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97ª Leva - 11/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Arte: Cristina Arruda

 

 

Tudo está mesmo por um fio? São acometidos por alguma volatilidade nossos pensamentos, verbos e ações? Ao que pode parecer, sim. Conclusão afirmativa, mas sem apresentar requintes de um horizonte definitivo. No eco das horas fugidias, tomamos emprestado algum fôlego para prosseguir. Entremeando cenários, despistamos as investidas da finitude que nos ronda desde o berço. Mas viver é levar em conta a necessidade de se realizar algo, seguindo as pistas cotidianas sugeridas pelas travessias que nos se apresentam. Nunca é demais supor que o presente é a coisa mais certa de todas as coisas. O resto mergulha no fosso abissal do indecifrável. A cada ato expelido, é curioso perceber que um sentido de permanência se desloca mesmo diante de um mar de incertezas em cujas águas sempre navegamos. No universo sobre o qual flutuam as individualidades, é reconfortante saber que o mosaico do mundo é também constituído pelas dissonâncias de ideias. Disso se alimenta a arte, quando nos provoca e nos faz romper com territórios confortáveis. De tamanha inquietude bebem poetas e tantos outros criadores. No fundo, o que almejam não é a conformidade ou a harmonização dos discursos e pontos de vista, mas a perspectiva de apreender os recortes da existência como uma via de compreensão daquilo que respiram. Para nossa sorte, tais exemplos se multiplicam e, por força do acaso ou não, surgem diante de nós. É o caso de autores como Ana Estaregui, Alberto Bresciani, Victor Prado, Carolina Calvo e Adriane Garcia, que desfilam diante de nossos olhares a multiplicidade contida em seus versos. Nos contos de Lucia Fonseca, Myriam de Carvalho e Lourença Bella, testemunhamos o modo como o retratar da vida é abraçado pelo imponderável. Num diálogo regado a reflexões sobre a criação, o escritor e jornalista Claudio Parreira concede uma entrevista a Sérgio Tavares. W. J. Solha escreve sobre “Glacial”, novo livro de poemas de Jorge Elias Neto. O novo disco do rapper Criolo é contemplado pelas linhas de Larissa Mendes. O filme “Relatos Selvagens” é destaque da resenha de Bolívar Landi. A partir do Prêmio Nobel de Literatura, Rodrigo Conçole aborda algumas relações entre o teatro e o mercado editorial no Brasil. Entrecortando as expressões de nossa nova edição, uma exposição com os desenhos e pinturas da artista plástica mineira Cristina Arruda. Na 97ª Leva da Diversos Afins, uma nova gama de leituras se faz presente. Aproxime-se, caro leitor!

 

Os Leveiros

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

Claudio Parreira é um destemido. Ele acaba de lançar um livro influenciado pelo realismo fantástico num país que subestima a literatura de Murilo Rubião e de J. J. Veiga. Um livro de contos, gênero que causa arrepios nas grandes editoras, pois não vende, “salvo se você for um Rubem Fonseca ou um Dalton Trevisan”, como, certa vez, desastrosamente declarou a representante de um selo. Contos estes, em grande maioria, brevíssimos, quando acaba de ser laureado com o Pullitzer um calhamaço de 800 páginas.

Claudio Parreira é, de fato, um artesão. Percorridas as primeiras páginas de “Delirium” (Editora Penalux/2014), é possível reconhecer o lapidar das frases, o tempo gasto para o encontro da consonância entre as palavras, a cultura paciente de um bonsai. Tal processo acaba por cobrir seus contos com um verniz poético que suaviza o estranhamento inerente ao terreno do insólito, porém não o destitui da capacidade de impacto. Há uma fronteira muito estreita entre sonho e pesadelo, entre o cotidiano que nos acomoda e a realidade que dele se mimetiza, na qual prevalece a absurdeza. Parreira a conhece bem e prepara a armadilha para o leitor. A linguagem é a isca.

Nessa entrevista, o escritor e jornalista experiente, com colaborações na Revista Bundas, Caros Amigos Online e O Pasquim 21, aceita o convite de transitar por caminhos dentro e fora do universo literário, mas que se relacionam diretamente à sua ficção. Rotina criativa, formato digital, autores contemporâneos, mercado editorial, o papel do leitor; uma estamparia de temas analisados com destreza e segurança, que ratificam o poder de encarar a vida e a arte, mesmo que de viés. “Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar”. Venham, caminhem junto.

 

Claudio Parreira / Foto: Arquivo pessoal

 

DA – “Delirium”, seu recém-lançado volume de contos, tem influência direta do realismo fantástico, cujos expoentes na literatura brasileira são o mineiro Murilo Rubião e o goiano J. J. Veiga. Na condição de leitor, qual a sua relação com esses autores e por que decidiu transitar por esse gênero ao tecer sua ficção?

CLAUDIO PARREIRA – Só fui conhecer Murilo Rubião e J. J. Veiga lá pela metade dos anos 80, depois de ter lido muito Cortázar, Borges e Gabriel Garcia Márquez. Eu simplesmente não sabia que se produzia realismo fantástico no Brasil. Li pouco de Rubião, apenas “O Pirotécnico Zacarias”, mas esse pequeno livro, por uma razão misteriosa – ou seria fantástica? – ainda se faz presente na minha experiência como leitor. Já o Veiga, esse eu li mais. “Os Cavalinhos de Platiplanto” e “A Estranha Máquina Extraviada”, mas pouco perdura na minha memória afetiva. Quanto ao gênero que pratico na minha ficção, creio que, depois de ler tantos autores nacionais e hispano-americanos de literatura fantástica – ou realismo fantástico, que seja -, sem contar um punhado de europeus e norte-americanos, esse acabaria sendo mesmo o caminho natural. “Delirium” nada mais é que o resultado dessa mistura louca e prazerosa, uma maneira de devolver ao mundo dos livros aquilo que os livros trouxeram pra mim.

