Categorias
152ª Leva - 02/2023 Destaques Olhares

Olhares

Entre enigmas e suas reconfigurações

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Magali Abreu

 

Sob o delicado manto das formas, há um universo embebido em mistérios que são fruto de nossas humanas idades. Nele, cabem as paisagens múltiplas que contemplam as porções interiores do ser, espaços constituintes do vivido e também do imaginado. Todo esse acervo é fonte de um manancial imagético capaz de retratar mundos no mundo, recortando possibilidades e sensações ao alcance do olhar que tem predileção pelos detalhes.

E eis que assim o faz Magali Abreu em sua travessia artística. Com um trabalho que ajunta os fragmentos sensíveis da existência, a fotógrafa nos oferta um panorama de alternativas cujas imagens simbolizam o gesto da recomposição da vida, processo este que não se descola da ideia de que o mundo pulsa intermitente entre os sentidos das dissoluções e reconstruções.

Ouso dizer que as fotografias de Magali ressignificam memórias em torno de pessoas e lugares. E na confluência entre a matéria tangível das coisas e a atmosfera das porções abstratas, forma-se um conjunto orgânico de sensações visuais que contêm afetos e também contemplam saberes e sabores particulares, desses que fazem sentido dentro da esfera líquida e secreta das imagens.

Daí que faz todo sentido se deixar guiar pelas imersões propostas pela artista, posto que ela nos atrai a um movimento que se assemelha também a um mosaico de representações. Mas para que isso se opere é preciso observar todo o véu poético que recobre as imagens da fotógrafa. É ele quem protagoniza os modos de exibição duma arte que encontra seu diferencial por não nos entregar facilmente os mapas de todos os percursos sugeridos.

 

Foto: Magali Abreu

 

Dito isso, cabe-nos o salto e os efeitos das descobertas para regiões mais profundas, zonas por onde circulam sentidos passíveis de espanto e/ou encantamento. Da mesma maneira, as fotografias de Magali Abreu parecem conter clamores em favor de uma nova ordenação para o humano, condição que retira do caos que nos acomete o fruto de eventuais libertações. Afinal, se o nosso olhar mais atento é capaz de redimensionar o modo como miramos o interno e o externo, também a arte poderia fazê-lo por intermédio de seus provocadores atributos.

Como a própria artista confessa, seu processo criativo é um se deixar levar pelos impulsos, fluxo por onde transcorrem naturalmente os estímulos dinamizadores de sua obra, a qual busca emocionar pessoas. Além disso, Magali assinala privilegiar o caráter subjetivo de seu trabalho, estabelecendo elos com suas porções íntimas, além de promover uma mescla entre o onírico e o real. Em sua trajetória, a fotógrafa baiana reúne exposições, premiações nacionais e internacionais, bem como menções honrosas.

A partir da aura enigmática que perpassa as fotografias de Magali Abreu, nos é dado perceber que a arte é fundamentalmente o encontro com a sugestão, considerando que um artista é aquele que nos conduz até certo ponto da jornada, pois o restante do percurso, muito provavelmente a sua maior parte, é feito por todo aquele que se permite mergulhar naquilo que se apresenta diante da sua visão. E é de se suspeitar que somente o mergulho não garanta a fruição da viagem, já que ninguém passa incólume pelas paragens artísticas, ainda mais quando estas desacomodam inquietudes.

 

Foto: Magali Abreu

 

* As fotografias de Magali Abreu são parte integrante da galeria e dos textos da 152ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

Categorias
152ª Leva - 02/2023 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Jussara Azevedo

 

“Céu ausente” é o terceiro livro de contos de Gustavo Rios, autor revelado em 2007 na coleção Rocinante, da 7Letras, onde publicou “O Amor é uma coisa feia”, e fez parte de um time de jovens autores, surgido na internet, com o interesse comum em narrativas curtas.

A coleção foi inspirada no selo “Cantadas Literárias”, da Brasiliense, e dava vazão a uma geração com vigor criativo, habituada aos computadores e ao universo dos blogs e revistas virtuais. Clarah Averbuck, Julián Fucks, Carola Saavedra, José Rezende Jr. e Veronica Stigger são alguns dos nomes que, ao lado de Rios, se destacavam neste cenário e continuam fazendo literatura até hoje.

Se uma canção do grupo punk rock paulistana Kleiderman batizaria o seu livro de estreia, o interesse de Gustavo Rio pela música não se resumiria a simples homenagens e citações textuais. Durante os anos de 2008 e 2009, junto com os escritores Wladimir Cazé, Lima Trindade e Sandro Ornellas, ele participou do coletivo C.O.R.T.E., realizando diversos “rockcitais” (algumas dessas apresentações estão disponíveis no YouTube) ao lado da Pastel de Miolos, banda icônica da cena punk e hardcore soteropolitana, e escritores convidados (Kátia Borges, Paulo Scott, Katherine Funke, Nelson Magalhães Filho e Leonardo Panço).

Em seguida, pela Mariposa Cartonera, publicou “Allen mora no térreo” (2015) e, “Rapsódia Bruta – poemas e outras brutalidades” (2016).

Sobre “Céu Ausente”, uma coletânea de 13 impactantes histórias onde Rios aborda temas como casamentos fracassados, solidão, delírios amorosos, medo e tédio, o crítico Maurício Melo Júnior, em uma resenha publicada recentemente no jornal Rascunho, disse: “Enfim, a literatura é a causa primordial de Gustavo Rios. Há denúncias? Sim. Aponta injustiças, também, mas não lamenta a condição inferior de quase todos seus personagens. Descreve a vida, e ponto. Sem beletrismos parnasianos fez literatura. Tudo é literatura em suas narrativas. E certamente aí está sua mais perfeita qualidade como escritor.”

 

Gustavo Rios / Foto: Solange Valladão

 

DA – O título do seu novo livro, “Céu ausente”, sugere uma perspectiva em que o destino humano está imune a soluções transcendentes para os seus problemas e impasses. A que se deve essa visão? Há nela alguma influência do pensamento de filósofos como Camus?

GUSTAVO RIOS – O título surgiu de algo mais simples: um poema de minha autoria. Ao final dele, escrevi “(…) a beleza passa longe / desse céu ausente / de gaivotas.

O estado de espírito do cara que escreveu o poema era bem semelhante ao do protagonista do conto que intitula o livro: um garoto de bairro tentando se firmar num mundo hostil. Esse cara amava os beatniks, andava lendo Bakunin e sonhava em cair fora num navio. No conto, ele conversa com o pai numa noite de outono, depois de ter levado uns socos na rua sem motivo. E entre cigarros sem filtro, divagações, um livro do Artaud e a janela do seu apartamento, ele percebe que não terá muitas chances.

E aí vem a beleza de sua observação, pois o título diz muito mais do que eu mesmo pensei. Ele vai além da cena do conto; da força contida nele. “Céu ausente” significa, sim, que em alguns momentos nada poderá nos salvar. Que estamos à mercê e que andamos imunes a quaisquer transcendências ou redenções. Por aí.

Gostaria apenas de frisar que todos os outros contos não possuem a mesma intenção. Nem o mesmo estilo. E que os protagonistas que aparecem ao longo das páginas passam longe do tal garoto de bairro. Isso seria maçante para mim e para o leitor.

Temos o filho pródigo, o marido entediado, mulheres que amam acima de tudo e casamentos fracassados; temos um homem que encontra o amor de sua vida num parque e James Brown tentando decifrar um pesadelo. Temos também um sujeito se descobrindo numa noite de chuva e um casal que se reencontra no Japão.

O livro é uma tentativa de enxergar a vida partindo de vários pontos. Com isso, cheguei aos treze textos. Cada um com seu universo, sua estrutura e suas mensagens involuntárias, pois não acho que a literatura deva ter esse tipo de obrigação.

Em resumo, posso afirmar que “Céu ausente” é um belo título e diz tudo isso aí que você bem pontuou. Mas não é o único mote para o conjunto que surgiu.

Quanto ao Camus, creio que suas ideias atravessaram o tempo. E por serem poderosas, contemplam e contaminam parte da literatura feita ainda hoje, a gente goste ou não.

Não foi diferente comigo. Sua filosofia pode ter vindo até mim de forma indireta ou enviesada, e está tudo bem. “O estrangeiro” me marcou profundamente, assim como “O muro”, do Sartre — e ambos meio que jogam no mesmo time, sendo o argelino um excelente goleiro. Contudo, não me recordo de ter ouvido a sua “voz” durante meu trabalho. Não conheço profundamente os seus textos, o que é um grande vacilo de minha parte.

 

DA – Quando você adota o título do conto para o livro, demonstra o quanto essa imagem é potente, ultrapassando em muito o verso do poema. São novos contextos e significados a partir desses deslocamentos. Penso que, para além das mudanças de estilo, temas e perspectivas das histórias, “Céu ausente” também confere responsabilidade (consciente ou não) às escolhas de suas personagens. Estou errada?

GUSTAVO RIOS – Está certa. Falei sobre algo parecido em outras entrevistas. Sobre os meus personagens se encontrarem em situações limite e tendo de fazer escolhas, incluindo a de desistir. Essa ideia do limite é uma das características em “Céu ausente”. Não a única.

Meus personagens podem optar por nada fazer, pois escolher nem sempre significa agir, ou podem desejar mudar a vida drasticamente. Colocar o ser humano cara a cara com situações extremas é o tipo de recurso que admiro na literatura. Para mim, boas histórias possuem esse atributo.

Fugir de casa usando os olhos do Borges recortados de uma foto, ou colocar uma armadura para encontrar seu grande amor numa manhã de sol? Ficar na praia dos primeiros encontros e aguardar seus ossos virarem pó sob o efeito do salitre, ou se entregar a alguém numa noite de luxúria com “o azul mais puro represado nos olhos”? São escolhas feitas por cada um. Conscientes ou não.

E para cada um, uma falta, uma ausência; até mesmo do céu, das tais gaivotas. Dessa falta vem o deslocamento. Desse movimento para fora, o tal deslocamento, surge a impossibilidade que pode se converter num tipo de liberdade ou numa prisão.

Ao perderem qualquer tipo de esperança, meus protagonistas fazem escolhas. Sempre pungentes e irrevogáveis. Coube a mim trabalhar arduamente a linguagem e mostrar isso ao leitor.

 

DA – Essa condição limite, que você alude com precisão, também se faz presente nos seus dois livros de contos anteriores, “O amor é uma coisa feia” e “Allen mora no térreo”. Neles, você equilibra o peso dramático com doses de humor e muita ironia. Já em “Céu ausente”, eu sinto que o acerto da balança se dá pelo lirismo, um olhar menos judicioso em relação às vidas ali apresentadas. Você sente uma evolução ou amadurecimento no seu modo de narrar?

GUSTAVO RIOS – Com certeza. Essa maturidade deriva de diversos fatores. Uns óbvios e outros nem tanto. Dos óbvios, listo o mergulho em novos autores. Além das vivências pessoais em geral. Dos nem tão óbvios, acho que, com o passar dos anos, eu perdi a fé na ideia de que escrever é um processo “mediúnico”.

É uma ideia engraçadinha, mas explicável: durante muito tempo, acreditei que a escrita era um processo totalmente baseado em inspiração, nada mais. Acreditava que qualquer tipo de intervenção nesse contato com o “plano astral” arrancaria a carga emocional e vital de meus textos.

Nada disso! A linguagem é o veículo, digamos. É com ela que devemos trabalhar. Tratá-la com dignidade. Entender que o leitor é um outro. Diria até um objetivo, pois queremos ser lidos — algo diferente disso é ser um mentiroso patológico ou um louco; não cola esse papo de escrever para si mesmo. Precisamos encantar essa pessoa sem nome nem rosto. Fazer que ele nos siga e se comova.

Ao acreditar nessa mediunidade, o temor era perder o “caráter intenso e sufocantemente humano” de minhas histórias, usando aqui uma ideia do britânico E. M. Forster quando fala sobre o romance. Entretanto, aprendi que devemos “sacrificar o papagaio” algumas vezes. Coisa que o Poe fez lá atrás, ao trocar o papagaio pelo corvo (imaginem!).

Essa busca, que passa pelo trabalho com a linguagem, não deve nos ferir, todavia. Não aceito qualquer coisa pra agradar essa figura mítica, necessária, cruel e silenciosa. Temos de ter um limite, um acordo. Meus contos têm de estar encharcados de vida. Não negocio nada menos. Fora disso, escreveria coisas e as enfiaria na gaveta, numa boa. É preciso acreditar num tipo de harmonia, manter a vitalidade do conto e da história que é o motivo único dele surgir.

“O amor é uma coisa feia”, por exemplo, é de 2007. É enxuto, franco e menos lírico. Mas foi o meu melhor na ocasião, nada mais. Já o “Allen mora no térreo” tende a ser mais longo. Corri alguns riscos na busca de uma voz lírica adequada. E, bem, nem sei se consegui o que desejei em todos os seus contos, sendo bem franco. Mesmo assim, amo os dois. Assim como o de poesia, “Rapsódia bruta: poemas e outras brutalidades” e as participações nas coletâneas – falo dos contos “Ernest”, presente na coletânea “Tempo bom”, e “A noivinha do Cabula”, da coletânea “As baianas”. Todos eles são etapas de minha busca. Que só está começando.

 

DA – Acredita na máxima “é fácil escrever difícil e vice-versa”?

GUSTAVO RIOS – Para um escritor, será sempre difícil, ainda que ele deseje facilidades. E não me entenda mal; não se trata de dramatizar a coisa toda. Quero apenas lembrar que, onde há intenção e certo grau de transcendência, há trabalho a ser feito. Dificuldade, portanto.

Todo escritor nasce vocacionado, está sujeito a epifanias e tem seu olhar mais aguçado para o que supostamente é banal. Se ele irá converter esse poder em ofício e se denominar escritor, é outra conversa. Para ele, a literatura deve ser resultado de sua intenção. Sem intenção, nada feito.

Sou filho dos quadrinhos, da coleção “Vaga Lume”, da televisão, dos beats, dos fanzines, da música e do cinema. E tudo isso me levou a buscar a literatura. Em algum momento, entendi que escrever era maior.

Parte dessa escolha foi enxergar o real alcance da minha vocação. Foi quando comecei a escrever poemas, textos, roteiros de HQ nunca publicados e bobagens para, em seguida, tentar vencer alguns cânones, numa tentativa de aprimoramento. Lembro agora de quatro: António Lobo Antunes, Faulkner, Joyce e Cervantes.

O primeiro é fabuloso; parece reinventar a literatura a seu modo. É denso e inigualável. O segundo não foi tão complicado quanto parecia. Precisei, sim, de concentração e de entrega. Levei tempo, mas o admiro demais pela força de sua obra.

O terceiro, Joyce, ainda hoje luto com empenho — no caso do “Ulysses”; os outros foram devidamente lidos e admirados —, mas tento encontrar um caminho para chegar ao real motivo que faz essa obra repercutir até hoje. Já Cervantes, consegui vencer suas mil e tantas páginas, da tradução do Sérgio Molina, sempre curtindo e tentando captar a essência.

E, bem, por que eu lhe falo isso, mesmo correndo o risco de parecer um boçal? Digo pelo fato de que eu desejo enxergar o que cada um deles realmente buscava. Quais eram as suas intenções e como foi que eles conseguiram.

Então, respondendo a sua pergunta, creio que escrever será sempre difícil, no sentido de ser trabalhoso e árduo. Mas não enxergo isso como flagelo.

 

DA – Outro ponto curioso está no uso que você faz do tempo e do espaço da narrativa. A maioria dos seus contos dispensa a intriga, o enredo mirabolante e um efeito surpresa, concentrando-se na carga dramática das situações limites que já falamos. Há momentos que me remetem ao teatro. Você aprecia o gênero? É leitor de dramaturgia?

GUSTAVO RIOS – Aprecio o gênero e já li algo dos grandes dramaturgos e poucos contemporâneos, como o Artaud, citado no conto que dá nome ao livro, o Nelson Rodrigues, fabulosamente obrigatório para escritores, tudo da Hilda Hilst e o Matei Visniec. Quanto ao tempo e ao espaço da narrativa, fiquei intrigado com sua observação. Pois não me passou pela cabeça que eu poderia estar me aproximando de qualquer técnica de dramaturgia, seja ela clássica ou mais arrojada. Achei curiosa sua observação, por não enxergar muito de teatro no que faço.

