Um rio que nasceu na cruel periferia do Recife e deságua nas águas da Amazônia. Esse é um roteiro de viagem possível quando se ouve o quarto disco do pianista pernambucano Amaro Freitas, Y’Y (2024). Um jazzista improvável, que cresceu entre o gospel, o funk e o rap e que teve sua vida transformada após um DVD de Chick Corea chegar em suas mãos.
A estreia de Amaro veio com Sangue Negro (2016), marcado pela fusão do jazz com ritmos nordestinos e que abriu caminho para sua inserção no circuito internacional de jazz. Rasif (2018), cujo título em árabe homenageia sua cidade natal, aprofunda a influência do baião, frevo e coco na polirritmia de seu jazz. Em Sankofa (2021), Freitas completa um percurso de pessoas, lugares e filosofias da história negra brasileira, muitos dos quais ignorados pela história oficial.
Y’Y traz o encontro do jazzista com o mundo amazônico, que potencializou sua música com elementos da cultura da floresta. O título vem da expressão para água do dialeto da comunidade indígena amazonense Sateré Mawé. E é de maneira fluida, como água, que o piano de Amaro constrói uma suíte amazônica no lado A, que recupera a ancestralidade e as lendas da floresta. O piano e a percussão se entrelaçam nas faixas “Mapinguari (Encantado da mata)” e “Uiara (Encantada da água) – Vida e cura”. Enquanto Mapinguari, nas palavras de Amaro, se trata de “um gigante faminto e peludo, com um olho e uma boca enorme no umbigo, que vagueia pela floresta em busca de comida”, Uiara é o boto-cor-de-rosa, o princípio feminino das águas.
Amaro Freitas / Foto: Micael Hocherman
A conexão Nordeste-Amazônia já tinha sido feita pelo conterrâneo Naná Vasconcelos em Amazonas (1973), o homenageado em “Viva Naná” e que serviu, de alguma maneira, como guia para Amaro, que usa um piano bastante percussivo ao longo do disco. “Dança dos Martelos” lembra que, no final das contas, o piano é um instrumento de percussão. Ou, mais tecnicamente, de cordas percutivas. Raras vezes um piano soou mais indígena, mais amazônico.
“Sonho Ancestral” é um momento mais lúdico, com direito a citação de “Asa Branca”, que surge como uma possível lembrança de infância, fundindo as bacias do São Francisco e do Amazonas em uma coisa só.
Abrindo o lado B, a faixa-título “Y’Y” (pronuncia-se “iê iê”), trazendo a flauta do britânico-barbadiano Shabaka Hutchings, que representa um “encontro das águas” com o piano de Freitas, como se o rio amazônico desaguasse no litoral pernambucano. “Mar de Cirandeiras” é uma homenagem às cirandas de Pernambuco, uma expressão cultural popularizada por Lia de Itamaracá e pelo Quinteto Violado, entre outros, que aqui ganha a companhia da guitarra do norte-americano Jeff Parker. As reminiscências da terra natal de Amaro levam a um tributo à figura materna, Dona Rosilda, na faixa “Gloriosa”, pontuada pela harpa de Brandee Younger, a primeira mulher negra a ser nomeada para um Grammy de melhor composição instrumental.
Por fim, “Encantados” retoma a abordagem de trio jazzístico bastante comum em trabalhos anteriores de Freitas, com a adição da flauta de Hutchings. A busca pela ancestralidade nas águas amazônicas e nos mares pernambucanos encontra a aldeia global negra do jazz, fruto da diáspora africana. Amaro Freitas aponta para o futuro, sem perder suas tradições afro-brasileiras.
Rogério Coutinho é gestor e produtor cultural, com trabalhos em museus e patrimônio, além de comunicólogo e publicitário. Colaborador eventual da Diversos Afins, apresenta o podcast Gramofone junto ao editor Fabrício Brandão. É o criador e responsável pela Rádio Nove.
Não é de hoje que estudiosos e autores de ficção discorrem sobre o impacto da tecnologia sobre nossa sociedade, seu uso para o bem ou para o mal. Seremos capazes de evoluir a ponto de erradicar guerras, miséria e mortes desnecessárias ou a tecnologia nos escravizará, difundirá ainda mais a estupidez e potencializará nossos instintos de autodestruição? O estado de coisas atual não nos dá muitos motivos para otimismo. Imerso em questionamentos como esse, o autor Rodolfo Guimarães Neves lança suas preocupações sobre nosso futuro e nossa democracia, sem se esquecer de onde veio e das peculiaridades do cotidiano do presente.
Conheço Rodolfo desde que éramos adolescentes, nos anos noventa, quando ambos morávamos no Espírito Santo. Desde aquela época, já era perceptível sua tendência para a erudição, sua sensibilidade e seu amor por Pernambuco, sua terra natal, e pelo Brasil. Através dele, foi a primeira vez que ouvi falar de Chico Science, de quem não tardei a ouvir e me tornar um fã, assim como de todo o movimento Mangue Beat. Lembro de nossas conversas sobre história e sociedade na biblioteca da escola na hora do intervalo, quando a maior parte da turma se entupia de refrigerante e salgadinho ou jogava futebol.
Cada um seguiu o seu caminho e, para Rodolfo, veio o curso de Direito, os empregos na Universidade Federal e no Tribunal de Justiça. Mas havia um autor dormente, um observador de costumes e um poeta que gradualmente emergiu, além de uma história épica que pedia para ser contada, se insinuando através da leitura das páginas de Asimov, das sessões de filmes que expandiam a imaginação sobre o futuro e de uma formação humanista e, sobretudo, curiosa sobre o mundo e suas instâncias.
Alguns de seus contos apareceram em antologias divididas com outros autores: “Conto Brasil” (volume 1, 2018 e volume 2, 2019), ambos pela Editora Trevo; “Veraneio”, da Editora Jogo de Palavras (2019); “Paraty”, da Editora Gaya (2019) e “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie (2020). Sua poesia já foi publicada em “Poesia Agora – Edição Inverno 2018”, da Editora Trevo e em “Concurso Nacional Novos Poetas 2018 – Antologia Poética”, da Editora Vivara.
