentro, por fora”: “vivendo pela margem, neste exílio / de uma pátria que não existe, a não / ser na mais absurda alucinação, / nenhum dia me abre o seu sentido; / … / além do corpo, / … / as coisas seguem normais / … / sob a pele das coisas arde um tal incêndio”.

Mecânica aplicada tem uma unidade conceitual dividida em cinco partes, sendo Subversio machine, Imago mundi, Fenomenologia dos materiais, Opera mundi e Mecânica aplicada. Os poemas “Fragmentação”, “Romantismo mode on mode off” e “Ars poetica” são o ponto de convergência deste eu fragmentado do poeta (sua consciência dentro da máquina do mundo) e dividem o livro em uma tomada de estilo e de forma.  As duas seções finais são compostas de sonetos. O caminho para dentro de si é o encontro de uma forma fixa tradicional da literatura. Seria um retorno à infância ou à infância cultural de um ser poético desiludido num mar de informações e referências, impossível de ser filtrado?

Nuno Rau não reinventa o soneto, mas utiliza o recurso como uma oposição à fragmentação. Se havia uma busca, esta deveria ser por concisão e a aplicação da mecânica surge no verso e sua prática. Versos como: “a forma fixa: o conteúdo, não. / A mente é livre, o pensamento inquieto, / e exposto a mais esta contradição / cometo – extemporâneo – outro soneto”, demonstram o jogo metalinguístico montado.  Tendo a língua como referência na busca de uma possível identidade, este indivíduo, que pode não se perceber na polis cibernética e sampleada, encontra dentro de si uma sample anterior e nela tenta se elaborar, reconhecer-se como tal. A reflexão seria um questionamento constante de muitos autores: existimos apenas enquanto linguagem?

O emprego do soneto dá um frescor no texto, embora fique também outra pergunta latente na leitura dos poemas de Mecânica aplicada: o pós-pós da linguagem literária é a forma fixa? Ainda: a resposta da fragmentação de si na linguagem é o retorno ao cânone? Incluso das alegorias da infância, do amor, do encontro do outro e demais temas que podemos considerar como universais. Creio que faço perguntas demais nessa resenha, isso me intriga, mas também elucida algo muito claramente: uma das funções da arte é nos compelir ao questionamento, além de conformismos, certezas e confortos. Tendo isto em mente quero finalizar dizendo que Mecânica aplicada, de Nuno Rau, acima de tudo, deixa claro que: reload>code = poesia.

Boas leituras.

Roberto Dutra Jr. é um carioca, suburbano e deslocado. Escritor em resistência, mestre em Letras; foi editor da Revista Escrita e contribuiu para o jornal Panorama da Palavra, e escreveu artigos acadêmicos. Atualmente oferece consultorias literárias, e leciona quase na clandestinidade. É colunista regular do blog literário Zonadapalavra, resenhista da revista de artes Mallarmargens e usa o Instagram para experimentos fotopoéticos. Foi recentemente publicado na antologia Escriptonita (Patuá).

 

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104ª Leva - 07/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