 

DA – Quanto à matéria-prima de seus contos, a maneira como você descreve a vida e o cotidiano pequeno burguês, evoca para mim muito de Nelson Rodrigues. Em sua opinião, o que mais mudou na vida privada brasileira do século 20 para cá?

GUSTAVO RIOS – Na essência, quase nada. Continuamos hipócritas, temerosos, crédulos, esperançosos e egoístas. Traímos, buscamos a felicidade e sonhamos com dias melhores. Parte de nós deseja a Revolução Bolchevique — contanto que não invadam nosso quintal num belo domingo de sol e “churras” —, enquanto a outra espera que Jesus resolva finalmente voltar e, num singelo movimento de mãos, arranque todo o mal desse mundo, menos o praticado por nós.

Em resumo: a vida privada é uma fonte sem fim para escritores. Pode ser para um enredo, uma cena, um personagem. E o Nelson sabia se aproveitar disso. Devo muito a ele, sem dúvida.

O ambiente familiar do menino Cipriano, do conto “O encontro”, foi fácil de construir. Assim como a angústia do esposo em “Margherita”: quantos homens e mulheres não passaram por aquilo, e “ainda, ainda, ainda…” seguem casados? “Céu ausente” é meu pai, obviamente reconstruído para o leitor, enquanto “Cadelinha” poderia ter sido algum vizinho meu. Por sua vez, “Chuva para dois” é um apanhado de amigas e mulheres que conheci. E “O menino dança” tenta falar sobre a morte do garoto João Pedro no ano de 2020, no Rio de Janeiro, o único conto baseado numa notícia.

A vida privada me interessa na medida em que, por ser um tanto secreta, permite que nosso verdadeiro sujeito venha à tona.

Quanto a nossa evolução, acho que do século passado para cá evoluímos. Mas não o suficiente para nos tornarmos seres isentos de brutais contradições. Como falei acima: somos seres humanos. Continuemos!

 

DA – Como foi a experiência de estrear pela Rocinante, coleção da Sete Letras onde passaram diversos autores hoje badalados como Carola Saavedra, Julián Fuks e Ana Paula Maia, dentre tantos?

GUSTAVO RIOS – Foi minha primeira relação com uma editora. Até então, eu publicava em sites, blogues e em fanzines. E foi uma experiência bacana, um aprendizado. Parte da postura citada na outra pergunta veio desse momento: entender a importância de se editar, de selecionar, do corte, dos tais sacrifícios. Tive uma liberdade imensa no resultado final. Mas era algo discutido e proposto. O “bater do martelo” era meu, incluindo a ideia da capa.

Além do mais, foi um salto; o que chamam “furar a bolha”. O livro saiu nacionalmente, tendo sido divulgado em diversos jornais. Algumas resenhas surgiram, resultando em convites para publicação de outros textos meus. A Rocinante foi um marco. Tanto para mim, quanto para vários escritores, incluindo os que você citou. Tenho certeza que eles concordariam.

 

Gustavo Rios / Foto: Solange Valladão

 

DA – Você (e uma boa parte desses autores) migrou dos blogues, onde reinava total liberdade criativa, para as páginas impressas. Como avalia o papel das redes sociais como incremento para a independência do pensamento artístico na contemporaneidade? A internet foi domesticada aos interesses do capital ou ainda possibilita a rebeldia?

GUSTAVO RIOS – De fato, havia uma grande liberdade ali. Porém, como antes eu publicara fanzines, essa liberdade já me era comum. A gente podia roubar citações do Nietzsche, fotos do Duchamp e do Dali, bem como poemas do Murilo Mendes e do Chacal. Ao lado colocávamos nossos escritos, tirávamos cópias e isso era vendido a um real na Praça da Piedade; ou menos que isso, não lembro. O que o blogue nos deu foi um alcance infinitamente maior.

Quanto às redes sociais, digo que elas são ferramentas importantes. E pelo mesmo motivo dos blogues: alcance para qualquer artista, não só os escritores. No aspecto da independência, creio que as redes ajudam bastante, apesar de serem espaço para todo tipo de baboseira. Mas são meras ferramentas. Nada mais. E assim devem ser tratadas, iguais ao papel, as máquinas Olivetti, os fotocopiadoras, as impressoras offset, o lápis e a caneta. Só acho que não devemos acreditar piamente que esses suportes não sofrem vigilância e censura.  Daí essa liberdade pode estar comprometida.

 

DA – E depois, com a Mariposa Cartonera, como foi? Você já conhecia a proposta do movimento cartonero antes do convite? Alinha-se com as causas verde e ambiental? Nutre algum tipo de filiação política?

GUSTAVO RIOS – Filiação política, sim. Nunca a partidária. Aprendi com os anarquistas. Meu conhecimento dos ideais “anarco” me ensinou sobre essa estrutura de poder que muda a cara, mas não a essência. Mesmo assim, não acho que votar nulo seja um caminho. Ainda…

Fui contrário ao antigo governo, uma canalhada sem tamanho. E tenho votado na esquerda há décadas, esperando que ela aja como tal, apesar das evidentes melhoras de uma maneira geral.

No movimento cartonero, cada livro é verdadeiramente único. Pequenas obras de arte. Não só pelo conceito, mas pelo resultado final. “Rapsódia bruta: poemas e outras brutalidades” e “Allen mora no térreo” possuem capas fantásticas. Uma nunca sendo igual à outra; e isso é incrível – fora a encadernação e a proposta. Fiquei realmente lisonjeado com a chance de publicar dessa forma.

Sobre a causa ambiental, obviamente me alinho com suas pautas, por entender que, sem nenhum tipo de atitude, teremos um futuro terrível em todos os aspectos. E gostaria de ser mais atuante nessa luta.

 

DA – Você sente que seu trabalho tem alguma marca geracional? Identifica-se com alguma vertente da literatura brasileira realizada hoje?

GUSTAVO RIOS – Gostaria muito de dizer que não carrego marca alguma, e isso seria o máximo. Caso fosse verdade, eu seria uma bela exceção, quiçá um gênio – dois ou três degraus acima do restante do mundo, olhando já para o futuro, ou pra um espaço além do tempo.

Os anos, os fatos, a política e a vida em si: como fugir desse poderoso conjunto? Como negar que produzo e me comporto sob, e não sobre, a força dos fatos da história que não para de nos surpreender em seus repetidos erros? Seria prepotente e falso.

Uma geração pode compartilhar angústias, mas a resposta sempre carrega algo de pessoal. Dessa forma, creio que eu possa ter algo comum com outros escritores; não vejo problemas nisso. Contudo, e francamente, não consigo identificar padrões de trabalho com algum grupo. Ao menos na forma, pois as temáticas tendem a se repetir, independente da geração.

Toco no assunto da temática porque suspeito que todas as histórias já foram contadas. Do amor. Das viagens. Das guerras. Porém, pela forma de dizer, eu posso dar uma resposta particular. E com isso pretendo cravar algo meu na literatura. Sei que essa marca também é resultado de influências, de outros antecedentes. Mas não estou inventando a roda. Estou tentando embelezá-la mais um pouco, quem sabe.

 

DA – No conto “O menino dança”, você faz de James Brown personagem. Já em “Caso você fique”, a música de Jimi Hendrix serve como exemplo para uma vida ideal. Em seus livros, as referências musicais são constantes e nada gratuitas. Qual a importância da música pop na sua formação de escritor?

GUSTAVO RIOS – Em 18 de maio de 2020, o garoto João Pedro foi morto numa operação policial no Complexo do Salgueiro, no Rio. Os familiares só encontraram o corpo 17 horas depois. Por essa época, George Floyd morria asfixiado por um policial que colocou o joelho em seu pescoço, em Minesotta. Certa noite, enquanto eu escutava as duas notícias na televisão, por acaso rolava numa playlist “My Thang”, do James Brown. Assim surgiu a ideia do conto “O menino dança”.

“Caso você fique”, escrito há mais de uma década, foi resultado do término de um relacionamento conturbado.  Ela havia acabado de sair de meu apartamento. Resolvi que “Spanish Castel Magic”, do Hendrix, ajudaria a melhorar o meu estado. Sentei e escrevi a primeira versão. Os vizinhos não gostaram daquilo às sete da manhã de um domingo.

“Japão” foi totalmente inspirado numa música chamada “Polaroid”, da banda baiana “A Flauta Vértebra” (por sinal, título de um poema do Maiakovski). Depois do primeiro rascunho, foi só arrumar. “The Day After” surgiu depois de ter assistido “Amacord”; escutei Nino Rota, que não é pop, durante as primeiras versões.

Em resumo: dentre outras fontes de inspiração, a música pop é uma das mais importantes para mim. Mas não só ela: já escrevi poemas ouvindo Piazzolla, já criei contos ao som do Ravel, e o meu primeiro livro tem como título o nome de uma música, “O amor é uma coisa feia”. Uma pancada “roquenrol” de poucos minutos.

 

DA – E como se deu sua descoberta da arte? Recebeu algum estímulo na infância?

GUSTAVO RIOS – Não sei te dizer, com franqueza. Eu acho realmente que escritores nascem com a vocação. E que a seguem, com maior ou menor intensidade. Ou as ignoram e seguem suas vidas. Plantando tomates ou vendendo seguro de vida. Quanto aos estímulos, poderia citar aqui as revistas em quadrinhos que ganhava sempre de meus pais. Além de um punhado de amigos de infância que adoravam desenhar super-heróis tentando salvar o mundo em ruínas.

 

DA – Pra finalizar, conte-nos quais são seus projetos futuros. Está trabalhando num novo livro?

GUSTAVO RIOS – Sempre tenho contos para arrumar, além do esboço de uma novela que vai levar bastante tempo para ficar pronta. Preciso rever, cortar, essas coisas. Enquanto isso, continuo trabalhando duro na divulgação de “Céu ausente”, que é, sem sombra de dúvida, o meu melhor livro. Até agora.

 

 

Jussara Azevedo é carioca, graduada pela Escola de Belas Artes da UFRJ e cursa mestrado em Letras na USP.

 

 

Categorias
149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Catharina Azevedo

 

Ilustração: Drika Prates

 

O pedido

 

Ela começou a atravessar em um passo pequeno, amedrontado. Os olhos cinzentos e lacrimosos varavam a rua em uma súplica muda, procurando se deter no primeiro transeunte. Era tão velha que parecia parar a qualquer momento para dizer que havia sido testemunha da primeira pedra que colocaram na rua, quando a rua ainda era feita de pedras. Olhá-la era como ver algo capaz de tombar a qualquer momento; não, nem tombar, que haveria no tombo ainda uma violência que não combinaria com ela. Parecia mesmo era prestes a desvanecer, assumir as cores da noite antes de sumir lentamente, imperceptivelmente — ela estaria de mãos dadas com o passante que se deixasse alugar, um tipo mole demais para repeli-la: aqui (a voz trêmula), aqui era a antiga casa de um industrial, uma construção tão linda (os olhos lacrimosos), datava do período do Imperador. Não, acho que era colonial — e em um átimo, seu corpo feito de éter, um vento noturno, nada.

Do outro lado da rua, as meninas faziam ponto. Equilibravam-se em saltos imensos, desfilando os corpos repletos de lantejoulas pretas, rosas, douradas, coladas no busto ou nas saias curtas. Uma delas viu a velha e cutucou a colega com o cotovelo. Apontou para o outro lado com o queixo.

— Ó lá, alguém largou a vovó no Centro.

— Vai ver se perdeu — disse a outra moça. Não insistiu no assunto: um carro preto se aproximava, e por trás do vidro abaixado um homem musculoso fez uma gracinha. Ela se encostou no vidro, o antebraço roçando entre o do homem, as frases retardadas por um chiclete entre os dentes brancos.

A primeira moça continuou olhando. Chamava-se Daiane. Tinha outro nome, mas não importa. Tinha também uma pele branca emborrachada, como de lagartixa. Assim que chegou, disseram que era pele daquelas lá do interior mesmo, as tabaroas. Pois era mesmo do interior e possuía uma história difícil, acreditaria ser sofrida caso não fosse tão atordoada em relação aos seus próprios acontecimentos particulares — uma história dessas que empurra as mulheres pra zona, enfim. Mais do que loiros, os cabelos eram amarelos, tingidos da cor de gema de ovo, e naquele momento Daiane não acreditou que a mulher fosse atravessar a rua.

Porque, por estranho que fosse uma idosa no centro da cidade àquela hora da madrugada, caminhando seu passinho pequeno que ignorava que tudo ao redor estivesse um ermo; mais estranho ainda seria aquela velha prosseguir até o outro lado, visto que do outro lado havia a zona e mais nada. Entretanto ali estava ela, com seu passo de santa. Talvez fosse uma visão de santa.

Daiane se aproximou de outra moça.

— Tem algum velho aí hoje?

A mulher lhe lançou um olhar desconfiado.

— Que foi?

— A senhorinha tá vindo pra cá — Daiane apontou com o queixo outra vez. — Acho que está procurando o marido. Ou o filho.

— E eu com isso? Suma daqui, vá, você está me atrapalhando.

Daiane abriu caminho e voltou ao trabalho. Houve justiça no fato que, uma vez tendo ganhado a calçada, a velha procurasse seu braço para encaixar a própria mão e dizer, numa voz também tímida:

— Mocinha, onde que eu falo com o dono?

Ela deu um sorriso nervoso. Retesou o corpo. Outro carro se aproximava. Tentou afastar o braço com delicadeza, mas o aperto da velha pareceu se tornar, de repente de ferro.

— Preciso falar com o dono.

— Minha senhora, isso aqui é um puteiro.

E a velha respondeu:

— Eu sei.

Muitos pensamentos podiam ter tomado conta de Daiane ao escutar a afirmativa; prevaleceu, entretanto, o medo pelos clientes que perdia a cada segundo que demorava com a velha. Pior ainda se lhe associassem indelevelmente à figura encolhida da mulher — um dos homens nos carros que passavam já havia gritado uma piadinha obscena: é quanto com a vovó? Daiane prosseguia com seu riso nervoso, um riso que mascava o desconforto até que este se encolhesse e se disfarçasse.

Mas não houve jeito de se livrar da velha. Logo as outras moças se aproximaram sorrateiramente.

— A senhora está se sentindo bem?

— Estou, estou sim. Quero falar com o dono.

O “dono” era um homem negro do pescoço de touro que se chamava Cláudio. Se não era bom, também não era de todo ruim. O fato é que nenhuma das moças tinha vontade de chamar por ele — o que seria um sinal de desordem, e não havia, entre elas, nenhuma que quisesse admitir uma desordem. Desconheciam se Cláudio estava de bom humor ou não: a mesma mão capaz de matar um cliente violento, daqueles que obrigam coisas nojentas e substâncias; essa mesma mão poderia lhes marcar a pele caso se sentisse no direito. Especialmente os assuntos relacionados a dinheiro o transformavam em um bruto.

Foi, por fim, Soraia, uma das mais antigas, que resolveu explicar:

— Dona, aqui a gente não tem chefe, chefe é o cafetão.

— Mas é com ele que eu quero falar, mesmo.

E, porque nenhuma delas se moveu um centímetro sequer, a velha ajeitou o casaco de lã e avançou para a construção.

Uma luz vermelha brilhava ali dentro. Dois quartos tinham as portas fechadas; em um se entrevia uma cama de solteiro, encostada na parede, um espelho, uma cadeira e o que pareciam ser revistas pornográficas em uma cômoda. A velha avançou muito cândida pela sala até dar com um homem calvo, de uns cinquenta anos, que ria de um vídeo qualquer no celular.

Ele levou um solavanco. À sua frente, a velha toda tremia. Usava um casaquinho de lã com um único botão grande, fechado sobre o colo.

— Como posso ajudar a senhora? — perguntou, desconcertado, em uma incerteza entre enxotá-la ou apresentar-se mais polido.

— Estou procurando um homem — disse a velha muito claramente.

Atrás, as moças — cinco das quais não tinham medo de aborrecer Cláudio, ou sentiam que dinheiro algum daquela noite pagava serem testemunha dos acontecimentos — suspenderam a respiração.

