Categorias
137ª Leva - 04/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Ana Paula Lisboa é uma das grandes vozes da atualidade. “Favelada e carioca de nascimento, a mais velha de quatro irmãos, filha de dois pretos”, como se define, seus textos em prosa e em poesia trazem toda a potência, a riqueza e a representatividade da cultura afro-brasileira, chamando atenção, com igual vigor, para a ancestralidade, a produção cultural das mulheres negras e também se manifestando contra ações que silenciem, infrinjam direitos e tirem espaços dos negros dentro e fora do Brasil.

Dividindo a vida entre o Rio de Janeiro e Luanda, dirige a Aláfia e a Casa Rede, espaços de produção de arte e cultura na capital angolana. No Brasil, escreve regularmente para o Segundo Caderno, do jornal O Globo, um desejo que vem de muito jovem, um desejo de ser lida que nasce aos 14 anos, quando escreve seus primeiros contos e poesias. Hoje, seus escritos estão em coletâneas nacionais e internacionais, porém, mais que uma escritora, prefere ser reconhecida como artista textual, utilizando da palavra escrita e da falada em diferentes plataformas, com o intuito de promover a visibilidade na narrativa e na gramática negra no mundo.

Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Ana fala sobre sua vivência com a literatura, suas experiências com a leitura de mulheres negras, aborda o problema da educação e do racismo, além de denunciar o desvirtuamento do que se entende como “literatura negra” e a falta de espaços para a publicação de autores negros no mercado editorial brasileiro. Com respostas francas, marcadas por um misto de indignação, inteligência e personalidade, a autora aponta problemas antigos e da política atual, celebrando nomes como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Machado de Assis, sem nunca baixar a guarda no que se refere ao respeito às tradições africanas. “Para mim, é imprescindível que Machado de Assis seja negro, não por uma fantasia de representatividade, mas por uma reparação histórica do apagamento. Não conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um gênio, então apagaram seu rosto, porque era inaceitável um gênio negro”, sentencia.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – Um dos pontos centrais, tanto de seus textos ficcionais quanto de suas crônicas, é chamar atenção para a cultura afro-brasileira, em especial para a literatura produzida por mulheres negras. Queria saber, a princípio, sobre a sua primeira experiência de leitura de um autor negro. Quando ocorreu e o que representou para você?

ANA PAULA LISBOA – Eu sinceramente não me lembro da primeira leitura, o primeiro lugar em que me senti representada pela cultura afro-brasileira foi na música e na dança. Pensando agora, talvez a Elisa Lucinda fosse alguém que eu sentisse algo especial, uma poesia de voz feminina mas que não representava a “mulher universal”, tinha ali questões que eram só dela. Eu me lembro bem quando li “Ponciá Vicêncio”, da Conceição Evaristo, que a sensação era de que tudo que era possível escrever sobre ser uma mulher negra no mundo estava naquele texto. Eu, inclusive, fiquei algumas semanas sem escrever nada porque parecia que não havia mais o que escrever.

 

DA – Dentre outros meios, você escreve regularmente para o Segundo Caderno, do O Globo. Baseado nessa experiência de colunista, como analisa a importância de tratar de temas representativos, sobretudo no que diz respeito às mulheres negras, num jornal de larga circulação nacional? Encontra ainda algum tipo de resistência?

ANA PAULA LISBOA – A resistência que eu encontro é do próprio pensamento e estrutura do Brasil, um país em que, por mais que não tenha passado pela experiência do Apartheid, os lugares para pretos e os lugares para brancos estão muito bem definidos, não numa placa, mas no próprio imaginário das pessoas. Então, ter uma mulher negra jovem escrevendo um jornal de grande circulação é ainda estranho para muitas pessoas. Eu adoro escrever no jornal, era um desejo desde muito jovem. Escrever, pra mim, nunca foi sobre só escrever, mas sobre ser lida, então, quanto mais pessoas lendo, melhor. Os orixás trabalham para que as coisas aconteçam da forma que elas têm que acontecer. É muito bom chegar em pessoas fora da minha bolha, de outros estados, de outros países, ou em salas de aula.

 

DA – Entrando no universo da literatura, o livro “Silêncios prescritos: estudo de romances de autoras negras”, da doutora da USP Fernanda R. Miranda, traz uma informação espantosa de que, em 200 anos de literatura brasileira, apenas oito autoras negras publicaram romances. Você acredita que, neste caso, a mínima quantidade de obras está diretamente associada a um processo sistêmico de silenciar as mulheres negras? E como isso ocorre?

ANA PAULA LISBOA – Está ligado a vários processos, não há um motivo único, porque o racismo é um monstro com muitos tentáculos. A questão principal, nesse caso pra mim, é a publicação, porque tem muita gente escrevendo, mas não tem tanta gente sendo publicada. Todos os anos, os mesmos nomes estão nas estantes. Depois, há também outras coisas: eu estou passando pela experiência de escrever um romance e é uma coisa muito difícil. Escrever uma narrativa longa é muito trabalhoso, requer concentração, tempo, espaço e, às vezes, dinheiro para bancar essa escrita. Quantas pessoas têm isso? No buraco de tempo que a gente consegue entre tantos trabalhos domésticos e na rua, o que dá para fazer muitas vezes são só as narrativas curtas, as poesias. Isso também é um dos motivos porque muitas mulheres e homens negros publicam em coletâneas, como, por exemplo, são os Cadernos Negros, que existem há mais de 40 anos. A outra coisa é que, além de criar espaço nas editoras que já existem, é preciso também que sejam abertas novas editoras, de donas e donos pretos. Esse também é um espaço que podemos e devemos ocupar.

 

DA – Outra questão forte e alarmante está na afirmação de que, no rol de todas as expressões artísticas, a literatura é aquela menos acessível ao artista negro, pois tem o poder de colocá-lo como figura central, de projetar sua voz. Penso que isso gera um deslocamento do campo literário e prova um racismo que transcende a ficção. Sendo assim, você acredita que o preconceito é o mal que explica a escassez da literatura produzida por negros, ou é um pensamento muito limitado, que encobre outros problemas?

ANA PAULA LISBOA – Todas as opressões cabem dentro da literatura, é uma grande luta para saber quem vai narrar o Brasil, qual Brasil é válido de ser contado em palavras escritas. A educação é uma grande questão, porque os negros foram proibidos de ter acesso a escola, era um tal de “vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas”. A entrada na universidade continua a ser uma luta, um espaço que a todo momento tentam retirar. E mesmo dentro, a luta por um conteúdo que nos inclua também permanece. Tudo é um grande plano para nos afastar e não nos deixar emancipar, um plano que todos fazem parte de uma forma ou de outra, ainda que não percebam. Por isso eu acho a ficção tão importante, ela não se desloca do tempo e do espaço que nos prende. É o contar histórias dos griôs, é só inventando mundos outros que vislumbrarmos sair desse em que estamos.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – Em 2018, o romance “Torto arado”, do baiano Itamar Vieira Junior, ganhou o Prêmio Leya de Literatura, dando voz a duas personagens negras num épico passado num Brasil profundo. Pensando na questão do lugar de fala, de alguma forma um homem dando voz a personagens femininas é um problema? De que forma a ausência de uma autora vocalizando questões ligadas ao universo feminino impede com que se chegue a uma verossimilhança representativa?

ANA PAULA LISBOA – Eu não li o romance do Itamar ainda, mas ouvi coisas muito bonitas sobre ele. Eu acho que ser um escritor é a possibilidade de ser outros, de ter outras vozes, de estar em outros mundos, então não vejo um homem criando as histórias de mulheres como um problema. As coisas são só coisas, nós é que damos funcionalidades a elas. A questão, pra mim, da escassez de personagens negros na própria literatura é porque o homem branco escritor do sudeste, que é o publicado, só fala de si.

 

DA – Neste caso, há também a questão do Machado de Assis branco, mulato ou negro? Qual a relevância dessa discussão para você? 

ANA PAULA LISBOA – Eu sou apaixonada pela literatura de Machado de Assis. Na verdade, voltando à primeira pergunta, eu me lembro da primeira vez em que li “Dom Casmurro”, e ele começava escrevendo algo como pegar o trem para o Engenho Novo. Na época, eu morava no Engenho Novo e, pra quem conhece, sabe que não é um bairro pra se ter muito orgulho. Mas foi naquele dia em que eu me apaixonei pelo Engenho Novo. Para mim, é imprescindível que Machado de Assis seja negro, não por uma fantasia de representatividade, mas por uma reparação histórica do apagamento. Não conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um gênio, então apagaram seu rosto, porque era inaceitável um gênio negro.

 

DA – Tratando agora de autoras negras, um caso marcante é o da mineira Carolina Maria de Jesus, cujo livro de estreia, “Quarto de despejo: diário de uma favelada”, é considerado um best-seller e segue encontrando novas gerações de leitores e de admiradores. Contudo, é uma literatura que paradoxalmente não trouxe larga visibilidade para a figura da autora, ou mesmo seu devido reconhecimento. A que se pode imputar tal discrepância dado o caráter livremente autobiográfico do livro?

ANA PAULA LISBOA – São várias as questões, porque Carolina, diferente do Machado, tinha rosto, tinha traços, tinha corpo, um corpo preto retinto. Carolina era uma mulher muito forte, ela se conhecia e conhecia o Brasil, esse Brasil racista. Ela não se deixou ser colocada na caixa da “favelada”, como se essa fosse a única narrativa que ela pudesse escrever. Como não conseguiram apagar seu rosto, tentaram apagar seus escritos, também geniais.

 

DA – Outra autora em foco é a também mineira Conceição Evaristo que, em 2018, esteve no centro de uma campanha nas redes sociais para que fosse a primeira escritora negra a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (cadeira que acabou sendo preenchida pelo cineasta Cacá Diegues). Na ocasião, um dos assuntos mais discutidos foi se o estofo de sua obra lhe garantiria força para disputar a vaga ou se sua escolha se devia a sua representatividade no meio literário. Qual sua percepção sobre essa questão?

ANA PAULA LISBOA – Conceição Evaristo é, pra mim, a maior escritora do Brasil. Conceição não entrou para Academia Brasileira de Letras porque a branquitude não gosta de ser questionada, não suporta ser racializada e não tem nenhuma vontade de reconhecer seus privilégios. Reconhecer privilégios é reconhecer a sua culpa em tudo isso e ninguém quer se sentir culpado. No Brasil, o racista é sempre o outro. Mas Conceição não perde em nada, na verdade quem perde é a Academia Brasileira de Letras. Ela é uma deusa e deusas já nascem imortais.

 

Foto: arquivo pessoal

 

DA – Você tem contos e poesias publicados em coletâneas nacionais e internacionais. No entanto, numa visão ampla da literatura contemporânea brasileira, ainda há poucos autores negros publicando. Por parte das editoras, em especial os grandes selos, você percebe que ainda há resistência para se publicar autores negros ou preconceito sobre temas ligados ao universo afro-brasileiro?

ANA PAULA LISBOA – Para que existam na literatura publicações de literatura negra, é preciso que haja editores que saibam ler essa literatura, e há muita gente nesse mercado que não sabe ler. Depois é o mercado, que está percebendo lentamente que os negros compram livros, leem livros e que nós não lemos de qualquer coisa. É engraçado porque se um carioca da Zona Sul resolve comprar um livro só porque conhece o autor e a história se passa no Leblon, ninguém acha isso estranho. Mas se eu disser que comprei um livro só porque ele se passa na Complexo da Maré, ou porque ele foi escrito por uma mulher negra, acham que eu estou à procura não de boa literatura, mas de representatividade.

 

DA – Falando em preconceito, temos hoje, no governo federal, um presidente da Fundação Palmares que explicitamente menospreza a história de resistência e luta dos negros no Brasil, reiterando declarações racistas. Você acredita que essa é a pauta de um indivíduo completamente transloucado ou há, por trás disso, toda uma ação institucional para sufocar e anular as políticas públicas e reconhecimento histórico-sociocultural do negro no Brasil?

ANA PAULA LISBOA – Eu acho que nada é por acaso, não acho que buracos se abrem do nada, a gente sempre caminha até o abismo, mesmo que não se dê conta disso. A minha sugestão, inclusive, é a que mudemos o nome da Fundação Palmares enquanto o senhor esteja presidente. A luta ancestral não merece ter seu nome tratado assim.

 

DA – Há uma máxima de que o esporte é um instrumento para socializar e dar oportunidades reais a crianças situadas nas áreas mais pobres do país. Porém, não deveria ser o único a ter essa disponibilidade. Você acredita que a cultura, em especial a literatura, poderia ser também um caminho? E essa ausência não explicaria o baixo número de autores negros em atividade no Brasil?

ANA PAULA LISBOA – Ninguém tem muita paciência com a criança e o jovem negro, há pesquisas que falam que professores são mais agressivos e se recusam, às vezes, a explicar para crianças e jovens negros na escola, que crianças negras passam mais tempo chorando ou sujas nas creches. O adolescente branco, de classe média, geralmente quando começa a dar problema vai para terapia, isso não acontece com jovem negro. Então, é mais fácil botar ele para jogar futebol, gastar energia, colocar para fora aquilo que tá incomodando do que sentar com ele e efetivamente explicar o mundo. Ao mesmo tempo, eu acho que a cultura ou o esporte não tem o dever de salvar ninguém, a criança e o jovem preto não precisam de salvação, precisam de repertório de mundo, terem acesso a estímulos para que possam fazer boas escolhas para a vida. Esse é um direito que está inclusive na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

 

DA – O que pensa sobre a expressão “literatura negra”? Há, na confirmação do termo, um fator de representatividade, de força para esses autores? Ou literatura brasileira deve ser vista em sua multiplicidade, incorporando temas e contextos sem que seja distinguida por qualquer partição?

ANA PAULA LISBOA – Eu não sou acadêmica ou crítica literária, eu sou só uma escritora. Hoje eu percebo que o que eu escrevo é literatura negra e não vejo nenhum problema em ser colocada nessa estante.  O que me incomoda é a classificação “escritora negra”, porque geralmente quando me colocam nessa caixa quer dizer que eu só possa escrever, ver, ou falar a partir das questões do racismo. Se eu pensasse ou escrevesse sobre racismo 24 horas por dia, eu já teria morrido de depressão. É óbvio que ser uma mulher negra vai aparecer no que eu escrevo, assim como Clarice Lispector ser ucraniana criada no nordeste aparecia na literatura dela. Ser negra não é a minha limitação, na verdade é o que me amplia.

 

DA – Para os leitores que querem acessar a literatura afro-brasileira, o que você recomenda de contemporâneo? Quais autores ou livros são fundamentais hoje?

ANA PAULA LISBOA – Leiam qualquer coisa da Conceição Evaristo, até receita de bolo. Meu preferido, nesse momento, é “Becos da Memória”. “Um Defeito de Cor”, da Ana Maria Gonçalves, é tipo a bíblia. “Meio Sol Amarelo”, da Chimamanda Ngozi Adichie, é de destruir emocionais. Nesse momento, estou lendo as poesias da Ryane Leão, em “Tudo Nela Brilha e Queima”, e os contos da Cidinha da Silva, em “Um Exu em Nova York”.

 

DA – A literatura, por si só, tem o poder de ser um instrumento de representatividade social, ou depende de uma combinação de fatores?

ANA PAULA LISBOA – Não sei responder.  Eu acho que a literatura como qualquer outra arte está inserida no tempo e no espaço de uma sociedade, então de alguma forma ela sempre vai representar algo. Representação não é um problema do escritor, o problema do escritor, ou a tarefa do escritor, é escrever: é criar histórias, mundos, pessoas e esperar que quem esteja do outro lado entenda a história que a gente queria contar.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A Nova Crítica.

 

 

Categorias
134ª Leva - 01/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

A interpretação dos sonhos de Dênisson Padilha Filho

Por Sérgio Tavares

 

 

Escrito em 1876, o conto “O sonho”, do russo Ivan Turgêniev, é considerado um arauto da modernidade psicológica, pois prenunciava, por meio da ficção, temas que seriam a base da psicanálise no século 20. Na trama, um jovem começa a ter sonhos repetidos com o pai, que morreu quando ele tinha seis anos. Os encontros são antecedidos por andanças pelo subconsciente, frequentando pessoas e cenários de composições substancialmente realistas. Até que, em meio a um festejo local, o protagonista se depara com o mesmo homem do sonho e planta-se a dúvida se está no mundo concreto ou dentro de uma produção onírica.

Turgêniev dosa, de forma impecável, a ambiguidade no movimento entre esses planos, fornecendo ao texto uma característica ímpar de tornar a assimilação do sonho narrado numa experiência muito próxima do que seria a de um sonho de verdade. Duas décadas depois, no volume “A interpretação dos sonhos”, Freud cita o filósofo alemão Karl Burdach para decifrar tal fenômeno na configuração de chaves que levam a coleção de memórias a simular os acontecimentos em estado de vigília. “Mesmo quando toda a nossa mente está repleta de algo, quando estamos dilacerados por alguma tristeza profunda, ou quando todo o nosso poder intelectual se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de espírito e representar a realidade em símbolos”. Neste caso, sonhar nada mais é que prolongar o vivido por meio de representações. Os sonhos, invariavelmente, levam à vida comum, em vez de se apartarem dela. Em outras palavras, por mais transgressiva que possa ser a experiência onírica, sempre será uma amálgama do que foi experimentado internamente e externamente.

O baiano Dênisson Padilha Filho bebe desse conceito em seu mais recente livro de contos, “Um chevette girando no meio da tarde”. São 10 narrativas curtas, cuja matéria nuclear é o sonho em sua projeção difusa e sensorial, porém reproduzida a partir de uma mecânica na qual o desenho do cotidiano nunca deixa de ser como o conhecemos. Não se trata de alucinações ou experimentações insólitas, e sim de imagens de consistência estranha, embora familiar. O inusitado não se filia a uma percepção dilatada, mas a vertentes da interpretação do mundo no qual a frequência dos sentimentos se sintoniza a uma estática dualista, inclusive através de comentários sociais.

Vide “Barracão de enlatados explode no ar”, conto que abre o livro. Um sujeito, que participa de uma tal Festa do Mar, resolve ir a um bar gourmetizado e, enquanto toma uma cerveja, começa a enxergar a fauna local em sua forma antropomórfica: a beluga, o leão-marinho, a baleia branca etc. O autor trata essas manifestações psíquicas com um traço de humor, mas também usa desses arquétipos para criticar o comportamento forasteiro, a adesão do estrangeirismo na cultura e nos hábitos regionais.

O texto seguinte, “Livro de contos no painel de um velho Boeing”, evidencia a busca por uma qualidade estética, valendo-se das possibilidades pitorescas do sonho de modo a se criar composições visuais muitas vezes mais vigorosas que o próprio desenvolvimento do enredo. O narrador (sugestivamente um segundo eu do autor) descobre-se dentro de um velho Boeing da Varig, arrastando-se na pista em meio aos carros, enquanto atravessa a cidade. Trata-se de um insight narrativo que canaliza seu alto poder imagético para a discussão do desamparo do escritor diante do inevitável fracasso da escrita. “Talvez, cada um de nós seja esse avião obsoleto que não consegue voar”, conjectura.

Assim como Turgêniev, Padilha guia o andamento de suas tramas através de um senso de imprecisão entre o que é estado onírico e o que é estado de vigília. “Aqui vamos nós mais uma vez” e “Um chevette girando no meio da tarde” remontam o período do colégio, da infância plena, sobre a qual, segundo Freud, incorre, com mais intensidade, os sonhos de angústia, aqueles cujos “sentimentos desprazerosos nos retêm em suas garras até despertarmos”, representando “indisfarçáveis realizações de desejos”.

“Um amigo em dia com a moda” segue no tema da angústia, só que a literária, como que numa resposta desesperançosa ao personagem no interior do Boeing. “Nunca serão leões” lança mão outra vez do arquétipo antropomórfico para dar significado a uma alegoria sociopolítica, enquanto “As camisolas dos monges tibetanos” recorre a um teor satírico para falar de meditação, terapia junguiana e clichês literários, executando um inesperado movimento de metalinguagem que sugere o fecho de uma parte.

A coletânea se encerra com “Trilogia de sal e vento”, cujo tom naturalista e uma certa dissensão entre vida pedestre e voos farsescos trazem à memória o Copi, de “A Internacional Argentina”, e os trechos marítimos de “Um ano”, do chileno Juan Emar. O conto final, “Não são cavalos-marinhos”, evoca uma entidade mitológica de modo a construir uma metáfora sobre o quão penoso é tentar domar os galopes selvagens da criação literária.

Os sonhos de Dênisson Padilha Filho podem não ter enredos complexos, mas são enriquecidos pelo jogo construtivo da ambiguidade, plasmando um território onde imaginação e experiência direta do autor surpreendem ao trazer uma sensação de inconsistência no tratamento de temas tão objetivos. Combinam fugas visuais concretas com abstrações generalizadas, a partir de um impasse extraído do subconsciente que parece indagar: se, ao fim, o fracasso espera, por que insistir no sonho de ser escritor? Diante das possibilidades de tantas interpretações, penso que essa questão nem Freud explica.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A NOVA CRÍTICA.

 

 

Categorias
132ª Leva - 04/2019 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Sérgio Tavares

 

Foto: Luiz Bhering

 

O discurso presidencial

 

Um minuto, anuncia o secretário de Imprensa. O operador de câmera confere o visor e calibra o foco. A meia altura do tripé, o plano americano enquadra o tampo amadeirado do que parece ser uma mesa de uso doméstico. No canto inferior esquerdo do vídeo, tem um exemplar da Constituição de 88. No canto inferior direito, um volume da Bíblia Sagrada. Em escala de profundidade, vê-se o recosto chumbo de uma cadeira office e, mais atrás, a bandeira do Brasil presa, com fita crepe, na parede nua.

O presidente, então, entra em cena. A princípio, apenas o recorte do corpo que dá das coxas até meio do abdome. Trinta segundos, acusa a voz do secretário. O presidente acomoda-se. Usa uma camisa social azul turquesa, sem gravata, sobreposta por um blazer azul marinho. O assistente de som lhe prende o microfone na lapela: Alô, alô, testando… Ato contínuo, a maquiadora polvilha base na cara papuda e acerta, com um pente fino, o pega rapaz do penteado montado a gel.

Ok, todo mundo fora de cena! Silêncio agora, pessoal! No centro do vídeo, o presidente assume uma postura ereta e encara fixamente a câmera. O secretário de Imprensa corre para detrás do tripé e informa: Cinco segundos, iniciando uma contagem regressiva com os dedos, que é sucedida por uma voz feminina em OFF, escutada num pequeno monitor ao lado. “Forma-se, neste momento, a rede nacional de rádio e televisão, para o pronunciamento do presidente da República”.

É a deixa. O secretário de Imprensa sinaliza, mas, ao contrário do ensaiado, o presidente não começa a falar. Ainda com a coluna reta, as mãos pousadas sobre a mesa, faz um movimento sutil, porém firme, com a musculatura do pescoço, como se tentasse se livrar de algo preso na garganta.

O tempo passa, está ao vivo para todo território nacional, e o silêncio começa a provocar tensão. O presidente meneia a cabeça, empina o queixo, demonstra agora sinais de incômodo. Ninguém entende o que está acontecendo. Ele está engasgado?…, sussurra o operador de câmera para o assistente de som, que dá de ombros.

O presidente está mais alterado. Pressiona o pomo-de-adão, repete um esgar, perde a compostura. Debruça-se sobre a mesa e, num movimento forçoso semelhante ao da expectoração, contrai os lábios e, de sua boca, sai uma roliça tripa marrom malcheirosa.

Todos, no ambiente, se espantam. Ressoa um abafado de exclamação. O presidente, com os olhos arregalados, encara aquele montinho pastoso à sua frente, olha de volta para a câmera e retrai os músculos da face como se não soubesse o que fazer. Tenta falar outra vez, e um novo arremesso de bolo fecal bate contra o tampo amadeirado da mesa.

Minutos depois, o vídeo tinha viralizado em todo o mundo. Com igualável rapidez, apoiadores se manifestaram nas redes sociais, em blogs e em vídeos no Youtube, alertando de que se tratava de deepfake, uma montagem grosseira, feita por opositores, com o propósito de atacar a imagem do presidente.

Mas não era o caso. Toda a vez que o presidente tentava se expressar, um rolo de fezes era regurgitado inevitavelmente. Falava sobre o meio ambiente, defecava pela boca. Falava sobre a ditadura, defecava pela boca. Falava sobre a diversidade de gênero, defecava pela boca. Falava sobre cultura, defecava com mais ímpeto pela boca.

Em protocolo de emergência, o presidente foi levado para um centro médico, no entanto, depois de uma bateria de exames, proctologistas e otorrinolaringologistas não puderam determinar qual era a causa do fenômeno. Políticos da base, apavorados, davam como certa a renúncia. O estafe partidário se preocupava em blindar a Comunicação do Planalto do assédio da mídia nacional e internacional, ao mesmo tempo que articulava a posse do vice.

O problema era o fogo amigo de alguns aliados políticos que vazavam notícias, alimentando uma série de especulações que pressionavam o porta-voz do Governo a se pronunciar, muito por conta também de uma ansiedade perigosa que começava a ganhar forma nas ruas.

Dois dias depois, o vídeo tinha alcançado a marca histórica de dois bilhões de visualizações, e parlamentares da oposição começavam a colher votos para dar início a um processo de impeachment. Com o presidente ainda internado, ninguém sabia o que fazer e tudo parecia realmente perdido.

Até que, das profundezas de um porão situado num grotão morno dos Estados Unidos, um guru de extrema-direita faz uma live que muda todo o quadro. Defende que, na história do mundo, nunca existiu um líder com a capacidade de executar um ato que transcendia a fisiologia normal do ser humano. Que era um homem único, um mito. Que, por estar um degrau acima na evolução da espécie, todos deveriam idolatrá-lo e segui-lo. Que em função da impossibilidade dos outros mortais repetirem seu ato, os seguidores deveriam ingerir fezes, de modo a condicionar o corpo a expulsá-la pela boca. Que ele próprio, desde aquela manhã, tinha iniciado uma dieta no qual ingeriria três porções de fezes frescas por dia, de maneira a se tornar, oxalá!, tão evoluído quanto o presidente. Que mostrariam para o mundo que a fome, no Brasil, era uma mentira.

No dia seguinte, milhares de eleitores tomaram as ruas, simultaneamente em vários estados, para celebrar o presidente que defecava pela boca. Vestidos com camisas oficiais da Seleção Brasileira de Futebol, tênis e bermudões, cantavam o novo Governo, a nova Pátria, o direito de ingerir fezes. Alguns, inclusive, seguravam tupperwares com porções de bolos fecais e iam se alimentando durante a manifestação. Pais davam colheradas a seus filhos para, oxalá!, um dia alcançarem o estágio de evolução do presidente.

Com a crise controlada e o vídeo reduzindo, gradativamente, o número de visualizações, o estafe começa a botar a agenda presidencial de volta aos trilhos. Inapto a falar sem expelir um rolo fecal, o presidente tenta se comunicar por meio de libras, porém é incapaz de articular qualquer movimento com os dedos que não seja o indicador e o polegar esticados, simulando uma arminha. Passa, então, a ser acompanhado por assessores que seguram pequenas lousas e uma caneta piloto não da marca Bic. Ali escreve ordens para um grupo formado pelo vice-presidente, o chefe da Casa Civil, o ministro da Economia e um astronauta, que passam a ser a voz ativa no comando do Brasil.

Recolhido em casa, o presidente começa a usar, cada vez mais, o Twitter para se expressar. Ao fim de todo post, cola a hashtag Pátria Amada Brasil e o emoji cocozinho. Também é, através de tweets, que demite dois ministros e o chefe da Receita Federal, ao descobrir que não seguiam a ingestão regular de fezes frescas. Em 5 de setembro, Dia da Amazônia, compartilha um vídeo em que um ruralista, no centro de uma grande área desflorestada, pasto de cabeças de gado, saboreia um bolo fecal a garfadas cheias, afirmando que, a exemplo do esterco que aduba o solo, as fezes aduba (sic) o cérebro. O presidente cola, no rodapé do post, a hashtag Respeito.