Seus maiores voos literários, agora solo, aconteceram recentemente. Em 2020, a coletânea “Eles, Outros Contos e Poemas” e o romance “A Dinâmica Orgânica”, incursão na ficção científica, foram publicados pela Editora IGP, do Recife. Enquanto os contos e poemas mostram uma visão mais pessoal e cotidiana, mas sempre oferecendo uma sensação desconcertante ao leitor, é nas páginas do romance que a imaginação de Rodolfo alcança um nível poucas vezes visto. Por trás da sua ficção científica, com direito a viagens no tempo e o protagonismo de Pernambuco, quase um personagem por si só, há uma preocupação sincera com os rumos da democracia e com o uso da tecnologia contra o interesse público. “Eu me orgulho muito do livro. Foi uma conquista na minha vida, uma das coisas mais alegres, uma realização”, festeja Rodolfo, e com motivos para tanto.
Já em 2021, mais duas publicações: a adaptação para quadrinhos de “A Dinâmica Orgânica”, feita em parceria com o quadrinista Pedro Ponzo, um dos grandes nomes da cena pernambucana atual dos quadrinhos, e a peça teatral “Ressentimento”, na qual as experiências de Rodolfo no mundo do serviço público serviram de grande inspiração.
Para minha grande satisfação, Rodolfo aceitou conversar com Diversos Afins sobre sua obra. Sentindo-se com um alto nível de satisfação pessoal e autorrealização, ele manifesta seu grande agradecimento “à minha atual namorada, a Maria Luciene, que me dá todo o apoio para escrever mais coisas”. Uma longa conversa que passa não apenas pela literatura, mas também pela filosofia, administração pública, cinema e política.
Rodolfo Guimarães Neves / Foto: arquivo pessoal
DA – Sua obra transita entre o texto em prosa e a poesia. Há alguma hierarquia entre essas formas de escrita no seu processo de criação literária? Você se considera um poeta que também escreve em prosa ou um ficcionista que eventualmente usa o verso?
RODOLFO G. NEVES – Eu me considero, antes de tudo, um escritor iniciante. Fiz alguns cursos, três deles ministrado por Rodrigo Gurgel, um escritor do Rio de Janeiro, e outro de Pedro Bial, “O ato de escrever”. Eu comecei escrevendo poesia para um site chamado Luso-Poemas. Os poemas em “Eles, Outros Contos e Poemas” são mais antigos do que os contos. Já participei de alguns saraus em Olinda, mas não é habitual. Mesmo tendo começado com poesia, a prosa também me atrai muito, pela fluidez das ideias e pela necessidade de escrever. Participei de alguns concursos literários com poemas que foram selecionados para compor antologias, acabei mandando contos também, alguns dos quais estão no livro. O conto “O mal iluminado” me deu maior visibilidade, pois foi selecionado para a antologia “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. Nessa questão de transitar entre prosa e poesia, fico dividido. Também escrevo peças teatrais, uma delas se chama “Ressentimento” e teve uma resposta muito positiva de membros da Academia Espírito-Santense de Letras. Outra peça, que deve sair em breve, chama-se “Resignação”. Eu transito entre a dramaturgia, a poesia e a prosa, não me considero nem melhor, nem pior em nenhum dos três. Ainda me considero alguém que está aprendendo. Mas pretendo sempre evoluir e aprimorar meu texto.
DA –Em seus contos do livro “Eles, Outros Contos e Poemas”, há a descrição de situações, cenários e emoções que pertencem ao cotidiano do meio urbano, narrando episódios insólitos ou até mesmo banais. Ao mesmo tempo, “A Dinâmica Orgânica” traz uma organização urbana completamente diferente, com uma proposta radical. Como é transitar por essas duas dimensões narrativas? O que há de uma na outra?
RODOLFO G. NEVES – Todo escritor tem a necessidade de contar histórias. No livro “Eles, Outros Contos e Poemas”, retrato as coisas que vejo no cotidiano. Seja um podcast, a vida de um amigo, as relações interpessoais, a vida urbana… há até um conto um tanto quanto zen-budista que destoa do restante. Tento fazer tramas, aventuras curtas, são contos muito curtos, o maior deles é “O Império de Momo”, que fala do carnaval de Olinda, o qual conheço bem, e também de questões morais. São coisas que eu vivencio e que outros vivenciaram e cada vez mais surgem ideias para escrever sobre coisas novas. Sobre “A Dinâmica Orgânica”, é algo mais escapista. Eu procuro ver um futuro mais utópico, mais justo do que a realidade que a gente vive. Enquanto em “Eles…” o mundo é como eu o enxergo, há as relações entre as pessoas, relações de poder, relações de amor, coisas banais como, por exemplo, o concurso público. A ficção científica é uma paixão pessoal. Uma das maiores alegrias era quando, aos doze anos, meu pai chegava em casa com uma fita VHS de “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”. Era uma alegria aquele mundo de naves e planetas. Ver a sociedade como um organismo é uma espécie de “tara” que eu tenho desde criança. Peguei um avião uma vez e vi a cidade de cima, parecia um organismo, aqueles prédios públicos e particulares. Ver o mundo de forma diferente foi algo muito estimulado pela ficção científica. E eu a vejo como um escapismo meu diante de tanta miséria e corrupção, para imaginar um mundo melhor. Até a ficção científica mais distópica, como “Mad Max” (1979), nos faz pensar no que pode se tornar a humanidade. Então, eu quis eu mesmo escrever a minha própria ficção científica, de tanta paixão que eu tenho pelo gênero.
DA – “A Dinâmica Orgânica” traz uma história futurista num ambiente muito brasileiro e muito pernambucano, o que não é algo tão comum na produção cultural mainstream nacional. Você acompanha a produção brasileira de ficção científica?