A velha prosseguiu, como se aquilo se tratasse de uma entrevista de emprego:

— Me chamo Dita. De Benedita, mas todo mundo sempre chamou assim.

— Como que a senhora chegou aqui?

— De condução.

— E tá procurando homem pra que? — perguntou Cláudio, abobadamente.

— Pra fazer amor.

Restou o silêncio. Uma das moças começou então a rir — tentou esconder o riso entre as lantejoulas da roupa, mas este lhe ultrapassou a boca, transformando-se em uma gargalhada que contagiou as outras pouco a pouco. Dita continuava, entretanto, impassível.

— Meu marido morreu faz tempo, estou cansada de ficar sozinha. E, Deus que me perdoe, não era assim tão bom.

— O amor não era bom? — uma das prostitutas perguntou.

— Assim, assim. Mas Deus que dê paz a ele, era um homem justo. Nunca me faltou nada, não.

— Tô vendo que faltou — Soraia respondeu com malícia.

Cláudio fez uma cara feia — estava gostando cada vez menos daquela situação. Bateu as mãos, virando-se ríspido para as moças:

— Bora, circulando. Chega de corpo mole.

A seguir tornou à velha e acrescentou de mau humor:

— Aqui não tem homem nenhum, só mulher.

Esperava com aquilo — não sabia o que esperava. Era inimaginável que a velha fizesse o caminho de volta pelo bairro semi-abandonado àquela hora. Sequer sabiam como ela tinha sido capaz de chegar até ali.

Ficaram assim por um momento, Dita alisando a saia, aprumando o cabelo ralo penteado e perfumado. Estudou as moças uma por uma.

— E mulher? — perguntou, por fim.

Mulheres, haviam; impossível negar. Dita atravessou a todas com o olhar cinzento que lacrimejava. As moças deixaram de enxergar a velha, passaram a ver apenas um corpo nu.

Do centro do grupo, saiu Daiane. Pôs as mãos na cintura.

— A senhora trouxe dinheiro?

Dita agarrou uma bolsinha minúscula.

— Trouxe, tudo aqui.

— Olha que é caro.

Virando-se para Cláudio, acrescentou:

— Acho melhor ela ficar pra dormir, não quero me meter com caso de morte de velha nessa rua.

Tomou Dita pela mão e a levou ao quarto. As moças puderam ouvir a velha falar, antes que a porta se fechasse:

— Deus te abençoe, filha.

Catharina Azevedo é natural de Salvador, Bahia. Em 2020, publicou o conto No Intervalo, presente na antologia “Soteropolitanos” (org. Matheus Peleteiro, edição independente). Seu primeiro livro de poesias, “deixe o bando correr selvagem”, está em pré-venda pela Editora Mormaço.

 

Categorias
144ª Leva - 04/2021 Destaques

Olhares

De corpos, espaços e suas cores

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Lu Brito

 

Vida é sopro que circula, povoa seres e lugares, atravessa as dimensões da concretude para depois aportar no indizível mistério. Esta senhora, pois, aninha suas crias e as envolve com seus destinos de ser pelo desejo atravessado dos tempos. Na espiral dos instantes, há sempre uma faísca a movimentar tudo, ideias, laços, ímpetos, tons, gritos, dores, êxtases e paixões. E ser artista em meio a tanta coisa que mobiliza o olhar é missão sem par, desatino que se traduz em exercício de presença no mundo.

Há um infindável número de adjetivos que podem ser utilizados para esboçar alguma definição sobre o que representa o trabalho de uma fotógrafa como Lu Brito. Suas imagens podem ser desejo de liberdade, anseio de existência plena, clamores, preces, lampejos de prazer, gestos contemplativos, arremessos de serenidade ou mesmo algum anseio de conexão com o todo que nos rege.

Nos interstícios do cotidiano, Lu Brito sonda as expressões do humano através das sinalizações emanadas pelo corpo. Nas capturas da fotógrafa, eis que testemunhamos olhos sinceros de pessoas no enleio das suas rotinas pessoais, mãos que afagam o engenho das horas, rostos que trafegam entre o sonho manso e os delírios da realidade. Nesse vasto abrigar de sentimentos, habitar um corpo também é se deparar com as zonas fronteiriças da solidão, é mirar o horizonte posto nas paisagens buscando respostas em meio ao silêncio. Gente, para Lu, é motor que principia ações, as tais investidas sobre tempos e espaços dos seres que se equilibram entre a quietude e o alvoroço.

A arte imagética de Lu concebe os espaços físicos como verdadeiros mananciais de sensações. Desde o que remonta às paisagens naturais até aquilo que marca acentos urbanos, o voo da artista percorre cenários ricos em temáticas, todas elas a assinalar um olhar que se curva aos desígnios do instante observado e, por assim dizer, também experimentado em sua fruição. Em quaisquer desses universos, a chama da vida resta anunciada em gestos de presença e ausência humana.

 

Foto: Lu Brito

 

Mas eis que o apelo das cores transborda a dinâmica dos sentidos expostos, chama atenção pela necessidade da ênfase, daquilo que pretende ser marcado por sua vivacidade espontânea. São múltiplos tons que estão ordenados segundo uma lógica própria e inerente a cada ser ou lugar retratados. Seja operando na via dos contrastes ou na harmonização com os ambientes e corpos, as cores em Lu Brito inauguram a poética das marcações e nos fazem lembrar que muita coisa conflui para a vastidão das peculiaridades.

Confessando-se uma amante incondicional da fotografia, Lu Brito já desbravou muitos cantos do Brasil à procura de imagens. Com a mesma intensidade, também esteve em algumas dezenas de países aprimorando o seu ofício com a imagem. Muitos trabalhos seus podem ser encontrados em várias galerias de arte e casas de decoração e arquitetura de Salvador. Seu currículo abarca exposições individuais e coletivas nacionais e internacionais, bem como algumas premiações, dentre elas, Menção Honrosa na Bienal Brasileira de Fotografia 2016, Primeiro Lugar e Menção Honrosa, na categoria PB, no VII Salão Internacional de Fotografia de Ribeirão Preto (2019), além de Menção honrosa no Concurso Photonature Brasil 2020.

Com seu olhar ávido por captar o mundo e suas singularidades, Lu nos oferta instâncias especiais de contemplação da vida. E esse exercício de observar os trajetos humanos e de se deter pelos mais difusos espaços torna a experiência visual um tanto mais completa. Para além do que se vê numa primeira mirada, outros tantos sentidos se desdobram em favor da poesia que se refugia nos instantes flagrados pelas lentes da artista, mostrando que o mundo não é somente um palco de subjetividades, mas também de fenômenos espontâneos sobre os quais talvez jamais exerçamos alguma espécie de controle.

 

Foto: Lu Brito

 

* As fotografias de Lu Brito são parte integrante da galeria e dos textos da 144ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

Categorias
142ª Leva - 02/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

UMA QUASE RESENHA

 Por André Rosa

 

 

A beleza da existência humana se apresenta nas páginas do livro intitulado Barroquinha (Ed. Via Litterarum), do escritor Carlos Vilarinho, testemunha contemporânea de uma Salvador visceral. Suas histórias revelam a complexidade humana em uma sociedade cada vez mais apegada a projetos individualistas pretensamente vitoriosos. Na emergência de um cotidiano excludente, em meio a dias cada vez mais acelerados, revelam-se histórias de pessoas comuns que se operam em rede, entrelaçadas pela imaginação de um literato.

Sou lento, portanto insurjo-me. Ao ler Barroquinha, vou-me sem pressa: quero da vendedora, à porta da loja, notícias das novidades chinesas. Também sorver uma xícara demorada de média pingada. Saber do cobrador os horários mais tardios da linha de São Cristóvão. Talvez contar calmamente, ao apontador do bicho, um sonho esquisito com livros e traças em um sebo recentemente fechado. Continuo, assim, lentamente pelas calçadas do livro. Com passos e olhos atentos, passeio entre as páginas e a imaginação.

Como relata Elieser César, na sua apresentação, esse livro espelha uma outra cidade, fora dos clichês turísticos, tal como tantas outras locações de vidas soteropolitanas. Uma Barroquinha composta de trabalhadores, donas de casa, excluídos. Um povo de tantas religiosidades, com seus trajes coloridos e aparatos diversos. Lojas repletas de gente e bugigangas essenciais nos fazem arrefecer o passo nos parágrafos. Gritos de compra e venda, corpos astutos embaixo dos toldos de lona gramatical, nos dirigem imantados ao norte da poesia urbana dos seus meios-fios.

Vilarinho tem como cenário uma área geográfica e cultural bem específica, uma parte do todo-caleidoscópio Cidade do Salvador: a Barroquinha, artéria-abrigo incessante de uma população flutuante, que a habita entre o nascer e o pôr do sol. Findo o dia, uma outra Barroquinha se apresenta: face noturna de um mesmo universo cênico, cujo artefato de cimento e asfalto permuta os sons de músicas, motores e vozes pelo silêncio estranho de outras personagens.

Retrato ficcional e representação simbólica de uma Salvador em meio a tantas outras, o livro de Carlos Vilarinho inebria. Cada página, um cálice. Cada personagem, uma dispersão em mim mesmo. Inebriei-me de vida, pujante vida: soteropolitana e contemporânea. Como agora retornar à Barroquinha, sem olhar de soslaio para os transeuntes, admirá-los em sua simplicidade e festividade urbana. Também suas dores, percalços e sonhos. Especular, inconscientemente, em qual deles se encaixaria tal personagem. Onde morariam, o que desejariam? Seus amores, seus gostos. Torceriam, almas tricolores, pelo Baêa ou, rubro-negros corações, pelo Vitorinha da Barra? Ainda existiriam reminiscências ipiranguenses entre legítimos barroquenses, ou seriam barroquinos? Aceitariam um trago no botequim mais próximo, em prosa ligeira? Nela tudo caberia: seus medos, se de noite choveria, o preço da carne, a festa de Santa Bárbara. Como ir agora à Barroquinha e não pensar nos semblantes literários ao sabor do sol refletido nas suas calçadas atemporais?

Como cidadão afeito ao passado, ao ler Vilarinho penso em abandonar nostalgias. Abrandar o vínculo afetivo a uma Salvador da pesada arquitetura colonial, para apreciar a deliciosa beleza de um DVD pirata, a capa plástica de um guarda-chuva made in Taiwan, os tabuleiros dos ambulantes que mercadejam com seu suor o dia a dia. O casal de namorados com seus trajes escolares. Os garis imprescindíveis, suas vassouras a varrer para os meus olhos os cristais das gentes.

Sou daqueles que penso em Salvador enquanto um polígono imaginário que, partindo da Praça da Sé, desce ao cais e retorna ao Pelourinho via Baixa dos Sapateiros. Estendo-me, por vezes, ao Engenho Velho (de Brotas e da Federação) e ao Retiro de São Gonçalo. Fixo-me agora, no entanto, na velha Barroquinha, a do primeiro terreiro nagô. Desde os fundos da igreja / espaço cultural ao porvir. Nesse espalhar de letras no teclado em prosa do autor, surgem suas páginas de cimento e cal, abarcam seus contos repletos de humanidades precisas.

Enfim, fica por aqui essa quase resenha. Valeu, Vilarinho!

 

André Rosa é nascido na antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus. Professor titular da Universidade Estadual de Santa Cruz, atualmente exerce a presidência da Academia de Letras de Ilhéus. Coordena o Prêmio Sosígenes Costa de Poesia e participa da Comissão Organizadora da Festa Literária de Ilhéus. Autor de livros de caráter acadêmico e literário, entre os quais: “Família, Poder e Mito”, “Identidade e Memória”, “In Memoriam”, “Quintais do Tempo” e “Inventário do Caos”. No terreno religioso, tem o cargo de Tata Mabaia no Terreiro Matamba Tombenci Neto, de nação Angola, o mais antigo templo de matriz africana em atividade no sul-baiano.

 

 

Categorias
142ª Leva - 02/2021 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

FLERTE FLAMINGO – ESPERO QUE VOCÊ ENTENDA

 

“De onde essa gente vem
Que eu quero seguir também?
Pra onde essa gente vai?
Me leva pra onde sai”

 

Os versos da canção Longe da Bahia, do álbum de Teago Oliveira, exemplificam a aura de magia que paira sobre a terra do axé e dos orixás, sobretudo no que tange ao berço de gêneros e talentos musicais. Criada de forma despretensiosa no verão de 2015, a Flerte Flamingo foi concebida – no que se tornaria uma nova cena cultural independente de Salvador – com uma proposta sonora pautada na espontaneidade das composições de seus integrantes. Apesar da verve originalmente roqueira do grupo, as canções carregam o balanço do samba e de outros ritmos afro-brasileiros, como o ijexá e o samba-reggae. Composta por Leonardo Passovi (guitarra), César Neto (baixo), Rodrigo Santos (teclado), Bernardo Passos (percussão) e Igor Quadros (bateria), e com influências que vão de Arctic Monkeys a Jorge Ben Jor, a banda faz música brasileira com elementos do indie, samba-rock e pop contemporâneo. Com uma pegada regional, ilustrada pela percussão sempre marcante, as canções são basicamente pautadas na temática amorosa e experiências pessoais. Produzido pelo músico Junix11 (Baiana System), as cinco faixas autorais de Espero Que Você Entenda (2020), segundo EP da banda, lançado em todas as plataformas de streaming, reverberam a brasilidade das décadas de 60 e 70 a la Jorge Ben, João Donato & cia.  A obra imprime a irreverência do projeto, composto por letras “baseadas em fatos reais” e com uma musicalidade nostálgica que às vezes remete à displicência vocal do pernambucano Fred Zero Quatro e seu Mundo Livre S/A. O som reafirma ainda essa espécie de “movimento lírico-poético-estético brasileiro calcado num retorno ao pós-futuro”, como filosofou Pedro Gusavaqui, em sua resenha para o site El Cabong. Seria a tal saudade daquilo que ainda não vivemos?

O suingue de Não Te Quero (o que será que é pior/ser triste com alguém ou ser triste só?/aposto que eu e você/nunca vamos descobrir) abre o disco contrastando com a melancolia de um amor. Se a libertária Curió (minha poesia/não tem mais espaço pra você/e tudo que eu falei já não tem valor/decaixaem caixa aminha vontade/de ser só crescia/derepente bateu asas, se avoou) tem compasso e momentos etéreos que caberiam no repertório de Liniker, a malemolência de Iara (em noite fria/até o santo perde a fé/não tem um acalento/ou algo mais/você não sabe a dor que faz/comer farofa seca sem você, Iara) cede às migalhas de amor imploradas em versos como “quero o pouco que você puder me dar”. O single homônimo Espero Que Você Entenda, responde à velha questão de Diz Que Fui Por Aí, samba de Zé Kéti eternizado na voz de Luiz Melodia. Desta vez o interlocutor do verso “se alguém perguntar por mim” está na companhia de seus discos, livros e filmes prediletos, denunciando o hábito do vocalista Leonardo Passovi em cancelar em cima da hora os compromissos com os amigos. O lamento bilíngue de Triste No.2, encerra o trabalho enfatizando como “vai ser tão bom ter você aqui” e só me faz pensar em amores virtuais geograficamente inviáveis.

 

Flerte Flamingo/Foto: divulgação

 

Depois de um dançante EP de estréia – Postura e Água Fresca (2017) –, que teve como carro-chefe o gingado de Ladinho (lembra a intro de Caio No Suingue, de Pedro Luís e a Parede), um dos legados de Espero Que Você Entenda foi trazer, pela primeira vez, músicas interpretadas pelo tecladista Rodrigo Santos e pelo baixista Cesar Neto, apontando certa “democratização vocal” da banda. Criatura do Mal, o single mais recente, composto pós EP, aposta apenas em voz e violão e tem videoclipe estrelado pela dançarina Camila Rotta e direção de Matheus Fractal. Hoje, com dois EPs na bagagem e vários singles lançados, a Flerte Flamingo produz seus próprios eventos ­– denominados Pasinada – com grupos parceiros que fomentam a cena alternativa soteropolitana. Além disso, os músicos integram o coletivo SOPRO, juntamente com as bandas Colibri, Astralplane e Tangolo Mangos. Seguindo os passos de Maglore e Baiana System, Flerte Flamingo desponta como uma das mais promissoras sonoridades “made in Bahia” desta nova década. Suas performances ao vivo trazem um agradável clima de bailinho proporcionado por trupes como a Orquestra Imperial em seus carnavais (de salão) fora de época. Sejam em passos desengonçados ou de Fred Astaire, Flerte Flamingo convida você a soltar seu corpo na pista. Assim como seus familiares gregários sincronizam sua dança de flerte fatal, não se surpreenda se der match!