Daí se avizinha a data da Assembleia-geral da ONU, na qual é praxe o chefe-maior do Estado brasileiro fazer o discurso de abertura. Com a reprovação da equipe médica circulando pelos bastidores do Planalto, o vice-presidente, durante uma coletiva, deixa escapar que o presidente não irá participar do evento. A declaração, porém, causa revolta no presidente, que ordena que o vice se dirija urgentemente à sua casa, onde ficam cara a cara e, aos berros, dispara jatos de matéria fecal por todo o rosto e terno de seu imediato. Completamente enfurecido e descontrolado, o presidente passa o resto do dia defecando em todo o assoalho da casa.

Não passa por sua cabeça (sic) faltar ao discurso de abertura. O estafe e o grupo, então, reúnem-se, de modo a bolar uma estratégia para o presidente fazer o discurso sem precisar falar. Sugerem um powerpoint; o presidente recusa. Sugerem uma dublagem sincronizada a movimentos labiais; o presidente recusa. Sugerem que fique em posição de sentido e a primeira-dama discurse por ele; o presidente recusa. O presidente quer falar. Em sua cabeça (sic), conclui que tem uma missão a cumprir. Um dia antes da viagem, publica, em sua conta no Twitter, que vai a ONU defender a soberania nacional, hashtag cocozinho. O post tem 200 mil curtidas e 40 mil compartilhamentos.

Nova Iorque, setembro. Diante de um auditório com centenas de ocupantes, entre chefes de estado, de delegações, autoridades diversas, repórteres e convidados, o presidente caminha até a oratória, levando consigo duas folhas de papel A4 escritas à mão, e se posta a centímetros do microfone. Flashes de câmeras estouram em seu rosto. O presidente arruma as folhas sobre uma pequena bancada, confere outra vez o início do discurso, limpa a garganta e, ao projetar a voz, arremessa um bolo de fezes ao pé da tribuna.

Na primeira fileira, lideres de nações europeias reagem com assombro, em seguida, com repulsa. Alguns deles, nauseados, levantam-se e abandonam o recinto. Outros, ao fundo, permanecem em seus lugares, até serem alcançados pelo futum. Mesmo para o padrão do presidente estadunidense é demais, e ele também deixa o salão.

O presidente, no entanto, não se abala e segue defecando pela boca o conteúdo redigido nas folhas de papel. Ao fim, o ar concentrado está tão poluído, que mesmo os operadores de câmera e a equipe de organização se evadiram, ficando apenas a pequena comitiva brasileira que, habituada à intensidade do cheiro, coroa a queda do último rolo fecal com uma salva de palmas e assobios. O presidente é abraçado e cumprimentado pelo sucesso, depois todos vão comer hambúrguer num fast food da esquina.

De volta ao Brasil, o presidente é recebido por uma multidão que se autointitula os toletinhos. Carregam faixas e cartazes, cantam o hino nacional e entoam frases de efeito, ingerem fezes frescas e dão tiros para o alto; no topo de um carro de som, uma dupla faz uma performance-homenagem de brown shower.

Analistas de direita tecem comentários elogiosos sobre a participação do presidente na Assembleia-geral da ONU. Exaltam como foi sensato, incisivo, mantendo a compostura diante da debandada dos chefes de nação, mesmo quando seu modelo moral, o presidente dos Estados Unidos, deixou o recinto, cobrindo o nariz.

Na imprensa internacional, porém, o discurso do presidente repercute entre a revolta e o escárnio. Um articulista do Le Monde define a participação como um acinte, pois (trad. do francês), “sabedor de que defecava pela boca no Brasil, fez questão de que o mundo tivesse ciência de seu hábito grotesco”. O editorial do Deutsche Welle defende que (trad. do alemão) “a próxima Assembleia-geral fosse realizada nos sanitários do prédio”. A capa do The Sun traz a manchete “Brazil is a sh***” (melhor não traduzir).

É o combustível para se iniciar uma guerra virtual, com memes, fake news, comentários, stories, textões e tweets. Mas, com o tempo, os efeitos ganham ressonância na política macroeconômica e acordos bilaterais e multilaterais começam a ser desfeitos. Todos os países europeus param de importar produtos e matérias-primas do Brasil. Multinacionais fecham fábricas em várias cidades, causando demissões em massa. Mesmo os Estados Unidos, um aliado platônico, cortam relações com o governo brasileiro, decretando o isolamento internacional. E assim, apesar da arrogância do presidente em garantir que o país é autossustentável, a economia caminha para a falência.

Dois anos depois, o desemprego atinge 44 milhões de brasileiros, e 88,8% das famílias estão endividadas. A violência social explode contra a inexistente política de segurança e, nos estados mais pobres, a fome mata uma criança a cada cinco minutos. Com a redução do território verde da Amazônia a 12%, epidemias tomam as cidades que, sem estoque de vacinas, empilham cadáveres em covas coletivas. Todos os planos econômicos e reformas se revelam pautas de festim. E até mesmo a Igreja, mentora e patrocinadora do Governo, fecha todas as suas sedes e seu canal de televisão, e se muda para Moçambique, alegando que Deus não é mais brasileiro.

Ainda assim, o presidente lança sua campanha de reeleição. E milhares de toletinhos o acompanham em caravanas messiânicas por todos os cantos do Brasil, reverenciando o mito, o ser incomparável que defeca pela boca, pois, apesar do caos social, dos continuados escândalos de corrupção, da livre prática de nepotismo, da volta da censura, do consolo da informalidade para ter o mínimo para sobreviver, todos podem contar com a ingestão diária de três porções de fezes frescas.

O presidente sequer se vale mais de lousas para se comunicar, arremessando, em ritmo de campanha, matéria fecal a torto e a direito, sem moderação. No corpo a corpo, eleitores disputam o espaço mais próximo do presidente, de modo a capturar um desses rolos ainda no ar e ingeri-lo imediatamente, presumindo que a fonte original possui componentes puros, capazes de agir com mais eficácia na modelagem do intelecto (sic).

O presidente não se incomoda com o empurra-empurra, os apertos e os abraços, guiando a multidão numa cauda verde-amarela de inquietos movimentos, que somente se interrompem quando o líder detém os passos para defecar, sobre os microfones e gravadores da imprensa, as mesmas malcheirosas evacuações. Até que, num desses contatos diretos com eleitores de Minas Gerais, uma repórter de uma rádio local atravessa o gravador por entre a barreira de pessoas e pergunta ao presidente o que ele teria a dizer para os brasileiros que não apoiam seu governo, que se recusam a ingerir três porções diárias de fezes. O presidente dá um sorriso debochado e se prepare para expelir um rolo robusto sobre o rosto da repórter, quando abre a boca e sai a sua voz.

O presidente se espanta em ouvir a si próprio, depois de anos. Todos congelam, e um silêncio expansivo vai ganhando forma na multidão à medida que cada pessoa transmite para a mais próxima que o presidente voltou a falar. Há uma perplexidade coletiva, um abalo mental, em seguida a ponta de uma rachadura. Com os dedos melados e os lábios sujos, as pessoas começam a se autoquestionar sobre a ingestão de fezes, construir uma reação de nojo. O presidente observa a mudança das expressões a sua volta. Processa novamente a pergunta, pensa no que falar, pensa na mais absurda e abjeta declaração para expelir um bem roliço e fedorento bolo fecal, mas se distrai, não consegue, e, atormentado, sem encontrar saída senão a mediocridade da própria voz, insinua uma resposta, quando, do nada, surge alguém e lhe acerta uma facada na barriga.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É crítico literário e escritor, autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês, o espanhol e o tâmil. Participou da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris. Edita o site de crítica literária A NOVA CRÍTICA.

 

 

Categorias
130ª Leva - 02/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Resiliência é uma palavra que, há pouco tempo, entrou em uso comum no vocabulário popular. Segundo o dicionário Houaiss, o sentido figurado do termo ilustra “a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”. Ou seja, toda pessoa que, apesar das adversidades, vai adiante, encarando a vida de frente.

No entanto, outro conceito, surgido faz tão pouco tempo e que sequer consta nos dicionários, tem a ideia de representar com mais intensidade a resistência humana: a antifragilidade. Não que seja o oposto da resiliência, mas um significado diferente. Uma pessoa antifrágil é aquela que, diante das adversidades, torna-se mais forte. Não importa de quão alto ela caia ou quão profundo possa ser ferida, ela sempre vai crescer na relação com seus desafios e problemas; sempre vai reafirmar seu poder.

É difícil identificar qual desses conceitos melhor se adequa a Lígia Vitalina, protagonista de “Por cima do mar”, de Deborah Dornellas. Em sua estreia no romance, a jornalista, escritora e artista plástica carioca/brasiliense, há sete anos radicada em São Paulo, dá voz a uma mulher negra, filha de um operário e de uma dona de casa, que passou sua infância e adolescência na periferia de Brasília enfrentando dificuldades sociais, discriminação e um estupro que preferiu esconder, de modo a alcançar seus objetivos.

A personagem Lígia estudou com o ensino disponível, entrou para a faculdade e formou-se em História, seguindo carreira acadêmica centrada na pesquisa entre a cultura brasileira e a africana. Numa viagem ao Rio, conhece um professor angolano, com quem se casa, tem filhos e passa a viver na cidade de Benguela.

Certos componentes do enredo refletem a própria vida da autora, também casada com um angolano e com uma carreira acadêmica voltada para o estudo da cultura africana. São fusões entre realidade e ficção que tornam a personagem tão bem delineada em seu aspecto humano, que, na dúvida se sua característica mais marcante é resiliência ou antifragilidade, não foge à certeza de que se trata de uma das protagonistas mais fortes e inspiradoras da literatura contemporânea brasileira.

Prova disso é que o romance foi agraciado, no fim do ano passado, com o prêmio Casa de las Américas, distinção oferecida pela fundação cubana que tem, em seu catálogo, vencedores do porte de Maria Valéria Rezende, Ana Maria Gonçalves, Nélida Piñon e Luiz Ruffato. No comunicado de apresentação do prêmio, os jurados defenderam ser um livro relevante e envolvente, tratando com originalidade e profundidade a vida difícil da protagonista e das mulheres negras que vieram antes dela. E arrematam chamando atenção para o cuidado com a pesquisa histórica e a performance literária de alta qualidade.

Na entrevista a seguir, Deborah Dornellas fala sobre o longo processo de composição do livro, a maneira como recebeu o prêmio e sua visão do meio literário. Além disso, valendo-se das circunstâncias que envolvem sua personagem, toca em temas como racismo, a participação das mulheres na sociedade e a presença de autores negros na literatura contemporânea brasileira, pensando na literatura como um instrumento também capaz de fazer o leitor voltar os olhos para fora do livro.  “Não sei se os artistas têm o dever de se manifestar sobre questões que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas ações e em sua visão de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. É incrível o que um único livro pode fazer na vida de uma pessoa!”, reflete.

 

Deborah Dornellas / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu romance tem sua força motriz concentrada no aspecto humano da sua protagonista, uma mulher negra, de origem pobre, que, em meio a uma série de fatos ruins e de circunstâncias adversas, supera o passado e, por amor, cruza o Atlântico. Como foi organizar um livro que se desenvolve em várias linhas narrativas, indo e voltando no tempo, para que, a certa altura, o leitor ficasse com a impressão de que toda a história aconteceu de verdade, de que a narração progredisse de forma intuitiva?

DEBORAH DORNELLAS – Foi uma aventura. Entre o primeiro parágrafo e o ponto final, mais de cinco anos se passaram. O parto foi longo.  E o livro como uma narrativa fragmentada, com cenas avulsas. Tentei algumas vezes domar o texto, ter mais controle sobre o processo de escrita, mas não consegui. A narrativa fragmentada, indo e vindo na linha do tempo, se impôs. Depois de relutar um pouco, no início, acabei me rendendo. Percebi que esse livro só se escreveria assim. Muitas cenas, inclusive, foram escritas em madrugadas insones, no bloco de notas do celular, no tablet etc. Eu escrevia a cena, salvava, enviava para o meu e-mail e no dia seguinte revisitava, editava. Foi assim até quase o fim do processo. Felizmente, descobri, depois de algum tempo, que isso poderia trabalhar a favor da protagonista-narradora e da história que ela estava contando. Somente em 2017 comecei a montar uma estrutura. Confeccionei uma espécie de escaleta gigante, de cartolina branca, que preguei na parede do quarto. Enumerava as cenas e as colocava numa determinada ordem, para conseguir visualizar melhor. Cada cena tinha uma breve descrição, escrita a lápis, para que eu pudesse apagar e trocar de posição, quando necessário. Mais ou menos como fazem os roteiristas. Aliás, muitas vezes me foi útil o pouco conhecimento de roteiro que tenho. Parecia que eu estava escrevendo um filme de longa metragem. “Por cima do mar” foi minha primeira experiência em prosa longa, e eu não tinha nenhum treino nisso. Na verdade, tive que montar um quebra-cabeça de muitas peças para pôr o livro de pé. Essa primeira montagem não sobreviveu, mas foi fundamental para eu ter um norte. Dali em diante, comecei a trabalhar na costura das cenas, mantendo sempre essa característica da fragmentação, com capítulos curtos, mas já com uma noção de sequência. Em alguns trechos, optei por emendar capítulos que tinham continuidade, porque nesses casos a fragmentação prejudicaria o entendimento. Apesar de ter lido e estudado material sobre técnicas narrativas e de ter tido interlocução desde o início da escrita (o romance nasceu em 2013, como trabalho de conclusão de curso, para a pós-graduação em Formação de Escritores do ISE Vera Cruz, e por isso foi lido e comentado durante as oficinas avançadas), acho que o processo de produção do texto foi um bocado intuitivo também.

 

DA – Há situações e tomadas de caminhos na vida da protagonista de seu livro que muito se aproximam daquelas que configuraram a sua própria vida. Isso foi algo espontâneo, quase como um flerte involuntário com a autoficção, ou, desde o começo, você teve esse intuito de visitar trechos da sua realidade através de recortes ficcionais?

DEBORAH DORNELLAS – Tive sim o intuito de visitar trechos da realidade de Brasília, do Brasil e de Angola por meio de recortes ficcionais. E também emprestei à protagonista alguns elementos de vivências minhas, de situações que conheci de perto. Acho que muitos ficcionistas fazem isso. Mas não sinto que tenha exatamente flertado com autoficção.  Não é uma vertente que não me atrai como escritora, embora como leitora eu aprecie algumas obras que vão por esse caminho. Quanto a mim e Lígia Vitalina, a protagonista-narradora, nossas biografias apenas se tocam em alguns aspectos: somos mulheres, ambas criadas no DF, pertencemos a gerações próximas (ela é de 1967, eu sou de 1959), estudamos na UnB, gostamos de música e escrevemos poesia. Mas me parece que as semelhanças são apenas essas. Não diria que nossos caminhos de vida se aproximam por isso. Na verdade, ao longo da produção do livro, fui criando situações para Lígia Vitalina de maneira a tentar aproximá-la mais de mim, já que somos bem diferentes. Lígia é negra, nascida e criada na periferia do Distrito Federal, numa família pobre. Eu sou branca, de classe média alta, nascida no Rio e criada do Plano Piloto de Brasília. Existe um apartheid geográfico e social entre essas duas experiências, esses dois pontos de vista. Lígia olha para Brasília, para o Plano Piloto, de fora para dentro. Sua trajetória, suas desventuras, as violências que sofre, sua reconstrução emocional, sua travessia de volta à geografia ancestral, seu lugar de fala, tudo é muito diferente da minha experiência. Nós não falamos do mesmo lugar. A meu ver, os cenários e episódios da história coletiva de Brasília são mais relevantes para a história da personagem do que os elementos da minha história que emprestei a ela. Mas, desde que me joguei nessa aventura, eu quis fazer justamente o exercício de me colocar no lugar da outra, de olhar a partir do ponto de vista de uma mulher com uma biografia muito distinta da minha. Para isso, era fundamental que a própria personagem contasse sua história, que tivesse voz. Por isso escolhi a primeira pessoa para narrar. Foi uma escolha arriscada. Imaginei que suscitaria várias questões, como esta do provável namoro com a autoficção, e outras, relacionadas justamente ao lugar de fala. Procurei tomar muito cuidado com isso. Mas me pareceu que a primeira pessoa da narrativa era a única possível, para o livro que eu queria escrever. Desde o começo, Lígia queria contar, ela mesma, essa história. Esse romance só existe porque ela não desistiu dele (e de mim) todo esse tempo. “Por cima do mar” nasceu com Lígia Vitalina da Conceição Brasil e por causa dela, e assim se sustentou até o fim. Impressionante a força dessa personagem. Apesar de ela ser uma personagem completamente ficcional, penso em Lígia como uma pessoa de carne, osso, vísceras e vontade. E, mesmo depois de tantos meses da publicação do livro, às vezes tenho a sensação de que vou encontrá-la numa esquina. Ficamos amigas.

 

DA – Os personagens de seu livro vivenciam episódios marcantes da história do Brasil, com base no Distrito Federal, a exemplo do incidente do Quarentão (antigo clube da música negra, invadido a tiros pela polícia, nos anos 80) e do enterro do presidente Juscelino Kubitschek, em 1976. Qual o cuidado que você teve ao trazer esses registros históricos para seu livro, contextualizando com a formação dos personagens, sem soar aleatório ou didático? Há alguma regra para se manipular a História?

DEBORAH DORNELLAS – Não sei se há regras para se manipular a História. Acho que precisamos ter muito cuidado com isso. Fiz o possível para respeitar os episódios históricos que trouxe para o livro. Até porque a protagonista-narradora é historiadora e professora de História. No âmbito coletivo, da História do Brasil, de Brasília e de Angola, procurei mesmo reproduzir os fatos conforme os encontrava nas pesquisas, sempre feitas e checadas em mais de uma fonte. Fiquei meio obsessiva com datas, por exemplo. Mas também me senti bem livre para ficcionalizar elementos que servissem à narrativa, no âmbito da micro-história, das histórias do cotidiano, da experiência dos personagens que criei. Colocava o personagem na cena de maneira a que a situação interferisse na ação dele ou dela, e não o contrário. Em alguns trechos, criei cenas completamente ficcionais, mas em cenários e eventos reais, com personagens reais, como a Cássia Eller, por exemplo, que interage com alguns personagens (Lígia, Virgínia, Moscão), mas não ficcionalizei nada da história pública da Cássia. A mesma coisa com o enterro de JK, o baile black no Quarentão, o episódio do “massacre da GEB” e algumas passagens da História de Angola, como a guerra do Huambo. A dimensão histórica fez parte da proposta do livro desde o início, lá atrás, quando eu tinha apenas o conto “Vitalina”, germe do romance. Desde a apresentação do projeto, já anexei os resultados de algumas pesquisas, tanto da história de Brasília quanto da de Angola. Pessoas que leram partes do texto ao longo dos primeiros dois anos, inclusive professores da pós e, posteriormente, membros da banca examinadora, sugeriram que a história da personagem caminhasse, por pouco que fosse, junto com a história de Brasília. E que eu também falasse de Angola e incluísse episódios de sua história recente. Acolhi de cara a sugestão. Gosto muito de História e queria mesmo mostrar Brasília, minha cidade, e Angola, um país tão importante para o Brasil e tão pouco conhecido aqui, infelizmente. Para isso, fiz bastante pesquisa em livros, websites, textos, conversei com amigos brasilienses e angolanos etc. Durante todo o processo de escrita e reescrita, tomei cuidado para não passar dados históricos falsos ou imprecisos. Chequei datas, lugares, nomes, vocabulário inúmeras vezes. Em 2016, viajei para Angola, visitei Luanda e Benguela. Essa viagem foi fundamental para o livro. Mais para o final de 2017, algumas pessoas em Angola e no Brasil leram a primeira versão. Essas leituras foram muito importantes e úteis para mim. A partir das devolutivas desses leitores escolhidos, corrigi muita coisa, inclusive informações históricas e geográficas. E também excluí trechos, por serem didáticos demais, explicativos, ou muito contaminados pela linguagem jornalística – sou repórter de formação, e alguns cacoetes profissionais podem às vezes contaminar a escrita ficcional.

 

DA – Dois temas surgem com muito impacto na trajetória da sua protagonista, o racismo e a violência contra a mulher. O primeiro, em forma de preconceito e segregação; e o segundo, por meio de uma cena forte de estupro coletivo. Qual a relevância concreta da literatura como canal para se discutir assuntos como esses? Você acredita que a ficção tem o poder de conscientizar o leitor e fazer com que, de alguma maneira, isso se reflita no modo de enxergar a sociedade? E, dentro da temática do racismo, qual o seu ponto de vista em relação às polêmicas recentes envolvendo alguns dos livros de Monteiro Lobato?

DEBORAH DORNELLAS – A literatura, assim como a arte em geral, é sim um canal relevante para discutirmos muitas questões da nossa sociedade. Faço uso desses canais na minha criação. Não acho que temos sempre que produzir “arte engajada”, para usar um conceito antigo e muito questionado. Isso poderia ser uma camisa-de-força para a expressão artística, o que não é bom. Eu pessoalmente gosto de usar minhas possibilidades de expressão para tratar de assuntos que me mobilizam, intrigam, incomodam, sejam eles coletivos, da sociedade ou individuais. Quero ter o direito de fazer isso livremente. Ainda mais em tempos tão sombrios. Não sei se os artistas têm o dever de se manifestar sobre questões que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura (prosa de ficção, poesia) tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas ações e em sua visão de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. É incrível o que um único livro pode fazer na vida de uma pessoa! Conheço muitos exemplos. Quanto ao Monteiro Lobato, acho que é fundamental que, ao ler sua obra, o leitor seja informado sobre as posições ideológicas racistas e eugenistas do autor. Até porque acho que ele nunca escondeu suas ideias a esse respeito. Há elementos em muitos de seus livros, inclusive nos mais populares, lidos por crianças há gerações. É preciso que se dê nome às coisas. Nunca fui leitora de Lobato. Talvez não tenha sido apresentada a ela na infância como os brasileiros escolarizados da minha geração foram. Conheço personagens e trechos de seus livros, claro, mas muito por causa de programas de TV. Se tivesse que dar aulas sobre a obra de Lobato hoje, por exemplo, teria que ler tudo, e certamente leria com filtro. O viés racista em sua criação prejudicaria minha fruição.

 

DA – Outro aspecto fundamental do romance é uma resistência a fazer da protagonista, sufocada pelo sistema, sufocada por seus próprios dilemas, vítima da sociedade. Muito pelo contrário: há um fator de resiliência e de vontade de vencer muito grande na maneira de ela encarar a vida. O quão importante para a construção da personagem foi idealizá-la dessa maneira? E como essa imagem pode se refletir na representação da mulher negra na sociedade de hoje?

DEBORAH DORNELLAS – Nos primeiros tempos de escrita do texto, Viltalina (que ainda não tinha o nome Lígia acrescentado ao seu), era uma mulher melancólica, quase depressiva, muito ferida pela vida. E carregava uma herança de pai e mãe que fizeram dela uma pessoa tímida, contida. Se ela tivesse permanecido assim, teria se tornado uma mártir, uma vítima da sociedade, uma personagem pálida, e eu não queria isso de jeito nenhum. Seria muito pouco para essa personagem. As feridas de Lígia Vitalina a constituem, mas não a resumem. Além disso, seria um desserviço para a luta das mulheres, especialmente das mulheres negras. Com a evolução da escrita do romance, a personagem cresceu, amadureceu, ganhou força e autoestima elevada, até se tornar uma mulher aguerrida. Essa transformação fica evidente ao longo da vida de Lígia. De 2015 em diante, comecei a prestar mais atenção à produção intelectual das negras brasileiras e a seguir várias pensadoras negras, ler seus posts nas redes sociais, conhecer melhor seus pleitos, entender sua luta e de que lugar elas falam. Também procurei ler mais livros de escritoras negras. Essas leituras e essa atenção, mais o material que eu já tinha pesquisado e escrito, trouxeram a Lígia muitas características que ela não tinha antes, e penso que isso enriqueceu muito a personagem, tornou-a mais complexa. E verossímil. Esse crescimento e aprimoramento da personagem foram muito importantes para Lígia Vitalina que resultou, para a heroína brasileira que me desafiei a construir desde que tive a ideia de transformar um conto com problemas de construção numa prosa longa mais trabalhada. O cuidado com a representação da mulher negra na sociedade de hoje foi sempre meu norte na produção desse livro. Principalmente porque sou uma escritora branca que escreveu um livro que conta a história de uma personagem negra. Meu objetivo é juntar forças. Como disse a Ana Maria Gonçalves num programa de entrevistas em 2017, a ideia é “falar junto” e não “falar por”.

 

DA – A certa altura, a sua protagonista se apaixona, casa e vai morar em Angola, terra natal do seu marido. Você também é casada com um angolano e passou um tempo no continente africano. Nesse caso, o quanto de sua experiência pessoal serviu de matéria para o livro? E, desse conhecimento empírico, consegue traçar paralelos e diferenças entre a cultura angolana e a brasileira, sobretudo no que corresponde à literatura?

DEBORAH DORNELLAS – Lígia se casou muito antes de mim. Na verdade, Vitalina se casou quando a história ainda era um conto, antes de 2013. Quando iniciei a escrita do romance, e logo nos dois primeiros anos, mantive o mote e muitos dos elementos do conto original. Zé Augusto está lá desde o começo. Ele, sua biografia, parte de sua família. Uma das primeiras sequências que escrevi foi o encontro deles no Rio, por exemplo. Nesse momento, eu ainda não conhecia meu marido. Na verdade, foi o trabalho com o livro que me levou a ele, e não o contrário. Em 2013 e 2014, comecei a pedir amizade a vários angolanos e angolanas pelas redes sociais, justamente porque precisava conhecer melhor os costumes de Angola, expressões das línguas nacionais, indicação de fontes de pesquisa. Foi nesse contexto que conheci o Carlos, meu marido. A amizade virou namoro virtual no finalzinho de 2015. Em março de 2016, ele veio viver comigo no Brasil. Nunca nos tínhamos visto pessoalmente. O romance tinha então mais de 100 páginas escritas já. Carlos só conheceu a história de Vitalina aqui, com a leitura do material que eu havia apresentado à banca, no começo de 2015. Até então, eu ainda não tinha ido a Angola. Só pude viajar para lá em novembro de 2016, porque só então tive condições financeiras. E também quem me hospedasse em Luanda e Benguela e me enviasse a carta-convite, que o governo exige para expedir o visto. Quem fez isso foi minha amiga Judith Luacute, que conheci pessoalmente aqui no Brasil em 2014, também a partir de um primeiro contato pela rede. É ela que eu homenageio com o sobrenome da família de Zé Augusto. Pude ir sozinha para Angola – Carlos ficou no Brasil – muito por causa da generosidade da Judith e de alguns amigos do meu marido, que na época moravam em Benguela e me acolheram. Passei apenas 17 dias em Angola. Nunca vivi lá. Essa viagem foi fundamental para que eu pudesse afinar algumas cenas, enriquecer descrições, andar pelos cenários. Muitas cenas do cotidiano das ruas de Benguela, por exemplo, foram escritas depois da viagem que foi muito curta, mas inesquecível. Quero voltar logo. Angola entrou na minha vida há muitos anos, por duas portas: a primeira foi a cultura popular brasileira de matriz africana, especialmente maracatu e congado; a segunda, a literatura africana em língua portuguesa, que conheci para valer em 2004. De lá para cá, tenho lido tudo o que me cai nas mãos e sempre vou atrás de mais livros de autores angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos etc. Pepetela, Agualusa, Ondjaki, Ana Paula Tavares, Gociante Patissa, Mia Couto, Paulina Chiziane, entre outros. Durante anos, entre 2004 e 2007, só lia africanos. Acho que “Por cima do mar” é tributário dessas literaturas, de alguma maneira. Há muitas semelhanças e diferenças entre as culturas brasileira e angolana. Do nosso lado do Atlântico, há sobrevivências importantes, plasmadas ao longo de toda a diáspora: aspectos da religiosidade brasileira, elementos da culinária, da música, das danças, do português brasileiro etc. Mas a Angola que está no nosso imaginário é uma Angola mítica, um lugar parado no tempo, no espaço de uma África oitocentista. Do lado de lá do oceano, a cultura brasileira tem muita influência e há um bom tempo. Nossa música é bastante conhecida, admirada e consumida lá. E nas últimas décadas, acho que dos anos 80 para cá, as telenovelas entraram em Angola com força total. Quando estive lá, assisti a alguns capítulos de duas ou três telenovelas que já tinham passado aqui. Outro fenômeno notável na Angola atual é a presença massiva das igrejas evangélicas neopentecostais, com seus templos enormes e sua rede de TV, mas isso é assunto para outra conversa. Noutras décadas, a literatura brasileira foi muito lida em Angola. Toda uma geração de angolanos leu boa parte da obra de Jorge Amado, por exemplo. Vários escritores brasileiros são conhecidos dos angolanos. Mas infelizmente essa é uma via de mão única. Poucos brasileiros sabem alguma coisa de Angola, menos ainda leem literatura angolana. Dois ou três autores angolanos são conhecidos aqui. Acho que a maioria dos brasileiros nem sabe que Angola é um país de língua oficial portuguesa. E muito pouca gente conhece ou se interessa pela história recente do país. É uma pena que o Brasil seja este país tão autocentrado, ou tão voltado para Europa e América do Norte. África e América Latina têm muito mais a ver conosco do que grande parte da sociedade brasileira imagina e deseja.