 

DA – Curioso mencionar Cortázar e Borges antecedendo Rubião e Veiga na sua escala de leitura, pois essa parece ser uma via de mão única. Aliás, há muitos leitores e autores que ainda desconhecem o quilate literário desse gênero no Brasil, dando conta de que o realismo fantástico cabe unicamente aos hispo-americanos. Por que acha que o gênero é tão subestimado no Brasil? Por que Rubião e Veiga não detêm a mesma exaltação cultivada por autores cujo extrato, por exemplo, provém do regionalismo?

CLAUDIO PARREIRA – Acho que o gênero ainda não atingiu a popularidade que merecia no Brasil, mas creio que isso está mudando; basta ver a quantidade de autores contemporâneos que de certa forma estão resgatando o realismo fantástico e acrescentando ao gênero curiosas misturas e experiências que vêm sendo muito bem recebidas pelo leitor.

Murilo Rubião e J.J. Veiga deixaram uma literatura que causava — e ainda causa, de certa forma — estranhamento. O leitor brasileiro não conseguia se ver refletido nela. Isso, com certeza, impediu que suas obras fossem apreendidas na devida profundidade e intenção. Mas elas ainda estão aí, cada vez mais, no meio do caminho, do nosso caminho. Acredito que o devido reconhecimento é só uma questão de tempo.

 

DA – Diante das narrativas de “Delirium”, podemos dizer que “seu caminho” é uma vertente que Italo Calvino, organizador da coletânea “Contos fantásticos do século XIX”, classificou de “fantástico cotidiano”. Perceber por trás da aparência corriqueira um outro mundo, colher do processo criativo o poder de conformar figuras. Empenho semelhante é atribuído à busca por reificar sentimentos, materializar sentidos que deveriam povoar unicamente o plano das abstrações. E isso, penso, só é possível mediante uma forma muito sensível e diferente de observar o que está a nossa volta. Essa percepção, no seu caso, é o mais próximo que se pode chamar de inspiração? Como um jornalista, que trabalha com fatos, quebra essa fronteira e transita por esse universo?

CLAUDIO PARREIRA – Não gosto muito da palavra inspiração. Isso me parece algo bem próximo do clichê do escritor que sofre, sofre e finalmente se redime com um presente da Musa. Eu trabalho com ideias e as transformo em texto, ficção. É um processo bem objetivo. Acredito no fazer literário, na disciplina. Talvez aí esteja a experiência do jornalismo: objetividade, prazos, metas a cumprir. Sou bem isso. A grande diferença é que os fatos com os quais trabalho são de natureza poética.

DA – Por falar em poesia, um dos contos mais singelos e com um verniz retinto de lirismo é o brevíssimo ‘A Flor’. Perceber todas as nuances que o compõem é justamente trazer à tona essa perícia, essa habilidade incansável e quase cirúrgica que significa o exercício da escrita. Como isso funciona para você? Nem sempre o texto mais curto é o mais fácil de se escrever?

 

CLAUDIO PARREIRA – Como muitos outros autores, comecei escrevendo poemas. Ou algo que eu achava ser isso. Tive a sorte de conhecer Leminski e, por intermédio dele, os haicais de Matsuó Bashô. Achei que aquela forma poética era tudo o que eu queria: dar o meu recado da maneira mais breve possível. E tentei, mas logo percebi que o gênero poesia não era bem a minha praia. Já a forma do poema japonês, a sua concisão, isso ficou presente em mim, tanto que passei a aplicar o que aprendi no microconto — numa época anterior à internet, que acabou por popularizar o gênero no Brasil. Praticando esse formato, foi que aprendi a força de cada palavra, o seu peso, o arranjo harmônico do qual surgem pequenos contos como “A Flor”. E sim, concordo: o texto curto não é o mais fácil de se escrever. Requer, no mínimo, paciência. E um bom conhecimento dos elementos que o compõem.

 

DA – Esse olhar, que é íntimo e mundano ao mesmo tempo, de certa forma evoca o embate entre a crônica e o conto. Alguns textos de “Delirium” parecem se localizar exatamente nessa fronteira, revelando-se para o leitor uma sala de multiformes espelhos, algo passível de ser concreto e de ser subjetivo. Essa possibilidade de abalar o leitor é uma busca na sua literatura? O quanto a preocupação com aqueles que lerão o seu livro influencia seu processo criativo?

CLAUDIO PARREIRA – Sim, sempre. É ótimo quando um texto causa impacto em quem lê. Significa que a intenção dele alcançou o seu objetivo, que é encantar, ou até mesmo indignar o leitor. Mas a preocupação com quem lê, quando escrevo, só vem depois. No princípio do conto é tudo nublado, uma estrada escorregadia, bifurcada. Esse período de névoa dura horas, dias até. Quando finalmente assumo o controle do conto, aí sim entra a figura do leitor: tudo é feito para ele e por ele. Mesmo que seja uma elaborada armadilha.

 

DA – O leitor brasileiro é mal formado, mal informado ou mal influenciado?

CLAUDIO PARREIRA – Pergunta complicada essa. E sou levado a crer que é um pouco de tudo isso. O bom é que estatísticas provam que o número de leitores está crescendo. Mas qual tipo de leitores? Creio que o mal influenciado é o que mais se destaca nessa história: simplesmente consome aquilo que a mídia e o mercado lhes enfia goela abaixo. E aí voltamos aos dois primeiros, que são mal informados porque foram mal formados. Mas isso é uma generalização, e toda generalização é perigosa. De qualquer maneira, já podemos falar de leitor brasileiro com mais certezas do que há dez, vinte anos. Já é um progresso.