 

 

 

Larissa Mendes espera que você entenda sua predileção por analogias.

 

Categorias
138ª Leva - 05/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Kátia Borges

 

Lima Trindade é rock, quadrinhos e literatura. Nascido em Brasília, viveu intensamente os anos oitenta no olho do furacão. Entre o Distrito Federal, o Rio de Janeiro e Salvador, onde mora hoje, construiu uma bagagem sólida de referências, numa triangulação de afetos que transcende a ascendência carioca-baiana. Autor dos livros Supermercado da Solidão (LGE, 2005), Corações Blues e Serpentinas (Artepaubrasil, 2007), Todo Sol mais o espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005), Aceitaria Tudo (Mariposa Cartonera, 2015) e O retrato: um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (P55, 2014), lançou no ano passado As margens do paraíso (Editora Cepe), romance que apresenta ao leitor um Brasil que se alimentava de sonhos, talvez ingênuos, de grandeza. Nesta entrevista, conversamos sobre influências, paixões, mercado literário e a primeira incursão de Lima Trindade no universo dos quadrinhos, na lendária revista NTC, com um conto e um roteiro inéditos, que devem ser lançados em 2021.

 

Foto: Marcelo Frazão

 

DA – Quando o Lima Trindade que sonhava em ser desenhista descobriu a literatura como modo de expressão?

LIMA TRINDADE – A expressão literária chegou tarde. Talvez o grande estímulo tenha ocorrido quando assisti ao filme “Sociedade dos poetas mortos” aos 23 anos de idade. Eu me identifiquei muito com a personagem do Ethan Hawke, um cara extremamente tímido e que se sentia deslocado em ambientes formais. Todo aquele lance do “Carpe Diem”, a mistura de Horácio com os transcendentalistas americanos e a busca por uma existência autêntica fizeram minha cabeça. De vez em quando, rabiscava umas frases sem sentido nos intervalos das aulas da faculdade. Era uma coisa quase mediúnica. Eu não censurava nada. Apenas, deixava fluir. Não havia burilamento. Escrevia nas margens do papel timbrado, nas últimas folhas dos cadernos, no lado interno das capas. Escrevia e dava por acabado, sequer voltava a ler. Havia uma amiga na sala de aula, a Rosana Garutti, que adorava pegar meus cadernos e ler esses fragmentos. Dizia que achava bonito, que eu deveria escrever poemas ou letras de música. Aconteceu, então, de eu me deparar com o livro “Walt Whitman, a formação do poeta”, do Stefan Zweig. Eu fiquei fascinado com a descrição da maneira como o grande bardo norte-americano construiu e moldou sua vida por uma perspectiva puramente artística, tendo influenciado até o Wilde. Passei a estudar e exercitar versificação, trabalhando para dominar a forma e me sentir seguro para compor um poema inteiro. No começo dos anos 90, conheci os poetas Andrei Morais e Sandro Ornelas. Juntos, lançamos um folhetim poético chamado Huguy Rupi. O Andrei se desligou do projeto quando ainda imprimíamos os primeiros exemplares, rodados na gráfica do Correio Braziliense. Eu e Sandro percorríamos os bares da Asa Sul e Norte para vender e pagar o Huguy Rupi. Era uma grande aventura. Conhecemos os mais diversos poetas nessas andanças: do marginal beatnik ao parnasiano erudito. Infelizmente, a publicação só duraria dois números. Sandro, que tinha ido a Brasília para estudar, concluiu seu curso na universidade e retornou para sua casa em Salvador. Eu não quis tocar o jornal sozinho. Por volta de 1996, reuni uma quantidade significativa de poemas meus com o objetivo de montar um livro. Durante a preparação do original, reavaliei o material cuidadosamente, percebendo, com tristeza, que ele carecia de um acento particular, que sua publicação nada acrescentaria à história da literatura. Faltava-me originalidade. Eu me expressava literariamente, mas não com a potência que eu gostaria. Desse modo, desisti de escrever versos. Havia um amigo no trabalho que insistia muito para que eu escrevesse uma história de amor vivida por ele. Eu nunca experimentara a prosa de ficção, mas resolvi atender o seu pedido. Contudo, em vez de narrar a história que ele tanto desejava, enveredei por outro caminho e escrevi o conto “A meia-sola do sapato”, inspirado num episódio real de sua infância. Esse trabalho, que era meu primeiro no gênero, me valeu uma menção honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski em Porto Alegre. Deu-me também disposição para experimentar novas possibilidades de narrativas e pontos de vistas.

 

DA – Há um momento no qual essa vocação tenha ficado perfeitamente nítida para você? Uma espécie de marco, de ponto de virada.

LIMA TRINDADE – Sim. No dia do lançamento do “Todo Sol mais o Espírito Santo”, no Rio de Janeiro. Como todo ansioso, cheguei ao evento, que aconteceria no Centro Cultural dos Correios, algumas horas antes do previsto. Estava tudo muito bonito e organizado. Eu não tinha muito o que fazer. A não ser, esperar. Desse modo, resolvi dar uma volta. Chegando na Rio Branco, encontrei a Leonardo Da Vinci, que eu sempre ouvira os amigos falarem ser uma livraria fantástica e dona de um acervo de muita qualidade. Fiquei todo animado com a possibilidade de encontrar alguns títulos e autores que não achava em Salvador. Logo na entrada, tomei um susto. Vi o meu livro exposto em destaque. Ao lado, escritores como Truman Capote, Clarice Lispector, Reinaldo Arenas, Gabriel García-Márquez, Caio Fernando Abreu etc. Foi uma emoção sem igual. Ali, eu tive a consciência de estar verdadeiramente inserido no jogo. Até então, nos lançamentos em São Paulo e Brasília, eu me sentia como se estivesse anestesiado, como se nada daquilo fosse real.

 

DA – Como foi a adaptação do brasiliense, que orbitava o boom do rock BR, ao universo dominado pela cultura do axé?

LIMA TRINDADE – Não houve conflito. Sou filho de baiana e carioca. Meu pai e minha mãe se separaram relativamente cedo. Quando eu tinha quatro anos de idade, meu pai foi trabalhar em Manaus, por conta das oportunidades surgidas com a zona franca. Alguns anos depois, retornou, mas os dois não se entenderam e ele partiu novamente. Nós, meu pai e eu, só fomos desenvolver maior proximidade no começo de minha adolescência. O resultado disso é que passei boa parte da minha infância sendo criado por uma mãe, avó e tia baianas. Não sei distinguir o que é brasiliense e o que é baiano em mim. Sem falar que, em matéria de cultura, nunca fui purista. Eu mergulhei no rock de minha geração, mas, ao mesmo tempo, gostava de ouvir Caymmi e Noel Rosa. Ou Villa-Lobos. O que apreciava no rock dos anos 80 era justamente sua rebeldia, sua não aceitação das regras, sua inteligência. Vim para Salvador em 2002. Eu tinha muito preconceito em relação ao axé, botava É o Tcham e Olodum no mesmo saco, entende? Ficava irritado pelo fato de as rádios de Brasília não tocarem mais músicas de rock e cederem quase todo o espaço para o “axé”. Eu sabia que se tratava de grana, que o rock tinha sido uma moda do mesmo jeito que o axé era naquele momento, mas não me conformava. Somente morando na Bahia é que fui compreender o quanto a classificação “axé” era limitada, preguiçosa e excludente. Não dá para dizer que Gerônimo, Lazzo Matumbi, Ilê Ayê, Netinho, Chiclete com Banana e Harmonia do Samba são parte de um mesmo movimento, têm as mesmas identificações estéticas e interesses artísticos. É algo absurdo. Por outro lado, eu já conhecia e admirava a produção roqueira baiana quando ainda estava em Brasília. Foi uma alegria grande conhecer pessoalmente os músicos da Brincando de Deus e da Dead Billies, por exemplo. Salvador é uma cidade muito diversa, rica de possibilidades e encantamentos. Os amigos que fiz aqui estão longe dos estereótipos de baianidade propagados pela mídia. Viver em Salvador não foi uma decisão motivada por falta de perspectivas. Foi uma eleição, uma escolha.

 

DA – Um aspecto marcante de sua personalidade é a aproximação com o universo dos quadrinhos e do rock. Essas referências influenciam a sua produção literária?

LIMA TRINDADE – Totalmente. Os dois gêneros decodificaram o mundo para mim e nutriram minha capacidade criativa. Por causa deles, atravessei oceanos, vivi momentos únicos na história da humanidade e me senti menos solitário. Minha sensibilidade se cunhou muito a partir das histórias que li e músicas que ouvi. Pela escrita, eu “desenho”. Assim como trabalho os sons numa frase de um conto, estabeleço certos climas para cenas e, digamos, me deixo dominar por uma estilística roqueira, uma trilha sonora interna que dá ritmo e cadência ao texto e me embala.

 

DA – No caso específico dos quadrinhos, tem acompanhado a produção contemporânea brasileira e baiana?

LIMA TRINDADE – Eu tento. Porém, meu método de leitura é caótico, não obedece a nenhuma cronologia. Não me preocupo em estar atualizado com os lançamentos. Meu único compromisso é com a qualidade. Quando recebo dicas de um trabalho legal, seja pela mídia especializada ou por amigos, corro atrás. Tem gente que se satisfaz com quadrinhos bem desenhados e roteiros inconsistentes. Ou o contrário, grandes textos e traços ruins. Para mim, a coisa só funciona se os dois aspectos forem bons. No Brasil, sou fã da Laerte, do Allan Alex, André Dahmer, Davi Calil, Lourenço Mutarelli e Rafael Corrêa. O Marcelo D’Salete é obrigatório. Gosto muito do Wagner William também. Já entre os baianos, o Marcelo Lima, com os roteiros, mais o Dan Borges e a Lila Cruz, com a arte, são três nomes expressivos. Há ainda iniciativas de coletâneas muito legais feito a Máquina Zero, da Quadro a Quadro, que é uma editora baiana, e a Bang Bang, da Devir, de Sampa.

 

Foto: Marcelo Frazão

 

DA – Há alguma incursão nesse universo na gaveta ou na cabeça, em roteiros para HQ, por exemplo?

LIMA TRINDADE – Recebi um convite do Allan Alex para participar de um projeto superbonito, a revista NCT, uma singela homenagem a um gênero que abrigou diversos artistas nacionais de grande talento: os quadrinhos de terror. Quem tem mais de quarenta anos talvez se lembre das revistas Spektro, Pesadelo e Calafrio, que eram vendidas em bancas, e de nomes como Flavio Colin, Julio Shimamoto, Watson Portela, Rubens Cordeiro e Mozart Couto. Para a NCT, escrevi um conto exclusivo e preparei um roteiro de 6 páginas, que está nas mãos do Dan Borges. Se tudo der certo, em 2021 a revista estará em circulação.

 

DA – Vivemos hoje o que alguns classificam como um pandemônio, mescla da situação política, que nos lançou em um cenário de violência e insegurança institucional, e dos efeitos devastadores da pandemia do Covid-19. Nesse contexto, sendo um escritor brasileiro, brasiliense-baiano, como avalia as perspectivas do mercado literário, no que tange à criação, produção editorial e circulação de livros?

LIMA TRINDADE – O interesse por literatura e arte, seja ela qual for, nunca deixará de existir. É vital no ser humano. Não se trata em absoluto do impacto reflexivo que ela nos proporciona, o que não seria pouco, pois isso as ciências exatas também fazem, mas sua importância se dá numa espécie de refinamento de nossas emoções, na possibilidade de oferecer uma troca de experiências e nos conectarmos com nós mesmos e com os outros num nível mais profundo. Recordemos que a humanidade já passou por desafios ainda maiores que essa pandemia. E, fosse na quebra da bolsa dos EUA em 1929, num Japão destruído do pós-guerra ou a vida num regime ditatorial no Brasil em que, para piorar, havia um índice de inflação altíssimo, as pessoas não deixaram de adquirir e ler livros, ouvir músicas, participar de exposições ou espetáculos de dança. Penso que nessas situações limites a necessidade de aproximação com o universo artístico se torna ainda mais forte. No âmbito da criação, há quem acredite, inclusive, serem esses momentos mais férteis. Quanto ao mercado editorial em si, a produção e circulação de bens adaptar-se-ão às novas realidades, sejam elas quais forem. Pode ser que a mudança do suporte físico para o virtual, no caso da literatura, avance mais. Pode ser que o crescimento se dê mais apenas na forma de aquisição, os leitores comprando livros de papel pela internet. Ou, ainda, pode ser que as consequências não sejam tão amplas e tudo volte a ser exatamente como era antes.

 

DA – Seu livro mais recente, “As margens do paraíso”, debruça-se sobre um país literalmente em construção. Logicamente, há vários caminhos narrativos para contar a história de Brasília. O que o fez escolher um formato não exatamente linear?

LIMA TRINDADE – A história de Brasília se confunde com a história do Brasil e se confunde também com as histórias de todas as pessoas que viveram o período. No entanto, o livro foi escrito hoje e meu objetivo ao realizá-lo não foi o de suprir lacunas históricas ou fazer sociologia. O romance traz uma realidade completa que se fecha nela mesma e se presta a múltiplas leituras e interpretações. Quando lemos o Quixote ou Hamlet pouco importa o período “real” em que a personagem vive, mas, sim, a vivência de uma gama de emoções colocadas em cena por meio de uma linguagem igualmente viva. A linearidade ou a não-linearidade tem de atender à capacidade do autor expressar melhor os problemas, questões e temas escolhidos para trabalhar. No caso do As margens do paraíso, esse “em construção” já dá uma tônica da complexidade do caminho. A linearidade isolaria e simplificaria as vidas de Leda, Rubem e Zaqueu, personagens também “em construção”, coisa que eu não desejava. Eu não quis facilitar nada para quem lê. Acredito na inteligência de meus leitores e leitoras.

 

DA – Como se deu a opção por três pontos de vista, em processos individuais, na composição de seu romance?

LIMA TRINDADE – Ao escolher a margem como perspectiva, eu decidi não colocar as personagens à margem, entende? E não dava para problematizar o centro acreditando em limites únicos, restringindo o seu ser e estar no mundo numa única voz. Seria contraditório. Essa era uma história que, a meu ver, um único narrador a empobreceria. As sutilezas das diferenças e aproximações dos três narradores se perderiam, a visão do todo ficaria embaçada e não duvidaríamos se o que a personagem diz é uma manipulação ou se o fato narrado acontece “verdadeiramente”.

 

DA – “As margens do paraíso” é um dos poucos romances contemporâneos que abordam a construção da capital federal do ponto de vista dos candangos e dos primeiros habitantes de uma cidade planejada. O que, a seu ver, provoca o desinteresse temático por esses personagens tão característicos quanto interessantes e históricos?

LIMA TRINDADE – Não sei. É algo que nunca me ocorreu. Talvez não haja desinteresse. Talvez a razão resida no fato de a cidade ser extremamente jovem e seu passado recente pareça um presente sem enigma algum a ser decifrado por quem a vive hoje. Jorge Amado retratou uma Bahia em processo de transformação, a passagem do estágio agrário para a industrialização, que poucos se detiveram com idêntica acuidade. Ou será que uma parcela grande de escritores enfrentou o tema, porém sem despertar a mesma atenção do público e alcançar os mesmos resultados literários que Jorge? É possível que haja uma literatura submersa dos candangos e primeiros habitantes da capital federal e nós não saibamos.