 

Deborah Dornellas / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sua formação é de jornalista, com mestrado em História, por meio do qual você tem uma pesquisa profunda sobre a influência africana na cultura brasileira. Transportando esse conhecimento para o campo literário, como avalia a representação do negro na literatura brasileira? E, na sua opinião, ainda há pouco espaço para escritores negros?

DEBORAH DORNELLAS – Há pouco espaço para as escritoras e escritores negros na nossa literatura. Se pensarmos em termos de representatividade, menos ainda. Esses dias, li uma entrevista da Conceição Evaristo em que ela questiona justamente o fato de sua obra só ter começado a ter visibilidade muito recentemente, quando ela já passou dos 70 anos de idade. Há décadas ela trabalha, escreve, estuda, luta por espaço. Isso quer dizer muita coisa. Uma obra com essa relevância já deveria estar sendo lida há muito mais tempo. Para ilustrar a representação do negro na literatura brasileira, uso uma fala da mesma Conceição Evaristo, que ouvi numa das mesas da FLIP de 2017. Ela comentava mais particularmente sobre a representação da mulher negra na literatura brasileira. Segundo um levantamento que ela fez, as negras na nossa literatura tradicional em geral são estéreis, não são capazes de ter descendência. Isso é tão cruel quanto revelador. Acho que alguns ventos favoráveis a que isso mude estão começando a soprar, mas ainda é preciso correr muito trecho. E isso os intelectuais negros e negras têm feito muito bem. É nessa trincheira que eu quero estar.

 

DA – Seguindo esse mesmo raciocínio, uma avaliação superficial do mercado literário deixa claro que o espaço e o interesse por livros escritos por mulheres ainda compõem um percentual inferior a aquele ocupado por homens. Recentemente, a divulgação de um prêmio literário para autores inéditos também demonstrou essa disparidade. Trabalhando também como tradutora, seu olhar de dentro do mercado literário tem essa mesma percepção? Acredita que ainda exista um preconceito e uma “dificuldade” para com os livros escritos por mulheres, tanto dos leitores quanto das editoras e das comissões avaliadoras de originais?

DEBORAH DORNELLAS – Não sou tradutora literária. Talvez um dia me aventure por esses caminhos, que me atraem muito. Mas imagino que o mercado de obras traduzidas aqui no Brasil reproduza o que o mercado literário de livros nacionais faz: o reforço da hegemonia masculina. Isso se dá por várias razões que não cabe elencar aqui, mas principalmente porque o mercado literário de uma sociedade machista é fundamentalmente machista. Tenho muita implicância com o termo “escrita feminina”, por exemplo. O que seria isso? Existe “escrita masculina”? Podemos falar talvez de escrita de autoria feminina, de literatura feita por mulheres, mas só com o intuito de marcar nossa posição num mercado que resiste em abrir as portas para nós. No mais, qualquer rótulo é restritivo. O mesmo serve para escritas de negros e negras, LGBTQs, periféricos, indígenas etc. Tudo que está fora da perspectiva do homem branco, heterossexual, de classe média para cima, euro-centrado é visto como exótico. Isso, além de ser uma bobagem inominável, não é sequer inteligente, porque não leva em consideração o que o tal mercado literário, que eu nem sei bem o que é, poderia lucrar se investisse mais nessas escritas que ele próprio tende a desqualificar. Parece que isso está mudando, mas bem devagar. Em 2018, o Prêmio São Paulo de Literatura, por exemplo, só premiou mulheres em suas três categorias. Isso nos deve dizer alguma coisa sobre a literatura que estamos produzindo. Integro dois coletivos literários, o Martelinho de Ouro, composto somente por mulheres, mas sem perfil feminista, e o Mulherio das Letras, de perfil mais militante. Atesto, olhando de dentro de ambos, que nós temos uma força de produção e realização impressionante. O mercado que fique atento.

 

DA – Uma parte de seu romance se passa numa comunidade pobre, em Brasília, e é estranho como ainda hoje um autor surgido da periferia, da favela, ainda causa um fascínio pela maneira como interpreta esse ambiente e o transpõe para a ficção, valendo-se de uma linguagem própria. Foi assim, por exemplo, com o livro de contos “O sol na cabeça”, do autor carioca Geovani Martins. Pensando nas características desse tipo de literatura, como você avalia o olhar de fora para esse universo particular? Acredita que ainda exista uma barreira para o que foge da norma culta e traduz esse movimento como algo exótico?

DEBORAH DORNELLAS – É como eu disse aí acima. O olhar de fora é limitado e tende a rotular de exótico tudo que não traduz a perspectiva hegemônica. A periferia é olhada de fora por quem dita as regras no mercado. A ascensão rápida do Geovani Martins é uma exceção a essa regra. Gosto muito do trabalho dele, li “O sol na cabeça” numa noite. O texto tem muita força. Ocorre que quando as coisas começam a aparecer no centro, provavelmente já estão acontecendo há muito tempo na periferia. A periferia pulsa. E é de lá que vem o novo. E não só na literatura. Basta olhar para todos os movimentos que têm acontecido nas periferias do Brasil há décadas para constatar isso. Na área da literatura, há saraus, slams, feiras literárias – como a FELIZS em São Paulo, a Movida, no DF, e FLUP, no Rio, por onde inclusive o Geovani Martins passou e passa –, casas editoriais independentes etc. Mas os caras só enxergam isso pela sua lente. E com delay.

 

DA – Por falar em linguagem, embora com uma força de escrita descritiva, seu romance traz um teor visível de lirismo no modo como compõe certas cenas e narra a maneira com que a protagonista decifra o mundo externo e o interno. De onde vem essa verve poética, e como ela se encaixa na construção do seu livro?

DEBORAH DORNELLAS – Escrevo poesia desde muito cedo. Foi por essa porta que entrei na escrita literária. Embora seja uma leitora mais frequente de prosa, a poesia é minha forma de expressão mais orgânica. Meu primeiro livro publicado foi uma coletânea de poemas, TRIZ (In House, 2012). Desde 2012, comecei a fazer oficinas literárias. Fiz duas com o Marcelino Freire, antes de entrar na pós-graduação para escritores. Foi nesse ambiente que comecei a arriscar textos em prosa. A coisa se destravou aí, mas foi só no ano seguinte, quando entrei para o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, que tive coragem de publicar alguns dos meus contos. Desde 2013, temos publicado coletâneas de textos todos os anos, em formato de livro ou fanzine. Quanto ao lirismo, acho que não sei escrever sem ele. Aliás, acho que não viveria sem lirismo. No romance, ele está por toda parte. A poesia esteve presente desde o início da escrita. Com uma particularidade: poesia e prosa poética funcionam como uma espécie de refrigério para a protagonista. E acho que para o leitor também, em alguns momentos. Descobri que esse é um recurso meu. Quando não dou conta de narrar, por alguma razão, recorro à poesia. Emprestei esse recurso à Lígia Vitalina, e ela aceitou. A poesia entra em momentos muito difíceis ou intensos para ela.

 

DA – “Por cima do mar” é seu primeiro romance, e ganhou, no ano passado, um dos prêmios literários mais prestigiados do mundo: o Prêmio Casa de las Américas. Eu queria saber como foi sua relação com a editoras, quando estava procurando um selo para publicação, até finalmente o original do romance ser aceito pela Patuá? E se, após a conquista do prêmio, surgiu algum tipo de interesse pelo seu trabalho por parte de outras editoras, talvez alguma daquelas consideradas grandes?

DEBORAH DORNELLAS – Não houve relação com editoras. O Martelinho já publicava com a Patuá. Conversei com o Eduardo Lacerda, dono da editora, dei uma parte do manuscrito original para ele ler e logo em seguida já combinamos a edição. Foi um processo bem rápido. Nossa relação é muito boa e fluida. Consegui fazer o livro que eu quis, no formato que escolhi. E foi o Edu quem sugeriu que eu mesma ilustrasse o romance. Isso talvez não fosse possível se eu estivesse numa editora dessas consideradas grandes. Nenhuma delas veio me procurar ainda.

 

DA – Qual o grau de transformação você acredita que um prêmio desse porte pode trazer para sua carreira de escritora?

DEBORAH DORNELLAS – Receber o Prêmio Casa de Las Américas, ainda mais com o primeiro romance, é uma grande alegria e uma imensa honra para mim. Acho que as coisas já começaram a mudar. E podem mudar mais ainda, em relação à visibilidade do livro e ao interesse que ele desperta. Qualquer prêmio relevante pode ser uma alavanca para a carreira da escritora ou do escritor. Desde que foi divulgado o resultado do prêmio, pessoas começaram a me procurar para entrevistas, resenhas foram publicadas, convites para participar de feiras literárias começaram a pipocar. Estou adorando, claro, e surfando nessa onda. Afinal todo livro é uma aposta, um sonho e envolve muito trabalho.

 

DA – Há um momento muito bonito em seu livro, no qual a protagonista percebe que suas escolhas de vida a levaram a se completar no outro. Pensando na literatura como uma escolha para entender a si mesma, de que maneira o exercício da escrita e da criação lhe completa?

DEBORAH DORNELLAS – Que bonita essa percepção. Não tinha pensado nisso, nem em relação a ela, nem em relação a mim. Escrever, poder expressar-se é muito bom, e o exercício da escrita e da criação pode sem dúvida ser um caminho para o autoconhecimento, a autopercepção, o auto-acolhimento. Os momentos mais prazerosos para mim são aqueles em que estou escrevendo, pintando, lendo, pensando sobre um próximo livro, trabalhando numa ideia. Criar, mesmo quando dói, é bom. Descubro isso todos os dias.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

Categorias
128ª Leva - 06/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Na mesma proporção que uma boa escrita carece de técnica e imaginação, é preciso que o escritor tenha sensibilidade para capturar e decifrar o espírito do seu tempo. Em seu mais recente livro de contos, a mineira Eltânia André processa os códigos que representam, cada vez mais, a sociedade contemporânea, em especial a brasileira. “Duelos” trazem narrativas que se constroem a partir de disparos de violência, crimes de ódio, agruras urbanas, desmazelos e injustiças sociais. São retratos muitos claros e contundentes do nosso cotidiano, que revelam o quanto perdemos o senso de absurdo e a capacidade de reação, por exemplo, diante de mortes de crianças pelas chamadas balas perdidas. “Há mais homicídios no Brasil do que ​nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, ​mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, ​sobre as populações desassistidas da periferia”, lamenta a autora.

Em entrevista exclusiva à Diversos Afins, Eltânia conta sobre o processo de composição de seu livro, ao mesmo tempo que reflete sobre o Brasil de hoje, repartido por conturbações sociais e político-partidárias, e sobre o real poder da literatura em se oferecer como um instrumento de recondução coletiva. “Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos ​habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade”, alerta.

Morando em Portugal há cerca de dois anos, a escritora ainda traça um paralelo entre a produção literária feita no Brasil e na Europa, constituindo um painel de pequenos detalhes que espelham a realidade atual do mercado do livro no Brasil e a sua própria relação com a escrita e a publicação. “Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das (chamadas grandes) editoras, acho cruel e desrespeitoso​ a indiferença ou as cartinhas com negativas ​automáticas e burocráticas”, declara a autora.

 

Eltânia André / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seus livros anteriores são marcados pela exploração do território da memória, no esteio de uma escrita com tendência poética. “Duelos”, por outro lado, trata de uma realidade atual, regida por temas agudos e contundentes que ilustram o caos da sociedade brasileira. O que motivou tal mudança?  

ELTÂNIA ANDRÉ – Aconteceu naturalmente. Quando percebi, a violência estava posta em vários contos. O que fiz foi ceder à temática e seguir produzindo com o título, “Duelos”, eleito. ​A severidade da vida e a realidade que ​nos circundam me guiaram na busca de personagens e histórias, porém tentei através da linguagem levar um pouco de ternura, não sabendo se havia possibilidade do paradoxo ​ou se seria possível suavizar a brutalidade. Mesmo assim arrisquei. Quanto à memória de longo prazo, ela também está presente em vários contos, com sutileza, talvez. Os contos estão circundados pelo horror ancestral, mas também pelo crescimento da violência urbana​, circunstâncias que recheiam gráficos: há mais homicídios no Brasil do que ​nos anos do conflito no Vietnã e atualmente na guerra da Síria, ​mas, em nosso país, esse passivo recai, em sua imensa maioria, ​sobre as populações desassistidas da periferia, sobretudo jovens negros.

 

DA – “Uma das mil e uma noites”, conto que abre a coletânea, acompanha uma cena chocante em que um jovem gay é espancado por conta de sua orientação sexual. Até que ponto, você acredita, a literatura é capaz de transcender seu valor artístico e servir como instrumento de alerta social? 

ELTÂNIA ANDRÉ – O narrador d​esse conto é surpreendido pelo desejo de salvar a personagem, mas ele não tem o antídoto para salvar o homem do veneno da estupidez. Assim, instala-se no texto a angústia que paralisa a história e que faz a  narração se dilatar em múltiplas vias, exigindo do leitor a saída brusca do cenário de horror e deixando, imediatamente, o convite para a pausa reflexiva. É a angústia da autora também, ​pois tenho em mim tantas dúvidas e, por outro lado, tanta fé na arte. Mas, sim, a literatura é um dos instrumentos de alerta social, mas suspeito que não seja apenas isso. Há uma potência, que eu particularmente sinto, de que a literatura me permite estar em contato com o silêncio para ouvir outras vozes, sem reservas, sem receios – personagens e mundos múltiplos. Paro para ouvi-los, contemplo-os e, em alguns casos, torno-me íntima deles, outras vezes me torno outra(s) e assim fico mais próxima de mim. A literatura produz empatia, produz proximidade, arrisco a dizer que possa produzir novos sentidos; somos atravessados pelas palavras e num determinado momento essa força produz mudanças. Tudo isso pode mobilizar individualmente ou coletivamente o universo social, mesmo que nos pareça imperceptível. Melhor seria se os livros fossem objetos íntimos ​habitando o imaginário do nosso povo, mas tantos ainda precisam do básico e do urgente: saúde, alimentação, escola, dignidade.

 

DA – Numa outra chave narrativa, alguns contos tratam de mecanismos de violência, que não se fortificam na brutalidade, mas que não deixam de ser violência, a exemplo do descaso público com a saúde, a educação, a aposentadoria pública. De maneira geral, são temas poucos explorados pela literatura brasileira. Você acredita que falta, aos escritores contemporâneos brasileiros, um olhar mais penetrante para esses problemas cotidianos, que parecem menores, mas não são? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Talvez esses temas estejam ​diluídos na literatura contemporânea, implícito na realidade das personagens, porque não é possível testemunharmos nosso tempo sem observarmos esses fenômenos que trituram nossas vísceras.

 

DA – A violência contra a mulher é outro tema recorrente. Mulheres abusadas, oprimidas, inferiorizadas. Traçando um paralelo com a literatura, e levando em conta o último prêmio São Paulo de Literatura, que elegeu três escritoras campeãs, como analisa a participação das mulheres no mercado literário? Percebe que ainda há restrições por parte das editoras, dos leitores, comparado aos espaços permitidos aos homens?  

ELTÂNIA ANDRÉ – ​Comemorei o resultado do Prêmio São Paulo, três mulheres vencedoras, mas gostaria que um dia fato​s como esse não necessitasse​m de comemorações ou fossem alvo de ​uma visão pitoresca, entre críticas e deboches, porque se pensarmos na quantidade de vezes que somente homens venceram prêmios​, isso ocorreu sem nenhum destaque ou suspeita. Gostaria que um dia nós tivéssemos ​naturalmente esse espaço; a escrita como processo, como exercício e resultado de esforço combinado com talento. Há tanto tempo as mulheres escrevem, o que deveria importar? A força da escrita​, não a hierarquização ou os rótulos. Seria mesmo bom se assim fosse! O mercado literário nunca foi imparcial, não só com relação às mulheres, nem mesmo justo com as escolhas das obras, ​pois nem sempre a qualidade é o farol. Claro, percebo que há restrições e há tratamentos desiguais. Mas não vamos nos calar. O Mulherio das Letras, que surgiu sob a batuta da escritora Maria Valéria Rezende, tem mais de 6.600 mulheres. Um número expressivo, não acha?

 

DA – O conto “Matança de passarinhos”, que integra seu novo livro, originalmente faz parte da coletânea “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”, que reuniu textos de autores em protesto aos casos repetidos de crianças mortas por balas perdidas em comunidades carentes do Rio de Janeiro, no ano passado. Como foi o processo de composição desse conto, e de qual maneira ele serviu de norte para a ideia central de “Duelos”?  

ELTÂNIA ANDRÉ – Na verdade, eu já estava quase terminando o “Duelos”​, quando Alexandre Staut me convidou para participar da antologia “Perdidas – Histórias para crianças que não têm vez”. Mas é sempre difícil enfrentar essa guerra em que as nossas crianças são alvo, ao invés de receberem proteção e direitos, ​como os que estão inseridos no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). A realidade é ​rude, meu amigo: Maria Eduarda tinha 13 anos, cursava o sétimo ano do Ensino Fundamental e estava participando de uma aula de Educação Física, numa Escola da Zona Norte do Rio de Janeiro, no momento em que foi beber água e recebeu em seu corpo os disparos de fuzis. Muitas outras crianças e adolescentes foram vítimas de histórias trágicas. “Matança de passarinhos” foi escrito com muita tristeza, e confesso que gostaria que fosse totalmente ficcional e distante da realidade, mas é uma fotografia do Brasil, infelizmente.

 

DA – Há uma frase muito emblemática no conto “Poesia que ninguém lê”, que diz: “Os versos inacabados estarão sobre as contas a pagar na segunda gaveta do criado”. É uma imagem muito representativa da relação entre vida comum e a literatura; do quanto escrever, no Brasil, pode ser comparado a uma obsessão diante da ausência de qualquer recompensa associada, sobretudo a financeira. Por que, então, seguir escrevendo? E, principalmente contos, que é um gênero mal visto pelo mercado? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Também insisto em me questionar. Não é mesmo fácil enfrentar as contas na gaveta e o poema que insiste em sobrepor​-se à matemática e às obrigações diárias. A maioria de nós precisa se dedicar a outro trabalho para sustentar também a própria produção literária. Mas o que mais me incomoda é ter que ser a caixeira​-viajante, mascate da minha obra, isso é bastante desconfortável. Escrevi o artigo “Por que escrevemos”, ​que foi publicado em dezembro de 2017, na revista Caliban, de Lisboa, para tentar encontrar algumas pistas para es​sa interrogação que me assalta frequentemente. Não encontrei uma resposta justa, mas não consigo parar de escrever (algumas vezes penso que deveria). Encontrei esse modo de comunicação comigo mesma e com o mundo que teima em não cessar.  Quanto ao gênero do conto, eu não me importo com o tratamento do mercado, tenho muitos contos ainda para produzir, e quer saber: dane-se a ditadura do mercado, o conto é soberbo e valente.

 

Eltânia André / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seus livros foram publicados por editoras de médio e de pequeno porte. Isso se deve a uma escolha sua, pensando em ter mais gerência sobre a preparação de suas obras, ou chegou a tentar contato com editoras de maior circulação e não obteve êxito? Qual sua relação com o mercado do livro? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda não tentei encaminhar meus livros para editoras de maior circulação, desacredito que serei avaliada. Seria bom se meus livros tivessem distribuição e fossem mais lidos, mas não houve nenhuma abertura. Sou orgulhosa, não gosto do silêncio que se instala sobre os pedidos que lotam as caixas das editoras, acho cruel e desrespeitosa​ a indiferença ou as cartinhas com negativas ​automáticas e burocráticas (não creio que leiam os textos sem que haja indicações). Admiro o trabalho das pequenas editoras, como a Patuá, que publicou meu romance “Para Fugir dos Vivos” e “Duelos”. Reconheço que vem apresentando ao mercado livros excelentes, com primoroso trabalho estético e, além disso, há a abertura do diálogo com os editores.  ​Afinal, justiça seja feita, são esses laboriosos pequenos editores que nos dão vez e voz num cenário tão viciado, e já algum tempo temos visto autores dessas casas serem contemplados com prêmios nacionais.

 

DA – Você é natural de Minas Gerais, mas já morou em São Paulo e agora está radicada em Portugal. O quanto a existência por essas cidades trouxe de enriquecedor para a captura de temas e o desenvolvimento de sua escrita? 

ELTÂNIA ANDRÉ  Nasci e vivi durante 24 anos em Cataguases, e foi convivendo com meu irmão (que se encantou com a poesia, publicou um livro artesanal e, meses depois, morreu​ precocemente, aos 19 anos, vítima de um acidente) que o desejo insólito de ser futuramente uma escritora foi despertado e ficou hibernado por anos. Em 1990, decido viver em Belo Horizonte e lá permaneço por uns 15 anos. De 2004 até 2009, permaneço em Barbacena, para estudar Psicologia. Em 2007, começo a escrever e publico, apressadamente e de forma independente, meu primeiro livro de contos, ​”Meu nome agora é Jaque”. Depois de minha formatura e de meu casamento, parto para São Paulo e lá fico por muitos anos. A escrita passa a fazer parte de minha rotina e finalizo os livros “Manhãs Adiadas”, contos, selecionado pelo PROAC e publicado pela Editora Dobra, em 2012; “Para fugir dos Vivos”, romance, publicado pela editora Patuá, em 2015; e “Diolindas”, romance escrito em parceria com Ronaldo Cagiano, que saiu pela Editora Penalux, em 2016. Em janeiro de 2017, saio do Brasil, passo a viver em Lisboa e continuo a escrever e revisar “Duelos”, que, em agosto deste ano, é lançado pela Patuá. Sair do território natal foi o primeiro e fundamental passo para minha formação ​e experiência existencial, pois o deslocamento nunca é apenas geográfico. É um trânsito filosófico, é tornar-se outro, é a metáfora da errância no sentido de desviar-se do caminho original, espalhar-se em outras direções e, ao mesmo tempo, carregar em si e na memória o que fomos na representação do passado com todas as suas complexidades. Só consegui começar a escrever depois de muitos rompimentos: com o mercado, com Deus; com valores que introjetei da cultura e do senso comum. A literatura exigiu um enfrentamento comigo mesma. O deslocamento físico acaba refletindo no subjetivo e tudo isso implica na linguagem, na vida.

 

DA – Falando em Portugal, do tempo em que você reside na terra-mãe, qual a sua impressão sobre a relação dos portugueses com a literatura? Especificamente, no que diz respeito ao interesse pela leitura e por eventos associados ao contexto literário, levando em conta também a maneira que enxergam a literatura brasileira? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Como disse acima, cheguei a Portugal em janeiro de 2017. Desde o início, comecei a ler autores portugueses; muitos dos quais não temos acesso no Brasil.  Durante um período li com intensidade escritoras portuguesas ​de uma prosa visceral, entre as quais Maria Velho da Costa, Hélia Correia, Agustina Bessa-Luis, Gisela Ramos Rosa, Maria João Cantinho, Teolinda Gersão, Lídia Jorge, Maria Teresa Horta, Maria Gabriela Llansol, Inês Lourenço, Maria do Rosário Pedreira, Sophia de M. B. Adrensen, Maria Judite de Carvalho e Ana Margarida de Carvalho. A literatura portuguesa é riquíssima, e ainda ​há um fértil terreno ficcional e poético a se explorar.  Percebo que a Clarice Lispector foi eleita como um cânone da literatura brasileira. Encontramos nas livrarias de Portugal os nossos clássicos e alguns contemporâneos, mas poderia haver um interesse maior já que falamos a mesma língua​. Percebo que o acesso à literatura brasileira, em Portugal, ainda é pontual. A música brasileira, sim, é muito apreciada pelos portugueses​ e tem histórica difusão.

 

DA – Seu marido, o escritor Ronaldo Cagiano, acaba de lançar seu segundo livro por uma editora portuguesa. Como funciona essa relação de autores brasileiros com selos de livros em Portugal? É mais fácil, para um escritor brasileiro, lançar um livro em Portugal que no Brasil? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Mais fácil no Brasil. Não acredito que haja uma boa abertura para os autores brasileiros, as editoras portuguesas não estão de braços abertos para a literatura do Brasil​, há resistência ou desinteresse, que não é de hoje, uma espécie de mecanismo de defesa contra a bibliografia brasileira, que é enorme. Há algumas pequenas editoras que têm publicado brasileiros, sobretudo na poesia, mas são poucas. Caso o livro tenha tido uma boa repercussão no mercado nacional, a possibilidade é maior. Em editoras de médio e de grande porte é conveniente que o autor tenha contrato com algum agente literário​, pois na Europa são esses profissionais que induzem os editores a publicá-los, diferente do Brasil, onde ainda funciona o contato autor-editor. A figura do agente literário no Brasil é quase dispensável para os autores novatos ou ainda não reconhecidos pelo mercado; funciona bem para os já estabelecidos. Por outro lado, a publicação de portugueses no Brasil tem sido facilitada, porque há incentivos, como a DJLAB (Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas), que apoiam e incentivam a publicação no Brasil de obras de autores portugueses e de países africanos da mesma língua. Há também o nosso franco interesse pela literatura portuguesa.

 

DA – Na condição de autora, e também de leitora, o que mais lhe impactou na maneira de tratar o escritor e o livro no continente europeu? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Ainda me sinto prematura para responder esta questão. Mas notei pequenos detalhes, por exemplo, quando ocorrem os lançamentos​, os livros são analisados e apresentados para o público e para o autor. É um momento de muito respeito e de celebração da literatura. Não é apenas um encontro para autógrafos. ​Essa é uma prática tradicional, em que um livro não é apenas um acontecimento social, mas uma oportunidade de se conhecer autor e obra e, para tanto, antecede-se uma mesa, com algum convidado apresentando a obra do autor em lançamento. Nas Feiras do Livro, os autores põem-se disponíveis e próximos dos leitores, é fácil o acesso. Outra observação importante é que frequento muito as bibliotecas, estão espalhadas pelas freguesias, e é muito bom vê-las sempre cheias, principalmente de estudantes.

 

DA – De volta aos debates que estimulam seus contos, recentemente tivemos uma eleição para presidente do Brasil, na qual muitos artistas abriram seus votos via rede social. Você acha que é dever do escritor se manifestar publicamente, defendendo uma bandeira ideológica, ou a política pertence mais ao cidadão que ao artista? 

ELTÂNIA ANDRÉ – A arte acaba exigindo um embate com o mundo e sabemos que a política interfere diretamente na vida das pessoas. Na verdade, a literatura também é um ato político. Não estou falando de política partidária. Quanto aos autores, admiro os que estão ao lado dos direitos humanos, da igualdade social, da diversidade, admiro os que lutam, os que se expõem. E estranho os que se isentam ou aqueles que escolhem ficar ao lado contrário, como o do fascismo. Cidadão e artista, em sua essência, são os mesmos, não há como separar um do outro. Respeito, entretanto, o modo que cada um encontra para se manifestar.

 

DA – Dos dramas tratados em seu livro, como o poder da leitura pode incidir de maneira a pôr um fim? 

