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142ª Leva - 02/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

         

Um autor é esse ser que engendra mundos a partir do mundo, mobiliza cenários, personagens e narrativas capazes de corresponderem aos desígnios da palavra gestada. Aquele que tece histórias, posto que é observador, cúmplice ou até mesmo o que vive as situações transpostas para o texto que brota do branco, por vezes angustiante, duma página nascente.

Mas eis que escrever pode ser resistir ou capitular, como disse certa feita o escritor Julián Fuks aqui pelas bandas da revista. Quiçá para muitos seja ímpeto de uma espécie de sobrevivência que intenta suplantar os efeitos da realidade em nossas vidas. Pode ser enfrentar antigos e comezinhos fantasmas, mergulhar em outras personas ou simplesmente inventar tudo a partir do absoluto nada. Pode ser um desejoso exercício de liberdade, instância em que criadores abandonam certos fardos que atravessam suas trajetórias pessoais. Indo mais além, talvez escrever não careça mesmo de explicação alguma.

Alguns escritores acendem em nós uma instigante vontade de compreendermos um pouco dos seus processos criativos. Nesse ínterim, importam tanto aspectos ficcionais quanto aqueles que guardam alguma correspondência com a explosão da chamada vida real (se é que podemos classificá-la assim). Um autor como Renato Tardivo nos provoca, com sua obra, a pensarmos um pouco sobre tais questões, sobretudo no território das experiências que podem servir como alimento às narrativas materializadas em livro.

Tendo na bagagem os livros de contos “Do avesso” (Com-Arte/USP) e “Girassol voltado para a terra” (Ateliê), o momento presente reserva a Renato o experimentar dos desdobramentos tidos com seu primeiro romance, “No instante do céu”, recentemente lançado pela editora Reformatório. Em seu novo rebento, o escritor chama atenção para alguns sintomas de nossa contemporaneidade, principalmente aqueles que perpassam o território complexo das relações afetivas. Com sua narrativa ágil e que dialoga com uma espécie de legado das memórias, a temática do amor aparece marcada pela própria noção da instabilidade do sujeito diante da compressão tempo-espaço e de outros fatores mais.

Renato Tardivo também é professor colaborador do Instituto de Psicologia da USP e atua como psicanalista. De forma bastante gentil e atenciosa, ele acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre seus caminhos literários, especialmente aqueles relativos ao novo livro, além de refletir em torno de algumas questões que também implicam num breve olhar sobre o mundo. O resultado do diálogo ganhou substância e corpo na entrevista que agora segue.

 

Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal

 

DA – “No instante do céu” apresenta uma estrutura que chama a atenção logo de imediato. São três instâncias narrativas que se entrecruzam, embora em tempos de ocorrência distintos, e que se prestam a dar corpo e ritmo ao romance. O que dizer dessa escolha?

RENATO TARDIVO – Eu vinha perseguindo a escrita de um romance já há algum tempo. Mas as narrativas terminavam em conto ou novela – e foram publicadas (o conto “Silente”, do livro de mesmo nome, em 2012, e a novela “Castigo”, que saiu em e-book, em 2015). Uma das instâncias narrativas de “No instante do céu”, em sua primeira versão, foi escrita antes das demais, também com o intuito de resultar em romance. Quando a concluí, notei que poderia ter no máximo uma novela – e nada contra esses gêneros, muito pelo contrário, mas queria mesmo experimentar o romance. Daí, aproveitei um aspecto dessa primeira instância (de onde aquele narrador em segunda pessoa escreve e revisita suas memórias, no presente, no instante da escrita) e mergulhei nesse outro tempo, desenvolvendo uma segunda instância. Concomitante a isso, já que seria um livro fragmentado, intuí que o eixo das redes sociais e mesmo a inclusão de textos literários produzidos pelo narrador (que também é escritor) poderiam fazer parte dessa unidade fragmentada que, entre outras coisas, tematiza separações, atravessamentos entre biografia e ficção e o próprio tempo.

 

DA – A ideia de fragmentação, por sinal, é muito associada às experiências que vivemos hoje, sobretudo no terreno da interação através das mídias sociais. E você lança mão desse recurso no livro, quando, por exemplo, insere na narrativa conversas de whatsapp. Acredita que, numa era influenciada pelo excesso de informações e outras tantas urgências, a noção de sujeito aparece desestabilizada sob o ponto de vista emocional?  

RENATO TARDIVO – Creio que sim. Há, por um lado, o excesso de informações, as muitas janelas, o tal encurtamento das distâncias, mas, por outro, via de regra majoritário, a desimplicação dos sujeitos, a banalização das experiências, algo que talvez seja, a um só tempo, causa e consequência dessa desestabilização emocional a que você se refere. Nesses tempos pandêmicos, aliás, temos vivido essa tensão como nunca, não é? Retornando, então, ao romance, acredito que a fragmentação da narrativa, aí incluídas as interações via mídias sociais, se insere tanto na crise que o narrador vivencia – ele se fragmenta – como também em seu processo de reconstrução. Ir encontrando esse narrador à medida que escrevia o livro foi uma experiência bastante interessante. De certo modo, o narrador procura ir contra a corrente, quando tenta inserir comunicações autênticas, carregadas de afeto, em postagens de Facebook ou mensagens de WhatsApp, por exemplo. Há nesse movimento uma procura por diálogo, tanto que ocorre uma inversão importante para a trama ao final, envolvendo a instância narrativa das mídias sociais… Mas se falasse mais a sobre isso, daria spoiler.

 

DA – É no entrelaçamento das memórias que o seu romance encontra uma boa medida para seu fluxo e encadeamento. Isso sugere uma provocação, qual seja a de vislumbrar como lidamos com  nossos sentimentos no território volátil das lembranças. Podemos supor que o sujeito contemporâneo é este ser que vai se dissolvendo diante das situações vividas e das traições da memória? 

RENATO TARDIVO – Obrigado pelo comentário sobre o fluxo e o encadeamento do livro, bem como sobre a provocação que a narrativa pode sugerir. E talvez haja aí um paradoxo interessante: o fato de nos constituirmos no território volátil das lembranças implica o reconhecimento dessa circunstância, de modo que possamos desenvolver recursos para lidar com isso sem que nos dissolvamos. A noção do “instante do céu”, esse tempo que já não é, mas por meio do qual as relações se estabelecem, também toma essa direção. De resto, o reconhecimento das traições da memória é, também, assumir que a vida em certa medida se constitui enquanto ficção. E isso não significa que biografia e ficção devam ser tomadas uma pela outra, o que seria muito problemático, mas que a mera oposição entre os dois registros é tão problemática quanto.

Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Pensar autobiografia e autoficção, por exemplo, sempre rende debates nada pacificados. Acredita que as fronteiras que perpassam tais termos são bastante tênues e ao mesmo tempo problemáticas?

RENATO TARDIVO – É isso. Há quem afirme que toda ficção é sempre uma autoficção. Analogamente, há quem diga que toda biografia se constitui enquanto ficção. A obra cinematográfica de Eduardo Coutinho, que venho pesquisando nos últimos anos, é um prato cheio para encaminhar essa questão. Seus documentários, sobretudo a partir de “Santo forte” (1999), parecem transmitir a impossibilidade de se filmar a verdade. O que se pode tentar fazer, dizia Coutinho, é explicitar a verdade da filmagem. No filme-ensaio “Jogo de cena” (2007), ele levou esses questionamentos ao limite, por meio da própria linguagem do cinema. Creio que o mesmo vale para a discussão sobre autobiografia, biografia, autoficção e ficção. Devem-se respeitar as fronteiras – há, evidentemente, especificidades entre os gêneros -, mas mesmo a mais respeitosa biografia (ou autobiografia) passará pelo filtro de quem a escreve. E se toda apreensão da realidade é atravessada pelo ponto de vista, pelas fantasias, em suma, pelo lugar de quem a apreende, sempre haverá algo de ficção no processo. Da mesma forma, toda ficção guardará em alguma medida correspondências com a realidade material, histórica, de quem a cria. Talvez por isso eu procure trabalhar os mecanismos de construção da minha ficção no âmbito dos próprios textos. “Ah, mas isso de metalinguagem já está tão batido”, dizem alguns. Eu tenho cá minhas dúvidas quanto a isso.

 

DA – Sua lembrança em torno de Eduardo Coutinho é bastante pertinente. No documentário “Santo Forte”, por exemplo, o cineasta tem uma sacada genial sobre como representar depoimentos que narram manifestações espirituais ocorridas em alguns lugares. Ele simplesmente filma os ambientes vazios, ou seja, sem a presença humana, onde tais fatos ocorreram. E isso não deixa de ser uma provocação sobre a representação da verdade em situações que demandam um suporte imagético aos relatos que estão sendo expostos diante de lembranças debruçadas sobre o intangível. Essa, digamos assim, saída pela linguagem é reveladora tanto para o cinema quanto para a literatura, não? 

RENATO TARDIVO – Concordo com você, ainda mais no cinema que Coutinho praticava, um “cinema de conversa”. A cena antológica do quintal, em “Santo forte” (1999), é a filmagem do invisível. Não por acaso esse filme marca o início da última e, para mim, mais interessante fase da obra dele – evidentemente, não podemos desconsiderar filmes excelentes anteriores a esse período: “Cabra marcado para morrer” (1984), a propósito, é um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro de todos os tempos. Mas, de fato, esses momentos de silêncio são muito reveladores. A sequência final de “Peões” (2004) – quando após alguns intermináveis segundos de silêncio o entrevistado, Geraldo, emerge de uma espécie de poço de angústia e pergunta, triunfante, a Coutinho: “Você já foi peão?” – também toma essa direção. O plano final (um contracampo) de “Jogo de cena” (2007), idem. No caso da obra de Coutinho, tratava-se de uma combinação entre uma série de contingências que ele se impunha na filmagem e um sofisticado trabalho de montagem. O efeito que ele buscava era a descoberta de “personagens reais”. Acredito, dessa forma, na potência da linguagem, como dizia Merleau-Ponty, enquanto silêncio: a palavra que diz ao renunciar a dizer as coisas mesmas. Essa potência indireta e alusiva da linguagem tem a ver com a renúncia de Coutinho a filmar da verdade e pela opção pela verdade da filmagem, ou seja, por abrir-se ao novo, ao inesperado, à alteridade radical, cuja apreensão, no limite, é impossível. É nesse sentido que acredito na potência – poética e expressiva – da metalinguagem também na literatura.

 

DA – Na sua avaliação, tendo em vista o panorama contemporâneo de superexposição da intimidade em que o público e o privado aparecem um tanto diluídos entre si, a figura do autor foi bastante redimensionada?

RENATO TARDIVO – Uma coisa é a diluição do público e do privado; outra, atentar para sua correspondência, suas especificidades e seus limites. Há uma passagem do meu livro em que o narrador transcreve e-mails que seus pais, personagens do romance, teriam lhe enviado. E no mesmo capítulo o narrador diz algo como nem essa troca de mensagens se pode garantir que ocorreu. Quer dizer, enquanto autor, eu estava interessado em exacerbar as ambiguidades entre realidade e ficção, e não em diluí-las. Cristovão Tezza, em “O filho eterno” (2007), e Michel Laub, em “Diário da queda” (2011), para citar apenas dois casos, construíram narradores sólidos, consistentes mesmo, em romances que vieram para ficar. Nesse sentido, o redimensionamento em curso da figura do autor tem menos a ver com a (ou o que se costuma chamar de) autoficção, e mais com a volatilidade das experiências, o trânsito banalizado entre o público e o privado, a vaidade, a necessidade do mercado em eleger o autor ou a autora da vez, para no ano seguinte ninguém mais se lembrar deles, enfim, tendo a pensar por aí…

 

DA –  Em alguma medida, a sua vivência com a psicanálise auxilia seus processos de criação literária, principalmente no que se refere a pensar personagens e comportamentos? 

RENATO TARDIVO – Eu diria que ocorre o oposto: é a minha vivência com a literatura que me auxilia na psicanálise. Nunca me inspirei em um paciente para a criação de uma personagem e sequer preciso me autocensurar nesse sentido: simplesmente não é da clínica que me vem a inspiração literária. São meus fantasmas, os vínculos de minha vida pessoal, enfim, o olhar voltado para dentro e para fora, é daí que surgem minhas tramas. É certo que o sigilo e os cuidados que envolvem a relação tão específica entre terapeuta e paciente contribuem para que eu não faça da clínica uma espécie de laboratório para as minhas narrativas. Mas é, também, inegável que a influência da psicanálise em minha forma de ler o mundo, a cultura, de me ler, enfim, está presente na minha literatura. E isso é meio intuitivo, quase automático – não paro para arquitetar uma trama psicanaliticamente orientada. Por outro lado, a inspiração e sensibilidade literárias, nas condições de leitor e autor, atravessam a minha escuta na clínica, minha forma de ler e procurar compreender o ser humano. Tentando resumir: não parto da psicanálise à literatura, mas da literatura à psicanálise.

 

DA – O mundo como está hoje lhe causa mais desassossego? 

RENATO TARDIVO – Sim, causa muito desassossego, medo, angústia. Mas, por outra perspectiva, estamos vivendo um momento que demanda – e propicia – a introspecção, a reflexão. Caso consigamos suportá-lo, o desassossego pode justamente ser canalizado para a ampliação de representações e para a criatividade. Apesar de tudo, tive um 2020, em isolamento, muito produtivo. Vou citar de novo Merleau-Ponty: “toda tentativa de elucidação traz-nos de volta aos dilemas”. Se encaminharmos o desassossego nessa chave, enfrentando os dilemas e encontrando novas formas para encaminhá-los, então teremos aprendido algo com essa experiência tão dolorosa que estamos atravessando.

 

Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seria insuportável conceber a realidade sem a Arte? 

RENATO TARDIVO – Acredito que sim, como de resto seria insuportável – e mesmo impossível – o contato com a realidade sem mediações. Podem-se incluir aí a religião, o entretenimento, a prática esportiva, enfim, são muitas as modalidades a que podemos recorrer para que a vida seja suportável – e possível. O que me parece central nesse aspecto são a qualidade das escolhas e a sua pertinência de acordo com as especificidades de cada pessoa. É comum ouvir que há quem busque nas artes um respiro. Eu tendo a achar bastante válida essa busca. Mas a questão é: respirar que ares? Nesse ponto, as artes me interessam porque promovem reflexão, movimento, pensamento, e não alienação. Então, se por um lado as artes podem anestesiar um pouco a porrada que é a vida, elas podem também, colocando-nos em contato com a dor, ser um atestado de que a porrada às vezes é suportável e – por que não? – desejável. Sem essa dialética, a realidade seria, sim, inconcebível.

 

DA – O Renato Tardivo que agora publica seu primeiro romance é muito diferente daquele que construiu seus outros livros de contos?

RENATO TARDIVO – Com certeza é diferente. Cada livro tem sua história e seu tempo próprios. O primeiro, “Do avesso” (Com-arte/USP), que ficou pronto em 2010, reúne contos escritos nos anos anteriores, bem como alguns produzidos já para o projeto do livro. Mas a experiência com a sua repercussão foi fundamental para que eu tomasse contato, ali, com o nascimento de um escritor. De lá para cá, houve um amadurecimento natural. Desse amadurecimento é que surgem os narradores, as tramas e as experimentações com a linguagem. Nesse sentido, sou hoje bastante diferente do que era quando escrevi os primeiros livros. Há, no entanto, temáticas que me acompanham desde o início e que procuro encaminhar de formas diferentes. Em um dos livros mais importantes da minha vida, “Lavoura arcaica” (1975), de Raduan Nassar, lemos que se pode “de uma corda partida, arrancar ainda uma nota diferente”.

 

DA – Afinal, por que escrever?