 

Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014) e “O exercício da distração” (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

 

 

Categorias
136ª Leva - 03/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Carlos Vilarinho

 

Imagem: Roberto Pitella

 

O Gari

 

Tudo devia começar com um grito, como aquela pintura que parecia tintas derretidas que vi no museu enquanto varria do lado de fora, na calçada do elegante e nobre bairro da Vitória, em Salvador. Um grito de desespero que chegava a segurar a cabeça e expressava horror e medo.  Mas começava assim: um rapaz cujo único trabalho foi sentir prazer antes que eu nascesse, jamais soube quem eu era. Muito menos eu lhe pus os olhos. Talvez ele, caso houvesse interesse em me conhecer, acalentasse minha alma daquelas situações rasteiras de dissabores raciais, por exemplo. Não sei qual foi a pior situação, se a minha ou a de Amanda. Com minha irmã, além da cor da pele, minha mãe não tinha certeza, entre três rapazes, qual deles era o pai dela. Portanto, quando a médica disse “dispneia”, pensávamos se tratar de algo letal como câncer. Tudo de ruim acontecia com pobre e preto desvalido. Nessa época, eu contava com doze anos, Amanda com oito. Minha mãe nunca conheceu as Letras, talvez por isso o serviço do rapaz foi mais fácil para que culminasse na minha existência. Nasci quando minha mãe completava quinze anos. Nasci um negro de periferia. Aos poucos quase me tornava ressentido e rancoroso pelo que faziam comigo e com os outros negros, pobres diabos no mundo. Não foi difícil deduzir que se tratava de racismo aqueles tratamentos díspares, ainda que me faltassem leitura e Educação. Nunca esqueci uma professora que tive quando estudei na escola da prefeitura quando tinha nove anos. Gostava de ouvir e ler histórias de pessoas que provocavam diferenças na vida e se tornavam essenciais à sociedade. Ela nos mostrou uma coleção de fotos de pessoas importantes que venceram com coragem as adversidades. Entre as fotos havia de uma pequenina menina negra chamada Ruby Bridges. A professora disse que nos espelhássemos naqueles exemplos. Toda vez que me sentia ultrajado com troças de racistas pensava em Ruby, aquilo me fortalecia. Mas não era fácil, o racista corrompia a alma alheia sem se inibir. Parecia um vestígio característico do ser humano. Quase ficava com vergonha de minha pele, não havia ninguém que me acalentasse.

Havia passado trinta e três dias. Contava desde que aquele jornalista apareceu em minha casa dentro da televisão. Avisava da quarentena e anunciava a primeira morte. Trinta e três era um número cabalístico. Quer dizer, sempre ouvia dizer essas coisas, na verdade não sabia do que se tratava. Sabia que Jesus havia morrido com trinta e três anos, mais nada. Despois de quarenta anos de idade, vinte varrendo as ruas de Salvador, me sentia finalmente essencial à humanidade. Nos meus primeiros vinte anos de existência, sonhei um dia em ser médico. Quando vi uma delas salvar minha irmã da tuberculose. Era uma boa médica, cuidadosa, zelosa e carinhosa. Além disso, foi ela quem alertou o outro problema que Amanda carregava desde que nasceu.

‒ Parece que ela tem dispneia.

Uma vez, na idade adulta, ainda jovem, quando corria para jogar futebol. Já praticava meu ofício com destreza e afinco, varria as ruas de minha cidade com orgulho de ter nascido na Bahia, mesmo com todas as diferenças que eram acentuadas com discrição e silêncio. Tinha quase certeza que as pessoas na grande maioria disfarçavam o que sentiam verdadeiramente umas pelas outras. Não que eu fosse desconfiado, talvez nem eu nem ninguém tivesse razão para andar cismado, mas algo dentro de mim dizia que somente a própria pessoa conhece a ela própria. Participava de uma partida num campo de várzea, jogávamos todos sem que distinguíssemos o nível econômico das pessoas. Simplesmente formalizávamos a liberdade e empreendíamos a democracia que se traduziam na prática do esporte, pelo menos. Evidentemente não havia como distinguir naquele momento as diferenças acentuadas entre seus praticantes, cada equipe e cada jogador preocupavam-se em vencer. Além de tudo, exercitávamos a coletividade. Enquanto jogávamos, ouvi de um rapaz, acho na mesma idade que a minha, praticamente bradar a pulmões um desaforo gratuito e preconceituoso, sem nenhuma razão para humilhações, a não ser que um drible que lhe ofereci entre as pernas fosse considerado insulto. Fiz o que o momento da partida oferecia e que valia e valorizava o jogo, não foi menosprezo, sobretudo era uma brincadeira entre as pessoas. Mas ele criou sanha e como um rapaz mimado despejou cólera desnecessária. Soube depois que estudava outras Línguas e foi destaque num colégio tradicional de classe bem afortunada. Segundo esse cidadão estudado e bem nutrido e que fazia um juízo final somente dele, agregado a um desprezo gratuito e arrogante que o consumia depois que a bola saiu do seu controle, disse-me entre dezenas de injúrias, que o meu cérebro não captava mensagens e nunca seria capaz de reproduzir uma história. Não se sabe se tudo isso por ignorância, distúrbio psíquico ou mal banal. Acho que era ódio por ódio mesmo. Era o que bastava para me entristecer aquele arroto de poder. Pois agora, anos depois, ao contrariar toda uma gama de descontentes‒ inclusive o rapaz de notória altivez que envelhecia comigo e protagonizava um teatro de rancor, jamais me cumprimentou por uma tolice, atualmente tossia desesperado com falta de ar ‒ eles, soberbos, não tinham como alimentar ambição de ganhar mais do que possuía e era suficiente, pois o vírus não deixava. Pois agora, ao dar vazão ao meu pensamento e mesmo com os contrastes de desigualdade social expostos, fui designado pelo Universo a narrar com imaginação sagaz de um gari convicto o que ocorria na quarentena. Posso adiantar que se tratavam de histórias coletivas da humanidade e que ficaria no imaginário de quem sobrevivesse.

Não era dispneia. Na verdade era um problema maior, diagnosticado por outro médico dono da casa que minha mãe trabalhava como diarista.

‒ Catalepsia patológica.

Não tenho certeza se receitou algo, mas Amanda ficava como estátua de cera toda vez que algo sério e triste acontecia entre nós. E algo sério e triste não era raridade em nosso casebre.

Com dificuldade aprendi as Letras, tomava gosto pela leitura. Gostava de ouvir e pesquisar nomes que surgiam novos para mim. Desde que aprendi a ler, eu mesmo procurava minhas histórias preferidas. Aos poucos assinei meu nome em Letras cursivas, mas vacilantes e tremidas: José de Arimatéia de Jesus. Com o tempo melhorei o traço de minha letra, ficou legível na medida do possível e das minhas condições. Certamente melhor do que antes. Não sei porque Jesus foi parar em meu nome, mas sempre achei bom ter essa referência. Por outro lado, a professora me disse que José de Arimatéia foi um grande homem rico e poderoso e que muito conversava com Jesus. Mas não sei se minha mãe sabia disso. Tenho certeza que ela não fez nenhum estudo onomástico ‒ esse foi o nome que ouvi de uma pesquisadora do IBGE enquanto indagada pelos moradores do lugar que morava sobre a razão daquele censo, só havia pobre por ali, não sei por que ela usou esse termo se ninguém na comunidade ia saber do que se tratava, mas eu pesquisei ‒. Amanda, que tinha mais tempo e era muito curiosa, aprendeu a ler mais rápido do que eu, era quem inicialmente lia a bíblia para nossa genitora quando ela disse que havia se entregado ao Senhor e deixado o cachimbo das drogas. Mas não demorou muito e morreu. Deixou um vão oco onde nos espremíamos e dividíamos o espaço de acordo com as atividades domésticas. Mais tarde, eu e Amanda construímos, de fato, uma casa.

Assim, não tive dificuldade em perceber que meu sonho de menino, em me tornar médico, dificilmente se realizaria. Provavelmente não deixariam sem que eu apresentasse uma chancela, como se certas profissões eram guardadas para quem apresentasse aval, de quem ninguém sabia. Pois, a dificuldade era infinitamente maior do que para um branco bem nascido, que estudou, teve vantagens e oportunidades singulares que eu jamais teria, muito menos imaginasse que existisse. Um branco assim vestia jaleco, era esse o referendo para ser médico no Brasil. Às vezes me entristecia, e ao mesmo tempo me indignava com o rumo das coisas. Pior era quando caía em mim e entendia que aquilo era a regra do mundo e jamais mudaria.  Certo dia, em casa de manhã cedinho, antes de o dia clarear, ouvi uma reportagem no rádio. A mulher que falava era de uma dessas entidades que defendem os negros, ela dizia que o racismo estrutural era o pior de todos porque nos transformava em dados de estatísticas como animais. Aquilo não saiu de minha cabeça. Não sei as outras pessoas, conhecia pouca coisa e bem menos as outras pessoas. Havia mundos que não sabia que existiam, mas sentia necessidade em me tornar útil de alguma forma. A ideia que tinha quando comecei a varrer as ruas era que dificilmente seria notado, as pessoas só olhavam médicos, professores, jornalistas, enfim. Um gari negro que varria ruas era invisível e facilmente substituível. Tentei desesperadamente estudar e aprender, mas tudo era difícil. Não tinha livros, não havia ninguém que soubesse mais do que eu para calçar minha necessidade de aprendizagem. Começava a era de computador, eu não sabia ao menos como ligar aquela máquina. Por fim, o sentimento de impotência acentuava minha alma a cada dia pela manhã, enquanto eu varria e nem um bom dia recebia.

Uma vez, enquanto varria próximo ao Campus Universitário da Bahia, ouvi dois rapazes que conversavam. Pela aparência jovial e os trajes à vontade intuí que eram estudantes de algum curso na Universidade. Um deles inclusive me presentou com um livro sobre mitologia grega. Fiquei apaixonado por Afrodite. Tempos depois, disse ao rapaz o amor que nutria pela Deusa. Imaginava, sendo gari, como conversar com meus colegas sobre Afrodite, Zeus, Atena e Hermes. Enquanto lia sobre os deuses, pensava sobre as relações que podiam existir entre eles e entre tudo na vida. Até que ao chegar em Hermes, algo me chamava atenção. Uma vez, enquanto nos reuníamos para saber a rota que seguíamos a cada dia para varrição, deu-se um estalo em minha mente, ruminava as coisas que lia. Naquele dia entendi como tudo o que lia se processava, era o cérebro que buscava acarear informações. E então, comparei Hermes com Exu. E conversei brevemente com o rapaz sobre a minha comparação. Ele tirou os óculos para me enxergar melhor, ao que parece, riu e disse que estava surpreso, jamais achava que aquela leitura ia me interessar.

‒ Continue a ler, talvez haja alguma diferença em você que você propriamente ainda não sabe.

Esse que me deu regalo reclamava incomodado como a família o tratava. Segundo ele, a cobrança e a preocupação eram muito rigorosas. Parei de varrer um instante e pensei naquela frase. Como minha mãe teria me ajudado se por acaso cobrasse meus estudos. Mas não havia jeito, talvez o conhecimento fosse para poucos e nunca chegou até a mim. Ao mesmo tempo, pensava sobre esse parecer, se isso for procedente, se for real, a humanidade e a civilização seriam o maior e único exemplo de vileza e abjeção. E, é claro, não seria também um absurdo, pois só o referendo do racismo já atestava a imundície de certos humanos. Não valia a pena existir. No entanto, vou me valer de que apesar de todos os meus esforços para ser notado como gente, talvez as coisas sejam irreais e haja outros mundos paralelos ao nosso. E cada vez mais eu era invisível, ainda assim, me sentia bem limpando os arredores. Varria as ruas para não deixar o coronavírus se espalhar. Aquele ofício, simples, de fácil manuseio e que denotava asco nas pessoas era o que me tornava essencial à sociedade. A limpeza fazia parte do mundo civilizado, mas parecia ser tão trivial que as pessoas que como eu cuidavam da higiene recebiam de volta o nariz tampado e o fastio e repulsa de quem passa sobre o lixo varrido.

Agora as ruas estavam vazias, pareciam mais limpas. O vírus limpava o mundo, isso era curioso. Enquanto as pessoas ficavam em casa, para não se contaminar, não havia fardo de sujeira que o próprio ser humano reunia pelos cantos, ou até mesmo abertamente em qualquer parte da praça, próximos onde se sentavam para comer, conversar, ler, namorar ou para ficarem quietos. Fazia de tudo para não tocar na máscara que protegia do covid 19, mas desde criança tinha rinite e o incomodo era incessante, não havia jeito, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Trinta e três dias de quarentena. A ausência das pessoas nas ruas é o que me tornava tão importante. Era tão curioso pensar assim como que o vírus limpava o mundo. E gostava sempre de pensar nas coisas, pois ao pensar profundamente, diriam aqueles rapazes do Campus Universitário, chegava-se à conclusão de que aquela era a prova de que a humanidade não tinha educação. Qualquer tipo de educação. Estava evidente que as pessoas não cuidavam de nada que não pertencesse a elas próprias. Quando lia a bíblia para minha mãe junto com Amanda, se não me engano, havia um questionamento sobre se algo pertencia ao ser humano, a não ser o que se produzia com o pensamento. As ruas precisavam de pessoas como eu. Mas tudo isso que foi constatado por somente quem limpa o que está sujo. Era uma constatação sem importância que emergia de filosofia barata e sem sustentação social e política. Isso devia ser constatado pelo poder. Pelos poderosos. Mas ouvia dizer que o governante do Brasil não se importava com os vulneráveis. Diziam pelas ruas, ou quando trabalhadores se reuniam para discutir data-base, que houve governante melhor, mas que foi preso acusado de corrupção. Mas quem não subornava no Brasil? Era uma interrogação insinuante e que ecoava como coro de torcida organizada. Parecia que todos que apareciam de outros cantos do mundo e aportavam no Brasil carregavam essa interrogação no semblante. Não lhes tirava a razão, pois, a injustiça, o aliciamento, a deturpação, a desvirtuação, a adulteração et cétera e et cétera… Contaminavam como vírus por aqui, e nesses atributos as máscaras já estavam assentadas, irremovíveis e firmes em cada rosto que lidava, ostentava e recorria a essas divindades diariamente. Portanto, quem não subornava no Brasil? Havia algum tempo, antes desses trinta e três dias, esse cantinho aqui vivia cheio de copos descartáveis, guardanapos, talheres plásticos, preservativos sexuais usados, absorventes sujos de sangue. Às vezes, tudo junto fazia uma bolo de lama e bactérias. Eu era quem varria aquele canto, muitas vezes as pessoas passavam e cuspiam de lado. Eu continuava a varrer. E mesmo assim não éramos valorizados como essenciais. Invisíveis asquerosos do lixo.  Meu colega Joílson era um rastafári que dançava com sua vassoura enquanto varria. Ele imitava James Brown. Nunca pisou na escola, mas fazia de conta que era mestre em inglês. Então, ele cantava e dançava ao meu lado Sex Machine, depois varria satisfeito e, como se imitasse minhas idiossincrasias, puxava para cima e para baixo a máscara negra que a prefeitura distribuía. Em seguida dizia.

‒ O show não pode parar.

Alguns poucos o cumprimentavam de dentro dos ônibus, pobres como nós. Os outros, dentro dos carrões, apressados, estressados, buzinavam para que saíssemos da frente. Esses pareciam que tinham raiva de gente pobre. Filisteus. Muitos desses não suportavam ser solidários, sentiam-se mal na fragilidade que o momento impunha a todos. Todos na televisão e os governantes do momento de cada lugar no Brasil diziam que não podíamos ficar juntos; segundo eles, o vírus atacava e acabava com as células que existiam em nós. Como se não bastassem os massacres da sociedade sobre nossas cabeças. Toda noite eu ficava na dúvida. Na Europa, as pessoas não saíam de casa, se protegiam para não se contaminar. Ouvi o repórter da noite dizer que o governo de lá tomou providências. O governante maior daqui, não. E cada vez mais, mais dúvidas se acentuavam nos meus pensamentos com relação a esse povo do governo. Mas, como um alento de todas as coisas da vida, enquanto varria novamente lá perto do Campus Universitário, ouvi dessa vez dois senhores que conversavam, um dizia ao outro.

‒ Sempre é bom ter dúvidas.

Enquanto varria, em um dos dias da semana de pandemia, próximo a um hospital, nas imediações do Porto da Barra, as pessoas choravam. Parei e observei penalizado aquela gente. Enquanto estava parado e observava, vi um homem na sacada de um dos quartos do hospital, no sexto andar do prédio, dependurou-se e gritou com os poucos pulmões que lhe restavam:

‒ A humanidade não deu certo.