RODOLFO G. NEVES – Eu acompanho o blog de Alexander Meirelles da Silva, um dos maiores especialistas de fantasia, ficção científica e terror do Brasil, tenho contato com ele e com outras pessoas do meio através do Facebook. Mas não acompanho tanto assim a ficção científica nacional, procurei “Fractais Tropicais” (2018), uma coletânea de contos brasileiros de ficção científica, mas não encontrei para venda. Eu escrevi “A Dinâmica Orgânica” porque eu tinha esse impulso. E fiz de uma forma regional porque eu sou apaixonado por Pernambuco. Em uma ocasião, comentei com amigos da minha então esposa que eu estava escrevendo um livro de ficção científica. Me perguntaram: “e onde vai se passar?” “Em Recife”, respondi. A reação foi de um riso abafado. Fiquei indignado. Aí pensei comigo: “agora que essa porra vai se se passar toda em Recife, não quero saber” (risos). É bem regional, mas também bem brasileiro, tem passagens na Ilha de Marajó, menciona São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Tem personagens da Paraíba, de Mato Grosso… Na minha concepção, o Brasil seria um baluarte do mundo livre contra as nações que decidiram seguir o processo da Dinâmica Orgânica e se tornarem um organismo vivo.
DA – Há citações de Philip K. Dick e de Isaac Asimov na epígrafe de “A Dinâmica Orgânica”, sendo que uma das personagens leva o sobrenome de Asimov, numa clara homenagem. Quais suas outras influências dentro da ficção científica?
RODOLFO G. NEVES – Eu consumo muita ficção científica, mas não sou um grande leitor do gênero, li “Admirável Mundo Novo” (1932), de Aldous Huxley; “Fundação” (1951) e “O Fim da Eternidade” (1955) de Asimov, “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” (1949) de George Orwell… Mas sou um ávido consumidor de cinema de ficção científica, até de filmes mais antigos dos anos 60 e 70, como “Colossus 1980” (1970) e “Solaris” (1972), de Andrei Tarkovski. Impossível não falar de “Blade Runner” (1982), “Matrix” (1999), das irmãs Lily e Lana Wachowski e “Interstellar” (2014), de Christopher Nolan, que me chamaram muito a atenção; e também da franquia “Star Trek”, inclusive os mais recentes. “THX 1138” (1971), de George Lucas, que é baseado num curta anterior do próprio diretor. A animação “Æon Flux”, cuja adaptação em filme não é muito boa, mas a série é excelente, tem uma abordagem filosófica subliminar bem interessante. Filmes surreais como “Cubo” (1997), “O Poço” (2019). Tenho uma pilha de livros aqui em casa esperando para serem lidos, mas meu tempo é ocupado por várias atividades diferentes, estudo economia e lógica da argumentação, faço parte de organizações filantrópicas, tenho que dar atenção a membros mais idosos e fragilizados de minha família. Também leio outras coisas como misticismo, rosacrucianismo, a sincronicidade de Carl Gustav Jung, que é um tema que me interessa muito, estou lendo “Jung, o Místico” (2010), de Gary Lachman, que foi membro da banda Blondie, de quem li também “A História Secreta da Política Ocidental” (2008). Tudo isso influencia você e, como disse Chico Science, “enche a imaginação de domínio”. Eu fui criando aos poucos, tinha um caderno de notas e ia anotando. Um dia, fui rever “Blade Runner” com minha ex-esposa. Depois do filme, contei para ela a premissa de “A Dinâmica Orgânica” e ela me incentivou muito a escrever e publicar. Hoje sou grato a ela, foi uma grande incentivadora. Passei quatro anos escrevendo o livro.
DA – A meu ver, a melhor produção de ficção científica parte de assuntos sócio-políticos-filosóficos relevantes no tempo do autor e os projeta em um contexto tecnológico e/ou futurista, propondo um desenvolvimento que pode ser utópico ou distópico. “A Dinâmica Orgânica” parece transitar simultaneamente entre ambos. Quais as questões atuais que serviram de mote para a criação desse universo?
RODOLFO G. NEVES – Boa pergunta. A nanotecnologia, a hiperconsciência, esses conceitos científicos mais novos. A Brainet, uma internet cerebral, que é abordada pelo Miguel Nicolelis. Isso me leva ao seguinte: o fascismo tem muitas faces. Ou melhor dizendo, o totalitarismo, já que o stalinismo não é algo que me agrade. Essas tecnologias em mãos erradas podem transformar um país em um monstro, literalmente. Isso vem me preocupando. Li o livro de Yuval Noah Harari, “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade” (2014) e estou lendo do mesmo autor “21 Lições para o Século XXI” (2018) e “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” (2016), que aborda os desafios atuais da humanidade com a disponibilidade de recursos tecnológicos. Quem imagina que o totalitarismo é algo afastado na história, está muito enganado, o que é reforçado pelo contexto atual, pelo que estamos passando. Não vou citar nomes, mas estamos em uma situação em que o fascismo não foi obliterado. Meu medo é a ascensão do totalitarismo com esses recursos tecnológicos, seria algo muito mais brutal do que o nazismo de Hitler. Pode se ter o controle total de uma população, de uma nação inteira através de algoritmos do Google ou do Facebook. Isso nas mãos erradas, sem controle, sem liberdade, sem o garantismo do poder judiciário… me fez pensar muito sobre o futuro. Em contrapartida, imaginei como seria um mundo melhor, com uma internet chamada de Mindnet, que tem um lado místico, de energia vital, não seria idêntica à Brainet de Nicolelis, mas que seria usada para o bem. Então tem os dois lados: um quando a tecnologia ajuda a fazer uma sociedade mais justa e outro quando é usada para a opressão. Há um conceito no livro chamado “economia por energia” que eu levo tão a sério, detalho tanto como funciona, que passei a estudar economia com um certo sonho de explicar isso para a linguagem econômica, propor uma economia sem dinheiro.
Rodolfo Guimarães Neves / Foto: arquivo pessoal
DA – Você já adiantou esse próximo tema um pouco, mas eu pergunto: com a recente escalada neo-autoritária em várias partes do mundo e a “algoritmização” do indivíduo do século XXI, com manipulação de dados e disseminação de informações falsas para fins comerciais e políticos, você acredita que a sociedade atual caminha para algo similar ao “organicismo” descrito em “A Dinâmica Orgânica”?