RENATO TARDIVO – “Não sei”, eu poderia começar respondendo, e constato que já comecei respondendo dessa forma, não é? Ocorre que esse “não sei” não significa que não haja motivos importantes para escrever e seguir escrevendo. Posso ter, no mínimo, algumas pistas sobre esses motivos. Descobri a necessidade de escrever na mesma época em que a leitura deixou de ser algo maçante (como era durante boa parte da minha vida escolar) para se tornar, além de necessária, prazerosa. A partir daí, creio que retornamos à linha traçada pela pergunta sobre o mundo sem as artes ser insuportável. Escrever é uma forma de me manter vivo. Como já ouvi de Raduan Nassar algumas vezes, ao comentar sobre o tempo em que escrevia, a literatura era uma espécie de “tábua de salvação”. Eu me identifico com essa perspectiva. E, se essa “tábua de salvação” fizer sentido a outra pessoa, a uma outra pessoa que seja, é porque houve diálogo, correspondência. E isso é vida. Agora, se essa forma de sobrevivência (escrever ficção) vale a pena, vou recorrer de novo a Raduan. Em uma de suas raras aparições públicas, na Balada Literária de 2012, organizada por Marcelino Freire em São Paulo, da qual Raduan era o autor homenageado, perguntaram da plateia: “Valeu a pena escrever?”. Raduan fechou os olhos, pareceu buscar a resposta dentro de si e, após alguns segundos de silêncio, disse resignado, voltando-se ao homem que havia feito a pergunta: “Não sei”.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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139ª Leva - 06/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Escrever pode ser algo parecido com uma tentativa de agarrar o mundo com as mãos. Ou com a cabeça. A mente que fervilha ideias em busca da criação atravessa, em grande instância, os lampejos da natureza humana, esse grande caldeirão de imagens, atos e investidas. Achar-se pronto para demarcar uma obra que se queira definitiva talvez não passe de uma quimera, flerte com o inatingível. Para alguns, a angústia da criação é motor de soluções; para outros, é penoso caminho que jamais se resolve.

Comunicar bem através de uma obra literária é, sem dúvida, um dos requisitos que conferem sentido ao trabalho do autor. Assim, leva-se em consideração que não estamos sós a engendrar os escritos, pois estes um dia tendem a encontrar amparo nas recepções mais diversas possíveis. Nesse sentido, a ideia de escrever para ninguém mais parece uma falácia ou tentativa de distração do debate. Divisões à parte, é preferível ficar com quem advoga pela melhor forma de se contar uma boa história.

No eixo que transita entre obra e leitor, há muita gente interessada em apurar seu trabalho com as palavras, fazendo com que o texto, em suas múltiplas estratégias narrativas, alcance pessoas. Tal processo jamais pode ser confundido como um esforço do autor para agradar quem quer que seja. Pelo contrário, traduz a busca de quem escreve por modos de instigar a atenção do leitor, ofertando-lhe possibilidades para o mergulho pessoal.

Rodrigo Melo é um desses escritores que sempre está à cata de algo consistente para dizer e nos apresentar. E sua obra está na ordem do dia quando o propósito é sondar o traçado cotidiano das nossas vidas em suspensão. O autor é hábil nos arremates, engendra meticulosamente a arquitetura de seus personagens e os faz produtos do meio em que vivem ou vice-versa. Seu estilo de narrar abarca diálogos certeiros, ágeis e que recorrentemente mostram-se provocantes.

O momento atual desse escritor baiano nos leva ao seu romance “Riviera” (Ed. Mondrongo, 2020), livro que apresenta uma ótica muito peculiar quando o tema é o amor. Longe dos ardis tradicionais do assunto, Rodrigo movimenta seus personagens dentro de um contexto que sabe a idealizações, devaneios e a crueza dos dias mundanos. Tudo isso somado a sacadas inteligentes e a recursos narrativos dotados de simplicidade no manejo da linguagem.

Trazendo em sua bagagem obras como “O Sangue que corre nas veias” (Ed. Mondrongo, contos, 2013), “Jogando dardos sem mirar o alvo” (Ed. Mondrongo, contos, 2016), dentre outros livros e participações em antologias, Rodrigo Melo concede uma nova entrevista para a Diversos Afins. Desta feita, além de mencionar os trajetos que o levaram ao seu novo livro, o autor dividiu conosco suas impressões sobre o fazer literário, refletindo especialmente acerca da contemporaneidade, esse estado de coisas que tanto nos tem tirado do sério.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – “Riviera” é um livro que transita pelas paisagens urbanas tendo como mote os atravessamentos da paixão. Nesse sentido, Michel Rodrigues, o protagonista, é aquele que busca por alguém na sua construção própria sobre o amor. Com tanta dispersão e desencontros a que estamos submetidos na contemporaneidade, o que resta para a literatura quando o desafio é falar desse desejo pelo outro?

RODRIGO MELO – Acho que o amor sempre foi uma fonte generosa para a literatura, e continuará a ser, mesmo nesses tempos tão puxados, porque ele simplesmente precisa existir. Amar é se movimentar. Em Riviera, ele também está lá: um tanto inocente, mas também derramado, exagerado e sofrido como nas velhas canções. Porque a história pedia que fosse assim. Quando o protagonista abandona toda a sua antiga vida e parte, feito num jogo de azar, para o Rio de Janeiro em busca de sua amada, ele está apenas fazendo a roda girar. Há quem acorde todos os dias por causa de dinheiro, outros por poder. Michel Rodrigues sentia amor ou qualquer coisa parecida com isso. E foi esse sentimento, universal e atemporal, que o fez deixar tudo para trás.

 

DA – O Rio de Janeiro é essa cidade evocada em canções, misto de “maravilhosa” com o tal “purgatório da beleza e do caos”. E você tem uma trajetória pessoal de vivência na metrópole confusa e difusa. Em que medida foi importante ter a cidade como pano de fundo para o livro?

RODRIGO MELO – Mais que importante, foi necessário. Não conseguiria escrever sobre algo que não conheço e que, consequentemente, não me alcança. Foi Kurt Vonnegut quem disse que é preciso falar do próprio umbigo, porque ninguém mais o fará, e ele tinha razão. Fazer literatura talvez seja, por vezes, simplesmente mostrar o nosso prisma dos acontecimentos e das coisas. Claro, tem que se buscar o lirismo, a propriedade, mas falando sobre o mundo ao nosso redor. Eu morava no Rio quando nasceu a ideia de escrever essa história, e desde o início ela tinha a energia da cidade, de tudo o que eu pensava, sentia e fazia diariamente. Fui corretor em uma imobiliária na Zona Sul e também trabalhei em uma empresa de caminhões munck, lá em Ramos, como o personagem, e, embora uma boa parte do que está no livro tenha sido inventada, foram essas experiências reais que deram a base para que eu pudesse escrever todo o resto. A cidade como fundo e, ao mesmo tempo, como mais um personagem.

 

DA – De certa forma, a luta pela sobrevivência também é um tema presente no seu romance. E Michel Rodrigues personifica isso na odisseia que empreende pela cidade, quando precisa ter condições financeiras de continuar sua jornada pessoal. Entre o sonho e a realidade, paga-se um preço para poder suportar humilhações e outros fardos. Como pensar essa questão dos cenários de exploração em que a própria condição humana é precarizada?

RODRIGO MELO – Faz um bom tempo que o homem circula por aí, centenas, milhares de anos, a subjugar o próprio homem. Quem tem grana e poder segue aumentando essa grana e esse poder, e quem não tem segue enxergando pouquíssimas chances de sair de sua situação. Há diferenças mais que gritantes entre determinadas vidas e dessas diferenças é que brotam as explorações. Uns dizem que sempre foi assim, outros dizem que todos passam pelas mesmas atribulações. A verdade, no entanto, é que entre uma quadra e outra há alguém morrendo de fome e alguém ostentando um carro de meio milhão. Lembro de ler Germinal, de Zola, e ficar impactado com a forma de trabalho que aquelas pessoas eram obrigadas a encarar. Aquilo não era viver, apenas sobreviver. A literatura tem essa força, ela nos puxa sem cerimônia e nos faz pensar nas coisas que passam despercebidas porque, de uma forma ou de outra, não fazem parte do nosso dia a dia. Os vendedores de balas no sinal, as prostitutas nas esquinas, os guardadores de carro, os moleques que fazem avião, sempre foram esses os personagens do meu Germinal. Assim como Michel Rodrigues, que vive entre o feijão e o sonho, a necessidade de comer e de continuar a sonhar. Como muitos, ele descobre da pior forma que às vezes é melhor depender do acaso do que da justiça ou da benevolência dos homens.

 

DA – O mundo é um lugar cada vez mais distópico?

RODRIGO MELO – Parece que sim. Não que caminhemos para a distopia, porque já estamos nela há bastante tempo. Entre o céu e o inferno, entre a evolução e a perpetuação dos defeitos, seguimos alimentando os defeitos. É mais fácil e cômodo, pelo menos para quem não passa apertos. Os escolhidos para cuidar dos outros, os eleitos, acabam por cuidar de si mesmos e daqueles que lhes compram a alma, e dessa forma vivemos em uma espécie de looping em que os mais favorecidos ampliam seus domínios e os menos favorecidos são apartados do rebanho e vistos como não merecedores. A banalização das diferenças. A aceitação de que tudo sempre caminhou dessa mesma maneira. Porque toda luta, em essência, é em causa própria, mas poucos têm armas para lutar. Bendito seja o dia em que se descortine a verdade de que todos que nascem têm direito a tudo o que o planeta dá. Bendito seja o dia em que os eleitos, quem quer que sejam, passem a ser mais cobrados do que idolatrados. Mas hoje, analisando o que acontece com o mundo, e sobretudo com o nosso país, a constatação é de que as coisas evoluem muito mais rápido que as pessoas. Os carros têm computadores de bordo, os elevadores são mais rápidos, os celulares servem para tudo, mas ainda se vende um copo de água, ainda se morre de doença ou de fome, os corredores dos hospitais lotados, os desabamentos nos morros. A distopia, antes de ser algo para o qual precisamos nos preparar, é, por fim, a injusta realidade ao nosso redor. E um coro de gente a afirmar que a vida é mesmo assim.

 

DA – Você é daqueles que depositam fé na humanidade?

RODRIGO MELO – Deposito muita fé, porque estou no meio dessa humanidade. Talvez seja uma obrigação acreditar nela. Há muito perigo, mas ao mesmo tempo também há muito encanto nas pessoas, sobretudo quando se mostram verdadeiramente, e é bem possível que venha daí a nossa salvação. O pão que se faz pela vigésima vez é melhor do que aquele feito na primeira vez, pois o destino de tudo é melhorar. Vive-se, sonha-se, sofre-se, aprende-se – se tivermos sorte. Não é raro escutar alguém dizer que hoje há mais violência, mais injustiças, mais diferenças e separações. Por meu lado, penso que há menos, mas tudo tem ficado, aos poucos, mais à vista, mais à tona, e isso nos traz essa sensação de que o mundo nunca foi tão ruim. Ele sempre foi muito parecido com o que é hoje, posto que o ser humano mudou muito pouco, mas consigo mesmo enxergar uma caminhada rumo a uma evolução, ao bem comum, a uma chamada de consciência maior. Ainda há casos de pedofilia? Sim, centenas. Ainda se mata em nome de Deus? Sim. Mas a transparência é maior, as cobranças são maiores, sobre quase tudo pode se colocar um foco de luz. É o que vejo. Ou, pelo menos, imagino ver.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – A Literatura é motor de transformação de alguma coisa?

RODRIGO MELO – Tudo o que o mundo é tem ligação direta com a literatura, sobretudo se levarmos em conta que ela existe desde as primeiras narrativas, mesmo orais, e influenciou decisões e caminhos. Literatura, afinal, é contar histórias, passar mensagens, e essas coisas não estão apenas nos livros.   Um quadro tem a sua parte de literatura, assim como uma música ou uma peça de teatro. Por esse prisma, ela pode ser considerada uma geradora de muitas outras expressões artísticas e o seu poder de transformação passa a ser ainda maior.

 

DA – Antes de ganhar as ruas, os impressos e as redes sociais, estas últimas lugares de aplausos fáceis, os textos literários não mereceriam certa maturação e tratamento?

RODRIGO MELO – Há uma grande diferença entre textos publicados em livros daqueles compartilhados em redes sociais. O texto publicado em livro deve sempre passar pelos processos de revisão e maturação. É preciso, como se diz, dar um tratamento para que, enfim publicado, represente a sua melhor versão. Os textos compartilhados em redes sociais, por sua vez, variam de acordo com quem os compartilha. Autores com mais experiência certamente terão um cuidado maior com seus escritos. Mas há ali gente de todo jeito, movida por todo tipo de combustível, em diferentes estágios. Tem a turma do aplauso fácil, tem aqueles que, pelo pouco tempo no ofício da escrita, querem simplesmente uma resposta, e tem aqueles outros que só têm o espaço das redes sociais para se externar. E muitas vezes não é só a questão da pressa que os faz compartilhar seu material em grande quantidade, sem precaução: é a limitação das técnicas, ou das manhas, que vêm com a prática. Fazendo uma analogia, é como pegar uma porção desses novos cantores de arrocha ou de novas bandas de death metal, há centenas deles e delas por aí. Muitos produzirão e jogarão seus trabalhos no mercado sem cuidado algum. Mas, no meio de todas as tentativas, alguns vão perseverar, aprimorar suas técnicas e ser muito bons naquilo a que se propuseram fazer. O talento não vinga sem coragem, disciplina, que se torna algo automático com o tempo, e dedicação. E, claro, às vezes também com um pouco de cara de pau.

 

DA – O que podem os escritores nesses tempos de pós-verdade, fake news e guerras de narrativas?

RODRIGO MELO – Alguém disse, e agora realmente não lembro quem, que a literatura não tem dado conta da realidade. Nós ainda falamos de amores frustrados, enquanto Flor de Lis, com a ajuda de alguns filhos, mata o marido e depois vai até o enterro, encharcada de lágrimas; ainda tentamos desvendar os pecados, enquanto João de Deus estupra fiéis em seu doce charlatanismo, e padres, em um acobertamento que viola tudo o que a sua pretensa crença defende, seguem a se satisfazer e a fazer vítimas sem nunca serem responsabilizados pelo rastro de terror que deixam atrás de si; ainda escrevemos sobre a liberdade, quando grande parte do país, informada ou não, idolatra políticos e os defende como se fossem advogados de defesa, como se realmente tivessem certeza de tudo o que se passa na alma de quem leva os dias a se propagandear. Vivemos em uma espécie de anestesia coletiva, sem entender muito bem o que está acontecendo, seguindo no piloto automático, tentando nos legitimar socialmente e nos dando conta da realidade anos depois, quando nada mais pode ser feito e, o pior, quando não se pode mais voltar atrás. A literatura, bem como outras expressões artísticas, precisa estar acima disso, olhar a tudo com os olhos do distanciamento para, assim, absorver e analisar com limpidez e propriedade. E então dar conta do seu tempo. Antes de entretenimento e cultura, os livros são ainda o registro de uma época.

 

DA – Afinal, por que escrever?

RODRIGO MELO – Acho que pelo mesmo motivo que um cineasta começa a fazer os seus filmes ou um rapper a compor as suas músicas: dar seu testemunho, tentar pegar o mundo todo num ouvido só. Toda pessoa tem um recado a dar, uma análise particular da vida e das coisas, um grito, uma bronca, um louvor, e a arte é um caminho para despejar isso. O motivo de ser a literatura, especificamente, é que sempre gostei de boas histórias. Meu pai é um grande narrador e lembro de que quando viajávamos juntos, eu passava todo o tempo escutando ele falar. Isso certamente contou. Como nunca tive um leque tão grande de boas histórias, comecei a inventar algumas.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

É impossível não carregar os sintomas do mundo. A frase, dita assim num arremedo inicial das ideias, não é algo leviana na medida em que todos nós, de algum modo, estamos amalgamados ao que se chama de vida real. E pronunciar a palavra mundo, como um complexo e vasto território de apreensões da experiência humana, pode aclarar a compreensão dos fenômenos que dizem respeito ao coletivo. Nesse sentido, enxergar-se como sujeito é jamais negar a afetação dos temas engendrados no tecido social, na contraposição de ideias e sentimentos com os demais semelhantes, no conflito que emana das relações entre as mais distintas correntes do pensar.