São chegados 104 caminhos de arte e literatura. Sem dúvida, uma marca temporal dispersa em ações e encontros. Lidando com palavras e imagens, descobrimos pessoas, verdadeiros universos de saberes e sabores. Cada voz tem seu modo próprio de nos mostrar que o mundo é um lugar sempre novo e que, para tanto, depende do ponto de vista adotado. Seguir adiante é cultuar as diferenças, permitindo que cada autor mostre o seu modo de estar no mundo. Num trabalho que intercruza existências, é possível perceber como até mesmo pensamentos diametralmente opostos são parte necessária das reflexões sobre um tudo. Estar vivo faz parte do jogo dos estranhamentos.  Em cada autor presente nesta edição, uma centelha destes sentimentos todos paira voluptuosa. É o homem no homem, refletindo arroubos e raras certezas. Entrecruzando mundos, a fotógrafa Valéria Simões expõe aqui um lastro considerável de seu ofício com a luz. Suas fotografias estão diluídas diante de textos que flertam com o insondável. Vêm se juntar a tal energia os contos de gente como Vivian Pizzinga, Roberto Dutra Jr e Mário Sérgio Baggio. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger nos aponta sete considerações sobre o mais novo filme de Jean Luc Godard, “Adeus à Linguagem”. Maurício de Almeida nos conduz pelas vias do primeiro romance de Rafael Gallo. Hoje, as esferas da poesia estão tomadas pelos versos de Elizabeth Hazin, Kleber Lima, Clarissa Macedo, Edson Valente, Cristina Arruda e Adriana Aneli. Em matéria de música, as escutas de Larissa Mendes chamam nossa atenção para o mais novo disco da banda norte-americana Beirut. Numa entrevista, o escritor Thiago Mourão fala sobre seu mais recente livro e outros temas ligados ao ofício literário. Pelas linhas de Sérgio Tavares, estão marcadas reflexões sobre o novo livro de contos de Antônio Mariano. E assim tudo conduz a um renovado ambiente de aparições, caros leitores. Sejam bem-vindos a tais possibilidades!

Os Leveiros

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104ª Leva - 07/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Roberto Dutra Jr

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

REI MIDAS [micronólogo]

 

Midas entra. Cambaleia e atira-se de joelhos, voltado para o público.

– Hoje cravei em meu peito uma cruz de metal. Faz frio na ferida e o metal oxida com o contato do sangue. Das muitas coisas que me lembro da vida, agora todas passando, eis aqui, fincada no mais fundo de mim, essa cruz de metal que cala meu peito. Essa cruz de metal cortando ao meio o fluxo vital de afeto e esperança para todo o resto do meu corpo. A cruz me impede de morrer, a cruz me impede de viver.

Eu vi o inferno. Não busque o inferno no subsolo. Não perturbe com sua bizarra curiosidade as marmotas, os vermes e os soturnos habitantes das sombras. Essa busca infrutífera de alquimistas e de líderes religiosos de sexualidade duvidável e vã. Essa busca tem sido vã pelo curso dos últimos séculos e levado tolos e sábios para arder em fogueiras martirizantes. O martírio de saber pode muito bem ser o martírio de ter que esconder, mentir, ignorar. Infernos inúteis!

Hoje cravei uma cruz no inferno! Aqui, bem no meio. Na base da carne nascem rosas rubras. Os espinhos das rosas do inferno não surgem dos caules, nascem de meus dedos, transformando minhas mãos em instrumentos de dor e solidão. Tudo que eu toco se transforma em sofrimento.

Um dia eu ainda me coço.

Fim.

***

 

 

 

O REMETENTE

Havia um homem que escrevia cartas sem nunca tê-las respondidas.

Em um passeio pelo cemitério, viu seu nome escrito e todas as cartas que remetera.

***

 

 

 

TENTÁCULOS

para Victor Giudice, que ainda observa do outro lado da porta

Nada impede uma manhã preguiçosa nessa cidade. Chegando serena com chuva tranquila. Daquelas que precipitam depois da temperatura gentilmente baixar grau a grau. Os primeiros pingos, pingo, pingos, pingo, ping, ping, pin… Até pensou que ouvisse as primeiras notas do piano de Tom naquela música. Mas, é outubro, e ao contrário das Águas De Março, o céu cinzento e a constância da chuva ensaiam outras promessas nos corações de todos.

Em algum conjunto de apartamentos, em algum subúrbio próximo, ele passa um café no coador de pano. Em algum conjunto de apartamentos em algum subúrbio próximo, alguém mais faz exatamente a mesma coisa que ele, na mesma sequência. Um conjunto habitacional suburbano é um conjunto de outros mesmos.

