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140ª Leva - 07/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Foto: Cristiano Xavier

 

deixa o sol curar as cicatrizes de inverno
o céu cinzento verte das veias,
abre golpes nos poemas suburbanos.
olhos sem fogo engolidos em noites
que são rastos, que são desordem
que são pictogramas imóveis
na linguagem corporal.
deixa o silêncio relatar as memórias,
os poemas que surgem em sonhos
e que surgem nos bares, oferecem um cigarro
oferecem uma cerveja caseira
num fôlego sem pátria, sem fronteira,
sem bandeiras hasteadas na existência.
sentamo-nos numa ponta da eletricidade
e acabamos a comer shaobing
a ayi tem um rosto claro,
ilumina a escuridão do pensamento
trago os dedos gelados à boca
em breve acordarei em casa.

 

 

 

***
 

 

 

Portugal é um segredo escondido na garganta,
é um licor muito forte entre os músculos e o poema.
livros enevoados desdizem a lógica subterrânea do medo.
um homem que amei encontra-me em espírito ainda viva
como o Genji encontrou a Sra. Rokujo.
voa em direções contrárias à minha personalidade.
o poeta organiza os enigmas em forma de dorso
para manter o segredo
mas a Murasaki escreveu a história da minha vida há um milénio.
a viagem do espírito fez-se num Boeing 777.
acima das nuvens, não vejo horizontes.

 

 

 

***

 

 

 

tenho um animal sentado entre as sílabas,
ruge pela estética
trouxe-o no avião comigo para a China.
caminha pelos anéis da cidade,
fareja o nevoeiro de agosto,
pontua os poemas.
cresce silencioso no ventre cego
até à Cidade Proibida
onde vai dilacerar impérios
e invadir noites inteiras.
trago um animal que lateja pelo esgotamento
abre-se em forma de esfinge,
esconde-se entre as fissuras urbanas do poema.

 

 

 

***
 

 

 

ela deita-se todos os dias contra a própria boca
como um arquipélago imóvel,
o nome ancorado ao desafio,
as pernas abertas em forma de espelho.
todos os clientes são válvulas:
deixam-na abrir-se ou obrigam-na a fechar-se
deixam-lhe no quarto turbulências –
por vezes não sabe se é carne ou se é um contentor.
quartos inteiros de sémen em todos os pesadelos
corpos mergulhados em si mesmos
é um crime definitivo
que não sai com as lavagens,
mesmo que se lave sete vezes por dia.
“vagina de betão”, descreve-se, como ao resto da cidade.
por vezes fala de uma criança que lhe mora na garganta
nascida numa vila em Sichuan,
garante que é ela quem chora convulsivamente antes de dormir.
da janela do motel lê “Crescimento Pacífico”
e é assim que se deixa estar,
crescendo apenas
até desaparecer.

 

 

 

***

 

 

 

entro na biografia das ruas,
desaperto o vocabulário,
falo um mandarim rouco
como a forma do sino na torre.
Gulou dança elétrica nos nervos dos forasteiros,
artistas nas veias da noite
olhos violentos no êxtase vagaroso
das linhas de metro.
um velho come uma chuanr
enquanto outro velho a cospe, audível
cuspo também o peso sinistro
da mulher que vende cigarros,
há uma claridade que se desaperta do seu rosto
é um néon sinográfico,
hutongs gravitam em torno das árvores
que gravitam em torno da confusão dos turistas.
um Bentley bloqueia o estreito caminho
que vai dar à casa onde o poeta se embebeda.
ainda não é meia noite, mas já há música
endireitamos a cobra que nos desce da respiração
e lembramos que ainda é dia no país de onde viemos.

 

 

 

***

 

 

 

fala mais alto acerca das estratégias de sobrevivência
para que a criança te possa ouvir.
fala da forma como os dedos de prata genéticos
podem ajudá-lo em dias confinados
às ambições das outras pessoas.
nós somos tão fortes quanto a repetição
dos dias que aceitamos.
tu estavas a brincar com os teus amigos
e o pequeno Xu bloqueou-te passagem –
ele achava que era uma cortina.
ora, se ele fosse realmente uma cortina,
ficavas assim tão zangado?
anda para a mesa da cozinha
antes de nos começarmos a conhecer
e não tenhas inveja:
somos muito menos estrangeiros do que
o homem à porta com as encomendas.

