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128ª Leva - 06/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Sel

 

Foto: Adelmo Santos

 

ODE

 

Canto 1

 

1

que dizer a mais do que já dito
desse obscoso formato, ornamental?!
o que para alguns tem de maldito
a outros certamente de imortal

 

2

qual etna entre tempos se revela
num espetáculo, arco tortuoso
narra a olhos sem pudor sua querela
afligindo até mesmo o virtuoso

 

3

como quem ardendo se exaspera
lança-se’m pensar, ao mar, ao fundo
eu vi dentre mim nascer a fera
errante animal, vil moribundo

 

4

que em seu canto, fresco odor, se enleia
chagando o que chamamos de razão
quanto mais fugir tenta d’ sua teia
mais consome, definha esse brasão

 

5

marca iluminista inda eminente
embora já freud tenha descrito
que esse, subjugado ao inconsciente
fica, apesar do apelo d’ seu mito

 

6

skinner, com objeto bem diverso
ao relatar sobre essa abrangência
nega ao abstrato, neste universo
delegando-o para a contingência

 

7

boltzmann e gödel noutra vereda
tangendo aquele vau impossível
criam o que à lógica faz-se azeda
nau onde o contrassenso é compossível

 

8

nessa via, loucura voluptuosa
em quo acaso ao causo sempre é mote
volvido vou com a agre mucosa
carne na carne, sorvendo o pote

 

9

satisfação que maslow predizia
ser da boa pirâmide a sua base
cuja carência formula uma azia
corpo transfigurado em estase

 

10

mesmo q’ depure, reveja o tema
tal rato rói, e o verme o defunto
esse imã, atroz que não queda, rema
disforme, em massa, rompendo junto

 

Canto 2

 

11

empinado o glúteo, a língua em bis
sua sombra encerrada como cela
o ânus à manteiga simula um xis
bel tango, masoch, eu, marquês e ela

 

12

oposto a descartes, q’ pelo juízo
quis tocar metódico o que é real
a episteme, atribui, sem prejuízo
hume, pro empírico, achando-o leal

 

13

enthousiasmos que em mim só se agrava
afronta pois o ensino d’aquino
o qual ao gênio ofende, deprava
também d’ luther, hipona, Calvino

 

14

se a marx o fetiche é mercadoria
o capital opressor do infeliz
aqui, donx, escravx, em coautoria
convertem a dor no valor motriz

 

15

bem mostra-nos aquela multidão
que no ato com françois observara
sanson primeiro torturar-lhe a mão
tronco, o resto após, a tarde cara

 

16

queimam, vertebras, equus n’alcova
alegorias, comuns arquétipos
homolka, bundy, bodil, malkova
bispanking claire, fados, édipos

 

17

conquanto comece, exija o perfil
mártir, catella, de hermética ou rés
seu molde revira, perfaz-se em til
amiúde, avessa, reviça, revés

 

18

perdoe-me leitor se cá me extravio
abuso das figuras pra aduzir
mas é flama a memória, ou um pavio
ora compraz-me o fluxo e faz luzir

 

19

crua, devassa, nessa contradança
la bruja vislumbra, desfere o fel
de lua, dourada, a bátega, avança
o tédio da última, oblitera, o mel

 

20

harpia, vampir, agita o chicote
agarra, rebuça, esgatanha o osso
oblíqua, carmina, a própria sorte
cava, retrava, profondo rosso

 

Canto 3

 

21

antes d’ seguirmos cabe explicação
ao uso dum termo citado acima
porventura não seja obrigação
contudo dou versão q’ qro que exprima

 

22

se “obscoso” nd encontra, em lugar nenhum
é devido seu viés ‘xtraordinário
obscuro e viscoso agrupados num
neologismo pro vocabulário

 

23

prossigo nesse instant donde parei
co’ a femme fatale a minha frente
que, em frenesi deixou-me, na sua lei
miragem, substância evanescente

 

24

nessa forja onde a pedra amarra o sol
e a legião celebra o próprio fim
ta’ o sábio que na montanha é farol
condenado o dragão ressurge em mim

 

25

este tão logo se manifesta
“venho a ti, e ‘tu deves’ é meu nome”
grito “satã! diabo! mal que infesta!
belzebu! levai p/ lá a vossa fome!”

 

26

ao que sorri e, soberbo, assim me diz
“ouve, compreendo essa tua precaução
porém os que compõem minha matriz
são os mesmos que povoam teu coração

 

27

mil faces tenho e mil faces há em ti”
conclui dessa maneira a sua língua
reajo, então, “vós, de mim, ide, parti!”
“inútil é a ação, nada se míngua

 

28

hidra sou, dessas testas que possuo
fulguram os preceitos que as sustêm
se uma é decepada, duas, sem recuo
crescem no lugar e o ocaso detêm”

 

29

qual dura sonora onde o índio clama
soa, ressoa, atirado sou àquela voz
retorno, a visão imersa em lama
para a mulher que é xama, bruta foz

 

30

mas nesse imo, fragílimo cristal
zona cujas piras não são breves
áspero, esse monstro, sua digital
troa, “tu deves, tu deves, tu deves…”

 

Canto 4

 

31

saliva a besta ao desiderato
enqnto, espreita, essoutro d’ várias tranças
caos sobre caos, causando o substrato
menocchio, sua gênese às lembranças

 

32

degola a mãe, pierre, por compaixão
eu, de mim, um maço que reprime
todavia para ambos a maldição
no cáucaso à ave pelo meu crime

 

33

tecem as irmãs nosso destino
nós, amalgamados, feitos em ser
consoante d’ parmênides o atino
indiviso, omnis, perpétuo haver

 

34

de maneira diferente o devir
heráclito crê real, legifera
conceito que introduz ao perquirir
panta rei, fogo, tudo se altera

