Categorias
95ª Leva - 09/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

Do lastro da imaginação, emanam cenários, personagens, espectros emblemáticos de nossa condição sobre a Terra. Divisamos o que foi e o que será em tênues fronteiras de percepção. Cada um sabe de si no complexo desafio de apreender os caminhos da arte. Interpretar é, antes de tudo, viver o que está sendo ofertado aos nossos olhos e sentidos difusos. É banhar-se em águas que já não são as mesmas de quem criou. É trazer a si mesmo para um território antes estrangeiro. Ao cruzar os acessos, traduzir-se como protagonista de enredos por vezes inusitados. Ler é aceitar convites, embora nem sempre tal ato represente um sinal de concordância com o que nos é proposto. E também as recusas e negativas podem encerrar alguma espécie de reinvenção. No hiato que constitui a alteridade, cruzamos bem mais do que desertos. Ali, podemos também estabelecer aproximações como quando alguém nos sugere trilhar veredas nunca antes forjadas de alguma coragem. E o termo coragem vem dotado de um ato de se permitir experimentar o que está situado além de domínios certeiros e controláveis. Diante desse ponto específico e à medida que caminhamos, parecemos buscar algo que seja capaz de proporcionar algum arrebatamento em termos de originalidade e emoção. Sob a ótica do receptor, indagamos se a visão autêntica das coisas não estaria na percepção de quem lê ou observa os produtos artísticos. Caberia tão somente ao criador o ímpeto do novo? A questão só não se perderá embalada por algum vento aleatório caso alguém ouse também a aceitar que, sob a pele de um leitor, habitam camadas passíveis de criação autônoma. Assim sendo, vamos cruzando novas zonas de vivência no que tange à articulação de conteúdos. Para saber se poderemos de fato manipulá-los conforme nossa conveniência, só a fluidez dos enredos será capaz de atestar. Acima de tudo, esse caráter, digamos assim, libertário funda instâncias potencialmente criativas, redimensionando os tradicionais papéis de criadores e receptores. E a arte com seu movimento constante de signos nos revela entendimentos sobre nós mesmos, desses muitas vezes revestidos de instigantes descobertas. É tal como ocorre com as narrativas de Mariel Reis, Helena Terra e Yara Camillo, a nos mostrarem cenários alternativos de vida. Num caminho sedimentado em sutilezas, a arte da ilustradora e desenhista mineira Rebeca Prado abre passagem por todos os recantos dessa nova edição. Num trabalho de refinada pesquisa musical, a escritora Daniela Galdino chama atenção para o disco “Acorde”, registro precioso da cantora baiana Roze. Entre versos e destinos, os poetas Patrícia Porto, Willian Delarte, Lourença Bella, Jorge Augusto da Maya e Cleberton Santos. Numa entrevista que promove reflexões sobre o fazer literário, o poeta Roberval Pereyr é o centro dos questionamentos de Clarissa Macedo. O mais novo livro de contos de Anderson Fonseca é tema das apreciações de Sérgio Tavares. A inusitada produção “Boyhood”, novo filme do diretor Richard Linklater, aparece marcada pelas percepções de Larissa Mendes. O poeta Gustavo Felicíssimo recorda seu último encontro com o saudoso escritor João Ubaldo Ribeiro. Atingimos 95 levas, certos de que você, caro leitor, é nosso principal protagonista. Boas leituras!

Os Leveiros

 

 

Categorias
95ª Leva - 09/2014 Gramofone

Gramofone

Por Daniela Galdino

 

ROZE – ACORDE

 

Capa Roze

 

 “quanto mais eu ando mais vejo estrada
mas se não caminho não sou é nada”
(Plantador, Geraldo Vandré e Hilton Acioli)

Acorde. Palavra ambígua, título do primeiro disco solo da cantadora baiana Roze. Acordar é de dentro, primeiramente. Acorda-se em explosão interior e o estopim ultrapassa o deslimite do corpo (em si). Mas acordar, sendo de dentro, pode dilatar a percepção e gerar um desacordo com tiras, pedaços, fragmentos do mundo. Não digo com o mundo inteiro porque hegemonismos transformam particularidade em totalidade… e bem sabemos que mundo é vastidão (melhor seria dizer nos plurais). De modo que acordar para o desacordo vem acompanhado da encenação, da construção de outros mundos possíveis. Roze, sendo artista, parece confirmar isso.

