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90ª Leva - 04/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

E pensar que o silêncio é sempre o misterioso senhor a preceder o verbo. Há, por certo, uma carga emblemática nesse intervalo que sugere a criação. Muitas revoluções se processam no interior de quem gesta tanto palavras quanto imagens. Antes que tudo venha à tona, um primeiro estado das coisas emerge enquanto matéria bruta a ser lapidada. Para um autor, nunca é demais fazer operar estágios revisionais de seu pensamento, sobretudo quando está envolto pelo manto da chamada angústia da criação. Nela, ele descobre que deve tentar extrair o máximo de sua possibilidade de visualizar cenários. É algo que se assemelha também a um estado de alerta, no qual aquele mesmo criador tenta, ao máximo, afugentar certezas traiçoeiras. Sendo assim, aquele que se julga pronto é fatalmente trapaceado pelo falsear do tempo. Do mesmo modo, a tentativa, até certo ponto exasperada, de se erguer uma obra monumental também retira de muita gente a capacidade de trilhar os caminhos da naturalidade. E tanto as vias literárias como as da arte necessitam de uma entrega espontânea e pouco projetada das rotas a seguir. Isso não significa suprimir o desejo de se imaginar numa esfera futura da criação, mas apenas conter o ímpeto limitador de alguns devaneios que furtam a mínima noção da existência complexa de um mundo circundante. Tanto no que diz respeito à poesia quanto à fotografia, a obra de um autor como Ozias Filho vem retomar a noção do silêncio à qual nos referimos na introdução destas breves reflexões. E são dois os momentos em que Ozias nos oferta caminhos de compreensão sobre o tema: numa entrevista e nas leituras de alguns de seus poemas agora aqui publicados. Seguindo os novos ventos poéticos instaurados, lemos também Rosane Carneiro, Seh M. Pereira, Fernanda Fatureto, Márcia Abath e Susana Szwarc. No caderno de cinema, Guilherme Preger assume a complexa tarefa de expelir suas impressões a respeito de “Ninfomaníaca”, novo filme do polêmico cineasta dinamarquês Lars von Trier. Múltiplos recortes da existência também vêm se juntar aos contos de Nelson Alexandre, Lisa Alves e Maria Balé. Num convite à leitura, Sérgio Tavares demarca suas impressões sobre “Não Muito”, primeiro romance de Bolívar Torres. O mais recente disco do cantor e compositor SILVA é alvo das pormenorizadas escutas de Larissa Mendes. Pontuando todos os espaços dessa nova edição, o caráter sublime das fotografias de Nathalia Bertazi fala de amplitudes e convergências. Que o produto da criação seja sempre um revelador de espantos e descobertas, caros leitores! A todos, uma 90ª experiência de percepções.

 

Os Leveiros

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90ª Leva - 04/2014 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Seh M. Pereira

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

APROPRIAÇÃO

 

De coração em coração..

Canela fina.
Joelho vesgo.

E os pés inquilinos desapropriados dos sapatos..
Não por ordem de despejo.
Sinal de respeito..

Peço licença e
adentro em corações..

 

 

***

 

 

PASÁRGADA

 

Asa quebrada na minha frente,
passo

por cima..!
sem medo

de bico..
voo

sem pedir esmola..!

Ame
ou apedreje-me..
Sou passarinho

que come pedra..!

Voar

pra não chegar..?
Esquece..!

Só quero minha rota de fuga livre..

 

 

***

 

 

DISPARATE

 

Minhas borboletas no estômago..

Simplesmente,
resolveram se rebelar..!
E sem exigências;

como negociar com esse nosso amor doido..?

 

 

***

 

 

(DES)CAMINHO

 

Perdi minha
certidão
de idade

agora conto
os anos

na gastura dos sapatos!

 

 

***

 

 

RATOEIRA

 

Nosso
Amor

é do tamanho
de um elefante..!

Nosso

amor é
parelho – no sentido
figurado..
Marca

atalhos
inesperados..

Tem medo de ratificação..!

Nosso
amor

é uma pata de elefante,

que
por onde passa
fode tudo..

Mas
todas as formas
de amor

me interessam;
todas..

O amor
é uma ratoeira que tem medo..

 

 

Seh M. Pereira, poeta nascido no ano de 1981, em São Paulo, Capital, publica cotidianamente sua poesia na internet. Participou da Antologia Sarau O que dizem os umbigos?!!  e divulga seu trabalho nos diversos movimentos de saraus da cidade de São Paulo. E-mail: sehmartins.shm@gmail.com.