 

35

pra tales entretanto em início
a água, da natureza, se traduz
igual fêmea, bravio mar, um vício
líquida nave gera e nos conduz

 

36

já anaximandro o ápeiron insere
valsa invisível como proposta
infinito q’ derrama, (re)ingere
pasta donde a physis é composta

 

37

razoável o ar remeter outrossim
àquilo que transmuta a matéria?!
segundo anaxímenes faz-se assim
o antropo, o mineral, a bactéria

 

38

empédocles afirma por sua vez
que é das quatro raízes essa função
unas com o amor e o ódio em lucidez
tramam da nascença à putrefação

 

39

pitágoras idem inaugura
o número indubitavelmente
p/ xenófones é a terra, assegura
a demócrito, o átomo, “somente”

 

40

inobstante, seja enfim essa arqué
não o noûs de anaxágoras q’ move a idea
destart’, qual dorso daquela em mim é
paisagem, pasto, ninfas ou medea

 

Canto 5

 

41

a manceba amante inda que tele
pois alfim só plantou grave espectro
fere-me a boca, a boca à mia pele
conserva-se acre, látego plectro

 

42

tal perenelle flamel, lendatriz
logrou longa vida com a magia
crepita, velada pua ou beatriz
ora turra dulcis, ora em algia

 

43

águia de sangue, rebenta o fruto
seiva nossa, das escápulas, voa
xenomórfico ose, dissoluto
morta madre na des-figura ecoa

 

44

nobre sal, item oma signo seu
pela treva age, prodigioso orbe
da abóbada, entona sina, androceu
sua vinga prepara nesse alforbe

 

45

“eu que de mary à cria me assemelho
largo orto em serro da calipígia
sou, de hades, rei, sacro escaravelho
ou vulgo um, verbero desta lígia?!

 

46

de ifigênia, a forte, rubro manto
que avulta-se algures pra deidade
ou o bico, à turba, do falsanto?!”
vão… verbo é impossibilidade

 

47

entre bósons, estelas, onde o grão
a prima obra, ny, raro etimodeus?!
por grossa fuga pulsa seu cifrão
em sólitons verte neuroproteus?!

 

48

oumuamu’alto e silente cetáceo
paz nenhuma demonstra esse enigma
traspassa o céu, infausto rubiáceo
rangem consigo as almas do origma

 

49

suspenso negrume ao sono induz
cobre de angkor frontes impassíveis
quem fácil não cede luna seduz
mas uivam em mim coisas horríveis

 

50

das vespas a peçonha igualmente
quos ortópteros cativos torna
envenena, a solidão, seu cliente
abasta essa raiva que, o senso, orna

 

Canto 6

 

51

ouabaína aplaca e regenera estro
quebra espada, esfaz a malfazeja
asperge o falcão sua febre, destro
molesta, circunda, ankou solfeja

 

Sel é poeta e artista visual. Possui textos publicados nas revistas literárias Arcana, Diversos Afins, euOnça e Benfazeja. É autor dos livros: Autopse (ed. Multifoco – 2012) e [Sel]vageria (ed. Urutau – 2016). Ambos de poesia.

 

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118ª Leva - 03/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Sel

 

Foto: Kristiane Foltran

 

 

há tempos
teu nome não
soa em mim
ressumbrando
dores, reabrindo
feridas; o dorso
distante não
abriga mais o
delírio
das mãos que
hoje
apenas
se esquecem no ar
onde tudo me
escapa de ti e
o amor não
forja a lâmina

 

 

 
***

 

 

 
Silêncio

 
Percorri corredores
observando tumbas
com ossos cariados
vislumbrei súplicas
em faces que não se
moviam; carreguei
os mortos e o aroma
pútrido lambia minha
calma. Limpei os seus
dejetos e os dos que
ainda agonizavam
esperando a sua vez…

 

 

 
***

 

 

 
lou.cu.ra. s. f. 1. ferrete, óleo
pedra. 2. ave-langue-sorriso. 3. a
gengiva dura. 4. fulgor que apenas
conserva o hálito aquecido das orações
5. tua voz calma diluída sobre um
tempo queimante

 

 

 
***

 

 

 
Eu caminhei buscando um coração
Desviando-me de pedras e tentando manter meus olhos abertos em meio à poeira
Entretanto, não compreendia que tudo já havia se corrompido
Meus dedos, minha boca, meu corpo
Nada mais sem o fardo essencial daquele que eternamente procura

As luzes piscaram, prenunciando a minha morte
E eu rezei para que alguém me salvasse nestas noites impuras
Mas o que eu apenas pude ver foi a minha própria imagem
Eu em fragmentos, enquanto meus pés seguiam tortuosamente…

 

 

 

***

 

 

 

O cabelo, a princípio, não revelara nada
Fino e negro rio, escondia o marfim e o fruto
Eram apenas linhas que rutilavam na fraca luz
Silhuetas das dunas do Maranhão, eternas fugidias
Névoas e sódio, o grande mistério de Anticítera
Eram membros, tênues movimentos, o tronco
A delgada geografia de sua terra revestida de neve
Era somente um sussurro branco sob véu de chumbo
O revérbero de um astro distante, lânguida paisagem
Eram mãos pequenas, duas conchas à espera do mar infinito

 

 

 
***

 

 

 
é cedo… e tudo ainda arde
a dor não é física, ainda que física
a angústia, a solidão, não são corpóreas, ainda que corpóreas
o vazio, ainda que vazio, é cheio de algo que não tem nome

 

Sel é poeta e artista visual. Possui textos publicados nas revistas literárias euOnça e Benfazeja. É autor dos livros: Autopse (ed. Multifoco – 2012) e [Sel]vageria (ed. Urutau – 2016). Ambos de poesia.