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147ª Leva - 02/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

DA DOR AO AMOR À LIBERDADE

 Por Vinicius de Oliveira

 

 

Dentro da gramática dos tambores das escolas de samba, existem, em geral, três surdos que marcam o ritmo binário do samba. O surdo de primeira marca o tempo forte do segundo tempo do compasso; o surdo de segunda marca o tempo fraco no primeiro tempo do mesmo compasso. Como o samba é um ritmo sincopado, o surdo de terceira preenche o espaço entre o primeiro e segundo tempo, conferindo o balanço sincopado que move o corpo.

Na década de 30, as escolas de samba, que eram comunidades predominantemente negras, contavam a história de gente branca. Isso porque o regulamento previa enredos de interesse nacional, os quais eram compostos por temas de grandes personagens pátrios, de feitos extraordinários do Brasil e de natureza exuberante, todos eles dialogando com a história oficial.

O historiador Luiz Antônio Simas chama o fenômeno do surdo de terceira de “adequação transgressora”.  O enredo contado através da palavra, que narrava a história de “gente branca vencedora”, era contraposto pela gramática dos tambores, que entre a normalidade da primeira e da segunda batida, surge o surdo transgressor que vai estabelecer contraponto entre os sons previsíveis. Um outro exemplo de transgressão é o toque de base da Portela, que enquanto o enredo exaltava os grandes vencedores, a bateria tocava o Aguerê, que é a marcha para Oxóssi.

É nessa disputa de vozes que Levante, de Henrique Marques Samyn, nos fornece versos potentes que narram a dor de um período da nossa história que parece que ainda não passou.

O livro é composto por 75 poemas, dividido em cinco partes: Desterro, Cativeiro, Ancestralidade, Resistência, Herança e Liberdade, todas dialogam, a um só tempo, com o passado e com a contemporaneidade, e também com o projeto gráfico do livro, que começa com tons escuros em desterro, vai clareando até atingir tons amarelados em Liberdade.

Em Desterro, Samyn conta em versos o horror da travessia do Atlântico. Se os livros de história e pesquisas arqueológicas contam, documentalmente, que o continente africano exportou, durante séculos, pessoas para servirem de mão de obra escrava para o mundo, o poema Cria penetra no horror do subsolo imprimindo luto ao verso. “Embarcai também as crias: as de peito e as de pé. Pouco é o espaço que ocupam. Pouco valem – estas, de peito, costumam morrer facialmente; as outras, que podem andar, talvez sobrevivam. Que seja: pouco é o espaço que ocupam. Pouca a nossa despesa”.

Talvez o termo mais correto para falar da história do povo negro é o silenciamento. Termo mais adequado do que apagamento. Se a história oficial não conta, não significa que um determinado fato não tenha existido. Nesse sentido, não há de se falar em dar a voz, mas sim em dar visibilidade. Henrique faz mais do que isso: ao dar visibilidade, reverencia aqueles que transformaram a dor em direcionamento para seguir. “Não mais somos vossos cativos, mas nada esqueceremos – nossa memória é profunda: fazemos da nossa dor nosso alento”.

Na terceira parte do livro, intitulada Ancestralidade, o poeta homenageia nomes que fazem parte da resistência do povo negro ao longo de cinco séculos. Samyn, que é professor de Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Grupo de Estudos Letras Pretas, abre e fecha a parte Ancestralidade, homenageando Aquatune, a princesa africana e avó de Zumbi dos Palmares, sem a qual não existiria Zumbi dos Palmares. “No início estavas. E sem ti, rainha, que seríamos nós? Por isso, agora, a teus pés prostramos: nossas vidas a ti devemos. Ouve, nesta hora”.

O poeta lança mão do horror como matéria poética, para nos lembrar da dor de quem experienciou a escravidão. Mas não apenas.  A potência dos versos do poema Senzala mostra, como talvez não se encontra em nenhum livro de história, espaço de geração de vida, de amizade e de resistência na senzala, espaço onde só deveria haver dor e sofrimento. “Nessa casa sem janela, com as portas bem trancadas, habitam muitas famílias – muitas vidas amontoadas. Aqui se houve muitas línguas, aqui histórias são narradas, amizades são tecidas, aqui vidas são geradas”.

A última parte do livro, intitulada Liberdade, é composta por poemas que são numerados: se nas partes anteriores cada poema era identificado por um título, seja para nomear personagens importantes, seja para dar pistas do que o leitor encontrará ao longo da leitura, agora, os nove poemas que compõe a seção Liberdade são apenas numerados, indicando tempo presente que, ao mesmo tempo que dialoga com o passado, constrói o futuro. “No deserto que nos deixaram, verdejaremos – dos espinhos que nos rasgaram, floresceremos”.

