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109ª Leva - 03/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

esquissoshelenab
Arte: Helena Barbagelata

Anda nas bocas ultimamente a palavra democracia. E ficamos a refletir em que medida o exercício da liberdade de pensamento encontra real abrigo nesse estado de coisas. Nossas mazelas são históricas e remontam à origem da nação? Está tudo tão definitivamente entranhado em nossas práticas cotidianas a ponto de ser difícil extirpar os equívocos? Afinal, temos verdadeiramente um rosto? São indagações que permeiam o momento presente da nossa conturbada nação de proporções continentais. Embora um sistema democrático não esteja livre de falhas e imperfeições, ele ainda parece um caminho bastante razoável no que se refere ao perseguido equilíbrio entre direitos e deveres. Nesse ambiente, a não uniformidade das posições é um elemento que impulsiona o funcionamento das relações. O antagonismo de opiniões é necessário na medida em que nos auxilia na busca pela afirmação de uma identidade. Do mesmo modo, determinismos em nada parecem contribuir para a evolução de uma dada sociedade. Nada é absoluto, nem mesmo os tão consagrados direitos que se pretendem fundamentais. Do convívio com nossos pares é que se materializa a necessidade dos equilíbrios. É quando as diferenças afloram e só são realmente valiosas se aproveitadas num sadio debate de ideias. Eis o melhor combate: o das palavras. No território das ações culturais, pensar diferente também encerra sua devida contribuição. Vejamos, pois, quantas são as mais diversificadas acepções de conteúdos. Seja na literatura e nas artes em geral, criadores e receptores podem se entender mesmo quando adotem modos opostos de vivência das obras. E é justamente essa não conformidade que faz com que as experiências tidas, a partir das searas culturais, sejam tão importantes. No seu ideal de diversidade, nossa revista sempre procurou, dentro da percepção de critérios de qualidade, conceder espaço às mais distintas e variadas vozes. O resultado é notadamente significativo, tendo em vista que hoje agregamos um vivo coletivo de expressões. Tudo isso posto, os caminhos editoriais aqui continuam a perseguir a pluralidade. Assim sendo, vêm à baila as intervenções poéticas de José Carlos Brandão, Adriana Versiani, Yasmin Nigri, Rodrigo Melo e Patrícia Laura. Expondo um pouco de sua trajetória entre a prosa e a poesia, o escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues é nosso atual entrevistado. Renato Tardivo escreve sobre o novo livro de poemas de Valerio OliveiraLarissa Mendes traz até nós o resultado das escutas do mais recente disco de Clarice Falcão. Nas alamedas da prosa, estão os contos de Tom Correia, Priscila Merizzio e Herculano Neto. Para falar sobre a mais nova investida cinematográfica do diretor Quentin Tarantino, o filme “Os Oito Odiados”, Guilherme Preger divide conosco sua aprofundada análise. É o texto de Sérgio Tavares quem nos apresenta o romance de estreia de Caco Ishak. E em meio a tantas rotas por aqui agora apresentadas, a arte da portuguesa Helena Barbagelata harmoniza espaços feitos de realidade e imaginação. Por tudo isso, vale a pena lutar. O ambiente democrático que se deseja no prisma cultural é todo aquele universo no qual faça morada a multiplicidade de epifanias. Feita especialmente para você, caro (a) leitor (a), eis a 109ª Leva!

 

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109ª Leva - 03/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

 

Doses exageradas de estranheza

Por Sérgio Tavares

 

eucowboy

Um exercício de porra-louquice é o que rege o processo de construção de “Eu, Cowboy”, de Caco Ishak. Em seu livro de estreia, o escritor goiano empenha-se na radicalização da forma e do estilo, concebendo uma colagem frenética, um “brainstorming”, uma metralha narrativa que esfacela qualquer conceito instituído de gênero, ação temporal e estrutura temática.

De fato, uma classificação mais adequada ao resultado final seria “um romance de subversão desconstrutiva”. Para se ter uma ideia, somente na página vinte e cinco é que se começa a prestar esclarecimento de quem protagoniza a trama.

Este é Carlo Kaddish (ou assim parece ser). Um sujeito inescrupuloso, hedonista à terceira potência, com queda por (pré-)adolescentes, cujos dias se tencionam numa roleta-russa existencial. Ao seu redor, orbitam amigos também adeptos ao comportamento desbragado e, da mesma maneira, medíocres perante suas responsabilidades. São todos losers, conformados de que “cresceram ficando para trás”. “Continuo andando com os mesmos frustrados de sempre e só porque eu me sinto bem ao lados deles”, confessa Carlo, assumindo o fracasso na condição de um mal congênito.

A culpa estaria na “geração que perdeu o medo de envelhecer” e, assim, ficou suscetível a uma crise extemporânea de meia-idade. “(…) a graça disso tudo é que, mesmo podendo viver até os trezentos, a sensação geral é de que, passou dos trinta, já era”. Portanto, o que resta é se lançar numa incursão de excessos, sem compromissos, incitando “o prazer pelo prazer de carregar um vazio nas costas, já fora do peito, trancafiando nada”.

Os únicos poréns, no caso de Carlo, seriam o afeto pela filha mantida à distancia pela mãe e o gosto pelas artes plásticas. Ou talvez não, quem sabe? Por certo, mesmo a descrição acima tem grande chance de estar equivocada. Isso porque foi montada através de cacos de informações desbaratados por todo o livro. Alguns, inclusive, contraditórios, devido ao jogo verborrágico de encavalar trechos de momentos distintos, sem conexão entre si.

Ishak empreende esse efeito aleatório no desenvolvimento (ou esboroamento) da narrativa, coadunando maciços de texto, diálogos longos e curtos, e-mails, palavras em caixa alta, verbetes de dicionário e trechos de música em inglês. A voz, em primeira pessoa, por vezes rompe os limites internos e se dirige diretamente ao leitor, mostra consciência de que está numa obra de ficção. Passado e presente se intercalam de maneira incessante (quando não se sobrepõem), em saltos temporais que se localizam nos anos 90 e no começo dos anos 2000.

O entender corrosivo destas duas décadas, aliás, é o ponto alto do livro. Embora não deixe de desfilar, por meio de seu protagonista, reflexões carregadas de uma filosofia torta, o autor constrói sua ambientação por meio de referências que vão da cultura pop a fatos históricos. Informações sutis, sugestões, o que hoje é conhecido, na cartilha cinematográfica, como easter egg. De nomes de bandas a títulos de canções que evocam bandas, da MTV ao 11 de setembro, do grunge à uma ressaca permanente, um ressaibo de que tudo se podia, ainda que não se quisesse nada, há iscas para interpretações por todo o romance. É um recurso estimulante, mas que, por conta de outra decisão, vem a se tornar um problema.

