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112ª Leva - 06/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

O ano, 1998. O espírito que paira na atmosfera de ações traduz-se numa palavra profundamente motivadora: encantamento. Diante disso, há que se reconhecer que projetos de vida, sobretudo aqueles que são ligados à arte e seus amplos matizes, ganham corpo na medida em que se baseiam num genuíno desejo de transformação. Evidenciar os sentimentos humanos é, sem dúvida alguma, um diferencial de qualquer investida artística. Marcado por tal lema, eis que surge, em Salvador, o Grupo Teatro Griô.

Juntamente com sua parceira na vida e na arte, a atriz Tânia Soares, o também ator Rafael Morais demarca os primeiros passos do que é hoje uma das principais companhias de teatro da Bahia, certamente também do Brasil. Originalmente vindos da arte teatral e circense, Rafael e Tânia voltaram suas atenções para a fabulosa ferramenta da oralidade e seus desdobramentos. Abraçando fundamentalmente o viés da narração de histórias, o Grupo Teatro Griô assinala todo um despertar em torno do que seus fundadores preferem chamar de palavra viva, aquela que une, mobiliza e promove mudanças no ser pensante e pulsante.

Sobretudo depois de testemunhar alguns espetáculos do grupo, os quais mostram o quão viva está a nossa memória diante dos caminhos da expressão oral, veio com vigor o desejo de entrevistar Rafael e saber dele que espécie de sustentáculo mantém acesos tais caminhos da arte. Com suas feições de ator, diretor, professor, Mestre em Artes Cênicas (UFBA), ele fala com a propriedade de quem vive o processo criativo cotidianamente, sem negligenciar seus apelos, chamados e também seus abismos.

Na conversa de agora, fica registrado um breve balanço desses 18 anos de atividade do grupo, através do qual Rafael Morais confessa que ali está também a dinâmica real de sua expressão enquanto ser humano. Suas respostas confirmam que o poder transformador da arte, movimento que se opera principalmente de dentro pra fora, é marcado especialmente pela capacidade de materializar os sonhos.

 

Rafael Morais
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O Teatro Griô surge como resposta a alguma necessidade em especial?

RAFAEL MORAIS – O surgimento do Teatro Griô não foi algo planejado. Veio de uma necessidade de falar sobre a nossa própria cultura. Na época, estávamos fazendo um trabalho voltado para o circo, para o teatro popular, e fomos realizar algo na Itália e Inglaterra com alguns pesquisadores teatrais e também da área de palhaço. Naquele momento, eu senti uma vontade de criar uma apresentação que falasse das nossas histórias. Logo que chegamos da Europa, fui fazer algumas oficinas a pedido dos professores da Escola de Teatro, e um deles, o querido e saudoso Carlos Petrovich, me convidou para ir a um terreiro de Candomblé em Salvador, o Ilê Axé Opô Afonjá. Fiquei encantado e, logo depois, o mesmo professor nos chamou para fazer um trabalho numa escola municipal de Salvador como pesquisadores do Núcleo de Estudos do Teatro Popular, o NET-POP, da UFBA. Fomos eu e Tânia como pesquisadores bolsistas do CNPq para fazer um trabalho de valorização da cultura oral, das histórias, dos mitos naquela escola a qual me referi e que fica dentro do terreiro. A partir daí, esse universo da tradição foi nos arrebatando. Isso em 1998. Começamos a desenvolver uma metodologia própria para levar essas histórias para as crianças da escola, os professores e também para o pessoal da comunidade, trazendo uma releitura, um universo de transposição dessas narrativas de tradição oral para a cena. Então, encenamos algumas histórias, fizemos cortejos, tentando realizar algo que não fosse o teatro tradicional. Vimos que o que fazíamos naquele momento em termos de teatro não contemplava aquele universo. À medida que íamos fazendo, criamos um jeito nosso de lidar com essas histórias, valorizando a simplicidade, a sinceridade, o contato direto com o público, o envolvimento das pessoas, tudo como se fosse uma festa, um encontro, uma roda de histórias com as pessoas mais velhas, sem tirar o brilho, o encantamento, buscando algo não artificial, mas sim uma palavra viva, que trouxesse essa cultura viva. Acho que foi um encontro mesmo, pois a gente ouviu aquelas histórias e pensou que tinham tudo a ver com o que estávamos querendo, mas nem sabíamos direito o que desejávamos encontrar. Foi a arte de contar histórias.  Percebi que ela contemplava tudo o que buscávamos, um teatro popular, de encontro direto com as pessoas, que valorizasse nossa própria cultura, envolvesse as pessoas e pudesse ir a diferentes espaços. Queria fazer algo que não fosse restrito apenas ao palco italiano. Ir ao encontro do público, nos barracões, escolas, terreiros, praças.

DA – Qual a importância do viés da matriz africana no trabalho de vocês?

RAFAEL MORAIS – Foi desde o início uma grande inspiração. No entanto, o Teatro Griô não se limita às narrativas de tradição oral africanas ou afro-brasileiras. Trabalhamos com a tradição oral que existe no mundo todo em diferentes povos e culturas. Então, narramos histórias da Península Ibérica, da Rússia, Índia, do Oriente, dos árabes. Com a cultura afro-brasileira não poderia ser diferente, pois estamos na Bahia, onde essas histórias, cantigas e narrativas como um todo são predominantes. Ela tem uma importância muito grande por conta até desse contato com o público. A gente trata de histórias do mundo inteiro e temos diversos espetáculos inspirados em histórias de vários lugares. A matriz africana nos inspirou muito. No teatro, já éramos muito ligados a histórias da mitologia grega, nossa formação ocidental. Sempre gostamos de mitologia, e quando nos encontramos com os mitos dos Orixás, por exemplo, foi um encantamento, uma alegria. Acho que pelo encantamento essas histórias nos pegaram. Conseguimos, a partir dessa cultura afro-brasileira, perceber a junção da palavra cantada, essa ligação entre o sagrado, o mítico e o cotidiano. Aprofundando a pesquisa, fomos compreender que existe um mundo vasto de histórias de matriz africana, não somente dos Orixás, mas histórias como os contos de Ananse, a primeira aranha que existiu e que ensinou a arte de contar histórias aos homens. Tem contos muito mirabolantes, epopeias, uma riqueza muito grande do continente africano. Também temos histórias fascinantes em todos os povos, como é o caso dos árabes. Na verdade, a gente, com a cultura afro-brasileira, conseguiu tocar em narrativas que transcendiam as histórias dos irmãos Grimm, os tradicionais contos de fadas. Perceber essa diversidade foi fantástico. E a cultura afro-brasileira teve esse papel de abrir as portas para nós nesse universo da tradição oral.

DA – Há um viciado costume de se olhar a cultura de matriz africana apenas sob um ponto de vista meramente exótico, como se não houvesse um reflexo possível na realidade. O que você acha dessa redução?

RAFAEL MORAIS – Esse não é nosso olhar para com a cultura afro-brasileira. Não tem nada dessa questão do exótico, do que as pessoas chamam de folclórico, de buscar esses elementos que sejam mais histriônicos. A importância dessa cultura é muito grande, ainda mais aqui na Bahia. Mais do que imaginamos, essa cultura é nosso berço de civilização, de humanização e formação. Acho que isso também está muito relacionado à tradição oral, à questão de uma certa importância maior que se dá à palavra escrita como se a oralidade não fosse algo profundo. Acabamos muitas vezes desvalorizando por uma questão cultural, política, ideológica, dessa coisa de achar que tudo o que vem da África não presta ou que vem de um universo menor. Em nossas pesquisas, percebemos isso o tempo inteiro. E vemos o quão equivocada é essa visão de mundo que coloca a tradição oral, as referências africanas como algo menor. Temos alguns avanços acontecendo, algumas leis, como é o caso da Lei 10639 de 2003, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. Mas as pessoas às vezes não sabem como fazer. Alguns professores não têm a formação adequada, não sabem como trabalhar isso, pois a vida inteira tiveram uma formação que privilegia o eurocêntrico, desprestigiando tudo o que vem da África. Mas sinto que isso está mudando. No Teatro Griô, fugimos esteticamente desse campo do exótico. Inclusive, fazemos questão de não levar para a cena essa visão de mundo, tanto que não representamos, por exemplo, Orixás em cena, ou seja, mudamos muitas vezes as melodias das canções, trazemos um universo que coloca o ser humano e os sentimentos das histórias em evidência. Essa dramaturgia é construída não para reforçar o exótico. Temos, por exemplo, o espetáculo “Histórias de Mãe Beata” que é bem simples, mas que é uma festa de samba de roda que acontece e as pessoas vão contando histórias, mas em nenhum momento representamos os Orixás em cena. Não vamos ao terreiro e copiamos o que existe ali. É uma atitude também de respeito e de aprofundar essas questões. Acho que é um perigo muito grande você tratar um universo tão rico como algo simplesmente exótico. É um desserviço e um desrespeito, até uma ofensa a toda e qualquer cultura tradicional você se apropriar dela e não devolvê-la como se deveria. Buscamos valorizar a vivência, que é tão rica da cultura afro-brasileira, e a palavra viva, os grandes narradores que temos, não apenas os griôs, mas os akpalôs, que significam fazedores de histórias. Essa palavra viva que toca nos sentimentos humanos, de pessoas de qualquer lugar do mundo. Recentemente, apresentamos em São Paulo cinco espetáculos no Festival Internacional de Narradores, o Boca do Céu, e tinha gente do mundo inteiro que ouviu essas histórias da cultura afro-brasileira e se encantou, pois contamos e essas pessoas se emocionaram não porque acharam engraçado e se envolveram. Procuramos burilar os sentimentos e tratar isso como a gente sente e vive. Muita gente olha os africanos com a questão das cantigas, com essa coisa do feitiço das palavras, do sagrado com uma condição de se assustar porque eles (os africanos) transcendem a culpa, vão para o prazer no sentido do corpo que dança, está vivo e ligado à magia. Aqui no Ocidente parecemos ter perdido essa magia, mas ela está em todos os povos. Se você for ver as histórias dos nórdicos, dos orientais, o tempo inteiro esse universo de magia está presente nelas. As histórias afro-brasileiras encantam porque mantêm ainda viva essa sabedoria que está muitas vezes mais generalista do que específica, valorizando a vivência, a experiência, o momento aqui e agora, as cantigas, os poemas, os orikis. É muito lindo esse universo. Não tem como reduzir ao exótico. Tratamos essas histórias da mesma maneira como tratamos as demais. Reinventamos aquilo para a cena. Acredito que precisamos ter da cultura afro-brasileira essas referências. As histórias que o Teatro Griô acaba levando para pessoas de diferentes lugares têm um papel muito importante de ser mais uma referência. É muito bacana percebermos as crianças afrodescendentes assistindo o espetáculo e se reconhecendo nele a partir das histórias e não da forma em si, transcendendo inclusive a cor da pele. É a história que passa adiante, o universo do imaginário. Então, é uma riqueza e um poder muito maior do que a própria imagem que está se vendo ali. Uma importância muito grande nesse sentido de formação e de educação. A narração de histórias afro-brasileiras tem esse componente de ser civilizatória, das pessoas reconhecerem a cultura como algo que fala diretamente a elas, os sentimentos humanos, os heróis e anti-heróis. As histórias aproximam as pessoas, não as excluem. É a busca da gente se reconhecer enquanto ser pensante, que sente e vive nesse mundo. Além de uma importância grande de formação e educação, vem desmistificar e revelar a luz que existe nessas histórias e que às vezes está por baixo de um véu de exotismo e de ridicularização do outro. A arte de narrar histórias consegue desvelar esses sentimentos, essas imagens e trazer para nossa vivência cotidiana de ser humano que vive e pensa. Temos as particularidades da cultura de cada um, que são importantes enquanto reconhecimento das diferenças, mas no fundo somos feitos de sonhos e sentimentos.

Rafael Morais
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal

DA – O que dizer da oralidade enquanto essa verdadeira mantenedora da memória?