 

Sara F. Costa nasceu em 1987 na Vila de Cucujães. Licenciou-se em Línguas e Culturais Orientais pela Universidade do Minho e tirou o mestrado em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin. O seu último livro “A Transfiguração da Fome” obteve o Prémio Literário Internacional Glória de Sant’Anna para melhor obra de poesia publicada em países de língua portuguesa em 2018. Tem poemas traduzidos e publicados em publicações literárias um pouco por todo o mundo. Faz crítica literária e traduz poesia chinesa para português. Coordena eventos literários no coletivo artístico internacional Spittoon.

                        

 

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127ª Leva - 05/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Ilustração : Ana Matsusaki

 

Se os poetas são melancólicos

 

é porque o mar se desfaz no nosso ventre
como um deserto intemporal
espalhado pelas vísceras
de cada sílaba.
não me acuses de melancolia,
quando na representação da realidade
as vozes dos peregrinos
são arrepios escritos entre a pálpebras,
a melodia infinita que se esvai em sangue
quando ligamos o spotify.
hoje à tarde vou ser poeta outra vez
e amanhã vou ser mar,
depois deserto de vertigens.
dá-me uma metáfora que me salve a vida.

 

 

 

***

 

 

 

Na capital

 

de avental, à espera de limpar a casa
ou este labirinto inteiro a que chamo casa.
a limpeza deverá ser profunda,
mas como conseguirei vir à superfície,
debater-me contra todo este tédio de musgo.
sinto-me a afogar em cada lembrança de ti,
sei que vou ver-te mas espero até lá
já ter tudo limpo.
a capital é lírica
como o voo longínquo entre nós
como a tensão de bruma
ou o desencanto inevitável
entre nós.
deixei-te umas quantas mensagens sem sentido
quando estava sob o efeito das benzodiazepinas.
quero esconder uma paixão atrás de outra paixão,
atrás de outra paixão para que ninguém me veja.
mas a evidência da minha insignificância
mistura-se com o pó da casa:
discreto mas tóxico.

 

 

 

***

 

 

 

Lugares

 

este é um lugar de acidentes,
objetos arrefecidos no esquecimento.
esta é uma voz de vidro
que corta a paisagem.
queria ser a resposta às tuas perguntas
mas o açúcar das horas drenou a linguagem.
o lugar deste texto é entre a insónia e Cesariny.

 

 

 

***

 

 

 

São os teus gritos leves e radioativos,

 

são as tuas têmporas de aço
e os testículos idiomáticos dos teus poemas.
deixa-me sobreviver naturalmente
à vida furada que trazes às costas
podemos fazer planos
à volta da luz do medo
mas a vida é curta e a escrita é extensa
este é um nome que espreita
de todos os poros do meu corpo
o teu nome e o de outros animais
o ritmo desconcertante da espera,
as chamadas que rejeitaste,
os dedos transfigurados
pela radioatividade.

 

 

 

***

 

 

 

Doutora Fedúncia

 

vou escrever este poema com o que restar da culpa,
das várias culpas que vamos deixando amadurecer
junto à carne até que brotem raízes de luz
na escuridão que todos temos atrás dos olhos.
este é um poema responsável
sabe estar,
sabe mais do que
a imaturidade dos títulos porque a doutora sabe que
os nomes de código que a mulher da limpeza nos oferece
num ato de generosidade
são as alcunhas miseráveis
que melhor nos definem,
somos nomes de código que nunca saberemos
em bocas de consistência aleatória.
aquilo que nos chamam,
aquilo que os outros secretamente nos chamam
isso é que devia figurar na lápide.

 

 

 

***

 

 

 

Se precisares de mim,

 

sabes que estou disponível entre a faca e o coração,
o verão é incerto mas a minha mão
tem sempre o suor dos pulmões
sabes que a vida é simples
mas os movimentos da terra são longos.
hoje despeço-me de ti
vamos fumar a noite uma última vez
esconder-nos nas trevas que nos afastam,
nos símbolos que não nos pertencem,
nas religiões que nos separam,
a uma distância continental.

se precisares de mim
estarei no fogo e no sangue,
estou nas entrelinhas das coisas
que nunca deixaremos de partilhar.

 

 

 

***

 

 

 

Transfiguração da fome

 

escrevo ritualisticamente sobre as omoplatas da folha,
e há estrelas de solidão entre as palavras.
ao pernoitarmos na montanha do século
fomos adiando a terra
entre os aromas frágeis dos gestos.
há carne noturna nas nossas vozes,
impérios de tortura
e amigos tenebrosos.
perguntas-me se confio no furor do tempo,
quando sabes que a nossa glória
não passa da transfiguração da fome.
há um caos que irrompe da espera
e uma espera luminosa
nos espelhos provadores.
a tua ausência infindável
escorre desta folha.

