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138ª Leva - 05/2020 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Samantha Abreu

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

IV

 

Os pelos de uma mulher crescem tão silenciosos
que
não sabem deles os grandes debatedores políticos,
os educadores de biologia,
os poetas inspirados pelas musas.

Nenhuma legislação precisa ser criada para que os pelos cresçam inabaláveis,
não precisam de autorização para tomarem o corpo como se conquistassem um reino.

Não escutaram seus ruídos os compositores que foram capazes de finalizar o Réquiem,
não são perceptíveis aos cineastas iranianos nem cabem no silêncio do menino Antoine Doinel olhando as franjas das ondas.

Os pelos brotam no rosto de Clémentine Delait
sem que os bichos sintam inveja, sem que um gato se arrepie diante do mistério,
Senhoras Doloridas enfim não precisam inventar encantamentos para seus rostos de cavaleiros.

Os pelos de uma mulher crescem tão silenciosos
que
somente ela os sabe
quando se observa e se acarinha,
a aspereza das pontas abrindo os poros.

Algumas profecias dizem que
todas as vezes
que uma mulher corta, raspa ou depila seus pelos
– tomando para si o disfarce da lisura -,
seus restos descem pelo ralo e alimentam os monstros que um dia invadirão o mundo.

 

 

 

***

 

 

 

Putas

 

Elas passam pelas ruas de todas as horas arrastando pedaços de seus corpos anteriores,
pedaços de suas trompas,
suas pontas de astros.
Passam altivas carregando o peso de antigos seios de tantas mamadas,
braços marcados por unhas e barbas,
genitálias explodidas por muitos nãos que foram ditos entre berros,
cabelos enozados por coágulos e vômitos cuspindo dentes.

Caminham juntas, passo a passo, cantando dolorosamente sua elegia da carne viva, enquanto as ruas as observam
quase vivas,
garantidas por um mandado de segurança: cem metros de distância
e maquiagens de alta definição – uma renovação pela graça de grandes laboratórios dirigidos por homens cientistas.

As boas pessoas que assistem ao cortejo rezam de cabeça baixa pedindo
a benção do esquecimento, mas as mulheres seguem
ensanguentadas
em direção ao espaço reservado aos que pagam penitências e culpas: putas!

 

 

 

***

 

 

 

Uma mulher é uma imagem em pé

 

Uma mulher caminha roçando suas asas nas pernas dos sonhos
e as asas flamejam e estalam,
as asas chicoteiam quando a mulher se levanta pisando no acolchoamento de nuvens.

Sempre que a mulher se ergue
– de dentro do vapor suado que circula o mundo –,
sempre que ela se mostra, sempre que a mulher caminha

eu entendo que anjos e demônios usam seu corpo,
que anjos e demônios se irmanam

sob as formas que ela encontrou de entender o mistério.

 

 

 

***

 

 

 

As rezas que inauguram o dia

 

Há algum tempo eu me convenci de que poemas estão no início e no fim.

Então me levanto pela manhã com metáforas enroladas na língua; com visões plenas de abismos.

Não respondo um bom dia sequer,
mas já repeti dois ou três versos em silêncio, um ritmo mental,
a incandescência do dia.
O poema do início, uma fundação.

Quando as lutas se acalmam e se abaixam as espadas,
eu volto ao poema em busca do fôlego, o fim da fadiga.
Abro os vãos da casa e avisto um descampado,
infinito campo de unguento.

O poema que é fim de tudo,
o impronunciável: um soluço que interrompe a lágrima.

 

 

 

***

 

 

 

Da incapacidade de matar o poema

 

Você mira a boca aberta do poema e mete nela meia dúzia de tiros;

Você observa a ontologia do poema enquanto espana o ar com as mãos para dissipar a fumaça dos tiros;

Você quer se vingar da arrogância do poema que decorou as sagradas escrituras do seu tórax;

Mas você mal suspirou aliviada e o rabo do poema já concedeu a ele um novo corpo de matéria pegajosa;

O poema rasteja e imobiliza seu assombro quando você dá de cara com o fenômeno:

O corpo asqueroso do poema é sua própria mão.

 

 

 

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Eu tenho nas mãos o coração de um pássaro

 

Eu abro o peito do pássaro: sinto o coração bater na ponta do dedo
e tenho penas de todas as dores
enquanto o pássaro me observa segurando seu coração.

O pássaro ainda se debate com violência
mas não pode voar
e eu já não sei mais como devolver-lhe as palpitações,
pois a morte agarrou minhas mãos e está tentando fechá-la.
Ela quer esmagar a beleza do coração que pulsa,
a beleza,
ela quer parar o coração do pássaro.

Eu não resisto e esmurro fortemente o chão,
deixando que o sangue dos meus dedos se misture ao do coração dilacerado.