RODOLFO G. NEVES – O risco do ”organicismo”, da maneira em que está no livro, é real. É como numa passarela de desfiles de moda, onde são exibidas roupas extravagantes. Não quer dizer que as pessoas vão usar aquelas vestimentas, o estilista aponta as tendências, um salto maior, um chapéu com uma aba diferente. A ficção científica funciona assim, se exagera um pouco para dizer onde podemos chegar, como em “Mad Max”. Talvez nunca iremos chegar a esse cenário, mas é um futuro plausível. Se acabarem os recursos naturais, vamos nos matar uns aos outros por água, por petróleo. O que eu quis mostrar é um lado onde a tecnologia oprime e os seres humanos são aperfeiçoados geneticamente, inclusive intelectualmente, criando uma casta. Talvez o fosso entre ricos e pobres se torne totalmente intransponível, como os estamentos da Idade Média, porque os pobres não conseguiriam pagar por essas intervenções médicas. A ignorância e o obscurantismo são direcionados para as classes mais baixas. Isso, de certa forma, já foi abordado em outras obras, como no livro de H. G. Wells, “A Máquina do Tempo” (1892). É algo ainda distante, mas é uma ameaça real. “A Dinâmica Orgânica” é minha contribuição para despertar esse alerta no público. Eu quis fazer um livro regionalizado por ser apaixonado por Recife, mas também porque sonho com que o Brasil seja esse baluarte do mundo livre, eu não sonho com o Brasil de Bolsonaro, eu sonho com um Brasil livre, democrático. Eu sou um democrata e o totalitarismo, tanto com os expurgos de Stalin quanto com o nazismo de Hitler, já provou que não presta. Sou um democrata ferrenho, na verdade, um social-democrata, algo que seria um meio termo. Muita gente não gosta desse termo por causa do PSDB. Eu não sou do PSDB, sou filiado ao PDT, do espectro trabalhista, do espectro social-democrata, de Leonel Brizola. Enfim, meu medo é esse, de ser criada essa casta super evoluída e se degenerar. Como coloca a “Política” de Aristóteles, os sistemas políticos podem se degenerar. Com o uso da tecnologia, a tirania talvez se converta em um ser vivo. Por isso eu faço um trocadilho na divulgação dos quadrinhos de “A Dinâmica Orgânica”: é a história da luta contra a pior “espécie” de totalitarismo. “Espécie” aqui serve tanto como “tipo” quanto como ser vivo.
DA – Você falou sobre a economia por energia, me pareceu um conceito com alguma influência de princípios orientais, como o Chi, por exemplo. Você chegou a estudar algo dessas filosofias?
RODOLFO G. NEVES – Eu li “Tao Te Ching” de Lao-Tze e “O Tao da Física” (1975), de Fritjof Capra, mas li sobretudo literatura espírita. No Nordeste, há muitos nomes de origem eslava. Há uma certa profecia espírita que fala que o nordeste brasileiro iria acolher os eslavos. Peguei isso como mote e coloquei nomes eslavos para várias personagens: Asimov, Sokolov, Dmitri. E outras leituras como experiências de quase-morte, anjos, literatura rosacruz. Embora tenha lido vários livros, eu não sou um grande pesquisador, sou alguém que vive bastante da imaginação. Dentre todas essas referências, seleciono aquilo que serve à minha tese. Nos crimes de ordem energética, que estão no livro, tive muita influência do espiritismo.
DA – Sua formação acadêmica é em Direito e Gestão Pública. O que foi incorporado desses saberes na sua produção literária?
RODOLFO G. NEVES – Em “Eles, Outros Contos e Poemas”, há um conto bem antigo sobre concurseiros, onde acontecem coisas um pouco surreais quando a luz apaga durante uma aula noturna de revisão, um “madrugadão”. É algo que não existe, mas que poderia existir. Eu mesmo estudei muito para concurso e fui aprovado em alguns. Minha vida de servidor público influenciou o conto “Talentos Entre Escaninhos”, a partir de uma observação da estrutura de poder numa estrutura burocrática. Em “A Dinâmica Orgânica”, aproveitei minha formação em Direito para tipificar os crimes daquela sociedade do futuro. Também me inspirei na estrutura hierárquica de um órgão público, tendo um Diretor, um Supervisor, um Supervisor Assistente e o “peão” que vai fazer o trabalho. Eu trabalho em um Tribunal, então tem o Desembargador, o Juiz… uma hierarquia muito forte. Eu nem conheço nenhum Desembargador porque sou alguém da baixa burocracia, não sou nem do segundo escalão. Já fui Diretor por um ano e nove meses, no núcleo de auditoria e prestação de contas. Fiquei doente por um período e pedi para sair. Voltei como Supervisor de licitações e contratos. Você já viu “The Corporation”? É um documentário sobre o comportamento de organizações, como empresas. Há uma comparação entre os traços de uma empresa que só visa o lucro com os de uma pessoa. E essa empresa, se fosse uma pessoa, seria um psicopata. Cita empresas que geram danos ao meio ambiente, empresas cujos produtos causam câncer. Fazem seus cálculos e decidem que é melhor gastar com indenizações do que fazer um recall do produto, por exemplo. A sociedade luta contra isso, tem a figura do garantismo do poder judiciário, que com defeitos ou não, é o último recurso que nós temos contra essas forças. O constitucionalismo, os direitos, o garantismo, todas essas coisas, não podemos abrir mão de jeito nenhum. Se não houver controle, o check-and-balance, se entregar o controle a uma casta de pessoas, não vai dar certo. Eu trabalho com controles internos na administração pública, eu sei como funciona. Isso também me inspirou. Se não houver controle, as coisas degeneram, começam a falhar, vira uma luta contra a entropia. No livro, tem uma fala dos habitantes do mundo livre: “nós já somos um organismo, mas os alemães levaram a sério demais” [Nota: na trama, a atual Alemanha é um dos países que passaram pelo processo de Dinâmica Orgânica]. São como glóbulos brancos em nosso organismo, temos instituições como o Judiciário, o Ministério Público, a Polícia, as ONGs… temos órgãos de defesa da sociedade lutando contra um impulso natural de acumulação, de destruição, um impulso predatório do capitalismo, uma força entrópica do ser humano. Infelizmente, chamam o servidor público de “parasita”. Parece que não sabem o que o mercado financeiro faz com a sociedade, muitas vezes gera riqueza sem produzir nada e fica na mão de poucos, concentra. É um parasitismo danado.