ELTÂNIA ANDRÉ – Não há como pôr um fim, ​esse ideal seria uma utopia. Há retrocesso​s que avacalham com a ​civilização e a humanidade – já era tempo de igualdade e paz, mas a irracionalidade do homem não deixa. No Brasil, o desafio é enorme e há um longo caminho pela frente. Muitos dos dramas podem ser tratados com adequadas políticas públicas,​ como por exemplo ​a violência urbana. E o acesso ao conhecimento e aos livros são ferramentas poderosas.  Mas diante do golpe de 2016 e o resultado da eleição deste ano, como ser otimista?

 

DA – Qual o maior duelo em ser um escritor no Brasil? É possível sair vencedor, de alguma forma?  

ELTÂNIA ANDRÉ – Os meus são vários, e todos passam pela angústia. Primeiro e constante é luta solitária com o que borbulha desordenadamente dentro e o que respinga na folha branca, depois burilar, lapidar – sempre fica um resto que não sabemos bem se terá fim, mas tudo bem, ele é ameaçador, mas produtivo. Desse duelo pessoal, passamos a ansiedade pós-criativa: encontrar editora, prazos que se prorrogam, lançamento, expectativas quanto à receptividade e um montão de eteceteras. Não há vencedores muito antes de Auschwitz.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

Categorias
127ª Leva - 05/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Bruno Ribeiro não é um autor dado a temas fáceis e convencionais. “Febre de enxofre”, sua primeira incursão no romance, é protagonizado por Yuri Quirino, um poeta desiludido com a literatura e com o amor, que recebe uma proposta bizarra de escrever a biografia de um tal Manuel di Paula, um sujeito soturno, que o arrasta para uma jornada de assombros pelas vielas de Buenos Aires. O enredo é livremente inspirado no clássico “Fausto”, do alemão Wolfgang von Goethe, sobre um homem que negocia a alma com o diabo em troca de um tipo de eternidade, mas também pode ser lido como uma investigação sobre vampirismo. Em suma, um terror vestido por um escopo mais complexo.

“Glitter”, que acaba de ser lançado, também margeia a fronteira da literatura de gênero. É um romance pop, de certo modo; ou melhor, uma antiutopia pop. Vinte modelos com sérios desvios são contratadas pelo estilista e escritor Guilherme de Boaventura para atuarem no experimento La Poésie Vivant. Uma espécie de reality show, no qual as participantes ficarão confinadas dentro de um shopping center durante um ano, encerrando o exílio com um desfile em que irão se suicidar diante de um público selecionado. É um livro crítico, provocativo, que expõe as dissimulações e os delírios que (des)governam a sociedade contemporânea.

Com o mesmo tom afiado e repleto de personalidade, o autor mineiro radicado na Paraíba responde a esta entrevista exclusiva para a Diversos Afins. Ribeiro mira seu olhar sobre sua produção e o mercado do livro, observa a geração de novos escritores em que está inserido, fala sobre prêmios literários, oficinas de criação, editoras independentes e o tempo em que morou na Argentina, por conta de um período acadêmico. Uma posição que não se exime de tomar partido, sem artificialismo ou disfarce, e até certo ponto provocativa. “Assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado”, dispara.

 

Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, pode ser lido como uma revisão portenha do “Fausto”, de Goethe, no qual o diabo figura entre os personagens centrais. “Glitter”, que acaba de sair, trata de um experimento no qual vinte modelos problemáticas são confinadas num shopping, focalizando em seus desmoronamentos psicológicos que resultam em atos de violência repletos de grafismo e baldes de sangue. De maneira involuntária ou não, seus livros têm a intenção de se estabelecerem como literatura de gênero?

BRUNO RIBEIRO – A pergunta é muito pertinente, porque adoro me debruçar nos procedimentos da literatura de gênero e creio que eles atuem como um espelho distorcido no meu trabalho. Faço uma literatura de gênero que nega seus próprios mecanismos, uma espécie de anti-gênero. “Febre de Enxofre” pode ser lido como um romance de terror, mas tenho consciência de que transgrido algumas regras deste tipo de livro, assim como injeto diversas referências pouco comuns ao estilo. Já “Glitter”, tem uma chave policial em certos momentos, mas também nunca se entrega totalmente ao que podemos chamar de romance policial. E isso também ocorre em outros textos, como nos contos de “Arranhando Paredes” e nos meus inéditos. Eu abraço o gênero em toda sua complexidade no cinema, pois os projetos em que trabalhei como roteirista foram todos de policial, thriller ou terror. Na literatura, utilizo-os como uma sombra que a qualquer momento pode sumir e aparecer no texto, por isso talvez seja difícil me estabelecer como autor de gênero, pois estou sempre por perto, entretanto me esquivando da responsabilidade de ser, de fato, um autor de literatura de gênero. Neste sentido me inspiro na forma como a literatura latino-americana, especificamente a argentina, lida com essa questão; cito aqui Ricardo Piglia e Borges, que conseguiam brincar e subverter com os procedimentos do policial como ninguém.

 

DA – O escritor norte-americano Chuck Palahniuk, autor de “Clube da luta”, trafega entre vários planos temáticos – o terror, a distopia, o consumismo, a pornografia, a fábula – para acertar sempre num alvo: a sociedade de seu país. Com uma forte carga crítica, que causa do choque ao riso nervoso, qual é o verdadeiro alvo de “Glitter”?

BRUNO RIBEIRO – A escritora francesa Christine Angot disse que “escrever é sempre violar uma intimidade”. Acredito nessa frase e quando não estou violando a minha, busco violar a de outros ou até a de certas estruturas e campos, como foi o caso de “Glitter”. A indústria da moda é duramente criticada e “violada” no meu romance, mas ela é uma cortina de fumaça. O principal alvo de “Glitter” – pois existem vários – e no qual busco as entranhas é a religião e o capitalismo. Giorgio Agamben disse que “o capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua”. Este conceito serviu bastante de inspiração para a construção do livro: uma religião sem fome, pura voragem, glamour e sangue. Pensar que o shopping é um sinônimo de igreja do capital, aonde a sociedade vai diariamente pagar seus dízimos e se ajoelhar perante as infindáveis lojas de departamento é assustador. Outra coisa terrível é pensar que tudo pode e é devorado pelo capitalismo, coisa que acontece numa chave distópica em “Glitter”. Pense que alucinado é ver diversas obras de arte, desde o mictório de Duchamp até os grafites, estampados em museus e sendo vendidos a preços absurdos para ricões que desejam lavar dinheiro e afagar seus egos. Impossível? Com o capitalismo isso acontece: tudo é absorvido, até aquilo que nasceu para bater de frente com ele. Em “Glitter”, a própria morte se torna tendência; a tortura de modelos, no futuro remoto que criei, vira purpurina, publicidade, padronização coletiva, novas formas de se vender roupa e encantar os olhos alheios. Por isso que a moda e todos seus melindres, profundezas e superficialidades, belezas e feiuras, sublime e profano, clássico e vanguarda, – toda a dicotomia que a envolve – representa a sociedade e a forma como o capitalismo a atinge: um treco que se molda a qualquer coisa para lucrar, da sarjeta ao luxo, da vida à morte.

 

DA – Você consegue traçar um paralelo entre a experiência de confinamento das modelos e o processo de escrita? Ou, porventura, com o mercado literário?

BRUNO RIBEIRO – Sem dúvida. Por isso o livro brinca ao colocar as modelos para escreverem poemas e especificamente isso fica mais claro no trecho em que elas estão numa livraria do shopping buscando inspiração. Todos os meus textos ficcionais lidam com o processo criativo. Tento fugir ao máximo dos clichês ao falar deste tema, que é extremamente batido, mas tanto o poeta seduzido por um demônio em “Febre de Enxofre” como as vinte modelos seduzidas pelo estilista ermitão em “Glitter” estão sendo puxadas para um inferno vasto e que pode ser lido como o demônio da criação e as diversas dificuldades que nos rodeiam enquanto artistas; no caso do meu poeta: as dificuldades para sobreviver e escrever uma biografia; no caso das minhas modelos: as dificuldades para sobreviverem e escreverem um poema. Esses personagens precisam lidar com seus problemas e principalmente em manter a sanidade na hora da criação. Ambos romances, “Febre de Enxofre” e “Glitter”, mantêm um diálogo forte com a literatura do século XIX; os românticos, os duplos, a decadência, a perda da beleza e da pureza, frustrações, o lirismo carregado na linguagem, a dor do poeta ou do criador em lidar com sua obra, vida, entorno; minha mente ao criar tramas e personagens vai de Mary Shelley e sua criatura arrebatadoramente poética e monstruosa, vindoura da mente do doutor Victor Frankenstein, à Charlotte Brontë, Goethe, Baudelaire, Rimbaud, Stevenson, Edith Wharton, Oscar Wilde, Poe, Bram Stoker, Huysmans, e por aí vai. Todos esses autores, à sua maneira e de diversas formas, lidaram com o mesmo que lido em meu projeto literário. Quanto ao mercado é possível, sim, fazer comparações entre o literário e o fashionista. O jovem escritor sofre tanto quanto o jovem modelo, a diferença é que o meio literário esconde sua escrotidão por meio da intelectualidade e das etiquetas, o mundo fashion não esconde tanto, o abuso é mais explícito e visceral. No livro, pergunto se “a morte não é a melhor metáfora da eternidade?”, e a frase se encaixa em moda e literatura. Autor morto não vende mais livros? Modelo ou estilista morto não vende mais roupa? Quando Alexander McQueen se matou, suas roupas e looks esgotaram ao redor do mundo. E isso tudo é reflexo da alucinação midiática que vivemos, o que me faz pensar que toda distopia, por mais bizarra que seja, acaba se tornando palpável. Basta ver o que vivemos ultimamente no Brasil: nada é tão absurdo que não possa se tornar realidade.

 

DA – Há poucos meses, o meio literário foi sacudido pela aparição de um prêmio internacional para livros inéditos, cujo vencedor levaria a bagatela de 200 mil euros. Passado o furor inicial, descobriu-se que era uma grande fraude, criada para sustentar uma performance artística realizada durante a última Festa Literária de Paraty – Flip. Ao investigar com agudeza os interstícios do universo da moda, você também intenciona expor um mecanismo de artificialidades que movimenta o mercado literário?

BRUNO RIBEIRO – A literatura ainda é muito conservadora e isso me inquieta bastante, pois como disse César Aira, ela é a “rainha das artes”, tudo cabe dentro dela, e mesmo assim nossa amada ainda é a mais tímida nas transgressões de forma e conteúdo. Sobre o prêmio internacional que você fala, o Babel Book Award, eu o achei bem instigante. Tenho algumas críticas? Obviamente, mas pelo menos estremeceu um meio que é movido por faíscas fracas demais, sabe? É tudo muito morno no meio literário. E quando algo pega “fogo”, sempre é de forma burlesca, tosca, sem noção, realizada por meninos birrentos e ególatras. Por isso sou fã do Kenneth Goldsmith, poeta americano que criou a Escrita Não-Criativa e causa arrepio nos arcaicos da literatura. E no Brasil, claro, sou fã do Ricardo Lísias, que escreveu a orelha de “Glitter” e é um dos escritores contemporâneos brasileiros que mais admiro, exatamente porque seu projeto literário sai da zona de conforto e não fica só na repetição. O artificial em “Glitter” pode ser comparado com o mercado literário no sentido da plasticidade deste meio: as falsidades, risadinhas, panelinhas… E assim como uma modelo com a bunda grande demais pode perder um trabalho, um escritor que passou do ponto ou não respeita as regras do bom mocismo literário pode perder sua chance de publicar numa editora “importante” ou até de participar de um evento badalado.

 

DA – Um dos aspectos curiosos de seu livro é que muitas de suas modelos não têm nomes comuns, sendo denominadas por atos de linguagem que misturam características físicas, adjetivos, estados emocionais e designações parentais, a exemplo de Netinha Abusada. Lembrou-me, de imediato, o romance “O Todo-ouvidos”, do búlgaro Elias Canetti, que é, de fato, um estudo de caracteres, previsto como uma forma de protesto contra a importância que o personagem assumiu, ao longo do tempo na literatura, tornando-se maior que a própria narrativa em que está inserido. No caso de “Glitter”, qual foi sua motivação ao criar esses nomes bizarros?

BRUNO RIBEIRO – Gosto muito de fábulas e a ideia partiu muito dessa referência. Fora isso, eu queria criar arquétipos da moda, por isso pensei em nomes que pudessem representar não só uma modelo, mas um nicho. A “punk” que poderia ser colocada no nicho de uma Kate Moss da vida, a “netinha” mimada, a noiva que foge do casamento e tenta a sorte no mundo da moda, a princesinha do Projac, representando as modelos que trabalham na TV, a negra que é taxada de louca, a miss universo, a polêmica, a maconheira, a suicida, a fofinha, a que morou fora, a da cidade pequena, e enfim, cada nome parte deste pressuposto de causar um estranhamento e tentar resumir um perfil estereotipado de top model.

 

DA – Ao longo do livro, além de sobreviver ao confinamento, as modelos têm de protagonizar um grande desfile final e escrever um poema. Obviamente que está aí inserido uma ironia crítica, mas a quem ela se dirige? Ao mercado que despreza a poesia? Às editoras pequenas que revelam poetas a cada semana? Ao gênero em si?

BRUNO RIBEIRO – A frase que conduz meus trabalhos literários vem do Charles Baudelaire: “seja poeta, mesmo na prosa”. No meu mestrado de Escrita Criativa, meu tutor foi um poeta, o Guillermo Saavedra, e quando ele terminou de ler “Febre de Enxofre”, disse enfaticamente que eu era um poeta escondido no corpo de romancista. Eu amo poesia e ela me influencia muito. Matar poetas e torturá-los em meus livros é uma forma de botar para fora minha frustração por não ser um poeta. Quanto à crítica, ela vem do mesmo lugar que partiu a do “Febre de Enxofre”: o excesso de poetas e a falsa glamourização em cima deles, o mercado que não sabe onde colocá-los, os bons poetas que morrem sem ser publicados, a estranheza deste gênero que parece não se encaixar em nenhum lugar. A poesia é a liberdade total, sem ressalvas, é o mais perto que temos dos procedimentos das vanguardas na literatura, e por isso sempre a levo comigo, pois a poesia é o não-lugar, e essa posição de incômodo em que ela reside, de não fazer parte nem do mercado nem daquilo que está fora dele, me interessa muito enquanto escritor. A poesia é repleta de técnicas e regras e, paradoxalmente, também é indomável e libertária, e é essa pegada dicotômica que busco na minha literatura.

 

DA – “Glitter” foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura. Anteriormente, você tinha sido revelado entre os vencedores do Prêmio Brasil em Prosa, promovido numa parceria entre o jornal O Globo e a Amazon. O que significa isso, afinal? Qual o resultado prático para a carreira de um jovem autor ganhar um prêmio? Olhando para trás, você percebe que lhe ajudou de alguma forma ou é, no fim das contas, apenas uma informação boa para constar na biografia?

BRUNO RIBEIRO – Ajuda a ganhar alguns leitores e espaços, mas acredito que pesa mais na biografia do que numa alavanca rumo ao sucesso. Assim, consegui entrada em alguns eventos, como a Flinksampa e FLIP, mas não é algo que tento levar tanto em consideração quando estou escrevendo. É bom? Sim. É essencial para mim? Não. A escritura sempre vence, pois já nasceu derrotada e não tem mais nada a perder: seja com troféu ou com sarjeta.

 

DA – Falando em biografia, apesar do holofote dos prêmios, seus dois livros (e, aqui, falo sem qualquer ideia de desmerecimento) foram publicados por editoras com circulação mais restrita. Você chegou a tentar um contato com os grandes grupos editorias; utilizar da repercussão dos prêmios para chamar atenção para seus livros? Ou foi mesmo uma opção, pois enxerga a literatura brasileira sendo produzida dentro de uma nova configuração? Qual é a sua relação com as editoras?

BRUNO RIBEIRO – Vivemos no tempo do autor, onde somos zagueiro, meio de campo, atacante e goleiro ao mesmo tempo. Neste novo tempo, a editora surge mais como uma parceira a meu ver do que alguém extremamente decisivo na minha vida literária. Atualmente ando tentando uma aproximação com editoras maiores, mas porque o livro que pretendo apresentar para elas seria interessante que tivesse uma maior distribuição. Cada livro tem sua demanda e é assim que penso quando vou tentar publicá-los. Sobre a minha relação com os editores e editoras, afirmo que sempre foi ótima; sou amigo do pessoal da Penalux, Pátua, Moinhos, Escaleiras, Cousa, Bartlebee, Mondrongo, e acho muito gratificante que assim seja. Juntos somos mais.

 

DA – Você também tem publicado o livro de contos “Arranhando paredes”, que foi traduzido para o espanhol e lançado pelo selo argentino Outsider. Essa aproximação vem de um período em que você estudou literatura em Buenos Aires. Dessa experiência, você consegue opinar se os caminhos para um autor iniciante são menos pedregosos na Argentina que no Brasil? O que tem de diferente na maneira de se compreender a nova literatura entre esses dois países?

BRUNO RIBEIRO – É pedregoso também. Escritor se fode em todo canto. As diferenças começam com a forma que o mercado lida com a literatura, vejo que lá a coisa funciona de uma maneira mais justa, principalmente a aproximação das editoras com livrarias, que me parece menos predatória. Outra coisa que muda é o grande número de editoras independentes de qualidade, fenômeno que estamos começando a ver brotar no Brasil. Outro ponto é que na Argentina há mais leitores e formas de se destacar no meio literário. No Brasil ainda estamos muito ligados a isso de ganhar prêmios, por exemplo, como forma de chancelar sua obra. Não vi isso por lá. É importante faturar um prêmiozinho? É, mas pelo tempo em que vivi lá, notei que não é isso que fará você alcançar um status mais interessante no meio literário ou sequer receber alguns aplausos. Existem outros processos e maneiras para ser lido e conseguir se destacar, e essa pluralidade de caminhos é uma das coisas mais interessantes na vida literária argentina. Mas tirando esses pontos, muitos autores argentinos que conheci reclamavam tanto quanto nós aqui do Brasil. A dor é a mesma, mas talvez a deles seja mais doce. Culpa do tango e de Borges.

 

Bruno Ribeiro / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Assim como no cinema, a literatura argentina é melhor que a brasileira?

BRUNO RIBEIRO – É um pouco complexo dizer que uma literatura é melhor do que a outra. O Brasil vive um momento de eclosão, anda se publicando muito e tem gente boa pra caramba à solta, assim como o mercado argentino também está pipocando. Tem coisas boas e ruins em ambos cenários. O cinema argentino mesmo chegou aonde chegou por causa de anos e mais anos de investimentos, coisa que só começamos a ter recentemente, e os louros disso já estão surgindo: muitos filmes brasileiros começaram a aparecer nos principais festivais de cinema do mundo e estão se multiplicando por aí: não só em quantidade, mas em qualidade. Com a literatura a coisa não muda muito de figura, o mercado argentino – apesar dos pesares – investiu mais no decorrer do tempo, distribuiu melhor também, tanto que isso de autor argentino sair vendendo livro pelo inbox de Facebook é algo raríssimo; em Buenos Aires mesmo, onde vivi, estudei e convivi com escritores por quatro anos, acho que dá pra contar no dedo de uma mão as vezes que vi isso acontecer; geralmente o autor lança seu livro e o divulga nas redes, mas falando para o pessoal ir comprar nas livrarias. Ou seja, a distribuição e o número de tiragem são melhores do que no Brasil, onde colocar um livro pra vender na livraria é praticamente pedir para falir. Fora ver livros de editoras pequenas sendo vendidos em livrarias grandes, é preciso ressaltar também a tremenda força das livrarias pequenas e independentes; lá tem muitas e elas conseguem sobreviver e aquecer o mercado. Fora aquilo que todos já sabem: na Argentina tem mais leitores. Então, a questão de melhor ou pior acaba se tornando pequena quando comparamos com esses termos que são tão importantes quando tratamos de distribuição e produção de literatura e arte.

 

DA – Ainda no universo do conto, além do seu livro, você é muito ativo na participação e na organização de antologias de narrativas breves. Percebendo a dificuldade do mercado literário de lançar novos autores, você considera que participar de antologias, de coletivos literários, é uma forma eficaz de apresentar os primeiros textos? É possível ter uma carreira independente e ter relevância dentro do meio literário?

BRUNO RIBEIRO – Eu organizo antologias por acreditar de verdade no projeto e principalmente nos autores que convido. “Cem anos de amor, loucura & morte”, “Língua Rara”, “Estamos aqui”, “Um Jardim de Promessas”, todas foram antologias que organizei mais pela paixão do que pelo retorno. Publicar em antologias é uma boa maneira de começar a publicar, de apresentar um primeiro texto, mas convenhamos que pouquíssimas pessoas leem antologias. Pra vender é extremamente difícil e quando você vende raramente alguém lê. Mas estamos aí, na luta e organizando antologias, fazer o quê? O meio literário ainda tem suas resistências com os escritores independentes. Muitos insistem em dizer que não, mas é visível essa resistência e preconceito. Seja como for, sou mais integrado do que apocalíptico, pois vejo que a abertura para os independentes, seja em prêmio, festas, publicações, espaços ou eventos, está aumentando e isso é ótimo. Pode melhorar? Pode, mas pelo menos o barco está andando e aos poucos vamos quebrando a roda.

 

DA – Você também é muito ativo nas novas plataformas de publicação e nas redes sociais. Para um autor que não conta com o aparato de divulgação que envolve os livros lançados pelos grandes grupos editoriais, tais ferramentas são fundamentais para apresentar, anunciar e badalar um livro e a própria carreira. No entanto, a larga exposição acabou constituindo um espaço também favorável a vaidades, rixas, cabotinices e quebra-paus. Há um limite para o bom-senso nas redes? Ou é cada um por si mesmo?

BRUNO RIBEIRO – É preciso ter bom senso na vida como um todo, não só na internet. Infelizmente, muitos autores pensam que estão em seus banheiros e saem vomitando merda pra caramba por aí. Mas essas presepadas fazem parte do processo, pois as redes sociais democratizam de forma grandiloquente seus espaços, então temos acesso a coisas incríveis e, logo em seguida, a coisas escrotas. São as dores e amores da democracia e eu prefiro isso a uma rede que censure discursos e diga o que pode ou não pode. A internet ajuda bastante na divulgação dos meus textos, sem dúvidas. Se não fossem as redes sociais, uma boa porcentagem da literatura contemporânea brasileira estaria sem meios de se divulgar. A web veio para ficar e é uma ferramenta extremamente válida e útil para romper com a diáspora existente no mundo literário.

 

DA – Já que estamos na seara da crítica, recentemente a Folha de São Paulo publicou um artigo em defesa da crítica negativa, na qual a autora do texto reclamava o direito de tratar o livro (e consequentemente o autor) “a chibatadas”. Seus livros, pelo que eu me recordo, foram bem recebidos pela crítica, sendo um deles, inclusive, selecionado por um renomado crítico como um dos melhores lançamentos do ano. Mas se fosse de outra forma: como reagiria se algum de seus romances fosse defenestrado? E como funciona sua relação com a crítica literária: acha importante, não lhe interessa ou entende como um tipo de conceito de avaliação ultrapassado?

BRUNO RIBEIRO – A crítica é essencial. O sentido de uma obra passa pela mão do leitor e os grandes livros são aqueles com uma ambiguidade potente o bastante para conseguir se reinventar durante os séculos. Vide Madame Bovary ou Dom Casmurro: um leitor acha isso, outro acha aquilo, e essa pluralidade de leituras é o que enriquece um livro. A importância do crítico passa neste ponto: é um escritor – pois vejo o crítico como um escritor – que disseca uma obra e a amplia, nunca fecha. Críticos que fecham livros dentro de conceitos restritos e predeterminados me incomodam. Ou seja, acho válido um livro ser duramente criticado, mas que isso seja explicado tecnicamente e que o crítico não isole o livro e suas possibilidades, que deixe algo em aberto, que jogue as vísceras do livro no palco, mas que não o resuma a adjetivos banais e reducionistas. Fora os críticos que fecham ao invés de abrir as obras, outra coisa que me incomoda é a agenda de muitos deles. O meu incômodo surge ao ver certos críticos descendo o pau em livros de editoras pequenas e exaltando os de editora grande e, só vez ou outra, descendo o pau em um livro das grandes. É sério que editora pequena só publica porcaria? Não tem unzinho que preste? Aparentemente é muito fácil jorrar verdades absolutas sobre um meio literário que você só conhece um pedaço. De metonímias e bocas grandes o mundo tá cheio, mas se debruçar de fato sobre um universo para assim, e só assim, dar uma opinião relevante sobre um mundo tão complexo e vasto como o literário nacional é mais difícil e poucos o fazem.  Nesses casos, o que vejo é a boa e velha torre de marfim reinando, pois impor uma agenda claramente conservadora e que só elogia um lado… Não vale é de nada para mim. Um crítico literário deve ter uma agenda ampla, sem conservadorismos e preconceitos, e caso não seja assim, acredito que deva ser honesto sobre suas intenções pelo menos, porque senão passa uma imagem errada e totalmente ultrajante a meu ver. Se o crítico tem uma responsabilidade, essa é a de ser transparente.

 

DA – Além de autor de ficção, você também ministra cursos e oficinas literárias. Muito se discute sobre a capacidade desses laboratórios de escrita de formarem um escritor em contrapartida ao que é considerado, por alguns, como uma aptidão, uma qualidade inata. Da sua experiência, o que de fato uma oficina pode oferecer para quem pretende ingressar na literatura? Um escritor, afinal, pode ser “ensinado” a escrever bem?

BRUNO RIBEIRO – Inicialmente, a experiência me inquietou. Hoje, sinto-me realizado nesta posição de professor de escrita criativa. Acompanhar e ler textos de diversos gêneros e estilos é um verdadeiro aprendizado. Aprendi a ler de tudo, pois um professor de escrita criativa precisa estar aberto para todos os tipos de literatura, afinal, só assim é possível avaliar tecnicamente uma obra que fuja do seu agrado. Não é fácil, mas aprendi. Uma oficina pode entregar técnicas, procedimentos literários e principalmente leituras. Uma indicação de livro pode mudar a vida de um aluno. Outra coisa importante é aprender a ler, esmiuçar de verdade um texto, a linguagem, trama, personagens. Ler o amigo de oficina é mais importante do que escrever, pois ao julgar o texto alheio você indiretamente está aprendendo a avaliar o seu texto também. Aprender a escrever é algo estranho e que sempre me soa pesado, apesar de achar que uma pessoa pode aprender a escrever bem, obviamente. A diretora do meu mestrado de escrita criativa, a poeta argentina Maria Negroni, no primeiro dia de aula disse que o objetivo da pós-graduação não era de formar escritores e sim de criar espaços para encorajar as dúvidas e perguntas, pois a verdadeira escritura sempre é uma arte subjetiva, acima inclusive da matéria que esteja sendo estudada. Assino embaixo disso aí. Ricardo Piglia disse que “a literatura é a experiência mais intensa que existe”. Até hoje, essa frase é o meu lema neste ofício tão árduo. E tento passá-la para os meus alunos, pois, sem processo, confronto, intensidade e pulsão, não há escritura. Seja sacra ou profana, sem gana, não rende. Resumindo: é possível sair mais “enriquecido” literariamente de uma oficina, curso ou pós-graduação de escrita criativa, mas se a pessoa vai se tornar ou não um escritor, isso é algo que só as suas obras poderão dizer.

 

DA – Nesse mesmo campo, a sua convivência com jovens que pretendem se tornar escritores lhe mostra que há neles a formação de leitor. Os jovens estão preocupados em ler bem, investigar com afinco o que está acontecendo na literatura contemporânea brasileira, ou sofrem do mesmo mal que acomete os leitores em geral?