RAFAEL MORAIS – Interessante essa pergunta porque a gente poderia imaginar justamente o contrário, que aquilo que não escrevemos o vento leva, como diz um ditado popular, ou seja, não conseguimos registrar. A tradição oral, inclusive, faz nascer a escrita. E a memória é viva, o tempo inteiro a gente está reinventando, revendo tudo. A tradição oral tem muitas funções e estratégias mnemotécnicas de fazer permanecer essa memória a partir das suas transformações. Temos muito material de tradição oral que se manteve vivo além da escrita. Hoje a gente consegue ver que os contos, mitos, estão aí nas coletâneas de recontos, histórias, em material escrito. Muitas vezes isso tem sido uma possibilidade muito bacana para pesquisadores, artistas e para o próprio povo conhecer essas histórias que transcendem os tempos. Ao mesmo tempo, a tradição oral mantém essa palavra viva, que não está ali só cristalizada, mantém a magia. A magia você encontra no conto que está escrito, mas é bem diverso de você poder ouvir uma história de boca para ouvido. Essa dinâmica da tradição oral tem sua própria força porque é flexível, se transforma, vai mudando com os tempos, com o saber que a gente já construiu há muitos séculos. É como se fosse uma espiral nesse movimento de memória e de passagem dessa tradição. A própria arte de narrar histórias sempre foi essa mantenedora, a trama da história sempre foi passada do mais velho para o mais novo por sucessivas gerações. Se a gente atentar, vamos perceber no dia a dia a quantidade de histórias nas vivências de cada pessoa. Estamos o tempo todo transformando isso. A escrita passou a ser mais um instrumento de interação, mas esse mecanismo de memória continua vivo o tempo inteiro no ser humano. Nós todos somos seres épicos, narrativos, além de lúdicos e pensantes. Por que será que permanece vivo o encantamento no mundo de hoje? Por que é que hoje em diversos ambientes que chegamos há o interesse de pessoas de todas as idades com as histórias de tradição oral? É algo inexplicável. Todo mundo reclama que os meninos ficam muito ligados na internet, televisão, nos joguinhos, mas quando eles estão diante de uma história que está sendo contada é como se reacendesse um mistério na memória dessas crianças. Essas crianças são de todas as idades, pois em alguns espetáculos nossos, às vezes, vêm adultos sozinhos. Nosso público é bem heterogêneo e é bem bacana perceber esse jogo de memória que há na gente, essa necessidade de ouvir essas histórias e depois sair espalhando elas por aí. No Brasil, acontece uma coisa muito interessante. A cultura popular está viva nas cantigas, não somente naquelas de infância, mas também nas cantigas de trabalho, nos mutirões, cirandas, diversos ritmos espalhados pelo país. Aqui na Bahia temos as cantigas de roda de tirar versos. É uma maneira de se preservar através da música. É interessante que as histórias de matriz africana, a maioria delas, se mantiveram preservadas na África por conta de cantigas, mas aqui no Brasil perdemos muito isso, ficou mesmo a trama se passando. A cantiga traz um momento de lembrar a trama inteira da história. No Teatro Griô, gostamos muito de misturar a palavra cantada com a falada, a palavra poesia, a palavra lírica.

DA – A contação de histórias pode ser melhor abrigada no seio da educação formal?

RAFAEL MORAIS – Com certeza. E não apenas com objetivo explícito de ensinar, pois a história, a narrativa de tradição oral transcende a informação e educação, vai além, para o universo do encantamento, do tocar as pessoas. Nesse universo onde tudo acontece pleno, você está o tempo todo aprendendo. Esse aprendizado que vem de uma sessão de histórias é difícil de descrever no sentido mais amplo porque é muito profundo. Além de tudo o que está sendo ensinado a partir da narrativa, a história ensina por si só nessa experiência de arte. As escolas muitas vezes estão preocupadas apenas com um depósito de informações para uma resolução prática que é fazer provas, o que acaba sacrificando todo o ser que está ali para aprender. Aprender não somente no sentido de conhecer, mas de ser mesmo. A história vem para esse campo da convivência, do aprender a instigar, a correr riscos, sonhar, a você perceber o universo do imaginário, que é tão rico, e de fazer isso se desenvolver cada vez mais em alunos de toda e qualquer idade. A narração de histórias pode acompanhar todos os momentos de nossa vida, do nascimento até nossa despedida aqui dessa experiência de vida. O tempo inteiro estamos contando histórias. O bom professor conta histórias a todo tempo, mesmo quando não acha. Um tema bem narrado é o papel de todo professor, aquele que consegue revelar o que não está acessível ao outro ser. Os excelentes professores têm esse domínio da narrativa, da comunicação. Muitas vezes a gente vê a arte sendo usada como um simples instrumento de aprendizado das disciplinas. Precisamos mesmo ter momentos de apreciação estética nas escolas, pois senão ficamos colocando a arte a serviço de determinados conteúdos. Nesse momento, temos um ganho em todos os sentidos, cognitivo, afetivo, interpessoal, imaginário. Precisamos descobrir isso com urgência para dar um pouco mais de frescor à educação. A arte de contar histórias vai num ponto crucial da educação, que é o pensamento crítico, a formação desse ser que é capaz de encontrar seus caminhos. A arte de contar histórias não entrega tudo de bandeja, ela convida você a enveredar nesse caminho de descoberta de si mesmo. O bom contador sabe que não está ensinando, está ali aprendendo junto. É nesse encontro entre narrador e ouvinte que acontece essa magia, que é a arte de narrar histórias. É muito bonito você perceber o aprendizado que surge daí. E, claro, não tem nada a ver com as lições de moral, como acontece muitas vezes num sentido de podar a criança. Na arte de contar, a história passa à frente e as pessoas vão conseguindo fazer suas próprias interpretações sem que alguém precise impor algo, dizendo que é isso ou aquilo.  É um momento de liberdade artística, no qual as histórias podem ser aliadas da educação com alegria, encantamento, ludicidade e plenitude. Para mim, o valor está no próprio encontro da narração, momentos das pessoas poderem ouvir e contar histórias sem se preocupar com os mecanismos didáticos.

DA – Uma coisa bastante interessante no trabalho do Teatro Griô é a multiplicidade de atuações, ou seja, não apenas a encenação dos espetáculos é o foco, mas também desdobramentos variados sob o ponto de vista da formação, das rodas de conversa, intercâmbios, sem falar na mescla de elementos presentes, tais como o clown, música, dança. Como é atuar dentro dessa intenção multifacetada?

RAFAEL MORAIS – É um presente para o artista. Uma oportunidade de não separar as possibilidades criativas de expressão. Temos tudo ali ao mesmo tempo. Você está ali contando a história, mas de forma plena, com movimento. No sentido da formação, ela é muito ampla, de elementos do cômico, do palhaço, do teatro de rua. O aprendizado para o artista com relação ao espaço cênico da rua é fantástico. Essa possibilidade de ter esses elementos técnicos da voz, da interação com o público, da disposição do espaço. O Teatro Griô é realmente um presente para nós que o integramos porque é nossa morada artística, digamos assim. É a possibilidade de você conviver com tudo aquilo que acredita. É uma fonte que nunca seca. Parece que o tempo inteiro estamos descobrindo coisas novas, pesquisando. É uma obra muito aberta que vamos construindo no contato com o público. Ao mesmo tempo em que é um presente, é também um desafio você lidar com essa metodologia do Teatro Griô, tanto que vira e mexe a gente faz audição, algumas pessoas ingressam e temos uma maneira própria de trabalhar que acaba unindo esses elementos todos que você falou, mas com muita simplicidade. Fugimos um pouco do que é esse mundo do espetáculo, acabamos entrando num encontro com a arte em diversos lugares e matrizes culturais. Buscamos esse momento de convivência do público com os narradores, as histórias. E, claro, tem todo um aprimoramento técnico com diversos profissionais que acabam contribuindo. É um universo muito amplo, que a gente busca dar unidade e simplicidade. No grupo, uma coisa bacana é que os atores não sabiam tocar um pandeiro e hoje a gente já tem os narradores tocando percussão, rabeca, acordeom. É um trabalho que não para nunca. O tempo inteiro estamos aprendendo, exercitando, pesquisando, aprofundando. É muito instigante fazer parte como artista desse núcleo.  Mas a tradição oral, a palavra viva, é o que dá unidade a todo esse trabalho.

DA – O que dizer da resposta do público nesses diferentes ambientes por onde vocês circulam?

RAFAEL MORAIS – Impressionante. Aqui em Salvador a gente vai para diversos ambientes e às vezes quer atingir um público distante. Por exemplo, fizemos um projeto de teatro de rua na Casa da Música, no Abaeté, em Itapuã, e para nossa alegria veio gente da cidade inteira. Temos percebido que o público tem acompanhado a gente. As pessoas vão percebendo o grupo como uma grande família e criam um certo vínculo com a gente, o que acho bacana. Cria uma intimidade e as pessoas encontram a gente na rua e falam conosco como se fossem amigas. Falam das histórias e de como foram tocadas por elas. E a gente percebe uma sinceridade. Acabamos criando uma maneira diferente de narrar as histórias, que não é teatro convencional, um caminho artístico autoral. Seja em comunidades mais distantes como quilombos, comunidades rurais, ou em grandes centros urbanos, a receptividade é ótima. Em São Paulo, por exemplo, a recepção foi fantástica. As pessoas lotavam as apresentações, os ingressos esgotavam em meia hora, elas se interessavam pelas histórias. Engraçado que tem gente que pergunta se as histórias são reais. Então, o vínculo que criamos com o público acaba sendo de cumplicidade. Acho que é o maior presente que o artista pode ter, saber que as pessoas estão se importando. Em São Paulo, conhecemos na plateia alguns artistas de fora do país, tanto que estamos indo pra Buenos Aires por conta disso. Fomos convidados a apresentar três espetáculos nossos num festival internacional de narração oral porque o público assistiu. É um envolvimento que não é frio. A gente acaba de alguma forma passando para o público um pouco do que vivenciamos em nossas salas de ensaio, essa relação de sinceridade, esse mergulho nos sentimentos humanos. E o público percebe.

O Grupo Teatro Griô - Foto - divulgação
O Grupo Teatro Griô / Foto: divulgação

DA – Salvador é uma cidade que abraça verdadeiramente o teatro?

RAFAEL MORAIS – Pergunta complexa (risos), porque há vários públicos e tipos de teatro. Tudo da Bahia é muito paradoxal mesmo. Você não tem um único jeito, mas sim uma infinidade de possibilidades com relação a essa recepção. O teatro pode ser melhor abraçado. Tem um amigo que diz que se amanhã fecharem todos os teatros de Salvador, ninguém vai sentir falta (risos). É uma piada, mas faz a gente refletir, pois se fecharem, as pessoas não vão protestar. O teatro também é algo muito amplo. A Bahia tem uma tradição de teatro muito grande, não só pela primeira faculdade da América Latina, a Escola de Teatro da UFBA, que possui grandes mestres, mas também pelo histórico de teatro popular que influenciou muita gente. O teatro em Salvador é muito forte. Quando cheguei em Salvador há quase 20 anos, senti que a pulsação de espetáculos era realmente muito maior que agora. Alguma coisa se quebrou nesse mecanismo de atração do público, de constância do público buscando os espetáculos. Porém, quando acontecem determinados espetáculos, o público vem. Então, não é algo estático. Tem a coisa do mercado também, não é só questão do público abraçar e gostar. Aqui em Salvador, ao mesmo tempo em que o público ama teatro, a gente percebe que ele poderia abraçar mais. No entanto, quando acontecem os espetáculos de rua, alguns atingem um público imenso. O que tem acontecido com o Teatro Griô é o fato de encontrarmos pessoas que dizem ser aquela a primeira vez em que foram ao teatro. Acho que estratégias, caminhos e possibilidades podem ser buscados para aproximar as pessoas ao teatro. O teatro na Bahia é muito forte, rico e valorizado. Tem uma vanguarda em pesquisa. O público que vai ama o teatro, mas acho que mais pessoas poderiam ser atingidas. Aqui em Salvador, apesar da imensa afeição das pessoas com espetáculos realizados na rua, não há um teatro de rua pulsante. Interessante esse paradoxo. A gente tem uma demanda, digamos assim, muito grande por teatro de rua, pessoas que lotam os espetáculos quando eles acontecem. Fizemos um espetáculo chamado Circo Teatro na Estrada, que saiu por diversos bairros de Salvador, e em todos eles a recepção era imensa, as pessoas ficavam felizes com o que estava acontecendo, querendo que acontecesse novamente. Com relação a isso, o público abraça mesmo. Você conta nos dedos os grupos que fazem teatro de rua em Salvador, e mesmo assim não fazem com aquela constância porque se acredita que não tem tradição, mas tem sim. O público quer abraçar, mas como vai fazer isso se não tem muitas vezes algo que se aproxima dele?