Não basta a mera constatação de que somos seres políticos por natureza, pois é necessário dar o passo adiante. Reconhecer-se político é mover as forças que vão do pensamento à ação, catalisar revoluções internas e pessoais no sentido de que estas estejam a serviço de uma manifestação de implicações práticas no conjunto da sociedade. No mister da Literatura, por exemplo, a palavra é epifania, gozo, partilha e comunhão de ideais que segue ao encontro de um Leitor, por vezes desconhecido, quiçá ensimesmado nas suas convicções íntimas, mas que pode ser convidado a reagir diante daquilo que lhe é apresentado. Obviamente, no jogo das naturais tensões entre emissão e recepção, há que se considerar a aparição plausível de uma plataforma crítica que pode apresentar consequências imprevistas originalmente. E a virtude de todo esse processo de enfrentamento pode também estar na faísca da provocação e da dúvida.

Falar de uma consciência aguçada de mundo é falar de uma escritora como Clarissa Macedo, poeta investida no percurso lúcido da vida. Na confluência de sensações, a autora é porta-voz de um olhar que se nega a fazer concessões diante do avanço atual e permanente da barbárie que intenta nos devassar. Seu livro mais recente, o instigante “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição” (Ed. Ofícios Terrestres, 2019), é tributário de um painel de sentimentos que se afiguram revestidos de uma expressão política e filosófica capaz de posicionar os versos na condição de pujante interpelação do mundo.

Clarissa, que também é revisora, pesquisadora e doutora em Literatura e Cultura, faz de sua poesia um instrumento de ação, demandando de seus leitores uma atitude jamais passiva quando o tema é pensar as questões que afetam sobejamente nossas humanidades. E não há, no ofício da poeta, verso algum que corra solto, dizendo algo por dizer, sem a correspondência com uma habilidade de manejar tanto os domínios formais da palavra quanto as ideias e sensações em curso. Dito isso, não é demais considerar que a autora é uma das importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, qualificação que também pode ser aferida pela leitura das suas outras obras: a plaquete “O trem vermelho que partiu das cinzas” (Ed. Pedra Palavra, 2014) e o livro “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7Letras, 2014), que obteve o Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, tendo, em 2019, sua 3ª reimpressão pela Penalux, além de ser traduzido ao espanhol por Verónica Aranda (editorial Polibea, Madrid, 2017).

Atenta às indagações que lhe foram ofertadas, Clarissa Macedo concedeu gentilmente uma entrevista para a Diversos Afins. No transcurso da conversa, a obra da poeta esteve em evidência, demarcando de modo especial a visão de mundo dotada de uma dicção intelectual que harmoniza inteligência e sensibilidade, ferramentas indispensáveis inclusive na reflexão sobre alguns dilemas da contemporaneidade.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ana Reis

 

DA – Não é possível falar do seu novo livro sem primeiro ressaltar essa verdadeira cartografia dos afetos que foi construída ao longo de sua trajetória, sobretudo em cima dos laços estabelecidos através da grande rede. Some-se a isso o fato de você também dedicar a obra a expoentes da resistência feminina e negra, tais como Carolina Maria de Jesus e Elza Soares. O que dizer desse conjunto inicial de sentimentos?

CLARISSA MACEDO – Michel Maffesoli fala que é preciso voltarmos ao coração. Ideia esta, acredito, alojada sob uma episteme que demanda à humanidade reinventar-se, através do amor, para existir. Eu compartilho desta noção. A literatura é meu modo de estar e me reconhecer no mundo; sempre foi assim e o é cada vez mais. Nesta existência por meio do literário tenho colhido mais alegrias do que qualquer outra coisa. Nesse sentido, minha palavra, que em “O nome do mapa…” é empregada, sobretudo, como artefato bélico contra os desmandos destes tempos, abre-se à celebração do amor. Todas as pessoas que ali estão mencionadas contribuíram de distintas maneiras para a feitura do volume e, assim, para minha existência. Não podia deixar de levá-las comigo, de agradecer pelas contribuições afetuosas. Esse conjunto de poemas foi tecido a partir do gesto da inquietação que anseia por uma mudança efetiva, que caminha pela sobriedade e que acredita na capacidade da consciência como forma de revolução. Por isso Carolina, símbolo de resistência e amor à escrita; Elza, maga da música de todos os tempos; e Irina Henríquez, poeta e cineasta da Colômbia, país irmão com o qual temos muito que aprender – vozes negras e indígenas que precisam ser lidas, ouvidas, respeitadas. Então, apesar dos tempos de angústia que o livro aborda, o chão dele é arado pelo movimento do afeto. É necessário guerrear com flores nas mãos.

 

DA – É emblemática sua última frase sobre guerrear com flores nas mãos, ainda mais no estado de coisas atual em que vivemos. Diante de um país e mundo cada vez mais distópicos, o que representa a sua assunção de praticar uma literatura marginal?

CLARISSA MACEDO – A literatura é, por si só, marginal. Por isso cumprir este caminho como tenho feito – estudando, pensando e optando por uma carreira profissional (a de revisora) que está ligada à palavra – requer coragem. Escrever é contornar o mundo com uma faca que grafa sentidos e dissidências; às vezes dói, quase sempre sangra, pois na Terra o capitalismo domina todas as esferas: social, econômica, afetiva, política. Coisa mais esquisita é a expressão “capital humano”, que me recorda Antonio Candido quando este diz que “O capitalismo é o senhor do tempo. Mas tempo não é dinheiro. Dizer que tempo é dinheiro é uma brutalidade. Tempo é o tecido de nossas vidas”. Acessar a literatura é manejar a descoberta, a separação entre Tânatos e Cronos, é celebrar a vida em sua dimensão mais profunda, a dimensão humana, rejeitando o projeto perverso de capitalizar a humanidade. “O nome do mapa…” é, nesses termos, o resultado de minha obsessão em cartografar a palavra poética como resistência à necropolítica – algo totalmente descentrado. Mas quem se importa? Como este livro escrito por uma mulher baiana com cheiro de fábrica pode incomodar o deus mercado? Eu poderia falar sobre o meio editorial e tantas outras coisas, mas só digo que se meu livro puder oferecer a alguém uma alternativa ao “capital humano”, algum tipo de devassamento de fronteiras, tudo valerá a pena.

 

DA – Fazendo alusão ao sentimento que atravessa um poema como “Desconhecida”, a constatação do tempo com status de aflição é verdadeiro desabafo. Acredita na ruptura de nossa inércia estrutural a ponto de podermos mudar as coisas?

CLARISSA MACEDO – No poema, “as utopias acabaram em nome da televisão”, entrecruzadas pelo desencantamento, anunciado por Weber como resultado do avanço do capital para todas as relações – e destaco a esfera religiosa institucionalizada, que seria responsável, a princípio, pela perpetuação da espiritualidade. No sistema regido pelo financeiro, o sagrado, o sonho, o rito, a poesia, em seu sentido mais pleno, não têm lugar. Esvaziar estas categorias é roubar do ser humano a sua identidade, deixando-o à mercê do consumo da matéria como forma de preenchimento, forma esta incompleta e desabitada e, por isso mesmo, mantenedora do sistema, pois se nunca encontra verdade e razão, nunca se satisfaz, comprando e comprando para aliviar uma dor que nem sabe que sente. Ruir com toda essa arquitetura bem projetada é um desafio sem precedentes, sobretudo quando vemos partidos de extrema-direita, defensores do ultracapital, ressurgirem, ganhando espaço no mundo. Por outro lado, isto é reflexo de um maquinário que se sabe prestes a ruir, já que o planeta não poderá seguir caso a exploração continue do modo como está. Para que possamos sobreviver, precisaremos nos reinventar, e para isto a humanidade é qualificada. É frustrante que não mudemos pelas razões certas, por uma ética ecológica e do amor. Mas, talvez, a sobrevivência nos ensine, além de sua própria função básica, a sermos mais solidárixs.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ana Reis

 

DA – Em seu livro “O Amanhã não está à venda”, o escritor e líder indígena Ailton Krenak nos lança uma importante provocação, fazendo-nos questionar a nós mesmos se somos realmente uma humanidade diante dos maus tratos impostos à natureza e da ampliação atroz das desigualdades sociais. Acredita que estamos experimentando um largo processo de desumanização em escala global?

CLARISSA MACEDO – Desde sempre nos desumanizamos (ou nos humanizamos?) através da barbárie. Entretanto, com a noção de propriedade, que se estende à mulher, ao outro e à natureza como objetos manejáveis e subservientes, que perdem o status de ser, o processo de desumanizar-se foi intensificado. E são estas noções/práticas que fundamentam o imperialismo e o capital. Portanto, o que vivemos hoje é um processo há muito iniciado, mas potencializado agora porque quanto mais se aprimoram a tecnologia e as ciências mais estas escapam de uma bioética para serem empregadas em nome da dominação. Os povos indígenas vivenciam isso desde que suas terras foram invadidas por navegadores. Hodiernamente, tudo isso espanta porque, após duas severas Guerras Mundiais e tantas outras de independência, além da criação dos Direitos Humanos, dentre outras questões, supôs-se que havíamos aprendido algo; enquanto não descobrirmos a verdadeira matriz do hibridismo cultural, vendido como cosmopolita, mas que, ao fim e ao cabo, serve para a manutenção da colonização (mental, e por isso simbólica e factual ao mesmo tempo), e nos centrarmos numa visão de mundo ecocrítica, geopoética, inclusiva, caminharemos rumo à devastação, ao desumanizado porque extinto.

 

DA – Estarmos imersos hoje num contexto de pandemia expôs mais ainda nosso fracasso civilizatório?

CLARISSA MACEDO – O que direi agora soará como contrassenso se comparado às respostas anteriores: não posso admitir que fracassamos, ao menos não totalmente. A pandemia tem exposto, sim, especialmente no caso “Brazil”, uma feição genocida que parecia irremeável pós-Constituição Cidadã de 1988 e tantos outros avanços globais significativos. Mas cá estamos, sob um governo preocupado com a abertura de shoppings centers (templo-ícone do capital) em detrimento da preservação da vida. Mesmo assim, creio ser possível sacarmos uma lição valiosa disso tudo – e para tanto temos a arte, que, além de grande manifesto sobre esta era (seja no viés político mais imediato, seja na pungência que debilita o humano, seja, ainda, como reino-refúgio), propicia a criação de dimensões imaginárias que podem instituir uma nova cidadania. Permita-me trazer à baila um pequeno poema de “O nome do mapa…”:

Prece

Na vida,
aprendi os salmos perdidos;

são eles que me pegam
quando o continente
cobre os meus olhos
de deserto.

E a literatura é, também, isso, uma acolhida quando o inóspito parece ser o único plano sondável.

 

DA – Em que nível você carrega em si o atributo do otimismo?

CLARISSA MACEDO – Deleuze alerta que migramos da sociedade disciplinar para uma de controle. E, apesar de a engrenagem do capital ser uma obra-prima do ponto de vista propagandista e como sistema de dominação, o pan-óptico não transita imune. Há, nesse aspecto, uma reação, um retorno ao sagrado, ao simbólico, a um estado de poesia, ou seja, uma rejeição ao numerário como forma predominante da existência, delineando a urgência de um reencantamento. Concepções como o veganismo e a crescente de religiões, em linhas gerais, de matriz panteísta demonstram uma demanda pelo telúrico, o seio original de tudo o que pulsa no planeta. Reencantar-se entrecruza, desse modo, a natureza, a arte e a reapropriação do tempo, não mais a serviço do acúmulo monetário e exploração. A vida, em sua definição concreta e inteira, passa a ser prioridade. O reencantamento é esperança: “Às vezes, / fabricamos finais do mundo / sonhando com o próximo passo.”.

 

Clarissa Macedo / Foto: Ingridy Lima

 

DA – Qual a diferença da Clarissa de “Na pata do cavalo há sete abismos” para a Clarissa de “O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição”? 

CLARISSA MACEDO – Toda a diferença (risos) – embora eu mantenha certa identidade de escrita. “Na pata do cavalo…” me parece um livro político; não apenas na acepção de que toda literatura é, em si, um ato político-revolucionário, mas pela abordagem de temas como a dureza vivida na minha infância – e na de tantas pessoas -, o preconceito e o abandono das instituições. E nisto ambas produções comungam. Contudo, estas discussões no livro anterior estão sob a pele de uma metáfora mais incisiva e sob o signo da palavra em uma cariz mais velada. Hoje, sou capaz de reconhecer estes traços, incompreensíveis à época de feitura – uma composição na qual eclodiram várias centelhas que há muito se resguardavam em meu peito. Agora sou outra poeta. Em “O nome do mapa…” optei (inconscientemente, talvez, do ponto de vista estético) por um discurso mais direto, mas não menos imagético, e por um debate imediatamente político. Desde o golpe de 2016, coroado pelo machismo consentido nas instalações governamentais, passando pela ocupação da extrema-direita e desembocando numa ferida quase que total das estruturas democráticas nacionais, tenho sido atravessada pela indignação. E este foi o motor da poética dos mapas. Mesmo nos poemas mais líricos e amenos, por assim dizer, é o traje da tentativa de escape e sobrevivência que me veste. A condição da classe economicamente desfavorecida no Brasil, minha origem, está devassada no livro. Vou costurando os impostos abusivos, a fome, as injustiças, a derrocada da democracia… até chegar ao ímpeto de recontar a história brasileira – é necessário voltar ao início para entender os entre-meios. Admiro autorias que se diferenciam em cada obra mas mantêm uma unidade poético-vocal. Isto é algo que almejo obstinadamente ao construir um trabalho. O próximo livro de poemas que estou tecendo apresenta uma voz completamente distinta da presente nos anteriores.

 

DA – Seria insuportável conceber a realidade sem a Arte? 

CLARISSA MACEDO – Primeiro, é necessário pensar no que “aparta” a realidade da ficção. Muitxs autorxs versaram sobre o tema. Umberto Eco, dentre outros, questiona o que diferencia o universo ficcional (artístico) da verdade histórica. Isto me conduz a refletir sobre o conceito de verdade. Nietzsche me toma pela mão em sua “Segunda consideração intempestiva” para questionar a história e sua definição ao longo do tempo. São diversos pontos de diálogo e indagação. Marcia Tiburi, no prefácio de “O nome do mapa…”, escreveu: “Eu vou me permitir dar livremente esse nome simples e conhecido ao sentimento que emana dos poemas de Clarissa: Luz. Alguma coisa em nós pede essa luz, a luz da poesia como um voo de vagalume no meio do breu.” (Grifos meus). Para mim, não só a poesia, mas toda a arte constitui algo que redimensiona e potencializa o que chamamos de realidade – este fio tênue entre a dita razão e a dita loucura -, guiando-nos com um facho em meio à desesperança. A física quântica indica que o tempo e o espaço como timidamente conhecemos são mais expansivos e enigmáticos. O ponto, para não me alongar, é: estamos longe de saber o que são, ao certo, realidade e ficção. O que sei, contudo, é que a arte, enquanto aparato estético-narrativo…, por fomentar um suprafactual e por dar significado à vida e à história de maneira ampla e surpreendente, torna a existência mais sensível e instigante. Seria insuportável um tipo de realidade sem arte porque esta confunde-se com a própria vida.

 

DA – Afinal, por que escrever?