 

Sara F. Costa (1987) nasceu em Oliveira de Azeméis. É licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem recebido vários Prémios Literários nacionais na área da poesia.  De momento reside em Pequim. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Pé de Página editores, 2003); “Uma Devastação Inteligente” (Atelier Editorial, 2008); “O Sono Extenso” (Âncora Editora, 2012); “O Movimento Impróprio do Mund” (Âncora Editora, 2016) e “A Transfiguração da Fome” (Editora Labirinto, 2018).

 

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103ª Leva - 06/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

 

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Ilustração: Caroline Pires

 

As regras de Tagame

 

senta-te na vida
como no suicídio,
somos feitos de metal febril,
responde-me com a garganta iluminada,
és o espectro nómada
das noites que passo com o tagame,
um Rimbaud cansado
já aos quinze.
existes-me nos becos sinuosos
da mente, não sei se
o teu espírito rodou pela direita ou pela esquerda
mas foi Dante quem te ensinou a subir montanhas.
ainda não consegues compreender
o esforço que Max Brod fez para divulgar Kafka depois da sua morte.
és a penumbra secreta
quando te vigio a morte.
um amigo nas trevas
que percorre caminhos transparentes
onde a solidão se transforma
na música demorada dos teus pensamentos.

 

 

*** 

 

 

 

Há uma luz selvagem

 

há uma luz selvagem que me percorre o nome
e que enlouquece lentamente
no interior húmido da memória.
o espaço da voz
expande-se até à idade irrespirável dos objectos.
sento-me a observar a praia
e a forma como a água tem medo de se aproximar demasiado
e pousar nas perguntas.
as pálpebras escorrem-me até aos nervos.
há um frio insuportável na passagem escorregadia das horas
no gesso de cada nome,
e um sítio febril onde a inteligência consegue deteriorar
todos os vestígios decifráveis de vida.
cada nome, no interior imóvel do seu ventre,
no sangue fervido das noites,
transporta uma luz pesada,
impronunciável.

 

 

 

***

 

 

 

Cheguei demasiado cedo

 

ao colo da floresta,
quando falei,
falei extremamente baixo
sobre as mitologias
da linguagem.
se alguém me ouviu
foi porque este oceano pedestre
a que chamas existência
me deixou mergulhar
nas vertigens dos campos.
deixa-me conduzir
esta voz

até à intimidade do céu.

 

 

 

***

 

 

 

Anuncie aqui

 

anuncie aqui,
temos o que procura,
clientes de existências quentes,
astros estendidos no comprimento da boca.

anuncie aqui a sua solidão
o seu medo assimétrico,
o seu bom coração.

havemos de lhe encontrar
alguém sensível
com ossos audíveis,
botões em zonas estratégicas,

onde pode parar ou começar
os violinos,
as cortinas,
a paisagem.
a cortina paisagística
e um soneto capaz de cobrir a visão.

anuncie aqui
e anuncie ali
quanto mais se explorar
mais hipóteses tem de ganhar.

tudo amadurece,
até o silêncio
aquele que ressoa por esta febre
febre que se arrasta pelo poema,
poema que se verga
para o seu interior de mar.
as rosas brotam
o leite envenenado
dos nossos direitos mais antigos.
o avião transporta o peso
da luz
e a água da manhã atravessa
o brilho abandonado das mulheres
selvagens que te tecem o sono.
amanhã as fábricas recomeçam
a queimar os seus mortos
e deus ressuscitará entretanto.

 

 

***

 

 

 

A conquista da Polónia

 

a tua fala loira desdobra-se em pedaços brancos de pele
esta música goteja com o teu sangue,
o apetite dela do tamanho do meu.
orgulho-me das tuas veias tão salientes,
da altura assustadora dos instintos.
chove por dentro do desejo
e eu quero enterrar-te ainda esta noite,
quando passar o próximo comboio
terei o teu peito molhado,
os teus ossos transpirados
por aquela vontade de viver
mas antes do comboio passar
navegarei na tempestade azul dos teus olhos
e terei os teus lábios gelados
como o norte,
sentir-me-ei a rainha da Polónia.

 

Sara F. Costa (1987) Natural de Oliveira de Azeméis, Portugal. Licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho e Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Prêmio Literário Serra da Lousã, Pé de Página editores), Uma Devastação Inteligente (Prêmio Literário João da Silva Correia, Atelier Editorial) e “O Sono Extenso” (Prêmio Literário João da Silva Correia, Âncora Editores).