Ele ainda dorme, mas não sabe. Sempre repete isso mentalmente naquela mesma hora pela manhã. Pensa sonhar com o cheiro do café tomando a cozinha e invadindo o quarto. Ele senta-se sozinho à mesa e serve sua primeira dose. Ela gosta pingado, e o leite fumega sobre o forno, já fervido. Na mesa uma broa de milho fatiada e queijo branco. Toalha de algodão com motivos florais, daquelas que em qualquer armarinho se encontra. O tempo nublado deixa a cozinha escura demais àquela hora da manhã. O sol parecia atrasado.

— Até o sol pode chegar atrasado quando quer – balbuciou.

Ocorreu-lhe que ela já devia estar no banheiro, apesar do silêncio. Incrível o silêncio de uma manhã chuvosa, pensou. Não fosse pelo ruído da chuva, ele nem diria que realmente está no bairro. A cozinha parecia isolada do resto do mundo, já que as demais cozinhas do prédio existiam longínquas pelo silêncio. Todos poderiam ter desaparecido ou estar mortos. Calafrio. Foi até o basculante da cozinha e gritou:

— Olaaaá!

Nem um ruído. O silêncio induzia o pé ante pé para andar. Voltou-se para o armário sob a pia. Precisava de uma jarra para colocar o leite na mesa. Seria um toque especial. Começou a remexer o armário. Súbito uma rajada de vento bate a porta da cozinha. Ele, que estava inclinado para dentro do armário, move-se para fora, e a coluna fica retesada. Pura reação instintual, mas que sempre provoca uma gélida injeção de adrenalina. Voltou-se para o fogão, colocou o leite na jarra e aguardou sentado na mesa. Ouvia o registro do chuveiro ser aberto e a água descer intensa. Parece que hoje ela decidiu começar o dia com um banho, pra variar.

— Que mudança! — falou alto, tentando entabular uma conversa matinal.

— Me admira justo você começar um dia frio como hoje com um banho. Já preparei tudo aqui e estou apenas lhe aguardando. Ainda tinha queijo na geladeira e esquentei o bolo que sua irmã fez ontem. Tudo quentinho.

Ouviu um ruído de escorregão molhado, a luz piscou. Sem sobressalto, gritou:

— Opa! Tudo bem aí, moça?

Sem resposta. Silêncio quer dizer tudo bem e pronto.

— Liga não, outro dia eu também quase levei um tombo debaixo desse chuveiro. Preciso fazer uma faxina e tirar o limo desse banheiro. Vou comprar um alambrado de madeira pra colocar no chão assim que puder. Melhor que esses tapetes antiderrapantes que estragam logo. Olha, se você demorar muito eu vou comer o bolo sozinho. O café que acabei de passar ficou até fraco, do jeito que você prefere. Ah! eu não entendi porra nenhuma daquele filme que assistimos ontem.

Ela demorou. Foi o suficiente pra depois do copo de café o braço sustentar a cabeça sonolenta num cochilo. Acordou e a ouviu fechar a água no banheiro. O leite estava menos que morno agora. Ele voltou-se para acender o fogão. Uma batida estranha na porta, ainda fechada. Parecia que ela jogava o ombro na porta, em vez de bater com a mão. De novo, e de novo, e de novo mais forte.

Deixou o bule de leite e atravessou a cozinha. Abriu a porta e o vácuo do espaço tomou conta da cozinha. Do outro lado da soleira as estrelas e o vazio infinito, deste lado a labareda no fogão se mexia com um vento sobrenatural. De relance ele ainda segurou a maçaneta do lado oposto pensando em novamente fechar a porta. Sua mão congelou na maçaneta e apesar da dor, não sentia mais seus dedos. Com seu último esforço, revirando os olhos de terror, gritou a plenos pulmões, o que ele ouviu apenas na sua mente:

— R’lyeh!

Em uma explosão de movimento do outro lado da porta saltam tentáculos que prendem-se fortemente ao seu corpo. Segurou-se à passagem com o desespero dos condenados enquanto os tentáculos esmagavam seu peito e apertavam cada uma das pernas. Um último tentáculo enroscou-se no seu rosto. Sua última resistência, os ossos dos braços partiram-se como varas e sumiu no vácuo.