Aquela frase me envolvia, sentia que havia sido capturado por aquela simples sentença como mágica lexical.

Em seguida, não se soube como, ateou fogo no quarto do hospital e pulou da sacada. Quebrou as duas pernas e algumas costelas. Morreu dias depois de insuficiência cardíaca. No entanto, os médicos ainda não sabiam se ele estava ou não contaminado com o Covid 19.

Sentia falta do movimento das ruas, mesmo menosprezado. Curioso, quando passei à condição de essencial à sociedade, promovido pelos órgãos do governo, para deixar limpo e dificultar a circulação do vírus letal ninguém circulava mais. Não havia ninguém para atestar a importância de um varredor de ruas. Isso só confirmava nossa invisibilidade. Todos os dias, quando era escalado na rota do Centro da cidade, na Avenida Sete, no Largo Dois de Julho ou nas imediações do Pelourinho e Barroquinha, sabia que em qualquer lugar daquele que varresse seria servido um lanche para mim e Joílson. Na Praça Castro Alves, por exemplo, havia Zezinho, povo como nós dois, sofredor da vida, vendia pipoca doce e salgada e cantava músicas românticas. De preferência, Julio Iglesias num portunhol inepto e confuso. Quando chegávamos era uma festa de pipocas e cantorias produzida por ele e Joílson. Os dois faziam troça da estátua de Castro Alves, diziam que o poeta estava com a mão estendida pedindo esmolas para publicar poemas. E, ainda em troça, perguntavam entre si como um poeta fazia para comer se poesia não dava dinheiro. Zezinho deixava que comêssemos pipoca à vontade. Não sabia imaginar como Zezinho se virava com aquela quarentena. Provavelmente passava o dia numa fila de agência lotérica, ou da Caixa Econômica, e tentava resgatar o que o governo oferecia. Era a humilhação em forma de auxílio emergencial. Ouvi dizer que as pessoas deviam baixar aplicativos de internet. Imaginava então quem nunca se encontrou em frente a um computador como fazia para finalmente acessar o dinheiro e em seguida gastá-lo com as necessidades primordiais. Enquanto varria a Praça Castro Alves, dia desses, ouvia reportagens no rádio portátil que sempre carregava no bolso do macacão de uniforme e um desses estudiosos acadêmicos importantes dizia que havia milhões de pessoas no Brasil que não sabiam o que era internet. O sofrimento era iminente e diário. Sempre quando parava para pensar, as dificuldades do dia a dia passeavam em minha mente e também o que fazer para vencê-las. Ah, antes que me esqueça, é bom fazer todos os registros; no mesmo dia que ouvi, lá em frente ao Campus Universitário, um dos senhores falar sobre a dúvida, também escutei a resposta do outro.

‒ É importante sempre pensar.

Achava que o vírus veio para eliminar quem não prestava. Tinha uma imaginação fértil e mágica quanto a isso, achava que a natureza observava de tempos remotos o comportamento das pessoas com as pessoas. Quem não era fraterno, a flecha da natureza, como a de Eros, só que ao contrário, sem paixão, sem amor, sem erotismo, contaminava sem dó, como uma punição. Mas não era nada disso, quer dizer, continuava a achar que a natureza estava metida nessa mixórdia, mas eliminava qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer condição. Tempos depois, durante a quarentena, quando varria a Praça Castro Alves vazia e me sentia essencial à vida, senti falta de Zezinho. E Joílson me contou que soube que o pipoqueiro havia sido contaminado, morreu e deixou dois filhos e mulher.

No Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho, sempre havia muito trabalho, a varrição era gigante. As flores vendidas nas barracas deixavam muitas pétalas espalhadas no chão. Como em qualquer lugar da cidade, ali estava ermo naquela quarentena. A algaravia que emergia no Largo todos os dias era contagiante. Normalmente o clima era de pessoas que contagiavam pessoas com alegria, bom humor e satisfação. Havia contágio de tristeza, mau humor e aborrecimento também. Pessoas especialmente para cuidar desses desconsolos, muitas vezes proposital. Mas não era o caso de alguns do Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho. Havia a senhora Lurdes, que vendia flores na barraca da esquina, ao lado do restaurante chinês. E Maria Inês que fazia jogos de loteria ilegal, do lado oposto ao restaurante de Kim Xing Ming. Kim assim que nos via, eu e Joílson, acenava desesperadamente. Fazia-nos entrar e ir ao fundo do restaurante, lá por dentro a bagaceira de tripas, pelos, órgãos era insuportável. Nunca conseguimos identificar que animais eram aqueles. Diziam que chineses comiam cachorros, mas não sei se aquilo eram restos caninos. Kim pedia quase sempre implorando para que limpássemos aquilo. Muitas vezes ele misturava as Línguas, falava mandarim, depois um português embolado, o fato era que quase nunca entendíamos. Kim fazia isso sempre no momento de acertar algum conosco e, então, aceitávamos o que ele dava sem entender muita coisa. Era um trabalho de Hércules, mas tirávamos tudo. Descobrimos depois que Kim só pedia para fazer aquela limpeza em seu restaurante quando a dupla de garis era eu e Joílson. Além do mais éramos funcionários da prefeitura e varríamos as ruas. Era um daqueles subornos que geralmente brasileiro dizia ser jeitinho. Era ilegal fazer limpezas particulares, não era nosso ofício. Mas a vida era tão difícil e tínhamos tão pouco que sucumbíamos e nos deixávamos ser aliciados também. Soube que um dia Kim Xing Ming pediu a outros dois que foram escalados para aquela rota em nossa ausência, não lembrava o motivo, achava que eu e Joílson folgávamos e os rapazes não se recusaram a fazer. Eram Joselito e Raimundo. Disseram que o que ele pedia era um serviço extra, o que não deixava de ser, e queriam administrar a negociata com lucros maiores. Eu e Joílson não fazíamos isso. Das duas, uma. Ou as duas de vez. Ou a corrupção no Brasil nascia nos níveis mais baixos e grotescos que se há, em progressão aritmética e infinita, ou ela chegava em via inversa, ou expressa, vinda de todos os níveis possíveis, aceitáveis, existentes e inexistentes até o mais baixo e grotesco. E como trânsito de avenida, ia e vinha ininterruptamente.

Mas quem não subornava no Brasil? Ecoava insinuante insistente e sempre em qualquer imaginário do mundo.

Joselito pegou covid 19, foi internado, depois de vinte e cinco dias teve alta curado. Raimundo também foi diagnosticado positivo, mas era assintomático. Foi orientado para ficar em casa durante quinze dias. Kim Xing Ming fechou o restaurante quando a quarentena engrenou. Ouvíamos histórias de que Xing Ming estava com febre alta e tossia muito. Não funcionou através de delivery, como a maioria dos restaurantes do Centro da cidade faziam. Aliás, as coisas não ficaram boas para Kim Xing Ming, os moradores do Dois de Julho e comerciantes acusavam-no de participar de uma teoria da conspiração. Segundo as pessoas em geral incentivadas pela fake news de um ministro do governo. Aliás, governo esse que parecia fazer de tudo para que todos se contaminassem. As pessoas começavam a acreditar que o chinês disseminava o vírus entre os mais pobres do centro da cidade numa comparação em menor nível e proporcional aos esdrúxulos comentários divulgados na mídia, feitas pelo então ministro do governo. Começava a circular que o mundo ia sucumbir em razão do vírus que havia sido criado e dispersado pelos chineses. Curioso era que, de fato, a população mais pobre se contaminava com maior facilidade. E morria rápido. Maria Inês, que vivia de conversa com Joílson e ensaiava romance com o parceiro gari, dormiu durante dias na porta de um hospital esperando notícias da mãe hipertensa e diabética que contraiu o Covid 19. Inês era uma das que acusavam Kim. Segundo ela, a mãe voltou sentindo-se mal depois que almoçou no restaurante do oriental. Infelizmente não sabia precisar se a mãe de Inês conseguiu escapar do corona. Não havia mais ninguém no Largo do Mocambinho e as notícias não chegavam.

Mas a senhora Lurdes era o que de melhor havia no Largo do Mocambinho. Antes de passar no chinês Xing Ming, antes de fazer a fé nos jogos ilegais da loteria de Inês, antes de discutir futebol com o fanático torcedor tricolor que parecia dono de uma loja de miudezas na esquina, enfim, parávamos na barraca de flores da senhora Lurdes. Não havia jeito, assim que dobrávamos aquele pedaço na Carlos Gomes era a primeira imagem que tínhamos; a senhora Lurdes sentada em sua barraca de flores, com dois netos em cada lado, geralmente cada um com a boca cheia de doces e ela observava quem entrava e quem saía no Largo Dois de Julho.  Havia sempre uma merenda que ela guardava e nos oferecia assim que aparecêssemos. De praxe; café com leite e pão, às vezes uma fatia de queijo. Ou bolo de chocolate. Ou tapioca com manteiga. Uma ou duas bananas, às vezes. Deixávamos tudo limpo e bem sequinho ao redor de todas as barracas de flores, no entanto dispensávamos atenção especial à da senhora Lurdes. Era uma senhora com muito bom humor e senso de parceria. Aliás, era uma sinergia fácil de achar e de conquistar entre a camada mais fraca socialmente na economia. Quando o pobre via-se em apuros, era com rapidez acolhido por outro, e por outro, e por outro. Nova progressão aritmética, dessa vez para o bem. Tinha a prova disso quando levantei minha casa e de Amanda junto com os vizinhos, se não tivéssemos contado com eles dificilmente cavaríamos fundo para a fundação e levantaríamos os blocos. Não que não tivéssemos forças, mas o trabalho era descomunal para um homem e uma mulher que não nutria muita saúde, não esqueçamos da catalepsia que tomava minha irmã desde criança. Senhora Lurdes fazia a festa do seu modo, não era como Zezinho, por exemplo, que vivia em cantorias com Joílson, em outro exemplo de colaboração mútua. Deus o tenha Zezinho. Mas a senhora deitava falação. A senhora Lurdes conhecia todos e sabia de tudo referente a cada um que ela comentava. Assim soubemos da marmelada e falcatrua dos outros dois garis juntos com Xing Ming. Soubemos que a mulher do homem que discutia futebol comigo saía às escondidas toda quarta-feira à tarde, como senhora Lurdes soube disso é um mistério, mas procedia a verdade. O homem descobriu onde enfiava-se a companheira ‒ acompanhada de outro ‒ e o sentimento de traição cobriu-lhe de violência. Naqueles tempos, muito se via na mídia reportagens de misoginia, muito mais do que de racismo estrutural. Os taxistas ficavam parados no ponto, um deles conversava sempre comigo em tom professoral, emitia sugestões filosóficas sobre a humanidade e comparava com uns filósofos que eu não sabia pronunciar os nomes, segundo ele, tudo procedia conforme o pensamento de Nietzsche. Fiquei na dúvida como pronunciar cinco consoantes de uma vez, ainda que uma fosse muda. Mesmo assim nada sabia sobre Nietzsche. Ele dizia saber tudo. O rapaz que conversava comigo sobre mitologia grega no Campus Universitário, que me presentou com o livro, um dia, antes da quarentena, me disse que a atitude de quem diz saber tudo é porque não sabe nada. O taxista, depois de algum tempo, quando ele deixou que eu emitisse um parecer qualquer, não lembro sobre o que, espantou-se quando confrontei aquela situação que conversávamos com deuses gregos da mitologia. E desde então, quando me via com a vassoura na mão me aproximar da barraca de flores da senhora Lurdes, o tal corria e falava algo com relação a qualquer coisa e esperava para ouvir o que eu tinha a dizer, em seguida perguntava se havia algum Deus grego que se comportasse daquela forma. Soube através da senhora Lurdes que ele havia morrido do covid 19 e contaminado toda a família. Foi também através de senhora Lurdes que Joílson soube do interesse de Inês por ele. Lamentavelmente soube há poucos dias, agora Inês passava dia e noite na porta do hospital e requeria notícias da mãe. A velha havia sido transferida duas vezes de leito e de hospital, finalmente encontraram um respirador numa UTI de periferia. Além de tomar conta da vida alheia, senhora Lurdes colecionou ao longo dos anos sabedoria popular. Ela pensava sobre as coisas assim como eu. E nos dávamos muito bem quando parávamos para conversar. Foi ela quem definiu com curiosidade, talvez até sabedoria, o que essa quarentena, o vírus e toda a humanidade significavam naquele momento terrível.

‒ Pode escrever, isso tudo vai desandar somente para três caminhos: solução, prazo de validade e lição de vida.

Senhora Lurdes me disse essas coisas quando tínhamos dez ou doze dias de quarentena. As ruas já estavam vazias e, por acaso, encontrei ela que separava as flores que não havia apodrecido das outras. Não estava vendendo nada, primeiro que não podia, segundo que não havia quem as comprasse. Flores alijadas. Curioso que ela me disse sobre aqueles três caminhos com um leve sorriso no rosto. Dias depois que percebi que aquele sorriso era de abdicação. Em primeira mão, achei que senhora Lurdes ainda não havia dado em si do prejuízo que ela teria. Ela e todos comerciantes ambulantes. Mas ela sabia de tudo, sim. Dias depois, com a quarentena em andamento e muito depois do nosso último encontro quando ela separava as flores boas das podres, encontrei a senhora novamente. Ela estava sentada em frente à barraca de flores e bebia café. Desculpou-se conosco por não haver merenda. Usava uma máscara florida que protegia o queixo e a papada. A boca e o nariz estavam desprotegidos em desânimo. E já não era a mesma senhora que conheci durante esses vinte anos que varria as ruas de Salvador. Abatida, havia emagrecido, carregava um semblante padecido, tinha olheiras marrons ao redor dos olhos, principalmente na parte inferior, e tossia com frequência. Disse que não teve febre, mas os dois netos tiveram. Foi ela quem nos deu a notícia da mãe de Inês. A velha tinha sido enterrada coletivamente numa vala do cemitério de Brotas. E finalmente falou com desânimo para mim e Joílson.

‒ Perdi todas as minhas flores, acho que estou doente. Aliás, onde moro a maioria das pessoas estão tossindo, mesmo assim não se entregam e saem às ruas para buscar o que comer, um vende café, outro cata latas, eu vendia flores, não tenho mais o que vender, Inês perdeu a mãe e os jogos ilegais não correm mais durante a quarentena… Isso veio acabar com a vida do pobre. Essa é a solução que eles querem, o prazo de validade está acabando e a lição de vida… Rum! É que ninguém quer aprender lição de vida nenhuma.

Desde que me falou, no início da quarentena, sobre esses três caminhos da humanidade, que pensava sobre isso. Inicialmente concordava com ela. Tínhamos que tirar algo do que acontecia. A humanidade devia voltar, ou começar, a confiar nela própria. Uns nos outros. Acontece que parecia que havia uma distância, um poço tão fundo quanto o oitavo anel do inferno, para duas coisas que deviam ser a mesma coisa. Ou no pior dos casos, coisas afins e próximas. Mas afinidades e proximidades não procediam. Muitas vezes esse abismo aparecia entre humanidade e ser humano.

‒ A humanidade não deu certo.

A frase do homem que pulou da sacada do hospital tomava efeito em meu pensamento.