 

DA – Digo isso por conta da percepção de que, apesar de termos hoje um número maior de novos autores, não contamos com leitores suficientes para absorver toda essa produção. O que me parece é que são os autores que acabam lendo os autores, e esse rejuvenescimento da literatura contemporânea brasileira passa a ser confinado a um grupo mínimo, algo com uma enxurrada que desemboca num funil. Qual a análise que faz dessa observação? Há livros sendo escritos para nenhum leitor?

CLAUDIO PARREIRA – Eu acredito que temos leitores suficientes, sim, para absorver essa nova produção. Mas tudo isso é um processo, um trabalho que ainda não alcançou o leitor. Como dito na pergunta anterior, diversos são os tipos de leitores. O quanto essa nova produção chega até eles, de qual maneira chega? Esse fenômeno, se é que pode ser chamado assim, de autores lendo autores, já é um fato um tanto antigo que continua aí. Errado? Acho que não, uma vez que se pretende que todo autor seja também ele um leitor. Mas é insuficiente. O que falta mesmo, e acho que esse é o grande nó que deve ser desfeito, é a distribuição dessa nova produção. Como ela tem sido feita, por quem, quais são as estratégias? As redes sociais têm facilitado muito esse trabalho, eu mesmo coloco meus livros nas mãos dos leitores através delas – mas isso, só isso, não é o suficiente. Não basta publicar o livro, é preciso fazê-lo circular, chegar às mãos dos verdadeiros leitores e não apenas dos nossos pares. Com raríssimas exceções, somos autores pregando no deserto – escrevendo para ninguém, como você diz. É muito mais fácil publicar hoje do que tempos atrás, mas e daí? Via de regra, as editoras colocam o material no mercado e deixam os autores entregues à própria sorte. Acho que também é papel das editoras divulgar e investir nos seus autores, torná-los visíveis nesse mercado cada vez mais competitivo. Uma parceria mais abrangente. Caso contrário, os livros continuarão sendo escritos para nenhum leitor – e assim perdemos todos nós, hoje e no futuro.

 

Claudio Parreira
Claudio Parreira / Foto: Mariana Parreira

 

DA – Esse é um ponto interessante, pois hoje temos uma geração perfeitamente adaptada ao formato digital. Leitores de blogs, e-books, cuja extensão da biblioteca é medida pela capacidade da memória interna do dispositivo eletrônico. Você, embora da geração dos livros físicos, relaciona-se bem com esse universo, disponibilizando seus livros em arquivos digitais e divulgando-os nas redes sociais. De que forma essas mídias têm sido producentes para sua literatura? Lançar livros em formato digital, no Brasil, é uma opção ou a falta dela?

CLAUDIO PARREIRA – Sempre me relacionei bem com os meios de divulgação digital. Uma parte significativa do que escrevo e já escrevi passou por blogs, sites, redes sociais e afins. As redes sociais, por exemplo, são ferramentas que considero fundamentais para a divulgação do que produzo — sejam e-books ou livros físicos. Não tenho nenhum tipo de problema com essas plataformas. Lançar livros digitais é uma opção, sim, no meu entender. Gosto do formato, porque ampliam a visibilidade e não me obrigam a fechar necessariamente um volume de contos ou um romance: costumo lançar contos avulsos, volumes com dois ou mais contos, trechos de romances inacabados. E livros digitais trazem vantagens que eu considero muito importantes: relatórios detalhados nos quais você sabe quanto vendeu, o destino das vendas e o melhor: a remuneração é clara e certa!

 

DA – Falando em remuneração, o que é mais difícil ser no Brasil: jornalista ou escritor?

CLAUDIO PARREIRA – Os dois. Mas os jornalistas, pelo menos, conseguem encontrar trabalho fixo e, na falta disso, os frilas livram um pouco a cara. Conheço muitos que vivem exclusivamente do seu trabalho. Já escritores, eu não conheço nenhum.

 

DA – O que acaba por nos levar a uma questão que, a um só tempo, tem inúmeras respostas e nenhuma: por que seguir escrevendo? Cortázar afirmou que escrevia para suprimir seus medos. E você, o que ainda lhe motiva?

CLAUDIO PARREIRA – Costumo dizer que escrever é um ofício de trevas. Sou um cego em busca de luz.

 

DA – Essa busca, inclusive, é reprisada pelas vozes que comandam alguns dos contos de “Delirium”; personagens que tentam lançar luz sobre um dilema circundado por uma desclaridade multifária. Em ‘A Terceira’, em que um homem inventa mulheres, essa escuridão é o próprio processo de criação, uma metáfora para a incapacidade de transferir integralmente a ideia para o papel. Fale um pouco da tarefa de composição da antologia, da escolha dos contos.

CLAUDIO PARREIRA – “Delirium” é mesmo o que se pode chamar de coletânea de contos, pinçados aqui e ali, cobrindo diversas épocas e formas de escrever. Um inventário, digamos assim, da minha produção recente e mais antiga. “Z”, o conto que abre o livro, por exemplo, é o mais antigo de todos eles: foi escrito em 1989, durante uma dolorosa oficina de texto que fiz com João Silvério Trevisan. Quanto à composição da coletânea, quis que ela contivesse contos escritos num registro diferente dos quais estamos acostumados a ver e ler por aí. Fiz questão mesmo do estranhamento — mas só como superfície. O que me interessava na composição de “Delirium” era a linguagem, a forma de fazer, a maneira como a maioria dos textos foi escrita. Não era a minha intenção juntar apenas continhos bem escritos. Longe disso. Reuni, portanto, uns 40 contos tortos, dos quais escolhi os 29 que integram o volume. Essa tem sido a minha pegada desde sempre. Deixo a literatura bonitinha e bem comportada para os outros.

 

DA – O estranhamento, que você cita, é uma das nuances mais retintas do gênero fantástico, cujo poder de criar uma nova realidade, a partir da realidade que povoamos, foi a saída encontrada por muitos escritores para canalizar suas críticas. No ápice do movimento, nas décadas de 60 e 70, este tipo de literatura bateu duramente em governos ditatoriais, valendo-se de seus aspectos metafóricos. Hoje a que propósito serve a literatura fantástica? Contra quem ou o que novos escritores podem utilizá-la?

CLAUDIO PARREIRA – Eis aqui uma pergunta curiosa: pra que serve a literatura fantástica, hoje, já que o cotidiano social e político nos surpreende cada vez mais com fatos e comportamentos gritantemente absurdos? Digo que ela serve para gritar e abrir os nossos olhos e sentidos para outra realidade que não esta, insuportável, à qual estamos submetidos. A literatura fantástica continua servindo para dizer Não! E os novos escritores devem utilizar o gênero contra tudo o que ameaçar esse direito.

 

DA – Diante dessa observação, o que ameaça sua literatura?

CLAUDIO PARREIRA – Não gosto desses tempos que estamos vivendo, e sinto que paira no ar uma ameaça muito perigosa, uma ameaça de silêncio, de pensamento único, um retrocesso em todos os sentidos, diante dos quais os avanços tecnológicos nada significam. Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar.

 

DA – E para onde seguirá sua literatura depois de “Delirium”? Há caminhos que apontam para narrativas de longo fôlego?

CLAUDIO PARREIRA – Sim, venho desenvolvendo um romance já há algum tempo. Mais uma vez, não é apenas literatura fantástica: é um grande exercício com diversas vozes, vários focos narrativos, camadas sobre camadas que buscam um resultado surpreendente. Isso, pelo menos, é o que espero.

 

DA – Na literatura de hoje, ainda existe a possibilidade de resultados surpreendentes?

CLAUDIO PARREIRA – Sim. Acho que é por isso, em busca disso, que escrevemos todos nós.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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96ª Leva - 10/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Tomás Casares

 

Cantar porque o mistério existe. Assim pode ser também representada a sina de um criador. Quanto mais simples as suas vestes, alijadas do fogo da vaidade inútil, mais próxima e quiçá autêntica será a sua epifania. O sentido de verdade também pode ser tomado como uma expressão honesta daquilo que se sente, algo que, materializado sob a forma de um texto, imagem ou som, ganha autonomia para fundar mundos no mundo. O autor cria personas e as atira aos quatro ventos, sugerindo-nos que também façamos o mesmo a partir do que engendra a nossa imprevisível percepção das coisas. É gozosa a possibilidade de sermos outros, rompendo amarras sedimentadas pela rotina. É fora de série a ideia de que a arte nos propõe um exercício contínuo de libertação. Nesse movimento, consumir a obra de um determinado autor é, possivelmente, amalgamar-se a ele. Essa espécie de pangeia humana, outrora ligada por sentimentos entrelaçados, passa a alimentar uma multiplicidade de expressões que harmonizam tanto o individual quanto o coletivo. Assim, os caminhos da liberdade não significam imposição nem tampouco a pronta concordância com o todo sugerido, mas a mais pura perspectiva de nos edificarmos enquanto sujeitos conscientes e condutores de nossas míopes trajetórias. Tudo isso para dizer que o mistério existe e que por ele somos atraídos pelas razões das mais imponderáveis. Mesmo tendo inclinações prévias a algum tipo de abordagem ou vertente criativa, a sensação é outra quando somos tomados de surpresa por alguma obra. Do mesmo modo, viver à cata disso desavisadamente por ser um bom indicativo. Sinal de que nos desarmamos um pouco para permitir que um outro alguém seja escutado. Como parte dessa despojada atitude, deixamos o canto sensível de poetas como Luciana Marinho, Guilherme Gontijo, Marilia Kubota, Stefanni Marion e Nuno Rau ecoar suas singularidades. No trajeto entre o visível e o invisível, as fotografias do argentino Tomás Casares instauram uma sublime acepção para a existência. Para falar um pouco sobre sua lida com as vias literárias, o escritor Anderson Fonseca responde a uma pequena sabatina de ideias. No Gramofone de Larissa Mendes, toca o mais novo disco da cantora e compositora Tiê. A leitura atenta de Sérgio Tavares nos convida a um deleite sobre o mais novo romance de Marcia Barbieri. Há difusas perspectivas de olhar o mundo nos contos de Marina Ruivo, Vássia Silveira e Caio Russo. O texto de Mayrant Gallo exalta a importância do escritor Patrick Modiano, recentemente agraciado como o Prêmio Nobel de Literatura. O mais novo filme do diretor Jim Jamursch é o centro das anotações de Guilherme Preger. Cá estamos, caro leitor, a sugerir um caminho que consolida sua etapa de número 96. Seja bem-vindo!

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96ª Leva - 10/2014 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Cio lexical

Por Sérgio Tavares

 

 

 

“No princípio era o Verbo (…) E o Verbo se fez carne”.

Os fragmentos copiados do capítulo primeiro do Evangelho de João remontam ao Gênesis. A criação do mundo dos homens, a corporificação a partir do léxico. ‘A puta’, romance-nocaute da paulista Marcia Barbieri, igualmente se vale da plenitude vocabular para compor seu núcleo seminal, uma engenharia onde as palavras têm a insaciedade de organismos, reproduzindo-se, proliferando-se, compondo um corpo febril, um ser multiforme cujo nome é Verbo.

O processo de gestação que, por conseguinte é o de criação, é a que se dedica a trama. A voz que narra, a fala, o dom que nos distingue das bestas. Não obstante um fluxo incontido, uma loquacidade voraz que, ao invés de verter sentido, causa o caos. Parece não haver racionalidade, somente o instinto. Portanto tudo é mobilizado por um mecanismo primitivo. “Não tente me tornar menos animalesca”, repreende a narradora. O Verbo é um impulso natural.

Continuamos todos feras, não evoluímos. Somos prole de “uma simples partenogênese”. Os símios nos rodeiam e nos escudamos com a lógica e a razão, enquanto escorre pelos trilhos das costelas um suor  “tão escuro e fétido quanto a urina”. Temos de invejá-los, incita a puta, a voz reinante nesse curso paginado, “seus sexos à mostra, a facilidade como fodem e parem sem prestar contas a ninguém”. Afinal, existimos ao pagamento de nossas necessidades fisiológicas, da parturição. “O prazer e a dor são frutos do mesmo escarro”. A puta expulsa seus fetos pela glote, vocábulos encarnados que exibem minúsculos rins, pulmões, genitálias úmidas e intumescidas.

Mas o que é o romance, de fato? Uma tempestade de consciência, um solilóquio vazado por vozes incidentais, a um só tempo um réquiem e uma ode à literatura. Tachá-lo a um gênero seria unidimensioná-lo. Para constar, talvez, aparenta-se com o erotismo, o relevo pornográfico, a reificação da libido. Um discurso que é explícito, porém não gratuito. Com força imagética capaz de firmar paralelos com ‘A história do olho’, de Bataille, e a O., de Anne Desclos, narrativas cujo eixo aciona um confessionário de vivências sexuais.

Num bloco único de texto, Barbieri esquadrinha essa vida multívaga. Ou melhor, escava a fundura dos segredos mais escusos, dos rancores, das perdas e das depravações. A memória são os vestígios deixados pelo corpo, a soma dos pesos dos “homens refratários” que sujaram sua pele na busca por orifícios. Parecem gritos rasgados das entranhas, uma história contada aos murros.

Passado e presente se alternam ao salto de uma vírgula, de um ponto final. A puta recorda a infância, o pai nulo, a estadia da mãe no sanatório, a defloração, a ciranda de parceiros, pessoas boas, pessoas ruins, o filho não quisto que depois não a quis. Durante esse trânsito desenfreado, algumas contravozes tomam às rédeas da narração, deslocando o olhar e revelando outros aspectos do trecho em foco. A autora recorre a uma polifonia que também é uma orgia linguística.

A essas conjugações somam-se camadas que impregnam a estrutura; vislumbres, passagens, viagens oníricas e maquinações delirantes. Uma guerra num país latino-americano, um território nevoso, os efeitos do uso da cocaína, o sexo servindo ao culto ao profano e ao sacro. Com uma prosa que sustenta um verniz poético ainda que deslinde “os dias que nascem na vulva”,  o romance se alicerça em metáforas para transcender a matéria e acessar questões metafísicas; o cosmo e a autoridade divina, o panteísmo versus os mitos cotidianos, o livre-alvedrio e a condição de bípedes (onde vale uma menção ao ‘Cock & Bull’, de Will Self). “Amanhece apesar de Deus”, dispara.

O mesmo tom ácido é conferido ao papel da escrita sobre a existência humana. O escritor, esse ser arbitrário e tirânico, que se apodera dos vocábulos, explora-os, corrompe suas naturezas, e mesmo assim fracassa ao traduzir a realidade em ficção. “A escrita não passa de uma tentativa idiota de dar vida a marionetes, a criação não é capaz de suprimir a representação e a representação é uma banalização do real”. O principio sempre será o Verbo, a autora parece nos atentar, porém todos nós vivemos sob o signo do Caos.

Na abertura da ficha técnica do livro está a seguinte informação: “Todo conteúdo do texto aqui apresentado é de inteira responsabilidade do autor”. Algo posto como alerta, mas que, de fato, lança luz sobre a prosa pujante e bem elaborada de Barbieri, capaz de causar espanto e maravilhamento na mesma medida.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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95ª Leva - 09/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

Do lastro da imaginação, emanam cenários, personagens, espectros emblemáticos de nossa condição sobre a Terra. Divisamos o que foi e o que será em tênues fronteiras de percepção. Cada um sabe de si no complexo desafio de apreender os caminhos da arte. Interpretar é, antes de tudo, viver o que está sendo ofertado aos nossos olhos e sentidos difusos. É banhar-se em águas que já não são as mesmas de quem criou. É trazer a si mesmo para um território antes estrangeiro. Ao cruzar os acessos, traduzir-se como protagonista de enredos por vezes inusitados. Ler é aceitar convites, embora nem sempre tal ato represente um sinal de concordância com o que nos é proposto. E também as recusas e negativas podem encerrar alguma espécie de reinvenção. No hiato que constitui a alteridade, cruzamos bem mais do que desertos. Ali, podemos também estabelecer aproximações como quando alguém nos sugere trilhar veredas nunca antes forjadas de alguma coragem. E o termo coragem vem dotado de um ato de se permitir experimentar o que está situado além de domínios certeiros e controláveis. Diante desse ponto específico e à medida que caminhamos, parecemos buscar algo que seja capaz de proporcionar algum arrebatamento em termos de originalidade e emoção. Sob a ótica do receptor, indagamos se a visão autêntica das coisas não estaria na percepção de quem lê ou observa os produtos artísticos. Caberia tão somente ao criador o ímpeto do novo? A questão só não se perderá embalada por algum vento aleatório caso alguém ouse também a aceitar que, sob a pele de um leitor, habitam camadas passíveis de criação autônoma. Assim sendo, vamos cruzando novas zonas de vivência no que tange à articulação de conteúdos. Para saber se poderemos de fato manipulá-los conforme nossa conveniência, só a fluidez dos enredos será capaz de atestar. Acima de tudo, esse caráter, digamos assim, libertário funda instâncias potencialmente criativas, redimensionando os tradicionais papéis de criadores e receptores. E a arte com seu movimento constante de signos nos revela entendimentos sobre nós mesmos, desses muitas vezes revestidos de instigantes descobertas. É tal como ocorre com as narrativas de Mariel Reis, Helena Terra e Yara Camillo, a nos mostrarem cenários alternativos de vida. Num caminho sedimentado em sutilezas, a arte da ilustradora e desenhista mineira Rebeca Prado abre passagem por todos os recantos dessa nova edição. Num trabalho de refinada pesquisa musical, a escritora Daniela Galdino chama atenção para o disco “Acorde”, registro precioso da cantora baiana Roze. Entre versos e destinos, os poetas Patrícia Porto, Willian Delarte, Lourença Bella, Jorge Augusto da Maya e Cleberton Santos. Numa entrevista que promove reflexões sobre o fazer literário, o poeta Roberval Pereyr é o centro dos questionamentos de Clarissa Macedo. O mais novo livro de contos de Anderson Fonseca é tema das apreciações de Sérgio Tavares. A inusitada produção “Boyhood”, novo filme do diretor Richard Linklater, aparece marcada pelas percepções de Larissa Mendes. O poeta Gustavo Felicíssimo recorda seu último encontro com o saudoso escritor João Ubaldo Ribeiro. Atingimos 95 levas, certos de que você, caro leitor, é nosso principal protagonista. Boas leituras!

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95ª Leva - 09/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

Os deuses da carnificina

Por Sérgio Tavares

 

 

Cidade do México, 1968. Tomando as ruas, centenas de estudantes protestam contra o presidente Díaz Ordaz e seu governo autoritário. Avançam, compassados e compactos, uma parede viva que entoa palavras de revolta. Na praça Tlateloco, ocorre uma cilada. Soldados do exército bloqueiam todas as saídas e, armados com tanques e metralhadoras, atacam parte do grupo. Trezentos são mortos, covardemente. Horas depois, o escritor José Revueltas, preso tantas vezes por conta de seus discursos e manifestos, denuncia os donos do poder que acabaram de patrocinar uma carnificina, rasgar em partes jovens desarmados. “Os senhores do governo estão mortos”, acusa. “Por isso matam”.

O relato acima poderia facilmente ter sido extraído de uma página de jornal arquivada nos porões da história. Contudo, faz parte de ‘O século do vento’, último livro da trilogia ‘Memória do fogo’, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Recorrendo a fatos e figuras de diversas naturezas e relevâncias para retratar as transformações e os conflitos que moldaram o continente sul-americano a partir dos anos 1900, o autor promove uma espécie de colagem verbal onde a verdade latente se sobrepõe à historiografia oficial. A memória passa a ser a sua guia e, justamente por revisitar o tempo coletivo através de pequenos momentos filtrados por um olhar particular, realidade e ficção se estreitam de maneira indistinguível. Um efeito utilizado com semelhante destreza em ‘O que eu disse ao General’ (Oitava Rima Editora, 68 pgs.), antologia recém-lançada de Anderson Fonseca.

O que é verdadeiro, o que é inventado? O que pode ser revisto em favor da literatura? O escritor carioca, radicado no Ceará, parece não se preocupar com o formato, mas com os temas, suas implicações e seus alvos; e, neste caso, não resta dúvida quem são. Grande parte dos 36 textos, que podem ser rotulados de contos, ou vinhetas, ou aforismos, é dedicada a um senhor de estado, de um ditador genocida a um governador fluminense, de Alvaro Uribe a Hosni Mubaraki, de Saddam Hussein a Sérgio Cabral. Perpetradores da barbárie, da fome, da guerra e da injustiça. A coletânea, de fato, salta da criação imaginária para fazer denúncia, criticar o mal do tempo, as mazelas que não mais nos afligem escudados pelo tubo da tevê, mesmo quando diante da dor dos outros.

Autor de ‘Sr. Bergier & outras histórias’, volume alimentado umbilicalmente pelo realismo fantástico, Fonseca agora tem em mãos os fatos, ainda que provenientes de um cotidiano infiltrado por uma outra tonalidade de absurdo, episódios de clara virulência que conseguem mapear o contexto de onde foram capturados. Um exemplo é a narrativa ‘O tanque’: “A cidade está tranquila. A manhã é calma. Uns meninos jogam pião”, chega então o general e sua tropa de guerra; “A cidade permanece tranquila. Tudo é o mesmo, só que agora se acrescenta à imagem os tanques”. O mesmo ocorre em ‘Festa’: “Havia uma festa na cidade. Havia sol e alegria”, de repente, surgem homens com armas e máscaras; “Sim, era uma festa, era a festa dos homens que chegaram”. A normalidade nunca é demolida com brusquidão, mas minada de maneira furtiva por uma ação indelével, à surdina, um tipo de gás tóxico que só é notado quando já se dobra nos últimos suspiros. “A verdade é sempre outra”, alerta. A que vemos tarde demais.

E, por ser incontornável, o único caminho de resistência é reinventar o mundo com o bisel das palavras. Fonseca trabalha muito bem a linguagem, quando recorre a metáforas e parábolas a fim de amortecer o impacto sumário da perversidade e da vilania. Assim é em ‘Ratos’: “Os ratos invadiram a cidade”, que traz à memória ‘Maus’, de Art Spiegelman, e em ‘Davi e Golias’: “Havia um menino e um soldado. O menino segurava um livro (…) O menino atirou o livro com força acertando o soldado que, em seguida, caiu morto”. Por outro lado, quando se escora na fabulação, alcança um efeito inverso, potencializando a gravidade das ocorrências naquilo que não é tão aparente. É o caso de ‘Como o poder se conserva’, que traz a história de um rei dormente traído por um ministro, que manda matá-lo e assume o poder. No trono, este inclui o filho no ministério, garantindo a futura transferência do cargo, numa alusão ao governo Kirchner, marcado pela perpetuação de um revezamento familiar. “Ai de quem buscar quebrar o ciclo, a pena é a morte”. A violência que serve para destruir igualmente serve para inovar. Tudo depende da capacidade de encontrar o ângulo em que a narrativa submersa se revele do tecido social.

Não por menos, os registros em que o lirismo desloca esse olhar para o plano das subjetividades é onde o autor encontra seu arroubo estético. Fonseca é detentor de uma prosa fina, lapidada, e textos da estirpe de ‘Dos que voltam da guerra’, ‘A tarde’ e ‘Sinfonia’ incomodam por provocar fascínio ao tratar de situações tormentosas. “Posso imaginar que as balas são gaivotas de papel deslizando na superfície do vento. Posso imaginar que são borboletas e o bater das asas acalme as dores que sinto. Posso imaginar que habito o silêncio e o silêncio me habita. Posso negar que as balas rasgam o espaço, mas não posso negar que o espaço também me rasga”. E: “O terror e o medo são iguais ao sonho e a morte habitando-nos involuntariamente, e, por mais que desejemos o refrigério de uma nova vida, a memória permanece como uma coluna de pedra com nomes gravados”.

A morte nasce conosco, morremos a cada dia, temos medo, mas não conseguimos padecer ao presenciarmos a morte alheia. As narrativas examinam este vazio, a cavidade de sentimentos preenchida por um senso de alívio, por existir algo divino que nos protege de todos os males. Vendas que permitem obliterar os erros fatais, descarregar o impacto do choque nas ações de destruição que parecem distantes, mas que também compreendem a nossa história. O que remete novamente a Galeano e seus pequenos momentos extraordinários, listados agora no formidável ‘O livro dos abraços’, num episódio intitulado ‘A linguagem da arte’:

“Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de ser pobre, foi-se embora para Nova Iorque.

Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina de fotografia. Chinolope nunca tinha segurado uma câmara nas mãos, mas disseram a ele que era fácil:

— Você olha por aqui e aperta ali.

E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou tiros e se meteu num barbeiro e levantou a câmara e olhou por aqui e apertou ali.

Na barbearia tinham baleado o gângster Joe Anastasia, que estava fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope.

Pagaram uma fortuna por ela. A foto era uma façanha. Chinolope tinha conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: não no morto, nem no matador. A morte estava na cara do barbeiro que a viu”.

Do mesmo modo, ‘O que eu disse ao General’ expõe instantâneos de nosso tempo, a barbárie de cada dia que, de uma forma ou de outra, será capturada pelo nosso campo de visão. É claro que há sempre a opção de se fechar os olhos. Mas nunca a de ficar indiferente.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

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93ª Leva - 07/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

Neuza Ladeira
Pintura: Neuza Ladeira

Dizer que não nos banhamos mais de uma vez nas mesmas águas implica prontamente no reconhecimento da nossa necessidade de mudança. Se pudermos alterar o curso das coisas, ainda assim muito do que supomos reter ficará disperso nalgum ponto de nossa trajetória. O que então poderia representar a ideia de um legado de nossas ações? Em sua natural condição de imutabilidade, o passado poderia ser vislumbrado como um ponto de partida para a busca de algum norte. Quiçá a vontade de minimizar equívocos acostumados ao longo da jornada. No entanto, a acepção do que signifique um legado não está em simplesmente inventariar um aglomerado de feitos, mas sobretudo em imaginar como presente e futuro podem se abrir para vias também nunca dantes exploradas. Numa referência ao jogo de palavras de uma das composições de Gilberto Gil, a mudança seria algo semelhante a um perene deus que dança e celebra seus caprichos ante nossos narizes perplexos e contestadores. No vasto e complexo reino das palavras, testemunhamos a presença vigorosa da procura por novos lugares. Muitas vezes, sem negar os atributos da tradição, notamos a aparição de vozes que fazem ecoar entre nós um sentido muito próprio de expressão. Apresentam-se como formas transmutadas de se perceber o mundo a partir de uma ótica marcada pelo teor da individualidade. A partir daí, ganha força a noção da unicidade de cada criador, principalmente pela perspectiva de, ao final das contas, celebrarmos tudo na inquietante arena das diferenças. Certamente, são as peculiaridades de artistas e escritores que tornam a existência um lugar sempre passível de descoberta e reinvenção. É com esse gosto especial por algo até certo ponto imprevisível e inusitado que nos deparamos com os enlaces poéticos de autores como Marília Garcia, Gustavo Petter, Lucas Perito, Ehre e Juliana Amato. De maneira semelhante, apreendemos as densas incursões de vida proporcionadas pelas narrativas de Claudio Parreira, Marcelo Novaes e Sérgio Tavares. Quando o tema é cinema, Guilherme Preger revisita a intricada trama da produção turca “Era uma vez na Anatólia”. Larissa Mendes deixa seus ouvidos se guiarem pelas canções do mais novo álbum de Fernanda Takai. Numa entrevista especial, intermediada por Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos, a atriz Sandra Vargas fala sobre sua trajetória à frente do importante grupo paulistano de teatro Sobrevento. O escritor Marcos Pasche elabora uma breve, porém incisiva, reflexão sobre a obra do poeta capixaba Jorge Elias Neto. Promovendo um diálogo entre uma obra do dramaturgo Sêneca e outra do cineasta Peter Greenway, Rafael Peres faz sua estreia no caderno Jogo de Cena. Diante de todas as epifanias presentes na mais nova edição, as pinturas de Neuza Ladeira traduzem uma atmosfera marcada substancialmente pelo incansável potencial da imaginação. Assim sendo, ofertamos a você, caro leitor, as alamedas da 93ª Leva, todas elas cuidadosamente pensadas e sentidas!