A porta se fecha. A investida termina, quase tão súbita como começou. De novo a chuva tranquila bate no basculante da cozinha de algum conjunto de apartamentos em algum subúrbio próximo. Silêncio completo novamente.

Ela abre a porta, enrolada na toalha e arrepiada de frio.

— Mas que droga! Putaquiopariu! O chuveiro queimou, quase entrei em choque com a água gelada! Isso sempre acontece na minha vez, já não aguento mais! Onde você está? Esqueceu o leite no fogo?

Demorou alguns minutos e então, sentiu algo estranho no ar. Olhou em volta da silenciosa cozinha. Arrepiou-se de novo quando uma rajada de vento bateu a porta atrás dela, e sem mover um músculo assistiu o leite ferver e inundar o fogão com uma espuma branca e com cheiro enjoado.

 

 

 

 

***

 

 

 

IDEA FIXA

Entra o fetichista:

– Mãos ao salto!

***

 

 

 

DOMINGO

Bom dia.

Abri os olhos, ela estava lá. Café passado na hora, cigarros, janela. Posso dizer que o começo do domingo é sempre uma rotina. Pego minha câmera e aponto em todas as direções: das copas das árvores ao meu dedão do pé. Devagar o mundo desperta. Vejo nascer o sol e ela levantar-se, preguiçosa. Vai sozinha à cozinha e serve-se de meu café mentolado.

– Você é esquisito. Sempre levanta primeiro? E como conseguiu todas aquelas flores no meio da noite?

Não respondo, claro. Sei que um sorrisinho cínico nessas ocasiões é fulminante. Ela coloca a xícara na frente do rosto e diz entre os dentes:

– Você vai ficar sem roupas a manhã toda?

Continuo calado e com o risinho cínico. Apago o cigarro e tiro sua foto, vestido branco – praticamente um pijama – ela gargalha:       – Não! Estou com olheiras!

Não largo a câmera e começo a segui-la pelo apartamento e aos berros recito Vinícius:

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Não demorou muito a perseguição e ela começou a olhar para as lentes. Agora era ela quem observava. Eriçava os cabelos acima da cabeça e logo era ela quem me encurralava. De repente, o fotógrafo era quem obedecia, sem saída. Jogou os braços para cima, fez caretas, abaixou-se e levantou-se, cobriu o rosto e descobriu o rosto. Então ela para e, olhando na lente como se nada mais restasse a fazer naquela entrega, levantou a saia.

– Teus pelos leves são relva boa…

– Fresca e macia.

– Meu Deus, eu quero a mulher que passa! – disse a todo pulmão.

E fotografei a manhã toda, aquele segundo sol a nascer na minha sala.

Roberto Dutra Jr é um neurótico social como todo brasileiro de cidade grande. Adora literatura, mas as palavras não fazem mais sentido. Cultiva um seríssimo flerte com a música. Adora gatos e poemas, que movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente. Tem um livro de poemas publicado e mergulhado no esquecimento, assim como seus artigos críticos. Foi editor de revista acadêmica, contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro, entre eles o Panorama da palavra.  Atualmente divide-se entre sua coluna semanal no blog zonadapalavra, eventualmente resenhando para a revista Mallarmargens, e integra o quadro funcional da Editora Ibis Libris.