BRUNO RIBEIRO – Uma professora de Campina Grande, Anna Giovanna, passou o meu romance “Febre de Enxofre” para os seus alunos lerem. O resultado foi sensacional: os alunos se vestiram como os personagens do livro, criaram cartazes e banner, e eles fizeram uma sabatina incrível comigo. Muitos ali leram muito bem o meu livro e tascaram perguntas instigantes e profundas. Eram alunos do segundo ano e, veja bem, essa é uma época da vida onde dizem que a garotada quer saber de tudo, menos ler. Claro que não vou pegar este recorte da minha vida para falar que os jovens amam ler, mas o utilizo para falar que quando um professor luta para colocar na mão dos seus alunos obras mais desafiantes, instigantes, e, melhor ainda, botam o autor dessa obra na sala de aula, a coisa muda um pouco. Porque muitos alunos ainda veem escritores como seres arcaicos, corcundas, velhos chatos, mortos. Logo, apresentar um escritor local para eles e o livro dessa pessoa, mostrar que é possível fazer uma literatura distinta daquilo que eles precisam ler para passar do ENEM, pode sim mudar suas vidas. Enquanto professor, eu sempre apresento trechos de livros de escritores independentes. Quando leio o começo do romance “Palavras que devoram lágrimas”, do Roberto Menezes, a galera vibra, adora, assim como quando leio o começo visceral e lírico de “Nossa Teresa: vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O mesmo ocorre quando leio trechos de “Modos inacabados de morrer”, do André Timm. “É sério que pode fazer isso na literatura?”, muitos alunos perguntam. São obras que dificilmente cairiam na mão da galera, então é bacana falar que esses livros estão sendo lançados atualmente e por autores vivos. Quando ministro oficinas em colégios, um ou outro tem interesse em se aprofundar no que apresento, e é nisso que creio: nos pequenos atos e revoluções. Não penso em mudar o todo, mas se conseguir impactar uma pessoa ali, pra mim já tá valendo. Formação de leitores é isso: um trabalho de formiguinha, que deve ser feito com paciência e paixão, sem esperar grandes e imediatos retornos.

 

DA – Hoje há um consenso desanimador de que quem realmente lê os livros dos autores nacionais são os próprios autores nacionais. Isso, ao meu ver, configura-se em razão de algumas circunstâncias: a falta de distribuição, as baixas tiragens, a crise do mercado editorial e o baixo consumo dos leitores. Publicar um livro diante de todos esses obstáculos, portanto, não seria mais um capricho? Literatura, no Brasil, é mais paixão e resistência que a construção de uma carreira? 

BRUNO RIBEIRO – Já parei pra pensar sobre isso: por que eu publico um livro? É difícil pensar em que estado eu estou na minha “carreira”. Tanto que nem uso o termo carreira literária, e sim vida literária. Nem é para pagar de diferentão, mas é por pensar de verdade que a literatura atravessa mais a minha vida do que uma carreira. Fora o blá blá blá de só recebermos 10% do livro e tudo isso, o que mais ferra nossa vida é a distribuição. O pessoal do cinema sofre o mesmo. Se houvesse uma distribuição melhor, a coisa mudava. Basta ver o caso do Giovanni Martins e o seu “O sol na cabeça”. Um livro de literatura e não um best-seller exportado ou um livro de youtuber vendendo pra caramba? Como pode isso? Distribuição, boa tiragem e investimento. Sem dinheiro, é complicado de chegar, por isso mesmo que a internet e os diversos meios alternativos de publicação, divulgação e distribuição são tão importantes. Bater de frente com o mercado é dar soco em ponta de faca, a verdade é que precisamos estar em outros lugares e driblar as imposições do capitalismo. Por isso participo de todos os eventos que me chamam, vou para as escolas, feiras, puteiros, igrejas, até pra livraria eu vou se me chamar, porque é importante ocupar os espaços e jorrar sua palavra – literatura – no ouvido alheio. No final das contas, o que me importa é tentar estar nesses lugares sem fazer tantas concessões também, sabe? Sigo o lema do Zagallo: “vocês vão ter que me engolir”. Minha literatura é isso e fim de papo. E é uma luta tremenda seguir essa linha intransigente, vez ou outra até penso se publicar é tudo isso mesmo, até porque vou continuar escrevendo, publicando ou não, mas aí penso um bocado e decido entrar no jogo, afinal de contas, apesar das desgraças, pelo menos eu me divirto um pouco e consigo um ou outro leitor.

 

DA – Voltando ao seu primeiro romance, “Febre de enxofre”, temos um vínculo entre dois personagens que se conforma uma relação de vampirismo. Logo no início de “Anos de formação”, Emilio Renzi, alter ego do escritor argentino Ricardo Piglia, tenta definir o que é a escrita para si; “seria uma mania, um hábito, um vício”, ele se pergunta, sem chegar a uma conclusão. O que é essa necessidade de escrever? Tornar-se escritor é, de fato, um pacto vampiresco? Algo que se aloja dentro de si e cresce na dependência?

BRUNO RIBEIRO – Amo essa ideia do pacto vampiresco, provavelmente por me sentir como um escritor do século XIX vivendo no XXI: a criação pra mim bebe bastante do romantismo, decadentismo e simbolismo. A diferença é que eu sugo essa inspiração e injeto uma boa carga de humor e deboche nela, pois a transgressão pra mim só funciona se houver riso e certa desconstrução, ou seja: um não se levar tão a sério. Quanto a isso, admiro e me inspiro muito no Michel Houellebecq; ele também bebe de influências românticas e decadentistas do século XIX, mas consegue reinventar os lugares comuns e seriedades dos autores deste período com sua linguagem e olhar repletos de contemporaneidade e humor ácido. No excelente texto “Permanecer Vivo: um método”, ele diz que “um poeta morto não escreve. Daí a importância de permanecer vivo”. Acho que essa frase consegue condensar tudo o que penso enquanto projeto literário: há humor, poesia, absurdo, cinismo, profundeza. O humor – aquele debochado que critica e fala verdades afiadas – é uma ferramenta essencial nos meus livros, assim como a própria descrença nos procedimentos que utilizo. E por isso que nego o gênero e tudo que devoro para escrever um livro também… Às vezes nego até a linguagem. A dependência à escrita, aquele velho jargão compatível comigo e vários comparsas: “escrevo para sobreviver”, por exemplo, é muito tosco. Não há como falar uma frase dessas sem colocar uma gargalhada em seguida; é meio sofrível ver gente levando a sério a desgraça que é escrever. O vício pra mim, o pacto vampiresco e infindável do escritor que aloja e não sai mais, é como um bobo da corte flutuando em abismos de mentirinha, mas que se o cara pular no negrume se tornam reais e ele afunda; é o sorriso e o susto, o grotesco inserido numa grande gargalhada, e é neste campo tão conflitante que estou na literatura, mergulhado em um pacto que causa dependência e risos nervosos.

 

DA – Seria possível recriar o mesmo experimento de “Glitter”, porém com escritores? Qual seria a dinâmica e quem você acha que deveria participar?

BRUNO RIBEIRO – Seria possível, claro! O Manuel da Costa Pinto faria as vezes do estilista ermitão de “Glitter” e selecionaria vinte e um escritores para participar do “A Literatura Viva”: uma espécie de grande sarau que seria finalizado com o fuzilamento dos escritores. O assassino que estaria responsável pela chacina lírica seria o franco-atirador Marcelino Freire; segue a lista dos vinte e um: eu, Roberto Menezes, você (Sérgio Tavares), Aline Bei, Bernardo Carvalho, Tiago Germano, Cláudia Lemes, Débora Gil Pantaleão, Adriane Garcia, Cristina Judar, Noemi Jaffe, Mike Sullivan, Ricardo Lísias, Adriana Brunstein, Tadeu Sarmento, Eduardo Sabino, Irka Barrios, Micheliny Verunschk, Ana Paula Maia, Mariana Basílio e André Timm. Mas, assim como todos os conflitos que ocorrem dentro da nossa bolha literária, a plateia descobriria rapidamente que as balas eram de mentira e que os vinte e um escritores só estavam simulando suas mortes: era uma performance para divulgar uma antologia de contos e poemas sobre o tema: A MORTE DO AUTOR. Todos aplaudiriam e se abraçariam no final do ato; tiraríamos muitas fotos para o Facebook e, enquanto um escritor bravo dava um soco murcho no peito de um escritor chorão, iríamos pra casa rastejando e carregando nossas vitórias e louros nas costas cansadas de tanto escrever e tirar fotos.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

Categorias
126ª Leva - 04/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Copa do Mundo de Futebol na Rússia, 06 de julho de 2018. Nas quartas de final, o Brasil é eliminado pela Bélgica, pelo placar de 2 a 1. Agora imagine uma outra situação. Aos 48 minutos do segundo tempo, a atacante Roberto Firmino é derrubado na pequena área. Com o auxílio do VAR, o árbitro sérvio marca a falta. Neymar, então, pega a bola e se encaminha para a marca do pênalti. Se fizer o gol, a seleção brasileira empata e segue viva na prorrogação. Se perder, o Brasil volta para casa, desmoralizado. O craque do PSG se concentra, mas antes de decidir em qual canto chutar a bola, vem à sua mente as intermináveis chacotas, as memes escarnecedores, o apelido de eterno cai-cai. Será que vale a pena fazer o gol para o país que o trata com tamanha zombaria ou agora é o momento de dar o troco?

Tomando as devidas proporções, Saúva, o protagonista de “A cobrança”, primeiro romance do pernambucano Mário Rodrigues, passa por um dilema parecido. O cenário é o mesmo: a Copa do Mundo de Futebol na Rússia. Na final entre Brasil e Alemanha, o capitão da seleção brasileira está diante da marca do pênalti, que poderá dar o hexacampeonato ao escrete canarinho. Ocorre que o jogador, de origem humilde, com a infância marcada pela pobreza extrema e por traumas familiares, nunca foi bem tratado por esse país que agora depende de apenas um chute certeiro para alcançar a glória. Está aí, portanto, a chance de ele se vingar da pátria (nada) amada, Brasil.

Ao contrário do que se disse por aí, Mário Rodrigues, sim, usa do futebol para se falar de política. Mostra os efeitos da corrupção no alto escalão e nas profundezas mais ordinárias. Os governos que se alternam sem nunca, de fato, mudar o quadro das mazelas sociais, dos marginalizados, dos abandonados de tudo. Dividido em três eixos narrativos, o romance se constrói dentro da história mental de seu protagonista. O menino moldado pela miséria, por abusos e ausências, que acompanhou o pai ser quebrado pela Era Collor e, agora, enquanto aguarda o árbitro autorizar a cobrança do pênalti, avalia se conceder a vitória seria justo ante tudo que passou, ante o que ainda passam milhares de brasileiros.

Na entrevista a seguir, o autor, cuja obra de estreia conquistou o Prêmio Sesc de Literatura, revela os bastidores de seu livro. O processo criativo, as motivações, a influência do famigerado 7 a 1 e o interesse em tratar o futebol em sua vocação metafórica e como instrumento para se deslindar os contrastes que configuram a sociedade brasileira. Com mesma incisão e clareza, Mário Rodrigues ainda fala sobre mercado literário, prêmios, educação, leitores, literatura nordestina e o ofício da escrita. “Em países periféricos como o nosso, ser escritor é uma afronta. Uma excrescência. Uma aberração”. Pelo visto, não só Saúva vive um dilema.

 

Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DIVERSOS AFINS – “A cobrança” se passa durante a partida final de uma Copa do Mundo, na Rússia; exatamente como acabamos de presenciar nos últimos dias. Como nasceu a ideia para a construção do livro? Houve um planejamento para que estivesse pronto e fosse lançado juntamente ao mundial?

MÁRIO RODRIGUES – Sempre apreciei o esporte. É também do meu interesse a relação do futebol com a sociedade brasileira, como marca relevante de nossa construção social e cultural. Após a Copa do Mundo de 2014, a mim ficou patente que uma página significativa foi virada nessa relação entre a seleção, como herança cultural, e o povo brasileiro. Era algo gestado já há um bom tempo com a expatriação muito cedo de nossos bons jogadores, criando um abismo de interesse entre os torcedores e os atletas. Uma torcida sem empatia, sem reconhecimentos. Porém, o que aconteceu em 2014, com os 7 a 1, foi mais profundo. Há duas rupturas ali: a seleção brasileira se afastou em definitivo (não do torcedor iniciado, com este isso já ocorrera), mas, sobretudo, se alienou daquele torcedor ocasional, o típico torcedor de Copa do Mundo. Nossas avós, que só assistiam aos jogos da Copa, mesmo elas perderam a sintonia com a equipe. Além disso, o próprio jogo mostrou que, sim, éramos vulneráveis, vencíveis – e vencíveis com grau de humilhação inédito. A Copa de 2014 partiu a relação entre povo e a seleção. O futebol saiu do campo cultural e social para ser um fator meramente esportivo: isso é significativo em excesso como dado histórico. “A cobrança” tem a pretensão de capturar esse momento. Com uma diferença: como se fosse um movimento de dentro para fora. Que a ruptura ficasse latente a partir do campo de jogo e se dispersasse pela vida pública. E que no ponto mais sensível do esporte – uma disputa de pênaltis na grande final – nós pudéssemos refletir sobre o aspecto mais íntimo desta relação: querer cortá-la. O livro ficou pronto em meados de 2017, o que tornou viável sua publicação em 2018, no primeiro semestre. Claro que comercialmente seria interessante essa data, pois aproveitaria o fluxo da Copa. Foi isso que fizemos. Obviamente, porém, há o desejo de que a força dessa história extrapole esse período. As leituras que vêm sendo feitas me deixam muito feliz. Percebo que o livro levanta várias questões pertinentes e aponta para inúmeros destinos – o que provavelmente lhe dará uma vida útil para além do período de Copa.

 

DA – No seu livro, temos um jogador de futebol brasileiro diante de um dilema. Se fizer o gol de pênalti, ele dará o hexacampeonato ao Brasil; se perder o pênalti, ele se vingará do país que virou as costas para ele durante toda a vida. Na sua opinião, qual a melhor leitura para esse drama? A maneira realista ou a alegórica?

MÁRIO RODRIGUES – É de Nelson Rodrigues a famosa tirada: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana”. Imaginemos, portanto, a final de uma Copa do Mundo disputada com penalidades máximas – seria o auge dessa dramaticidade. O livro trabalha com um olhar muito próximo, sobretudo na caminhada do jogador até a marca do pênalti. Cada detalhe – gramado, braçadeira, bola – vai ganhando ressonância. Detalhes trabalhados, às vezes, de modo claustrofóbico. Isso, pretendo, dá uma dimensão quase palpável e real daqueles passos. Mas, como se espera da literatura, a alta, esse cenário é feito para acessar outras instâncias da história de Saúva e da experiência do leitor. No fundo, o jogador que tem que tomar a decisão de se vingar do seu país ou não. É metáfora sobre cada um de nós e sobre todos nós. Dentre as várias caminhadas, como humanos e cidadãos, essa alegoria nos é oferecida: o prazer egoísta da vingança – mesmo justificada – está acima do bem estar coletivo (mesmo que este seja ilusório e não reconhecido)? No país que herdamos, é justo basearmos nossas escolhas e nossas éticas pessoais na vantagem individual ou ainda há espaço para pensarmos na coletividade? Um único momento de glória pode justificar a vida de um homem e um único momento de vingança poderia ter o mesmo efeito?

E um último reflexo: não estamos nós, a cada dia, diante deste mesmo pênalti? É no meio dessas angústias que encontramos Saúva. Diferente dele, porém, não estamos acompanhados por bilhões de espectadores. Estamos sozinhos.

 

DA – A partida em que se ambienta a história é uma final de campeonato mundial entre Brasil e Alemanha. A escolha do adversário tem a ver com o famigerado 7 a 1, que tomamos na Copa de 2014? E como você desconstrói aquele resultado, sabendo hoje de toda a corrupção que envolveu a preparação daquele evento?

MÁRIO RODRIGUES – Na verdade, vejo a Alemanha como o grande rival futebolístico do Brasil (mais do que a Itália – e nem cito a rivalidade com a Argentina tão artificialmente forjada pela Rede Globo). Em números de conquistas e participações, em quantidade de gols marcados, em história, em peso de camisa, são essas as grandes potências. Mas há algo além: a espécie de jogo, a forma como se pratica o futebol. As escolas. Mesmo os alemães tendo nos últimos anos se aproximado de um futebol mais suave, é impossível fugir do próprio DNA. Sintetizando: o futebol alemão é o método; o nosso, improviso. São opções estéticas, as duas melhores já feitas nesse esporte. Mas é impossível fugir do 7 a 1. A maior vergonha da história do futebol. A possibilidade de uma catarse não poderia ser descartada. Como tudo no livro, todavia, é uma catarse módica, nos pênaltis. Mas só teria sentido contra a Alemanha, nosso algoz. Para o bem e para o mal, o esporte espelha a vida. Por mais que, com o tempo, os aspectos extracampo possam contribuir para certas explicações, é o resultado que fica para a história. Podemos pensar no acaso que foi o Brasil de 1982 perder para a Itália com três gols do corrupto Paolo Rossi; podemos pensar no craque Zico perdendo um pênalti em 1986, porque não estava plenamente recuperado de contusão; podemos pensar na água batizada que os argentinos deram a Branco na copa de 1990; e na misteriosa convulsão do “Fenômeno”, em 1998. Tudo isso, porém, orbita sem relevância diante do astro significativo: o placar e a eliminação. Por mais que o negócio futebol tenha se corrompido – e se corrompeu de modo imperdoável em todos os seus patamares –, o esporte continuará. E será efetivamente o que foi feito em campo que será lembrado. De modo que para sempre o 7 a 1 representará uma vergonha inapagável.

 

DA – O protagonista do seu livro é um jogador de futebol que teve uma infância miserável, como é comum a milhares de jogadores brasileiros que vieram dos espaços marginalizados das grandes cidades. Um menino ruivo, de apelido Saúva, com um drama familiar bem pesado, que encontrou na bola um instrumento de salvação. Como foi dar vida a este protagonista? Foi inspirado em aspectos da realidade ou é produto estritamente da ficção?

MÁRIO RODRIGUES – É preciso antes uma nota técnica. Em ficção, acredito que o personagem é essencial, tudo emana dele. É o personagem que dá vida à narrativa. Para que o argumento de “A cobrança” funcionasse, seria preciso um protagonista com várias especificidades. Não poderia ser um zagueiro-brucutu que daria um bico para fora na hora do pênalti nem tampouco o craque-instagram que daria uma cavadinha humilhando o goleiro desesperado. Deveria ser um volante: o elo entre a defesa e o ataque. A mais ambígua das posições do futebol: aquele que pode ser a síntese do que de mais fino já foi apresentado no futebol (Beckenbauer) com o que mais bruto foi apresentado (Dunga). Depois, entra a composição física: Saúva é ruivo. É um alienígena, um estranho no futebol brasileiro. Quantos atletas ruivos defenderam a seleção brasileira? Esse aspecto físico deixam inseguras nossas conclusões. Esse sujeito seria capaz de tudo. Além disso, Saúva é o capitão do time (a formiga que trabalha pela coletividade). A bússola moral. Guarda em si uma obrigação: ele é farol não pela técnica, mas pela seriedade, pela entrega que demonstra em campo. E é exatamente essa entrega que justifica qualquer atitude tomada por ele. Fiquei muito feliz com a maneira com que esse personagem descambou para as páginas. É difícil esquecê-lo e esquecer seu drama depois de habitar sua mente naqueles segundos que o levam ao pênalti, naquelas páginas que levam à cobrança. Porém, seria necessário que Saúva tivesse uma história que oferecesse verossimilhança às suas possíveis escolhas diante do goleiro alemão. Então, colocamos aquele menino em seu processo de formação – como dito: nem um pouco fácil. Entram aí a fabulação e a invenção, o caráter mesmo da literatura. Manusear como títeres aqueles infelizes personagens, o pai e a mãe, para que eles fornecessem a matéria humana complexa que gerou nosso capitão, Saúva. E, claro, minha posição preferida em campo, até hoje, é a de volante.

 

DA – A literatura ficcional brasileira tem um histórico de bons livros sobre futebol. Eu cito Nelson Rodrigues, Moacyr Scliar e Sérgio Sant’Anna, por exemplo, como grandes autores que se debruçaram sobre o tema. No caso da preparação de “A cobrança”, você chegou a criar uma bagagem bibliográfica para estruturar seu livro ou não precisou, pois imaginou o futebol mais como um dispositivo para dar forma ao seu enredo?

MÁRIO RODRIGUES – Minha relação com o futebol sempre foi muito próxima, tanto praticando quanto assistindo. Acho mesmo que há algo de especial, de superior, neste esporte. As mesmas palavras e impressões podem ser aplicadas à literatura. Acho mesmo que há algo especial nesta arte. De modo que livros sobre futebol – sobretudo de grandes autores – foram sempre um interesse meu. Além dos citados, ainda lembro com destaque de contos do Marcelo Moutinho, do Rubem Fonseca, o livro do Laub, os ensaios do Wisnik e do Hilário Franco. Assim, naturalmente, ao longo da minha formação de leitor, essa bagagem, de modo natural, vinha sendo montada. Essas leituras – embora prazerosas – pouco influenciaram na escrita efetiva de “A cobrança”. As maneiras como as engrenagens do livro foram dialogando pediam certas escolhas técnicas e formais muito específicas, exclusivas desta história.

 

Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DA – No seu livro anterior, “Receita para se fazer um monstro”, os contos também tratam de personagens com infâncias fraturadas, convertidas numa fase de desarranjo emocional, de falhas e de crueldades sofridas e infligidas. Você consegue estabelecer uma ligação entre seus dois livros? E há, em seu estímulo criativo, uma preocupação permanente em dar voz a personagens marginalizados?

MÁRIO RODRIGUES – É do Paulo Mendes Campos aquele belo verso: “Sou restos do menino que passou”. Há também aquela frase-clichê do Brás Cubas: “O menino é o pai do homem.” É impossível fugir da infância – e lá estão receptáculos de boa parte da ficção que foi produzida. É para mim um espaço essencial à criação. Na minha biografia, há um dado que é importante. Tive infância sem traumas: família estruturada, lar sem violência, financeiramente sem pobreza extrema e sem riqueza ostentosa. Isso me deu, creio, o distanciamento necessário para pensar e refletir sobre as outras infâncias, alheias a minha. E que tipo de repercussão infâncias disfuncionais gerariam na alma e na índole e nas ações desses personagens quando na vida adulta. Tanto o protagonista sem nome do “Receita…” como o Saúva de “A cobrança” são resultados diretos de suas infâncias torpes – e que, agora, estão diante de momentos crucias de suas trajetórias. Há algo neles, contudo, que é muito caro a mim. Longe de qualquer tipo inescapável de determinismo, eles seguram as rédeas de suas vidas, de suas escolhas. Eles próprios asseguram que têm o poder de escolher, o prazer e o ódio lhes pertencem, a responsabilidade é deles – e não fogem disso. Esses seres humanos no limiar de suas decisões me interessam. E acho que devem interessar à literatura. Nesse ponto, os livros dialogam muito. A literatura é a maior lente de aumento que existe: não dá para desperdiçar essa ferramenta – mesmo, como se sabe, tendo ela perdido relevância social no último século. Acho enfadonha essa literatura ensimesmada que vem sendo feita no Brasil (uma ressalva: feita e incensada; porque há outra literatura, fortíssima, pujante e original – e que passa ao largo desse patético mainstream literário brasileiro). Então, realmente, não me ocupo com escritores-personagens que passam uma temporada macambúzia em Paris e acham que isso é matéria de interesse para a literatura e leitores. O abismo é o que me interessa.

 

DA – Embora tenha esse apelo do futebol, seu livro problematiza alguns assuntos sempre atuais acerca do contexto social brasileiro, como a pobreza, o descaso total do Estado, a corrupção, a ineficiência dos mecanismos de serviço público. Você é a favor do uso da literatura como veículo de denúncia? Acredita que, por fatores que estão além do pendor artístico-criativo, falta engajamento para grande parte dos autores brasileiros?

MÁRIO RODRIGUES – Em primeiro lugar devo dizer que não há nada de errado em um autor ter consciência política. Aliás, o ideal é que ele a tenha e seja ético e coerente com a defesa da mesma. Militante até, se for o caso. O Rubem Figueiredo diz taxativo: “A literatura é política”, algo que endosso. E mais: uma obra literária pode mudar (antes mais do que hoje, em virtude do esvaziamento social do discurso literário) os paradigmas de um povo. Vejamos a obra de Graciliano Ramos, meu escritor favorito. Vejamos a foto do García Lorca recitando poemas contra os fascistas que o fuzilariam: é das coisas mais forte feitas por um ser humano. Porém, é preciso cuidado: uma vez eu (escritor) descobrindo uma demanda social, a necessidade de um determinado grupo de pressão, uma vez determinada uma pauta politicamente correta, então eu (escritor) montaria uma obra ficcional para afagar esses nichos e por eles ser aceito e endeusado e reconhecido e a partir daí ter minha literatura (duvidosa) apreciada e circulante. Isso é falho. Já o é do ponto de vista estético, do ponto de vista ético é um acinte. Ocorre que, na minha concepção de arte, a literatura está acima, não necessariamente dissociada, mas acima de discussões e contingências políticas. A literatura é maior, simples assim. Como Goya, na Espanha deflagrada, que colocou sua arte acima da politicagem. E, no entanto, será “Os desastres da guerra” o testemunho mais visceral e pungente de sua época e a crítica interminável dos desmandos dos poderosos. “A cobrança” não é um livro pusilânime. É livro corajoso. Que não se esconde do zeitgeist em que vivemos. Mas eu não aponto caminhos em minha literatura. Proselitismos. Não há didatismo, beletrismo e autoajuda. Minha obra é labirinto. Joga o leitor nos canais e corredores. Há a direita e há a esquerda e há o centro. E, neste labirinto, está Astério, o minotauro.  Se você vai escapar dali com um fio de ouro na mão e a lâmina banhada pelo sangue antropobovino ou se terá seus fatos eviscerados pelos chifres pontudos do boi-real é, mais do que escolha, competência de cada leitor.

 

DA – Estamos num ano interessante, em que tivemos uma Copa do Mundo de Futebol seguida de uma eleição para a presidência do Brasil. Nos anos 70, no auge da ditadura, a conquista do campeonato mundial foi intensamente utilizada como peça de propaganda pelos militares. Traçando um paralelo com seu livro, qual o perigo que o futebol pode oferecer quando visto sob o prisma político? E parafraseando Nelson Rodrigues, futebol é mesmo o ópio do povo brasileiro?

MÁRIO RODRIGUES – O poder de penetração emotiva na alma coletiva de um povo que o esporte possui já foi inúmeras vezes aventado e aplicado. Vejamos, por exemplo, Mandela e o rúgbi na África do Sul pós-apartheid, os panteras negras nas Olimpíadas de 1968 e ainda Muhammad Ali. É dado da natureza, também, que autoridades se apropriem disso para adaptá-lo a seus discursos, sejam eles nacionalistas, partidárias, xenofóbicos etc. Capitalizar em cima de vitórias esportivas é algo a sempre ficarmos atentos. A Copa de 1970 foi emblemática nesse sentido, sobretudo quando lembramos que Médici realmente gostava de futebol e entendia de seus meandros. Porém, esse perigo já foi mais real. Hoje, como disse, a relação do brasileiro comum com o futebol mudou sobremaneira. Durante a Copa da Rússia, poucas ruas foram decoradas com as cores da seleção; houve alunos meus (portanto, a nova geração) que perguntaram por que não haver aula durante o jogo da seleção brasileira? O número de pessoas realmente apaixonadas pelo futebol, aquele futebol do dia a dia, no Brasil, é relativamente pequeno. Mesmo um hexacampeonato terá pouca influência nos caminhos políticos da nação. Como Saúva, será a revolta íntima e individual, somada às revoltas de cada um, a única força transformadora deste país, se a apatia não nos vencer a todos. A metáfora do Nelson envelheceu. Assim como o ópio e a heroína deram lugar a outras drogas, o que nos aliena hoje, como povo, já não é mais o esporte.

 

DA – Com o seu primeiro livro, você conquistou o Prêmio Sesc de Literatura, na categoria Contos. Diante da realidade do mercado literário brasileiro, qual o maior benefício de se ganhar um prêmio de literatura e qual a maior ilusão que um autor premiado pode ter? 

