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125ª Leva - 03/2018 Gramofone

Gramofone

Por Saulo Dourado

 

SAMBA DE RODA ESMOLA CANTADA DA LADEIRA DA CADEIA

 

 

“À margem do Paraguaçu, grande rio, grande alma vivente que nasce na Serra do Ouro do Monte do Cocal, desce serpenteando e deságua na Baía de Todos os Santos…”, declama Mateus Aleluia na quarta faixa do disco Samba de Roda – Esmolada Cantada da Ladeira da Cadeia, lançado no fim de maio em Cachoeira. Ele, o belo tincoã, foi o convidado especial deste grupo que começou há 60 anos para pedir, de casa em casa, doações aos festejos em louvor à Santa Cruz e que agradeciam aos generosos com sambas. Hoje, misturando a primeira geração de cantadores com uma nova, a Esmola Cantada reúne os moradores da Ladeira da Cadeia, esta subida em pedras de fogo ao lado da Praça da Câmara Municipal, que vivem com a vista panorâmica da cidade e um convívio de vizinhança de porta, para continuar.

O álbum, todo ao vivo, produzido por Alan Lobo com apoio do Fundo de Cultura da Bahia, tem o primeiro mérito de expressar a energia do samba de roda em forma gravada: os instrumentos de corda delineados com os cavaquinhos fortes, as vozes entre tons de ladainha e de cantos de roda, a “gordura” mesma da música como é e se faz. Afinal, a música de raiz não deve ser registrada apenas enquanto memória e preservação, mas mostrar o ânimo alegre e fazer dançar. Tocar cantigas do Recôncavo como Flor de Laranjeira e Cachoeira e Muritiba dá vontade de arriscar passos com as mãos na cintura. Fazer um disco de samba e não uma compilação de patrimônio é um mérito de direção (Claricio Marques) e de gravação e mixagem (Braulio Passos e Sandro Mascarenhas), que aqui se atinge.

 

Esmola Cantada / Foto: Lavínia Conceição

 

O segundo mérito é a composição. A maioria das faixas é de domínio público, alguns são clássicos como Retrato da Bahia, de Riachão, Maracangalha, de Dorival Caymmi, Quem Samba Fica, de Jamelão e Tião, e outros títulos são de membros atuais do grupo, Na Margem do Paraguaçu, A Viagem e Esmola e Cachoeira. Destaco esta última canção como uma música vivíssima, tão ligada à sua tradição que, mesmo autoral e atual, é como se tivesse sido feita desde sempre no Recôncavo. Um samba gostoso todo refrão. A compositora é Bety, quem também a interpreta, que mostra um talento melódico para se pedir mais. “No samba miudinho, ô pra levantar poeira lá em Cachoeira. Entre na roda de samba da Esmola Cantada de Cachoeira…”.

O terceiro mérito é a presença de Mateus Aleluia, como já foi dito, mas não detalhado. Nas três faixas em que ele se apresenta, a percussão já muda – seja para um tom mais grave, ancestral em Na Margem do Paraguaçu ou acelerado em Raposa e Guará -, e as vozes ganham várias camadas, cujo coro é um lençol sobre o qual a sua voz se movimenta. Com as interpretações de um cancioneiro popular, também em Cantigas de Cosme e Damião, é possível sentir um griô a narrar uma história de bichos e gente, com um segredo por trás.

Com a Ladainha de Abertura (“Nos abra a porta, devoto!”) e a Ladainha de Encerramento (“Senhora dona da casa, é hora da despedida”), entre uma hora e quinze minutos de roda incansável, temos a sensação que também nós fomos visitados. Bateram à nossa porta pedindo um pouco do que temos, com a cruz, a bandeira, as fitas, os chapéus e as saias, e nos agradeceram com música. A casa é vossa. Assim o samba popular prossegue por força própria, e na mesma fonte em rio corrente que toma a Pedra do Cavalo, passando pelo Subaé, é claro, continua-se a alcançar quem chega e a ganhar criação.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Lúcida distração

Por Saulo Dourado

 

 