DA – Como se os especuladores não fossem parasitas…
RODOLFO G. NEVES – Especulador, um cara que está com dinheiro em Xangai, depois manda para Nova Iorque, trocando dinheiro, não produziu nada. Como no filme “Wall Street” (1987), em que o pai, que era dono de uma empresa pequena, fala para o filho: “Eu produzo, não vivo trabalhando com isso de mercado financeiro”. Existe um impulso natural de as pessoas quererem acumular, tem coisas muito mais complexas em jogo. Esses instintos primitivos, se não forem domados, podem acarretar em algo muito sério no futuro. Tem exemplos na história em que não se podia contestar. Eu não quero viver em uma sociedade em que não se pode falar mal do Presidente. Claro que respeitando a integridade moral. Mas eu quero ter o direito de dizer: “Meu amigo, você está equivocado. Estamos numa pandemia, se reporte decentemente, você é um Chefe de Estado, tem que prestar contas”. Então, esses sistemas de defesas que nós temos, como auditorias, servem para frear esse impulso.
DA – No prefácio, você relata que a ideia central de “A Dinâmica Orgânica” nasceu de um debate com um professor de filosofia. No que a filosofia influencia a sua escrita? Quais as suas leituras nessa área?
RODOLFO G. NEVES – Nesse prefácio, eu relato que durante uma conversa com esse meu amigo professor aqui de Pernambuco, fazíamos um jogo de palavras sobre as ideias de Platão sobre o bom, o belo, o justo e o verdadeiro. Se tudo o que é bom é belo, verdadeiro e justo, o que seria uma sociedade boa? Seria uma sociedade em que uma minoria extremamente culta e inteligente domina uma casta de ignorantes e brutos? Em “A Máquina do Tempo” há o questionamento: “quem é você para questionar oitocentos mil anos de evolução?” Será que é nisso que vamos nos transformar? Em seres brutos trabalhando para seres ultra desenvolvidos? Eu quis mostrar os dois lados que a tecnologia pode nos oferecer, um bom e outro ruim. Isso é algo pouco mostrado na ficção científica, uma luta entre utopia e distopia. Dentre os autores que já li, tem Nietzsche, Schopenhauer, a Fenomenologia de Edmund Husserl, algo de Giovanni Reale.
DA – Quais as suas principais influências no romance, no conto e na poesia?
RODOLFO G. NEVES – No romance, Fiódor Dostoiévski, “Crime e Castigo” (1866). “O Castelo” (1926), de Franz Kafka, é fantástico. Um livro que me encantou muito foi “A Morte de Ivan Ilitch” (1886), de Liév Tolstói, até chorei com o livro. Confesso que já li livros de Dan Brown, não tenho preconceito com livros de aventura. “As Aventuras de Tom Sawyer” (1876), de Mark Twain. “O Grande Gatsby” (1925), de F. Scott Fitzgerald. “O Apanhador no Campo de Centeio” (1951), de J. D. Salinger. Machado de Assis com “Quincas Borba” (1892) e “O Alienista” (1882). Me influenciaram e me ajudaram a contar minhas histórias. Na poesia, o que eu li mais recentemente foi Hilda Hilst. Mas não tenho exatamente um poeta favorito. Estou lendo João Cabral de Melo Neto, “Morte e Vida Severina” (1955) e Ferreira Gullar, “Poema Sujo” (1976). São meus livros de cabeceira, chego em casa morto, mas leio alguma coisa antes de dormir. Paulo Leminski, acho muito interessante, li a antologia “Toda Poesia” (2013). Augusto dos Anjos, li toda a poesia dele. Aquilo me chocou bastante, é misterioso, é sinistro, eu gosto bastante. Lembrei de “Notas do Subterrâneo” (1864), de Dostoiévski, outro livro fantástico.
Rodolfo Guimarães Neves/ Foto: arquivo pessoal
DA – Cujo protagonista, aliás, havia sido um servidor público…
RODOLFO G. NEVES – Exatamente, ele é mesquinho, todo preocupado com o que os outros pensam. Olha, minha peça “Ressentimento” é sobre coisas que vi no mundo do serviço público. Há muito ressentimento no serviço público. Tem muita gente cuja vida se resume àquela função, só faz aquilo. Você precisa se realizar em outros meios. Eu já fui um pouco ressentido também, mas isso só me deu mais vontade de sair desse ciclo. Eu vi pessoas de órgãos que eu já trabalhei muito entristecidas, deprimidas, e não se sabe por que estão deprimidas. Deveriam fazer dança de salão, escrever poesia, participar de saraus… a vida não é só aquele meio burocrático.
DA – É muito alienante…
RODOLFO G. NEVES – Não me refiro ao meu setor, tem um pessoal maravilhoso lá. Mas as coisas a que a gente assiste, as notícias que chegam… uma mulher que se suicida porque não cumpriu a meta… um técnico que briga com um analista por causa de salário… Por que essas pessoas estão adoecendo no serviço público? Por que tanto ressentimento? Na minha peça eu abordo isso, esses ressentimentos e a forma de lidar com isso, de maneira um tanto ilusória.
DA – Você trabalhou em uma adaptação em quadrinhos de “A Dinâmica Orgânica”. Para (re)contar sua história e produzir um roteiro de HQ, quais os principais desafios em fazer essa transição entre a linguagem literária e a dos quadrinhos?