DA – O que o faz continuar naquilo que você definiu como a arte de sonhar acordado?

RAFAEL MORAIS – Essa pergunta é muito difícil. Eu me pergunto muito isso. No entanto, tenho continuado, tenho seguido em frente porque fazer arte aqui, não só na Bahia, mas no Brasil, não é fácil, pois além das dificuldades do ofício, tem todo um mundo de coisas que precisamos superar a cada momento. Durante muito tempo, pensei que não era algo racional, pois se sabia que era essa dureza por que continuava? Tenho continuado e, quando olho para trás, percebo que realmente é meu caminho. Não dá pra explicar muito. Hoje consigo compreender esse desejo de seguir em frente, que ultrapassa o medo, pois a cada projeto novo há um risco muito grande. Hoje se fala muito em crise, mas para quem faz arte é pior ainda, pois a gente vive daquilo que tece, do trabalho cotidiano, dos espetáculos, do processo criativo que por si só já é algo efêmero. Aí, a gente seguindo adiante com isso é muita coragem. Agora, não me vejo fazendo outra coisa. Claro que surgem propostas de seguir por outros caminhos, longe da arte, o que muitas vezes poderia trazer uma segurança no sentido material. Mas acho que é a arte que me mantém vivo, pois abraço um caminho de crescimento e vida, um ofício. É meu lugar no mundo, minha maneira de continuar seguindo em frente, sonhando. O meu trabalho se confunde com meu sonho. Acho que isso é muito profundo. É ao mesmo tempo o meu devaneio no sentido do processo criativo e de tudo o que implica você fazer arte, de mergulhar nos abismos desse processo que não é fácil para ninguém, ainda mais nesse tempo que estamos vivendo. Um outro nome que se dá ao pessoal que segue esse ofício das histórias é Gente das Maravilhas, pois se encantam com a simplicidade e grandeza da vida, com o encontro. Quando entra num processo criativo, nem imagina descobrir coisas que nem sabia que existiam em você. Isso quando experimenta de verdade o processo criativo, pois tem muita gente que executa determinadas funções ditas artísticas, mas não vive ele. Você não consegue largar. Estou aqui hoje pensando em novos projetos, novos caminhos. É também a ideia da missão. Sinto isso muito forte. Tenho vontade de continuar fazendo teatro, mas ao mesmo tempo é maior do que tudo isso, pois arrebata, chama e você não tem saída. E também você acaba se comprometendo. Eu mesmo tenho compromisso com esse grupo, que hoje tem vários artistas que sobrevivem junto com a gente, alguns com outros empregos. Então, você acaba entrelaçando sua missão com as de outros parceiros cúmplices. Eu e Tânia, que fundamos o Teatro Griô, temos uma responsabilidade muito grande. Minha filha também, que desde pequenininha está envolvida no universo artístico do teatro. A gente virou uma grande família que faz isso, meio que vive e respira o tempo inteiro isso com grande responsabilidade, mas também com muita alegria. As dificuldades não são a tônica, pois a gente supera todas elas e vem um ganho imenso que não sabemos dizer o que é.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. 

 

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110ª Leva - 04/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A voz que não cala diante dos impropérios do mundo também pode ser a mesma que silencia para efeito de necessárias contemplações. Ao poeta, cabe a delicada tarefa de equilibrar imperativos da razão com os apelos do sentimento. Está em jogo a necessidade de que ele se posicione diante do meio que o circunda, fomentando a ideia de que é um ser não dissociado dos fatores notadamente históricos, sociais e políticos.

Quando vemos desfilar ante nossos olhos a trajetória de um autor como Alex Simões, percebemos que estar no mundo não é um ato acidental. Há que se vislumbrar a consciência de dois polos de pretensão: o observar e o agir. Para Alex, observar é olhar detidamente para um tudo que nos abraça mesmo involuntariamente. Num outro eixo, agir é estar consciente de que a arte é ferramenta de mobilização ativa no que tange à construção de uma sociedade sob as suas mais variadas vertentes.

Artífice da palavra, Alex privilegia a forma como mola propulsora da criação para depois demarcar os territórios do conteúdo. O que resulta dessa conjugação é uma obra cujos domínios posicionam seu criador como um dos mais vigorosos representantes da moderna poesia brasileira.

De fato, o poeta a quem entrevistamos agora sabe o que dizer. Seus versos configuram uma representação de que estar no mundo é também uma questão fundamental de defender pontos de vista. E não esperemos dele o esteta que se deslumbra com os elementos plásticos e superficiais de seu ofício, aquele bem distanciado do público em geral, como se habitasse um olimpo da criação. Pelo contrário, a afirmação de uma identidade enquanto sujeito pensante, crítico e lúcido torna suas vias literárias notadamente mundanas, sobretudo porque tem a consciência de sua voz, seu corpo e seu tempo.

Nascido em Salvador, Bahia, Alex Simões é pungentemente poeta e performer. Especialmente, a fusão entre essas duas frentes de atuação desemboca nas assim chamadas poerformances. Nelas, o poeta expõe, pelos trajetos da mente e do corpo, o seu valioso desejo de aproximação com seus semelhantes, quebrando paradigmas, dessacralizando a poesia e tornando-a um instrumento de partilha social. São de sua autoria os livros “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). É também professor e tradutor e, desde os anos 90, integrou várias revistas e antologias literárias dentro e fora do Brasil.

Ainda sob o efeito do seu mais recente livro, “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo – 2015), Alex dialoga conosco sobre uma vasta gama de temas. Uma conversa que perpassa também a sua construção social e política enquanto sujeito que recusa um ideal de poesia que não seja reflexo do mundo no qual vive. Nesse ínterim, há o testemunho do autor diante dos aspectos que atravessam marcantemente sua obra, mas irrompe sobremaneira o olhar de um alguém devotado às questões que o tornam demasiadamente humano.

 

Alex por Ricardo Prado
Alex Simões / Foto: Ricardo Prado

 

DA – Na leitura do seu mais recente livro de poemas, chama atenção a harmonia marcante entre aspectos formais e de conteúdo, uma característica sua. E não há facilidades nesse seu caminho em direção ao leitor, tampouco conduções herméticas. O que dizer desse rumo?

ALEX SIMÕES – De fato, é uma característica. Eu parto fundamentalmente da forma, e é meio complicado dizer isso, mas parto dela. Esteticamente, penso em termos de poesia. Em projetos estéticos em geral, penso a partir de formas. Escrevo coisas muito diferentes de sonetos. Versos livres, haicais, baladas, enfim. Mas eu geralmente penso na forma que vou usar. Essa adequação entre forma e conteúdo é mais do que uma adequação. Existe uma organicidade que foi conquistada. E fico muito lisonjeado quando isso é reconhecido porque, às vezes, quando falam de mim, ressaltam muito essa condição de ser expertise, de ser um bom formalista, mas na verdade não é o que me interessa. É importante, sim, o domínio da linguagem, mas me interessa mesmo é dizer coisas. Eu procuro pensar de modo muito simultâneo, ou seja, que há formas adequadas de dizer certas coisas. Esse livro mais recente é um livro que tem 23 anos de história e você vai encontrar sonetos que dizem coisas lindas, mas que são mais formais, e que havia uma maior facilidade em direção ao leitor, além de trabalhos mais recentes, nos quais eu trago tanto um rigor no sentido de pesquisar e trazer a minha língua cotidiana para essa forma fixa, tradicional, ao mesmo tempo em que há esse respeito ao leitor. Quando você cria, surge um público e você gera uma relação de intimidade com a forma e a linguagem. Essa harmonia que você definiu é reflexo disso, duma relação que é muito antiga com a poesia e que se reflete em diversas formas e relações. A mais antiga e consistente é o soneto, mas também tenho esse outro lado de experimentar e, quando estou muito confortável, buscar outras maneiras de quebrar essa minha intimidade, de criar disrupturas. Não me constituir um poeta de linguagem hermética, ao mesmo tempo em que não facilito, é um equilíbrio que está muito na preocupação em trazer a língua do cotidiano, a mais próxima possível dele. Eu observava que no começo tinha um acento muito lusitano, notando que escrevia de uma forma distinta da minha fala. Passou a ser também uma preocupação, ao mesmo tempo em que venho trazendo temas e questões as quais criam uma tensão nessa busca por uma linguagem mais simples. E, às vezes, certas questões não podem ser ditas com total simplicidade. Acho que essa tensão também é produtiva por isso.

DA – Essa questão toda faz pensar sobre uma certa obsessão que alguns têm em dizer que a elaboração do poema é uma mera construção matemática, uma disposição de arranjos. Ao poeta, há que se deixar transbordar o sentimento?

ALEX SIMÕES – Essa discussão é antiga e, digamos, eu tendo mais para o lado cabralino, nessa coisa entre poeta possesso e poeta cerebral (nunca lembro ao certo quais categorias são mencionadas por João Cabral de Melo Neto). Eu já escrevi do jeito “vou fazer uma coisa movido”, mas no meu caso chegou um momento em que isso parou de funcionar. Geralmente, penso, fico maturando muito o que vou fazer. E tenho, sim, esse lado matemático, e não sei se serve pra mim, pois sou péssimo em matemática (risos). Há uma certa obsessão em ter algum controle sobre o processo e ficar maturando. Por exemplo, eu tenho uma encomenda, que é entregar uns poemas para uma revista, e não quero pegar coisas já prontas. E fico pensando muito em como vai ser. O sentimento está aí. Eu sou uma pessoa controlada por ele. Isso me governa. O sentimento tanto vai atravessar isso, porque ele antecede o planejamento, ele me constitui como pessoa, e também porque é uma construção. Essa capacidade de construir sentimentos através da linguagem é um processo de exercício. Exercitamos a capacidade de dizer coisas. Vou dar um exemplo concreto e relativamente recente. Participei de um processo de seleção, no qual mandei um projeto de poemas, e tirei uma nota muito baixa na minha avaliação pessoal. Foi algo abaixo da média. Foi um poema que escrevi muito puto, chamado “Balada de um poeta ruim para si mesmo”, e ali tem muito de uma frustração, uma chateação, irritação, mas é usando terça rima, fazendo referências a Dante, pensando num mote em que eu desenvolvo, e vou falando nisso ao longo do poema, e que está em “O Demônio da Teoria”, de Antoine Compagnon. Meu sentimento transborda também aí. Também tenho uma formação acadêmica e erudita, algum conhecimento legitimado que me atravessa, e meu sentimento vai através desse repertório. Não concordo com a ideia de que há que se controlar o poeta. A poesia é permeada por sentimentos, sim, mas em matéria de estética e ciência a gente não pode nunca dizer “tem de ser assim”. Tem de se ter liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive abrir mão desse negócio de sentimento. No meu caso, não preciso ter controle de tudo. Já sou essa pessoa transbordada na minha vida pessoal. Então, nas minhas produções, eu tenho minimamente que pensar e planejar, senão é muito caos.

DA – Você acolhe o termo contrassonetos também como uma consciência da sua capacidade de transgressão enquanto criador?