Temos Vagas é o título do primeiro poema de O Exercício da Distração (Penalux, 2017), de Kátia Borges. A escolha da entrada funciona como um aviso na porta: aqui o preço do feijão cabe no poema. Se em Não há vagas Gullar reclama que a poesia só traz “homens sem estômago”, a primeira parte do livro de Kátia se chama “Como se fosse o órgão vivo”. Mas a sutileza e a transmutação é que o órgão vivo também é o próprio poema. Em O gourmet momentâneo, versos de Margaret Atwood estão em papel amassado, no meio de uma aula, “passados em mão em mão como se fosse o órgão vivo”. O ciclo se completa: a poesia, qual um contrabando no mundo oficial, a um só tempo evidencia o cotidiano e se torna outra coisa, reinventando-o.

Outras referências a autores aparecem quase página a página. Poderíamos chamar de intertextualidade, se nesse O Exercício o tema da saudade e da ausência não aparecesse com tanta frequência. Como muitos versos parecem conversas com pessoas ausentes, o uso do contato com outros autores parece também um bate-papo com uma gente que não está ali, ou seja, gente como Quintana e Bandeira seriam conhecidos íntimos que deixam saudades como os amados e os amigos da vida do eu-lírico. O cotidiano na poesia de Kátia Borges assume assim o diálogo permanente com pessoas invisíveis, e o seu olhar as traz para a presença, as coloca ao lado da pedra na praia. Odisseia mostra:

 

Já não espero teu regresso
enquanto teço – a beleza
servirá para os que chegam
ainda que inalcançável
aos que retornam.

Há certa Ítaca intangível
em meu peito
que não se demora.

Um segundo e verte-se
vórtice inatingível
em Itaparica – e na dura
pedra fria dos dias deposita
seus destroços.

 

Há uma tendência ao imaterial, ao universal – uma “certa Ítaca intangível” -, mas que logo se verte e se toma pela realidade mais imediata, ainda que pior, fria e destroçada. É uma decisão de conduta que faz desta distração não uma fuga, um alheamento, um devaneio para sair do mundo tal como é, e sim o aproveitamento das brechas das coisas para trazer o “inatingível” para cá, do céu das ideias para as águas do tempo e das águas para o solo da vida vivida. Se na primeira grande sequência de poemas podemos sentir às vezes ainda o peso do Intangível, e algumas oscilações em Cais e A dor fantasma com desejos contraditórios por um mundo que não está aqui, a partir de Alegria Alegria a poesia de Kátia escolhe a vontade de enxergar ao redor (com a ironia, claro, de “perder os óculos na bolsa” e só encontrá-los nos “cabelos”).

A partir do verso “Nada no bolso ou nas mãos” – que foi um desprendimento para Caetano Veloso em relação aos deveres de sua época, já uma citação d’As Palavras, de Sartre, no qual o filósofo se entende liberado de sua neurose burguesa enquanto busca de ser um homem de exceção -, Kátia se descontrai. Seus versos ficam mais cheios de coisas, justo porque é preciso perdê-las. “Imersa, sigo firme/no exercício que me atrela/a este ofício: perder coisas”. Para perder é preciso estar em permanente contato, sentir, pegar, observar, escolher. É a partir daí que seu olhar pelo cotidiano assume o seu ponto mais alto, e longe da banalidade ou do excesso de idealismo, alcança o meio.

Se o poema Odisseia condensa o primeiro movimento do livro, o singelo Pragmatismo poderia representar o segundo. “Tenho me ocupado com coisas práticas./Se há água ou não há água no pote do cachorro”. Ao descrever acontecimentos de um dia, com o cão cego, as pistas de skate no Jardim dos Namorados, sente-se a vida ali, e o que poderia ser a burocracia do dia-a-dia é, com uma disposição de espírito maior, a própria vida. Os versos finais trazem o segredo e quase pedem a cumplicidade do leitor: “Às vezes penso que seria bom ter um cágado,/daqueles que se escondem durante anos debaixo dos móveis,/de modo que fosse sempre necessário procurá-lo”. Como no poema Infância de Drummond, a própria história se torna mais bonita que a de Robinson Crusoé.

A terceira parte de O Exercício da Distração traz um título autoexplicativo: As Pequenas Vilanias da Cidade. É quando o cotidiano público, visível nas calçadas, marquises e praças, é feito de tristezas e brutalidades. Na lida diária da cidade, a rotina é forte, as ruas não perdoam, a noite por vezes é indigesta. O eu-lírico, que poderia se distanciar das cenas como um mero olhar externo, poetiza uma relação imbricada com o que vê, e faz de seu sentimento o sentimento da cidade, e vice-versa, a exemplo de “A Praça da Piedade”.  Um blues da piedade? Seus poemas tornam-se mais próximos ao rock, letra, música e referência, como já é uma marca em outros livros, Balada de Janis (P55, 2010), Ticket Zen (Escrituras, 2011) e São Selvagem (P55, 2014). Se nos livros anteriores já estavam o rock’n’blues, o I ching, a proteção de Arcanjo Miguel e “o preço do feijão”, em O Exercício de Distração os poemas ganham ainda mais em precisão, visão de mundo e imagem.

Em The End, poema final do livro, tal qual na música de mesmo título dos Beatles no Abbey Road, o livro compreende seu caminho e seu sentido de distração:

 

essa vida que sabemos sem lugar,
posto que o coração não se publica
nos murais, é ócio diluindo o sangue,
manchetes sem fundo
de verdade, qualquer distração
que agrade a audiência.
Sobre o tempo, não sou dessas.
Quando desço a Contorno,
a beleza me golpeia feito o vento.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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121ª Leva - 06/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Cidinha da Silva e a crônica como ato de nomear

Por Saulo Dourado

 

 

Números sobre a mortalidade negra no Brasil estão à disposição para quem quiser buscar e se inteirar. Gráficos, porcentagens, tabelas comparativas, que mostram o mapeamento de homicídios, um dos mais graves do mundo. Dos 30 mil jovens assassinados em 2012, 77% são pretos ou pardos, diz a Anistia Internacional. A CPI do Senado de 2016 conta que, a cada 23 minutos, um homicídio de mesma ordem acontece no país, e não há sinais de diminuição. Nas chacinas, autoridades discutem quantos foram os massacrados afinal, com 1 ou 2 a mais ou menos, como um placar.

O livro #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016), de Cidinha da Silva, traz os dados e as evidências das mortes físicas e simbólicas de toda uma população, mas os ultrapassa: dá forma e nome aos números. Afinal, com valores absolutos se consegue convencer a razão daquilo que deve importar, mas não o afeto. Quanto mais se banaliza em ofício e em notícias um acontecimento, menos o sentimos, e disso é preciso curar-se. Como antídoto, devemos entrar no particular e no miúdo para que fatos se conectem de novo às tripas e às mãos, para o sentimento e para o rebote.

A crônica tem um papel fundamental, o de tornar especial uma pessoa e um acontecimento a ponto de formar o elo de sentimento entre o particular e o todo. Eis o gênero literário que Cidinha da Silva conduz com ritmo e amplidão, e o mote que ela alcança. Seus textos dão nome, corpo e presença: Maria Julia Coutinho, Sueli Carneiro, Taís Araújo, Lázaro Ramos, Mirian França, Antônio Pompêo, Luiza Bairros, Aranha, Claudia da Silva Ferreira, Livia Nathália, Liniker… Em uma crônica sobre a postagem de Fernanda Lima que elogia as empregadas domésticas como “batalhadoras”, há uma pergunta pontual da autora: “E por que não pôs os nomes dessas mulheres?” Por que seriam anônimas batalhadoras, e mais uma vez todo um povo ser uma massa anônima? Esta reivindicação percorre o livro: a de tirar a mortalha da despersonificação, causa e efeito do prosseguimento de um genocídio.

Ao contrário da Odisseia de Homero, em que o herói Ulisses se salva de Ciclopes ao se chamar Ninguém, na realidade brutal e de negligência institucionalizada as quais vivem o povo brasileiro, aquele que for Ninguém, pelo contrário, é o alvo fácil. Não se trata de cada um ascender e se tornar Alguém para salvar-se; trata-se de narrarmos e escutar as narrativas dos nomes, como um princípio, para que o Alguém seja por princípio dignidade, e não camadas de ocultação e cinismo, como é no Brasil. “É preciso ir mais fundo”, diz Cidinha em Desde dentro, “É preciso ouvir a estas e a milhões de famílias desde dentro, desde antes das tragédias anunciadas (…) É preciso olhar com os olhos de ver e ouvir com ouvidos de escuta. Desde dentro.”

Os assuntos de #Parem de nos matar! são tantas vezes críticas ao lugar da banalidade das informações: as mídias em geral. A princípio, pode-se questionar: se há tantos casos cruéis contra a juventude preta, guerra civil entre policiais e narcotráfico, por que dedicar três crônicas a Maju do Jornal Nacional, programa de uma emissora eminentemente chapa branca? Está diretamente ligado, pois é preciso assistir e cobrar no palco dos afetos, em filmes, partidas de futebol, novelas, palestras, ministérios, àqueles com os quais a comoção, a admiração, os desejos se tornem vistas e refletidas. Eu preciso ver aquele que me faz sentir: eu preciso sentir candura ou raiva, ternura ou desprezo sem elos específicos de corpo e de pele.  Tudo aquilo que dirige os afetos a tornar um massacre um fato menos sensível é cúmplice de seus acontecimentos.

Sem o sentimento, é muito mais fácil esquecer-se e deixar acontecer. Eu particularmente fico contente por este livro ter-me feito passar irritações, náuseas, estranhezas, comoções, raivas e risos, ter-me deixado baqueado em uma tarde de domingo. Quer dizer que há energia de movimento pelas páginas e que passam por mim. Porque sentir é dar força, é vigor de natureza, e nessa dança não há sentimento ruim ou bom, há aquela que provoca o movimento de dentro para fora, a vontade de ser para além de si. Há métodos de ação? Provoca-se a consciência como as crônicas à Carolina Dieckmann e à Patrícia Moreira, ou por marchas, rolezinhos e protestos, ou por dentro das estruturas para refazê-las, como a política em Luiza Bairros, ou a música de Ellen e o humor de Chris Rock na abertura do Oscar. Ou tudo junto, nisto como em tudo que envolvam coletividades e mudanças.

São vários os subtemas dentro de um grande tema, em circunstâncias diversas. O cronista também é um rebatedor: a realidade se lança plural e inverossímil, e a crônica a devolve menos bruta, talvez mais brutal, tangida por olhar e saliva. O cronista cria veículos de sensações e também organiza e interliga acontecimentos, dá linhas de pensamentos. #Parem de nos matar!, então, enquanto uma compilação de dezenas de textos, está sob o desafio de traçar algum caminho, de ligar uma ideia à outra, e ganhar unidade. Consegue. A princípio, pensei que fosse uma ordem cronológica dos acontecimentos, depois vi que era por temas, e talvez sejam os dois movimentos se costurando. Misturou-se a tal ponto que um texto mais denso, como “Tempo Novo!”, que vai do racismo no futebol ao golpe parlamentar de 2016, seja coeso com o belo “Matias e o Boneco de Star Wars”.

Assim, me deixo levar totalmente por uma crônica como “Obituário de uma lembrança”, com a qual me reconheço nas palavras de conselho feitas da autora ao amigo anos antes, e aqui a recorto:

És a primeira pessoa de meu círculo próximo de convivência assassinada e quero que seja a última. Não sei lidar com isso e não quero aprender. Sou fraca e insignificante. Não tenho a força da poeta que declara firme: Dos nove homens de minha família assassinados, sete foram mortos pela polícia…

Cada um dos que se vai nesse massacre é a primeira de algum círculo, é sentido com uma força que não acreditaríamos se apenas o subtraímos ou o somamos. Do contrário, se não conseguimos religar as dores aos sentidos, o que senão as palavras para fazerem a força de ligação? As crônicas, lumiares das pequenezas, indo do cada um para o todo, e do todo para cada um, formam. O livro de Cidinha da Silva reúne.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.