RODOLFO G. NEVES – É difícil. É um livro de trezentas páginas e chamei um dos melhores quadrinistas de Pernambuco, Pedro Ponzo. Eu acreditei tanto na história que pensei: “isso vai ser escrito e desenhado para que as pessoas entedam”. Essa transição foi difícil porque tivemos que fazer todo o roteiro da HQ, pegando as principais partes do roteiro do livro e verificando o que realmente valia a pena ser contado, concatenando os principais pontos. Muitas coisas foram cortadas, a revista acaba sendo bem mais pobre do que o livro, mas há um ganho no desenho, na arte. Eu participei desse processo de roteiro, além de escritor da história original também sou co-roteirista dos quadrinhos junto com Ponzo, que desenhou maravilhosamente bem.
DA – Em “Eles, Outros Contos e Poemas”, há uma epígrafe com citação de Clarice Lispector no qual ela se pergunta “para que escrevo?” Para que escreve Rodolfo Guimarães Neves?
RODOLFO G. NEVES – É uma necessidade. Uma vontade de contar uma história. Vem na sua cabeça uma história tão interessante que você pensa: “eu preciso cristalizar isso em um escrito”. Eu escrevo para me autorrealizar, fazer uma obra que impacte, que tenha potencial para transformar. Fazer, quem sabe, uma pessoa ver o mundo de uma forma diferente. Fazer as pessoas conhecerem a minha forma de ver o mundo, uma forma de comunicação. É um impulso que não consigo controlar, a vontade de contar uma história é muito grande. Pedro Bial fala que todo escritor deveria se perguntar se a história vale a pena ser contada. Todas as histórias que eu contei, eu considerei que valem a pena ser contadas, senão não teria escrito. Eu fiz o meu melhor e espero que o público goste.
* O romance “A Dinâmica Orgânica” e sua adaptação em HQ, a coletânea “Eles, Outros Contos e Poemas” e a peça “Ressentimento”, todos da Editora IGP, estão disponíveis na Livraria Imperatriz do Shopping Recife ou direto com o autor pelo e-mail rodolfogn@hotmail.com
Rogério Coutinho é oficial de comunicações de alguma nave estelar, de onde colabora eventualmente com Diversos Afins, transmite o Podcast Gramofone e emite notas sobre aleatoriedades no Twitter.
Uma das tentações mais recorrentes no estudo da obra de um determinado artista é dividi-la em vários períodos. Ainda que de forma controversa e simplificadora, fala-se das fases romântica e realista de Machado de Assis ou dos períodos coloridos e cubistas de Pablo Picasso, para ficar apenas em dois exemplos fáceis.
Quem acompanha o trabalho da banda paulistana O Terno e de seu principal expoente e compositor, o vocalista e multi-instrumentista Tim Bernardes, pode se sentir tomado pela mesma tentação. A banda, que lançou em 2012 seu elogiado álbum de estreia, 66, se notabilizou por um som com tintas neo-psicodélicas, um tanto quanto freak, na melhor acepção do termo.
Em <atrás/além>, o quarto disco do grupo, lançado em abril de 2019, há uma continuidade estética do primeiro voo solo de Bernardes, Recomeçar, de 2017, sem a companhia de seus colegas de banda Guilherme d’Almeida (baixo) e Biel Basile (bateria). Com o artista alcançando uma maior maturidade pessoal e criativa, <atrás/além> segue na procura por caminhos mais lapidados. As composições intimistas e melódicas mostram um Tim Bernardes com um sotaque próprio, típico de cantores-compositores de grande calibre.
O Terno / Foto: divulgação
Há uma grande coesão no álbum, muito em razão do grande zelo nos arranjos, que possuem uma qualidade cinemática, emoldurando os vocais cada vez mais idiossincráticos de Tim. Mesmo o balanço à Jorge Ben de “Bielzinho/Bielzinho” não soa deslocado e carrega alguns dos mesmos elementos de introspecção que permeiam os cinquenta minutos do disco. Aqui cabe destacar o talento de Tim não apenas como compositor, mas também como produtor, já que em <atrás/além> ele é creditado pela primeira vez na história da banda como produtor solo.
Tim Bernardes parece consciente de atravessar um movimento cíclico em sua vida e carreira, e os títulos das canções parecem retratar essa dicotomia: “Atrás/Além”, “Nada/Tudo”, “Profundo/Superficial”, “Passado/Futuro”. Ao se aproximar dos seus 30 anos de idade, Tim se autodiagnostica ao mesmo tempo no final de algo e no começo de outro, como nos versos de “Pegando Leve”: “Dividido, indeciso / Me cansam tantos hipsters e modernos de plantão / Me cansa ser mais um // Acabado, esgotado / Eu já cheguei no fim, recomecei e aqui estou eu / No fim de novo, eu”.
Ao mesmo tempo em que celebra a coletividade em “Nada/Tudo” (“Como é que vai, Vaquinho? Como é que vai, Luiza? / Como é, my brother Charlie? Salve, Tute, salve, Geeza! / Companheiro Bielzinho, porows, peixe, nóis, clubinho / Mari e turma da pesada, não me sinto tão sozinho”) e homenageia o baterista Biel Basile em “Bielzinho/Bielzinho”, O Terno se torna cada vez mais um retrato de Tim. Falta-nos o distanciamento temporal para classificar onde termina o período “Terno” e onde começa o período “Tim”, ainda que eles coexistam nos dois discos mais recentes, o solo do Tim e <atrás/além>. De uma forma ou de outra, sejam quais forem os caminhos futuros, O Terno e Tim Bernardes já se configuram como objeto de estudo obrigatórios na música brasileira dos anos 2010.
Rogério Coutinho é operário museal, podcaster e publicitário de formação, não-praticante. Um homem do interior, em vários sentidos.