ALEX SIMÕES – Totalmente. Eu conto essa história no livro. Esse termo já existia antes do escritor Ronald Augusto usar. Ele falando do meu livro “Quarenta e Uns Sonetos Catados”, que originou o “Contrassonetos: catados & via vândala”, no qual diz que não gosta de sonetos, mas o que aprecia no meu livro está no fato de serem contrassonetos, por eu não encarnar a persona de sonetista. E tem muitos sentidos aí. Eu me assumo como transgressor em termos políticos, identitários. Faz parte da minha vida. Sou contra- hegemônico, negro, homossexual, e essas questões aparecem inevitavelmente no que eu falo, nas minhas posições, na minha poesia e formalmente. Ao contrário do que pode parecer, esse exercício de dominar a língua do colonizador, usando as formas tradicionais, hegemônicas, não é um fim em si, mas um meio de dizer coisas, e dizer para públicos outros, que não são os meus pares apenas. Também para minar essa língua por dentro, essa forma por dentro. O que me interessa é dizer “eu sei fazer um soneto bonitinho, mas isso não é o mais importante”. Eu sou poeta. Assim como digo que sou negro e gay, sou poeta. Poeta que pode fazer um soneto, um haicai. Contrassoneto é nesse sentido de transgressão no qual está tudo misturado: ética, estética, política. Eu uso uma forma tradicional, mas não para conservá-la ou dizer assim “gente, com licença, sei fazer”. Foi em um certo momento, não é mais.

DA – As questões de identidade povoam cada vez mais a literatura. Na medida em que se apoiam em atitudes de afirmação política, ideológica, dentre outras, esses posicionamentos são algo fundamentais?

ALEX SIMÕES – São fundamentais e sempre existiram. Quando se há um silenciamento, e isso é comprovado inclusive através de estudos quantitativos nos quais se fazem levantamentos da etnia, da orientação sexual, do que são personagens literários e as referências da literatura brasileira, quando não se menciona certos lugares, a gente está falando de um lugar branco, heterossexual, masculino, de classe média pra cima. Então, nesse sentido não há uma novidade. O que existe em termos de novidade é que à medida que essas discussões, não só no Brasil, mas internacionalmente, dos anos 60 pra cá vêm ganhando corpo, naturalmente isso vem aparecendo mais e são fundamentais desde que não sejam exclusivas, que não virem uma camisa de força. Quando eu digo e repito que sou negro e poeta, não esperem de mim nenhuma performance ou atitude dentro, encarcerada nessas identidades. Temos identidades e identificações. Qualquer estereótipo, qualquer prisão eu recuso e, nesse sentido, cabe meu aspecto transgressor de quebrar expectativas.  Há situações nas quais é fundamental a gente se posicionar politicamente pra que não nos tomem como homem branco, heterossexual. É importante mapearmos isso porque falar por falar sem ter um domínio de um repertório, sem ter interlocutores dentro de uma linguagem, sem ler outros poetas e não só os poetas que me interessam, sem possuir o mínimo de conhecimento da linguagem em que estou me metendo, vai virar panfleto puro, e isso não tem valor. Se é para dizer às pessoas apenas que sou negro e gay, é melhor eu escrever um panfleto, e não um poema. Mas poder ter alguma relevância dentro de uma cena, um discurso, e poder falar de um lugar de opressão, denunciar que há um genocídio contra a população negra, homossexual, transexual, LGBT, isso é importante. Na medida em que eu puder dizer que existe um investimento violento contra segmentos minoritários, vou dizer. Eu sou uma exceção à regra. Duas vezes. Mas sempre nessa medida de que, enquanto poeta, eu tenho a liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive de não querer falar sobre isso. Não considero que seja covarde o poeta ser negro e não querer falar sobre isso. Ele tem que ter liberdade. A poeta ou a escritora que seja mulher e não queira discutir isso em sua literatura. Não se pode abrir mão dessa liberdade. Não se pode usar camisa de força nem ser considerada literatura menor aquela que é produzida por um poeta que discute isso, inclusive na sua poesia e nos eventos em que participa.

Alex por Laura Castro
Alex Simões / Foto: Laura Castro

DA – Na transição entre o mundo fragmentado em que vivemos e o papel, de algum modo sua apreensão das coisas é marcada pelo caos?

ALEX SIMÕES – De todos os modos, o que eu produzo é marcado pelo caos, inclusive nessa necessidade de tentar controlar minimamente esse caos que me constitui. Eu sou nietzschiano. Entendo que o caos, a disrupção e a violência são constitutivos da humanidade, da história. São aspectos que nos constituem, e há um esforço histórico em apagar essas questões que são nossas e que não são necessariamente ruins. Tem duas coisas na sua pergunta que me chamam atenção e que talvez precise demarcar em algum momento. É quando você fala em trazer para o papel. Sou um poeta que também vai para o papel, mas que também, cada vez mais, está buscando formas e suportes que são, a princípio, não tradicionais para a poesia. Esse caos é minimamente controlado na unidade livro. Quando a gente pensa em livro, sumariza, topicaliza, dá uma sequência, reflete em termos de gênero. Eu escrevo poesia e isso tem uma repercussão até na forma como a mancha escrita se impõe no texto. É diferente da prosa. Tem um caos que é constituinte, mas que é minimamente organizável quando se escreve dentro dele. A outra questão com o caos é a que passa por outras linguagens, como eu disse antes, e que passa também por um evento chamado Dominicaos, idealizado por Orlando Pinho e Heitor Dantas, e que eu ajudo a desorganizar. Orlando, que é poeta, diz que o caos opera. Eu assumo esse caos e acho que ele é importante, pois é o caos criativo que possibilita as coisas acontecerem com um mínimo de controle para que justifique o fato de eu assinar as coisas que publico, performo e realizo esteticamente. É essa minha capacidade de lidar organicamente e disciplinadamente (risos) com esse caos que justifica minha assinatura. A gente vai aprendendo a conviver com esse caos. Estou falando como artista, mas isso é a vida, pois ela é caótica. Tenho, como qualquer pessoa com 43 anos de idade, tido experiências com o acaso. Vivemos um momento político caótico, tive mortes de familiares. E assim vem o caos e tomamos a consciência de que nós somos desgovernados por excelência. Somos ocidentalmente condicionados à ideia de que a vida tem uma sequência, que as coisas estão minimamente organizadas. É só uma intenção.

DA – Uma outra linha de expressão sua está nas performances poéticas. Que papel elas assumem, sobretudo na sua relação com o externo?  

ALEX SIMÕES – Digamos que de quatro anos pra cá isso tem aparecido cada vez mais. O que eu chamo disso é o cruzamento com outras linguagens, inclusive a performance, não só ela. Costumo chamar de poerformance por covardia, por não me assumir como performer, pois está num entrelugar entre performance e poesia, além do que convivo o tempo inteiro com performers, com o pessoal da dança, do teatro, das artes visuais. Meu cotidiano está muito permeado pela convivência com pessoas de linguagens diversas. Sempre tive um pouco de vergonha de me assumir como performer. Tem uma relação, claro, com o externo, mas tem um movimento que é muito relacionado com alguns eventos que eu frequento. Falei do Dominicaos, que não só frequento como também integro o núcleo de produção. Tem também o Sarau Bem Black, Pós-Lida, enfim, uma série de eventos aqui em Salvador que frequento e comecei a falar poesia. Esses três que cito são lugares em que eu via uma vibração com relação à poesia, com a performance, com o modo de falar, que tem muito a ver com o cruzamento de linguagens, caso do Pós-Lida e do Dominicaos, algo que apresenta um olhar mais arejado e contemporâneo da poesia. No caso do Sarau Bem Black, também contemporâneo e ligado a essas questões identitárias que falamos, é um movimento mais internacional, que é do Slam Poetry.  Sempre me incomodou muito um certo desinteresse, aquele modo poesia declamatória, como o Wally Salomão gosta de falar ironicamente. A poesia declamatória não desperta, não consigo mais ver uma poesia mais ou menos gritada.  É parte de minha pesquisa ver o trabalho dos performers e me sentir afetado, e ter a necessidade de trazer isso para o corpo. Existiam questões que eu via que não eram resolvidas apenas na poesia e, durante muito tempo, eu sofri muito com isso porque demorei muito a me assumir como poeta e artista. Também não entendia direito como era isso de querer fazer coisas diferentes ao mesmo tempo, pois a gente ainda tem uma formação disciplinar de ver isso como um problema. Com o tempo e convivendo com certos artistas, linguagens e olhares, fui percebendo que isso não é um problema necessariamente. A performance é um modo de se relacionar com o externo. No meu caso, estou muito interessado no cruzamento entre poesia e música. Isso não é invenção minha nem desse tempo, é uma relação milenar, mas que tem ganhado força. Faço performances em que cruzo música popular massiva com poesia canônica, cruzo artes visuais com poesia. Tudo isso tem muito a ver como minhas referências. Tem uma série de pessoas, algumas vivas, outras não, que foram impactantes na minha formação. Para falar de um autor vivo e que está muito nessa pegada e próximo de mim é Ricardo Aleixo. Também Joan Brossa, poeta catalão que morreu na virada dos anos 2000, e alguns artistas visuais. Zé Mário, um performer daqui e que hoje está em Brasília, foi extremamente importante nessa minha formação. No Pós-Lida, tem o James Martins, que possui um modo de dizer poesia que me interessa. Karina Rabinowitz, que tem essa coisa do cruzamento de linguagens. Daqui da Bahia ainda tem Laura Castro. Para completar as referências, tem Daniela Galdino, que é de Itabuna, Morgana Poiesis, de Vitória da Conquista, que são pessoas da performance. Ainda nessa relação com o externo, nesses eventos que tenho participado, dando oficina, sobretudo, tenho tido oportunidade de ver que é um privilégio lidar com o público, que não são públicos típicos de literatura, pois não são de eventos estritamente literários, não são da minha faixa etária. Vejo com muita alegria quando esse esforço de fazer o cruzamento de linguagens e de trazer a poesia para o corpo da gente chega de forma impactante, viva, principalmente em relação a um público que não é típico de literatura. E cada vez mais me interessa estar com esse público porque aí também tem uma questão política de formação. A gente lida com um público muito restrito e tendemos (nós da literatura) a correr o risco de acreditar que não precisamos fazer esse esforço de formação, de chegar junto, de criar estratégias para difundir o que fazemos. Eu estou cada vez mais em outra proposta. O que faço não é só poesia, mas acredito que minha poesia ganhou muito. É uma relação de troca porque é poesia viva. Internacionalmente, é o que o Slam Poetry tem feito e que reverbera nos saraus de periferia. O que tenho feito é muito afetado por essa vibração. Sempre ficava me questionando o que é que o músico popular tem que faz a gente vibrar. A maioria dos poetas não tem. E eu não estou dizendo que eu tenha. O Slam Poetry consegue, os saraus de periferia também. Para ficar nos daqui de Salvador, você vê o Sarau da Onça, no qual percebe as pessoas vidradas no que os artistas dizem. Sempre fiquei numa bronca porque sou super fã de shows de transformistas e pensava como é que a gente faz para em poesia fazer as pessoas ficarem vidradas também. Hilda Hilst deixa as pessoas pulsando, Drummond também. A performance tem sido um lugar onde isso tem se tornado possível.

Alex Simões na performance A Capella de Waly - Foto - Daniel Guerra M
Alex Simões na performance “A Capella de Waly” / Foto: Daniel Guerra

DA – Aproveitando um dos seus arremates, é preciso dessacralizar tanto o poeta quanto a poesia?