CLARISSA MACEDO – Afinal, por que viver?

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A Literatura é esse território repleto de vivências, cenários e impressões sobre o mundo. Ao mesmo tempo, é atividade que ultrapassa o real e, algumas vezes, não se rende a necessárias relações com ele. O mister de um autor é também algo que não se digna a maiores explicações, a tentativas exaustivas de classificação. Se definir é limitar, cobrar de um escritor as exatas diretrizes de seu engenho com as palavras não parece ser nem um pouco um gesto razoável.

No panorama das narrativas ficcionais, há quem seja profundamente estimulado a criar tendo como norte a necessidade de contar uma história. Mas não é apenas isso. É construir um texto cuja consistência narrativa confira qualidade ao que se está dizendo, sobretudo através da consciência de que aspectos técnicos também são imprescindíveis para quem pretende dizer algo através dos conteúdos elaborados. E quando encontramos alguém movido pelo intuito de trazer ao mundo uma boa história, supomos de pronto que os primeiros indícios de um trabalho digno de ser apreciado estão se delineando. É o caso de Paulo Bono, escritor cuja obra merece especial atenção em razão dos empenhos exitosos com a construção narrativa.

Baiano de Salvador, Bono é um escritor cujos textos prendem a atenção do leitor pela sua fluidez, ritmo e potencial imagético. Some-se a tais atributos a peculiar capacidade que o autor tem de elaborar diálogos que acabam funcionando como verdadeiros atrativos. Diga-se de passagem, muitos desses diálogos têm por virtude maior dar sustentação às expressões dos personagens. E aqui é preciso mencionar que os tipos humanos engendrados por ele encontram correspondência com personalidades que transitam aos montes no nosso cotidiano. O xis da questão é que o autor os molda com habilidade dentro de um universo de cenários e possibilidades comuns a tantas existências diluídas no conjunto dos dias.

Autor do livro de contos e crônicas “Espalitando” (Ed. Cousa, 2013), dentre participações em antologias e coletâneas, Paulo Bono foi também roteirista do curta-metragem “O Garoto”, lançado em 2014. Mas o seu momento atual está voltado para os desdobramentos tidos a partir de seu primeiro romance, “Sexy Ugly”, lançado em 2019 pela Editora Mondrongo. O livro mostra Bono cada vez mais à vontade em sua lida com as palavras, tecendo uma narrativa que subverte expectativas e que tem como um de seus motes o protagonismo de pessoas costumeiramente não aceitas nos padrões de beleza socialmente impostos. E para falar da experiência com seu novo rebento e de outros temas relacionados às vias literárias e mundanas, Paulo Bono recebeu a Diversos Afins para uma conversa marcada por opiniões diretas e certeiras, prova inconteste de que a objetividade é uma das valiosas ferramentas de expressão do pensamento.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Seu mais recente livro, “Sexy Ugly”, tem um olhar aguçado sobre cenas contemporâneas, pois há nele também uma crítica sutil sobre o sujeito mergulhado em dilemas pessoais que envolvem a luta pela sobrevivência, os desejos sexuais e os afetos. Como foi arquitetar a construção narrativa nesse território cheio de tensões tão nossas? 

PAULO BONO – Foi uma arquitetura de idas e vindas. Aquela coisa de levantar e derrubar pilastras o tempo todo. Na primeira versão do livro o protagonismo era da Propaganda. A história era sobre os bastidores das agências. Com muito mais casos e entrelinhas desse ambiente. Mas achei que estava se tornando um livro de gueto. Joguei tudo fora e recomecei com uma história tipicamente noir. Com mais peso nos crimes, no sexo e no mistério. Mas veio uma necessidade de conhecer melhor o detetive. Foi então que Deco Ramone virou o mestre de obras dessa construção. Descobri que a história era sobre ele. Os bandidos, a femme fatale, os amigos bizarros, a filha, as agências e o puteiro eram na verdade um espelho de Deco. Assim os crimes perderam peso, o noir virou linguagem e a propaganda passou para pano de fundo. O livro seria sobre um publicitário falido que precisava descobrir como vender um puteiro para pessoas feias enquanto lidava com bandidos, com o futuro incerto e com o distanciamento de sua filha. Uma história sobre sobrevivência, expectativas frustradas, autodecepção, sobre a beleza da feiura e a feiura da beleza. Acredito que desta forma a investigação de Deco se tornou mais universal e ele descobriu que somos todos sexy ugly. Ah, e preferi pintar as paredes com humor. De drama já basta a vida.

 

DA – O personagem Deco Ramone é, assim como você, alguém envolvido com publicidade. Em “Espalitando”, seu livro anterior, as narrativas remontam ao bairro da Lapinha, lugar de Salvador que marcou a sua trajetória pessoal. Não há como não observar, na sua obra, essa recorrência a referências que falam de você em alguma instância. De que modo você reflete sobre isso? 

PAULO BONO – É como disse o Hemingway, você tem que escrever sobre o que conhece. O roteirista Charlie Kaufman também comentou uma vez que só podia escrever sobre ele mesmo, pois era o único assunto que escreveria sem errar. E olha que as histórias do Kaufman são bem loucas e inventivas. Acho que é por aí. O “Espalitando” era uma parada mais pessoal até porque veio de um blog que funcionava quase como um diário. Já o “Sexy Ugly” não é sobre mim, estou longe de ser o Deco Ramone. Mas acrescentei muita coisa do que vivi em 20 anos de propaganda. Fante, Bukowski, Céline e muitos outros também iam por esse caminho. Alguns dizem que é um recurso menor, uma limitação. Foda-se. Não acho que há certo ou errado. O importante é o texto. Se ficar bom e verdadeiro, será universal, alguém vai se identificar e não será mais uma história sobre Bono. Recorrer às nossas referências é como dar um pulo num porto seguro só pra pegar uma arma secreta. Se um dia eu escrever sobre uma guerra intergaláctica, acredite, a Lapinha também estará presente.

 

DA – De fato, ainda há muita controvérsia, inclusive, sobre o próprio conceito de autoficção, algo até subestimado por alguns. Não lhe parece mais genuíno saber aliar o texto ao que vivemos, pois tudo sempre esteve no mundo e apenas transformamos as coisas ao nosso modo?

PAULO BONO – Por aí. Mas nem acho que exista um modo mais ou menos genuíno. Cada um faz o que acredita. Genuíno tem que ser o texto. Pra isso é legal saber o que está escrevendo. Claro que é mais difícil o cara fazer um conto sobre futebol de rua se ele nunca fudeu o joelho num baba no asfalto. As palavras acabam soando artificiais. Isso afeta a qualidade do texto. Mas um autor pode descrever bem uma mãe dando à luz sozinha num quarto escuro, se conheceu de perto e aprendeu alguma coisa sobre medos, dores e angústias das mulheres. Não sei se é questão de aliar o texto ao que vivemos. Mas talvez de usar o que vivemos como recurso. Sobre os que subestimam a autoficção, prefiro subestimar as histórias mal contadas.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – “Sexy Ugly” tem uma narrativa de forte apelo imagético, além de apresentar diálogos muito bem construídos e que prendem a atenção do leitor. São dois elementos constituintes, por exemplo, do cinema. Como é que você percebe essa aproximação?

PAULO BONO – O lance é que até os 20 anos li muito pouco. Minhas primeiras referências vieram do cinema. E antes de pegar em literatura eu já era roteirista de audiovisual. Não sei se isso é bom ou ruim, mas acho que qualquer coisa que eu escreva vai levar certa dose imagética. Apesar de serem linguagens bem diferentes, a depender do gênero, acredito que alguns recursos transitam bem entre a tela e a página. É o caso do universo noir do “Sexy Ugly”. O  noir que levou o Dashiell Hammett pro cinema e equilibrou o Raymond Chandler entre livros e roteiros. Eu queria aquela estética na descrição das cenas, queria aquele ritmo tão específico e queria os diálogos rápidos e cínicos. Os diálogos do Sexy foram minha zona de segurança e meu parque de diversões. Ainda quero um dia ser dialoguista de filmes.

DA – “Sexy Ugly” tem, de fato, uma agilidade narrativa, um modo muito peculiar de contar a história, que muito se aproxima com a instantaneidade da própria vida contemporânea. Nestes tempos de excesso de informações, mídias sociais e tudo o mais, comunicar algo através da literatura é um desafio?

PAULO BONO – Em tempos de radicalismos, dificuldades de interpretação, quando tudo é tudo, e opinião é verdade, eu diria que é um puta desafio. Hoje, por exemplo, é difícil escrever um personagem escroto, machista, mesquinho e com pensamentos assassinos sem aparecer alguém pra achar que aquilo é seu ponto de vista. E se colocam isso nas redes, fudeu, vira a verdade. Tem autor que hoje escreve segurando dicionário, bíblia e constituição. O tempo todo julgando previamente seus personagens para não ser ele o condenado. Acho que o perigo está aí. Quando o autor, para ser aceito e por medo de ser mal interpretado, acaba matando a própria arte. Não deixa de ser também um suicídio. Não sei, é difícil. Ritmo, linguagem, estrutura, construção de personagens. As ferramentas estão aí pra vencer esse desafio. Não vai sair legal algumas vezes. Se a comunicação falha até num “bom dia” de elevador, imagina na literatura. Só não pode desistir.

 

DA – Longe de recursos panfletários, como é que os escritores podem se posicionar diante desse estado de coisas em que vivemos?

PAULO BONO – É complicado dizer como cada um deve se posicionar. Já temos muitos heróis, juízes e vigilantes por aí. Escritor patrulhando escritor é foda. Acho assim, acredita numa bandeira? Vai lá, parceiro. Acha que tal caminho é o melhor pra sua escrita? Jogue duro. Quer escrever tal coisa pra ficar bem na fita? Vale também. Mas faça bem feito, conte uma boa história. Só não venha explanar uma cartilha de posturas. Não venha me dizer que eu deveria colocar uma gravata borboleta no meu texto. Isso complica ainda mais esse estado em que vivemos. Acho que é isso. Fazer o que acredita e deixar o outro em paz.

 

DA – O bom mocismo é um desserviço à Literatura?

PAULO BONO – Para mim desserviço são as regrinhas implícitas, os manuais de bom comportamento da escrita, como se a boa literatura fosse produzida de itens de editais. Não é questão de bom mocismo. Existem milhares de livros sensacionais com histórias transformadoras, personagens grandiosos, mensagens bonitas e temas ligados a causas importantes. Problema é elevar esse bom mocismo ao patamar de pedra fundamental deixando a literatura em segundo plano. Não curto muito esse papo de livro necessário. Necessário é contar bem uma boa história.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Como é que você avalia o papel das editoras independentes na cena literária brasileira atual?

PAULO BONO – Se fosse no futebol, acho que a editora independente seria como um jogador da lateral. Precisa defender lá atrás sua sobrevivência todos os dias e ainda ter fôlego e agilidade pra chegar na linha de fundo e cruzar bem a bola para os autores tentarem marcar um golzinho. Tudo isso jogando contra uma seleção de impostos, altos custos, comissões extorsivas das livrarias, falta de incentivos e um estádio lotado torcendo contra. Porque estamos falando de um país que não lê. Quando você trabalha com uma editora pequena, claro que terá dificuldades em distribuição, por exemplo. Mas autor e editor independente jogam no mesmo time. Se jogarem limpo com diálogo e honestidade, já é uma boa parceria.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

PAULO BONO – Acho que o último dado que saiu foi que brasileiro lê menos que dois livros por ano. Eu conheço muita gente que afirma com certo orgulho que não gosta de ler. Filmes com legenda? Esquece. Por aqui só se lê manchetes, memes e textos de WhatsApp quando convém. E duvide da interpretação correta dos mesmos. Se somos um país de leitores subestimados? Acho que nem leitores somos. Adoraria que alguém argumentasse o contrário e mostrasse que sou apenas um pessimista falando bobagem.

 

DA – Agora estamos vivendo um período nefasto de pandemia mundial, fato talvez imaginável apenas nos livros de ficção. De que modo você observa esse momento que estamos testemunhando? Estamos em xeque sob vários aspectos?

PAULO BONO – Claro que estamos em xeque. Estou no maior cagaço. Tenho conversado com muitos amigos e todos eles também estão com muito medo. Medo do vírus, medo da morte de pessoas queridas, medo do futuro. Ninguém sabe ao certo o que está por vir. Só não acredito que sairemos dessa pessoas melhores. Existe aí uma pandemia paralela de gente egoísta, mesquinha, exploradora, hipócrita, ignorante, oportunista e cheia de ódio que piora tudo. Com ou sem diminuição de curva, essas pessoas não vão mudar. Pra não achar que sou apenas pessimismo, acho que salvar o dia de hoje já ajuda. Leiam um livro, assistam a séries, escrevam, brinquem com seus filhos, façam suas lives, faça um bolo, ligue prum amigo, ouçam música, durmam até mais tarde. É normal despirocar de vez em quando. Mas não adianta muito pensar no futuro agora. É salvar o dia de hoje.

 

DA – Esse presente perturbador tem te desafiado a desenvolver algo específico em relação à literatura?

PAULO BONO – Não costumo escrever sobre algo recente. As coisas ficam muito embaralhadas, uma mistura de impressões. Não consigo focar em nada. Até porque sempre tento trabalhar com o humor, mas agora não está rolando. Tenho escrito algumas coisas nas redes, mas são apenas arrotos do cotidiano dessa loucura. Talvez no futuro apareça alguma história sobre um gordo apaixonado por uma prostituta em meio a uma pandemia mortal. Mas os planos para o futuro estão temporariamente fechados.

 

DA – Afinal, por que escrever?

PAULO BONO – Acho que não tenho um motivo nobre. Não escrevo para transformar as pessoas, contribuir pra uma sociedade melhor, defender causas ou despertar reflexões. Só sei que na primeira vez que consegui escrever um conto, acho que isso tem uns 18 anos, eu me senti muito bem. Estava na pior, sem grana e sem muitas perspectivas. Mas pensar na história, no que dizer e labutar aquilo no computador fazia eu me sentir vivo. Até hoje é assim. Pode estar tudo certo, pagando as contas, todos com saúde, mas se eu não estiver com um projeto ou texto engatilhado ou dialogando com um personagem, fico mal humorado, criando problema em casa e me sentindo a pior das criaturas. Então é isso. Escrevo pra salvar minha cabeça e não ser um pé no saco.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Resiliência é uma palavra que, há pouco tempo, entrou em uso comum no vocabulário popular. Segundo o dicionário Houaiss, o sentido figurado do termo ilustra “a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”. Ou seja, toda pessoa que, apesar das adversidades, vai adiante, encarando a vida de frente.

No entanto, outro conceito, surgido faz tão pouco tempo e que sequer consta nos dicionários, tem a ideia de representar com mais intensidade a resistência humana: a antifragilidade. Não que seja o oposto da resiliência, mas um significado diferente. Uma pessoa antifrágil é aquela que, diante das adversidades, torna-se mais forte. Não importa de quão alto ela caia ou quão profundo possa ser ferida, ela sempre vai crescer na relação com seus desafios e problemas; sempre vai reafirmar seu poder.

É difícil identificar qual desses conceitos melhor se adequa a Lígia Vitalina, protagonista de “Por cima do mar”, de Deborah Dornellas. Em sua estreia no romance, a jornalista, escritora e artista plástica carioca/brasiliense, há sete anos radicada em São Paulo, dá voz a uma mulher negra, filha de um operário e de uma dona de casa, que passou sua infância e adolescência na periferia de Brasília enfrentando dificuldades sociais, discriminação e um estupro que preferiu esconder, de modo a alcançar seus objetivos.

A personagem Lígia estudou com o ensino disponível, entrou para a faculdade e formou-se em História, seguindo carreira acadêmica centrada na pesquisa entre a cultura brasileira e a africana. Numa viagem ao Rio, conhece um professor angolano, com quem se casa, tem filhos e passa a viver na cidade de Benguela.

Certos componentes do enredo refletem a própria vida da autora, também casada com um angolano e com uma carreira acadêmica voltada para o estudo da cultura africana. São fusões entre realidade e ficção que tornam a personagem tão bem delineada em seu aspecto humano, que, na dúvida se sua característica mais marcante é resiliência ou antifragilidade, não foge à certeza de que se trata de uma das protagonistas mais fortes e inspiradoras da literatura contemporânea brasileira.

Prova disso é que o romance foi agraciado, no fim do ano passado, com o prêmio Casa de las Américas, distinção oferecida pela fundação cubana que tem, em seu catálogo, vencedores do porte de Maria Valéria Rezende, Ana Maria Gonçalves, Nélida Piñon e Luiz Ruffato. No comunicado de apresentação do prêmio, os jurados defenderam ser um livro relevante e envolvente, tratando com originalidade e profundidade a vida difícil da protagonista e das mulheres negras que vieram antes dela. E arrematam chamando atenção para o cuidado com a pesquisa histórica e a performance literária de alta qualidade.

Na entrevista a seguir, Deborah Dornellas fala sobre o longo processo de composição do livro, a maneira como recebeu o prêmio e sua visão do meio literário. Além disso, valendo-se das circunstâncias que envolvem sua personagem, toca em temas como racismo, a participação das mulheres na sociedade e a presença de autores negros na literatura contemporânea brasileira, pensando na literatura como um instrumento também capaz de fazer o leitor voltar os olhos para fora do livro.  “Não sei se os artistas têm o dever de se manifestar sobre questões que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas ações e em sua visão de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. É incrível o que um único livro pode fazer na vida de uma pessoa!”, reflete.

 

Deborah Dornellas / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu romance tem sua força motriz concentrada no aspecto humano da sua protagonista, uma mulher negra, de origem pobre, que, em meio a uma série de fatos ruins e de circunstâncias adversas, supera o passado e, por amor, cruza o Atlântico. Como foi organizar um livro que se desenvolve em várias linhas narrativas, indo e voltando no tempo, para que, a certa altura, o leitor ficasse com a impressão de que toda a história aconteceu de verdade, de que a narração progredisse de forma intuitiva?

DEBORAH DORNELLAS – Foi uma aventura. Entre o primeiro parágrafo e o ponto final, mais de cinco anos se passaram. O parto foi longo.  E o livro como uma narrativa fragmentada, com cenas avulsas. Tentei algumas vezes domar o texto, ter mais controle sobre o processo de escrita, mas não consegui. A narrativa fragmentada, indo e vindo na linha do tempo, se impôs. Depois de relutar um pouco, no início, acabei me rendendo. Percebi que esse livro só se escreveria assim. Muitas cenas, inclusive, foram escritas em madrugadas insones, no bloco de notas do celular, no tablet etc. Eu escrevia a cena, salvava, enviava para o meu e-mail e no dia seguinte revisitava, editava. Foi assim até quase o fim do processo. Felizmente, descobri, depois de algum tempo, que isso poderia trabalhar a favor da protagonista-narradora e da história que ela estava contando. Somente em 2017 comecei a montar uma estrutura. Confeccionei uma espécie de escaleta gigante, de cartolina branca, que preguei na parede do quarto. Enumerava as cenas e as colocava numa determinada ordem, para conseguir visualizar melhor. Cada cena tinha uma breve descrição, escrita a lápis, para que eu pudesse apagar e trocar de posição, quando necessário. Mais ou menos como fazem os roteiristas. Aliás, muitas vezes me foi útil o pouco conhecimento de roteiro que tenho. Parecia que eu estava escrevendo um filme de longa metragem. “Por cima do mar” foi minha primeira experiência em prosa longa, e eu não tinha nenhum treino nisso. Na verdade, tive que montar um quebra-cabeça de muitas peças para pôr o livro de pé. Essa primeira montagem não sobreviveu, mas foi fundamental para eu ter um norte. Dali em diante, comecei a trabalhar na costura das cenas, mantendo sempre essa característica da fragmentação, com capítulos curtos, mas já com uma noção de sequência. Em alguns trechos, optei por emendar capítulos que tinham continuidade, porque nesses casos a fragmentação prejudicaria o entendimento. Apesar de ter lido e estudado material sobre técnicas narrativas e de ter tido interlocução desde o início da escrita (o romance nasceu em 2013, como trabalho de conclusão de curso, para a pós-graduação em Formação de Escritores do ISE Vera Cruz, e por isso foi lido e comentado durante as oficinas avançadas), acho que o processo de produção do texto foi um bocado intuitivo também.

 

DA – Há situações e tomadas de caminhos na vida da protagonista de seu livro que muito se aproximam daquelas que configuraram a sua própria vida. Isso foi algo espontâneo, quase como um flerte involuntário com a autoficção, ou, desde o começo, você teve esse intuito de visitar trechos da sua realidade através de recortes ficcionais?

DEBORAH DORNELLAS – Tive sim o intuito de visitar trechos da realidade de Brasília, do Brasil e de Angola por meio de recortes ficcionais. E também emprestei à protagonista alguns elementos de vivências minhas, de situações que conheci de perto. Acho que muitos ficcionistas fazem isso. Mas não sinto que tenha exatamente flertado com autoficção.  Não é uma vertente que não me atrai como escritora, embora como leitora eu aprecie algumas obras que vão por esse caminho. Quanto a mim e Lígia Vitalina, a protagonista-narradora, nossas biografias apenas se tocam em alguns aspectos: somos mulheres, ambas criadas no DF, pertencemos a gerações próximas (ela é de 1967, eu sou de 1959), estudamos na UnB, gostamos de música e escrevemos poesia. Mas me parece que as semelhanças são apenas essas. Não diria que nossos caminhos de vida se aproximam por isso. Na verdade, ao longo da produção do livro, fui criando situações para Lígia Vitalina de maneira a tentar aproximá-la mais de mim, já que somos bem diferentes. Lígia é negra, nascida e criada na periferia do Distrito Federal, numa família pobre. Eu sou branca, de classe média alta, nascida no Rio e criada do Plano Piloto de Brasília. Existe um apartheid geográfico e social entre essas duas experiências, esses dois pontos de vista. Lígia olha para Brasília, para o Plano Piloto, de fora para dentro. Sua trajetória, suas desventuras, as violências que sofre, sua reconstrução emocional, sua travessia de volta à geografia ancestral, seu lugar de fala, tudo é muito diferente da minha experiência. Nós não falamos do mesmo lugar. A meu ver, os cenários e episódios da história coletiva de Brasília são mais relevantes para a história da personagem do que os elementos da minha história que emprestei a ela. Mas, desde que me joguei nessa aventura, eu quis fazer justamente o exercício de me colocar no lugar da outra, de olhar a partir do ponto de vista de uma mulher com uma biografia muito distinta da minha. Para isso, era fundamental que a própria personagem contasse sua história, que tivesse voz. Por isso escolhi a primeira pessoa para narrar. Foi uma escolha arriscada. Imaginei que suscitaria várias questões, como esta do provável namoro com a autoficção, e outras, relacionadas justamente ao lugar de fala. Procurei tomar muito cuidado com isso. Mas me pareceu que a primeira pessoa da narrativa era a única possível, para o livro que eu queria escrever. Desde o começo, Lígia queria contar, ela mesma, essa história. Esse romance só existe porque ela não desistiu dele (e de mim) todo esse tempo. “Por cima do mar” nasceu com Lígia Vitalina da Conceição Brasil e por causa dela, e assim se sustentou até o fim. Impressionante a força dessa personagem. Apesar de ela ser uma personagem completamente ficcional, penso em Lígia como uma pessoa de carne, osso, vísceras e vontade. E, mesmo depois de tantos meses da publicação do livro, às vezes tenho a sensação de que vou encontrá-la numa esquina. Ficamos amigas.

 

DA – Os personagens de seu livro vivenciam episódios marcantes da história do Brasil, com base no Distrito Federal, a exemplo do incidente do Quarentão (antigo clube da música negra, invadido a tiros pela polícia, nos anos 80) e do enterro do presidente Juscelino Kubitschek, em 1976. Qual o cuidado que você teve ao trazer esses registros históricos para seu livro, contextualizando com a formação dos personagens, sem soar aleatório ou didático? Há alguma regra para se manipular a História?

DEBORAH DORNELLAS – Não sei se há regras para se manipular a História. Acho que precisamos ter muito cuidado com isso. Fiz o possível para respeitar os episódios históricos que trouxe para o livro. Até porque a protagonista-narradora é historiadora e professora de História. No âmbito coletivo, da História do Brasil, de Brasília e de Angola, procurei mesmo reproduzir os fatos conforme os encontrava nas pesquisas, sempre feitas e checadas em mais de uma fonte. Fiquei meio obsessiva com datas, por exemplo. Mas também me senti bem livre para ficcionalizar elementos que servissem à narrativa, no âmbito da micro-história, das histórias do cotidiano, da experiência dos personagens que criei. Colocava o personagem na cena de maneira a que a situação interferisse na ação dele ou dela, e não o contrário. Em alguns trechos, criei cenas completamente ficcionais, mas em cenários e eventos reais, com personagens reais, como a Cássia Eller, por exemplo, que interage com alguns personagens (Lígia, Virgínia, Moscão), mas não ficcionalizei nada da história pública da Cássia. A mesma coisa com o enterro de JK, o baile black no Quarentão, o episódio do “massacre da GEB” e algumas passagens da História de Angola, como a guerra do Huambo. A dimensão histórica fez parte da proposta do livro desde o início, lá atrás, quando eu tinha apenas o conto “Vitalina”, germe do romance. Desde a apresentação do projeto, já anexei os resultados de algumas pesquisas, tanto da história de Brasília quanto da de Angola. Pessoas que leram partes do texto ao longo dos primeiros dois anos, inclusive professores da pós e, posteriormente, membros da banca examinadora, sugeriram que a história da personagem caminhasse, por pouco que fosse, junto com a história de Brasília. E que eu também falasse de Angola e incluísse episódios de sua história recente. Acolhi de cara a sugestão. Gosto muito de História e queria mesmo mostrar Brasília, minha cidade, e Angola, um país tão importante para o Brasil e tão pouco conhecido aqui, infelizmente. Para isso, fiz bastante pesquisa em livros, websites, textos, conversei com amigos brasilienses e angolanos etc. Durante todo o processo de escrita e reescrita, tomei cuidado para não passar dados históricos falsos ou imprecisos. Chequei datas, lugares, nomes, vocabulário inúmeras vezes. Em 2016, viajei para Angola, visitei Luanda e Benguela. Essa viagem foi fundamental para o livro. Mais para o final de 2017, algumas pessoas em Angola e no Brasil leram a primeira versão. Essas leituras foram muito importantes e úteis para mim. A partir das devolutivas desses leitores escolhidos, corrigi muita coisa, inclusive informações históricas e geográficas. E também excluí trechos, por serem didáticos demais, explicativos, ou muito contaminados pela linguagem jornalística – sou repórter de formação, e alguns cacoetes profissionais podem às vezes contaminar a escrita ficcional.

 

DA – Dois temas surgem com muito impacto na trajetória da sua protagonista, o racismo e a violência contra a mulher. O primeiro, em forma de preconceito e segregação; e o segundo, por meio de uma cena forte de estupro coletivo. Qual a relevância concreta da literatura como canal para se discutir assuntos como esses? Você acredita que a ficção tem o poder de conscientizar o leitor e fazer com que, de alguma maneira, isso se reflita no modo de enxergar a sociedade? E, dentro da temática do racismo, qual o seu ponto de vista em relação às polêmicas recentes envolvendo alguns dos livros de Monteiro Lobato?

DEBORAH DORNELLAS – A literatura, assim como a arte em geral, é sim um canal relevante para discutirmos muitas questões da nossa sociedade. Faço uso desses canais na minha criação. Não acho que temos sempre que produzir “arte engajada”, para usar um conceito antigo e muito questionado. Isso poderia ser uma camisa-de-força para a expressão artística, o que não é bom. Eu pessoalmente gosto de usar minhas possibilidades de expressão para tratar de assuntos que me mobilizam, intrigam, incomodam, sejam eles coletivos, da sociedade ou individuais. Quero ter o direito de fazer isso livremente. Ainda mais em tempos tão sombrios. Não sei se os artistas têm o dever de se manifestar sobre questões que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura (prosa de ficção, poesia) tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas ações e em sua visão de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. É incrível o que um único livro pode fazer na vida de uma pessoa! Conheço muitos exemplos. Quanto ao Monteiro Lobato, acho que é fundamental que, ao ler sua obra, o leitor seja informado sobre as posições ideológicas racistas e eugenistas do autor. Até porque acho que ele nunca escondeu suas ideias a esse respeito. Há elementos em muitos de seus livros, inclusive nos mais populares, lidos por crianças há gerações. É preciso que se dê nome às coisas. Nunca fui leitora de Lobato. Talvez não tenha sido apresentada a ela na infância como os brasileiros escolarizados da minha geração foram. Conheço personagens e trechos de seus livros, claro, mas muito por causa de programas de TV. Se tivesse que dar aulas sobre a obra de Lobato hoje, por exemplo, teria que ler tudo, e certamente leria com filtro. O viés racista em sua criação prejudicaria minha fruição.

 

DA – Outro aspecto fundamental do romance é uma resistência a fazer da protagonista, sufocada pelo sistema, sufocada por seus próprios dilemas, vítima da sociedade. Muito pelo contrário: há um fator de resiliência e de vontade de vencer muito grande na maneira de ela encarar a vida. O quão importante para a construção da personagem foi idealizá-la dessa maneira? E como essa imagem pode se refletir na representação da mulher negra na sociedade de hoje?

DEBORAH DORNELLAS – Nos primeiros tempos de escrita do texto, Viltalina (que ainda não tinha o nome Lígia acrescentado ao seu), era uma mulher melancólica, quase depressiva, muito ferida pela vida. E carregava uma herança de pai e mãe que fizeram dela uma pessoa tímida, contida. Se ela tivesse permanecido assim, teria se tornado uma mártir, uma vítima da sociedade, uma personagem pálida, e eu não queria isso de jeito nenhum. Seria muito pouco para essa personagem. As feridas de Lígia Vitalina a constituem, mas não a resumem. Além disso, seria um desserviço para a luta das mulheres, especialmente das mulheres negras. Com a evolução da escrita do romance, a personagem cresceu, amadureceu, ganhou força e autoestima elevada, até se tornar uma mulher aguerrida. Essa transformação fica evidente ao longo da vida de Lígia. De 2015 em diante, comecei a prestar mais atenção à produção intelectual das negras brasileiras e a seguir várias pensadoras negras, ler seus posts nas redes sociais, conhecer melhor seus pleitos, entender sua luta e de que lugar elas falam. Também procurei ler mais livros de escritoras negras. Essas leituras e essa atenção, mais o material que eu já tinha pesquisado e escrito, trouxeram a Lígia muitas características que ela não tinha antes, e penso que isso enriqueceu muito a personagem, tornou-a mais complexa. E verossímil. Esse crescimento e aprimoramento da personagem foram muito importantes para Lígia Vitalina que resultou, para a heroína brasileira que me desafiei a construir desde que tive a ideia de transformar um conto com problemas de construção numa prosa longa mais trabalhada. O cuidado com a representação da mulher negra na sociedade de hoje foi sempre meu norte na produção desse livro. Principalmente porque sou uma escritora branca que escreveu um livro que conta a história de uma personagem negra. Meu objetivo é juntar forças. Como disse a Ana Maria Gonçalves num programa de entrevistas em 2017, a ideia é “falar junto” e não “falar por”.

 

DA – A certa altura, a sua protagonista se apaixona, casa e vai morar em Angola, terra natal do seu marido. Você também é casada com um angolano e passou um tempo no continente africano. Nesse caso, o quanto de sua experiência pessoal serviu de matéria para o livro? E, desse conhecimento empírico, consegue traçar paralelos e diferenças entre a cultura angolana e a brasileira, sobretudo no que corresponde à literatura?

DEBORAH DORNELLAS – Lígia se casou muito antes de mim. Na verdade, Vitalina se casou quando a história ainda era um conto, antes de 2013. Quando iniciei a escrita do romance, e logo nos dois primeiros anos, mantive o mote e muitos dos elementos do conto original. Zé Augusto está lá desde o começo. Ele, sua biografia, parte de sua família. Uma das primeiras sequências que escrevi foi o encontro deles no Rio, por exemplo. Nesse momento, eu ainda não conhecia meu marido. Na verdade, foi o trabalho com o livro que me levou a ele, e não o contrário. Em 2013 e 2014, comecei a pedir amizade a vários angolanos e angolanas pelas redes sociais, justamente porque precisava conhecer melhor os costumes de Angola, expressões das línguas nacionais, indicação de fontes de pesquisa. Foi nesse contexto que conheci o Carlos, meu marido. A amizade virou namoro virtual no finalzinho de 2015. Em março de 2016, ele veio viver comigo no Brasil. Nunca nos tínhamos visto pessoalmente. O romance tinha então mais de 100 páginas escritas já. Carlos só conheceu a história de Vitalina aqui, com a leitura do material que eu havia apresentado à banca, no começo de 2015. Até então, eu ainda não tinha ido a Angola. Só pude viajar para lá em novembro de 2016, porque só então tive condições financeiras. E também quem me hospedasse em Luanda e Benguela e me enviasse a carta-convite, que o governo exige para expedir o visto. Quem fez isso foi minha amiga Judith Luacute, que conheci pessoalmente aqui no Brasil em 2014, também a partir de um primeiro contato pela rede. É ela que eu homenageio com o sobrenome da família de Zé Augusto. Pude ir sozinha para Angola – Carlos ficou no Brasil – muito por causa da generosidade da Judith e de alguns amigos do meu marido, que na época moravam em Benguela e me acolheram. Passei apenas 17 dias em Angola. Nunca vivi lá. Essa viagem foi fundamental para que eu pudesse afinar algumas cenas, enriquecer descrições, andar pelos cenários. Muitas cenas do cotidiano das ruas de Benguela, por exemplo, foram escritas depois da viagem que foi muito curta, mas inesquecível. Quero voltar logo. Angola entrou na minha vida há muitos anos, por duas portas: a primeira foi a cultura popular brasileira de matriz africana, especialmente maracatu e congado; a segunda, a literatura africana em língua portuguesa, que conheci para valer em 2004. De lá para cá, tenho lido tudo o que me cai nas mãos e sempre vou atrás de mais livros de autores angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos etc. Pepetela, Agualusa, Ondjaki, Ana Paula Tavares, Gociante Patissa, Mia Couto, Paulina Chiziane, entre outros. Durante anos, entre 2004 e 2007, só lia africanos. Acho que “Por cima do mar” é tributário dessas literaturas, de alguma maneira. Há muitas semelhanças e diferenças entre as culturas brasileira e angolana. Do nosso lado do Atlântico, há sobrevivências importantes, plasmadas ao longo de toda a diáspora: aspectos da religiosidade brasileira, elementos da culinária, da música, das danças, do português brasileiro etc. Mas a Angola que está no nosso imaginário é uma Angola mítica, um lugar parado no tempo, no espaço de uma África oitocentista. Do lado de lá do oceano, a cultura brasileira tem muita influência e há um bom tempo. Nossa música é bastante conhecida, admirada e consumida lá. E nas últimas décadas, acho que dos anos 80 para cá, as telenovelas entraram em Angola com força total. Quando estive lá, assisti a alguns capítulos de duas ou três telenovelas que já tinham passado aqui. Outro fenômeno notável na Angola atual é a presença massiva das igrejas evangélicas neopentecostais, com seus templos enormes e sua rede de TV, mas isso é assunto para outra conversa. Noutras décadas, a literatura brasileira foi muito lida em Angola. Toda uma geração de angolanos leu boa parte da obra de Jorge Amado, por exemplo. Vários escritores brasileiros são conhecidos dos angolanos. Mas infelizmente essa é uma via de mão única. Poucos brasileiros sabem alguma coisa de Angola, menos ainda leem literatura angolana. Dois ou três autores angolanos são conhecidos aqui. Acho que a maioria dos brasileiros nem sabe que Angola é um país de língua oficial portuguesa. E muito pouca gente conhece ou se interessa pela história recente do país. É uma pena que o Brasil seja este país tão autocentrado, ou tão voltado para Europa e América do Norte. África e América Latina têm muito mais a ver conosco do que grande parte da sociedade brasileira imagina e deseja.

 

Deborah Dornellas / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sua formação é de jornalista, com mestrado em História, por meio do qual você tem uma pesquisa profunda sobre a influência africana na cultura brasileira. Transportando esse conhecimento para o campo literário, como avalia a representação do negro na literatura brasileira? E, na sua opinião, ainda há pouco espaço para escritores negros?

DEBORAH DORNELLAS – Há pouco espaço para as escritoras e escritores negros na nossa literatura. Se pensarmos em termos de representatividade, menos ainda. Esses dias, li uma entrevista da Conceição Evaristo em que ela questiona justamente o fato de sua obra só ter começado a ter visibilidade muito recentemente, quando ela já passou dos 70 anos de idade. Há décadas ela trabalha, escreve, estuda, luta por espaço. Isso quer dizer muita coisa. Uma obra com essa relevância já deveria estar sendo lida há muito mais tempo. Para ilustrar a representação do negro na literatura brasileira, uso uma fala da mesma Conceição Evaristo, que ouvi numa das mesas da FLIP de 2017. Ela comentava mais particularmente sobre a representação da mulher negra na literatura brasileira. Segundo um levantamento que ela fez, as negras na nossa literatura tradicional em geral são estéreis, não são capazes de ter descendência. Isso é tão cruel quanto revelador. Acho que alguns ventos favoráveis a que isso mude estão começando a soprar, mas ainda é preciso correr muito trecho. E isso os intelectuais negros e negras têm feito muito bem. É nessa trincheira que eu quero estar.

 

DA – Seguindo esse mesmo raciocínio, uma avaliação superficial do mercado literário deixa claro que o espaço e o interesse por livros escritos por mulheres ainda compõem um percentual inferior a aquele ocupado por homens. Recentemente, a divulgação de um prêmio literário para autores inéditos também demonstrou essa disparidade. Trabalhando também como tradutora, seu olhar de dentro do mercado literário tem essa mesma percepção? Acredita que ainda exista um preconceito e uma “dificuldade” para com os livros escritos por mulheres, tanto dos leitores quanto das editoras e das comissões avaliadoras de originais?

DEBORAH DORNELLAS – Não sou tradutora literária. Talvez um dia me aventure por esses caminhos, que me atraem muito. Mas imagino que o mercado de obras traduzidas aqui no Brasil reproduza o que o mercado literário de livros nacionais faz: o reforço da hegemonia masculina. Isso se dá por várias razões que não cabe elencar aqui, mas principalmente porque o mercado literário de uma sociedade machista é fundamentalmente machista. Tenho muita implicância com o termo “escrita feminina”, por exemplo. O que seria isso? Existe “escrita masculina”? Podemos falar talvez de escrita de autoria feminina, de literatura feita por mulheres, mas só com o intuito de marcar nossa posição num mercado que resiste em abrir as portas para nós. No mais, qualquer rótulo é restritivo. O mesmo serve para escritas de negros e negras, LGBTQs, periféricos, indígenas etc. Tudo que está fora da perspectiva do homem branco, heterossexual, de classe média para cima, euro-centrado é visto como exótico. Isso, além de ser uma bobagem inominável, não é sequer inteligente, porque não leva em consideração o que o tal mercado literário, que eu nem sei bem o que é, poderia lucrar se investisse mais nessas escritas que ele próprio tende a desqualificar. Parece que isso está mudando, mas bem devagar. Em 2018, o Prêmio São Paulo de Literatura, por exemplo, só premiou mulheres em suas três categorias. Isso nos deve dizer alguma coisa sobre a literatura que estamos produzindo. Integro dois coletivos literários, o Martelinho de Ouro, composto somente por mulheres, mas sem perfil feminista, e o Mulherio das Letras, de perfil mais militante. Atesto, olhando de dentro de ambos, que nós temos uma força de produção e realização impressionante. O mercado que fique atento.

 

DA – Uma parte de seu romance se passa numa comunidade pobre, em Brasília, e é estranho como ainda hoje um autor surgido da periferia, da favela, ainda causa um fascínio pela maneira como interpreta esse ambiente e o transpõe para a ficção, valendo-se de uma linguagem própria. Foi assim, por exemplo, com o livro de contos “O sol na cabeça”, do autor carioca Geovani Martins. Pensando nas características desse tipo de literatura, como você avalia o olhar de fora para esse universo particular? Acredita que ainda exista uma barreira para o que foge da norma culta e traduz esse movimento como algo exótico?

DEBORAH DORNELLAS – É como eu disse aí acima. O olhar de fora é limitado e tende a rotular de exótico tudo que não traduz a perspectiva hegemônica. A periferia é olhada de fora por quem dita as regras no mercado. A ascensão rápida do Geovani Martins é uma exceção a essa regra. Gosto muito do trabalho dele, li “O sol na cabeça” numa noite. O texto tem muita força. Ocorre que quando as coisas começam a aparecer no centro, provavelmente já estão acontecendo há muito tempo na periferia. A periferia pulsa. E é de lá que vem o novo. E não só na literatura. Basta olhar para todos os movimentos que têm acontecido nas periferias do Brasil há décadas para constatar isso. Na área da literatura, há saraus, slams, feiras literárias – como a FELIZS em São Paulo, a Movida, no DF, e FLUP, no Rio, por onde inclusive o Geovani Martins passou e passa –, casas editoriais independentes etc. Mas os caras só enxergam isso pela sua lente. E com delay.

 

DA – Por falar em linguagem, embora com uma força de escrita descritiva, seu romance traz um teor visível de lirismo no modo como compõe certas cenas e narra a maneira com que a protagonista decifra o mundo externo e o interno. De onde vem essa verve poética, e como ela se encaixa na construção do seu livro?

DEBORAH DORNELLAS – Escrevo poesia desde muito cedo. Foi por essa porta que entrei na escrita literária. Embora seja uma leitora mais frequente de prosa, a poesia é minha forma de expressão mais orgânica. Meu primeiro livro publicado foi uma coletânea de poemas, TRIZ (In House, 2012). Desde 2012, comecei a fazer oficinas literárias. Fiz duas com o Marcelino Freire, antes de entrar na pós-graduação para escritores. Foi nesse ambiente que comecei a arriscar textos em prosa. A coisa se destravou aí, mas foi só no ano seguinte, quando entrei para o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, que tive coragem de publicar alguns dos meus contos. Desde 2013, temos publicado coletâneas de textos todos os anos, em formato de livro ou fanzine. Quanto ao lirismo, acho que não sei escrever sem ele. Aliás, acho que não viveria sem lirismo. No romance, ele está por toda parte. A poesia esteve presente desde o início da escrita. Com uma particularidade: poesia e prosa poética funcionam como uma espécie de refrigério para a protagonista. E acho que para o leitor também, em alguns momentos. Descobri que esse é um recurso meu. Quando não dou conta de narrar, por alguma razão, recorro à poesia. Emprestei esse recurso à Lígia Vitalina, e ela aceitou. A poesia entra em momentos muito difíceis ou intensos para ela.

 

DA – “Por cima do mar” é seu primeiro romance, e ganhou, no ano passado, um dos prêmios literários mais prestigiados do mundo: o Prêmio Casa de las Américas. Eu queria saber como foi sua relação com a editoras, quando estava procurando um selo para publicação, até finalmente o original do romance ser aceito pela Patuá? E se, após a conquista do prêmio, surgiu algum tipo de interesse pelo seu trabalho por parte de outras editoras, talvez alguma daquelas consideradas grandes?

DEBORAH DORNELLAS – Não houve relação com editoras. O Martelinho já publicava com a Patuá. Conversei com o Eduardo Lacerda, dono da editora, dei uma parte do manuscrito original para ele ler e logo em seguida já combinamos a edição. Foi um processo bem rápido. Nossa relação é muito boa e fluida. Consegui fazer o livro que eu quis, no formato que escolhi. E foi o Edu quem sugeriu que eu mesma ilustrasse o romance. Isso talvez não fosse possível se eu estivesse numa editora dessas consideradas grandes. Nenhuma delas veio me procurar ainda.

 

DA – Qual o grau de transformação você acredita que um prêmio desse porte pode trazer para sua carreira de escritora?

DEBORAH DORNELLAS – Receber o Prêmio Casa de Las Américas, ainda mais com o primeiro romance, é uma grande alegria e uma imensa honra para mim. Acho que as coisas já começaram a mudar. E podem mudar mais ainda, em relação à visibilidade do livro e ao interesse que ele desperta. Qualquer prêmio relevante pode ser uma alavanca para a carreira da escritora ou do escritor. Desde que foi divulgado o resultado do prêmio, pessoas começaram a me procurar para entrevistas, resenhas foram publicadas, convites para participar de feiras literárias começaram a pipocar. Estou adorando, claro, e surfando nessa onda. Afinal todo livro é uma aposta, um sonho e envolve muito trabalho.

 

DA – Há um momento muito bonito em seu livro, no qual a protagonista percebe que suas escolhas de vida a levaram a se completar no outro. Pensando na literatura como uma escolha para entender a si mesma, de que maneira o exercício da escrita e da criação lhe completa?

DEBORAH DORNELLAS – Que bonita essa percepção. Não tinha pensado nisso, nem em relação a ela, nem em relação a mim. Escrever, poder expressar-se é muito bom, e o exercício da escrita e da criação pode sem dúvida ser um caminho para o autoconhecimento, a autopercepção, o auto-acolhimento. Os momentos mais prazerosos para mim são aqueles em que estou escrevendo, pintando, lendo, pensando sobre um próximo livro, trabalhando numa ideia. Criar, mesmo quando dói, é bom. Descubro isso todos os dias.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

É relevante considerar que o trabalho de um artista ganha sentido mais vigoroso quando aparece conectado às questões de seu tempo. Na verdade, estamos a falar aqui da percepção que a arte evoca quando, imbuídos da consciência de seu lugar no mundo, aqueles que labutam com a cultura conseguem comunicar o conteúdo de seu ofício de modo a refletir aspectos comuns a toda uma coletividade. De toda sorte, falar ao mundo não pode ser uma mera atitude retórica, um jogo de cena a representar algo apenas em sua superfície e aparência. Requer propriedade para além de um discurso que reflita a vivência de quem o profere.

Mas dizer as coisas todas relatadas acima é apenas um indicativo para chegar a um ponto desejado, ou seja, abrir caminho para apresentar um projeto artístico que se converte em música da melhor qualidade. É dessa forma que a trajetória de uma banda como OQuadro pode ser referenciada. Para quem ainda não conhece, importa mencionar que estamos diante de um grupo com mais de 20 anos de estrada marcados, sobretudo, pelas vias do rap. E não é apenas isso. Esse rap praticado pelo grupo surgiu e se desenvolveu ao longo do tempo dentro de um contínuo processo de diálogo com outros ritmos, principalmente os de influência africana e latina.

A junção de Jef Rodriguez, Ricô, Victor Santana, Freeza, Jahgga, Rans, Dalua e Mangaio foi capaz de produzir um todo orgânico que hoje melhor define os caminhos do grupo. Com dois discos na bagagem, os baianos de OQuadro parecem ter encontrado um equilíbrio que, na verdade, demonstra ser um misto de independência, maturidade e engajamento. Some-se a isso o fato de que suas produções, além de expressarem o resultado de um cuidadoso e coletivo processo de criação, derivam de um amplo diálogo com parceiros valiosos na estrada musical.

Na entrevista que agora segue, Jef Rodriguez, Victor Santana e Ricô falam um pouco sobre os percursos da banda em meio a uma jornada que mescla raízes, pesquisa musical, identidade e visões de mundo. Também por aqui o foco está nos desdobramentos trazidos pelo segundo disco do grupo, Nêgo Roque, lançado em 2017. O álbum, que já foi alvo de uma matéria aqui na revista, representa todo um momento de escolhas, influências e percepções dos músicos em torno daquilo que hoje melhor define sua trajetória. Por essas e outras vias, nada mais apropriado do que conferir atenção às falas de tais artistas.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

DA – Nêgo Roque é um trabalho que mantém aceso todo um potencial discursivo que já se tornou uma marca forte de OQuadro. Suas letras são janelas de lucidez abertas para o mundo. O olhar que não acomoda coisas é o que faz permanecer vivos os caminhos da banda?

JEF RODRIGUEZ – Sim. Existe um filtro, um processo seletivo na confecção das letras e das músicas que vêm marcando nossa caminhada até então. Não queremos que essa seleção pareça um limite, pelo contrário, é uma escolha. A pretensão é ampliar ainda mais esse raio temático para além das questões sociais. Afinal, existem muitas coisas a serem ditas. Mas existe um fio condutor, um nível de relevância que não queremos perder de vista, tanto na forma quanto no conteúdo.

 

DA – Uma das características principais da banda é o modo como as criações são pensadas e executadas coletivamente. Isso é perceptível, sobretudo no novo álbum. Qual é o maior desafio de se chegar a um resultado orgânico quando há uma pluralidade de mentes convivendo?

VICTOR SANTANA – Na verdade, não tem muito desafio. Podemos até demorar para chegar no resultado que seja bom para todo mundo, que todos concordem, mas é fácil. Uns chegam com um rif, um arranjo de guitarra, baixo, teclado, bateria ou percussão e isso vai se juntando a letras ou à ideia de algum refrão já cantado; outros chegam com um tema ou ideia de letra. Vai se juntando tudo. Todo mundo muito atento à musicalidade tanto moderna quanto do próprio grupo. E chega a um resultado fácil. O maior desafio é compor. O rif pronto, o beat pronto, a letra pronta, é só juntar. Agradar a todos também não é muito difícil. Esse disco novo foi fácil de ser feito. A gente ficou só dez dias juntos, sendo que compomos dezessete músicas nesse período. Nunca tínhamos ficado reunidos antes para poder criar essas músicas. Compomos tudo quase que do zero.

 

DA – O novo disco traz um mergulho numa perspectiva, digamos assim, mais voltada para o experimental. De que modo a escolha dos arranjos refletiu essa aposta criativa? 

RICÔ – Acho que OQuadro sempre foi experimental. Teve um momento em que criamos até um subtítulo pra gente, que era o “clube de música experimental”, pois já flertávamos com muitas outras coisas em termos de sonoridades, referências de artes plásticas, cinema etc. Então, estávamos sempre antenados com muita coisa, com estilos musicais que não fossem apenas o rap, até pra poder fazer um rap diferente. Ao mesmo tempo, tudo fluía muito natural e espontâneo. Às vezes, eu chegava com uma base pronta, daí outro complementava. Nesse último disco, acabei chegando com mais força no sentido de preparar bem as coisas antes, de vir com arranjos mais prontos, mas apontando pra questão da tecnologia que a gente não teve no primeiro. Na verdade, a gente já queria ter, mas, por algum motivo, escolhas e recursos, naquele momento ficamos mais no artesanal. Depois decidimos flertar mesmo com o eletrônico de forma mais sincera do que acreditamos, ter essas texturas, buscar essa coisa dos sintetizadores, das frequências ultra graves, enfim, e usar o rock como atitude mais do que distorção. Tem distorção no disco, mas também há várias frequências que pra gente são rock. E a postura, o nome do disco, são várias coisas que levam pra essa transgressão. Ao mesmo tempo, eu mirei muito, junto com o coletivo, a ideia de tentar um pop com conceito, inteligência. Dá pra fazer coisas sem precisar ser apelativo, fazer a galera, do mesmo jeito, entender e cantar melhor. Tivemos mais cuidado com as frases também no sentido de não ter muitos excessos, mas sim falar o que é preciso ser dito, pois às vezes falamos muito e não dizemos muita coisa, como vemos por aí. A gente tentou ficar focado na escrita e numa linguagem bem simples para que todo mundo pudesse entender o que estávamos falando. O primeiro disco tinha coisas assim, mas era muito mais complexo, mais denso, outras vivências também. Então, os arranjos refletiram justamente essa nova fase de outros contatos, outras experiências com outras músicas e pessoas. Eu, aqui mesmo no Rio, com Marcelo Yuka, vi que outros horizontes se abriram pra mim. Comecei a produzir coisas com ele e isso me deu uma abertura muito maior de música, melodia. O próprio Yuka me orientou muito pra gente, no trabalho com a banda, ir no caminho da melodia, das harmonias, da música, enfim, e não se preocupar se é rap ou se não é, sabe? Acho que vem muito daí.

 

DA – É perceptível nesse segundo disco da banda uma ampliação dos laços que remetem à matriz africana. Num tempo em que a temática identitária do povo negro vem sendo ressignificada e intensamente debatida, o que é relevante destacar?

JEF RODRIGUEZ – Em relação aos ritmos, posso dizer que sempre esteve presente desde o primeiro álbum em 2012. Em Nêgo Roque isso se reacendeu numa perspectiva mais contemporânea pelo acréscimo de elementos eletrônicos, além da conexão com outras células que agora tivemos a oportunidade de expandir. Mas o que gostaríamos de destacar como referência em relação à matriz africana é a questão humana. Existe um genocídio da juventude negra acontecendo nas periferias do Brasil e do mundo. Questões históricas que ainda não foram resolvidas e parecem distantes de uma resolução razoável. Estamos tocando no assunto de maneira direta sem medo de soar clichê.

 

OQuadro em show no Circo Voador, no Rio de Janeiro / Foto: Roncca

 

DA – O rap tem algum compromisso?

VICTOR SANTANA – O rap já teve algum compromisso consigo mesmo. Na verdade, o rap começa ali no Bronx, em Nova Iorque, sendo a voz daquele povo esquecido. Num lugar que era um super gueto, quase uma zona de guerra, com assassinatos e muitos incêndios. Se não me engano, em um ano aconteceram mais de doze mil incêndios no Bronx. Sabe o que é isso? Um bairro inteiro queimando, vários focos e essas pessoas pobres lá se lascando. Então, o rap começa primeiro como uma festa daquelas pessoas e, na sequência, torna-se um jeito de se falar sobre o assunto, já que eles tinham discotecagens e também o microfone na mão. Faziam rimas falando sobre a coisa. Aí começa o rap. Surge um compromisso de resgate das origens com artistas como Afrika Bambaataa, que começa a falar mais sobre África através da Zulu Nation. No Brasil, já se começa ali a falar sobre Zumbi, nosso herói nacional negro. Inicia aí esse caráter político. Um compromisso que fala sobre nós, pretos, o modo como vivemos e tal. Esse compromisso vem com certas regras. Todo mundo quer trabalhar, ganhar dinheiro, viver disso. No Brasil, tem uma máxima de que as coisas que fazem sucesso não dão certo, pois entraram na mídia. Nos Estados Unidos, o pessoal quer fazer sucesso e ganhar dinheiro. O compromisso passa a ser a questão de se ter dinheiro e poder sustentar a família. São vários compromissos e eles são: sobreviver, ganhar dinheiro, fazer a coisa pelo certo e protestar sobre coisas ruins que acontecem ao negro (a politização, o crime policial). O compromisso talvez seja o jornalismo em torno dessas coisas ruins e boas que acontecem no gueto contra o povo negro, chamar atenção sobre estereótipos. É abrir os olhos da população sobre as mazelas que existem. Agora, compromisso em manter-se pobre, em não fazer sucesso, não é compromisso. Os Racionais MC’s, por exemplo, tiveram como pauta nunca aparecer na Rede Globo e até hoje eles não apareceram lá enquanto Racionais MC’s, nunca tiveram música na novela, nem se apresentaram no Caldeirão do Huck e no Faustão. Muita gente entrou nessa coisa de imitar os Racionais, dizendo que quem entra na Globo é vendido, é ruim, mau, playboy etc. Então, confunde-se muito a coisa toda. O Edi Rock, que é um dos integrantes dos Racionais, foi ao Faustão mostrar um trabalho solo certa vez, teve até uma reportagem e tal. Isso não impede deles serem amigos e estarem juntos apresentando o trabalho do grupo. Você vê que Criolo vai à Globo, Gabriel Pensador também (contemporâneo dos Racionais MC’s), e nem por isso tira o mérito do conteúdo de contestação. Enfim, o compromisso é consigo mesmo, fazer seu trabalho, ganhar seu dinheiro e falar sobre as coisas que incomodam. O rap tem algum compromisso, claro, mas é mais uma condição hedonista coletiva, se é que é possível dizer assim (risos), do que um conjunto de regras que te impedem. Não, elas não te impedem, te motivam.

 

DA – Como fazer arte num país que parece cada vez mais desintegrado politicamente?

JEF RODRIGUEZ – Penso que essa desintegração sempre existiu, a novidade em relação a isso é a consciência da mesma. Em momentos de crise econômica, o primeiro corte que o cidadão brasileiro faz é no consumo de cultura. Não fomos educados a entender as manifestações artísticas/culturais como elemento fundamental no processo educativo, no exercício intelectual, na construção de referências para um jovem em formação. A retirada das disciplinas como sociologia e filosofia da grade curricular obrigatória só confirma o tipo de cidadão que se espera formar no modelo educacional vigente. No caso específico do OQuadro, fazer a música que fazemos e como a fazemos já é uma luta política por natureza. Por não ser um rap convencional, por ser do sul da Bahia, por não fazer parte de nenhum grupo de amigos do meio. É um caminho árduo, mas o resultado tem sido sincero.

 

DA – Vocês têm ideia de qual lugar ocupam no cenário contemporâneo da música independente?

RICÔ – Acho que a gente ocupa um espaço interessante na música, e flerta com muita coisa moderna que vemos não só no Brasil, mas no mundo mesmo, sendo modesto. Pelo que já andamos pelo mundo, em alguns festivais, pequenos e grandes, estávamos sempre sendo colocados num lance mais moderno, experimental. E sempre as pessoas descrevem nosso trabalho, pelo menos no olhar de fora, como uma coisa de vanguarda. Uns acham que é um rock de vanguarda; outros acham que é um rap de vanguarda. Isso é bom porque mostra várias facetas nossas. No Brasil, tem muita gente interessante, mas, misturando o som do jeito que fazemos, na base do rap com várias outras coisas, não há muitos artistas. Infelizmente, o reconhecimento ainda não aparece em números, palpável, em termos de público Brasil afora também. Temos a consciência da importância daquilo que estamos fazendo. Não sei se agora, mas, de repente, num futuro próximo seremos mais reconhecidos, enfim. Mas é isso, estamos trabalhando e seguindo esse mesmo objetivo.

 

DA – As plataformas digitais modificaram profundamente o comportamento da indústria fonográfica. Para os artistas independentes, isso representou a necessidade de uma consolidação de espaços próprios, dando-lhes certa autonomia na produção e divulgação de conteúdos. Como prosseguir nesses verdadeiros lugares de resistência?

VICTOR SANTANA – As gravadoras perderam o poder, inclusive sobre os artistas. O trabalho para o artista fica mais pessoal mesmo. Na verdade, tem que procurar divulgar seu trabalho usando as plataformas digitais, que são uma facilidade para uns e extremamente difíceis para outros. Acho que você tem que ter assunto para ser atual ou uma relevância artística muito peculiar, algo que chame atenção de todo mundo. Na época das gravadoras, eles meio que empurravam isso, pagavam o tal do jabá, botavam para tocar nas rádios, no Faustão etc. Ainda tem isso dos produtores que pegam a grana e pagam rádios para fazerem divulgação, mas, em termos de plataforma digital, ou você tem um conteúdo muito foda ou tem que estar ligado nas tendências e tal. Tem uma coisa que acontece, uma pauta justa, muito séria, que é a dos músicos LGBT, e esses músicos, hoje em dia, estão em ascensão, não necessariamente pela qualidade extrema do seu som, mas pela pauta, pelo assunto. Então, às vezes, o cara não é um bom músico, cantor ou rapper, mas a pauta está em voga. Tem a coisa do feminismo mesmo, que é necessária, mas tá acontecendo uma, não sei se posso dizer, supervalorização, algo que está além da qualidade artística. Os youtubers, por exemplo, têm textos engraçados, pessoas que falam coisas legais, de acordo com certa juventude, e aí já funcionam, ganham dinheiro logo no próprio Youtube. Um super vídeo de um rapper da moda já faz dinheiro logo no Youtube antes mesmo do artista sair pra fazer show. Então, as pessoas estão se preocupando com esses conteúdos e, de repente, esquecendo o conteúdo real de sua arte. Para quem está preocupado só com a arte é difícil se adequar a umas coisas assim, apenas pela “modinha”. É uma faca de dois gumes. Por um lado, é independência; por outro, é estar atento às novas plataformas. Não dá para ter certeza sobre nada. Você pode fazer um clipe bobo e virar uma coisa assistida por quinhentos milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, outras pessoas nem atingem essa visualização, sendo que fazem um trabalho com a qualidade bem boa.

 

OQuadro em show na Concha Acústica de Salvador / Foto: André Fofano

 

DA – Desde o primeiro disco, vocês sempre se aproximaram de parceiros importantes, principalmente no processo de produção. Que tipo de buscas marcam esses diálogos com outros artistas?

VICTOR SANTANA – No primeiro disco, a gente procurou Buguinha Dub porque era um cara mais acessível e que tinha trabalhado com bandas que eram referência pra gente, como Nação Zumbi, Mundo Livre S/A. Tinha a proposta do dub, que é um estilo de som jamaicano, psicodélico e tal, que nem ficou tão presente assim no disco como eu, por exemplo, imaginava, mas ficou o peso do dub com os baixos e bateria pra frente, fortes. Gravamos ele num estúdio que era bom e que atendia a nossas necessidades através do projeto da Vivo. Por acaso, foi o estúdio de Guilherme Arantes e a gente não contava com esse artista lá, mas aí ele apareceu e participou do disco. Ainda nesse álbum, tivemos Lurdez da Luz, que é uma rapper de São Paulo, e que trouxe ideias para fazer um refrão ou parte de música. No primeiro disco, não houve uma busca, as coisas foram acontecendo naturalmente. A mix foi de Buguinha Dub e a master de Gustavo Lenza, que foi quem trabalhou com Chico Science e Nação Zumbi, no Afrociberdelia, um disco de bastante referência pra gente. Para o Nêgo Roque chamamos Basa para produzir porque ele é o produtor de um grande disco de rap do Brasil, que é o Babylon By Gus, de Black Alien. Já tínhamos trabalhado juntos com esse produtor num evento em Itacaré, o Conexão Vivo. A gente pensa qual artista pode contribuir com o trabalho. Nunca é pelo nome, mas pelo que pode ser aproveitado. É dizer “nessa música caberia uma rima de Snoopy Dogg” sem que se tivesse acesso a Snoopy Dogg naquele momento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Indee Styla, que se tornou nossa amiga, com os caras do Attoxxá, que também estiveram junto conosco. A gente pensou em nomes pra atingir certas necessidades nossas. Poderia ter sido Pablo Vittar para um agudo, Baco e Vandall numa música y, porque o beat é um trap que combina com esses dois caras. Poderia ter sido Pitty em Nêgo Roque para fazer o refrão, ou seja, uma mulher que dá uma outra tônica, BNegão, ou Yuka falando alguma coisa. E a gente sempre pensando na música e não no artista. Com quem temos acesso, obviamente entra com mais facilidade. Pensamos em muita gente pra produzir até chegar em Rafa Dias, que era quem estava mais próximo da gente e entendia nosso conceito muito mais facilmente.

 

DA – De que modo uma banda que se originou em Ilhéus, no interior da Bahia, hoje, tendo alcançado alguma projeção, olha para suas raízes?

JEF RODRIGUEZ – Ilhéus é e sempre será o berço d’OQuadro, temos um cordão umbilical com vínculo eterno. Mas não me identifico com a cidade enquanto instituição, ela não foi feita para pessoas como nós. Vivemos aí tempos de um amor não correspondido. Testemunhamos desde sempre gestões que se apropriam de uma cidade que é projetada pela cultura, mas não devolvem a esse setor o mínimo de investimento que possa fomentar o nascimento de novos Jorges. Quem faz arte em Ilhéus, faz por amor, sem contar com incentivos ou iniciativas que projetem trabalhos autorais com o mínimo de dignidade. Pelo contrário, desenvolvem em nós um complexo de vira-lata, onde sentimos a obrigação de ser menor diante de qualquer manifestação artística que venha da capital ou de outro estado, o que é um exercício prático de autoestima baixa, de autodestruição. Nesse sentido, prefiro olhar para Ilhéus pelos vínculos com nossa família e amigos que nos incentivam sempre.

 

DA – Hoje, com mais de 20 anos de estrada, é possível dizer que a banda atingiu uma maturidade musical desejada?

RICÔ – Acho que a gente atingiu uma maturidade enquanto também pessoas, seres humanos, e nas questões das vivências, tanto pessoais quanto profissionais, pois a gente fica em lugares diferentes, vivendo coisas diferentes, e quando junta isso tudo, vem essa maturidade também da relação com outras pessoas, outros músicos e artistas. Isso influi totalmente na produção do som, do disco. Então, Nêgo Roque mesmo teve muita coisa das vivências que eu tive aqui no Rio com outros artistas, outras experiências de som, de imagem, de tudo, assim como a galera também teve. Quando nos juntamos, estávamos cheios de referências. Nesse disco, conseguimos expressar melhor o que queríamos, coisas tecnológicas. Então, tivemos todo o acesso possível pra construir isso. Não tivemos tanta limitação pra conseguir as coisas, pois contamos com pessoas trabalhando conosco para que conseguíssemos tirar o som da melhor maneira. Construímos coisas do jeito que a gente pensava, com bem mais facilidade, experimentalismo, direcionamento. Então, esse é um disco com certeza bem maduro. Claro que a arte sempre te dá a possibilidade de fazer mais, depois você reflete sobre o que poderia ter feito, mas têm sempre ene possibilidades, pois a gente não termina um disco, a gente desiste dele, senão a coisa vai se transformando e não tem fim. Partindo desse princípio, foi uma desistência madura (risos).

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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66ª Leva - 04/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Márcio Vasconcelos

Há um marco especial fundado nas possibilidades de quem se dedica à fotografia documental: harmonizar, a um só tempo, as ações humanas aos cenários de suas epifanias particulares. No entanto, isso não é o bastante quando quem registra sabe, como ninguém, encontrar o ponto ideal no qual os objetos retratados adquirem novos sentidos. É então que o fotógrafo, utilizando-se da capacidade de perceber as nada óbvias perspectivas encerradas no mundo que o cerca, ousa transpor a tênue cortina que envolve os dias.

No caso do maranhense Márcio Vasconcelos, tudo o que foi dito acima se coaduna bem, principalmente por estarmos diante de uma trajetória que devota olhares diferenciados aos homens e seus lugares. Adepto inconteste da via documental, Márcio conduz com maestria suas sensíveis visões em torno das porções humanas. Aliada a tal característica, resiste incólume a observação atenta ao que podemos chamar de memória dos lugares. Dessa junção entre tais elementos, surge um estilo de captação da realidade algo singular, pautado, sobretudo, numa precisa e delicada percepção das paisagens visitadas. Dono de um trabalho independente, o fotógrafo acumula valiosas incursões pelas searas da cultura popular nordestina, em especial as manifestações oriundas dos afrodescendentes do Maranhão. Merece destaque seu ensaio “Na Trilha do Cangaço – O Sertão que Lampião Pisou”, conjunto de registros que percorrem os rastros memoriais deixados pela emblemática figura do rei do cangaço. E para falar um pouco sobre tais caminhos trilhados por sua precisa retina e outros temas ligados à fotografia, Márcio Vasconcelos acolheu a Diversos Afins numa iluminada conversa.

 

Foto: Márcio Vasconcelos

 

DA – Seu trabalho é marcado intensamente pelos caminhos da fotografia documental. Mais do que retratar lugares, pessoas e situações, acredita que esse tipo de registro promove, de certo modo, uma intervenção na realidade?

MÁRCIO VASCONCELOS – De 2008 para cá, tenho me dedicado intensamente a um trabalho mais autoral. É muito bom ter uma ideia, pesquisar, conversar com pessoas ligadas ao tema e cair em campo para produzir, sentir-se o autor ou co-autor do começo ao fim. Quando estou no processo de imersão, não tenho a preocupação de saber se este projeto vai mudar uma situação ou uma realidade, apenas quero fazer da maneira mais profunda e sincera, ser honesto comigo e com os personagens daquela história. Quero fazer a minha versão daquilo que vi e senti. Agora, é muito gratificante quando vejo que, depois de pronto, o resultado mexe e emociona as pessoas que o experimentam.

 

DA – Num viés antropológico, o fotógrafo documental adentra o universo do outro, estabelecendo com ele uma espécie de pacto. Como é que você percebe a questão do distanciamento, sobretudo do ponto de vista da preservação das diferenças culturais, entre quem registra e aquele que é objeto das lentes?

MÁRCIO VASCONCELOS – Com relação ao processo documental , quando estamos invadindo espaços e momentos de muita particularidade, creio que o respeito, a discrição e a ética são os elementos de maior importância. Na maioria das vezes, somos intrusos e, assim sendo, precisamos demonstrar as reais intenções de nossa aproximação, o objetivo do projeto e a relevância daquele assunto para nós e para a sociedade. O trabalho só deve ter continuidade quando percebemos que estamos sendo aceitos e que a permissão nos foi dada. Neste momento forma-se realmente um pacto, no qual a confiança, como fio condutor, jamais poderá ser quebrada. Temos que estar muito atentos ao espaço físico e espiritual que conquistamos e de forma alguma ultrapassá-lo. A confiança mútua é a joia maior que podemos adquirir.

“Esse branco pode voltar aqui quantas vezes quiser para fazer o seu trabalho, pois confiamos nele”. Estas são palavras de uma mãe africana do Benin, depois de receber umas fotos de seus filhos, enviadas por mim desde o Brasil, em mãos de um antropólogo beninense amigo. Palavras como desta mãe é que gratificam nossos trabalhos.

 

DA – Muito do seu olhar está direcionado de modo especial à cultura popular brasileira. Que país você vislumbra quando está imerso em tais registros?

MÁRCIO VASCONCELOS – A cultura popular brasileira não teria a força que tem se não fosse a forte influência das nações africanas. Percebe-se que todas as danças brasileiras, que adotam os mais variados tipos de tambores como marcação rítmica, foram trazidas ou derivadas de manifestações do continente africano. Uma das minhas maiores alegrias como fotógrafo foi ter a oportunidade de viajar ao Benin, na África Ocidental, quando da realização do projeto “Zeladores de Voduns do Benin ao Maranhão”. Desenvolvendo o projeto ali, no meio das danças, dos sons, da energia daquele povo, tinha a verdadeira sensação que estava num dos quilombos do Maranhão. Foi muito mágico e inesquecível.

 

DA“Na Trilha do Cangaço” é, sem dúvida alguma, um de seus trabalhos mais marcantes, sobretudo pelo aspecto da pesquisa histórica. De que modo você estruturou seu roteiro de andanças em torno do tema?

MÁRCIO VASCONCELOS – A proposta do Projeto era resgatar e refazer os caminhos percorridos por Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dadá, e seus bandos, através da elaboração de uma trilha que ligasse locais que foram simbólicos na história do cangaço pelos sertões nordestinos. Desta forma, a trilha deveria começar no Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada, local do nascimento de Virgulino Ferreira da Silva, e terminar na Grota de Angico, na beira do Rio São Francisco, em Sergipe, onde Lampião foi morto pela volante do Tenente João Bezerra.

Além do aspecto físico desse sertão revisitado, o Projeto procurou também identificar, localizar e fotografar personagens que fazem parte dessa história, ou descendentes destes, e que ainda se encontram vivos para contar “causos” e atestar a veracidade do mito Lampião e Maria Bonita.

Passei por momentos de extrema emoção, principalmente quando deparava com lugares simbólicos ou personagens que foram testemunhas e que ainda se encontram lúcidos apesar da idade avançada.

Mantive horas de prosa com Manuel Dantas Loiola, vulgo Candeeiro, de 97 anos, e que se encontrava na Grota do Angico no momento da emboscada que matou Lampião, Maria Bonita e outros nove companheiros. Candeeiro conseguiu fugir, mesmo baleado no braço, e é o último cangaceiro ainda vivo deste grupo. Mora no povoado Guanumbi em Buique, Pernambuco.

Na cidade de Olho d’Água do Casado, Alagoas, cheguei de surpresa na casa de Elias Matos Alencar e este se encontrava no terraço, numa cadeira de balanço, como que a me esperar. Elias, hoje com 98 anos, pertencia à volante chefiada pelo tenente João Bezerra e narrou com muita precisão toda a cena de ataque que vitimou Lampião e seu grupo.

Em Serra Talhada, Pernambuco, passei dois dias arranchado no sítio Passagem das Pedras e, em noite de lua cheia, dormi numa rede contemplando a casinha simples de taipa de dona Jacosa, avó materna de Lampião, que ali nasceu e brincou na infância.

Para finalizar a trilha, escolhi o local que considero mais simbólico em toda a história do cangaço, a Grota do Angico, às margens do Rio São Francisco, no lado de Sergipe. Acompanhado de Hugo, meu guia, segui no final da tarde por setecentos metros, na mesma trilha percorrida pela volante do tenente João Bezerra, até chegar ao local da chacina. Acendi onze velas pelas almas dos cangaceiros ali sacrificados, fiquei em silêncio por vários minutos até a chegada da luz ideal para efetuar o último disparo, dessa vez não de morte, mas pela celebração à vida.

 

Foto: Márcio Vasconcelos

 

DA – Sua experiência nesse percurso pelo sertão nordestino evoca uma sensação de que a oralidade foi transposta para as imagens. O que mais lhe chamou atenção nesse processo?

MÁRCIO VASCONCELOS – O mais impressionante em todo este processo que vivenciei naquela região do sertão nordestino foi perceber que tudo ali ainda é muito vivo na memória do povo. Eu chegava sempre nos lugares sem a preocupação de ter marcado antecipadamente os encontros, as entrevistas, as fotografias, e tudo acontecia exatamente ao contrário. Parecia que eles estavam a me esperar, as informações iam fluindo com muita facilidade e eu acabava encontrando os personagens sentados em cadeiras de macarrão plástico na porta de suas casas, por exemplo, como se o encontro tivesse sido marcado.

Um episódio muito marcante foi encontrar um senhor indo para a roça de bicicleta, já no cair da tarde, no povoado Malhada da Caiçara, na Bahia. Achei aquela figura muito interessante e fiz sinal para que parasse. Começamos a conversar sobre o ofício que faria àquela hora do dia e, depois de certo tempo, solicitei gentilmente a permissão para fazer uma foto dele, no que fui prontamente atendido. Depois de um papo gostoso, nos despedimos e ele, sem que eu perguntasse algo sobre o cangaço, começou a falar que era primo de Maria Bonita e que seu pai fora namorado dela. Como a noite já vinha chegando, esta seria a melhor revelação pra fechar aquele dia. Tinha ganhado um verdadeiro presente daquele senhor, chamado Seu Borges. Ele seguiu pra roça e eu voltei para a minha trilha.

 

DA – Arriscaria dizer que seu ofício é um manifesto à preservação da memória?

MÁRCIO VASCONCELOS – Trabalho com afinco e seriedade. Isso, no futuro, só a memória dirá.

 

DA – Suas origens remontam ao Maranhão, estado que agrega um rico cenário de apreensões do imaginário popular. Veio daí a motivação maior para trilhar o caminho documental?  

MÁRCIO VASCONCELOS – Além da minha origem nordestina e da riqueza cultural do Maranhão, senti que já estava com um trabalho maduro para seguir um caminho mais independente, mais autoral. Quero, cada vez mais, ser o idealizador de um tema, me aprofundar nas pesquisas, fazer uma leitura própria e transformar isto em imagens.

 

DA – Suas incursões pelo Brasil permitem-no constatar que, no tocante à preservação de nossa memória histórica, ainda estamos longe do ideal?

MÁRCIO VASCONCELOS – O Brasil é de uma riqueza cultural enorme, e, realmente, muito pouco para a preservação da memória de parte desse acervo tem sido feito. Somente no Maranhão, por exemplo, poderíamos trabalhar anos seguidos e não conseguiríamos registrar metade desse tesouro.

 

DA – Afora os evidentes aspectos tecnológicos, o que você considera como sendo a principal mudança trazida pela fotografia digital?

MÁRCIO VASCONCELOS – No começo, senti uma grande resistência para fazer a troca do analógico para o digital, pois a diferença de qualidade era gritante. Hoje, vejo que o processo de pensar o ato fotográfico continua o mesmo, apenas a captura é que mudou. Em alguns trabalhos documentais, como em comunidades quilombolas, por exemplo, o processo digital ajuda muito, pois podemos mostrar as fotos imediatamente aos personagens e isto contribui para a troca de confiança.

 

DA – Está em curso algum novo projeto documental seu?

MÁRCIO VASCONCELOS – A minha cabeça está sempre a fervilhar e a vontade de produzir é incontrolável. Atualmente, estou desenvolvendo três projetos ao mesmo tempo:

“Terecô – a magia dos tambores da Mata Codoense”, aprovado no edital da Secretaria de Cultura do Maranhão, resultará numa exposição sobre uma vertente do Tambor de Mina, em uma região específica do Maranhão.

“A Estética do Terreiro – materialidade e agencialidade nos terreiros de Pajés do Maranhão”, este projeto em parceria com a antropóloga Ana Stela Cunha, tem patrocínio do Banco do Nordeste e será apresentado num livreto e numa exposição no Brasil e nas cidades portuguesas Lisboa e Guimarães.

“Incorporados”, projeto que mostra o processo de montagem de travestis, drags e transformistas. Este trabalho, mesmo antes de concluído, já ganhou uma Menção Honrosa no Concurso Iberoamericano de Fotografias, promovido pela Embaixada da Espanha na Bolívia, e fará parte da exposição a ser montada no Centro Cultural da Espanha, em La Paz, no mês de abril.

Outro projeto que se encontra em processo de sondagem e pesquisa é sobre Monges e Mosteiros do Brasil.

 

DA- Afinal, por que fotografar?

MÁRCIO VASCONCELOS – A fotografia passou a ser a extensão do meu corpo, da minha mente, da minha alma. Fotografo a todo instante, até enquanto durmo. Às vezes, até uso uma câmera para fotografar.