De quantas faces é feito um coletivo de expressões? Eis um questionamento sempre complexo de se responder. Tendo em vista o universo particular e significativo que brota de cada indivíduo, poderíamos dizer que uma edição de uma revista como a Diversos Afins é, na verdade, um inventário de vestígios. Nesse processo todo, talvez o que seja mais difícil de projetar é o corpo definitivo das criações, ou seja, a maneira pela qual as vozes se orquestrarão rumo a um sentido final e amalgamado. Como a arte é uma eterna equação sem soluções exatas, cabe-nos sempre a tentativa de harmonizar as diversidades de pensamento que permeiam o mosaico de autores publicados. Assim, pesquisamos, pensamos, idealizamos e, sobretudo, acolhemos aquilo que vislumbramos ser o componente imprescindível de um organismo vivo que é a cultura. O estímulo necessário para a continuidade vem do entendimento tanto de autores quanto dos leitores. Aqui, entendimento significa compreensão dos caminhos e propósitos que norteiam nosso trabalho, isto é, um conjunto de características que consolidam cada vez mais uma identidade para a revista. E mais gente vem se juntar a esse solo comum de andanças. É o caso de Leonardo Mathias que, com o vigor significante de suas entrelinhas poéticas, compartilha conosco uma exposição de seus desenhos e ilustrações. No compasso do mistério que permeia a vida, nossas janelas de versos abrem seus compartimentos para que ecoem as palavras de Leandro Rafael Perez, Marcelo Ariel, Vanessa Carvalho, Luiz Brener, Adriana Aleixo e Luís Filipe Marinheiro. Numa conversa sobre poesia, a escritora Clarissa Macedo entrevista a poeta peruana May Rivas de la Vega. Num resgate sonoro, Rogério Coutinho escreve sobre um dos discos solo do ex-mutante Arnaldo Baptista. Nos Dedos de Prosa, toda a particularidade narrativa dos contos de Maurício de Almeida, Tere Tavares e Abilio Pacheco. O escritor Luis Benítez esboça um breve panorama da poesia argentina contemporânea. No território da sétima arte, Larissa Mendes anota suas impressões sobre a mais recente produção dos irmãos Coen. Conduzida por novos ímpetos, a 89ª Leva movimenta outros tantos verbos, sentidos e imagens. Mais uma vez, seja bem-vindo, caro leitor!
Em 1981, o ex-Mutante Arnaldo Baptista realmente andava só, mas não se pode dizer que ele brilhava tanto assim para os olhos do grande público, que ignorava suas andanças e incursões musicais por aí. Após gravar o seminal Lóki em 1974 (disco que passou em branco na época e que a partir dos anos 90 viraria objeto de culto) e montar a banda Patrulha do Espaço, que bateria ponto no underground paulistano durante os anos 80 mesmo sem seu fundador, Arnaldo tentou uma reciclagem pessoal e profissional no Rio de Janeiro. Durante sua temporada carioca, tocou com os então iniciantes – e desconhecidos – Lulu Santos e Lobão, e gravou com gente como Walter Franco e Guilherme Arantes.
Essas experiências não trouxeram para Arnaldo seu reencontro com as plateias que lotavam ginásios na fase áurea dos Mutantes, mas ajudaram a gestar parte de seu mito e culminaram no seu retorno a São Paulo, onde foi registrada uma de suas apresentações solitárias no Teatro da (Pontifícia) Universidade Católica de São Paulo, o TUCA, que finalmente vieram a público – oficialmente – no final de 2013, no álbum digital Shining Alone.
Munido apenas de um piano elétrico, de um simulacro de órgão Hammond (“coisa de americano”) e de um violão (“o que rima com violão? Tesão…”), é um Arnaldo em estado bruto, despido de qualquer produção ou dos experimentalismos da sua época mutante ou mesmo do hard rock da Patrulha do Espaço. Surge aqui o Arnaldo motociclista (Ai Garupa, que seria regravada no álbum Let It Bed, mais de vinte anos depois), remanescente de sua viagem até o Panamá, a bordo de uma BMW 1951, e o caronista na Europa (Sentado ao Lado da Estrada). Voltando mais ainda no tempo, há o garoto que teve aulas de piano clássico com a mãe, concertista, que não tem o menor constrangimento de tocar a Marcha Turca de Mozart ou um movimento dos Concertos de Brandeburgo de Bach em um suposto show de rock.
Arnaldo Baptista / Foto: Grace Lagoa
Vai de Mozart e Bach a Bob Dylan (Don’t Think Twice, It’s Allright – onde comete a molecagem de responder o trecho da letra que diz “it ain’t no use in callin’ out my name” com um “Arnaldo!”) e Rolling Stones (Honky Tonk Women), passando por standards norte-americanos como Cry Me A River, curiosamente gravado por sua ex-parceira Rita Lee em seu Bossa’n‘roll de 1991. Rita, aliás, também é lembrada numa versão comovente de Ovelha Negra, como se não bastasse ela ter sido a destinatária de canções como Te Amo Podes Crer. Todo esse caleidoscópio musical estranhamente nada tem do repertório dos Mutantes, exceto a engavetada O A e o Z (“uma marcha guerreira”), aqui em versão instrumental e abreviada, que só viria a público nos anos 90.
Em que pese seu notório sofrimento e a insalubridade do ambiente musical que Arnaldo vivia naquele final dos anos 70 e começo dos 80, pré-explosão do rock brasileiro, fica aqui um registro imprescindível da melhor fase artística do mutante, fundamental para conhecer não só o artista, mas o homem. No caso de Arnaldo Baptista, essa distinção praticamente não existe, sendo alguém que fundiu sua história com sua arte até as últimas consequências (e pagando um preço alto por isso), como raras vezes se vê.
Rogério Coutinho é malandro velho e não se mete no enguiço.