ALEX SIMÕES – É fundamental. Temos algumas heranças lindas. Sou um devoto da tradição. Um transgressor disciplinado. Não jogo tudo que está na tradição fora. Mas a gente tem umas heranças complicadas do Arcadismo, do Romantismo, do Neoclassicismo e da poesia moderna também. Uma delas é essa ideia do poeta da Torre de Marfim e do poeta hermético. Isso tem feito muito mal para a poesia porque a gente ficou num lugar solitário, de pouca penetração. Isso se reflete em muitas situações. Eu estava num evento importantíssimo discutindo esse momento político horroroso que estamos vivendo, debatendo a destruição do MinC, essa falsa reintegração desse ministério. E durante duas horas e meia que eu estava lá, praticamente não vi referências de literatura e poesia. Isso não é culpa das pessoas que estão lá. Também não é apenas culpa dos profissionais da palavra do Brasil de hoje. Tem muito a ver com essa perda de penetração que o poeta tem nas massas. O último grande poeta das massas que a gente teve foi Maiakovski, durante a Revolução Russa. No século vinte, a gente perdeu esse lugar. A poesia moderna criou um lugar de hermetismo. Acho que esse lugar foi ocupado. Os músicos populares, e alguns deles são poetas de fato, exercem essa função, mas é preciso dessacralizar, e tem gente fazendo isso. Vou dar um exemplo de dessacralização: os poetas em geral da geração Mimeógrafo têm feito isso. Tem um vivo que continua fazendo isso, o Ricardo Chacal. Dessacralizar, inclusive, em termos de linguagem, de uma preocupação em falar para os que não são seus pares, para os que não apenas estão interessados no exercício de ler poesia, mas também na demonstração daqueles que querem que isso chegue junto deles. Ricardo Chacal tem um livro, “Murundum”, que ele diz que escreveu para estudantes de ensino médio de escola pública. Ali ele se dessacraliza. É importante porque a gente precisa falar de um lugar mais terreno. Poetas e pessoas de literatura. E eu faço essa distinção a la Ezra Pound. É fundamental a gente que faz literatura e poesia no Brasil entender que esse lugar sagrado que alguns de nós falamos é um tiro no pé. Estamos falando para ninguém. Precisamos dessacralizar até pra poder chegarmos nas pessoas. É importante para a sociedade que o que esteja sendo produzido de poesia contemporânea chegue junto das pessoas. Vou dar mais um exemplo que tem a ver com performance. Mais recentemente, eu estava na ocupação do Minc, fiz uma performance, que é  “A Capella de Waly”, e ouvi um depoimento de uma jovem que disse que teve uma oportunidade rara de olhar no olho de um poeta. É uma performance que não digo nada meu, falo coisas de Waly Salomão durante trinta minutos, digo poemas e canto canções com letras dele. Acho que isso diz muito, esse depoimento dela. Ela pôde olhar no olho de um poeta. É um lugar que também me coloco, de olhar no olho das pessoas, de não falar do alto para baixo. Estou trocando coisas e esse é um exercício de dessacralizar esse lugar. Há uma tendência, muito marcada por essas tradições, em falar poesia ainda muito de cima para baixo. Tem gente muito legal fazendo. Por exemplo, Angélica Freitas quando faz um útero do tamanho de um punho, e que pega poemas que são googlados, desmascara o machismo que está presente no inconsciente coletivo e que se reproduz nas nossas formas discursivas contemporâneas, está dessacralizando esse lugar do poeta. Baudelaire falou, há cem anos, sobre a perda da aura do poeta. Infelizmente, parece que alguns e algumas colegas ainda não entenderam que acabou. Nossa aura caiu num lodaçal. Tá na lama e a gente precisa assumir. Nossa única possibilidade de existência, penetração e relevância é assumir a sujeira do cotidiano, do contemporâneo.

DA – Com que olhos o Alex educador vislumbra a formação de leitores?

ALEX SIMÕES – Com olhos de lince (risos). Eu, além de dar aula em instituição formal, faculdade, sempre estou preocupado com essa questão de formação. Acho que isso é muito importante porque dá uma consciência de realidade, uma noção mais pé no chão de como temos poucos leitores porque estou nesse outro front, o da sala de aula. Tenho cada vez mais dado oficina de poesia, que pra mim tem sido uma alegria. Gostaria muito de dar mais e estar menos em sala de aula formal, pois eu me sinto, inclusive, mais efetivo. Essa minha preocupação com a formação de leitores está cada vez mais voltada em criar pontes. Falando de performance, é entender que esse leitor contemporâneo, foi formado e tem menos de 30 anos, com raríssimas exceções, vai se sentir mais conclamado a conhecer a poesia através de outras linguagens. Tenho 43 anos e tive o privilégio de chegar à poesia, sobretudo pela música. Sou de uma geração que via na rede Globo Vinícius de Moraes sendo interpretado em programas especiais para crianças. Ainda tem gente muito massa fazendo isso. Adriana Calcanhoto, por exemplo. Essa ponte é fundamental para formar, e não apenas crianças, claro. Esse meu olhar de educador está muito interessado em buscar pontes não só entre linguagens, mas pontes que vislumbrem pertinências entre as origens das pessoas, pois empurrar qualquer tipo de poesia para qualquer público é estéril. Você tem que entender que há lugares. Daí, a gente volta para aquela questão das expressões identitárias, ou seja, você falar para um público que é majoritariamente negro, adolescente, sem trazer essas questões, e empurrar Baudelaire ou um cânone europeu ou estaduninense goela abaixo, é um olhar não formativo. Falo também de quem fez graduação em Letras e teve muita dificuldade porque passou por alguns professores que não tiveram esse cuidado. Felizmente, tive essa boa experiência de formação de leitura, mas vi muita gente se perder no caminho por conta de educadores que não tiveram esse olhar de entender que a formação de leitor passa pela história da pessoa, seu contexto social. Você tem que criar iscas. Existe um caminho longo a se percorrer. Se não me engano, 8% da população brasileira é proficiente em leitura. Isso é grave. Quando junto música com poesia, estou muito interessado em fisgar o público, fazê-lo se interessar pela leitura.

Alex por Eric Jenkins-Sahlin
Alex Simões / Foto: Eric Jenkins-Sahlin

DA – O que é o seu país hoje?

ALEX SIMÕES – É a pergunta mais difícil e a que menos vou ter certeza. Primeiro, porque preciso dizer que qualquer noção de país e nação é uma noção precária, problemática, pois implica muitos silenciamentos, muitos apagamentos para que exista um país, uma nação, uma bandeira. Mas o Brasil em que a gente vive é um país que passa por um momento muito delicado. Estamos sofrendo um golpe numa democracia que nunca foi muito amadurecida, num contexto político em que a gente ainda não tem maturidade política para discutir, para se colocar e se posicionar, mas que está sofrendo um golpe. A despeito dessa polarização que é construída, que não é inocente nem ingênua, é muito triste ver o silêncio de algumas pessoas. Eu até acredito que, durante certo tempo, algumas delas foram movidas por boa intenção e contra a corrupção, que é constitutiva de qualquer governo (e não estou justificando nenhuma corrupção). Temos provas muito contundentes de que estamos num momento delicado e que se trata, indiscutivelmente, de um golpe. Uma perseguição a uma pessoa, uma estadista, que é travestida de machismo e misoginia. Temos muitos avanços importantes que foram conquistados e que estão sendo ameaçados. Isso me afeta diretamente. Meu corpo, minha história estão sendo ameaçados. Estou num lugar de contestação a isso tudo. Ao mesmo tempo, é um momento de reflexão, de possibilidade, de reversão dessa falta de articulação nossa. Quando falo nossa, trato desses segmentos minoritários, da esquerda (sou uma pessoa de esquerda). Mas não tenho certezas. Acho que é muito importante dizer que não dá pra ter certezas. Sou uma pessoa extremamente politizada, durante toda a minha vida, venho de movimento estudantil e nunca deixei de fazer política. Não tenho certezas. São contingências, circunstâncias nas quais a gente precisa se posicionar. Eu consigo dormir porque estou me posicionando contra um golpe que está acontecendo. O país que vivo é um país que está sendo golpeado por uma corja. E temos um não governo com sete ministros investigados por uma operação que é a mesma que falsamente teria sido motivo para tirarmos uma presidenta. Por outro lado, temos que reconhecer, há erros no governo que foi deposto. Na minha avaliação, erros por não ter se assumido como um governo de esquerda, que radicalmente deveria extirpar ou diminuir ao máximo possível as diferenças, a desigualdade social. Eu vivo num país em que vejo todos os dias na minha rua, em todos os cantos, as pessoas comendo lixo. Morro de vergonha disso. Isso é lamentável. É um país que mata um jovem entre 15 e 25 anos, negro, a cada dois dias. É um país que espanca e comete violência contra a mulher a cada 15 minutos provavelmente. País que estupra, que mata mais de mil mulheres por aborto porque é criminalizado hipocritamente. É o país que mais mata homossexuais e transexuais no mundo. E é o país que eu vivo e amo com todas essas contradições. Mas é um país do qual não tenho muitas certezas. Realmente, é a pergunta mais difícil.

DA – Diante de tantas coisas que nos oprimem, você acha que a arte é um instrumento de libertação?

ALEX SIMÕES – Sim. A arte é um instrumento de libertação, de esclarecimento. Desconfio que se não fosse um artista, não fosse poeta, provavelmente seria um terrorista (risos). A arte pelo menos tem essa função no mundo. Ela evitou um terrorista. Faço guerrilha com a arte. Defendo pacificamente a revolução através da linguagem. Acredito que a arte possibilita nossa transformação. Ela mudou minha vida. Tenho afeto pelo mundo, acredito na possibilidade de transformá-lo. A revolução passa pela estética, por um olhar estético sobre o mundo. A arte liberta porque educa, transforma, cria possibilidades de novos mundos. Ela, com certeza, me livrou de ser um terrorista. Eu poderia estar fazendo coisas terríveis se não fosse a possibilidade de dizer coisas com meu corpo, com meu texto, através da poesia.  Ela me faz ficar nesse mundo e criando essas possibilidades de dizer coisas que não são utópicas porque se concretizam através de palavras e formas.

DA – É possível escrever sem morrer um pouco a cada dia?

ALEX SIMÕES – É impossível viver sem morrer um pouco a cada dia (risos). Sartre ou Kierkegaard, acho, falava que o sentido da vida é a morte, que morremos a cada dia, enfim. Viver antecede, é uma questão maior do que escrever. A gente escreve porque vive, mas talvez quando a gente escreve todo dia, e felizmente é meu caso, criamos a ilusão de dar sentido para essa vida, pois ela não tem sentido. Escrever todo dia é fazer a vida mais possível, mais pulsante. É um modo de enfrentar, pois a morte é inevitável, vai circundando a gente. A escrita, para mim, tem sido cada vez um modo de enfrentar a morte. Não só a minha, mas a morte que está cada vez mais ao meu redor. Tenho cada vez mais pensado nisso. Já vou fazer 43 anos e fico pensando não só na minha, mas no fato de que cada vez mais as pessoas ao meu redor estão ficando mais velhas, adoecendo e morrendo por motivos diversos. Então, escrever é também um modo de enfrentar isso, me deixa mais forte.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.  

 

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109ª Leva - 03/2016 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Tom Correia

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

Benguela

 

Quando se está preso a um futuro morto perde-se o senso
É impossível anotar com exatidão a passagem do tempo:
Os séculos que conduzem ao exílio sem salvação
Ao desterro compulsório que aniquila
Se há um despertar dos escombros
Não se pode mais compensar as milhões de horas escoadas
Os milhares de dias melancólicos
Febre por respirar coisa morta
Comida arremessada do céu sobre um tronco que navega
Intestinos que se esvaem
Lamentos da costa cada vez mais distante,
Peças desencaixadas para sempre da pangeia original
Corrente subterrânea que faz oscilar
Vidas-dejeto sepultadas em naus fantasmas
Fome e sede amontoadas
Corpos em pus despejados no oceano
Travessia malsã, coleção de moléstias sob ouro e marfim
Tumba flutuante que vomita almas lucrativas
Em portos hostis

A família estrangeira se reunia festivamente etílica ao redor da mesa posta. Havia comida para alimentar um exército, mas em vez de iguaria da terra deles ofereciam algo típico da cidade que os acolhera. Comemoravam o aniversário da matriarca, jovial e de sotaque carregado. Ela não parava de falar sobre os costumes e vantagens do seu país. Os convidados, informais, fingiam interesse. Não se cansavam de elogiar a comida, alguns repetindo pratos vigorosos. Para manter as panelas sempre cheias, a anfitriã sumia por alguns minutos e logo depois retornava carregando porções fumegantes em utensílios inox.