É nesse diálogo temporal que o livro Levante conta a história do povo negro, do desterro imposto pelo horror do tráfico negreiro, passando pela resistência de heróis negros ao sistema escravista, até ancorar na contemporaneidade, apontando não um repouso, mas sim para a permanente memória dos que deram vida por liberdade e apontando, também, para a luta por libertação.

Vinicius Gaudêncio de Oliveira é carioca formado em Letras/Literatura.  Atua como crítico literário nas temáticas sobre produções literárias e culturais cariocas.

 

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142ª Leva - 02/2021 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

FLERTE FLAMINGO – ESPERO QUE VOCÊ ENTENDA

 

“De onde essa gente vem
Que eu quero seguir também?
Pra onde essa gente vai?
Me leva pra onde sai”

 

Os versos da canção Longe da Bahia, do álbum de Teago Oliveira, exemplificam a aura de magia que paira sobre a terra do axé e dos orixás, sobretudo no que tange ao berço de gêneros e talentos musicais. Criada de forma despretensiosa no verão de 2015, a Flerte Flamingo foi concebida – no que se tornaria uma nova cena cultural independente de Salvador – com uma proposta sonora pautada na espontaneidade das composições de seus integrantes. Apesar da verve originalmente roqueira do grupo, as canções carregam o balanço do samba e de outros ritmos afro-brasileiros, como o ijexá e o samba-reggae. Composta por Leonardo Passovi (guitarra), César Neto (baixo), Rodrigo Santos (teclado), Bernardo Passos (percussão) e Igor Quadros (bateria), e com influências que vão de Arctic Monkeys a Jorge Ben Jor, a banda faz música brasileira com elementos do indie, samba-rock e pop contemporâneo. Com uma pegada regional, ilustrada pela percussão sempre marcante, as canções são basicamente pautadas na temática amorosa e experiências pessoais. Produzido pelo músico Junix11 (Baiana System), as cinco faixas autorais de Espero Que Você Entenda (2020), segundo EP da banda, lançado em todas as plataformas de streaming, reverberam a brasilidade das décadas de 60 e 70 a la Jorge Ben, João Donato & cia.  A obra imprime a irreverência do projeto, composto por letras “baseadas em fatos reais” e com uma musicalidade nostálgica que às vezes remete à displicência vocal do pernambucano Fred Zero Quatro e seu Mundo Livre S/A. O som reafirma ainda essa espécie de “movimento lírico-poético-estético brasileiro calcado num retorno ao pós-futuro”, como filosofou Pedro Gusavaqui, em sua resenha para o site El Cabong. Seria a tal saudade daquilo que ainda não vivemos?

O suingue de Não Te Quero (o que será que é pior/ser triste com alguém ou ser triste só?/aposto que eu e você/nunca vamos descobrir) abre o disco contrastando com a melancolia de um amor. Se a libertária Curió (minha poesia/não tem mais espaço pra você/e tudo que eu falei já não tem valor/decaixaem caixa aminha vontade/de ser só crescia/derepente bateu asas, se avoou) tem compasso e momentos etéreos que caberiam no repertório de Liniker, a malemolência de Iara (em noite fria/até o santo perde a fé/não tem um acalento/ou algo mais/você não sabe a dor que faz/comer farofa seca sem você, Iara) cede às migalhas de amor imploradas em versos como “quero o pouco que você puder me dar”. O single homônimo Espero Que Você Entenda, responde à velha questão de Diz Que Fui Por Aí, samba de Zé Kéti eternizado na voz de Luiz Melodia. Desta vez o interlocutor do verso “se alguém perguntar por mim” está na companhia de seus discos, livros e filmes prediletos, denunciando o hábito do vocalista Leonardo Passovi em cancelar em cima da hora os compromissos com os amigos. O lamento bilíngue de Triste No.2, encerra o trabalho enfatizando como “vai ser tão bom ter você aqui” e só me faz pensar em amores virtuais geograficamente inviáveis.