O pássaro emudeceu e não me olha mais.

Então eu sepulto seu pequeno corpo sob todas as formas que tenho
de gritar em silêncio

 

Samantha Abreu é escritora, professora e pesquisadora, mestre em literatura brasileira pela UEL. Participa e organiza eventos literários e publicou os livros “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011); “Mulheres sob Descontrole” (Atrito Arte, 2015); “A Pequena Mão da Criança Morta” (Penalux, 2018). “Debaixo das Unhas (Olaria Cartonera, 2020). Também já foi publicada em antologias, sites, revistas e teve textos adaptados para o teatro. Integra o Coletivo Versa, que pesquisa e divulga autoras londrinenses.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Samantha Abreu

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Pequeno confessionário admiratório

 

Eu escrevo sobre mulheres, pois gosto de imaginá-las majestosas e donas de seus corpos, caminhando em direção a um pôr do sol, sumindo no horizonte dos sonhos.

Acho gentil a poética de seus ventres quando as trompas se transformam em galhos cheios de flores. Existe tanta beleza na anatomia das ancas arredondadas, uma arquitetura sutil dos desníveis.

Admiro a deformação de seus rostos quando sentem; me encanta a euforia de suas vozes e o silêncio de suas dores. São seres que não passam incólumes pela cerca viva e espinhosa da grade de suas próprias costelas.

São jeitos de quem aprendeu sobre os contornos da existência, que enfrentou os desvios necessários das lâminas, que sobreviveu aos abismos diários das pequenas mortes.

Eu escrevo sobre mulheres para descobrir os segredos do mundo.

 

 

 

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Uma mulher é uma imagem em pé

 

Uma mulher se levanta roçando suas asas nas pernas dos sonhos

e as asas da mulher flamejam e estalam,

as asas chicoteiam quando a mulher se levanta pisando no acolchoamento de nuvens.

Sempre que a mulher se ergue do meio do nada, de dentro do vapor suado que circula o mundo,

sempre que ela se mostra, sempre que a mulher caminha

eu entendo que anjos e demônios usam seu corpo,

que anjos e demônios se irmanam

sob as formas que ela encontrou de encarar o abismo.

 

 

 

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Meninas que saltam de parapeitos

 

Algumas meninas se debruçam sobre os parapeitos e observam encantadas outras vidinhas e pequenos afetos. Algumas meninas se debruçam sobre as grades e sorriem com os olhos. Depois se recolhem silenciosas para suas modéstias e sobriedades. Algumas meninas se recolhem.

Eu me deito sobre o vento pincelando no ar meus dedos de autoridade sobre o recato. Tenho desejo de gravidade infinita. E me jogo do parapeito das meninas, sorrindo as sobrancelhas e deformando a boca enquanto berro. Berro, mas não paro de cair. Eu desabo estendida em nuvens.

 

 

 

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Putas

 

Mulheres passam pela rua de todas as horas arrastando os pedaços de seus corpos anteriores, pedaços de suas trompas, suas pontas de astros. Passam altivas carregando o peso de antigos seios de tantas mamadas, braços marcados por unhas e barbas, genitálias explodidas por nãos que foram ditos entre berros, cabelos enozados por coágulos causados por vômitos cuspindo dentes.

Elas caminham juntas, passo a passo, cantando dolorosamente sua elegia da carne viva, enquanto a rua as observa quase vivas e asseguradas por um mandado de segurança: cem metros de distância e maquiagens de alta definição. Uma renovação pela graça de grandes laboratórios dirigidos por homens cientistas.

As boas pessoas que assistem ao cortejo rezam de cabeça baixa pedindo a benção do esquecimento, mas as mulheres seguem ensanguentadas em direção ao espaço reservado aos que pagam penitências e culpas: putas!

 

Samantha Abreu (Londrina/Pr) é professora e poeta, que pesquisa a literatura de autoria feminina pela Universidade Estadual de Londrina. Já foi publicada em antologias e revistas, além de participar de debates, projetos e eventos literários. Lançou “Fantasias para quando vier a chuva” (Orpheu, 2011); “Mulheres sob descontrole” (Atrito Arte, 2015); “A pequena mão da criança morta” (Penalux, 2018); e tem dois livros no prelo. Integra as antologias “O Fio de Ariadne” (Atrito Arte, 2014); “29 de Abril: o verso da violência” (Patuá, 2015); “Um Dedo de Prosa” (Atrito Arte, 2016); e “Sob a pele da língua” (Cintra, 2019). Seus textos foram adaptados para o teatro na montagem “Trouxe a chave para libertar sua tristeza”, da Cia AARPA. Faz parte do Coletivo VERSA, que pesquisa, organiza e divulga a escrita de autoras londrinenses.