Eu conhecia bem o local da festa, a casa ampla e avarandada que trazia em si uma preciosidade: um quintal com árvore e sombra. Quando o patrão me disse o roteiro no dia anterior, quase me denuncio, porém mantive a frieza profissional. Passei a noite em claro, lendo no meu quarto, e imaginei dar uma desculpa por motivo de saúde. Porém, faltar ao trabalho daquela forma teria sido indigno. Quando chegamos, confirmei o meu eterno estado de invisibilidade em certos ambientes, especialmente quando estou de uniforme. Sentei a um canto para observar os atores principais. Efusivas, as pessoas andavam de um lado para o outro segurando pratinho e copinho cheios. Talheres caíam no piso produzindo o som metálico que trinca os dentes e arrepia o braço. Também havia cerveja barata e cachaça artesanal. A primeira circulava sem limites; a outra, servida a conta-gotas. Os filhos da aniversariante mantinham distância. Comiam pouco e não bebiam. As breves conversas não envolviam histórias engraçadas de infância. O relógio era consultado a intervalos cada vez mais curtos.

“Mas onde a senhora aprendeu a fazer tão bem nossa comida?”, alguém perguntou a certa altura. “Ah, filho meu, isto é segredo”, disse sorrindo. “E depois de tanto tempo aqui a senhora ainda sente saudades da sua terra?”, outro perguntou. “Sinto… É tanta falta que às vezes penso que voy a morrer sufocada. Só vim pra cá porque não tive outra saída, me arrastaron sem me perguntar nada. Quando me desperté estava enfiada dentro de uma lata velha que quase afunda”, respondeu, enquanto se dirigia saltitante em direção à cozinha. Devido ao álcool, todos riram. Menos eu.

*  *  *

Eu não era dono do meu tempo. Tinha de esperar quando quisessem ir. Sentei no sofá pra ver um pouco de tevê. A comida pesada me fez cochilar, mesmo com a gritaria histérica. Sonho: eu e Debrê tomávamos cravinho num boteco próximo ao Parafuso, na Conceição. A gente bebia e jogava dominó, enquanto ele explicava a mudança de ramo, que arte não tinha futuro e seus quadros estavam todos encalhados. Resolveu abrir uma agência de cordeiros e uma construtora de camarotes para o Entrudo. Ele bebia várias doses e permanecia sóbrio, enquanto eu tinha a visão cada vez mais embaçada. Eu perdia todas as partidas sem conseguir dar nem mesmo um passe. Também, pudera. Ele pintava as pedras. No meio do jogo, Debrê atendeu a uma ligação do sócio. “Era o Rugendas, tá vindo pra cá”, disse ao desligar o aparelho. “Não vai demorar”, ele levantou-se e anunciou eufórico, “pra esta cidade ser tomada por hordas de imbecis dispostos a pagar fortunas pra pular atrás de qualquer geringonça bem barulhenta. É um filão que precisamos explorar logo, entende, meu nobre?! A flutuação cambial no mercado de idiotas e espertos está favorável e temos de aproveitar. Hoje, um tolo vale cinco virtuosos, porém você não faz ideia de onde isso vai parar, meu bom rapaz!” Quando ele piscou para mim, levantando outra dose de cravinho com a mão esquerda, acordei.

As pessoas falavam cada vez mais alto. Alguns assistiam a um jogo sem importância, um desses esportes de praia inventados pelos departamentos de marketing dos bancos estatais. Ouvi barulho de copo quebrado em algum lugar vago da residência e fui procurar o meu banheiro. Passei pela fila de mulheres contorcendo as pernas e cheguei ao quintal vazio pra regar rapidamente a árvore, uma das minhas mais remotas lembranças infantis. Notei o mesmo casebre atrás de um muro de plantas, a fumaça branca saindo por uma chaminé de metal no teto da construção. O cheiro não podia ser confundido, não por mim. Antes mesmo de saber onde seria o tal almoço, uma coincidência desconcertante, eu já ensaiava uma visita.

Fui me aproximando e empurrei a porta entreaberta. Ela estava de cócoras, soprando as brasas de um fogão feito de tijolos e pedaços de pau. Eu conhecia bem a fonte da comilança na casa-grande: um centenário panelão de barro coberto de fuligem que eu lavava todo sábado. Uma tarefa detestável. Quando me viu, levantou-se, limpando a mão no vestido roto. Parecia esperar eu pedir algo. Estava descalça e sua pele azul de tão retinta exibia pequenos pontos de suor estático. Cabelos desgrenhados como palhas de aço, massa disforme e espessa repuxada a fórceps. O fundo branco dos grandes olhos contrastava com o sorriso feito só de gengivas roxas. Ficamos assim, um procurando no outro mudança e permanência. Ela tocou meu rosto e ia falar alguma coisa, mas percebeu uma movimentação. “Eita, que lá evém minha patroa…”, estalou a língua e apressou-se em voltar a mexer na panela. Tive de ser rápido pra achar um vão que me mantivesse oculto. Uma encheu os vasilhames e saiu; a outra respirou fundo e se sentou no chão de terra batida, recostando-se à parede. Perguntei se ela precisava de alguma coisa, mas a mulher permaneceu alheia, de cabeça baixa, dividida entre lavar os pratos numa bacia e manter o fogo aceso. Várias vezes pensei em levá-la comigo. Teria sido um grande erro. Além disso, ela queria ficar só. Eu também.

Quando retornei, o pessoal acompanhava a música aos berros. Dei uma olhada no banheiro imundo. Eu sabia quem limparia tudo mais tarde. Evitei colaborar com a sujeira. A anfitriã estava meio anestesiada, devia ser o cansaço. Assistia a tudo com um rosto oleoso, incapaz de esboçar reprovação. Improvisaram um bloco carnavalesco no meio da sala, subindo nos estofados e rindo de tudo, até um deles chegar com a má notícia: a bebida terminara. Sob protesto, foram se recompondo, chaves de carros sendo recolhidas uma a uma. Também tive de sair, porém não podia deixar meu patrão ali naquele estado alcoólico. Fui obrigado a carregá-lo, ajeitando seu corpanzil no banco de trás. Tirei seus sapatos e meias, guardei sua carteira de cédulas e óculos no porta-luvas.

No dia seguinte, ainda trazia comigo as imagens do encontro. Caminhando pelo Vale de Nazaré, vi uma aglomeração ao redor de um caixote de papelão. As pessoas apostavam para descobrir sob qual das três tampinhas um sujeito escondia uma bola de plástico. Nervosos, homens e mulheres exibiam as cédulas que desejavam multiplicar facilmente. Tentei identificar golpistas e vítimas, mas todos eram iguais em suas ambições e trapaças. Recordei o sonho com Debrê. Existem infinitos meios de explorar o mercado de idiotas nos tempos de hoje. Eu tinha vergonha de pegar minha parte do lucro. Quase todos os anos vividos nos subterrâneos de um quarto minúsculo só foram dissipados com uma carteira de motorista, alforria conseguida a muito custo, só eu sei.

Nada mais era importante. A não ser o fato de eu sentir um aperto no peito toda vez que eu via o nome daquela negra na parte de trás do meu RG. Somente o nome dela, carregando nas costas cansadas o branco da outra linha vazia nos meus dados de filiação.

Tom Correia nasceu em Salvador. Jornalista, iniciou a carreira literária em 2002, quando ganhou o Prêmio Braskem com Memorial dos medíocres. Publicou Sob um céu de gris profundo (2011) e participou das coletâneas As baianas (2012) e 82: Uma copa, quinze histórias (2013). Integrou ainda a antologia Wir sind bereit (2013), a convite da editora alemã Lettrétage. Em 2014, foi selecionado para o segundo volume de Autores baianos: um panorama, publicação em quatro idiomas promovida pela Secretaria da Cultura e pela Fundação Cultural do Estado da Bahia. Em 2015, lançou Ladeiras, vielas & farrapos e ganhou um prêmio de residência artística para escritores no Instituto Sacatar, Itaparica. A residência proporcionou seu retorno à Fotografia.

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Olhares

Olhares

Entre mundos

Por Fabrício Brandão

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Entre os vãos daquilo que imaginamos ou vivemos, um mundo explode à nossa volta. Dentro dele, desenham-se cenários, epifanias humanas, outras possíveis dimensões. Há que se falar no concreto das coisas e na sua projeção aparente. Há que se falar também em abstrações ou em como estamos diante de esferas intangíveis. E, quando não temos o controle imediato das situações, passamos a meros observadores desse jogo de representações que é a vida.

Quem fotografa lida com um universo de paralelismos. Num arranjo cênico moldado pelo cotidiano, os olhares se entrecruzam. Sujeitos e objetos captados pelas lentes rompem a noção de passividade e ganham um status de protagonismo. Assim, surgem novas maneiras de vislumbrar a existência. O fotógrafo, artesão da luz, é também arrebatado por toda a sorte de elementos que emanam do exterior como se estes últimos o escolhessem. Coexistem, num mesmo plano, as investidas do artista e a representação autônoma com que seres e coisas se apresentam.

Revertendo a tradicional visão das atuações, seria como afirmar que o fotógrafo é quem é eleito pelo seu alvo. Se por um lado tal constatação traz uma carga subjetiva muito forte, por outro, aponta para uma perspectiva através da qual cabe ao artista perceber certos atrativos sinais. Temos essa sensação ao contemplarmos o trabalho de Valéria Simões, sobretudo pelo fato de que as pequenas delicadezas contidas no dia-a-dia ganham destaque aos olhos da artista.

Registrar pessoas é algo que ocupa um lugar especial na trajetória de Valéria. Nesse aspecto, está em foco a habilidade de interferir o mínimo possível no curso natural dos personagens e seus respectivos ambientes. Como ela mesma confessou, numa entrevista concedida à Diversos Afins, o segredo consiste em se misturar da forma mais espontânea possível. E é assim que múltiplas faces são mostradas, tanto nos rostos retratados quanto em lugares nos quais as intervenções humanas deixaram suas marcas mais evidentes.

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Por trás da rotina que envolve a tudo e todos, paira um manto poético com o qual a fotógrafa apresenta o grande palco da vida. São cores, formas, linhas, gestos a compor a dinâmica da existência. Os espaços urbanos revelam sentidos tanto de ocupação quanto de ausência, todos eles denotando uma simbologia própria.

A fotografia está na vida de Valéria Simões desde o início dos anos 1990. Alguns de seus trabalhos foram premiados dentro e fora do país. Participou de diversas exposições, tanto individuais quanto coletivas, no Brasil, Peru, Canadá e França. Em cinema, assina a fotografia de cena de filmes como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (São Paulo – 2002) e “Trampolim do Forte” (Bahia – 2008). Fez de sua casa, em Salvador, uma verdadeira galeria, lugar onde recebe convidados, artistas e pessoas interessadas em adquirir suas obras.

Transitando entre mundos, os olhares de Valéria enaltecem o ritual singelo da vida. Diante da delicadeza e da simplicidade com as quais se depara, a artista não se furta ao ato de nos revelar que nas coisas costumeiramente despercebidas há sabores elevados.

 

Foto: Valéria Simões

 

 

* As fotografias de Valéria Simões fazem parte da galeria e dos textos da 104ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

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103ª Leva - 06/2015 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

A FLAUTA VÉRTEBRA – A FLAUTA VÉRTEBRA

 

Flauta Vértebra

 

Eu suspeitaria de imediato só com a simples menção do nome da banda: teria algo de pernóstico, e talvez me trouxesse de chofre a imagem batida de jovens barbados – as mulheres teriam rostos pálidos -, meio tristonhos e bem antipáticos em seus ideais de arte. Do tipo que força a barra com letras difíceis. Seria algo excessivamente intelectual e vazio; uma coisa estranha, monótona.

A lógica para isso é simples: dentro desse meu novo mundo (o dos quarenta e tantos), supor que algumas pessoas pensaram no Maiakovski para nomear a própria banda seria motivo suficiente para me manter afastado. E não queimar óleo. Nem pestanas. E nem digo isso pelo poeta, nem pelo poema – um achado, para mim que não conhecia o texto. Mas pela pretensão.