Aquele trigésimo terceiro dia de quarentena caiu num domingo cinzento de maio. Mesmo que surgissem outros sóis, aquela tristeza cinza não abandonaria o dia. Um vento frio soprava na rua vazia. Mesmo o calor do girassol que havia na minha porta não denotava ternura naqueles tempos. Aquela flor foi presente da senhora Lurdes. Ela dizia que o meu jeito pensativo e sereno lhe passava tranquilidade. Joílson, como sabemos, era falante como ela, eu só ouvia e ria. Mesmo o serviço de varrer as ruas não me deixava estressado e impaciente. Se não me resignasse quando aprendi as Letras e escrevi meu nome, mesmo que trêmulo e inseguro, talvez não desse certo para a vida. Mas parecia que a minha existência teve uma finalidade. A comunidade que morava era de uma pobreza extensa, às vezes o esgoto alagava as ruas e a água podre entrava nas casas. Muitos políticos andavam por ali, prometiam valas e higiene sanitária, mas nunca foi feito nada para benefício das pessoas naquele lugar esquecido. Algumas vezes, quando tinha o prazer de estar presente quando os políticos apareciam, tinha a impressão ao olhar as emoções no rosto daqueles homens que não existia emoção. Tudo era ensaiado. Nada nem ninguém interessava ou provocava misericórdia ou compaixão naqueles homens. Só o voto de cabresto. Como a fome parecia ter um contrato de coexistência com a comunidade, sempre e somente em épocas de eleição eram servidos feijoadas, churrascos, galinhadas e cervejas a rodo para as pessoas que estavam famintas ali há tempos. Depois as obras de contenção de encostas, onde aqueles que comiam as feijoadas, os churrascos, as galinhadas e bebiam cervejas, também morriam soterrados, e os políticos que ofereciam aqueles banquetes lamentavam todas as mortes sem emoção. As creches não apareciam e as crianças ficavam nas ruas, os empregos e os projetos sociais jamais ninguém viu. Todos ali viviam como podiam, as casas em sua maioria eram de barro batido, ou, as melhores, de bloco cozido com uma laje que não se sabia se havia fundação para suportar o peso. Morava com Amanda e nós dois conseguimos construir uma casa que nos protegia. Durante a construção tivemos ajuda dos vizinhos, todos juntos, cavamos a fundação e suspendemos as paredes com bloco e batemos a laje. Conseguimos doações de piso, além do que achávamos no lixo e ainda estava em condições de ser usado. Só não rebocamos, faltava dinheiro, mas conversávamos sobre isso e combinávamos de quando o vírus se for, se se for, íamos terminá-la. Alguns ficavam dentro de casa durante a pandemia, a maioria ficava nas portas, ou na rua de barro. Achavam-se imunes, ou não acreditavam que havia o vírus letal. Quando acreditavam e tinham medo, não podiam ficar em casa porque se não, não comiam. Então saíam para trabalhar, muitas vezes sem nenhuma proteção. As casas eram minúsculas e geralmente havia no mínimo quatro pessoas em cada casa. Não sabia como os homens do poder podiam dormir com aquelas pessoas sem condições mínimas de, ao menos, sobreviver naturalmente onde se encontravam e procuravam para se proteger de um vírus fatal que assolava o mundo. Os homens do poder não se interessavam pelas pessoas, o líder maior no meu país aparecia nos telejornais para pedir que as pessoas não se afastassem umas das outras, que as coisas não parassem de funcionar e agradecia a Deus por tudo. Sem falar as casas construídas nos barrancos, era época de chuva e a cada tromba d’água o temor que tudo ruísse era gigante. Já dissemos sobre a não contenção de encostas A prefeitura instalou uma sirene que soava e avisava do perigo de desabamento para que as pessoas deixassem suas casas e não corressem risco de morte. Mas quase ninguém saía, preferiam morrer soterradas com elas. Também não tinham para onde ir, além do mais perdiam tudo que conseguiam com esforço. Ou no desabamento, ou, quando não desabava e soterrava tudo junto, pessoas, móveis, papéis et cétera… A água da chuva invadia as casas e acabava com o que tinha lá dentro. Eu era um dos poucos que trabalhava e tinha o dinheiro certo ao final do mês. Foi assim que comecei a pensar sobre a minha condição. E uma alegria individual que quase não existia na comunidade tomava conta de mim discretamente. Uma alegria que durava pouco quando olhava ao redor de minha gente. Passei a uma condição de essencial à sociedade e à vida e entendi que a minha presença estava comprometida no lugar que morava. Fui o primeiro a dividir os mantimentos que a prefeitura distribuía entre os garis. Na verdade, já recebíamos uma cesta básica sobre o salário; com a pandemia e quarentena aqueles mantimentos dobravam. Era o mínimo que se fazia por nós. E não faziam mais nada do que isso. Amanda trabalhava na casa do médico que nossa mãe trabalhou antes de morrer com uma doença adquirida na época que usava cachimbos com drogas. Minha irmã entendeu melhor o que houve com ela, mas só chorava e não conseguia me explicar direito. O médico, desde que nossa mãe se foi, não deixava que faltasse nada para ela e, consequentemente, para mim também. Não havia naquele homem aquele abismo existencial que separava as pessoas da humanidade. Então muita coisa sobrava. Sentíamos obrigação de dividir com vizinhos. A fome em comunidades como aquela que morávamos jamais deixou de ser parceira.

Naquele dia, o trigésimo terceiro, algumas coisas chamavam atenção da comunidade. Primeiro era a rebeldia dos jovens. Estava em casa com Amanda, conversávamos sobre nossos trabalhos. No meio da tarde, ouvíamos passos de gente reunida. Olhávamos discretamente pela janela, como diziam que pobre fazia, olhava pelas frestas e víamos um grupo de jovens que dançava sem parar. Dois deles conversavam embaixo da minha janela.

‒ Não aguentava mais, brigava comigo mesmo em casa… Sem falar que meu pai xingava todo mundo, xingava o presidente, xingava o patrão dele, aí começava a me xingar porque sou gay e acabava dando tapas em minha mãe… Dizia que a culpa era toda dela pelas misérias do mundo e por eu ser gay… Meu pai é um homem horrível.

‒ E ainda dizem para ter esperanças que dias melhores virão.

‒ Acho que o mundo vai acabar.

Em seguida, quase ao mesmo tempo da reunião dos jovens no meio da tarde, o que me fazia pensar era quando passavam hordas de evangélicos sem máscaras de proteção ao vírus covid. Gritavam pelo Senhor e suplicavam misericórdia. A maioria dos religiosos diziam que o Senhor os livraria do vírus. Só no lugar que morava soube do desaparecimento de dezenas deles tossindo e com falta de ar. Comparava com os jovens, alguns de máscaras, outros sem usá-las, que dançavam sem parar. Chegavam notícias que havia doze ou treze deles contaminados na comunidade. E a dúvida acentuava. Lembrava do senhor lá no Campus Universitário que dizia ser bom ter dúvidas, ao que o outro respondia que também era bom que pensássemos. E não conseguia responder a mim mesmo um questionamento que se seguiu enquanto olhava aquelas duas condutas.

‒ Qual das duas vertentes era incapaz de sentir prazer em viver?

No entanto, talvez fossem comportamentos que pedissem ajuda com gritos silenciosos de desespero como aquele expressionista começava a história. Cada um em seu extremo.

A fome era a porta de entrada de todos infortúnios de quem era pobre em qualquer país do mundo. No Brasil e na comunidade que morava não era diferente, aliás, o incômodo no estômago levava as pessoas a se comportarem de outras maneiras que não eram consideradas habitualmente costumeiras. Mas é claro, além da fenda social, a fome enlouquecia. O vírus tinha um crescimento exponencial, principalmente nas comunidades como a que morava com Amanda, eram sentimentos de limitação, impotência e medo. Somada a essas agruras, ou como consequência, aparecia serelepe, imponente e de certo modo fascinante, a violência. No fim da tarde do trigésimo terceiro dia, ecoavam no ar saraivada de tiros.

Havia desde cedo um movimento diferente na comunidade. Aquilo não era boa coisa. Alguns homens de semblantes não muito bons iam e vinham acompanhados de alguns outros que moravam por lá. Isso desde a madrugada do sábado. Depois uma quietude tomou conta do lugar. Um silêncio torturante ganhou os ares daquele domingo, no trigésimo terceiro dia de quarentena. Depois que os jovens desceram a rua e, em seguida, os religiosos evangélicos se acomodavam no templo que eles construíram e de lá suplicavam louvores. Um clima de testemunha silenciosa se apoderava na comunidade. Aquele suspense sinistro foi quebrado no começo da noite pela algaravia dos tiros. Houve uma correria e depois a rua ficou erma. Enquanto olhava pela fresta da janela e ouvia os cânticos religiosos, pensava na humanidade e seus crimes. Aquelas pessoas, muitas gritavam por Jesus em desespero, para mim uma atitude inexplicável e intolerante. Ainda que o corona vírus andasse à espreita, tínhamos que nos cuidar, manter distanciamento social e a quarentena dentro de casa. O resto realmente era com Deus. Mas tinha dúvidas se aquela gritaria faria Deus, ou o Senhor Jesus, ouvir e descer para acudir a todos nós. Talvez, antes de toda súplica misericordiosa, devêssemos assumir os pecados. Ou os erros propriamente ditos e afiançados. Para aqueles evangélicos, e todos os outros, não havia sido ninguém que rompia o silencio do lugar com tiros, mas o diabo.

As notícias não tardavam e minutos depois soubemos a razão dos tiros e sua consequência. É bom que se diga algo sobre essas coisas: somente em comunidades pobres que os policiais decidiam valer a autoridade. Isso acontecia em todos os cantos do Brasil, quiçá do mundo. E sempre descambava para aquela discussão do racismo estrutural. Mas era racismo, sim. Não sei se estrutural. Provavelmente, não. Racismo, ponto final. O pior é que não havia respostas para tanta brutalidade e força exagerada num lugar em que as pessoas lutavam dia após dia para sobreviver. Nem sequer viver, mas sobreviver. Num lugar onde as pessoas não tinham oportunidade, talvez quando tivessem não sabiam como agarrar. Faltava-lhes estudo. Faltava-lhes conhecimento. Faltava-lhes incentivo para sair da escuridão. Nenhum político, daqueles que distribuíam comida e cerveja, em sua pré-eleição, gostava de ver sua gente discutir cultura com sabedoria. Queria que vivessem como gado. Queriam que a gente pobre se contaminasse com o covid 19 e morresse para diminuir o peso da Previdência. Quanto mais mortos, melhor. E ainda assim a gente resignava-se, como eu, por exemplo, que lia por conta própria. E emitia comentários, conselhos e sugestões a outros. Como aquele taxista que corria ao me ver abraçado a minha vassoura e aprender mais sobre mitologia grega. Cada pessoa em lugares como esse devia pensar o que fazer em cada passo que desse em sua caminhada. Em cada respiração. Eu e Amanda somos exemplos vivos desse aperto. Temos que provar todos os dias e horas que éramos pessoas capazes. Daí, minha satisfação em ser transformado em essencial para a sociedade por um vírus, na ironia da vida. Parecia que cada negro que nascia nas comunidades, tinha que pagar o preço do erro, primeiramente por ser negro, aquilo parecia realmente um erro, nascer negro. Em seguida, pelas faltas e crimes que nasciam naturalmente na alma de quem as provocava. Era negro, branco, mestiço. Rico ou pobre. Assim como preto e pobre emergia e vivia do crime, no pensamento de quem tinha poder e girava o dinheiro na própria gangorra financeira.  Rico e branco também espalhavam drogas, sonegavam imposto, lavavam dinheiro, surrupiavam dinheiro público, espancavam mulheres, desrespeitavam funcionários públicos de cargo inferior, criavam milícias et cétera… E parecia que nada disso era marginal às regras. Não aparecia, não havia força descomunal de polícia que contrariasse, que combatesse esses crimes, com a mesma veemência da periferia, nos lugares deles. Mas lá, no lugar dos fracos, lá onde não havia o que comer, lá onde não havia moradia decente com banho quente nas noites de chuva e frio, mas muito medo de tudo desabar barranco abaixo depois de soar a sirene da aflição, lá onde as máscaras de proteção ao corona vírus eram somente um pedaço de pano, às vezes engordurado, para cobrir a metade do rosto, lá matava-se quem não tinha nada a ver, que por um capricho do destino tinha um vizinho suspeito. E para contabilizar na estrutura, somente quem tinha a pele preta cometia atrocidades. Começava a entender a fala da mulher que defendia movimento negro e que se pronunciava na reportagem do rádio de manhã cedinho antes do dia clarear. Aquele era o horário para indignar-se da dor e da injustiça, quando acordava para ir à luta com o dia sem apresentar aurora definida.

Os policiais invadiram a comunidade em perseguição a traficantes de facção, segundo disseram. Falavam que eram recebidos a tiros pelos meliantes. Revidavam, e assim foi baleado com fatalidade o menino Carlos Augusto de quatorze anos. Carlos, negro, estudante do nono ano do Ensino Fundamental, sonhava em ser jogador de futebol. Estava dentro de casa sentado no sofá e assistia a um jogo antigo da seleção brasileira, a final da copa do mundo de 2002 contra a Alemanha. O Brasil ganhava de dois a zero e relembrava a euforia orgulhosa de ser brasileiro e pentacampeão naquele domingo cinzento do trigésimo terceiro dia de quarentena sobre o coronavírus. Carlos Augusto não foi vítima do covid 19.

‒ A humanidade não deu certo.

Emiti sem querer aquela frase que me capturou a alma.

 

Carlos Vilarinho, nascido em setembro de 1963. Conhecido como Pensador das Ruas como atestam seus textos e personagens que surgem e passeiam livremente pelo Centro de Salvador. Autor de: “Labirinto-Homem” (Romance, Editora Kalango, 2013); “Baculejo e outras histórias” (Contos, Editora Via Litterarum, 2017) e “Barroquinha” (Romance, Editora Via Litterarum, 2019).  

 

Categorias
135ª Leva - 02/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A Literatura é esse território repleto de vivências, cenários e impressões sobre o mundo. Ao mesmo tempo, é atividade que ultrapassa o real e, algumas vezes, não se rende a necessárias relações com ele. O mister de um autor é também algo que não se digna a maiores explicações, a tentativas exaustivas de classificação. Se definir é limitar, cobrar de um escritor as exatas diretrizes de seu engenho com as palavras não parece ser nem um pouco um gesto razoável.

No panorama das narrativas ficcionais, há quem seja profundamente estimulado a criar tendo como norte a necessidade de contar uma história. Mas não é apenas isso. É construir um texto cuja consistência narrativa confira qualidade ao que se está dizendo, sobretudo através da consciência de que aspectos técnicos também são imprescindíveis para quem pretende dizer algo através dos conteúdos elaborados. E quando encontramos alguém movido pelo intuito de trazer ao mundo uma boa história, supomos de pronto que os primeiros indícios de um trabalho digno de ser apreciado estão se delineando. É o caso de Paulo Bono, escritor cuja obra merece especial atenção em razão dos empenhos exitosos com a construção narrativa.

Baiano de Salvador, Bono é um escritor cujos textos prendem a atenção do leitor pela sua fluidez, ritmo e potencial imagético. Some-se a tais atributos a peculiar capacidade que o autor tem de elaborar diálogos que acabam funcionando como verdadeiros atrativos. Diga-se de passagem, muitos desses diálogos têm por virtude maior dar sustentação às expressões dos personagens. E aqui é preciso mencionar que os tipos humanos engendrados por ele encontram correspondência com personalidades que transitam aos montes no nosso cotidiano. O xis da questão é que o autor os molda com habilidade dentro de um universo de cenários e possibilidades comuns a tantas existências diluídas no conjunto dos dias.

Autor do livro de contos e crônicas “Espalitando” (Ed. Cousa, 2013), dentre participações em antologias e coletâneas, Paulo Bono foi também roteirista do curta-metragem “O Garoto”, lançado em 2014. Mas o seu momento atual está voltado para os desdobramentos tidos a partir de seu primeiro romance, “Sexy Ugly”, lançado em 2019 pela Editora Mondrongo. O livro mostra Bono cada vez mais à vontade em sua lida com as palavras, tecendo uma narrativa que subverte expectativas e que tem como um de seus motes o protagonismo de pessoas costumeiramente não aceitas nos padrões de beleza socialmente impostos. E para falar da experiência com seu novo rebento e de outros temas relacionados às vias literárias e mundanas, Paulo Bono recebeu a Diversos Afins para uma conversa marcada por opiniões diretas e certeiras, prova inconteste de que a objetividade é uma das valiosas ferramentas de expressão do pensamento.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Seu mais recente livro, “Sexy Ugly”, tem um olhar aguçado sobre cenas contemporâneas, pois há nele também uma crítica sutil sobre o sujeito mergulhado em dilemas pessoais que envolvem a luta pela sobrevivência, os desejos sexuais e os afetos. Como foi arquitetar a construção narrativa nesse território cheio de tensões tão nossas? 

