Esse caminho infinito
Que rodeia ausências
E só me traz uma saudade do que não
II
Mal amanheci
Nem me avistei hoje
E já te penso
III
O espelho vazio
E na banheira do meu peito
Inundação
IV
Percorre no meu corpo
Adentra a intimidade
É só a água do chuveiro, Querida
V
A memória, mais tarde
É uma cabeça encostada
Na janela do ônibus
VI
Enquanto a vida passa lá fora
O amor em estagnação:
O meu melhor fado.
***
CONFISSÃO
Um barulho na cozinha
A desconfiança de uma descendência italiana
Meus pais, um caos
Quebrantes
Eu, caquinhos.
***
A CASA
Esse fantasma
Que me atormenta
E desmorona no meu sobrenome.
***
CATARSE
Aquele copo cheio de veneno
O gesto mal intencionado
O corpo tomado por crença.
O espinho liberta.
***
ARMAÇÃO
Essas espumas que explodem
As rochas cobertas pelo desejo
De tanto (a)mar.
Sem nenhuma dúvida
Se deixar molhar.
Depois secar, desconheço.
Ana Pérola (RJ – 1988) mora em Florianópolis, é poeta, fotógrafa, tem ensaios publicados na Revista Ellenismos, exposição fotográfica e conto na Revista Cruviana. Além de escrever em redes sociais e em seu blog Sentidos, é colaboradora no Poesia: Falsidade Ideológica e no projeto infantil Para Qualquer faz de Conta e atua também na área de Recursos Humanos na qual é graduada.
A cada passo dado, as sandálias do caminhante desgastam-se num ciclo irreversível. É o tempo com suas investidas e artimanhas. No mesmo instante em que se olha para trás, os rastros deixados já não são mais os mesmos. Inexplicavelmente, nossa capacidade de perceber o exíguo prazo de duração de um estar no mundo é inversamente proporcional ao que podemos reter de fato. Assim, anda-se muito. Assim, fala-se em demasia. Assim, perde-se o essencial da viagem.
É possível a fuga do mundo quando ele nos apresenta a sua face mais cruel? Nem sempre. Muitos dirão haver saída nos incontáveis manuseios da abstração. Outros verão a tudo com certa resignação e tentarão ressignificar viciadas paisagens. Alguns mais darão um beijo de língua nessa divindade chamada caos. Seja qual for a alternativa elegida, em tudo haverá um pacto, o qual, silencioso ou não, adentrará dias e noites convidando corpos e almas a refastelarem-se no grosso caldo da incerteza.
De toda sorte, há combates entoando seus cantos por todas as frentes. Se guerreamos, consentimos em deixar partes nossas nos vãos devastados e tentamos conviver com o saldo dos vestígios. Se nos omitimos, duras revoluções implodem nosso ilustrado castelo de cartas falivelmente projetadas. Por tudo isso, a desordenação das coisas até pode assustar hordas de desavisados, mas haverá quem vislumbre nela a oportunidade de olhar a tudo como uma outra dimensão da existência.
Foto: Ana Pérola
O que dizer, então, quando nos deparamos com as fotografias de Ana Pérola Pacheco? Arriscar na resposta uma ideia de que o caos nosso de cada dia é um lugar de aproximações. Se o mundo afugenta por suas complexas questões indecifráveis, a artista estreita os laços com o seu tempo, seu espaço e, sobretudo, sua gente. É uma predileção que não ressalta escolhidos, mas sim alça os seres a um patamar de igualdade entre si.
Numa dinâmica de comunhão entre pessoas, lugares e esferas intangíveis, Ana desfila seus olhos ante o girar da vida. O resultado é uma delicada apresentação do real segundo uma ótica que não negligencia as hesitantes intervenções humanas. Afinal, somos um barro cujos moldes apontam para sabidas imperfeições.
Quando a constatação das visões da vida nos revela a pungência das adversidades, aí então notamos o caráter essencial da expressão de Ana Pérola: poder observar as tensões mundanas e retirar delas saídas poeticamente imagéticas. Tal perspectiva não vem acometida por uma necessidade de redenção ou purificação diante de um mundo declaradamente conturbado. O viés adotado pela fotógrafa também intenta uma leveza que seja capaz de minimizar a solidão dos homens, propondo-lhes caminhos de aproximação.
Foto: Ana Pérola
Nascida no Rio de Janeiro e vivendo atualmente em Florianópolis, Ana também se dedica à literatura, tendo publicado poemas e ensaios. Mantém o blog Sentidos e é colaboradora do site Poesia: Falsidade Ideológica.
De mãos dadas com a poesia, a fotógrafa promove suas imersões num mundo que, por vezes, todos julgamos conhecer. Mas será que o sabemos de fato em sua inteireza? Melhor confessar que não, pois a pretensão é superior à concretude de nossas constatações. Assim sendo, Ana crê num caminho que constrói perspectivas, valorizando um ambiente no qual nossas humanas idades representem menos turbilhão e mais serenidade. E no âmago dessa busca, ela mesma nos diz:
Há quentura na sombra E há também frieza no vazio. Os pés que te levam É o meu retorno para o lado contrário Nossa estação de passagem Transborda fantasia Aguça a alegria do sonho Esquenta E danço, como o fogo quando queima a lenha Voo pr’um mundo que não sei, que não vi Desafio-me no olho do desconhecido, vibro Talvez eu ame algum dia. Talvez. E até dê flores aos Amigos Talvez eu me encoraje e abra a porta Dê descarga, deixo ir a sobrecarga Me banho na água do rio e vou Correnteza. Ser oceano.
Foto: Ana Pérola
* As fotografias de Ana Pérola Pacheco fazem parte da galeria e dos textos da 102ª Leva
Hoje, que nada nos chama,
as horas xpendem vagarosas no espelho, xe o corpo xespanta-se,
nos fatos desabotoados,
na curvatura das costas,
naquela ruga que apareceu num dia mau.
Crescemos numa aparência sem nexo,
e atordoados, xprocuramos as flores,
a confusão das cadeiras,
os brinquedos que viviam no corredor.
Precisa de óleo a dobradiça do armário,
e os joelhos, xgritam a idade
esquecida de virar no calendário.
***
FLASH
Escrevo nas pedras um postulado redentor.
Indiferentes,
as árvores
pintam as folhas de um sabor vermelho,
os pássaros
equilibram seus ninhos no vento,
e é tão clara a sapiência deste chão,
que me apetece rasgar as utopias,
e seguir paralelo ao fervor dos insetos.
(Helena Figueiredo nasceu e reside em Carregal do Sal, distrito de Viseu, Portugal. É licenciada em Educação de Infância. Editou textos e poemas no site-revista TRIPLOV, da escritora Maria Estela Guedes. Até agora não se encontra editada em livro. Contato: helena_lopes_m@hotmail.com)