Ishak ergue sua história com a pulsão de detalhes, contudo aferrada a um ritmo vertiginoso, uma prosa resfolegante que impede que a leitura se detenha a esses pormenores, tenha tempo para decifrá-los. Tudo vem num jorro, como que arrevessado, sem preocupação em estabelecer um fio condutor, tampouco uma lógica. Isso acaba forçando várias pausas que, por fim, só incrementam a sensação de desbarate.

Outro aspecto contraproducente é a opção pela autossabotagem, a autodepreciação das próprias escolhas, não deixando muito claro se a intenção é sobrepesar a acidez, constituir uma paródia ou destilar doses cavalares de crítica. O autor planta aqui e acolá palavras como “cópia”, “plágio”, brinca com os clichês narrativos, reconhece que escrever é “chupar” o que já foi feito, que escritor é “copiar e colar diferente”.

Em dado momento, quando Carlo sugere largar tudo e cair na estrada a la Kerouac e seu clássico “On the road”, ele mesmo aponta que é uma ideia nada original, ainda que seja, na verdade, uma pose de “tô cagando pro Kerouac”. Essas sacadas, ainda que divertidas, dependem de uma bagagem extraterritorial ao livro, que não está em todo leitor, e acabam soando como um tipo de piada interna, a piada que anula a própria piada.

Enfim, “Eu, Cowboy” é uma experiência mobilizada por sensações, vozerio e muita fúria que se assemelha a uma locomotiva em pleno movimento que, tal uma locomotiva em pleno movimento, não é fácil de embarcar.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

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108ª Leva - 02/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

A todo o tempo, flertamos com histórias possíveis. São relatos impregnados do algo real, dum processar de cenários atravessados. Quiçá nosso antigo hábito remonte à memória, esse casulo de ressonâncias vividas e também inventadas. Haveria uma linha a dividir realidade e invenção? Ou será que ambas vertentes não estariam mescladas naturalmente? De todo modo, é muito difícil criar algo de caráter ficcional sem trazer à baila referências que nos constituem em vida. Seria então impossível um deslocamento absoluto daquilo que somos se o intuito é criar outra dimensão a ser apresentada? Quanto mais aprofundamos a questão, as interrogações parecem se multiplicar. Mas é salutar não ter respostas para tudo, principalmente quando o tema é conceber aquilo que se materializa pelo lume do nosso olhar. Quem cria naturalmente estabelece filtros de acordo com suas vivências. Pressupõe-se algo inalienável. Do contrário, pareceria estranho estar fora de tudo e, desse modo, aceitar uma presença criativa de algo que está além de nós e que, ao menos nos domínios mais plausíveis, não nos pertence como referência direta e tangível. E não está aqui a se falar na capacidade de transcendência, recurso de muitos criadores, mas da assunção de energias meramente geradas ao acaso. Talvez a melhor resposta esteja na manutenção da dúvida. Daí, cada autor fica responsável por conduzir métodos que nos ofertem resultados a serem apreciados em forma e conteúdo. E assim vai girando a roda viva das produções em matéria de arte e literatura. Repercutindo identificações e sugestões, desfilamos agora através dos versos de Cazzo Fontoura, Carol de Bonis, Leandro Rodrigues, Israel Azevedo e Lelita Oliveira Benoit. Apresentando suas impressões sobre o romance de estreia de Maurício de Almeida, “A instrução da noite”, Rafael Gallo edifica algumas atentas linhas. Clarissa Macedo entrevista o poeta piauiense Nathan Sousa. Recortes de vida entremeiam as narrativas de autores como Cinthia Kriemler, Thiago Mourão e Natalia Borges Polesso. Descortinando paisagens urbanas, o fotógrafo Ricardo Laf expõe um variado painel de seu trabalho. Ainda a descoberta do novo disco do poeta, cantor e compositor Sylvio Fraga. Em mais uma sugestão de leitura, Sérgio Tavares aponta para “Julho é um bom mês pra morrer”, livro de Reinaldo Azevedo. Na sua cinéfila resenha, Bolívar Landi escreve sobre a delicada temática presente no filme “O Quarto de Jack”. E assim ergue-se uma nova edição da Diversos Afins, com outros caminhos a serem atravessados. Seja bem-vindo à 108ª Leva, caro leitor!

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Aperitivo da Palavra II

Voz assombrada por fantasmas

 Por Sérgio Tavares

Julho é um bom mês pra morrer

É possível definir o procedimento narrativo de “Julho é um bom mês pra morrer”, do paraibano Roberto Menezes, num trecho extraído de suas próprias páginas: “um trem desgovernado tentando governar um trem desgovernado”.

Pois, a despeito do argumento central coeso, a contextura tem a diluição de um curso torrencial, “uma enxurrada”, o descompasso de uma voz que, tentando agarrar-se à lucidez, empreende contato com um interlocutor, alguém que talvez não exista, um contato com a própria inexistência. Tal voz pertence à Laura, uma jornalista desempregada, de trinta e cinco anos, que administra um blog em meio à impossibilidade de administrar uma decisão judicial que a obriga a deixar seu apartamento, em razão de o prédio estar em vias de ser demolido.

O romance se desenrola nessas últimas horas de resistência, em que, contra a parede, ela decide escrever uma carta para a mãe que a abandonou ainda na infância, compondo um misto de desabafo, condenação e despedida. Por conta do tenso das circunstâncias, o relato acaba por incorporar a urgência e a ameaça do esboroamento, desmontando o tempo cronológico num tempo da memória, a sequência não-linear dos fatos rebobinados.

A protagonista, desse modo, persegue culpados e acaba por desencovar culpas. Evoca a presença afetiva da avó, do pai e dos irmãos, e descarrega a voltagem de derrotas e enganos na ausência materna, nos fracassos amorosos de idade e gêneros distintos.

O caso é que, no avançar da tessitura confessional, todos vão se revelando, com mais ou menos gravidade, culpados. Inclusive a própria protagonista, que carrega consigo o fantasma de uma perda insuperável. Laura é um oco, um apartamento vazio, uma voz assombrada por fantasmas.

Menezes se arrisca ao construir uma narrativa mobilizada pela tensão, em que os fatos se fragmentam e se reencaixam entre saltos de capítulos, porém há no autor um domínio técnico capaz de transformar a desordem numa leitura instigante.

No que pese o excesso de frases de efeito (“Deus é o vício das coisas”, “Milagre é a poesia do acaso”, “Esperar é o pior jeito de aguentar a dor”), a maioria é bem colocada e funciona na excursão frenética de Laura pela fronteira entre o devaneio e a realidade. De fato, sob esses blocos de escombros, o romance conserva um fino de poesia, um lirismo pego meio de soslaio antes de a palavra chocar-se contra o concreto.

“’Eu sou o vento, você é o moinho; eu sou o monho, você é o vento’. E começava a adormecer, e a voz foi indo indo, e eu só ouvia você dizendo, ‘Vou indo baby, vou indo baby, vou indo…’ O sonho virou um sonho branco. Dormi tranquila.