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98ª Leva - 01/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

É tempo de continuar os caminhos. Levar adiante a primeira investida editorial do ano traz consigo um sentido de renovação de ânimos. Abertas estão as escutas para que outras tantas vozes consolidem por aqui o ideal essencial de diversidade. E assim o maior desejo que rege os instantes é o de promover encontros em torno da arte. Poder harmonizar as energias que atravessam textos e imagens favorecendo um mosaico vivo de expressões múltiplas. Erguer uma edição da revista representa agregar individualidades rumo a um norte coletivo que não se dilui pelo caráter da heterogeneidade. Por mais que cada colaborador traga sua carga pessoal e distinta, algo torna o resultado final curiosamente dotado de um equilíbrio. Nunca houve uma espinha dorsal premeditada quando a intenção era a de solidificar uma determinada leva. Autores e artistas se aproximam ou são convidados e, a partir disso, a convergência de atuações segue fluxos de naturalidade como se um único e permanente tema se apresentasse: a busca pela qualidade. Cada criador que por aqui desfila seus verbos e imagens cristaliza a identidade da revista. Hoje, é tempo de percebermos o que nos dizem as vozes poéticas de Carla Carbatti, Roberto Dutra Jr., Neuzamaria Kerner, Alexandre Guarnieri e Mariana Fernandes. Oportunidade de percorrer as densas linhas dos contos de Márcia Denser, Jorge Mendes e Lia Beltrão. Lermos o que o escritor Rafael Mendes tem a dizer sobre seu engajamento literário numa entrevista capitaneada por Sérgio Tavares. Por seu curso, Igor Fagundes resenha o novo livro de poemas de Alexandre Guarnieri. A conturbada trama do filme “Garota Exemplar” encontra respaldo nas anotações de Larissa Mendes.  O escritor Gustavo Rios fala de suas impressões sobre o mais novo disco da banda de punk rock Pastel de Miolos. Os recentes lançamentos poéticos de Geraldo Lavigne recebem a leitura atenta de Jorge Elias Neto. Entremeando os trajetos da nova edição, as fotografias de Pedro Alles remontam às nossas complexas paisagens humanas. 2015 pede passagem trazendo junto uma vasta gama de perspectivas. E os caminhos apenas estão no seu início. Seja bem-vindo à 98ª Leva, caro leitor!

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98ª Leva - 01/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Roberto Dutra Jr.

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

Acaso ao horizonte
as linhas se perdem
nos homens.

Linhas
e horizonte de homens.
Homens:
linhas e horizontes
do tear.

Ao acaso as linhas cruzam-se.

A velha fiava ao sereno
linhas, horizontes e homens.
Ao cerrar-se o fio
quiséramos todos, ser
carretel.

 

 

***

 

 

QUANDO FIZER UM POEMA:

 
desfiar pedras
alimentar tigres
ordenhar deles
o medo
e constelar
ar
……….a
……………….ar
o frêmito febril
em alumbramento

 

 

***

 

 

JANELA

 
Preso no horizonte
eu mesmo
Não sei se te vejo
ou às próprias grades
da cegueira.

O sol se pôs
Vivi na sombra
do não ser-me.

 

 

***

 

 

POEMA ÁRIDO

 
Persigo as palavras
fundo, na memória das pedras,
ruído dos pássaros.
A pele descarnada das botinas
traduzindo-se em deserto.

Quando há um poema
o deserto sou eu.

 

 

 

***

 

 

NUDEZ

 
A cada minuto
perder o fio
diáfano da manhã
contemplando
sua
lânguida luz

 

 

***

 

 

O PEIXE

 
não tem nome

………………………………..[o peixe]

assim o chamo
contrário à sua vontade
escorrega das mãos
a verdade de escamas metálicas
um salto apenas

………………………………..[o peixe]

pura profundidade
tudo mais é engano
infenso drama
mergulha além do olhar
longe demais – fria chama
sem voz
nada diz

………………………………..[o peixe]

flutua
essencial e inominável.

 

Roberto Dutra Jr. é um neurótico social como todo brasileiro de cidade grande. Adora literatura, mas as palavras não fazem mais sentido. Mestre em Letras, tem um livro publicado e diversos artigos de caráter acadêmico e crítico publicados. Foi editor de revista acadêmica, contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro e tem um seríssimo flerte com a música. Adora gatos e poemas, que movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente.