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100ª Leva - 03/2015 Destaques Olhares

Olhares

As sutis inscrições do vazio

Por Fabrício Brandão

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

Há uma voz que, em meio ao tempo, pretende ocupar espaços. Essa voz transmuta-se no olhar daquele que cruza insones paisagens urbanas. E não há necessidade de que sua expressão maior seja percebida pelo verbo sonoro. Apenas o silêncio desafiador ousa permanecer e atravessar as zonas mais inusitadas da observação.

Quando o olhar revela-se um personagem dos cenários retratados, o ritual dos estranhamentos renova seu foco. Sem deixar passar o traço genuíno que cada ser ou lugar denotam, um fotógrafo vai além da dimensão externa das coisas quando experimenta tempos e espaços num mergulho físico ou intangível.

Gabriel Rastelli Quintão é um desses desbravadores de territórios. Máquina em punho, seus registros fotográficos perscrutam cenários em busca de vislumbrar o que está além dos vestígios. Atraído por uma espécie de decadência humana, o fotógrafo intenta o belo em meios aos escombros, quiçá alguma pista que possa renovar a crença num porvir.

Diante dos fragmentos deixados pelos homens, Gabriel parece se defrontar com a poética do vazio. Nesse ínterim, há um curioso processo de ocupação imaterial dos espaços, fazendo com que tais lugares representem pontos de recordações e alguma contemplação. Assim, a perspectiva do ambiente urbano deixa de ser meramente uma aglutinação de concreto e passa a algo indissolúvel na medida em que o tempo costura seu imprevisível fluxo.

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

O que Gabriel vê para além do vazio aparente é também um inventário de silêncios. Tanto na via das ações quanto na das hesitações, homens alteraram o curso de suas trajetórias e, mesmo que o artista tenha chegado após os fatos, os cenários denunciam seu farto enredo.

Nascido em Araraquara, São Paulo, Gabriel Quintão estudou fotografia na Escola Panamericana de Artes e hoje atua nas áreas de fine art, fotojornalismo, retratos e publicidade. Seu primeiro projeto autoral publicado, batizado de “Linha de Frente”, mostra as reações de fãs de rock que se comprimem nas primeiras fileiras de shows do gênero. Noutro momento, o fotógrafo exalta a série “Cinzas de Quarta”, cujas imagens refletem o abandono das alegorias carnavalescas que, outrora ostentavam a magia de um desfile, agora são relegadas ao esquecimento pós-momesco.

Apesar do trabalho de Gabriel denotar uma forte relação com as lacunas humanas visíveis ou não, outros pontos de observação são elegidos pelo artista. Composições de luz e sombra, flagrantes da natureza e epifanias urbanas também fazem da arte do fotógrafo paulista um caleidoscópio de sensações pulsantes.

Entremeando a tênue cortina que divisa o ser do não-ser, os olhares aqui apontados configuram uma estética que conjuga perenidade com volatilidade. E o interessante é perceber que há modos de se testemunhar presenças e marcas, mesmo que agora subsista algum vazio. Aquilo que o tempo ocultou ou até mesmo dissipou resiste, permanece intacto na maneira como lidamos com as artimanhas da memória.

Gabriel Rastelli Quintão
Foto: Gabriel Rastelli Quintão

* As fotografias de Gabriel Rastelli Quintão são parte integrante da galeria e dos textos da 100ª Leva

 

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94ª Leva - 08/2014 Destaques Olhares

Olhares

Sinfonia do invisível

Por Fabrício Brandão

 

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

A menina adentra as veredas da adolescência, perfazendo as primeiras noções de olhar o mundo com necessário cuidado. Seu método de observação é, no mínimo, curioso. Deita-se sobre um beiral do terraço do prédio em que morava na maior cidade brasileira e faz com que o corpo, capitaneado pela visão de quem procura detalhes, incline-se a noventa graus. Com isso, intenta ver o oceano urbano explodindo seus signos lá embaixo, além de experimentar o horizonte recortado. Seu mundo idealizado era em preto e branco.

O tempo passa e a menina, hoje mulher, fez questão de levar adiante a sua particular maneira de apreender a luz. Seu nome, Luciana Bignardi. Sua nova morada, Portugal. De lá para cá, pouco mais de duas décadas se passaram e a chama continuou acesa. Com o desenvolvimento do olhar, especialmente marcado por nomes como os de Sebastião Salgado e Cartier Bresson, a escolha da moça pelo ofício de fotógrafa cada vez mais ganhava corpo e certeza.

É o olhar que perscruta a vida quem comanda as ações na trajetória de Luciana. Interessada em transpor as barreiras mais aparentes, ela vislumbra como desafio maior a perspectiva de captar a alma humana da forma menos invasiva possível. Nesse aspecto, o que fica em boa medida é o entrelaçar silencioso de mundos, estreitando distâncias entre observador e observado. Assim, uma pergunta sempre se faz presente: terá a fotógrafa a capacidade de praticar o taciturno pacto do registro sem alterar as esferas íntimas de seus personagens prediletos?

A resposta parece ser positiva, embora saibamos que os olhares que lançamos ao universo de coisas que nos rodeia não são impunes. E não se trata aqui de levar em conta a possibilidade de alteramos o sentido daquilo que vemos a partir de nossas convicções, mas pelo modo como também nos sentimos parte viva do que é apresentado via lentes. Então, ao refletirmos sobre o trabalho de Luciana Bignardi, entendemos também que ela nos mostra um ponto essencial de convergência, no qual criador e criatura são cúmplices duma mesma e complexa existência.

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

Afora as especiais abordagens humanas, as fotografias de Luciana conferem um lugar de destaque para a, digamos assim, geometria dos espaços retratados. Isso fica mais claro quando notamos a maneira através da qual a artista evidencia o caráter urbano de suas observações. Nesse ínterim, flutuam linhas, retas, curvas, sombras e diversos contornos a promover uma verdadeira sugestão de espaços. Mas o que seria tal propósito? Quiçá o de apresentar aos nossos olhos que, para além do concreto embrutecido das cidades, outras dimensões espaciais se operam, podendo estas serem tanto físicas quanto abstratas. O resultado é todo um caminho feito de aspectos também simétricos e dotados de uma significativa sensação de profundidade de campo.

E eis que a natureza também é tida em boa conta no ofício de Luciana. Basta ver o modo como ela nos traz à baila folhas de árvores, que, conforme a própria artista confessa, também fazem parte de um processo de se perceber o que extrapola o meramente visível, entrevendo desenhos nos lapsos deixados por ramos e galhos.

A predileção pelos detalhes é, sem dúvida, um fio condutor da trajetória criativa de Luciana Bignardi. Basta lembrarmos da criança curiosa, mencionada no início do texto, e a deslocarmos para o momento atual. Os ímpetos fundamentais continuam os mesmos: tentar apreender nos interstícios da existência o idioma secreto que abriga simultaneamente pessoas, lugares, coisas e outros seres. Enquanto o olhar avulta o tempo, a sonoridade discreta da vida rege os instantes embalados pela indispensável descoberta do mundo.

Luciana Bignardi
Foto: Luciana Bignardi

 

 

* As fotografias de Luciana Bignardi integram a galeria e os textos da 94ª Leva

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O que se espera de um artista em toda a sua potencialidade? Que cumpra o ritual de seus ímpetos de autenticidade, sem fazer concessões de toda ordem, ou que se alimente de seu tempo com voracidade? Certamente, são duas questões a também rondar as mentes tanto de quem cria quanto de quem consome arte. No caso específico da fotografia, tais eixos de reflexão desempenham um papel de destaque, tendo em vista as múltiplas formas de se mostrar o mundo que nos abriga e repele. Em todo caso, estamos próximos de uma perspectiva mais diferenciada de observações quando tomamos por norte os imperativos da lucidez. E falar nesta última personagem significa muito mais uma forma de perceber densamente o que somos do que qualquer outra coisa. Nesse viés, ler a nós mesmos resulta num percurso por um labirinto através do qual talvez jamais consigamos encontrar a saída.

Diante de todo um exercício crítico do olhar, nos deparamos com a obra de Silvio Crisóstomo. Sob a pele desse fotógrafo, pulsa viva a tez de um homem que ao olhar os espaços circundantes, vislumbra o que está além do óbvio. Detentor de uma aguçada visão sobre a existência, Silvio toma o caos urbano como um elemento impulsionador de seu trabalho, repensando não apenas o ponto de vista espacial, mas principalmente a forma como os homens, quase todos integrantes dum mesmo pacote de irracionalidade, devoram a si próprios. É assim que, por exemplo, suas imagens devotam especial atenção à cidade de São Paulo, lugar que, aos olhos desse inquieto artista, é um estado de coisas sem solução.

Alagoano de nascimento, Silvio confessa ser um alguém que busca um efeito poético para seu trabalho. O resultado disso é patente, pois o modo como pessoas e lugares são captados e trazidos à luz redimensiona sentidos e posiciona o artista como um legítimo porta-voz de seu tempo. Nessa entrevista, o fotógrafo nos conta aspectos marcantes de sua trajetória, ressaltando concepções próprias que o movem dentro de um território imagético fortemente pontuado por uma, digamos assim, condução engajada dos registros. Leia-se engajamento aqui com um sentido especial, qual seja o de um envolvimento consciente e ativo da condição de se estar num mundo deveras complexo e que a todo o momento nos cobre com o manto da provocação.

 

 

 

Sílvio Crisóstomo / Foto: Clo Lainscek

 

DA – É possível observar que você representa o real de uma forma diferenciada, rompendo qualquer noção superficial do olhar primeiro sobre coisas, pessoas e lugares. Há um desafio muito grande quando a questão é afastar as armadilhas do óbvio?

SILVIO CRISÓSTOMO – Eu digo, educadamente, que não tento “representar o real”, e sim “apresentar o real”, visto que sou um artista contemporâneo e essa é a forma mais correta de conceituar o meu trabalho. Eu apresento o real que acredito que exista no momento da captura da imagem. É uma realidade única, pois eu nunca consigo reproduzi-la novamente da mesma maneira devido ao sentimento que é posto e exposto em muitos casos. A “noção superficial…”, a qual você se refere, é o que realmente banaliza a fotografia, e não a facilidade de se fotografar hoje em dia devido à tecnologia. Tenho a opinião de que o “olhar banal” é a morte da fotografia e da arte como um todo. Artista de verdade não se permite ao mais do mesmo, ele se arrisca no novo. Ele, o artista de verdade,  desafia os outros a entendê-lo.

Eu sou um artista plástico que utiliza a fotografia como plataforma de trabalho, atualmente produzo vídeos também, e por isso, acredito, observo sempre o que está acontecendo de relevante na arte pelo mundo, mas nunca uso isso como alguma referência para o meu trabalho, ele é plural: sem regras, sem pertencer a alguma escola artística ou fotográfica. Eu absorvi e absorvo conteúdos vindos do cinema, das artes plásticas, do design, da arquitetura, da música e, por último, da fotografia em si. O meu espectro de interesses e de ação na arte é amplo.  Ao tentar ver sempre o novo no banal da vida, ao tentar apresentar uma realidade que só existe na minha cabeça, eu posso errar como posso acertar no meu propósito de mostrar e comunicar com o meu trabalho, que não me deixa cair nas armadilhas da obviedade.

DA – O excesso de informações de toda ordem parece ter tomado conta da contemporaneidade, contribuindo bastante para a banalização a que você se referiu anteriormente. O grande prejuízo aqui seria a padronização dos pontos de vista. Diante desse quadro, a busca por um sentido poético seria um atributo transformador nas mãos do artista?

SILVIO CRISÓSTOMO – Realmente… Acredito que o excesso de informação desinforma, você vê tudo e realmente não está vendo nada. O que percebo também é uma carência  de originalidade nos trabalhos artísticos fotográficos, e, na minha opinião, deveria ser o contrário, já que temos a capacidade de obter informação do mundo inteiro. Ou seja, o excesso ou a facilidade de ter essa informação não quer dizer que o artista (ou o profissional da imagem) se beneficie com isso. Vejo que muitos ficam cada vez mais maneiristas, para não dizer copiadores, são inseguros artisticamente e ficam reféns de “referências” pelo resto da vida. São poucos os que se arriscam e esses são os que realmente deixam sua marca num mundo cada vez mais diluído cognitivamente. O que hoje se chama “releitura” são cópias muitas vezes mal feitas de grandes trabalhos originais. São terminologias que escondem a falta de conteúdo em muitos casos.

Entre erros e acertos, busco sempre um sentido poético para o meu trabalho e muitas vezes me deparo com trabalhos parecidos com o meu, mas que foram concebidos há mais de 50, 60 anos, e isso me leva a entender o que a arte fez como veículo transformador no inconsciente coletivo do mundo. Entender o que é poética visual é essencial para qualquer futuro artista.

DA – Algo que se destaca em sua trajetória é o olhar sobre os espaços urbanos. E é justamente aqui que retomamos aquela noção de resultado poético, capaz de suavizar o caos “civilizatório” que envolve as cidades. O que pensa a respeito disso?

SILVIO CRISÓSTOMO – Eu penso que não suavizo o caos civilizatório, eu o aceito como é. Tento entender os signos do caos urbano. É por isso que a minha poética visual tem um amplo espectro de temas, porque o caos foi disseminado no cotidiano num grau muito além do retorno.  Eu aceito e trabalho isso. Sem o Caos, o meu trabalho não existiria. O Caos é a inquietação. Além disso, eu cresci numa cidade selvagem. A minha inocência foi arrancada em São Paulo. São Paulo constrói no mesmo ritmo que destrói. É uma cidade sem solução.

DA – A série “Não existe amor em SP: São Paulo Descolorida” é prova viva da sua relação com a colossal metrópole. E é emblemático ouvir de você que a cidade dizimou-lhe a inocência. O que você não endossa nessa perturbadora São Paulo?  

SILVIO CRISÓSTOMO – Eu conheço bem São Paulo. Passei três anos andando por toda a cidade (de 2010 a 2012) e só assim pude entender a dinâmica que movimenta a vida de toda aquela gente. São Paulo tem “ilhas de riqueza e prazeres” diminutas, num mar de pobreza cultural e social, e desorganização. O que São Paulo oferece de serviços a qualquer hora, lhe falta em qualidade de vida. Talvez falte qualidade de vida, pois a grande população nem saiba o que a palavra “qualidade” e “vida” signifiquem realmente e por isso não tem interesse em melhorar nada. São Paulo é uma ilusão, ela não deu certo.

 

 

 

DA – Há um teor significativo na obra de um artista quando ele se debruça sobre as questões de seu tempo. E você se enquadra bem nesse território quiçá pantanoso. Nessa travessia, consegue vislumbrar algum sentimento de libertação?

SILVIO CRISÓSTOMO – Acredito que se o artista não é contemporâneo, é ultrapassado. Se ele não entende a dinâmica do seu tempo, é ultrapassado. Ultrapassado no sentido de datado, “já feito”, cópia da cópia, etc. Veja, estamos falando de um olhar que apresenta um mundo que é uma leitura particular de quem o faz. Portanto, se o artista não consegue “ler o hoje”, com certeza ele parou em algum lugar lá atrás e talvez por isso deixe de ser criativo e vire maneirista em seu estilo.

É difícil falar se liberta ou não. Não sei dizer. Sei que a partir do momento em que você mergulha e se aprofunda na sua temática, mais você sabe e mais você cria. O perigo é ficar preso sempre na mesma temática por não saber acompanhar o mundo ao redor.

DA – A plasticidade de alguns de seus registros deixa marcas densas, sobretudo no que se refere ao olhar sobre pessoas. Como é perceber o outro diante desse pacto silencioso de aproximação?

SILVIO CRISÓSTOMO – O indivíduo que mora nas grandes cidades, ao meu ver, não manda na cidade. A cidade manda nele. O concreto, o carro, os impostos, normas mandam nele. É uma grande ilusão achar que existe uma real liberdade em parte alguma. Nós criamos uma máquina de repetição de fazeres monótonos incríveis e São Paulo é a grande referência. Por isso, eu ainda não fiz realmente uma série de retratos “clássicos”, em pb… aquelas coisas. Eu não encontrei um tema que  me animasse, que fosse original e que não falasse da pobreza, desgraças, pessoas ou mazelas de qualquer tipo. Esse tipo de trabalho já se esgotou e, mesmo assim, ainda é exposto em galerias, publicados em revistas, etc. Por isso, talvez, quando retrato pessoas, na maioria das vezes elas estão desfocadas, borradas, saturadas, nunca “limpas”. O mundo não é assim, e duvido que exista uma vida assim… limpa. Transformar um retrato de uma pessoa comum numa obra de arte não é para qualquer um, mesmo porque quem define isso é o mercado e não o autor, e nesse ponto a banalidade toma conta ao retratar a vida lá fora. Há uma falta de talento gigantesca hoje em dia. As minhas fotos de pessoas, não considero que façam parte de nenhuma série, eu diria que são experiências estéticas em busca de algo original na minha poética.

DA – A sua experiência com o jornalismo assinalou caminhos importantes para seu trabalho?

SILVIO CRISÓSTOMO – Acentuou a crítica, a percepção de que a presumida verdade pode ser mostrada por vários pontos de vista e, ainda assim, não ser a verdade. Estudei jornalismo para aprender a ler o meu mundo. Eu diria que ele está presente no prazer de andar na rua e entender como “ler” o entorno. Está na crítica visual, dentro da poética que trabalho.

 

Sílvio Crisóstomo / Foto: Clo Lainscek

 

DA – Esse caráter poético não lhe afasta também de uma perspectiva documental. O resultado é interessante porque sugere um viés antropológico de observação.  Nesse contexto, a intuição fez a diferença?

SILVIO CRISÓSTOMO – Uma intuição baseada na necessidade de apresentar um mundo já insuportavelmente gasto, usado, desmerecido, me referindo a São Paulo, onde o trabalho foi construído. Trabalho poético visual construído sob um olhar destituído há muito tempo da ingenuidade que muitos profissionais e iniciantes na fotografia tem ao (no caso deles) retratar uma cidade, e, por isso (mais uma vez), a repetição da banalidade visual acontece. No início, eu também era ingênuo visualmente: a linguagem, a poética, a crítica, a leitura arquitetônica e o conhecimento estético não estavam interagindo. Eu estava mais preocupado com os ditames da fotografia e menos com o que realmente sabia e poderia fazer. Escolhi ser “Eu”. Quando se anda muito pelas ruas, e você faz isso durante muito tempo, com o intuito de conhecer (e encontrar) algo que sabe que existe, mas não sabe onde está, você é profundamente afetado pelo meio, reconhecendo seus signos e a repetição inútil e sem sentido na maneira de se viver que a cidade imprime nas pessoas. Somando isso com uma necessidade de criação visual, de  criação de uma linha poética e de criticar o cotidiano pela improvável beleza e total banalidade de certos elementos urbanos, eu mergulhei nesse objetivo, e, a partir dele,  fui me entendendo como pessoa cada vez mais.  São Paulo só passa a ser uma cidade boa para se viver se você conseguir andar de olhos fechados. Nesse sentido é antropológico, sim.

DA – Sobretudo nesse ambiente chamado pós-modernidade, diria que a transgressão é o instrumento mais precioso de um artista?

SILVIO CRISÓSTOMO – Não diria “transgressão”, pois o artista não está fazendo de errado, e sim o que ele acredita que seja o correto no e para o trabalho dele. Eu concordo com uma frase dita por uma grande amiga: hoje a melhor coisa é ser marginal. Se quiser realmente ser artista, tem que ser marginal. Marginal no sentido de não seguir regra alguma, de não fazer o que todos fazem, de não se preocupar com um grupo, com uma escola artística. O mundo está tão diluído, tão fragmentado, que ser autoral, experimental e independente, sem abrir concessões, é uma transgressão inaceitável nos círculos do mercado da arte.

DA – Em meio aos caminhos marcados pela inquietude, quem é hoje Silvio Crisóstomo?

SILVIO CRISÓSTOMO – Enquanto pessoa, estou em constante mutação e se eu me definisse, seria contraditório. Como artista, sou um produtor de poéticas que busca temas universais inquietantes, muitas vezes numa linguagem acessível para o grande público, sem, no entanto, corroborar com os ditames estabelecidos na comunicação em geral. Se a arte está no mundo, ela é de todos para todos. E se a vida não basta, como disse Ferreira Gullar, a arte é essencial para dar sentido a esse mecanismo efêmero. Crio na medida em que certos assuntos ficam insuportáveis para mim. A criação surge dessas emoções. Eu não suporto criar “sem autoria ou título”, tenho a pretensão de corromper… é isso.



 

 

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86ª Leva - 12/2013 Destaques Olhares

Olhares

Delicados sopros

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Bruno Kepper

 

Em qualquer recanto de nossa tenra existência, há sempre espaço para o sublime e toda a sua intrincada dose de mistérios. A tenacidade dos dias, longe de representar uma mera contagem temporal, mostra que a dinâmica das coisas abriga a teimosa ciranda das revelações. Assim, nossos estados de alma costumam governar as veredas do olhar, apontando modos de se experienciar essa colossal aventura intitulada vida.

Talvez seja dada a poucos a façanha de percorrer as entrelinhas do mundo e enxergar para além de toda carga aparente.  Conduzido pelos caminhos do fotojornalismo, Bruno Kepper transita à vontade nessa perspectiva de perceber seres e lugares. Muito do olhar desse jovem fotógrafo se alimenta dos traços do cotidiano, arregimentando histórias presentes em universos particulares de vida.

Seja nos recônditos de uma metrópole qualquer ou na captura de aspectos da natureza, Bruno traz em si uma vigorosa via de contemplação das formas. É como se cada lugar, pessoa ou animal ganhassem amplos e novos significados. A possibilidade de apresentar um mundo sob suas mais variadas nuances posiciona os olhares do fotógrafo numa especial condição de observador paciente de um tudo.

Foto: Bruno Kepper

Sem a interferência que agride a naturalidade das coisas retratadas, Bruno prefere trilhar um passeio incólume, compactuando paulatinamente com a fidelidade que emana de tudo aquilo que lhe move a visão. Com tal atributo, o artista nos apresenta algumas séries bastante especiais, como a sua incursão pela vida selvagem das ilhas Galápagos e os registros de pessoas dormindo no berço abissal de São Paulo.

Nascido na capital paulista, Bruno Kepper vivencia outras tantas formas de expressão. Em sua trajetória, desenvolveu trabalhos ligados a eventos, viagens, retratos e vídeo. Formado em jornalismo, ingressou também na Escola Panamericana de Artes, onde estudou fotografia.

Cada temática explorada pelo fotógrafo demonstra que o subjetivismo do olhar é capaz de descortinar outras esferas da percepção. Ao passo que traz à tona seu peculiar modo de vislumbrar a vida, Bruno instaura em nós uma profunda identificação com a simplicidade das coisas, todas elas diluídas nas densas ranhuras do cotidiano.

Foto: Bruno Kepper

* As fotografias de Bruno Kepper são parte integrante da galeria e dos textos da 86ª Leva.

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76ª Leva - 02/2013 Destaques Olhares

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RITOS SILENTES – A SÃO PAULO DE SILVIO CRISÓSTOMO

Por Fabrício Brandão

Foto: Silvio Crisóstomo

 

Tudo um mar de saliências e reentrâncias. Tudo a cortina invisível que paira sobre almas. Na vastidão da matéria, um imperceptível fio das horas vai alimentando espaços, perscrutando os becos do homem. Há uma curiosa ordem no silêncio ruidoso da metrópole. Ainda uma São Paulo que desampara e repulsa os seus. Ainda uma cidade que apascenta sonhos, fugas, delírios e bebe os prazeres da cosmovisão. Em meio a isso tudo, o olhar do fotógrafo, num contínuo ato poético, varre as alamedas do despercebido.

O andarilho da luz em questão é Silvio Crisóstomo, dono de um olhar que subverte o óbvio e o torna caminho viável da criação. Sua trajetória na construção das imagens nem de longe se presta a representações exasperadas do real. Interessam-lhe mesmo as esferas sutis que seres, lugares e atmosferas de abstração ousam descortinar por entre os dias.

Foto: Silvio Crisóstomo

Silvio é um ser de espanto na medida em que transita errante por uma cidade e seus tons repletos de mistérios. Ele mesmo revela não ser um apaixonado por São Paulo. O resultado disso é um comportamento que lhe rende uma observação isenta de afetações e deslumbramentos. Por suas lentes, a lira colossal paulistana compõe um vasto painel de estranhamentos. E é assim, com resignado afastamento afetivo, que a selva de pedra reina sublime e nada usual nos registros do artista.

Nascido em Maceió, Alagoas, Silvio reside em São Paulo desde a mais tenra idade. Atraído pelo imprevisível, seus trabalhos assumem um caráter essencialmente intuitivo, sem amarras pré-definidas e com o gosto incessante pelo mistério encerrado nas coisas. Admirador de fotógrafos como Andreas Gursky e Thomas Farkas, revela que suas maiores referências estão nas artes plásticas e no cinema. Em seu caminhar, estão inclusas diversas exposições e eventos.

Foto: Silvio Crisóstomo

Ao percorrer a maior cidade da América Latina, Silvio Crisóstomo fala-nos também de uma megalópole estrangeira a muitos de seus naturais. Uma espécie de vazio impresso pela dinâmica corriqueira dos habitantes emerge dos rastros civilizatórios. E em meio à sinfonia de concreto, regida pelas mais variadas perspectivas de intervenção arquitetônica, pulsa, ainda desconhecida e neglicenciada pela voracidade da pressa e do imediatismo, a poesia escondida das horas. A cada um, por seu curso, é dado lê-la.

 

 

* As fotografias de Silvio Crisóstomo são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 76ª Leva