A Flauta Vértebra, além de ser o nome de um poema do Vladimir, é basicamente uma banda baiana, da capital, com cerca de sete anos de existência com interrupções. Formada por cinco jovens que estão na batalha para mostrar sua obra – aquele trabalho espartano de convencer um público escasso numa cidade de chances escassas – notadamente diferente. E de extrema qualidade. Que começa a ganhar projeção neste Ep produzido pelo sempre irrequieto Irmão Carlos (líder da banda Irmão Carlos e O Catado e mentor do Tv Caverna, do Youtube) e prensado pela parceria Bigbross Records / Brechó Discos.

Além de saber que eles não vieram para serem cópias das cópias, nem muito menos prisioneiros de conceitos obtusos do que pode ser música original, A Flauta Vértebra possui a leveza de quem não se incomoda com a responsabilidade de ser, atualmente, uma das coisas mais legais e interessantes que estão acontecendo por aqui. Não por não saberem onde pisam. Mas pela percepção clara de que assim o trabalho flui. E não só em termos de musicalidade, mas também em relação às letras belamente interpretadas pela vocalista – figura central do projeto, uma espécie de guia, de ponto de equilíbrio -, dotadas de inesperada maturidade. Com o peso e a fúria de belos poemas, perfeitamente encaixados nos arranjos.

 

A Flauta Vértebra / Foto: Gether Ferreira

 

O que pensar quando na faixa “Renato” nos deparamos com coisas tais como: “Num momento eu me sinto bicho, / É tão estranho / Desencantar a nossa história / É falsa a claridade / Não foi sonho / Não consegui dormir / Não vê que os que dormem são reféns” e, sem saber o que concluir, resolvemos seguir em frente?  O que de fato podemos supor quando percebemos que em “Revolução (parte 1)” estamos diante de uma das mais interessantes, pessoais e francas abordagens sobre o que fizemos e deixamos de fazer em junho de 2013, quando as ruas foram tomadas em nome de algo – enquanto a PM desencavava seu estoque de lacrimogênio e das suas bombas de efeito “moral”?

O que dizer, afinal de contas, da guitarra que dá inicio à leveza da faixa “Polaroid”, resultando na combinação belíssima entre o teclado, o baixo e a bateria de Breno Pires (bastante competente e talentoso), numa espécie de celebração ao que pode ser legítimo, arte, música? (“Fotos instantâneas trazem doses espontâneas de ilusão / E ao mesmo tempo a lente mostra a gente / O que há de mau e o que há de bom / Eu quero mesmo é seguir viagem na canção / Ah, e já é dia no Japão / Tenha um bom dia então”). E de “Epílogo Atroz” que, além de ser um rock divertido e bem executado, contém a surpresa de frases como: “A festa acabou / A porcelana que encobria o seu rosto se quebrou / Esse suor gelado que escorre dos meus poros / Também te atacou / As cortinas se fecharam, meu bem / Ninguém recita seus idílios, suas trovas, seus sonetos / Ninguém engana ninguém / Ninguém engana ninguém”?

Sohl (vocal), Carlos Vilas Boas (guitarra), André Rodrigues (baixo), Ricardo Vilas Boas (teclado) e Tita Gracille (a mais nova baterista, no lugar do já citado Breno Pires) não refugam as próprias influências. Que podem muito confundir a todos, pelo simples fato de serem bem aproveitadas e servirem como lastro para uma musicalidade própria, uma postura nova diante de tudo – e não como cópia da cópia da cópia, se vendendo como a última novidade na grande feira das obviedades. Podemos perceber algo dos Secos e Molhados. Arranjos que lembram alguma coisa do Tropicalismo, passando pelo rock classicão e pela fatia mais interessante de toda a nossa MPB, atual e antiga.

Podemos dizer que são cinco faixas. Num Ep que vale a pena escutar. São cinco jovens que estão tornando as coisas bem melhores para a música. E que gostam de correr riscos, ainda que seja de uma maneira assombrosamente leve. Para a sorte de todos nós.

 

 

Gustavo Rios é baiano. Autor do livro de contos “Allen Mora no Térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), dentre outros.

 

 

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99ª Leva - 02/2015 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

RUSSO PASSAPUSSO – PARAÍSO DA MIRAGEM

 

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Viver jamais será algo linear e predeterminado. Não é demais pensar que nossa existência é semelhante a uma colcha de retalhos, na qual vamos juntando fragmentos de nossa passagem por esse estranho planeta chamado Terra. A própria construção ocidental da felicidade não passa de uma imagem desbotada, uma frágil quimera. E é bom que seja assim, pois desse modo o desafio de tocar os dias adiante pode contar com um componente a menos no quesito zona de conforto.

Mas por que falar de nossos vestígios e de duma volátil visão de felicidade? Talvez para manter a mente mais voltada aos sentimentos no modo espontâneo como eles se apresentam. Significa afugentar previsões, abandonar planos perfeitos, respirar e apenas seguir em frente, sem bússolas ou outros artefatos similares. A consequência imediata disso será, no mínimo, a de saborear uma experiência denominada de presente, esse estado de coisas que ainda permanece estranho a muitos mortais. No caso do cantor e compositor Russo Passapusso, os tais sinais do hoje fazem sentido e justificam a construção do seu primeiro disco solo.

Paraíso da Miragem é um instante particular na carreira do músico baiano. Acostumado às intensidades vocais, textuais e instrumentais de sua trajetória à frente de investidas como o BaianaSystem, Bemba Trio e o coletivo Ministéreo Público, Russo agora se volta para suas observações intimistas de mundo. Se por um lado há uma espécie de desaceleração do lado tradicionalmente efusivo do artista, dadas as peculiaridades de suas outras experiências musicais, por outro, emerge a feição daquele que discorre sobre a vida, o amor, as questões sociais do país e outros temas a partir de uma pessoalidade caracterizada por pungência e alguma serenidade.

O álbum é marcado por canções que mesclam letras precisas com arranjos multifacetados de brasilidade. De cara, faixas como Paraquedas, Flor de Plástico e Sem Sol são verdadeiros destaques do disco e representam com vigor o momento do artista. Reúnem pontos de delicadeza e um sentido poético e contemplativo diante da existência, aspectos que pontuam muito bem o caráter introspectivo do trabalho.

 

 

russo
Russo Passapusso / Foto: Fábio Bitão

Como de costume, o discurso é algo inalienável em Russo Passapusso. E isso se dá de modo especial no samba de Sangue do Brasil, através do qual os olhares estão voltados para emblemáticas mazelas de nosso país.  “Vai adiando a tristeza enquanto a morte não vem”, diz o canto de Matuto, outro ponto forte do disco. Nos apelos instrumentais de Areia, há uma valiosa sensação de flerte com os preciosos afrosambas de Vinicius de Moraes e Baden Powell.

Em matéria de produção, é possível perceber de que modo a atuação de parceiros como Curumin é determinante para o resultado da obra. Uma escuta atenta já confirma isso. Há um quê do mano paulista na concepção do álbum. Somam-se ao time de produtores os nomes de Lucas Martins e Zé Nigro. Contando também com as participações de gente do quilate de Edgar Scandurra, BNegão, Marcelo Jeneci e Anelis Assumpção, Paraíso da Miragem tem coerência e unidade, exaltando formas de se lidar com a imensa lista de sentimentos que fazem morada em nossas mentes e corações.

Russo Passapusso tem o que dizer e cantar. O saldo das escutas fica por conta de cada ouvido. Enquanto o fim não vem, que tal podermos arriscar que o paraíso não existe e que tudo é apenas uma questão de estado de espírito?

 

 

 

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95ª Leva - 09/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Jorge Augusto da Maya

 

Ilustração Rebeca Prado

 

 

Postal

 

O
sol eletriza
o corpo
da negra-cidade

recarregando
baterias solares

que a gente daqui
porta:
orgânica e uterina

(africarnada
na alma da cidade)

qual
pilhas de energia
intestina

assim: se
a engrenagem do
dia arde
sua fisionomia

o sol
acende o
cio da cidade

– Em simetria: solamaresia

 

 

***

 

 

Em casa

 

cada dia se dizia menos
o silêncio foi comendo toda palavra
até que não sobrou mais nada
mesa vazia, afeto desfeito
sem tato, sob o mesmo teto
alegria desbotando no porta retratos
estante escorada na parede
tv dizendo o que ninguém mais escutava
aquela ferida aberta no meio da casa
como um buraco negro
uma vala q aberta no meio da sala
cabia qualquer palavra
– boa noite pai.
não havia mais nada

 

 

***

 

 

Open

 

Exit. Êxito. Exílio.
quanto mais digo
me afasto
do que persigo.

palavra por palavra
armo
poemas que hesito

por todas as portas
de entrada saiu
do lugar q não existo.

melhor calar agora,
que ficar
falando em círculos.

o que busco é algo
algum alguém
pra além deste q digo
depois do exit

 

 

***

 

 

Os verões do corpo

 

A madrugada côa,
em seus escuros, ecos de luzes
restos do dia.
…………….. dejetos do dia.

no breu minguante da madrugada,
vagalumiava clarões no pensamento:

A imagem dela se acendendo

Faz a febre,
de um sol aceso dentro do corpo,
com seus todos fogos

a noite escoando seu escuro
surrealiza tuas  pernas abertas na
neblina do sono

a noite, toda consumida
em seus infernos,

me enterra nas cinzas do sono.

 

Jorge Augusto da Maya publicou poemas no livro “Antilogia” e na antologia “Poesia quebrada de quebradas”. Tem poemas e textos publicados em jornais e revistas, entre eles, Germina Literatura, Revista Cronópios, Revista Diversos Afins, Jornal Bahia Notícias. Atualmente, é docente na Universidade Estadual da Bahia e editor na Organismo editora.

 

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92ª Leva - 06/2014 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lima Trindade

Foto: Luiz Navarro

Céu fatiado de azul

Atalhos: Leda e o relógio acertavam o tempo. O vento mais úmido, ameaçando. E o cão vira-lata não mais a seguia. Cansara de dizer não aos pedintes. E em seu coração chovia. Quem disse Salvador um verão sem tréguas? Salvador a levava à loucura. Eram as melhores horas. Um homem com alma de cidade.

Entalhes: o ateliê não recebia um turista há séculos. Na verdade, dos doze anos vividos ali, tirara muito, reconhecia. Hoje, a rua, escura e funda, exalava odores de morte. E a luz, que iluminava o saguão, mal servia para nortear os olhos de doninha do proprietário. Real Antiquário. A letra u, pintada numa caligrafia caprichada, apagou-se por si própria, cansada de se apresentar na placa comida de ferrugem. Apesar disso, Salvador continuava a empunhar o formão, talhando uma nova cópia de peça barroca. Os cabelos raros e brancos de velho espanhol. As mãos grossas e ainda fortes. Sua mão era seu sexo: os dedos hábeis e macios, moldando a carne rebelde de Leda.

Retalhos: Conheceram-se numa noite clara em que o céu estava fatiado de azul e as estrelas nasceram ofuscadas. Leda & Salvador. Tocava uma música sensual nas escadarias do Carmo. Salvador, bêbado. Leda, chapada de maconha. Sorriram um pro outro: o gringo e a negrinha. Ele sem saber dançar a salsa. Ela já acostumada ao ritmo e à voz de Gerônimo, ao balanço e à malícia de Gerônimo, à pena pintada de vermelho na ponta e na cabeça de Gerônimo, ao sorriso malemolente dos quadris de Gerônimo, seu cantor preferido, preto – apesar de branco. Eu sou negão… Eu sou negão… Meu coração é a Liberdade. E assim Salvador se libertou, subindo os degraus até sua pequena Oxum, que girava já dentro de sua cabeça desde tempos atemporais.

Atalhos: Guardava a lembrança da avó, anéis de ouro e balangandãs. Escrava como Leda, pobre como a mãe de Leda, mulheres juntando o comércio do amor possível. No iorubá, língua-mater, xingava o feitor de puto, viado, ladrão. Em português desfiava mentiras quentes como a cor do dendê. Ela ela e mais ela sabia sabiam que o amor e o sexo são as palavras. Não quaisquer umas, porém, as palavras.