Na transição de um ano para outro, é inevitável a feitura de algumas reflexões. No caso da Diversos Afins, não poderia ser diferente, tendo em vista a grande quantidade de pessoas que caminham por aqui traçando as linhas de suas mais difusas expressões artísticas. De novos a experientes, não foram poucos os autores que compartilharam conosco suas visões de mundo. Seja na construção de palavras, seja na composição e concepção de imagens, vislumbrou-se muito além do que um mero exercício do ato de criar. O que cada um traz em si é a tal perspectiva de despertar em nós lugares adormecidos ou ofuscados pela névoa dos dias. E é tão significativo quando um criador nos surpreende com viagens a espaços inimagináveis e nunca dantes habitados. Por vezes, a racionalidade excessiva ofusca-nos a possibilidade de darmos força aos rumos mais promissores da subjetividade, afastando-nos do mergulho no lago íntimo das coisas que são deveras especiais. Nesse sentido, a arte e a literatura são capazes de nos resgatar do marasmo encerrado na rotina aborrecida do mundo, promovendo encontros e engendrando vias diferenciadas de percepção. Com o findar de 2013, um ciclo importante de publicações se completa e a busca por outros caminhos se torna verdadeiro desafio. A edição atual corrobora com tal sentimento ao procurar mesclar um conjunto de vozes expressivas da seara cultural. Em toda a sua extensão, a 86ª Leva aparece entrecortada pelas imagens do fotógrafo Bruno Kepper, jovem artista que nos apresenta seu traço de leveza ante os densos contornos propostos pela vida. Saberemos também um pouco sobre histórias que nos atravessam ao pisarmos o solo dos contos de Anderson Fonseca, Yara Camillo e Pedro Costa Reis. As paisagens poéticas de Leonardo Mathias, Lou Vilela, Inês Monguilhott, Nydia Bonetti e Marília Miranda Lopes evocam odisseias intimistas. O escritor Marcos Pasche traz à tona algumas observações sobre as Novas Cartas Chilenas de José Paulo Paes. Rogério Coutinho celebra escutas em torno do primeiro disco de Sá, Rodrix e Guarabyra. O olhar inquietante do fotógrafo Silvio Crisóstomo é tema de uma virtuosa entrevista. Larissa Mendes aposta suas fichas em “A Grande Beleza”, novo filme do diretor Paolo Sorrentino. O poeta Jorge Elias Neto reflete sobre alguns lampejos da pós-modernidade. Tomados pelo sentimento de continuidade dos percursos, compartilhamos com você, querido leitor, essa celebração de vida. Que em 2014 outras tantas alamedas se configurem sólidas. Boas leituras!
SÁ, RODRIX E GUARABYRA – PASSADO, PRESENTE E FUTURO
Numa encruzilhada formada pela junção de três caminhos, surge uma estrada ao mesmo tempo empoeirada e pavimentada, com um pé no Brasil interiorano e outro na contemporaneidade dos anos 70. Essa é a viagem de Sá, Rodrix e Guarabyra na sua estreia em Passado, Presente e Futuro, usando o expediente, relativamente comum à época, de assinar o nome de um grupo como se fosse um escritório de advocacia. Qualquer semelhança com Crosby, Stills, Nash & Young não teria sido mera coincidência (“Só faltou achar nosso Neil Young”, disse Rodrix certa vez). Mas não há meandros jurídicos na música de SR&G, apenas o fluir de uma longa rodovia, com seus percalços típicos da nossa malha rodoviária. Ainda que tenha sido uma viagem breve, foi bastante proveitosa para a música brasileira.
Como boa parte dos compositores daquela geração, Luiz Carlos Sá, José Rodrigues Trindade – o Zé Rodrix – e Gutemberg Guarabyra militaram no circuito de festivais de música da década de 60, televisionados ou não. Rodrix, que chegou a fazer parte de grupos como Momento Quatro e Som Imaginário, ganhou o Festival de Juiz de Fora de 1971 com a canção Casa no Campo (dele e de Tavito), que posteriormente viraria clássico na interpretação de Elis Regina. Guarabyra, um baiano radicado no Rio de Janeiro, chegou a ser diretor musical da TV Tupi e do Festival Internacional da canção. Sá, por sua vez, além dos festivais, já atuava no meio publicitário como compositor e produtor de jingles. A estética musical do trio logo recebeu a alcunha de “rock rural”, pegando carona num trecho da letra de Casa no Campo.
Sá, Rodrix e Guarabyra / Foto: Reprodução
O resultado concreto dessa “sociedade” culminou em Passado, Presente e Futuro, lançado em 1971. O resgate de uma vida interiorana para o urbanóide dos anos 70 se faz presente em faixas como Cumpadre Meu, onde Guarabyra faz questão de ressaltar o vernáculo do sertão brasileiro: cumpádi, sôdade. Se em Cumpadre Meu a preocupação é com a nova geração “respirando o que a cidade envenenou”, em Crianças Perdidas há o retorno à própria infância idílica. As intervenções orquestrais ora soam georgemartinianas como em Zepelim, quase uma fantasia beatle de Sá, ora soam delicadas o suficiente para prover o folk-barroco de Ouvi contar e a cantiga de ninar Boa Noite. Me Faça um Favor de certa forma antevê o trabalho que a dupla Sá & Guarabyra faria após a saída de Zé Rodrix. E é exatamente Rodrix quem fornece o lado “rock” da equação “rock rural” em Ama Teu Vizinho Como a Ti Mesmo, com um belo trabalho de bateria e percussão, e Hoje Ainda é Dia de Rock, praticamente uma carta de intenções: “Eu descobri olhando o milho verde / Mãe e pai, que hoje ainda é dia de rock”. Nos anos 80, quando Zé Rodrix fez uma campanha publicitária para a Chevrolet, o jingle foi jocosamente apelidado de “última canção da estrada”, uma referência ao conto de liberdade adolescente Primeira Canção da Estrada.
A parceria ainda renderia um segundo disco, Terra, de 1972, até a dissolução do trio. Sá & Guarabyra seguiram com sucesso como dupla nos anos 70 e 80, compondo até trilhas para telenovelas e Zé Rodrix seguiu em carreira solo, emplacando o hitSoy Latino Americano e participando do grupo de rock-deboche Joelho de Porco, além de se lançar como escritor. Em 2001, o trio se reuniu e lançou o ao vivo Outra Vez na Estrada e ainda deixou o derradeiro Amanhã, lançado após a morte de Rodrix em 2009. Mas as canções, essas continuam com o pé na estrada, mesmo que seja de carona até a cidade mais próxima.
(Rogério Coutinho não sabe se é capixaba de Brasília ou candango do Espírito Santo. De bancário a estudante de literatura, de pesquisador do IBGE (mas não recenseador) a publicitário, de estagiário de rádio a gestor cultural, tem sua casa na cidade onde planta alguns amigos, discos, livros e nada mais)