PAULO BONO – Foi uma arquitetura de idas e vindas. Aquela coisa de levantar e derrubar pilastras o tempo todo. Na primeira versão do livro o protagonismo era da Propaganda. A história era sobre os bastidores das agências. Com muito mais casos e entrelinhas desse ambiente. Mas achei que estava se tornando um livro de gueto. Joguei tudo fora e recomecei com uma história tipicamente noir. Com mais peso nos crimes, no sexo e no mistério. Mas veio uma necessidade de conhecer melhor o detetive. Foi então que Deco Ramone virou o mestre de obras dessa construção. Descobri que a história era sobre ele. Os bandidos, a femme fatale, os amigos bizarros, a filha, as agências e o puteiro eram na verdade um espelho de Deco. Assim os crimes perderam peso, o noir virou linguagem e a propaganda passou para pano de fundo. O livro seria sobre um publicitário falido que precisava descobrir como vender um puteiro para pessoas feias enquanto lidava com bandidos, com o futuro incerto e com o distanciamento de sua filha. Uma história sobre sobrevivência, expectativas frustradas, autodecepção, sobre a beleza da feiura e a feiura da beleza. Acredito que desta forma a investigação de Deco se tornou mais universal e ele descobriu que somos todos sexy ugly. Ah, e preferi pintar as paredes com humor. De drama já basta a vida.

 

DA – O personagem Deco Ramone é, assim como você, alguém envolvido com publicidade. Em “Espalitando”, seu livro anterior, as narrativas remontam ao bairro da Lapinha, lugar de Salvador que marcou a sua trajetória pessoal. Não há como não observar, na sua obra, essa recorrência a referências que falam de você em alguma instância. De que modo você reflete sobre isso? 

PAULO BONO – É como disse o Hemingway, você tem que escrever sobre o que conhece. O roteirista Charlie Kaufman também comentou uma vez que só podia escrever sobre ele mesmo, pois era o único assunto que escreveria sem errar. E olha que as histórias do Kaufman são bem loucas e inventivas. Acho que é por aí. O “Espalitando” era uma parada mais pessoal até porque veio de um blog que funcionava quase como um diário. Já o “Sexy Ugly” não é sobre mim, estou longe de ser o Deco Ramone. Mas acrescentei muita coisa do que vivi em 20 anos de propaganda. Fante, Bukowski, Céline e muitos outros também iam por esse caminho. Alguns dizem que é um recurso menor, uma limitação. Foda-se. Não acho que há certo ou errado. O importante é o texto. Se ficar bom e verdadeiro, será universal, alguém vai se identificar e não será mais uma história sobre Bono. Recorrer às nossas referências é como dar um pulo num porto seguro só pra pegar uma arma secreta. Se um dia eu escrever sobre uma guerra intergaláctica, acredite, a Lapinha também estará presente.

 

DA – De fato, ainda há muita controvérsia, inclusive, sobre o próprio conceito de autoficção, algo até subestimado por alguns. Não lhe parece mais genuíno saber aliar o texto ao que vivemos, pois tudo sempre esteve no mundo e apenas transformamos as coisas ao nosso modo?

PAULO BONO – Por aí. Mas nem acho que exista um modo mais ou menos genuíno. Cada um faz o que acredita. Genuíno tem que ser o texto. Pra isso é legal saber o que está escrevendo. Claro que é mais difícil o cara fazer um conto sobre futebol de rua se ele nunca fudeu o joelho num baba no asfalto. As palavras acabam soando artificiais. Isso afeta a qualidade do texto. Mas um autor pode descrever bem uma mãe dando à luz sozinha num quarto escuro, se conheceu de perto e aprendeu alguma coisa sobre medos, dores e angústias das mulheres. Não sei se é questão de aliar o texto ao que vivemos. Mas talvez de usar o que vivemos como recurso. Sobre os que subestimam a autoficção, prefiro subestimar as histórias mal contadas.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – “Sexy Ugly” tem uma narrativa de forte apelo imagético, além de apresentar diálogos muito bem construídos e que prendem a atenção do leitor. São dois elementos constituintes, por exemplo, do cinema. Como é que você percebe essa aproximação?

PAULO BONO – O lance é que até os 20 anos li muito pouco. Minhas primeiras referências vieram do cinema. E antes de pegar em literatura eu já era roteirista de audiovisual. Não sei se isso é bom ou ruim, mas acho que qualquer coisa que eu escreva vai levar certa dose imagética. Apesar de serem linguagens bem diferentes, a depender do gênero, acredito que alguns recursos transitam bem entre a tela e a página. É o caso do universo noir do “Sexy Ugly”. O  noir que levou o Dashiell Hammett pro cinema e equilibrou o Raymond Chandler entre livros e roteiros. Eu queria aquela estética na descrição das cenas, queria aquele ritmo tão específico e queria os diálogos rápidos e cínicos. Os diálogos do Sexy foram minha zona de segurança e meu parque de diversões. Ainda quero um dia ser dialoguista de filmes.

DA – “Sexy Ugly” tem, de fato, uma agilidade narrativa, um modo muito peculiar de contar a história, que muito se aproxima com a instantaneidade da própria vida contemporânea. Nestes tempos de excesso de informações, mídias sociais e tudo o mais, comunicar algo através da literatura é um desafio?

PAULO BONO – Em tempos de radicalismos, dificuldades de interpretação, quando tudo é tudo, e opinião é verdade, eu diria que é um puta desafio. Hoje, por exemplo, é difícil escrever um personagem escroto, machista, mesquinho e com pensamentos assassinos sem aparecer alguém pra achar que aquilo é seu ponto de vista. E se colocam isso nas redes, fudeu, vira a verdade. Tem autor que hoje escreve segurando dicionário, bíblia e constituição. O tempo todo julgando previamente seus personagens para não ser ele o condenado. Acho que o perigo está aí. Quando o autor, para ser aceito e por medo de ser mal interpretado, acaba matando a própria arte. Não deixa de ser também um suicídio. Não sei, é difícil. Ritmo, linguagem, estrutura, construção de personagens. As ferramentas estão aí pra vencer esse desafio. Não vai sair legal algumas vezes. Se a comunicação falha até num “bom dia” de elevador, imagina na literatura. Só não pode desistir.

 

DA – Longe de recursos panfletários, como é que os escritores podem se posicionar diante desse estado de coisas em que vivemos?

PAULO BONO – É complicado dizer como cada um deve se posicionar. Já temos muitos heróis, juízes e vigilantes por aí. Escritor patrulhando escritor é foda. Acho assim, acredita numa bandeira? Vai lá, parceiro. Acha que tal caminho é o melhor pra sua escrita? Jogue duro. Quer escrever tal coisa pra ficar bem na fita? Vale também. Mas faça bem feito, conte uma boa história. Só não venha explanar uma cartilha de posturas. Não venha me dizer que eu deveria colocar uma gravata borboleta no meu texto. Isso complica ainda mais esse estado em que vivemos. Acho que é isso. Fazer o que acredita e deixar o outro em paz.

 

DA – O bom mocismo é um desserviço à Literatura?

PAULO BONO – Para mim desserviço são as regrinhas implícitas, os manuais de bom comportamento da escrita, como se a boa literatura fosse produzida de itens de editais. Não é questão de bom mocismo. Existem milhares de livros sensacionais com histórias transformadoras, personagens grandiosos, mensagens bonitas e temas ligados a causas importantes. Problema é elevar esse bom mocismo ao patamar de pedra fundamental deixando a literatura em segundo plano. Não curto muito esse papo de livro necessário. Necessário é contar bem uma boa história.

 

Foto: Vinicius Xavier

 

DA – Como é que você avalia o papel das editoras independentes na cena literária brasileira atual?

PAULO BONO – Se fosse no futebol, acho que a editora independente seria como um jogador da lateral. Precisa defender lá atrás sua sobrevivência todos os dias e ainda ter fôlego e agilidade pra chegar na linha de fundo e cruzar bem a bola para os autores tentarem marcar um golzinho. Tudo isso jogando contra uma seleção de impostos, altos custos, comissões extorsivas das livrarias, falta de incentivos e um estádio lotado torcendo contra. Porque estamos falando de um país que não lê. Quando você trabalha com uma editora pequena, claro que terá dificuldades em distribuição, por exemplo. Mas autor e editor independente jogam no mesmo time. Se jogarem limpo com diálogo e honestidade, já é uma boa parceria.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

PAULO BONO – Acho que o último dado que saiu foi que brasileiro lê menos que dois livros por ano. Eu conheço muita gente que afirma com certo orgulho que não gosta de ler. Filmes com legenda? Esquece. Por aqui só se lê manchetes, memes e textos de WhatsApp quando convém. E duvide da interpretação correta dos mesmos. Se somos um país de leitores subestimados? Acho que nem leitores somos. Adoraria que alguém argumentasse o contrário e mostrasse que sou apenas um pessimista falando bobagem.

 

DA – Agora estamos vivendo um período nefasto de pandemia mundial, fato talvez imaginável apenas nos livros de ficção. De que modo você observa esse momento que estamos testemunhando? Estamos em xeque sob vários aspectos?

PAULO BONO – Claro que estamos em xeque. Estou no maior cagaço. Tenho conversado com muitos amigos e todos eles também estão com muito medo. Medo do vírus, medo da morte de pessoas queridas, medo do futuro. Ninguém sabe ao certo o que está por vir. Só não acredito que sairemos dessa pessoas melhores. Existe aí uma pandemia paralela de gente egoísta, mesquinha, exploradora, hipócrita, ignorante, oportunista e cheia de ódio que piora tudo. Com ou sem diminuição de curva, essas pessoas não vão mudar. Pra não achar que sou apenas pessimismo, acho que salvar o dia de hoje já ajuda. Leiam um livro, assistam a séries, escrevam, brinquem com seus filhos, façam suas lives, faça um bolo, ligue prum amigo, ouçam música, durmam até mais tarde. É normal despirocar de vez em quando. Mas não adianta muito pensar no futuro agora. É salvar o dia de hoje.

 

DA – Esse presente perturbador tem te desafiado a desenvolver algo específico em relação à literatura?

PAULO BONO – Não costumo escrever sobre algo recente. As coisas ficam muito embaralhadas, uma mistura de impressões. Não consigo focar em nada. Até porque sempre tento trabalhar com o humor, mas agora não está rolando. Tenho escrito algumas coisas nas redes, mas são apenas arrotos do cotidiano dessa loucura. Talvez no futuro apareça alguma história sobre um gordo apaixonado por uma prostituta em meio a uma pandemia mortal. Mas os planos para o futuro estão temporariamente fechados.

 

DA – Afinal, por que escrever?

PAULO BONO – Acho que não tenho um motivo nobre. Não escrevo para transformar as pessoas, contribuir pra uma sociedade melhor, defender causas ou despertar reflexões. Só sei que na primeira vez que consegui escrever um conto, acho que isso tem uns 18 anos, eu me senti muito bem. Estava na pior, sem grana e sem muitas perspectivas. Mas pensar na história, no que dizer e labutar aquilo no computador fazia eu me sentir vivo. Até hoje é assim. Pode estar tudo certo, pagando as contas, todos com saúde, mas se eu não estiver com um projeto ou texto engatilhado ou dialogando com um personagem, fico mal humorado, criando problema em casa e me sentindo a pior das criaturas. Então é isso. Escrevo pra salvar minha cabeça e não ser um pé no saco.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

Categorias
129ª Leva - 01/2019 Gramofone

Gramofone II

Por Emanuel Moreno Pinho

 

GAME OVER RIVERSIDE – EMPTY

 

 

“Game over!” e “End game!” são expressões geralmente usadas em jogos eletrônicos para expressar o fim de uma partida. Em alguns casos, em especial nos jogos mais antigos, também significavam o fim de uma determinada fase e começo de um nível mais difícil e superior. Bom, deixando de lado questões geeks, Game Over também constitui o nome de uma promissora banda baiana de indie rock ou pós-grunge (no entender de alguns), hoje muito conhecida no cenário underground soteropolitano, já na estrada há cerca de quinze anos e buscando cada vez mais subir o nível do seu jogo sonoro.

Apresentando alguns trabalhos interessantes desde meados dos anos 2000, tal como a faixa Sadness Online, oriunda de seu álbum de estreia, e, após um hiato de oito anos, a Game Over Riverside (ou GOR, para os íntimos) parece ter retornado querendo mostrar uma sensível evolução na qualidade de seu trabalho nos dois últimos discos. Neles, é inegável a qualidade criativa, firmada em significativo refinamento na produção dos instrumentais e na composição das letras, além de uma boa finalização acústica (a tal pós-produção), características incomuns considerando que os álbuns foram gestados dentro do cenário underground do rock de Salvador, onde tais aspectos não costumam ser muito ressaltados ou sequer são levados em conta pela grande maioria das produções locais (embora haja algumas exceções, obviamente). Tanto Deep Water (2016, Virgo Estúdios) quanto Empty (2017, André Araújo Estúdio) demonstram intenções ambiciosas na busca por uma significativa evolução musical.

 

Game Over Riverside / Foto: divulgação

 

Por ora, vamos nos deter na análise de Empty, em que se ressalta a uniformidade da sonoridade geral obtida pela banda.

Seja em canções mais lentas como Paper flames ou Me and my band, flagramos a mesma integração fluida e precisa dos riffs de guitarra e a mesma aceleração da bateria, que se percebem na faixa-título Empty ou, ainda, em Roswell. Empty é pós-grunge, traz boas variações nas guitarras e um pequeno solo de baixo arrebatador, que se integra perfeitamente ao vocal bem destacado, assim como a pegada rápida da bateria, dando a base desta música que lembra algo da fase inicial do Smashing Pumpkins. Já Roswell é mais grunge e soturna, com algumas incursões mais profundas e ressonantes a darem um clima mais psicodélico, algo que a própria letra já remete com o tema alienígena e a inspiração na ficção científica, e que, de certo modo, faz lembrar Foo Figthers, a grande banda de David Grohl. A faixa God in a Talk Show é, sem dúvida, a mais rocker de todas, sendo basicamente um hardcore, com seu ritmo acelerado contínuo e até mesmo um coro vocal. É de longe a melhor faixa em que se evidenciam as qualidades sonoras já referidas. Se I Can`t Hardly Wait é a música mais arrastada em termos de ritmo, descobrimos nela um grunge muito bem executado com vocais bem furiosos casados a um belo arranjo de bateria. A balada Me and my band é a faixa mais solar de todo álbum, cuja sonoridade lembra muito mais algo do rock alternativo dos anos 80 do que os elementos grunge ou pós-grunge da banda, porém mantendo a mesma identidade sonora das faixas anteriores e tendo um belo e melódico riff de guitarra como fio condutor. A última faixa, Paper planes, é uma balada no estilo de bandas como Stone Temple Pilots e Pearl Jam, algo que se percebe de cara no ritmo e nos riffs das guitarras.

Em outras palavras, o som, faixa a faixa, parece seguir uma unidade harmônica na qual não se observam grandes dissonâncias ou diferenciações nos encaixes das músicas em relação à intensidade obtida em termos instrumentais e na proposta do álbum como um todo, voltada para os gêneros indie, grunge e pós-grunge.

 

Game Over Riverside / Foto: divulgação

 

Tudo isso é mérito de uma experiência apurada em termos de sensibilidade musical, principalmente se considerarmos a formação com três guitarras que, ainda assim, com toda a sua ênfase, não se sobrepõem aos vocais em nenhum momento. Isso é saber o que exatamente se quer em termos musicais. Em especial, dentro de um gênero que convida a se fazer muito barulho e a ser menos virtuose. É na sutileza destes aspectos que se evidencia a larga experiência dos integrantes da GOR: Sergio Moraes (vocal e guitarra), Leko Miranda (guitarra), JJ Oliveira (guitarra), André Gamalho (baixo) e Leonardo Cima (bateria).

Além do capricho das letras, todas bem amarradas, e da consistência da sonoridade de cada faixa, destaca-se o vocal preciso, junto às intervenções das guitarras com seus belos riffs, que não competem entre si, mas formam uma unidade coesa e que se integra ao bom trabalho da cozinha de baixo e bateria. A única coisa que se pode considerar negativa em Empty é o pequeno número de faixas, mas em torno disso fica a questão: Será o fim do Jogo da GOR ou podemos esperar que ela continue a elevar seu nível?

Para ouvir Empty, clique aqui!

Emanuel Moreno Pinho é formado em Filosofia e Geografia, frequenta a cena roqueira da Salvador desde os anos 90 e tem como uma de suas bandas favoritas a Faith No More.