Entalhes: As hastes dos óculos eram flexíveis e envolviam as orelhas grandes. Uma das lentes quebrada. Bem no meio. Daí a imprecisão. E lascou a beirada do lábio com sua ânsia. Os dedos molhados. De suor. Mesmo assim avançou. Podia-se ouvir um espasmo ou suspiro no ar. O vento revirando as folhas do catálogo sujo sobre a mesa. Salvador acariciou o peito quase reto, quase liso da escultura, não fossem os dois biquinhos. Ele cuspiu um cuspe grosso na ferramenta – outrora tão luzidia. E com a outra mão desferiu o golpe entre as pernas do anjo.

Retalhos: Carregara a menina no colo como um noivo leva a noiva em suas núpcias. Entretantos entretantos, ela o escolheu como homem, assim como Zeus escolhia suas vítimas. Talvez a beleza da jovem o embalasse para uma armadilha. Dois marginais sairiam de algum canto escondido e o roubariam e o assassinariam, deixando seu desejo enterrado num vão, tornando Salvador nota e número de um jornal esquecido e em ruínas. O susto veio. Leda Leda Leda. Dezessete aninhos e já passara para antropologia na universidade. Como podia? Mais susto. Ela conhecia arte. Mesmo no lixo que era a loja. A influência européia, séculos de oro y plata, porcelanas chinesas e azulejos azuis, castiçais, ornamentos em peças cotidianas. Danada. Susto maior. A raiva de Leda. Raiva dos homens e seus preconceitos na pele. Raiva tão grande quanto a delicadeza.

Atalhos: Cada nó de suas tranças contava uma estória de espoliação. Queriam-na mais trágica, menos feliz. Não permitia. A beleza de sua alegria guerreira era estampada na fronte. Arrastou Salvador pelos braços, apresentou-lhe o Ilê. Nada de Chicletes com Banana, Babados Novos, Harmonias do Samba ou quem quer que representasse a estupidez de uma alegria embalada por uma maré sem ventos. Por isso, odiava os circuitos de carnaval e o automatismo dos corpos nas danças sincronizadas. Não era o vento que a insuflava. Sim, as tempestades. Fechou as mãos com mais força e sentiu as jóias machucando as palmas. Jogou tudo dentro da mochila: anéis, brincos e pulseiras. Aproximava-se da casa de John, um velho sobrado caindo aos pedaços na Mouraria. A poucos passos, ouviu o cachorro latir.

Entalhes: O telefone tocou. Era Leda no celular. Salvador ouviu tudo em silêncio, apenas murmurando o consentimento. Não restavam mais alternativas. Precisavam sair da cidade, abandonar o país. Quando montou o ateliê, havia outros artistas. Verger costumava visitá-lo. Salvador falava vários idiomas. Filho de brasileira com italiano, nasceu na Espanha. Durante a infância, morou em Portugal. Os pais não sentavam lugar. Mudaram-se para a Itália, Grécia e, por fim, fixaram-se na África do Sul. Com dezoitos anos completos, a mando do pai, foi buscar trabalho na França. Lá, aprendeu a pintar e a esculpir, enquanto vendia pães em cestos nas ruas de Paris. Numa noite de boêmia, recebeu convite de Truffaut para fazer figuração num filme. Assim, começou carreira no cinema. Não se saiu de todo mal. Logo, outros cineastas o convidaram. Godard, Jean Vignon, Louis Malle e até Fellini, que visitava os estúdios de produção de La Rivière de Cassis. Dividia seus dias entre a sétima arte e as aspirações políticas da época. Tornou-se marxista. Contudo, sentia-se um estranho em qualquer chão que pisasse. Gostava de aventuras. As mulheres o agradavam e não se recusava aos homens, conquanto fossem bonitos e tivessem alguma graciosidade. Participou das manifestações de maio em Paris, viajou para a Bélgica, Alemanha e, quando se cansou, decidiu estudar política na Inglaterra. Os anos foram passando e Salvador cada vez mais desterritorializado. Viu com terror a queda do Muro de Berlim, teve depressão, isolou-se. Até que um dia caíram em suas mãos novamente o cinzel e o martelo. Ele os recebeu, gratificado.

Retalhos: Tinha bebido e nem por um instante pensara numa razão íntegra o suficiente para se satisfazer: que queria a menina? Andava pela sua caverna como se dela fosse, afastando peças, sorrindo e dançando entre as vênus e dianas. E tinha se apercebido – sim, nesta hora precisa –, Salvador lembrou e se conscientizou de que era um velho. Leda beijou sua barba por fazer. Leda arrancou seus óculos da face. Leda abriu os botões da sua camisa. E Salvador, Salvador não sentiu nada. O pinto tão murcho como ultimamente. Mas não era um completo vazio o que sentia. Dentro, lá dentro, era um sentimento abrasador, pulsante e extremamente vivo. A questão era se para Leda bastava isto, olhar. Leda segurou o sexo de Salvador em sua mão de menina. Sexo grande, macio e mole. Salvador tentou se recolher e fugir. Mas Leda o deteve, baixando a mão até suas bolas e apertando com firmeza.

Atalhos: Uma empregada-zumbi abriu a porta e segurou o rottweiller pela coleira. A mulher era um caniço, mas de um lado a vassoura e do outro a grande fera assassina. Leda escapou para o corredor e, de lá, direto para o jardim, nos fundos, de onde uma luz natural se projetava para o interior, e da porta se viam duas cadeiras de ferro, uma mesa de madeira, caixotes e mais caixotes amontoados e uma vista linda. John molhava as pontas dos bigodes loiros numa xícara de café, óculos escuros, bermuda e camisa florida aberta no peito. Um chavão, pensou Leda.

Hey! Ledá!

– Diz aí, John.

Coffee? Está uma d’lícia.

O quintal e a casa ficavam acima da rua posterior, a diferença de altura propiciando a visão das torres das igrejas do Pelourinho, os telhados vermelhos enegrecidos das casas, janelas de edifícios e muitas antenas por toda parte. Um forte.

– O que vai ser desta vez? – falou o americano em bom português.

– Nada de compra. Trouxe um negócio para você.

– Oh, really? E do que se trata?

– São jóias. Coisa de primeira. – Ela pôs a mão na mochila.

Ouviu-se um grunhido. A cabeça do cão surgiu na janela da cozinha.

Entalhes: Era preciso lixar a madeira, passar verniz e deixar secar. Depois, lixar novamente – com uma lixa mais leve – e pintar com tintas foscas, para dar a impressão de antiguidade digna de uma obra de arte. Reconstituir o passado. Inglaterra. Um dia, chegou uma carta da África do Sul. Os pais completavam quarenta anos de casados. Junto, uma foto do casal. Estavam mais gordos do que imaginara. O pai nada escrevera, somente a mãe, sua doce e meiga mãe brasileira. Contava que não se acostumara ao abandono, que chorava antes de rezar, à noite, enquanto o marido roncava. E pedia cuidados ao anjo da guarda do filho. Salvador deslizou a ponta dos dedos sobre o papel e acreditou que talvez uma lágrima houvesse molhado e turvado as tintas da caneta. Perguntou-se que mãe era essa que ele não conhecia perfeitamente, tão amorosa e sentimental ao mesmo tempo? Suas lembranças não davam conta da família. Acostumara-se à solidão e, também, à independência. Forjara-se homem pelos próprios esforços. E sobrevivera. Na infância, a mãe era uma presença viva, enquanto o pai, bom comerciante, contentava-se em pôr a comida à mesa, fazer as vontades da mulher e perguntar como ele andava nos estudos. Em todo o resto, era como se não existisse. Já a mulher, de pele apessegada e olhos puxados, abraçava Salvador sempre que ele chegava, tratava-o como um eterno menino. Daí, raciocinou ele mais tarde, o desprezo e a ferocidade com que o pai se apressou em despachá-lo para longe. Era pela mãe que escrevia postais ocasionalmente. E, pelo pai, a decisão de nunca telefonar nem voltar para casa. Quando o velho morresse, quem sabe? Mas, dois anos depois, a mãe descobriu-se com um câncer – sua falta?, ele se perguntaria – e então faleceu em poucos meses, evitando o reencontro. Salvador montou uma exposição com seus trabalhos, recebeu críticas extremamente desfavoráveis e se recusou a criar algo novo no futuro. Tornou-se um exímio copiador. Um artista que sobrevivia graças ao desejo daqueles que não tinham dinheiro e desejavam mais que tudo um nome famoso na parede da sala, num canto da biblioteca ou no alpendre da fachada da nova casa. Numa tarde fria de março, pegou seu agasalho, abriu o guarda-chuva e, na agência de viagens mais próxima, comprou uma passagem sem volta para o Brasil.

Retalhos: Sussurros, pequenos sinos, timbres, sim, avança o sinal, pára, segura e lança seu uivo de salvação e despertar, óleos oleosos pelos vãos escavados, caindo atrás de você o trovão, eu um raio apagado no tempo, estamos às voltas e envoltos em odores, disfarçamos nossos nãos, entrelaçando os sentidos e fazendo, oh, estamos fazendo, mesmo?, tão perto assim, a glória e o altar, cantarei gregorianos cantos, chuvas móveis  em sua face, pergunto-me como e eu desejarei sempre, você, Leda Leda Leda, sem enganos, beija, meu coração, beija meus dedos fatigados, beija-me com teus lábios novamente, fechando e abrindo e dobrando a espinha, chorando em mim, mais uma vez chorando em mim… Eu, inteiro, encoberto por suas tranças, encoberto por sua volúpia.

Atalhos: Leda tirou os anéis e os balangandãs e John admirou-se da formosura.

– Quanto?

– Cinco mil dólares.

– Não. É muito.

Ela ameaçou guardar de volta na mochila.

– Pago dois mil.

– Quatro. E mais duas trouxinhas.

O americano sorriu maliciosamente.

– Se quiser, te dou dois mil e – olhou para as pernas da menina – posso lhe compensar com uma coisa melhor que drugs – apalpou o volume na virilha.

– Nem pensar. São quatro mil e só.

– Se quiser, dou três e deixo você cheirar algumas carreiras.

– Pra eu ter uma overdose? Não, obrigada. Aceito os três. Em dinheiro. Deixo as jóias aqui e saio imediatamente com a grana, sem mais conversa.

All right! Estou d’acordo. Mas isso não é material roubado?

– São heranças de família. Você ainda não precisa se preocupar com a concorrência.

Entalhes: Para que guardar os entulhos e fingir e se convencer e retornar a uma rotina solitária, colhendo os caquinhos do Velho Mundo, asfixiando-se com a invasão, com a depreciação da vida, os prédios, outrora casarões repletos de vida, desabando sobre ele, Salvador, sem fio de esperança, a desapropriação, o governo, os turistas, a placa REAL ANTIQUÁRIO uma mentira, uma ilusão, os sonhos dos meninos seminus cheirando cola na esquina, olhando para ele, Salvador, sem ao menos expelir o medo que assegura a não-violência, evita a morte, o perigo desse outro inóspito, falando outros idiomas, as palavras pintadas com cores de amor e sexo. Palavras. Leda quer ir embora para o lar que ele deixou, viver uma outra guerra, estar no centro do poder, fazer cócegas, ser uma bárbara no Império, ou ainda na periferia do Grande Império.

Atalhos: Entalhes: Leda pagou as passagens e despacharam as malas e se abraçaram longamente. Faltava mais de uma hora para o vôo partir. Salvador segurava uma pequena bagagem de mão, Leda uma bolsa. Salvador. Go home!. Leda. Eu amo Salvador. Ele a presenteou com um perfume caro. Uma gota em cada lado do pescoço. E disse parabéns, menina! Feliz aniversário! Ela sorriu, beijando sua boca. Atravessaram o portão de embarque juntos, pisando primeiramente com o pé direito.  No avião, Leda deixou que a paisagem se dissipasse entre as nuvens e finalmente olhou a janela e o céu fatiado de azul.

(do livro corações blues e serpentinas)

 

Lima Trindade nasceu em 23 de dezembro de 1966 em Brasília, DF. Vive em Salvador desde 2002. Publicou três livros de contos e uma novela. Participou de diversas antologias, entre elas “Tempo bom,” (Iluminuras, 2010) e “Geração Zero Zero: fricções em rede” (Língua Geral, 2011).