MÁRIO RODRIGUES – Sou um defensor e admirador ferrenho do Prêmio Sesc, antes mesmo de tê-lo conquistado. É a maior iniciativa para os escritores iniciantes da literatura brasileira. O Henrique Rodrigues e o Fred Girauta, que encabeçam o projeto, são dois sujeitos que tenho na mais alta admiração pelo belo trabalho que fazem, pelos nomes que têm revelado, pelos livros que surgiram a partir desse prêmio. E, claro, faço menção à Editora Record, que acreditou no projeto lá nos idos de 2003. O prêmio se bifurca em dois grandes benefícios. Primeiro, o selo de uma grande editora. Embora isso não chancele sua obra em relação a você mesmo (afinal, subtende-se que um escritor deva ter a autocrítica necessária para saber quando seu trabalho tem força ou quando é franco, sem necessidade de chancelas externas), impressiona a maneira diferenciada como o mercado, os leitores e a mídia veem um livro publicado por uma grande editora. E inevitavelmente isso abra portas – falando de maneira madura, é uma mudança de patamar para o escritor (volto a dizer: não uma mudança de seu talento, mas da visibilidade que esse possível talento recebe). O outro benefício: o circuito que o Sesc faz com os ganhadores, estes participando de palestras e mesas pelo Brasil afora: a quantidade de pessoas com quem você dialoga neste ano que compreende o prêmio é incrível. Aprende-se muito. Alguns funcionários do Sesc são artistas brilhantes e o convívio com eles é muito interessante. E há o contato com os leitores. Pessoas que efetivamente leram seu livro, sem o ranço intelectualóide de certas leituras. Leram pelo prazer da imersão em um personagem e em um mundo, seu mundo e seu personagem. É sempre uma troca muito rica. Por exemplo: tive a honra de participar em Paraty de um clube de leitores – pessoas que leram e debateram meu livro durante um mês e, no final do período, fui até eles para conversarmos sobre a obra. Imagine-se a quantidade de coisas que descobri sobre meu próprio livro… além disso, fizeram aqui em Pernambuco uma amostra de teatro onde as histórias do “Receita…” foram encenadas e então vi o personagem pular das páginas –  sem dúvida, experiências que não têm preço. Sem o Prêmio Sesc, simplesmente elas não iriam existir. Quanto à principal ilusão: acredito que tudo decorre de uma visão equivocada sobre o ofício de escrever e sobre o mercado literário. Alguns escritores colocam o ofício no mundo do showbizz, encarando a si mesmo como popstar, uma diva. Esperam camarotes com infinitas toalhas brancas, paparazzi, contas milionárias: é a paulo-coelhização da literatura. Não é por aí que a escrita caminha. A literatura é a confecção lenta e silenciosa de uma obra. É o principal patrimônio de um escritor. O prêmio, seja ele pecuniário e de outra ordem (dar visibilidade), é apenas um incentivo, por vezes módico, para que essa obra seja construída. Aparecer na TV, ser popular no Facebook, frequentar certa cena literária, coisas que prêmios proporcionam, não devem ser nunca a razão de ser de um escritor. E não é. A vela do escritório de Flaubert servindo na madrugada de pequeno farol para os barcos de Rouen é o melhor símbolo para um escritor.

 

DIVERSOS AFINS – Ainda em relação ao prêmio, você é um autor do Nordeste do país, que atingiu visibilidade nacional em razão de o seu livro ter sido publicado por um grande grupo editorial. Olhando com distância essa realidade, você acredita que teria chance de publicação com tamanha amplitude, caso não tivesse sido premiado? Ainda é necessário o autor estar no eixo Rio-São Paulo para que seu trabalho consiga ser enxergado?

MÁRIO RODRIGUES – Não. Não haveria a menor chance de publicar por uma grande casa editorial sem o caminho aberto pelo Prêmio Sesc. Não é que o mercado literário brasileiro seja fechado. É simples: não existe efetivamente o mercado literário no Brasil. Ninguém está interessado em descobrir o grande romance brasileiro. Naturalmente, existem os autores estabelecidos que interessam às casas editoriais (mesmo que seus livros atuais não tenham nenhum valor efetivo) e outros autores novos que, por um motivo ou outro (um agente literário mais influente ou se enquadram em certos nichos de cor, opção sexual e classificação social-financeira), fazem parte desses portfólios. Mas uma política de fomento à nova literatura não existe. Tornou-se muito fácil no Brasil imprimir um livro, mas publicar um livro é das coisas mais difíceis. Explico: contratar um serviço de uma gráfica ou de uma gráfica camuflada de editora é fácil. Mas o escoamento desse material é sempre muito angustiante. É o momento em que se percebe que você não tornou pública sua obra, não houve a publicação. Você apenas imprimiu seu texto. Estar no eixo Rio-São Paulo também não ajuda muito. Com minha personalidade, se eu morasse em Ipanema ou nos Jardins, no Complexo do Alemão ou em Itaquera, não publicaria meus livros senão através de um prêmio como o Sesc. A mera situação geográfica não ajudaria em nada. O que ajuda – e agora nós entraremos num terreno mais capcioso – é o que chamam, termo horrível, de network, sua rede de trabalho. É você estar disposto a fazer o jogo. Como se diz no esporte: “Jogo é jogado, lambari é pescado.” Se o sujeito estiver disposto a mendigar amizade de grupelhos de escritores com certa influência sobre certos grupelhos de editores, paparicá-los em oficinas literárias pagas ou acompanhá-los em eventos esvaziados de público nos quais eles participam e ser aquele seguidor ferrenho em suas redes sociais, forjar talvez uma amizade artificial (ambos sabendo dessa artificialidade), o sujeito assim pode receber, um belo dia, algum tipo de convite, uma inserção no famigerado mundo literário. Mas é preciso ter a índole necessária para isso. Nem todos têm. Eu não tenho. Grupelhos autorreferentes são aquela imagem do Paul Auster: a fachada bonita de um castelo, mas quando você se aproxima é de papelão. Ao atravessar a fachada, não há nada lá.

 

Mário Rodrigues / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Você trabalha com escrita e literatura, ensinando redação para adolescentes. Constantemente, pesquisas dão conta de um número ainda inexpressivo de brasileiros que leem ou mesmo que se envolvem com a literatura na condição de hábito e de lazer. Da sua experiência diária, como enxerga esse panorama? Os jovens estão lendo de fato, demonstrando interesse pela literatura, ou ainda estamos longe de uma geração efetivamente de leitores?

MÁRIO RODRIGUES – A resposta varia. Meus alunos são bons leitores. É comum vê-los com livros nas mãos – mas é preciso fazer um recorte específico. Acabo dando aula, na maioria das vezes, para alunos de certa classe social mais privilegiada, onde o acesso ao livro não é algo exótico, poderia dizer que é algo natural. Há livros no seu cursinho em abundância e disponibilidade, há livros em casa. Os pais têm condições, se os meninos assim quiserem, de bancar a aquisição de livros para que seus filhos os leiam. Porém, mesmo nesse caso raro, a literatura consumida é muito específica. Não há aí nenhuma crítica, mas são séries superficiais e há pouquíssima transição dessa literatura para algo mais apurado artisticamente ou temas mais sofisticados e camadas mais profundas. Em resumo, há um momento em que o jovem perde esse ímpeto leitor. O papel do professor é fazer essa ponte. Muitas vezes, contudo, os josés de alencar inviabilizam o diálogo e a sensibilidade dos jovens leitores com o potencial da literatura. O professor atento faz a mediação, ganha leitores. Mas há poucos desses professores. Saindo desse nicho socialmente privilegiado, a situação é díspar. É deprimente. Não teremos uma geração de leitores. O livro é inacessível para a maioria dos jovens brasileiros. Os poucos que têm acessos a eles não têm o nível de leitura capaz de lhes fornecer a abstração. Não há leitura: há decodificação de letras e fonemas, apenas. Existe uma luta, em boa parte da nossa sociedade, pela sobrevivência imediata. Nesse mundo, o livro e a literatura não são realidades distantes, são realidades inexistentes.

 

DA – A educação está na literatura na mesma proporção que a literatura está na educação?

MÁRIO RODRIGUES – Infelizmente, não. Há muito pouca literatura na educação. De modo geral, as aulas de literatura são sucateadas, mecânicas, decorebas. O currículo escolar é anacrônico, e não adaptado às necessidades etárias e de maturidade dos alunos. Parece mesmo que a literatura na educação, na escola, é forjada de tal modo a afastar leitores. Nos vestibulares e no Enem, que poderiam servir como farol para o que é feito em sala de aula, cada vez mais a literatura se encontra subalterna – mesmo em provas essencialmente de interpretação de texto. Nestas, textos técnicos, científicos e jornalísticos predominam. É realidade: a literatura está esvaziada – e a escola reflete a sociedade (não o contrário). A visão jesuítica de educação, que não estimulava a criatividade e apenas a apreensão nos fez muito mal. E literatura é criatividade. Por outro lado, quanta educação e quanto ensinamento guarda um bom texto literário! Quanto a literatura nos educa! Como pessoas, como cidadãos, como críticos. Como transformadores de uma realidade individual e, quiçá, social. Milton Hatoum: “Se não fosse a literatura, eu seria um bobalhão” – é uma verdade. Não há forma melhor de aprender sobre o Norte deste país do que num livro como “Eu receberia a pior notícias dos seus lindos lábios”, de Marçal Aquino, nem sobre o Nordeste num livro como “Emissários do Diabo”, de Gilvan Lemos. Como não aprender tudo sobre a sombra do nazismo depois de ler Bruno Schulz e sobre a colonização da África depois de “O coração das trevas”? O paraíso é uma espécie de biblioteca, diz o poeta. Mas não podemos obrigar ninguém a entrar nele.

 

DA – Muito se fala do esporte, entre os quais o futebol, como ferramenta elementar para oferecer um futuro melhor para crianças oriundas de comunidades de baixa renda, em muitos casos dominadas pelo crime. Na sua opinião, a literatura pode ter ou tem esse mesmo poder de transformação social?

MÁRIO RODRIGUES – Em teoria, sim; na prática, não. A literatura perdeu sua função social (não quer dizer que um dia, no futuro, não possa ser reconquistada, embora não acredite nisso). Ela interessará cada vez mais a um grupo menor de pessoas. Imaginemos a matemática e o xadrez, ramos do conhecimento apaixonantes, mas deslocados da realidade, embora sideradores de grupos específicos. Este é o futuro da literatura: tornar-se cada vez mais o conhecimento de um grupo, uma seita de iniciados. Há, inclusive, quem defenda que a literatura só sobreviverá assim. Se arvorar a um papel de transformadora dos hábitos sociais e culturais, é erro. O viço estaria exatamente em sua introspecção. Não há lamento nessa visão. Perdemos muitas oportunidades. Afunilando para o Brasil, em vários anos de relativa estabilidade econômica e política, não soubemos transferir para a educação o protagonismo. Preferimos consumir celulares em vez de cultura, bibelôs em lugar de livros… Poderíamos estar vendo, agora, a aurora de uma nova geração leitora, crítica e consciente, mas observamos o nascer de pensamentos ainda mais retrógrados. É o preço que pagamos. Há livros transformadores. Mas estão lacrados, perdidos em alguma prateleira empoeirada de raríssimas bibliotecas públicas – que nunca estão abertas.

 

DA – No Brasil, é mais fácil ser escritor ou jogador de futebol? 

MÁRIO RODRIGUES – Houve tempo em que ser jogador de futebol era coisa de malandro, de vagabundo, de quem não queria trabalhar. Hoje, essa visão mudou radicalmente. Há pais que fazem disso a meta de vida de seus filhos, mesmo antes destes aprenderem a caminhar direito. O irmão do Ronaldinho e o pai do Neymar são prova disso. De modo que difícil mesmo é ser escritor. Em países periféricos como o nosso (mas isso acontece em menor grau em várias partes do mundo), ser escritor é uma afronta. Uma excrescência. Uma aberração. Meu amigo (e um dos melhores contistas em atividade no país), Nivaldo Tenório, tem uma imagem perfeita: o escritor está em seu escritório compondo o livro que vai mudar a literatura brasileira, então a mulher o recorda de que é preciso limpar as bostas do cachorro no quintal. A literatura é menos importante do que as fezes a serem recolhidas. Ser escritor, no Brasil, é tentar compor uma obra, mesmo rodeado de fezes.

 

DA – Se você estivesse no lugar de Saúva, marcaria ou perderia o pênalti? Por quê?

MÁRIO RODRIGUES – Eu perderia o pênalti. Pois quem não reage, rasteja.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

Categorias
122ª Leva - 07/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

A boa literatura também se faz com o não dito. O que o autor guarda entre as dobras da tessitura narrativa, o algo inexplícito que se torna uma voz secreta modulando além dos limites da história, na apreensão do leitor. São as lacunas acortinadas em mistério, as sombras do enredo que concentram, nos silêncios, seu maior impacto.

Ninguém detém a noite explora os cantos de obscuridade que tem lugar na natureza humana. Em seu segundo livro de contos, o escritor pernambucano Nivaldo Tenório compõe uma galeria de personagens mobilizados por desejos e terrores interiorizados e, portanto, muitas vezes inauditos. Ainda que situado no espaço das cidades pequenas, dos povoados distantes, o palco das verdadeiras ações está dentro desses indivíduos incapazes de se desatarem de conflitos e de atos cruéis para significar suas próprias existências. Um ambiente de reconhecimento onde é sempre escuridão adentro, ou uma escuridão que vive dentro de outra escuridão.

Diante dessas tétricas experiências da vida, a força simbólica reside na morte e em suas representações. O autor promove as relações entre animais noturnos e objetos umbrosos sob o signo da finitude, transformando o universo abstrato, de crises e surtos mentais, numa atmosfera de devaneio através da qual se desvela o passado de perdas e de impura formação. A prosa de ficção vagueia pelas rachaduras da realidade, com naturalidade e consciência imaginativa, revelando um autor pronto, habilidoso e maduro, detentor de todas as chaves que permite a imersão do leitor e nunca os deixa sair, mesmo ao alcançar, transformado, o ponto final.

Em entrevista exclusiva, Nivaldo Tenório mergulha em seu recente trabalho e examina sua atração pela subjetividade temática, apontando os caminhos que percorre da ideia de ignição até a conclusão de um conto. Além disso, explica a sua preferência pelas narrativas breves, a estreia tardia na escrita, suas influências e angústias criativas. Natural de um estado-celeiro de grandes escritores, o autor analisa a presença do regionalismo no cenário atual da literatura brasileira, a nova cena de autores nordestinos, a proliferação das editoras pequenas e seus efeitos, e a importância dos prêmios literários e da crítica especializada. Um olhar apurado e franco sobre o meio literário, que reflete as intermitências do próprio ofício da escrita. “Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo”, observa.

 

Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Ainda que tenham uma construção geográfica bem concreta, os contos de “Ninguém detém a noite” são frequentados por personagens que lidam majoritariamente com questões relacionadas ao plano subjetivo, no qual se impõem signos e metáforas como representações da finitude. Essa é uma característica muito marcante do seu trabalho, que vem de sua coletânea de estreia, “Dias de febre na cabeça”. O que lhe motiva nessa exploração interna? Acredita que transitar pelo secreto de seus personagens é uma forma de consistir verdade ao seu fazer literário?

NIVALDO TENÓRIO – Grato pela análise, Sérgio. Acho que foi O’Connor quem disse que a ficção trata de tudo o que é humano e nós somos feitos de pó, e se alguém despreza o fato de ser pó, é melhor não tentar escrever ficção. Ela tem razão. Somos pó e parece que não há nada o que possamos fazer a respeito. Herdei isso de meu pai; um melancólico desconsolo com a nossa finitude. Lembro-me que era comum, nos momentos mais felizes ele de repente nos chamar a atenção para o fato de existir a morte, que estamos sujeitos a este fato inelutável: um dia simplesmente deixaremos de existir. Isto roubava-lhe metade da alegria. Falo no passado, mas ele continua vivo, embora com a idade sobreveio o avanço inescrupuloso de uma doença demencial que, pelo menos, deixou-lhe o saldo de não pensar mais na morte. Então herdei dele esse desconsolo e com o tempo, acho, se transformou em obsessão e tema de meus contos, pois o que vejo é a dimensão trágica do mundo muito além do alcance de nossas ações. Nossas escolhas não são sempre deliberadas, pensadas e, mesmo que fossem, são elas que definem fatalmente nossas vidas ou é a força das circunstâncias? Duvido do livre arbítrio. E é essa dimensão humana, marcada sobretudo pelo efêmero, que é o objeto de minha literatura. Alguém poderia dizer que disso já tratou exaustivamente Faulkner, Philip Roth – dois autores que continuo lendo depois de muitos anos – eu poderia citar outros, são muitos, mas o fato é que é isso o que sempre me fascinou na boa literatura – não posso esquecer de Machado – a capacidade de sondar o humano. E tudo isso, claro, não é nada se não se consegue progresso na forma, e transitar pelo secreto, como você tão bem colocou, foi o modo que encontrei de transformar minha obsessão – que divido com tantos outros – em literatura. Gosto do texto que sugere mais do que diz, por isso exploro as camadas do conto buscando o sentido secreto por trás das ações de personagens, e não estou interessado nos grandes feitos, mas nas coisas mais comezinhas, é ali que encontramos o humano.

 

DA – Essa humanidade cotidiana tem um apelo muito forte no histórico da literatura pernambucana, seu estado de origem. Só para citar dois grandes autores, João Cabral de Melo Neto e Osman Lins alimentavam seus fazeres literários com uma matéria oriunda de um plano subjetivo, mas que ao mesmo tempo refletia características particulares do lugar em que nasceram e estavam inseridos. Outro aspecto era trazer para a ficção momentos de suas vivências. Partindo da menção ao seu pai, o quanto o fato de ser pernambucano, de ser nordestino, influencia na escolha de seus temas? A sua literatura é também alimentada por experiências pessoais?

NIVALDO TENÓRIO – Quando eu era só um garoto e morava numa periferia pobre de minha cidade não havia muita coisa bonita do que se orgulhar, a família sofria os reveses da pobreza, mas meu pai conservava certo orgulho tão anacrônico quanto suas lembranças da fazenda onde nasceu, e de seu velho pai, um modesto e próspero plantador de café que também ostentava fama de valentia. Vovô e a fazenda desapareceram, a herança dividida entre tantos irmãos não deu pra nada. Então, papai, que não conheceu a pobreza quando era menino, fazia das tripas coração para que não sofrêssemos tanto com a nossa. Por exemplo, não queria que os filhos trabalhassem, nós devíamos nos dedicar aos estudos enquanto ele se matava como pequeno negociante do ramo de confecções. A primeira vez que trabalhei de verdade – se é que podemos chamar de trabalho – foi quando me alistei para o serviço militar. Mas a pobreza estava ali, nem eu nem meu irmão desfrutávamos de coisas que meninos da nossa idade e de famílias mais remediadas podiam dispor. Por volta dos 13 anos me interessei por livros. Sentia-me seduzido pelo objeto, sonhava poder comprar os livros da Bibliex – biblioteca do Exército – que eram anunciados na TV preto e branco. Eu não sabia o que aqueles livros continham. Eram livros, isso parecia bastar. Veja, Sérgio – agora você vai entender por que precisei recorrer a esses dados biográficos – eu acho que vivi numa bolha, construída com o esforço de papai e mamãe, fui um menino quieto, solitário, mal saía de casa e, quando descobri o prazer da leitura, os livros eram os únicos endereços possíveis. Lembro-me de passar um período das férias escolares inteiro lendo Anna Karenina. As coisas lá fora eram o resultado do esforço de meu pai, e não era muito, apenas o suficiente para sobreviver. Um sobrevivente não se sente especial, mas ler Tolstói me fazia sentir especial. O livro de Tolstói eu consegui na Biblioteca Pública Municipal, a bibliotecária me deixava levar emprestado os livros, e assim li Victor Hugo, Dumas, Rabelais, Balzac, e não foi nada programado, os livros mais bonitos eram os clássicos universais, eram os que mais me atraíam. Também tinha Machado de Assis, Lima Barreto, Monteiro Lobato e outros, mas naquela época só me interessava pelos autores estrangeiros. Talvez eu buscasse neles geografias diferentes da minha. Aqueles livros com histórias que se passavam tão longe, no tempo e no espaço, me garantiam uma distância maior da pobreza e daquele lugar que as circunstâncias me fizeram meu. E agora que falo isso, penso no que diz o José Luís Passos na apresentação do livro, de que os contos ambientados em cidades pequenas aspiram a uma maior largueza espiritual através da viagem ou alusão à cultura estrangeira. Então, respondendo à pergunta, acho que quanto ao tema – deste livro pelo menos – ser filho de meu pai e herdar algumas de suas idiossincrasias foi mais forte que ser pernambucano ou nordestino e quanto à experiência pessoal, acho que algumas estão nos contos sim, mas transformadas de tal jeito, que ninguém que tenha partilhado comigo tais experiências será capaz de reconhecê-las.

 

DA – É curioso você citar esse seu interesse inicial apenas por autores estrangeiros, pois me coloca diante de uma característica marcante da sua prosa; ou talvez a falta dessa característica marcante. Embora seja um autor nordestino, seus contos, ao contrário de uma lista imensa de novos e velhos autores, não trazem uma linguagem regional ou são ambientados num cenário expressivamente nordestino ou historicamente nordestino. Desde que começou a escrever, você se preocupou em não se enquadrar no que foi rotulado de “literatura regionalista”? Ou você acredita que é um processo natural da nova literatura brasileira ter um aspecto mais globalizado, independente da região onde é feita?

NIVALDO TENÓRIO – Não há dúvida de que um dos melhores – senão o melhor – capítulo da produção da literatura brasileira se deu a partir de 1930 com o Regionalismo de Gilberto Freyre – certamente um de nossos gênios – e falar de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e outros dessa geração é falar do cânone da Literatura Brasileira do Século XX. Guimarães Rosa também é regionalista como Faulkner, é o escritor regionalista do Sul dos EUA. Mas, quando hoje se taxa um escritor de regionalista, parece que por trás há uma clara intenção de segregação. E eu não sei se você já notou, Sérgio, mas a mim parece que esse rótulo só serve para o escritor nascido no Nordeste, talvez a culpa seja das novelas das oito da Rede Globo, e todos os coronéis, mocinhos e mocinhas que carregavam no sotaque baiano. Não sei. Conheço escritores no meu estado que não gostam de ser chamados de regionalistas só porque suas histórias são ambientadas no Nordeste. Ronaldo Correia de Brito não gosta, Raimundo Carrero tampouco, e eles têm toda razão. Quanto a mim, posso garantir, não houve intenção nenhuma de querer evitar o rótulo, nunca me vi pensando na questão, os contos eram escritos e só me dava conta da ambientação deles não evocar o Nordeste quando alguém me chamava a atenção para o fato. Confesso que acho algo desnecessário, principalmente num conto, o autor se preocupar em dizer que sua personagem parou pra descansar no trecho tal da Conde da Boa Vista, no Recife, ou que seu carro foi guinchado da BR Luís Gonzaga, em São Caetano, até Caruaru. Ao mesmo tempo, acho que não é isso de descrever o ambiente ou não que vai determinar se o conto presta. Apenas não acho necessário. Nunca estive interessado no homem ou mulher de Recife ou de São Paulo ou da pequena cidade onde moro, minha Garanhuns de clima ameno, localizada mil metros acima do mar e seus 130 mil habitantes, que há anos nem sobe nem desce no censo, pois lá impera a imobilidade. Estou interessado sim nos homens e mulheres e no que eles possuem de humano, não importa se transitam na Avenida Santo Antônio ou Quinta Avenida. Outro dia li a entrevista de um escritor brasileiro, desses que andam na moda. Ele dizia que não acredita nessa coisa de “ser brasileiro”.  Não sei o que pensaria José de Alencar se um vidente lhe dissesse que mais de cem anos depois dele um escritor importante e brasileiro faria tal declaração. Alencar e seu projeto de construção da identidade cultural do Brasil, ele e seu romance ambicioso em conter toda geografia. A mesma reação teria o Mário de Andrade, que, ao modo dos artistas de sua geração e seu caráter anárquico, também ambicionou dar continuidade – de um modo diferente, claro, crítico e coisa e tal – ao tal projeto de construção da identidade cultural. Macunaíma é sem dúvida o romance tese dessa empreitada. Mas o fato é que o tal escritor da entrevista talvez não esteja enganado. Quase cem anos depois dos gritos e berros que ecoaram no teatro municipal de São Paulo, ainda estamos em formação e a única conclusão que chegamos é que não somos negros nem brancos nem índios. Mas teve um tempo, Sérgio, que eu achava estranho o fato de gostar tanto dos romances americanos da década de 20, por exemplo, ambientados na França e que falam de homens e mulheres – de quem uma escritora se referiu como geração perdida – vivendo o entre guerras e a frustração de ser humano e o quanto isso representa de impotência e fragilidade. Cheguei a escrever para um amigo, lamentando essa falha no meu caráter. Por que eu me sinto mais identificado com Fitzgerald do que Graciliano, e por que “Kind of blue” me encanta mais do que Samarica Parteira? Não estou dizendo que nossos escritores e músicos sejam melhores ou piores. Estou dizendo que um livro ou disco, escrito ou gravado quase cem anos atrás e milhares de quilômetros longe de meu país me encanta e me causa felicidade. De algum modo e apesar de todo estranhamento, eu, nascido em Pernambuco, Nordeste do Brasil, me encontro ali. Vislumbro meu reflexo. E como minha literatura primeiramente nasceu do reflexo de meu gosto de leitor, isso talvez responda tua pergunta.

 

DA – Aproveitando que falou de rótulos e da criação de estereótipos, queria me aprofundar nesse assunto e perguntar sobre a relação dos autores que não estão nas chamadas rotas Sul-Sudeste do mercado literário. Durante muito tempo (e ouso dizer que a imagem permanece fora do Brasil) os livros dessa região eram consumidos em função de seus aspectos exóticos, sertanistas. Hoje, a impressão que tenho é que melhorou, baseado no reconhecimento de autores citados, como Ronaldo Correia de Brito, Raimundo Carreiro e José Luiz Passos, além da grande Maria Valéria Rezende e de novos autores, a exemplo de Débora Ferraz e Franklin Carvalho. No entanto, você, que vive a realidade dessa região, como enxerga o interesse das editores e dos leitores (e, por que não, também dos críticos) para com os autores fora desses centros? Você acredita que há, ou já sofreu, algum tipo de discriminação pelo fato de não fazer parte de um círculo específico, de não socializar com o editor X ou com o autor Y?

NIVALDO TENÓRIO – Acho que o problema da dificuldade de ser lido ou editado não está no fato de viver, de fazer literatura no Nordeste. Acredito que problemas similares encontram escritores espalhados no Brasil, mesmo no Sul e no Sudeste. A questão é de outra ordem e tem a ver com leitores. Poetas e contistas – com raras exceções – não estão exatamente na ordem do dia. Fazer o tipo de literatura que eu faço significa escrever quase exclusivamente para outros escritores. Às vezes, tenho a impressão de que estamos presos numa espécie de autofagia. Nos eventos de literatura escritores falam para escritores, enquanto o resto do mundo está lendo o último livro do Dan Brown, do Paulo Coelho ou do Stephen King etc. Uma amiga minha, também escritora e que mora em Portugal, me diz que lá é a mesma coisa. Acho que vivemos a crise do leitor. Thomas Mann, num ensaio sobre Tchekhov faz a sua mea culpa e reconhece que não levava a sério a forma breve do conto, estava interessado nas grandes catedrais dos romances de fôlego. Não é o caso do leitor de hoje, este só está interessado no livro da moda, em bruxos e vampiros, e necessita, mais do que ninguém, de muita autoajuda para suportar a existência. É o que aquece o mercado. Outro dia vi, no Globo News Literatura, a Luciana Villas-Boas, a antiga editora da Record, hoje agente literária, que costumava aconselhar escritores a não escrever conto ou poesia porque não vende, falar de uma dessas novas autoras, surgidas na internet e que escreve excelentes livros, inspirada no “Cinquenta tons de cinza”. A Luciana garantia que não se tratava de mero pastiche da E.L. James, como se isso fosse uma garantia do talento literário da moça. Essa autora, de quem nos fala a Luciana, provavelmente não vai ser resenhada por você, Sérgio, mas, num tempo incrivelmente curto, já vendeu mais de 100 mil exemplares. Não quero parecer pessimista ou despeitado, mas é a realidade. Também sei que você não estava se referindo a esse tipo de livro, quando me fez a pergunta, mas é preciso entender que primeiro o problema é de leitores. Não há leitores interessados em literatura, falo de alguém que vai a uma livraria para comprar a nova tradução do Gombrowicz porque está a fim de ler um bom livro, um livro instigante. E não vale se for da área, nada de jornalista cultural, crítico ou escritor, falo de um cara comum, que dirige um táxi ou é médico ou estudante de engenharia. Então, Sérgio, não é morar longe do centro – embora isso atrapalhe um pouco, sem dúvida – o maior problema. Já foi por isso que Osman Lins pediu demissão, juntou os trapos e trocou Vitória de Santo Antão por São Paulo, mas isso foi na década de 60, quando não existia internet.