 

Flerte Flamingo/Foto: divulgação

 

Depois de um dançante EP de estréia – Postura e Água Fresca (2017) –, que teve como carro-chefe o gingado de Ladinho (lembra a intro de Caio No Suingue, de Pedro Luís e a Parede), um dos legados de Espero Que Você Entenda foi trazer, pela primeira vez, músicas interpretadas pelo tecladista Rodrigo Santos e pelo baixista Cesar Neto, apontando certa “democratização vocal” da banda. Criatura do Mal, o single mais recente, composto pós EP, aposta apenas em voz e violão e tem videoclipe estrelado pela dançarina Camila Rotta e direção de Matheus Fractal. Hoje, com dois EPs na bagagem e vários singles lançados, a Flerte Flamingo produz seus próprios eventos ­– denominados Pasinada – com grupos parceiros que fomentam a cena alternativa soteropolitana. Além disso, os músicos integram o coletivo SOPRO, juntamente com as bandas Colibri, Astralplane e Tangolo Mangos. Seguindo os passos de Maglore e Baiana System, Flerte Flamingo desponta como uma das mais promissoras sonoridades “made in Bahia” desta nova década. Suas performances ao vivo trazem um agradável clima de bailinho proporcionado por trupes como a Orquestra Imperial em seus carnavais (de salão) fora de época. Sejam em passos desengonçados ou de Fred Astaire, Flerte Flamingo convida você a soltar seu corpo na pista. Assim como seus familiares gregários sincronizam sua dança de flerte fatal, não se surpreenda se der match!

 

 

 

Larissa Mendes espera que você entenda sua predileção por analogias.

 

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83ª Leva - 09/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

RODRIGO BEZERRA – TEMPO ILUSÃO

 

 

 

Cultivar os arremates do tempo como se eles fossem fiéis companhias. Se cada instante encerra uma surpresa, o que seria de nós sem o sabor de certas revelações trazidas com o vento que circula entre nossos devaneios? Há um sentido avarandado na porção serena da vida. Isso traz calma, cor e luz para o sopro que alimenta nosso caminhar de mortais.

Como materializar um pouco toda esta sensação? Talvez abrindo as escutas para o disco de Rodrigo Bezerra. Apegando-nos de imediato ao nome de batismo do álbum, ficamos imaginando qual signo melhor acolhe o teor cronológico da existência. E não se está a falar aqui duma mera feição concreta das coisas, algo que busque elementos sequenciais de uma trajetória de vida qualquer. Pelo contrário, a ideia de Tempo Ilusão sugere uma perspectiva a mais imaterial possível, sobretudo pelo fato de o que presenciamos no fluxo cotidiano poder ser tão fugaz quanto uma lembrança perdida.

Deixando de lado as divagações, o ponto é que o ambiente sonoro criado por Rodrigo não deixa dúvidas quanto ao caráter sublime de suas canções. Para perceber isso, basta se deixar levar pela letra e música de Mais é menos, cujo jogo de oposições dos sentimentos acaba por flertar com o equilíbrio entre certas tensões que suportamos. Ao ouvirmos Circular, fica a impressão de que o dinamismo que conduz a existência torna tudo passível de renovação. Mesmo se insistirmos em revisitar começos, ainda assim somos impelidos a avançar rumo ao desconhecido e vislumbramos nisso algum sentido de libertação.

Na canção Esperar, reforçamos o ato impreciso de sempre aguardarmos que o intangível afague nossos ombros e retire a sobrecarga deles. Para quando o tempo com seus ardis nos oferte respostas, estaremos sempre a apostar que tudo se explica de algum modo. Se a jornada parece angustiante, o cenário pueril de A criança vem nos sussurrar que a liberdade é um recurso para quem não se deixa levar por questionamentos excessivos e inúteis.

 

Rodrigo Bezerra / Foto: Diego Bressani

 

Tempo Ilusão é um disco que enaltece a formação musical de Rodrigo Bezerra, principalmente no que se refere aos arranjos regados a violão e guitarra, instrumentos bem íntimos do artista. Além disso, a conjugação de outros aparatos como bateria, saxofone, trompete, flauta e flugenhorn traz uma pegada jazzística bastante interessante. Aliada à concepção do jazz, a brasilidade do álbum ganha corpo com elementos que derivam do samba.

Afora o time de músicos que emprestam vigor ao trabalho, reunindo nomes como Felipe Viegas, Renato Galvão, Bruno Patrício e Westonny Rodrigues, não há como ignorar também a bela participação vocal de Ana Reis na faixa Além de acordes, composição que enaltece o espírito do jazz presente ali.

Segundo trabalho solo de Rodrigo Bezerra, que foi o primeiro aluno formado pelo departamento de guitarra Elétrica da Escola de Música de Brasília, Tempo Ilusão apresenta uma proposta bem definida, que é a de harmonizar sentimentos que nos atingem indistintamente a todos rumo a um caminho sonoro marcado pela simplicidade. Sem pretensões e arroubos vazios, o artista deixa a impressão de que a estrada da música pode ser trilhada sem o tradicional peso da espetacularização das coisas. Na leveza das ações, um grande trabalho funda seu próprio território.