Lançado em 1979, Acorde impressiona pela avidez misturada com doçura. Segundo o estudioso baiano Telito Rodrigues, “Roze canta como se tivesse fome”. Procede. Roze, trazendo consigo as pulsações de Tucano (seu lugar de origem), é toda apetências. Ela canta no limite, espalha ecos poderosos e nos envolve: a fome é compartilhada. Em estado emergencial a artista se apresenta com ânsia de dizer. Somente o canto apazigua ou sacia a fome. Cantar, portanto, é crucial, condição de sobrevivência, mas também tem algo de cíclico – quanto mais é apaziguada a fome se refaz.

Oco, povoações, vasculhamentos interiores. Roze chega, toma assento e não vem sozinha. Está acompanhada por rezadeiras, andarilhas/os, marisqueiras, tropeiras/os, romeiras/os, lavradoras/es, índias/os, caboclas/os. Na visualidade que “Acorde” provoca está essa procissão desses seres que não tomam assento na santa ceia do progresso. Talvez seja por isso que o disco doa e instale vácuos, ao mesmo tempo em que desperta esperanças no meio do dia abrasante.

Ainda sobre “Acorde” é importante dizer que traz composições de Geraldo Vandré e Hilton Acioli, Candinho de Jesus, Jorge Alfredo e Antonio Risério, Luiz Gonzaga e Zé Dantas, Capenga e Patinhas, Carlos Pita. O resultado é um disco que pulsa dores e esperanças, exala cheiro de mato seco, poeira de estrada, traz desertos e anoitecimentos por dentro. Correntezas de rios que transportam sonhos não se sabe para aonde. E ouvimos, na íntegra, sem conseguir pular nenhuma das doze faixas. O disco talvez seja uma ampla narrativa de nós.

Prefiro não dizer que Roze teve uma carreira meteórica. De 1979 datam a sua intensa participação no álbum “Águas do São Francisco” (de Carlos Pita) e o disco solo “Acorde”. Em 1980 foi lançado o compacto duplo “Roze”, seguido do terceiro disco também intitulado “Roze” e datado de 1984. As décadas de 80 e 90 foram marcadas pelas participações na coletânea musical “Som Brasil” (organizada por Rolando Boldrin) e em discos de Gereba, Fábio Paes, João Bá, dentre outros. Depois disso ela continuou transitando por mostras musicais, cantorias, eventos de celebração das culturas populares.

Roze, nos tempos atuais, segue cantando com avidez e doçura (cantar é crucial). Não está desaparecida, nem invisível. Canta onde é impossível. Tem “a boca preta de tanto sonhar” (Acorde, Candinho de Jesus). Se há desconhecimento da sua obra, culpa dos hegemonismos que transformam particularidade em totalidade e impõem modos de “consumo” musical, alastram o mero entretenimento com prazo de validade. Então, por (im)pura desobediência precisamos ouvir o canto faminto de Roze.

Agradeço a Telito Miranda e Renailda Cazumbá pelas contribuições que geraram esse texto. As impressões que aqui se apresentam são dedicadas, antes de tudo, a Roze.

 

 

 

Acorde (1979). Ficha técnica:

 

Produtor fonográfico: Gravações Chantecler LTDA.
Diretor Artístico de Produção: Luiz Mocarzel
Assistente do Produção: Candinho
Arranjos de Cordas: Wilson Moura
Arranjos de Base: O Grupo
Estúdio: Gravodisc
Técnico de gravação e Mixagem: Elcio Alvores Filho
Corte: Adenilton
Capa/Direção de Arte: Sergio Grecu
Produção Gráfica: Antonio Luiz
Past-up: Trinkão
Fotos: Candinho

 

Daniela Galdino é Poeta, por vezes Performer. Professora de Literatura na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Nasceu nas brenhas sulbaianas (em Itabuna) e vem se espalhando pelo mundo. Mantém o blog Operária das Ruínas.