Não, não nascem asas quando se perde o chão. Nascem outros chãos”.

Menezes ainda demostra habilidade em usar da experiência dramática de sua protagonista para remontar os cenários socioeconômicos que tiveram impacto em determinados momentos de sua vida, numa analogia ao impacto que estes tiveram para o Brasil.

Da abertura política, na década de 80, que trouxe a reboque a hiperinflação, ao Governo Lula e o sobrepeso de crédito para o mercado imobiliário, a escalada dos anos são como estágios de uma longa queda, uma contagem regressiva rumo a julho, a um inferno que, como classifica a própria narradora, é “o reino das memórias”.

Ao leitor, cabe testemunhar a potência desse inferno, então.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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107ª Leva - 01/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

O ano de 2016 começa aqui na Diversos Afins com um repertório de possibilidades. A primeira delas é a de celebrar a continuidade dos caminhos, empreendendo esforços para que outros renovados encontros continuem a alimentar nosso trabalho. É também o ano em que completaremos dez anos de estrada. De fato, um marco temporal se assinala, mas o verdadeiro lado especial disso é constatar que alcançamos um patamar de trajetos através dos quais pudemos consolidar ainda mais o projeto. A revista tem servido como uma plataforma de potencialização de discursos, olhares e distintas formas de percepção da vida. E mesmo com as múltiplas individualidades mescladas num só caldeirão de expressões, o arranjo de textos e imagens consegue trilhar uma estrada harmônica e equilibrada. Somos um organismo vivo por natureza, tendo em vista as marcas humanas essenciais a tudo o que fazemos. Nesse início de ano, nada melhor do que elencarmos as vozes que agora chegam e que compõem uma nova investida editorial. Uma delas está diluída em toda a 107ª Leva. Trata-se de Deborah Dornellas, que com seus desenhos desperta por aqui reflexões em torno de sua valiosa capacidade de abstração. Em matéria de contos, há o atravessar de pungentes territórios por parte de autores do quilate de Kátia Borges, Claudio Parreira e Cristiano Silva Rato. Apresentando-nos uma recente experiência de leitura, Orlando Lopes compartilha suas sensações sobre o mais novo livro do poeta Jorge Elias Neto. Percorrendo um instigante caminho de indagações, Sérgio Tavares entrevista o escritor Julián Fuks. As vias da poesia são contempladas com versos de Alex Simões, Fernando Naporano, Ellen Maria Vasconcellos, Marcus Vinícius Rodrigues e Tanussi Cardoso. As linhas de Marcos Pasche estão voltadas para a obra poética de Alexei Bueno. No caderno de cinema, Guilherme Preger escreve sobre as sensíveis abordagens do filme brasileiro “Boi Neon”. Há também espaço para considerações acerca do disco de estreia do cantor e compositor Liniker. Tudo isso posto, caros leitores, sejam bem-vindos ao nosso novo painel de expressões!

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

O escritor visita o museu da memória. Transita, a princípio, por um corredor de paredes nuas e escuras. Segue um mapa involuntário, aquele que condiciona um caminho, ainda que não exista seta ou placa referencial. Vai a passos firmes, até que se depara com a entrada de uma sala. O escritor estaciona na soleira e vasculha o interior aparentemente vazio, tomado pela mesma textura de desclaridade que cobre os limites exteriores. Reluta, mas decide entrar. Palmeia no ar a distância à frente, imitando um cego, um perdido.

De repente, um facho de luz perfura o breu e projeta, no concreto liso, uma imagem que dá partida a uma sucessão de velhas fotos, retratos em branco e preto. Cenas de outros tempos que irradiam uma familiaridade, um pertencimento latente, sobretudo porque o escritor em estágios preliminares da vida figura em inúmeras delas. Superado o espanto, o escritor se aproveita dos intervalos do flash para divisar uma saída. Junto à porta, há uma caixa de madeira, semelhante a uma caixa de sugestões, com um bilhete ao lado que demanda que o escritor reconte aquela história, a sua história, e a deposite no receptáculo. Ele pondera, mas percebe que qualquer tentativa irá resultar em fracasso, pois as imagens não dispõem de uma integridade sequencial, de uma cola entre si. O escritor irá fracassar, pois toda incursão pela memória é falha.

O escritor Julián Fuks escreve o fracasso, a impossibilidade de recontar a memória. Seu romance recente, “A resistência”, intenta examinar o próprio enredo familiar, a partir da reconciliação com a infância, com o fato de ter um irmão adotivo. Filho de intelectuais argentinos, que nos anos 80 se exilaram no Brasil por conta da perseguição política do regime militar, o autor paulista cria uma duplicidade ao se colocar como agente de duas épocas, narrando e, ao mesmo tempo, participando de um drama que é um eco da história devassada de um país, dos atos de combate à repressão e dos choros incontidos dos que procuram incansavelmente seus desaparecidos.

Esses deslocamentos entre o passado e o presente encontram sintonia na subjetividade, no esforço de resgatar, no movediço da consciência, um rastro de sentimentos que possa atestar que se avance pelo terreno da verdade e não pelo da invenção, que a verdade, ao menos, prevaleça na maior parte. Não é tarefa das mais simples, todavia, pois a memória é também um segredo guardado no mais fundo, uma sala escura que, iluminada espasmodicamente, dará conta de que observar este irmão é também observar a si mesmo, é desvendar os motivos que levaram um jovem, ao se saber adotado, decidir se subverter à lógica da família que o criou, como aqueles que o criaram se subverteram anteriormente à lógica do regime ditatorial.

Da conversão da matéria autobiográfica para matéria literária, Fuks constrói um relato labiríntico, consubstanciado por um rigor com a linguagem, a descoberta de uma prosa potente e delicada, que impacta e comove ao arrastar o leitor para essa busca, esse acerto de conta com uma dúvida, proporcionando um encontro com a literatura superior que captura um espírito do tempo, que compõe uma obra-prima da nossa geração.

Em entrevista exclusiva, Fuks fala sobre o ponto de partida e a construção do romance, a relação entre ficção e realidade, e o processo de lapidação da linguagem, que classifica como “quase obsessivo”. Além disso, o escritor comenta o abismo entre a produção brasileira e a de outros países latino-americanos, o depauperamento da crítica literária, a extinção dos cadernos culturais e o desafio de ser escritor no Brasil. “A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido”, observa.

Foto: Fernanda Sucupira
Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – Seu novo romance tem endereço num território muito frequentado atualmente pelos escritores brasileiros, que é o da autoficção. Porém, como o mesmo denuncia a certa altura, toda memória está suscetível à falha. Sendo assim, o quanto de liberdade inventiva coube na realidade trazida para “A resistência”? Revisar o passado é converter inescapavelmente o relato memorialista em ficção?

JULIÁN FUKS – De fato, enquanto escrevia o livro me via nessa estranha situação que têm vivido muitos dos escritores contemporâneos, me via apegado à realidade, incapaz de tomar distância, infenso à invenção. Há quem encare o fenômeno como uma opção oportunista, mercadológica, uma estratégia escusa dos escritores para atrair o interesse do leitor. Para mim está cada vez mais claro que é uma questão de sensibilidade, uma sensibilidade do tempo, uma certa predisposição a buscar o que há de relevante e verdadeiro nas circunstâncias reais. Em certa medida é um retorno do romance às suas origens, uma busca mais literal da vida comum, da cotidianidade – sem que seja permitido, porém, um retorno àquela crença na representação, àquela ingenuidade.

E está cada vez mais claro, também, que a busca pelo real não exclui em nada a ficção, que a ficção se dá muito mais na seleção dos fatos e em suas interpretações, na construção arbitrária das frases, no transporte sempre falho da memória ao papel. Não vou ser o primeiro a dizer que realidade e ficção não são polos opostos. “Falso”, “inventado”, “falacioso”, esses podem ser antônimos de “real”. Ficcional e real não são antônimos, travam uma relação muito mais íntima do que essa que se quer alegar.

DA – Falando em relação mais íntima, você relata que o livro é sobre seu irmão, mas também sobre seus pais. Inclusive que, durante o processo de composição, seu pai considerou lhe encaminhar um documento que trazia o nome dele relacionado à Operação Condor. O que acaba parecendo que a decisão de escrever o livro, de alguma forma, foi coletiva. Você tinha em mãos o poder de revelar uma história não sua, que, durante anos, por razões de segurança, foi mantida sob sombras. Até que ponto você se permitiu tatear nesse universo impessoal? Quais cuidados tomou no escavar desse terreno denso e movediço da memória alheia?

JULIÁN FUKS – Bom, o livro nasceu a partir de um pedido do meu irmão, se valeu de uma série de relatos íntimos que a memória não apagou, se desenvolveu em inúmeras conversas com meus pais e minha irmã, conversas que eu fui incorporando à narrativa. Nesse sentido, já de partida, se trata sem dúvida de uma construção coletiva; uns quantos discursos confluem ali para contar a história dessa família. Mas é uma construção coletiva também por um motivo mais amplo. Tratando dos temas que trato no livro, a repressão da ditadura, a militância, o exílio, é impossível não passar por uma infinidade de testemunhos há muito escritos, de relatos reais ou ficcionais sobre esse passado sombrio do nosso continente. Ao escrever essa história, por vezes sentia que entrava num espaço densamente habitado, me somava a algo que é quase uma tradição na literatura argentina, algo que poderia ter se tornado tradição na literatura brasileira se soubéssemos trabalhar melhor nossa memória política. Percorrendo um espaço já tão percorrido, acho que o cuidado maior estava em alcançar uma pertinência, em encontrar a sensibilidade necessária para abordar esses temas delicados e ao mesmo tempo narrar a história com força e contundência.

DA – Você acabou adiantando uma discussão que deixaria mais para frente, porém não posso perder o momento oportuno. Sempre me incomodou o fato de não lidarmos com a memória política, como bem fazem nossos vizinhos continentais. Sobretudo na literatura de ficção. Temos estupendos registros paginados sobre o período ditatorial; biografias, coletâneas de ensaios, trabalhos de pesquisa e jornalísticos. Entretanto a ficção, para usar um trecho extraído do seu livro, mostra-se refém “de um pudor antigo adiando cada frase”. A que motivo você atribui esse desinteresse? Por que os autores que nasceram ou foram crianças nos anos de chumbo dificilmente conseguem olhar sobre os ombros e encontrar bons personagens, boas histórias?

JULIÁN FUKS – Acho que a dificuldade não se reduz à literatura, não sei se compartilho dessa premissa. Em inúmeros âmbitos o Brasil tem resistido a encarar de frente a dureza de sua história, a compreender o jogo de forças que levou ao descalabro, a reconhecer as vítimas sem de novo culpabilizá-las, a atribuir devidamente as responsabilidades. Há de fato um pudor antigo adiando cada frase, e o pudor nesse caso tem um nome preciso: é o pudor da anistia. A anistia “ampla, geral e irrestrita” tinha seu sentido na época, permitiu que muitos voltassem do exílio, mas acabou definindo no país uma cultura de esquecimento, de ignorância, de impunidade, de incapacidade de lidar com esses traumas antigos. A historiografia faz o que pode, o cinema faz o que pode, a literatura faz o que pode, mas nenhuma dessas atividades consegue preencher esse vácuo de justiça. Há um movimento recente de lidar com essa história, a Comissão da Verdade foi um produto importante desse movimento, mas é claro que não é suficiente – a anistia não foi revogada, afinal, e isso tem um peso simbólico terrível. Na literatura também há uma nova atenção a esses temas, que se dá também pelo embaralhamento entre realidade e ficção: Bernardo Kucinksi, por exemplo, tem feito um trabalho forte e importante que vai nessa direção.

DA – Fato. Escrevi, há algum tempo, que “K.” foi uma das experiências mais potentes que a literatura me proporcionou. E os contos de “Você vai voltar pra mim” não ficam para trás. Agora jogando luz ainda sobre um trecho da sua resposta anterior, é muito evidente, diria até palpável, o trabalho de busca por uma sensibilidade que proporcione uma leitura de força e de contundência. Na verdade, essa é uma técnica pulsante em seu livro anterior, “Procura do romance”, aplicada também em “A resistência”. Você diria que a sua literatura tem uma preocupação maior com a forma que com o conteúdo? Há um exercício incansável de lapidar as frases?

JULIÁN FUKS – A oposição entre forma e conteúdo é mais uma falácia que nosso tempo, afortunadamente, tem conseguido derrubar. Não sinto que o enredo tenha uma função menor nos meus livros, e neste em particular há uma história forte que eu me obrigo a atravessar, uma história que, ao menos para mim, está carregada de intensidade. O caso é que, muito mais do que as cenas aventurescas e grandiloquentes, me agradam os momentos íntimos, a delicadeza das imagens corriqueiras, o que há de expressivo na aparente banalidade, e assim o enredo parece se desmanchar, ou se dispersar na multiplicidade de cenas menores. Mas, sim, para chegar ao cerne da sua pergunta, por vezes me sinto tomado por um cuidado quase obsessivo em encontrar a palavra exata – como se existisse essa única palavra que completasse a frase exata, o parágrafo exato. Tenho me preocupado cada vez mais com elementos de ritmo e sonoridade, com certa musicalidade do texto, e é inevitável que esse exercício transforme a própria história – ou então que a própria história se transforme, até certo ponto, na história desse exercício.

Fotos do autor Julián Fuks, Companhia das Letras, São Paulo, Agosto de 2015
Julián Fuks / Foto: Renato Parada

DA – Curioso você falar em musicalidade, pois há passagens – e destaco aqui a presença/ausência da Marta Brea -, em que a intimidade do relato ressoa feito um réquiem. É assombrosamente lindo. Mas voltando à construção do livro, você resgata constantemente recortes históricos que se aliam e, às vezes, se sobrepõem ao relato memorialista. O mais recorrente, talvez, seja a menção ao grupo Avós da Praça de Maio, cuja determinação na procura pelos bebês sequestrados e desaparecidos durante a ditadura argentina foi contada no documentário “500”, de Alexandre Valenti. Houve um trabalho de pesquisa para recriar essa época na qual se passa a história? Chegou a recorrer a livros, reportagens ou filmes?

JULIÁN FUKS – Acho que esse assunto sempre esteve no meu campo de interesses, por razões afetivas ou biográficas, sempre ouvi com muita atenção tudo o que se dizia sobre aquele país, aquela cidade, aquele tempo, talvez por sentir que minha identidade passava necessariamente por lá. Mas é claro que, quando decidi escrever sobre esse passado, procurei fazer uma imersão mais sistemática no tema da ditadura militar, da tortura e dos desaparecimentos, dos traumas históricos que reverberam inevitavelmente de uma geração a outra. Li muitos dos jovens autores que hoje têm escrito sobre o que viveram seus pais, no que vem sendo chamado, talvez de forma inadequada, de pós-memória: Alejandro Zambra, Andrés Neuman, Laura Alcoba, Patricio Pron. Em todos eles se vê – e talvez em meu livro também seja assim – uma tentativa de reconstrução da história que não se dá através da reconstituição precisa, de uma austera e jornalística averiguação factual, mas sim de uma investigação muito mais íntima, uma exploração do microcosmo da família, de seus relatos inauditos, um périplo pelos caminhos tortuosos da memória, alheia ou própria.

DA – É bacana como suas respostas vão antecipando questões que eu tinha reservado para o nosso papo. Ao mencionar a tendência da pós-memória, você acaba me sugerindo a ideia de que toda tradução de um livro é, de certa forma, uma pós-publicação. No caso do Brasil, essa condição é muito adequada, dado o longo tempo que muitos autores estrangeiros levam para despertar o interesse de nossas editoras, vide os exemplos recentes de Copi e Juan Emar. Por outro lado, vem ocorrendo um interesse espontâneo por jovens autores de língua hispano-americana. Você citou alguns, mas, para ficarmos com os argentinos, elenco Samanta Schweblin, Selva Almada, Diego Vecchio e o próprio Andrés Neuman. No entanto, o movimento contrário não é tão venturoso. Ainda há, digamos, um desinteresse pela nova literatura brasileira nos países sul-americanos. Com a vivência que traz da Argentina, por que imagina que isso aconteça?

JULIÁN FUKS – Sempre houve um abismo entre a nossa produção literária e a de outros países latino-americanos, não tanto pela diferença de idioma, mas pelo que ela simboliza: a noção de que temos aqui um mundo à parte, um “país continental”, diverso, indevassável, incompreensível, descolado de toda a realidade circundante. E, no entanto, basta observar os processos históricos dessas nações vizinhas, atentar para as estranhas sincronias que se criam tanto em cultura como em política, para perceber quanto esse abismo é ilusório, quanto ganharíamos se o transpuséssemos de vez, urgentemente. Algo desse movimento temos feito, uma parte importante da literatura latino-americana é bem conhecida aqui. O movimento correspondente é que apenas se inicia: a Argentina, por exemplo, ainda tem que conhecer melhor inclusive os nossos clássicos, Machado, Guimarães, Clarice, Graciliano.

Quanto à literatura contemporânea, a literatura deste novo século, talvez haja uma razão a mais para essa dificuldade de reconhecimento no exterior. Percebo uma dificuldade grande também em nós mesmos de reconhecer o valor dos nossos próprios autores, de mensurar obras importantes, estimar trajetórias consistentes, construir, enfim, um novo cânone. Penso que hoje a crise está muito mais na crítica do que na produção literária: a crítica que se submete às veleidades do mercado, que só dá atenção aos lançamentos novíssimos, que a cada ano substitui seus objetos cativos por aqueles que reluzem mais forte nas estantes.

DA – Parte da sua resposta me deu uma deixa para um assunto que gerou um tanto de polêmica na época, porém não posso perder a chance. Dentro desse contexto de reconhecer o valor dos novos autores, tivemos a eleição da revista Granta dos melhores jovens escritores brasileiros como um marco, na falta de um termo melhor. Foram vinte autores, dentre os quais você. Como recebeu essa escolha e encarou as controvérsias? E, mais importante, qual o peso que isso teve para a sua carreira literária?

JULIÁN FUKS – Foram debates intensos os que se produziram na época, e hoje suspeito que o valor maior daquela edição da Granta foi ter suscitado essa polêmica: ao menos assim a literatura jovem brasileira se pôs em questão, se fez objeto de um debate vivo. Ainda que as críticas tenham sido, por vezes, irascíveis demais, diante de algo que não era tão relevante assim, não deixaram de ter sua justiça. Foi um momento importante para denunciar a manutenção de alguns privilégios, a atenção excessiva aos homens, aos brancos, aos héteros, aos habitantes dos grandes centros urbanos, quase todos representantes de uma mesma literatura que se quer séria e cosmopolita. Sim, eu participo desse grupo, mas não é com cinismo que o digo: já passa da hora de abrir os olhos para outras literaturas, de compreender a riqueza que há na diversidade, na multiplicidade, nos projetos que fogem a essa hegemonia. Quando falo da necessidade de construir um cânone contemporâneo, é claro que não é com a repetição dos erros do passado, com a reprodução desse olhar míope e distorcido.

Quanto ao peso que a Granta pôde ter na minha carreira, é algo muito difícil de mensurar. A carreira de um escritor no Brasil costuma ser feita de acontecimentos pequenos, discretos, que lentamente vão demarcando uma mudança, vão produzindo as condições para que ele continue escrevendo e de fato seja lido. Acho que a Granta não se diferenciou muito disso, foi mais um desses acontecimentos.

DA – Justamente essa diversidade não seria um dos motivos – ou o mais latente deles – para que seja hoje tão difícil concentrar essa gama de novas vozes? E trago a lume aqui um debate mais profundo, que inclui a democratização da literatura, com o advento dos blogs e demais plataformas, com o surgimento e a consolidação das pequenas e médias editoras. A questão não seria a facilidade de se publicar também? Temos atualmente tantos autores, produzindo tipos tão distintos de literatura, que me parece um momento de transição o que vivemos agora. Que estamos em meio a uma enxurrada que, apenas após alguns anos, talvez décadas, poderemos discernir o que era apenas fluxo e o que era matéria. Isso, para dizer a verdade, me preocupa sobremaneira em alguns aspectos. O primeiro é não termos leitores para tantos autores, que a literatura se resuma a um círculo fechado de leitura onde autores leiam autores. No entanto, penso que o mais nocivo é começarmos a nivelar a qualidade por baixo, termos um excessivo número de novos títulos, escritos por autores ainda não prontos, que torne a análise difusa e se comece a acreditar que a literatura brasileira está mudando quando, de fato, está piorando. O que pensa sobre esse disparo de novos autores, de autores muito jovens? As editoras independentes, as de pequeno, médio e grande portes não deveriam ter a responsabilidade de selecionar melhor as suas publicações?

JULIÁN FUKS – Seu diagnóstico me parece preciso, sim, mas eu não consigo conceber como negativa a profusão de autores e publicações que vemos hoje. Penso que há algo de muito produtivo nessa vivacidade, nessa democratização do acesso à escrita, nessa multiplicação de editoras, penso que uma literatura consistente se produz a partir dessa riqueza. Nenhum autor surge pronto, a criação literária tem sempre um desenvolvimento lento, e a publicação é parte fundamental desse processo. Quanto mais publicamos no país, creio, maior tende a ser a maturidade da nossa escrita, ainda que essa qualidade só se revele plenamente em poucos autores. Insisto que o problema parece se situar na crítica, cada vez mais escassa, cada vez mais ínfima. É evidente o depauperamento dos nossos cadernos culturais, a cada ano mais exíguos e superficiais – com exceções importantes, é claro. Nesse contexto, talvez coubesse à crítica acadêmica uma aproximação a estas novas produções, e isso tem sido feito com tremenda qualidade por alguns críticos, mas o movimento como um todo ainda se mostra insuficiente.

DA – O caso do depauperamento dos cadernos culturais é um sintoma da crise implantada nos jornais impressos, que minguam seus formatos, reduzem equipes e extinguem seções inteiras. A morte dos suplementos literários é algo nocivo, triste e grave, porém enxergado, por alguns, como um deslocamento irreversível da mídia de papel para a virtual. Lembro-me que, na mesma semana em que um dos principais jornais do Brasil decretou o fim do seu caderno de literatura, uma revista trouxe na capa a celebração dos chamados booktubers, jovens que gravam vídeos discorrendo sobre seus gostos literários e atraindo milhares, milhões de visualizações. Independente de isso ser bom ou ruim, não lhe parece que, hoje, é dado mais valor ao alcance de uma crítica (e incluo as palmas dos editores, dos autores e dos leitores) que à qualidade do texto?

JULIÁN FUKS – É verdade, esse campo do virtual é todo um mundo à parte ainda difícil de estimar. À primeira vista parece de fato muito mais condicionado pelos gostos pessoais, mais distante de uma avaliação fundada num conhecimento da teoria e da história da literatura, algo essencial à crítica desde tempos imemoriais. Mas confesso que sou ignorante demais nesse aspecto para poder aportar um juízo embasado. O que sim posso notar, em todo caso, é que essa crise da crítica é tão aguda que se impõe até no âmago das discussões literárias. Aqui poderíamos estar discutindo os problemas intrínsecos à construção de uma obra, as decisões difíceis que todo autor tem que tomar diante de sua matéria sempre indevassável, os infinitos desafios inerentes à dura lida com as palavras. Em vez disso nos vemos a discutir, tristemente, as vicissitudes do mercado editorial, suas imposições sobre obras que se queiram autorais, seus obstáculos a um exercício mais livre da escrita literária.

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Julián Fuks / Foto: Fernanda Sucupira

DA – O que a literatura argentina – e incluo aqui desde o mercado à produção criativa – pode servir de exemplo para os novos autores brasileiros?

JULIÁN FUKS – O que se costuma chamar de literatura argentina, ainda que caracterize apenas uma parte de tudo o que se produz por lá, é uma ficção feita de jogos cerebrais, ficção engenhosa, autorreflexiva, que se volta sobre si mesma para revelar com inteligência sua maquinaria. É isso, ao menos, o que geralmente se aprecia em Borges, Cortázar, Saer, Piglia. É claro que temos algo disso aqui, mas penso que a literatura brasileira ainda poderia se enriquecer muito com esse exercício, com narrativas que não se limitam à condição de narrativas, que se deixam invadir pela retórica, pela metafísica, pelo ensaio, por formas mais livres. É só uma sugestão, claro, ou um gosto pessoal. Sinto falta em nossa literatura de uma maior liberdade formal, e sinto falta também de um pensamento sobre a própria literatura que não se resuma à crítica usual, crítica jornalística ou acadêmica. Pessoalmente, como leitor, adoraria que os escritores brasileiros se dedicassem também ao ensaísmo, se entregassem mais plenamente ao pensamento sobre o mundo ou sobre a escrita.

DA – Há algo que a literatura brasileira pode oferecer aos novos escritores argentinos?

JULIÁN FUKS – A literatura brasileira, em seus autores principais que já tomamos por clássicos, parece ter um pendor pelo social, uma capacidade de apreender pela ficção algumas das mazelas do país, sua pobreza, sua desigualdade, suas tão evidentes injustiças. Nesse aspecto temos uma tradição consistente e muito consolidada, tanto na ficção quanto numa forte crítica sociológica, aquela que tão bem desenvolveram Antonio Candido, Roberto Schwarz e outros tantos. Arrisco dizer que a literatura argentina, mais marcada por uma postura elitista, poderia se beneficiar muito com esse olhar que se volta para o outro, com essa tentativa de incorporar à narrativa o que nossas sociedades têm de mais abjeto, de mais chocante, de mais nocivo. Podem soar contraditórias estas minhas respostas cruzadas, mas penso que haveria muita potência numa literatura que conciliasse o rigor formal argentino com a relevância social brasileira.

DA – O personagem Sebastián está no seu romance anterior e reaparece em “A resistência”. Quem é Sebastián? Um alter ego, uma encarnação de sentimentos? O quanto de Julián há em Sebastián?

JULIÁN FUKS – Não é disparatado dizer que se trata de um alter ego, o protagonista autoficcional por excelência ainda que não carregue meu nome, mas essas classificações não me parecem muito necessárias. Sebastián foi o personagem que construí minuciosamente, rigorosamente, em “Procura do romance”; ali Sebastián era figura incontornável, onipresente. Quando me pus a escrever “A resistência”, por um longo tempo não me dei conta de que o narrador era ele, pensava um narrador sem nome como todos os outros personagens importantes – ou pensava, por um longo tempo, confesso, que o narrador era eu. Foi só no final do livro que me dei conta da evidência, percebi que aquela voz não podia ser a minha, que escrever distorcia o que eu tinha a dizer, como sempre distorce tudo. Vi que aquele só podia ser um livro que Sebastián encontraria mais tarde, o romance com que se depararia quando já não estivesse tão obcecado com sua procura. Ou brinco, claro, ao falar dessas coisas todas.

DA – Você afirmou que o livro é uma resposta a um pedido do seu irmão, contudo, de maneira prática, qual o futuro que intenciona para ele? Há, em seu farol literário, procura por prêmios, reconhecimento, autoafirmação? A partir de “A resistência”, quais são os seus planos e projetos?

JULIÁN FUKS – Difícil projetar um “futuro prático” para um livro. O livro existe, está lá, é tudo o que eu pude fazer, é tudo o que eu posso fazer com ele. Foi resposta a um pedido do meu irmão, mas foi também uma resposta ainda mais íntima: contar essa história foi algo que exigi de mim, por vezes contra um ímpeto mais imediato, contra uma vontade tangível, contra uma resistência. Costumo sair da escrita de um livro um tanto exaurido, e por um bom tempo me mantenho alheio a outros projetos, deixando que cresçam em mim sub-repticiamente, sem me obrigar a escrever antes da hora. Enquanto isso, vou curtindo as boas conversas que a publicação suscita, vou absorvendo os comentários dos leitores, vou ganhando mais clareza sobre o que eu mesmo fiz, sobre o que ainda tenho a fazer, a dizer. Vagarosamente hão de nascer os novos projetos, ainda incipientes demais para que eu saiba falar sobre eles.

DA – Escrever, no Brasil, é um ato de resistência?

JULIÁN FUKS – Escrever pode ser resistir, pode ser capitular. No Brasil ou onde quer que seja, a mim interessam os escritores que fazem desse ato tão simples, tão corriqueiro, um ato de resistência contra a insignificância da vida, contra a pequenez da existência.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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106ª Leva - 09/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

Mais uma etapa de encontros consolida-se na Diversos Afins. Nossa missão editorial ganha corpo na medida em que conseguimos expandir as fronteiras do diálogo. Atrair pessoas e fazê-las expressarem as suas epifanias pessoais é algo relevante. Cada colaborador que se une ao nosso projeto ajuda a compor um vasto e incessante mosaico de sensações. Nada é linear. Se somos seres distintos, carregando uma determinada marca de individualidade, é porque no somatório das ações não damos crédito à conformidade das coisas. A concordância plena não passa de um devaneio sem forças para seguir adiante. É na multiplicidade do pensamento que tudo ganha mais vigoroso sentido. Quão fabulosa é a literatura na medida em que consegue fazer desfilar tantas mentes de características diferentes. Ao fim, o que cada autor vem apresentar aqui na revista é a sua capacidade única de vislumbrar a existência.  Por vezes, quantos de nós não explicitamos o desejo de construir uma obra semelhante a de alguém? No entanto, essa vontade, movida por um sentimento de identificação, mais uma vez reafirma o poder da diferenciação entre as pessoas. Definitivamente, nenhum criador é igual ao outro. Daí, a grandeza da arte sob os seus mais variados aspectos. Hoje, com a participação valiosa de escritores e artistas, completamos 106 investidas à frente da revista. Importa saber que há o eco singular da voz de poetas do quilate de Rita Medusa, Airton Souza, Roberta Tostes Daniel, Ana Peluso e André Rosa. Vale a pena contemplar as sutilezas humanas expostas no trabalho da fotógrafa Sinisia Coni. É recompensador ouvirmos o que tem a dizer o nosso entrevistado de então, o experiente músico Sabará, baterista, professor e verdadeiro símbolo da cultura baiana há mais de meio século. No quesito prosa, Vanessa Maranha, Caio Russo, Aden Leonardo e Geraldo Lima vêm fazer do mundo um observatório de ideias e outros tantos contextos. É Guilherme Preger quem nos chama atenção para a elaboração do filme “Táxi Teerã”, nova produção do diretor iraniano Jafar Panahi. Larissa Mendes destaca a marca das sonoridades de “Júpiter”, mais recente disco do cantor e compositor SILVA. “O beijo na parede”, romance de Jeferson Tenório, é cuidadosamente sondado pelo olhar apurado de Sérgio Tavares. No âmago de cada imagem ou palavra que compõe a nossa mais nova Leva, a vida assume contornos próprios. A vocês, caros leitores, ofertamos mais um experimentar de sensações. Boas leituras!

Os Leveiros

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Quando Deus não está olhando

 Por Sérgio Tavares

 

bjonaparede

 

 

Penso que é papel do resenhista analisar um livro onde nem mesmo há literatura. Assim, chama atenção o fato de que, dois anos depois de lançado, “O beijo na parede”, do carioca, radicado em Porto Alegre, Jeferson Tenório, já se achar em sua terceira edição. A despeito da influência (negativa ou positiva) que tal informação carrega, a explicação está exatamente onde há literatura. Tenório resgata, em sua estreia no texto longo, um gênero soterrado nos anos 80: o romance social. Em meio à ditadura do eu, dos enredos autocentrados, autoficcionais, sua trama rebate no outro, no expediente dos desvalidos, daqueles que existem abaixo da linha de visão da soberba. Enquanto a grande maioria dos novos autores brasileiros interioriza seus passos, Tenório caminha mundo afora, pelas vielas do desamparo.

O comando da narrativa cabe a João, um menino de 11 anos “meio precoce”, que, embora puxe uma fieira de desgraças e de mortes, aprendeu que “chorar não resolve muita coisa”, pois, “de uma forma ou de outra, temos sempre que carregar alguma dor”. Depois de perder a mãe de maneira fulminante devido a um câncer desconhecido, tem de viver pelos caminhos tortuosos do pai alcoólatra, pela rotina suja dos bares, na qual a negligência e o desafeto impõem a ferocidade do dia que engole o próximo com fome e sem cerimônia.

Do Rio de Janeiro, então muda-se para Porto Alegre, morando de favor na casa de parentes. A rescindência da embriaguez do pai, no entanto, irrompe conflitos e não tarda a serem expulsos, migrando para um quarto alugado, um “muquifo terrível”, em seguida para uma casa velha. Ali é que, depois de voltar da escola, descobre o pai enforcado e que, a partir daquele instante, não teria “mais tempo para ter infância”.

Passa a contar com a própria sorte, driblando os apuros do abandono com pequenos atos de resistência, até parar num abrigo para crianças. Dessa parte em diante, Tenório filia seu personagem-narrador a uma realidade crua e desesperançosa, antes explorada, na literatura brasileira, pelos olhos de Pixote, de José Louzeiro; Querô, de Plínio Marcos; e Pedro Bala, de Jorge Amado, em “Capitães da areia”.

Diante da orfandade, João vai recompondo sua família com despojos sociais; criaturas solitárias, marginalizadas, cuja vida “é feita para passar sem perceber que já se está vivendo”. Vai morar num cortiço, onde é “adotado” pela prostituta Estela. Lá começa a interagir com o travesti Verônica, a senil dona Dinorah e seu Ramiro, com o qual mais se apega. Do tempo em que seus pais ainda eram vivos, protege o fantasma do amor da mãe e um exemplar de ‘Dom Quixote’, que servia de calço para uma mesa. Nessa saga em busca “do responsável pela fraqueza dos homens”, na qual a percepção por vezes ingênua de mundo ainda conserva um risco de esperança, o velho Ramiro faz o papel de um tipo amargurado de Sancho Pança. ”Deus não gosta dos fracos, João”, sentencia.

De fato, Tenório deixa muito implícito sob essa camada epidérmica, mais dura e fria tal o concreto da parede que beija o narrador, pois “não tem ninguém para amar”. Por detrás desta voz convincentemente infantil, há ferrões pontiagudos que vão cutucando o leitor para questões como o racismo nos estados do Sul, a crença em pequenas epifanias e o descaso do sistema público para com os menores abandonados. “O beijo na parede” concentra uma existência incapaz de produzir heróis, pois também não consegue criar vilões. Quando Deus não está olhando (e me permito também utilizar de metáfora), todos são seres invisíveis.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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104ª Leva - 07/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

São chegados 104 caminhos de arte e literatura. Sem dúvida, uma marca temporal dispersa em ações e encontros. Lidando com palavras e imagens, descobrimos pessoas, verdadeiros universos de saberes e sabores. Cada voz tem seu modo próprio de nos mostrar que o mundo é um lugar sempre novo e que, para tanto, depende do ponto de vista adotado. Seguir adiante é cultuar as diferenças, permitindo que cada autor mostre o seu modo de estar no mundo. Num trabalho que intercruza existências, é possível perceber como até mesmo pensamentos diametralmente opostos são parte necessária das reflexões sobre um tudo. Estar vivo faz parte do jogo dos estranhamentos.  Em cada autor presente nesta edição, uma centelha destes sentimentos todos paira voluptuosa. É o homem no homem, refletindo arroubos e raras certezas. Entrecruzando mundos, a fotógrafa Valéria Simões expõe aqui um lastro considerável de seu ofício com a luz. Suas fotografias estão diluídas diante de textos que flertam com o insondável. Vêm se juntar a tal energia os contos de gente como Vivian Pizzinga, Roberto Dutra Jr e Mário Sérgio Baggio. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger nos aponta sete considerações sobre o mais novo filme de Jean Luc Godard, “Adeus à Linguagem”. Maurício de Almeida nos conduz pelas vias do primeiro romance de Rafael Gallo. Hoje, as esferas da poesia estão tomadas pelos versos de Elizabeth Hazin, Kleber Lima, Clarissa Macedo, Edson Valente, Cristina Arruda e Adriana Aneli. Em matéria de música, as escutas de Larissa Mendes chamam nossa atenção para o mais novo disco da banda norte-americana Beirut. Numa entrevista, o escritor Thiago Mourão fala sobre seu mais recente livro e outros temas ligados ao ofício literário. Pelas linhas de Sérgio Tavares, estão marcadas reflexões sobre o novo livro de contos de Antônio Mariano. E assim tudo conduz a um renovado ambiente de aparições, caros leitores. Sejam bem-vindos a tais possibilidades!

Os Leveiros

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104ª Leva - 07/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

A mitologia do homem comum

Por Sérgio Tavares

 

Capa

“O dia em que comemos Maria Dulce” é, em grande parte, a saga de um herói inacabado. Jailson, um Ulisses nordestino, subalimentado, rústico, cuja viagem à procura da Ítaca de si deslinda as feridas sociais, o mapa da fome, as paragens castigadas daqueles desenganados de nascença. Na coletânea de contos do paraibano Antônio Mariano, pululam “Jailsons”, personagens que carregam o mesmo nome e singularidades, levando o leitor a crer numa ação romanesca. Ou seria apenas uma série de aparições aleatórias? Não fica claro. A narrativa decorre desse jogo movediço.

Sobre os motores temáticos, no entanto, não recaem dúvidas. Ora com uma crueza vibrante, ora com uma melancolia judiada, Mariano problematiza conceitos arcaicos, mas ainda latentes nos desvãos do Brasil, a exemplo do patriarcalismo, da submissão feminina, da impossibilidade de fuga, do asselvajamento das relações familiares e os conflitos gerados por essa colmeia de sentimentos peçonhentos.

Logo no conto de abertura, “A construção do silêncio”, pai e filho convivem separados por uma barreira de afonia, que os impedem de compartilhar suas angústias, de solucionar erros pretéritos, de, diante de uma terceira geração, rejeitar essa herança de estranhamento.

A figura paterna, na configuração de uma entidade implacável e intransitiva, é reprisada em outras narrativas, até ser exorcizada em “Chocolate quente”, quando o esboroamento físico do genitor possibilita o roubo da autoridade pelo filho. “Amo papai, imensamente. Principalmente quando é fraco, depende de mim e posso desprezá-lo”, regozija-se o protagonista.

É recorrente a incidência de uma maldade natural, intratável, sem explicação. “Papai, você matou mãinha, matou mãinha, matou mãinha!”, desespera-se o menino diante de um homem brutalizado que recorre à morte para a resolução de seus problemas. A condição humana não é apenas pobre, pois traz entranhada na alma a miséria, mas retroalimenta esse legado de parcos valores morais, ou de valor algum.

Nascendo e morrendo nesse cenário árido, rachado sob os pés descalços dos que não alcançam o que está à altura das mãos, reinam os “Jailsons”, um “sertanejo de uma cidadezinha pacata”, um demitido que não se condói à dor de parto da esposa, um “servidor público municipal”, um sujeito marcado para morrer. Múltiplos atores de um mesmo fado: ser coadjuvante da própria existência, apagar-se, nunca triunfar. Como sumarizado no conto “Estas imagens”: Teu nome é Jailson, deve ter sido a única frase que pronunciaram para me prender de vez a esse destino”.

As desventuras do personagem são também diesel para funcionar a máquina de vocábulos regionais, envernizados por um lirismo abrasador. Mariano, poeta de mão-cheia, faz de sua tessitura um fluxo sinuoso que vai atritando as palavras e obtendo desse movimento uma espécie de cadência própria da língua falada de um povo que tem de lidar com as agruras da vida e consegue extrair, da resistência, música.

“Mais longe, um galo sola o seu canto simples, zurra um jumento, escarra um ancião. A fruta de fogo despertando a cidade com seu grito de luz e calor. Surpresa alguma. A aurora cai, de vez e já apodrecida, no colo magro da manhã que nasce”. Com um canto bem afinado, “O dia em que comemos Maria Dulce” retrata a mitologia do homem comum.

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.