 

DA – A sua resposta é muito pertinente e me conduz a duas reflexões. A primeira é relacionada ao que chamou de crise de leitor, diante da qual estou completamente de acordo. O caso é que, na contramão dessa situação preocupante, temos um cenário literário onde nunca se publicou tanto quanto hoje. Isso tem a ver, óbvio, com o surgimento de inúmeras editoras pequenas e com a possibilidade cada vez mais acessível da autopublicação. Qual, na sua opinião, será o efeito dessa equação que não fecha e que se torna gradualmente mais complexa? Acredita que a facilidade com que se publica neutralizou um filtro editorial e, atualmente, a quantidade alimenta um catálogo contumaz de livros não lidos?

NIVALDO TENÓRIO – Você tem toda razão quando usa o termo contramão. De fato é muito fácil publicar um livro hoje, as editoras pequenas surgem como resistência, mas também como negócio, uma vez que na maioria delas é o autor o responsável em pagar a gráfica. Além do livro, temos a internet, mas apesar dela e sua facilidade e sedução, a publicação em papel continua o sonho de consumo e o fetiche da maioria de quem escreve um livro e deseja vê-lo publicado. É uma equação mesmo, e para mim esquizofrênica, uma vez que me confirma a suspeita de que no Brasil – não sei lá fora – existem mesmo mais escritores do que leitores. E a maior parcela dela é de um tipo estranho de escritor, a parcela de escritores que não compram livros, logo não leem. Conheço alguns do tipo, quase sempre se consideram injustiçados e quando a gente pergunta o que estão lendo respondem que não leem porque temem a famigerada influência. Algo em que notamos um grande zelo pela própria escrita. Fico imaginando como seria aquecido nosso mercado livreiro se todos os escritores comprassem livros. E não sei, Sérgio, confesso que não consigo explicar esse fenômeno de tanta gente escrevendo e publicando, sempre achei que o escritor surgia por causa de amor e obsessão pelos livros – acho que foi meu caso – ou como resultado de uma grande experiência, do tipo que é preciso registrar no papel para alertar a todos de um grande mal ou de uma grande injustiça, o genocídio de um povo, por exemplo ou por algo – e vou citar Augusto dos Anjos – como uma vontade absurda de ser Cristo para sacrificar-se pela humanidade, mas acho que é sentimentalismo da minha parte. Tantos escritores talvez seja só uma forma – para muitos deles, pelo menos – de querer aparecer na foto. O homem nunca gostou tanto da própria imagem como nos nossos dias. Mas nem tudo é ruim; contrariando o tal filtro editorial, fico muito feliz quando é incluído, entre os finalistas de grandes prêmios, autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais. Já faz muito tempo que lamentamos não existir mais crítica literária nos jornais, lamentamos a morte de cadernos de literatura etc, isso talvez seja o que mais atrapalha, mas apesar de toda dificuldade – em razão dessa quantidade absurda de livros publicados todos os dias – é possível sim reconhecer um bom livro. Talvez o reconhecimento não venha na hora, talvez demore ou só ocorra postumamente, mas vem. E quanto à enorme quantidade de lixo publicado, a boa notícia é que o papel é biodegradável.

 

Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sinceramente, considero o reconhecimento póstumo a circunstância mais desleal que possa ocorrer com um escritor. Mas voltando a segunda reflexão, seus dois livros foram publicados por uma editora pequena. Foi uma decisão deliberada ou chegou a mandar o original para uma editora grande e não houve o interesse? Você mencionou o lado comercial das editoras pequenas e, na minha opinião, a qualidade gráfica da maioria desses selos pequenos nada deixa a desejar quando comparada a de uma grande editora. Os problemas são justamente a divulgação e a distribuição. A partir de sua experiência, quais são os prós e os contras que um autor lançado por uma editora pequena acaba por se deparar?

NIVALDO TENÓRIO – Eu nunca mandei meus livros para editoras grandes. De antemão, já intuía o resultado, na melhor das hipóteses uma carta educada dizendo que a editora não trabalha com meu perfil de escrita. O dinheiro movimenta o mundo. Quando mencionei o lado comercial das editoras pequenas quis dizer que elas utilizam estratégias de sobrevivência e, entre essas estratégias, a parceria com o autor é uma alternativa viável se se deseja algum lucro, no final. Imagino que uma editora pequena que publica 500 exemplares de um autor ainda desconhecido, embora bom contista, poeta ou mesmo romancista, corre sério risco de não conseguir só com a venda dos livros tirar os gastos da gráfica. As distribuidoras ficam com a porção maior do bolo e algumas livrarias cobram caro, algumas chegam a exigir 50 por cento. Também concordo com você, é excelente a qualidade gráfica de algumas editoras pequenas. Imagino que fazer o livro bonito acaba sendo uma estratégia comercial já que o público dessa editora, embora pequeno, é exigente. Tem bom gosto. Divulgação e distribuição são problemas sérios enfrentados até por médias editoras. Não é em toda livraria que você encontra um livro da Iluminuras ou Editora 34, só pra citar duas que gosto. E se publicaram autor brasileiro, contemporâneo, pior. Para o autor que se autopublica é um problema irreversível, apenas minimizado pelos selos pequenos. Acho que as livrarias também não ajudam e talvez a culpa não seja delas, afinal há tantas publicações de vampiros, bruxos e pastiches de 50 tons de cinza no mercado que as prateleiras simplesmente não cabem. Por isso, algumas ainda concordam em disponibilizar o livro no catálogo virtual. O Brasil é enorme e tal, mas o problema, insisto, é mesmo a falta de leitor. Outro dia ouvi que um autor – não me lembro quem – que ganhou o prêmio São Paulo verificou, um ano depois do anúncio do prêmio, ter vendido 100 livros. Parece mentira, mas não entendo porque alguém mentiria sobre isso. O livro fôra publicado por um grande selo, parece que também ganhara o prêmio Sesc e, com toda mídia e prestígio do prêmio, aumentou suas vendas em apenas 100 livros. Gosto da editora pequena. Algumas alcançaram respeito e isso, no fundo, é o que importa. Fazem um livro bonito e, sem muita pretensão, encontram o leitor especial, interessado em boa literatura. Se o mercado não é milionário, a culpa não é dela. Faz seu papel e o autor encontra seu lugar. Pequenas tiragens e distribuição – mesmo longe do ideal – possibilitam que o livro circule, concorra a prêmios e seja resenhado.

 

DA – Essa história do autor premiado é verídica, eu o conheço pessoalmente. Mas o final da sua resposta me instigou uma provocação: diante do que chamamos de crise de leitor, você acredita que o autor que lança uma edição de 500 exemplares, por uma editora pequena, tem muito mais uma preocupação em colocar um crachá de escritor e entrar para um clube do que ser realmente lido? Neste caso, o livro não seria mais um dispositivo para uma satisfação pessoal do que um meio pelo qual ele possa alcançar o objetivo final de toda obra literária, a atenção do leitor?

NIVALDO TENÓRIO – Falei em 500 exemplares porque é o número que muitas editoras que trabalham com gráfica offset sugerem, 300 ou 500 exemplares. Quanto mais diminui o número de exemplares, mais caro o livro fica. Meu “Dias de febre na cabeça”, edição do autor, a primeira edição, foram 500 exemplares. Na época eu sugeri 300, mas a diferença que a gráfica fazia no preço era ridícula. Então fiz os 500 mesmo sabendo que se livrar deles seria tão difícil quanto se livrar de um corpo. Sim, tem a história do crachá de escritor, concordo com você, mas no meu caso foi só essa lógica de gráfica offset. Algumas editoras estão trabalhando com tiragens bem pequenas, 70, 100 exemplares. Acho o ideal, se houver procura do livro é só imprimir mais exemplares.

 

DA – Você há pouco citou rapidamente os prêmios literários. Com o mercado editorial cada vez mais fechado, acredito que é senso comum de que vencer um prêmio literário é a maneira mais meteórica de se projetar um escritor. Quando se é uma estreia, pode ser até perigoso, pois o autor carrega consigo a responsabilidade de entregar um segundo livro, pelo menos, à altura do anterior. O que pensa sobre os prêmios literários? E, ultimamente, os prêmios no Brasil têm agraciado muitos autores nordestinos. O prêmio Sesc, por exemplo, teve suas últimas edições dominadas por novos autores do Nordeste, tanto na categoria Romance quando na categoria Conto. Como explicar isso? Você consegue identificar uma geração de jovens autores ganhando corpo na região?

NIVALDO TENÓRIO – Devo dizer que pra mim não é surpreendente que prêmios literários agraciem autores do Nordeste. Acho que o Nordeste tem uma sólida tradição de excelentes escritores. Por acaso me lembro do polêmico Bruno Tolentino, ele que era do Rio, poeta erudito que não gostava do Modernismo nem da Cultura Popular, disse uma vez: tirem a Literatura do Nordeste do Brasil, restaria o quê? Sem bairrismo, de fato o Nordeste é rico em escritores, Pernambuco então nem se fala. Manuel Bandeira, Osman Lins, João Cabral de Melo Neto – um dos poucos autores brasileiros que já foi citado para ganhar o Nobel – e Gilberto Freyre, reconhecido no mundo como um gênio. Uma boa representação da literatura contemporânea também é de Pernambuco. Apenas citando os escritores que residem aqui penso em Raimundo Carrero e Fernando Monteiro, só pra mencionar dois. E se falamos em escritores que adotaram Pernambuco, temos o grande Ariano Suassuna da Paraíba (hoje um clássico da Literatura Brasileira), Ronaldo Correia de Brito e Sidney Rocha, do Ceará, autores com uma sólida literatura, todos premiados. Autores que nunca deixaram o Recife. Já faz alguns anos o estado criou um prêmio que só premia autores que residem em Pernambuco, o Prêmio Pernambuco – que recentemente alguém teve a infeliz ideia de mudar o nome para Hermilo Borba Filho, também ele um intelectual de destaque e excelente dramaturgo pernambucano. O prêmio tem revelado autores até então inéditos e de notável qualidade literária, espalhados na região metropolitana e interior do estado. De fato, o prêmio tem poder de revelar o autor, embora isto não queira dizer que todo autor premiado é um grande autor. São muitas circunstâncias e pesa o fator sorte. Mas ajuda, principalmente quando democrático e livre de preconceitos. Por isso, gosto quando encontro, entre os finalistas de grandes prêmios, livros de autores autopublicados ou de pequenos selos editoriais, isso denota honestidade. Acho que a gente vai precisar de mais tempo e o olhar a uma certa distância para perceber se aqui, na região, houve de fato uma nova geração de escritores fazendo literatura de verdade. Nesse momento, pelo menos, só posso dizer que há muita gente escrevendo e o que se vê publicado aqui não é de jeito nenhum inferior ao que se vê publicado no Sul-Sudeste.

 

DA – Falando em distância, durante seu ofício criativo há uma preocupação com o leitor, quem a sua história poderá atingir e o que pode despertar nela? Certa vez, fiz uma pergunta parecida para um autor, que respondeu não pensar no leitor, pois escrevia para ele mesmo. Achei a resposta arrogante e narcisista. O que pensa sobre isso? O leitor não deveria fazer parte, em algum momento, do processo de construção de um livro?

NIVALDO TENÓRIO – O leitor é fundamental. Preocupa-me muito o leitor. Morro de medo do leitor pouco generoso, o leitor que lê em metrôs, olhando para o relógio, hiperativo, que manipula o celular, que consulta as redes sociais enquanto lê. Tenho medo que minha literatura, para este leitor, assuma algum tipo de hermetismo do qual não me sinto culpado. O conto é irmão da poesia, requer mais de uma leitura. Ninguém lê um poema uma só vez. Quantas vezes eu já não li “Opiário”?, Decerto muitas. Sem o leitor minha literatura fica incompleta. Você poderia dizer, com toda razão, que sem o leitor nenhuma literatura acontece. De fato. O próprio processo de escrita se completa com o leitor. Por isso, necessito de um leitor que me dê a mão, necessito de sua paciência e disposição para amarrar as pontas, quando se fizer necessário, de um leitor que saiba ler os silêncios, que se interesse pela outra história que todo conto conta e sinta prazer em despender toda energia que a leitura lhe exige. O leitor que idealizo é um leitor especial e por ele sinto enorme apreço. A gente se esforça para escrever um livro melhor que outro. Acho que este livro que acabei de escrever é mais maduro que o anterior, mas só quem pode de fato julgar isto é o leitor. Por outro lado, não perco o sono por causa do leitor de gosto médio, o leitor dos livros da moda, o leitor apenas interessado em puro entretenimento. É claro que todos os dias eu o espero de braços abertos, mas não vou perder o dia se ele me ignorar.

 

DA – Seguindo nessa linha do leitor, ultimamente surgiu um movimento do leitor sensível, que tem feito inclusive universidades retirarem de seus catálogos obras com conteúdo considerado controverso. Seus contos, por outro lado, trazem para seus enredos temas pesados, envolvendo fortemente a miséria humana. Como enxerga essa pressão que existe hoje para limar da literatura temas polêmicos que possam ferir certos grupos? Isso lhe faz repensar a ideia de um conto?

NIVALDO TENÓRIO – O primeiro réu desse caso, se não me engano, foi Monteiro Lobato. Queriam censurar e cortar trechos de sua obra por causa do tratamento que Tia Nastácia – por ser negra – recebia. E aí me lembro do Oscar Wilde: um livro não é moral ou imoral, é bem ou mal escrito; eis tudo. Ele tem razão. No caso do Lobato, principalmente, tem a questão do contexto histórico. Eu não acredito numa obra literária que se constitua num panfleto mesmo que as razões sejam as melhores, imagine quando as razões são as de promover discriminação racial ou de qualquer natureza. A obra de Monteiro Lobato não me parece um panfleto, aquilo que Narizinho diz sobre a negritude de Tia Nastácia é corroborado pelo espírito de época. E quem fala é a personagem. Não existe boa arte pautada em normas de conduta, etiquetas e outras frescuras. É só olhar para o passado, o que é que hoje todos acham do processo por imoralidade que sofreu Madame Bovary? Veja, durante essas discussões eu esperei que alguém se manifestasse sobre a Bíblia, pois é difícil encontrar um livro tão politicamente incorreto. Ali há desde discriminação contra a mulher a genocídios determinados pelo próprio Deus. No Decálogo, exatamente no décimo mandamento, Ele determina que o homem não deve cobiçar o servo de seu próximo, e aí não precisa recorrer a exegese para intuir que para Deus a escravidão era perfeitamente aceitável. Natural. E diferentemente de Monteiro Lobato, um homem do final do século XIX início do XX, Deus não é um reles mortal, sujeito ao condicionamento cultural. Então é uma grande besteira esse negócio, começa-se mal porque começa-se descriminando umas obras e deixando outras de lado em nome da mais pura e genuína hipocrisia. Mas acho que quem deve se encarregar de julgar é o leitor. O leitor faz a leitura que quiser. Estabelecer uma censura em nome do politicamente correto é no mínimo ridículo. Não me interessa se Celine era antissemita e simpatizante do nazismo, a mim só interessa o assombro que me causou Viagem ao fim da noite, além do mais ali não há nada que promova as ideias infelizes do autor. A propósito disso, reconheço um bom autor pela sua capacidade de fazer a clara distinção entre suas ideias, ideologias e a literatura. Conheço escritores que também são meus amigos e são, na vida privada, pessoas de forte ardor religioso, e não são poucos, pessoas capazes de uma fé que eu não consigo entender que raios de improbidade intelectual os fazem acreditar nos disparates e contos de fadas de suas religiões, pessoas com uma visão que eu só consigo atribuir ao intelecto mais simplório, mas que no caso deles não é, pois não são ignorantes, alguns têm mais cultura e leram mais do que eu. Então, são questões que eu nem procuro inquirir – tenho mais com que me ocupar – no fundo o que me interessa é que em seus livros não há nada disso e até os invejo por conseguirem tal distanciamento. Mas acho que acabei fugindo um pouco da pergunta. E não, essa pressão e sensibilidade de tais grupos jamais me fariam repensar a ideia de um conto.

 

DA – Por outro lado, você consegue identificar determinados escritores que se colocam por detrás de uma causa, da bandeira de uma minoria, de uma ideologia, e se utilizam desse expediente para chamar atenção para seus escritos? Percebe que a mídia especializada foca, em muitos casos, na condição social desse tipo de escritor e se esquece de avaliar o valor literário, se o livro é, no mínimo, bom?

NIVALDO TENÓRIO – Num mundo que não lê, talvez não seja tão ruim chamar a atenção para um livro em razão de seu apelo social. Sem dúvida, há tais escritores e acho até que são muitos, e suas bandeiras chamam sim a atenção da mídia e de leitores que se veem ali representados. Imagino que deve existir escritores bons e ruins fazendo isso. A mim só interessa a literatura. Literatura pela literatura. Se alguém consegue fazer os dois, se consegue que o carro-chefe seja a força do texto e não o apelo social, tem a minha atenção. E não é de se admirar que a mídia se interesse e promova livros medianos, como você coloca, mas que levantam bandeiras de grande apelo social. A mídia está interessada em notícia. Por literatura se interessa um número bem menor de pessoas e isso não vende jornais, não dá ibope.

 

Nivaldo Tenório / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Mas ainda, por mais estranho que pareça, são justamente os cadernos e os suplementes literários que permanecem valorizados pelos autores, quando buscam uma resenha ou a divulgação de seus livros. No Brasil, ainda resiste uma cultura de associar projeção aos grandes jornais impressos, de não dar o valor devido ao espaço virtual, à atenção dada aos livros nos sites, blogues e afins. Como analisa essa transição? Os espaços virtuais reservados à literatura são uma maneira de compensar a falta de espaço na mídia impressa ou estamos diante de uma nova geração de críticos, que lidam com a literatura segundo a realidade de seu tempo?

NIVALDO TENÓRIO – Acho que são os dois, Sérgio. Sem dúvida, há uma nova geração de críticos mais antenados com as novas tecnologias e a literatura perdeu espaço na mídia impressa. Talvez o crescimento de uma esteja atrelado ao desaparecimento da outra. Aqui em Pernambuco, noto uma resistência. Há bons jornalistas interessados em escrever sobre literatura. Temos um suplemento cultural, o Pernambuco, que é um dos melhores cadernos de literatura publicados no Brasil. Quanto à preferência dos autores em verem suas obras divulgadas por cadernos e grandes jornais, deve ser um reflexo do próprio desejo de se ver publicado em papel. O cara publicou um livro nas redes sociais e tem milhares de seguidores, mas só se sente publicado de verdade quando seu livro está à venda nas livrarias. É o fetiche, é a tradição. Mesmo os escritores comerciais se sentem assim. Parece que o papel tem o poder de tornar oficial. É verdade que quando sai em jornal uma resenha aquilo só é lido por meia dúzia de pessoas. Todos só tomam conhecimento quando o link da matéria é divulgado nas redes sociais. Acho que essa crítica em blogues e sites vai crescer e vai ganhar mais prestígio à medida que as publicações em jornais ficarem mais raras e, se não desaparecerem dos grandes jornais, existirão apenas em jornais como Rascunho ou publicações artesanais para um número pequeno de assinantes. As facilidades que a internet oferece impediriam que hoje o Osman Lins desistisse de tudo, no Recife e Vitória de Santo Antão, e fizesse a mesma viagem que os sertanejos faziam para São Paulo.

 

DA – E no seu caso? Incomoda-lhe ou, de alguma forma, desanima adentrar uma dessas mega livrarias e não encontrar os seus livros? Qual a extensão que você almeja para sua carreira, para sua escrita?

NIVALDO TENÓRIO – Tudo o que almejo para minha carreira de escritor começa e termina no texto, quanto ao resto não é de meu controle. O meu livro não se encontra em mega livrarias – pelo menos o livro físico – não por ser de péssima qualidade. É exatamente o contrário. Quando entrei pela primeira vez na Livraria Cultura, da Avenida Paulista, não pude acreditar no que via. Mais da metade da livraria era dedicada aos livros da moda. É fácil reconhecer pelo colorido das capas. Não bastou que alguém tivesse escrito um livro tão ruim como “Crepúsculo”, era preciso que aparecesse um monte de imitadores com novos Crepúsculos que ganhariam as prateleiras de tais livrarias. Então, eu não tenho culpa se impera um gosto ruim ou mediano, se todo mundo parece tão carente de autoajuda e entretenimento que só aspira a mais bruxos e lobisomens em aventuras sensacionais. Mas eu estaria mentido se não dissesse que todo escritor deseja sim encontrar seu livro nas vitrines de livrarias. Alguns, quando encontram, chegam até a fotografar e exibir no Facebook, coitados, como um acontecimento realmente fabuloso. E talvez seja mesmo. Então, Sérgio, não me preocupo com isso. Interessa-me fazer um livro melhor do que o último. Este livro, acredito, é melhor do que o anterior, pois minha maior motivação é escrever cada vez melhor, embora isso, claro, quem julga é o leitor, seja lá onde ele estiver.

 

DA – Talvez seja uma heresia perguntar isso para um contista por excelência, mas você já pensou em escrever um romance? Caso não, o que o afasta do gênero? Caso sim, esse seria um próximo livro? Aliás, já tem um novo projeto literário?

NIVALDO TENÓRIO – Nunca tentei escrever um romance – apesar de ser um leitor de romances – mas já pensei sim, embora nunca tenha levado a termo, sequer começado. Encontro no conto o gênero necessário para minha criação. Há as pressões do mercado (que, é claro, eu não levo a sério) e dos amigos (que não sabem apreciar o conto), pois é comum coisas do tipo: e quando vai sair o romance?, como se todo esforço para escrever o conto fosse balela, um talento desperdiçado. Não por tais razões, o mercado que se dane e os amigos que aprendam a ler. Mas vou escrever. Não digo que já tenho um projeto, é só uma ideia que vem me assombrando ultimamente, de transformar um dos contos – porque me sugere uma narrativa de fôlego maior, o caso da tartaruga – em romance. Vou escrever, mas não tenho pressa. Sempre admirei os escritores obcecados por sua obra, que nos dão a ideia de que viveram apenas para escrever, como os russos e Balzac, por exemplo, mas tenho uma natureza infelizmente indolente, depois de um livro preciso de um tempo, mais do que razoável, para de novo me sentar e escrever. Tenho fôlego de contista, nunca estive interessado em quantidade.

 

DA – Diante de todas as frustrações e contratempos que trouxemos à tona, por que então continuar a escrever? Vale a pena ser escritor no Brasil?

NIVALDO TENÓRIO – Publiquei a primeira vez com mais de 30 anos. Escrever sempre foi mais importante do que publicar. A gente não escreve porque isso vai mudar nossa vida. Não vamos ficar ricos e nunca acreditei no exercício da escrita como terapia. Escrever, então, nunca representou obter algum tipo de vantagem. Acho que todo escritor tem dificuldade de responder esta pergunta. Hoje, mais do que nunca, quando para tudo que se faz, logo se espera obter resultados, lucros, vantagens. É isso ou você está perdendo tempo, dizem os pragmáticos. Escrever talvez seja o modo mais cruel de perder tempo. Não há garantias. Se escrevo e, se continuo escrevendo, faço porque sentiria muito se algo acontecesse que me impedisse de escrever. Não acho que seja mais fácil ser escritor em outro país. Quando a gente pensa no século XX, uma parcela significativa da grande literatura que aparece foi escrita na América Latina do Terceiro Mundo, com problemas de ditaduras e analfabetismo. Faulkner, Carson McCullers e Flannery O’ Connor escreveram no Sul dos EUA de pobreza, Ku Klux Klan e fanatismo religioso. Então, não é num país com problemas sociais resolvidos e índice zero de analfabetismo o lugar ideal para escrever e ser lido. Não há lugar ideal para escrever. Ouvi de uma editora francesa que, em Paris, o escritor ou escritora lança seu livro nas livrarias pequenas, lugares aconchegantes, cheias de histórias, com fotos de Hemingway penduradas nas paredes. Os lançamentos contam sempre com um público de 30 pessoas, no máximo, entre as quais se contam esposa, filhos, pais, parentes e amigos do escritor. O problema é maior, vai além das fronteiras, e tem a ver com a perda de certa noção da subjetividade. Mas uma coisa eu posso garantir, em todo tempo e em todos os lugares houve e há dificuldades, nenhuma delas, entretanto, é páreo para o desejo de escrever.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

Categorias
120ª Leva - 05/2017 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Sérgio Tavares

 

CAZUZA – SÓ SE FOR A DOIS

 

 

Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, lançou quatro álbuns de estúdio em carreira solo, antes de morrer, em 7 de julho de 1990, vítima da aids. “Só se for a dois” é seu segundo trabalho e, visto no conjunto da obra do cantor e compositor carioca, pode ser considerado um disco menor. É, de acordo com números da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), o que registra a vendagem mais baixa: 600 mil cópias. Artisticamente, também não tem canções icônicas, a exemplo de seu antecessor “Exagerado” e de seu sucessor “Ideologia”.

O caso é que “Só se for a dois” não pode ser analisado somente pelo universo que contém em si. Passados exatos trinta anos, sua importância está em ser um álbum inexoravelmente de transição, uma ponte modulante para tudo o que transformou a vida e a maneira de enxergar o mundo do seu autor.

Antes de entrar no repertório do disco, é preciso reconstituir um momento dramático, que seria chave de virada para a carreira de Cazuza. No livro “Só as mães são felizes”, construído a partir de depoimentos de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, a Regina Echeverria, esta relata que, um mês antes do show de estreia de “Só se for a dois”, o cantor começou a apresentar sintomas de debilitação da sua saúde. Preocupada, Lucinha pediu que o filho fosse ao médico. Na volta da consulta, ela perguntou sobre o parecer clínico, no que Cazuza respondeu: maneirar. E completou: “Isso é uma virose boba. Logo vou me curar!”.

Mas não era virose, nem doença boba. Às vésperas do show, o médico chamou Lucinha e seu marido João ao consultório e revelou que seu filho havia sido “tocado pela aids”. O próximo a saber foi o produtor Ezequiel Neves, que tinha Cazuza como neto (o chamava carinhosamente assim). Foi Ezequiel quem convenceu o cantor a retornar ao médico, e estava do outro lado da porta quando este ouviu o resultado do exame de sangue (ter o vírus HIV, nos anos 80, era uma sentença de morte) e correu atrás dele até a praia, numa cena refeita pela diretora Sandra Werneck, no filme “Cazuza – O tempo não para”. “Zeca, eu sei que todo homem nasce e morre um dia, mas eu não mereço isso!”, chorou igual a um menino.

Naquele mesmo ano de 1987, ao fim da turnê de “Só se for a dois”, Cazuza, seus pais e Ezequiel Neves fizeram a primeira viagem aos Estados Unidos, em busca de tratamento. “Não vou deixar você morrer, meu filho. Vou virar céus e terras, vou vender minha alma ao diabo, mas você não morre”, sentenciou Lucinha. Porém, foi somente na segunda internação no hospital de Boston, para combater uma febre incontornável, que o cantor iniciou o tratamento com o novíssimo AZT. Apesar de causar efeitos colaterais pesados, a droga restabeleceu o ânimo de Cazuza, que começou a trabalhar agora sob um lema: urgência!

Dessa fase, nasceu o álbum “Ideologia”, de 1988, e o espetáculo subsequente, dirigido por Ney Matogrosso, que iria resultar no disco ao vivo “O tempo não para”, lançado um ano depois. Nesse mesmo período, Cazuza concedeu uma entrevista ao programa “Cara a cara”, conduzido pela jornalista Marília Gabriela. A certa altura, ele declara que, por conta de uma “inveja criativa” pelas letras do Renato Russo, decidiu falar também sobre a sua geração, escrever sobre o Brasil, e sair da dor de cotovelo, do nhem nhem nhem.

Pois a identidade de “Só se for a dois” é justamente essa dor de cotovelo, esse nhem nhem nhem. Ao contrário de “Ideologia”, em que alarma: “O meu prazer/Agora é risco de vida”, o segundo trabalho traz versos leves: “O nosso amor a gente inventa/Pra se distrair”. Se antes saudava a vida: “Viver é bom/Nas curvas da estrada/Solidão, que nada”, agora entrevê a finitude em sua própria imagem: “Eu vi a cara da morte/E ela estava viva – viva!”.

 

Cazuza / Foto: divulgação

 

“Só se for a dois” é, portanto, um trabalho marcado pelo romantismo, por um lado que o próprio Cazuza definiu como o de “cantor de churrascaria”. Mas, posto na distância dos anos, é o derradeiro registro de um compositor que nunca mais existiria além dessas faixas, de um homem ainda despreocupado e repleto de vitalidade física e emocional, em oposto àquele que a aids e os sintomas da doença iriam cunhar: um artista que resolve processar as mazelas do país e a própria; que não tem outra alternativa exceto dar forma ao seu trabalho em meio à urgência, contra o tempo que não para.

Engana-se, porém, quem acredita que o disco seja embalado em platitude. Se a proporção sonora se despede aos poucos da gravidade e dos rasgados riffs de guitarra, herdados da passagem de Cazuza pelo Barão Vermelho, é possível divisar um artista experimentando casar seu timbre roufenho a novos ritmos. Nas 11 faixas que integram o elepê, há uma aposta em arranjos multíssonos, num escopo musical cuja densidade consiste em elementos do blues, do pop rock, da MPB, do uso de sintetizadores, da voz e violão.

À parte os hits “O nosso amor a gente inventa” e “Solidão que nada”, que figuram até hoje nas paradas noctâmbulas, as canções se alternam entre o andamento acelerado e o lento, às vezes emulando o canto à capela, nas quais se derramam contemplações sobre o amor, as despedidas de relacionamento, uma interação meio blasé com a melancolia, os deslindes mundanos e as introspecções de uma existência frívola e desregrada. A veleidade e a irreverência também dão as caras.

Em “Lobo mau da Ucrânia”, por exemplo, Cazuza faz uma versão radioativa do clássico personagem das histórias infantis, ambientando-o ao desastre de Chernobyl.  Já a faixa-título canta uma babel de miscigenação entre os povos e entre os corpos, ao passo que a dançante “Vai à luta” dá uma alfinetada nos críticos ao comportamento do cantor. “O pessoal gosta de escrachar/De ver a gente por baixo/Pra depois aconselhar/Dizer o que é certo e errado”.

“Completamente blue” e “Quarta-feira” flertam, em sonoridade e letra, com um clima down. “Heavy love” e “Balada do Esplanada”, por sua vez, são belos opostos. Enquanto a primeira fala de uma relação inconsequente (“não sei se é paixão ou doença”), a segunda é um pedido a alguém para que esqueça o mundo e fique contigo.

Porém, nem tudo é evidente e pressuroso. Ainda que sem a contundência dos álbuns posteriores, Cazuza planta alguns subentendimentos em duas composições, relacionados à sua bissexualidade (ou homossexualidade). “Ritual” traz a frase: “o amor na prática é sempre ao contrário”, e “Culpa de estimação” (caso o título não seja suficiente) fala de um cara (ele) que, por onde anda, tem ao lado a namorada, embora não saiba se o nome dela é Eva ou Adão. “Guarda segredo e diz que não é chantagem”.

“Só se for a dois” não prenuncia o artista aclamado que Cazuza iria ser, justamente por não ter sido a arte o motivo maior de sua busca por temas críticos e versos mais elaborados, de abandonar as areias de Ipanema e cobrar ao Brasil que mostrasse a sua cara. É, desse modo, um disco que guarda uma certa ingenuidade, um trabalho dominado por uma energia que, trinta anos depois, sabemos que estava prestes a se dissipar, tal uma foto despretensiosa batida minutos antes de um acidente.

 

 

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

 

Categorias
119ª Leva - 04/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Em entrevista concedida à Diversos Afins, em 2013, Eduardo Lacerda apontou dois desafios especiais para o crescimento da editora Patuá, que havia montado fazia apenas dois anos: publicar livros diferentes e únicos, que inovassem o caráter editorial de alguma forma; e conseguir gerar lucro com isso.

Passados três anos, a realidade financeira do selo não se distingue da de qualquer editora pequena e independente no Brasil, cujo editor, além de se preocupar com a qualidade artística da obra, “tem de embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros”.

Quanto ao primeiro desafio, no entanto, pode-se dizer que foi superado com louvor. Com mais de 500 títulos lançados, a Patuá é hoje referência no mercado editorial para os autores que procuram uma maneira de debutar na literatura. Mas o reconhecimento não depende apenas dos estreantes. A notoriedade trazida por prêmios e pela presença constante na lista de indicados atrai, cada vez mais, escritores renomados que encontram, na editora, um novo porto de lançamento para seus trabalhos.

Na entrevista a seguir, Eduardo Lacerda faz um balanço dos últimos seis anos à frente da Patuá, tocando em temas que constituem um cenário realista do mercado editorial brasileiro, refletido a partir da experiência de se comandar uma editora que segue com a postura de independente. Com lucidez e otimismo, o poeta que se tornou editor fala ainda sobre vitórias e frustrações, mercado literário, premiações, formato digital, leitor no Brasil e da razão de seguir acreditando no que faz.

“Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores”. Uma leitura recomendada para quem já está e para aqueles que pretendem ingressar nos caminhos sinuosos – e nem sempre recompensadores – do universo do livro.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Passados quatro anos do lançamento da antologia poética “Outro dia de folia”, sua carreira de escritor segue em pausa. É mais fácil ser editor que poeta?

EDUARDO LACERDA – Eu não tenho uma carreira como poeta, tenho um livro publicado, composto por poemas escritos em um momento da minha vida no qual escrever era importante. Hoje escrever não é mais importante, acho muito importante ler e, como minha profissão, acho importante o trabalho de editor, o qual eu exerço com paixão, a paixão que eu não tenho mais como poeta. Mas também não é fácil ser editor, hoje leio muito menos do que lia há dez anos. Cuidar de uma editora pequena e independente me exige a leitura, mas também embalar cada livro, levá-los aos correios, pagar contas em vários bancos diferentes, implorar para que alguém os compre e os leia, enviar para jornalistas, formalizar contratos, fazer páginas no site, tirar ISBN, emitir nota fiscal, fazer postagens no Facebook para divulgação dos livros. A edição, como trabalho, vai além e fica aquém da leitura, para o bem ou para o mal. Mas acho que o mais difícil é ser leitor do que ser poeta, considerando que ser leitor exige isolamento, reflexão, convívio com os textos e muita recusa. Já muitos poetas (e mesmo eu, quando fui poeta e agora, como editor) buscam o que é público, o reconhecimento, a leitura do outro, a crítica do outro, a venda do livro, a participação no evento. Quando somos apenas leitores, nos bastamos a nós mesmos, mas um poeta e também um editor não se basta sozinho, precisa do outro, o outro é imprescindível na busca de si mesmo. Se eu pudesse, seria apenas leitor.

 

DA – Fundada em 2011, a Patuá carregou, durante um tempo, o rótulo de ser uma editora voltada para a poesia. Hoje, o catálogo é bem variado, inclusive com proporções igualitárias entre romances, antologias de contos e antologias poéticas. Essa realidade já fazia parte da ideia original, quando planejou o foco da editora, ou foi algo inevitável, que ganhou forma de acordo com os pedidos de leitura de originais que chegavam?

EDUARDO LACERDA – Um editor precisa ser apaixonado pelo que lê e precisa ser um bom leitor daquilo que pretende editar. Eu não sou um bom leitor de literatura infantil ou de literatura infantojuvenil, por isso não me arrisco muito a editá-la. Eu reconheço sua importância, mas acho que outros e outras profissionais farão uma edição muitíssimo melhor do que a minha. Sou um bom leitor apaixonado de poesia e, talvez, um leitor mediano, mas apaixonado, de prosa. É natural que a poesia tenha um espaço maior dentro da editora, minha formação anterior, como editor, foi editando fanzines, jornais e revistas literárias. Eu convivi, na última década, com centenas de poetas antes de efetivamente editar seus livros, de muitos já tinha editado poemas nesses jornais, revistas, zines, articulado eventos, saraus. É uma relação anterior que tenho com os poetas e com a poesia. Mas gosto muito de prosa, de contos e de romances, e é natural querer publicá-los também. Contudo, o número de poetas publicados ainda é muito maior.

 

DA – Outra característica da Patuá era de ser um porto para autores estreantes. Com o amadurecimento da editora, porém, escritores de renome, com títulos lançados pelos chamados grandes selos, começaram a ser publicados pela Patuá. Você percebeu isso como uma consequência da incapacidade das grandes editoras de manter esses autores ou como a procura destes por um selo pequeno, que oferece uma participação ativa nas etapas do processo de feitura do livro? Chegou a se preocupar quando esses contatos começaram a acontecer? O que procura um escritor consagrado ao entrar em contato contigo?

EDUARDO LACERDA – Ainda somos uma editora focada nos autores estreantes. Nesse primeiro semestre, publicamos dezenas de autores e autoras estreantes e, dos ditos consagrados, ou mais experientes, apenas o novo livro de poemas do Ronaldo Cagiano e o novo romance da Micheliny Verunschk, que apesar de muito reconhecida como poeta, teve seu primeiro – e muito premiado – romance publicado com a Patuá. Ano passado publiquei as antologias poéticas de dois autores que me formaram, mas não posso dizer que são consagrados, apesar de algum reconhecimento, que são o Sergio Cohn e o Fabio Weintraub, mas eles sempre foram publicados por editoras pequenas ou médias. Claro, temos muitos autores que publicaram seus primeiros livros com outras editoras pequenas ou de forma independente, muitos que já não são estreantes, mas que publicaram seu livro de estreia com a Patuá. Acho que um catálogo de 500 títulos, como o nosso, permite uma pluralidade de autores e autoras. Dependendo do recorte feito, a impressão pode ser uma ou outra.

 

DA – Nesses seis anos de existência, a Patuá acumula premiações expressivas, tais quais o Jabuti e o São Paulo de Literatura, além de ter autores da casa regularmente entre os finalistas. Qual é o efeito real de um prêmio para uma editora de pequeno porte/independente?

EDUARDO LACERDA – Em um primeiro momento, ganhar um prêmio aumenta o “prestígio” da editora, o que acaba atraindo muitos escritores querendo publicar conosco. Após o resultado positivo em algum prêmio, recebemos um número três vezes maior de originais. Também vendemos um número maior, mas não expressivo, de exemplares do livro premiado. Acho que prêmios são importantes, precisam existir, assim como os eventos literários, mas eles não definem a literatura. No caso da Patuá, minha felicidade em ganhar um prêmio é saber que rompemos uma lógica de que somente as grandes editoras ganham esses prêmios. Já ganhamos duas vezes o Prêmio São Paulo, duas vezes o terceiro lugar do Jabuti, de poesia e de contos, dois Prêmio Guavira (um prêmio menos conhecido, do Mato Grosso do Sul), tivemos muitos autores semifinalistas e um finalista do Oceanos/Portugal Telecom, tivemos já cinco autores finalistas do Jabuti e, em 2017, a Patuá tem dois livros finalistas do Prêmio Rio de Literatura.

 

DA – Hoje você já consegue selecionar o original que irá publicar? O que leva em conta nessa escolha? E de que forma lhe chateia a maneira de um autor se portar diante da editora, pelo fato de ser independente? Talvez algo que certamente este nunca fizesse, caso fosse recusado ou tivesse de negociar com um grande selo.

EDUARDO LACERDA – Eu sempre selecionei o original que publicamos. Não cobramos a edição, não ganho nada publicando algum livro sem acreditar nele, nem lucro monetário, nem um bom catálogo, posso até errar, mas erro por vontade própria, não porque o autor está pagando pela edição. Leio tudo o que publico, mas não posso dizer que consigo ler tudo o que recebemos para publicar, mesmo se me dedicasse apenas à leitura de originais, ainda assim o tempo necessário seria maior do que possível. Por isso (e por muitos outros motivos) acho bom que existam outras editoras trabalhando bons livros, não entendo uma outra editora como concorrente. Já sobre como os autores se portam, os autores e autoras são o que há de melhor e de pior no meu trabalho. Não teria conquistado nada sem a confiança de algumas pessoas, de alguns escritores e escritoras incríveis que me ajudam, apoiam, leem e compram nossos livros, que são muito generosos. Ao mesmo tempo é desgastante ter que responder algumas mensagens absurdas de madrugada, de pessoas que não confiam em nosso trabalho, que se estivessem em uma editora maior tratariam o editor de outra forma, mas eu, hoje em dia, ligo pouco para isso, para esses problemas. Em seis anos de trabalhos e mais de 500 títulos publicados, apenas três autores saíram com problemas da editora, brigados, alguns poucos outros tiveram problemas, mas que foram solucionados. Acho que a maior parte dos autores entende o que é e como funciona o trabalho de uma editora pequena e independente.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – A Patuá também oferece serviços editoriais para autores que optam por pagar por seus livros. Muito se discute sobre o papel do editor nesse tipo de situação; se o fato de o autor custear a tiragem não faria com que houvesse um olhar mais benevolente sobre os defeitos da obra. O que pensa sobre isso?

EDUARDO LACERDA – Do nosso catálogo de 500 títulos, posso afirmar que não chega a 10 o número de livros pagos pelos autores, talvez um pouco mais, mas provavelmente até menos. Todos os outros livros foram pagos por mim, por meio da venda de livros a leitores. E desses 10, apenas de um me arrependo, que posso admitir que publiquei por necessidade financeira e não por escolha minha e isso com consciência do autor. Um livro pago pela autora e do qual me orgulho é o nossa “Teresa – vida e morte de uma santa suicida”, da Micheliny Verunschk. O livro teve patrocínio da Petrobras, precisava de uma tiragem de 1500 exemplares e a autora tinha os recursos do prêmio para isso. O livro é excelente, de uma autora já reconhecida e que me enviou o original para leitura, original do qual gostei, era um livro que teria publicado gratuitamente (claro que com uma tiragem menor). Outros livros pagos pelos autores eu teria publicado gratuitamente, aliás, é o que faço quando pedem orçamento, leio e avalio, se aceito a publicação paga é somente se for por opção do autor. Dinheiro assim não me seduz, embora precise de dinheiro para manter o meu projeto. Pagar pela edição não é um problema, grandes e bons autores pagaram por suas edições. Ótimas editoras realizam esse trabalho com um critério e qualidade ainda maiores do que o meu. Não acho um mérito ou me vanglorio de não fazer muitos livros pagos, acho que é a minha opção de trabalho, que me traz alguns resultados positivos, como manter minha coerência editorial, que é até bem incoerente; e negativos, como deixar a editora quase sempre com problemas financeiros, não graves, mas também muitas vezes falta dinheiro para alguns projetos que gostaria de realizar.

 

DA – Seguindo nessa mesma linha de raciocínio, a proliferação das pequenas editoras proporcionou um aumento expressivo de novos autores no mercado. Muitos por meio dessa condição de pagar pela publicação de seus livros. Sendo assim, temos uma faixa etária cada vez mais baixa de escritores estreantes, muitos deles claramente despreparados para entregar uma obra de qualidade. Ao ter contato com alguns originais, você chega a conversar com esse tipo de autor, aconselha que espere um pouco, lapide a escrita, forme-se como leitor primeiro, antes de pensar em publicar o primeiro livro?

EDURADO LACERDA – Poucos escritores querem ouvir conselhos, muito menos os mais jovens. Com a facilidade de publicação, qualquer escritor encontrará uma forma de publicar seu livro de estreia (ou dezenas de livros por ano), seja por uma editora tradicional, seja por uma plataforma de autopublicação, seja pelo Wattpad, pela Amazon, por um blog, pelo Facebook. É uma opinião muito pessoal, muito, mas eu acredito que a literatura é um direito, é direito ler, é direito escrever. Se a facilidade gera banalização (e gera), também cria oportunidades de aumentarmos o número de escritores e de leitores, o que é ótimo. Não há como nos beneficiarmos de uma condição sem trazer junto vários de seus aspectos negativos. Agora, como filtrar esses aspectos negativos, isso é um ótimo desafio.

 

DA – O lançamento do primeiro livro, sobretudo quando o autor é jovem, é envolto por uma camada espessa de vislumbre sobre o que é o mercado e o meio literário. Muitas vezes, é difícil para um autor compreender que a carreira de um livro não depende do quanto ele ache que dará certo, que será um sucesso. Você lida com esse tipo de ingenuidade e, posteriormente, relatos de desapontamento? É papel do editor transmitir para o autor uma realidade que vai além daquela contida em seu livro?

EDUARDO LACERDA – Sim, lidamos com as decepções e frustrações de dezenas de escritores todos os dias. Não só com os autores mais jovens, mas também aqueles mais velhos, mais experientes. É comum receber ou publicar o livro de um autor mais velho, que já lançou livros nos anos 80 ou 90 e ver a decepção com as vendas, com a repercussão, diferentes da que tiveram há algumas décadas. Escuto muito desses autores “meu primeiro livro vendeu 300 exemplares na noite de lançamento, não vou vender menos do que isso”. Quando o livro não chega aos 50 exemplares vendidos, a decepção é enorme, alguns chegam a culpar a editora, que nunca trabalha de forma suficiente. Também os meios de divulgação são muito diferentes, alguns autores esperam ainda que o jornal irá noticiar o lançamento, mas sabemos que isso não ocorre mais. O lançamento de um livro, exceto para o autor e para a editora, não é mais um acontecimento social, que desperta interesse público (exceto em cidades menores, nessas cidades a dinâmica de um lançamento é muito interessante, os jornais locais noticiam, pessoas “importantes” da cidade muitas vezes comparecem). Podemos somar às decepções, além da recepção e das vendas, a inexistência de crítica literária (existem ainda alguns bons resenhistas, mas que não dão conta da leitura de milhares de lançamentos todos os anos) e os prêmios literários, poucos e que nem todos vão ganhar, mesmo com bons livros. Essa decepção ou frustração gera, em alguns autores e autoras, uma ansiedade, uma necessidade de lançar vários livros em um curto espaço de tempo, na expectativa de que o próximo livro alcance o sucesso que o anterior não encontrou. Assim um livro vai substituindo o outro sem que haja um tempo mínimo de trabalho. O editor deve explicar, mas também entender (muitos não entendem), que um livro é um trabalho a longo prazo. Um livro não pode morrer dentro do catálogo da editora e tem que continuar acontecendo, mesmo que os resultados venham bem devagar. É bem difícil, mas é possível.

 

DA – A Patuá trabalha com pequenas primeiras tiragens, entre 50 e 200 exemplares. Muitos desses livros acabam não alcançando leitores e, muito menos, os cadernos culturais e a chamada crítica especializada. Ter um livro publicado, assim, acaba sendo mais um capricho. Isso lhe angustia de alguma forma? E, diante de um cenário em que a literatura tem cada vez menos espaço nos jornais e nas revistas, como avalia a importância dos sites, blogues e demais plataformas digitais voltadas para a literatura?

EDUARDO LACERDA – Me angustia, mas não considero um capricho ter um livro publicado com uma baixa tiragem. A culpa não é do autor, da autora ou da editora, temos um problema gravíssimo de falta de leitores e descaso pela literatura. O escritor, a escritora, eles escrevem. A editora publica. Ambos trabalham para que o livro chegue ao leitor. Se o livro é bom, se o autor, se a autora, trabalham sua literatura e levam isso a sério, uma hora a literatura se sobrepõe ao que não é literatura. Mercado editorial não é literatura. O que eu faço, editar livros, não é literatura. Literatura é o que está escrito e que nós damos suporte, um bom suporte, que pode ajudar que a literatura chegue ao leitor, mas quem escreve é o escritor e lançar um livro para poucos leitores, embora seja triste, não é apenas um capricho. Os sites, blogs etc são muito importantes. Excelente literatura está sendo produzida e publicada diretamente nessas plataformas. Autores e autoras mais jovens, que ainda nem conhecemos, estão se formando, lendo, comentando, refletindo, a partir de literatura divulgada pela internet.

 

DA – Falando em digital, li uma entrevista sua, faz alguns anos, em que defendia apaixonadamente o livro físico. Ainda tem a mesma opinião sobre a relevância da obra em papel? Não há, num plano futuro, a intenção de lançar os livros da Patuá também em formato digital?

EDUARDO LACERDA – Eu ainda sou apaixonado pelo livro impresso, acho que nunca deixarei de ser, mas não sou contra ou avesso ao livro digital. Pelo contrário, acho incrível a possibilidade de termos milhões de livros acessíveis, o que pode ajudar a democratizar o acesso ao livro (pode, talvez ainda não esteja, porque formação de cultura e hábito de leitura não estão relacionados apenas com a disponibilidade de livros).  Futuramente também a Patuá terá livros digitais, mas ainda não é um plano. Editar um livro pode ir além da plataforma ou suporte escolhido para ele existir, se impresso ou se digital. Eu ainda me importo muito com a possibilidade do encontro que o livro impresso permite, a festa de lançamento, as leituras públicas (embora muitos poetas leiam hoje em dia em seus celulares), as trocas de livros, as feiras, o livro impresso permite ainda um encontro entre pessoas que eu gosto muito. É um romantismo meu, ao qual me permito. Talvez esse encontro exista no livro digital também, talvez um dia passe a existir para mim.

 

Eduardo Lacerda / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Ao contrário de muitos editores, que preferem trabalhar nos bastidores, você é um editor ativo, que participa de eventos e está sempre divulgando seus autores. A Patuscada, um misto de livraria e bar, é possivelmente a melhor representação desse tipo de atitude, cuja intenção maior é congregar autores e leitores. Essa é também uma maneira de ter uma contrapartida às livrarias, de projetar os livros que não estão nas vitrines dos shoppings literários? E já houve a intenção de levar os livros da Patuá para essas prateleiras?

EDUARDO LACERDA – Eu adoro livrarias, não detesto a forma como elas trabalham com as editoras, é simples. Acho que o Brasil tem pouquíssimas livrarias e que precisamos incentivar e criar milhares de outras, através de leis que promovam a isenção de alguns impostos para as pequenas livrarias (não para as grandes) e de outras ações. Aliás, eu costumo dizer que mesmo São Paulo não tem livrarias, temos algumas megastores e algumas boas livrarias em regiões ricas da cidade, como a Paulista, Jardins, Pinheiros, Vila Madalena etc e em alguns shoppings, essas mais para livros de alta vendagem, os chamados best-sellers. Não estou fazendo um julgamento de qualidade, apenas apontando como e o que trabalham. Será raro, nessas livrarias de shopping, encontrarmos livros até de autores conhecidos, reconhecidos e consagrados, como, por exemplo, Clarice Lispector ou Mário de Andrade. Poesia, talvez, aquela utilizada no vestibular do momento ou a lançada pelo último BBB poeta ou pelo Gregório Duvivier (novamente, não é um julgamento de valor, mesmo porque gosto de alguma poesia dele). Mas se pensarmos nas regiões de classe média, nas mais pobres ou nas periferias da cidade de São Paulo, não temos mesmo livrarias. Precisamos discutir o modelo como trabalham as livrarias. É impossível pensar que uma empresa (a livraria) pega produtos (o livro) em consignação, com frete de ida e volta por conta dos fornecedores (o editor), pede 50% de desconto no preço final do livro, depois de efetivar a venda ainda pede mais 120 dias para pagamento, se o livro for danificado o exemplar é devolvido da mesma forma, com prejuízo à editora. Até pouco tempo atrás esse sistema ainda garantia que nossos livros seriam expostos nas livrarias, mas atualmente a situação é ainda mais absurda, porque a maior parte das livrarias apenas cadastram os livros em seus sites e só nos pedem o exemplar se for vendido. Cuidar de um bar e livraria é uma experiência incrível, ainda assim com suas (minhas) frustrações. Vendemos pouquíssimos livros, muitos escritores aparecem por lá para beber, mas nunca levaram um livro. Enfim, não vou ganhar no grito, meu trabalho continua e, se fosse fácil, muita gente estaria fazendo.

 

DA – Dando uma olhada nas listas dos mais vendidos, fica evidente a hegemonia dos grandes selos, sobretudos aqueles que trazem, em seus catálogos, traduções de best-sellers internacionais. Como fazer uma editora independente ganhar expressividade nesse cenário em que a literatura contemporânea brasileira, sobretudo a composta majoritariamente por autores desconhecidos, está longe de representar a preferência dos leitores?

EDUARDO LACERDA – Como disse, a literatura, o que é literatura, não se mede pelo número de leitores; a literatura existe, resiste e será sempre assim. Nossa expressividade ocorre, acredito, ao fazer algo relevante não só para a literatura como um todo, mas algo relevante para nossas vidas, para as vidas dos escritores e leitores que compartilham de uma mesma época. Um leitor pode ser tão importante quanto milhares de leitores. Eu acredito nisso ou já teria abandonado a edição independente.

 

DA – O brasileiro é um leitor ruim?

EDUARDO LACERDA – Não podemos culpar o indivíduo pelo sistema. O Brasil, como país, tem um projeto político de não formação de leitores. É um projeto mesmo, político, social, cultural e econômico de um não interesse para formação de leitores. Começa com o descaso com a educação, mas somente a educação não garante que teremos leitores, passamos também por diversos períodos de proibição da circulação de livros e literatura. Nossa história é uma história de descaso com o livro, com a literatura e com o leitor.  E não podemos chamar de leitor ruim quem não lê e quem lê aquilo que consideramos literatura ruim. Sim, acho que existe uma boa literatura, mas, como já disse, acredito que a leitura e a literatura são direitos, direito de ler, direito de escrever, direito de publicar. Experiências em saraus de periferia, por exemplo, que dão a palavra para a pessoa comum, de todas as profissões e de todas as cores, de todas as classes sociais, como chamar essas pessoas de leitores ruins? São leitores, talvez alguns ainda em formação, mas leitores. Estão se apaixonando pela literatura, pela poesia, estão escrevendo. O que poderá explodir e acontecer a partir disso até mesmo de boa literatura em nossa visão tão limitada do que pode ser boa literatura? Por outro lado, temos – eu tenho, eu pelo menos quero ter – o dever de ajudar a mudar esse país, de pensar um país que ame sua literatura, que ame o livro, seja ele impresso ou digital, que ame seus escritores, que ame seus leitores, sejam eles bons ou ruins.

 

DA – Olhando para o Eduardo Lacerda que, em 2013, criou a Patuá, consegue enxergar uma certa inocência na maneira como ele enxergava o mercado literário? E, passado esse tempo, qual a melhor coisa que ser dono de uma editora lhe proporcionou?

EDUARDO LACERDA – O Nelson Rodrigues que disse que sem paixão não dá nem pra chupar um picolé, também não se faz muita coisa sem inocência, nem mesmo amar é possível sem inocência. O grande desafio é continuar um pouco inocente e apaixonado. Eu descobri um caminho seguro nesse mercado literário e editorial, recebo os livros, leio, consigo, de alguma maneira, escolher alguns bons títulos, envio para um grande artista fazer a concepção de capa e projeto gráfico, mando pra gráfica, faço o lançamento, envio para jornalistas e críticos, vendo um pouco, pago os custos, faço o próximo livro, eventualmente ganhamos algum prêmio. Certo, não é só isso, isso é um resumo, mas é um caminho seguro. Como ser inocente e apaixonado e pensar que, sabendo disso, de algo que já dá bons resultados, posso pensar em algo diferente, que me contradiga, que me oponha ao meu trabalho e me renove? A melhor coisa de ser dono de uma editora é fazer os amigos que eu faço. Escritores e escritoras, sim, mas também pessoas admiráveis. Não sei se meu trabalho pode mudar o mercado editorial ou literário, não sei se estamos fazendo alguma história. Mas eu sei que estou fazendo a história da minha vida e de alguns/algumas escritores e escritores. E fazer sua própria história, de forma apaixonada, já me parece bem importante.

 

DA – Vale a pena trabalhar com livro no Brasil?

EDUARDO LACERDA – Vale, vale muito! Acho que se tivesse seguido uma carreira de professor, que é a minha formação, se tivesse terminado a graduação, feito um mestrado, um doutorado, talvez eu tivesse uma estabilidade financeira um pouco maior. Mas nunca teria me divertido tanto, feito tantos amigos, lido tantos ótimos livros.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.