Os Leveiros

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Na escuridão nos movemos lentamente

Sérgio Tavares

 

Pintura Neuza Ladeira

 

A lembrança sempre começa comigo correndo.
Estou no quintal do sítio dos meus avós, os pais do meu pai, em Petrópolis, correndo em círculo atrás de galinhas.
Zuzuque, uma pequinesa de pelagem amendoada, corre atrás de mim. Era um domingo e meus pais tinham subido a serra cedo para discutir com o meu avô sobre a intendência da loja de sapatos que haviam tomado às rédeas fazia alguns meses.
Os adultos estão no interior do casarão, exceto minha avó que tricoteia numa cadeira de balanço no alpendre, contudo de onde está não consegue me ver.
As galinhas cacarejam alto, em tropel, enquanto fogem de mim. Próximo a um abacateiro, na lateral do casarão, o bando se separa. Muitas se refugiam no galinheiro, que fica nos fundos do quintal, onde o terreno cuidado se transforma em mata fechada. Outras seguem em direção ao casebre que meu avô transformou em oficina. Eu persigo essas.
Zuzuque vem no meu encalço, com suas patas curtas e focinho achatado, tentando morder a bainha da minha calça. Quando passamos por um jacarandá florido, que sombreia e suja o telhado do casebre, percebo que ela parou de me seguir.
Olho para trás, o tempo das galinhas desaparecerem, e a vejo erguida, com as patas dianteiras apoiadas no caule da árvore. Ao me aproximar, ela começa a latir.
Só depois de um tempo que noto a gorda lagarta verde que escala o tronco.
Com todo o esforço que lhe é possível, flexiona o corpo mole e peludo numa maratona incessante em torno da árvore. Zuzuque tenta derrubá-la, mas a larva já está numa altura que não dá o salto. Me aproximo e a examino bem de perto.
Imagino o quanto já percorreu e o quanto ainda vai percorrer para alcançar um galho e completar seu primeiro ciclo de vida. Depois o casulo, o período de pupa e, finalmente, o renascimento metamorfoseada em borboleta. Tenho vontade de esmagá-la.
Exploro o perímetro da sombra da copa e acho uma pedra redonda, maior que a minha mão. Miro e bato com toda a força contra o tronco. A pedrada é violenta o bastante para cortar a lagarta ao meio e respingar o conteúdo viscoso no meu braço. Zuzuque ataca com as garras as partes que caem na grama, ainda animadas.
Neste instante, ouço minha mãe chamar o meu nome e corro para a frente do casarão.
É uma edificação extraordinária de estilo rústico, erguida pelos imigrantes alemães muito antes da construção das fábricas.
A fachada de madeira envelhecida se sustenta sobre pilares de caibro que demarcam toda a extensão do alpendre elevado, circundado por balaústres pintados de verde-musgo que emprestam cor aos patamares da escada e aos beirais que selam o telhado de cerâmica vermelha, de onde emerge a ponta da chaminé branca.
Em ambas as laterais, há janelões de moldura escura, e uma porta estreita nos fundos. Árvores de várias espécies loteiam a propriedade, escoltada por picos e silhuetas ralas de montanhas. Quando chego à frente do casarão, meus pais e meus avós estão próximos ao Chevette marrom, estacionado a poucos metros da sebe podada à meia altura.
Minha mãe ampara o impacto do meu corpo com um abraço providencial, já me envolvendo numa manta de malha, embora seja verão. Carregando uma cesta com sobras do almoço e do lanche (assado de porco, salada de batatas, strudel, gugelhupf), meu pai manda que eu me despeça dos meus avós. Entretanto, eles insistem que passemos a noite, temerosos pelas nuvens carregadas que avançam sobre os montes.
Meu pai recusa o convite, alegando que tem de abrir a loja mais cedo que o habitual, que ainda tem de terminar o balanço da semana, e entramos no carro.
Pelo vidro do porta-malas, eu vejo minguar a imagem de dois velhos preocupados.

Alguns quilômetros depois, no meio da descida da serra, fomos pegos pela tempestade.
De uma hora para a outra, as nuvens inquietantes, que ameaçam o fim de tarde com rugidos ao largo, transformaram tudo ao redor num sorvedouro.
Rajadas furiosas de vento acertavam o carro por todos os lados, munidas com chuva grossa, folhas e galhas que explodiam contra a lataria.
Em velocidade baixíssima, meu pai fixava as mãos no volante tentando controlar a direção, com os faróis altos acionados contra o véu cinzento. Minha mãe, católica, de cabeça baixa pedia proteção para uma medalha de Santa Rita de Cássia.
Circulava uma eletricidade ruim dentro da cabine.
Um medo irradiado pelo mutismo e as respirações nervosas, uma espécie de asfixia.
Com o rosto colado no vidro embaçado, eu não conseguia enxergar nada adiante.
Não era possível distinguir os limites da estreita estrada sem acostamento, as raias das curvas sinuosas. Os únicos indicadores de que não estávamos avançando rumo ao precipício eram os relâmpagos regulares que se refletiam na pista alagada.
De repente um galho grosso acertou em cheio o capô e correu sobre o teto, no curso quebrando um dos braços do limpador de para-brisa.
Tomado de assalto, meu pai freou bruscamente, afrouxando o controle do volante que guinou para a direita. Sem resistência, o carro começou a adernar.
Meu pai lutava para estabilizar as rodas de volta ao eixo, mas era preciso uma força sobre-humana, que naturalmente ele não tinha, de modo algum.
O carro girava, a direção já não detinha comando.
Então, com o peito apoiado no volante e o rosto pressionado de sangue, meu pai começou a gritar para que abríssemos os vidros das janelas.
Todos, rapidamente.
Aterrorizado, agarrei a manivela ao meu lado e comecei a rodá-la com toda energia contida num menino. Não tive chance de reduzir a metade da altura.
O jorro que invadiu a pequena fresta atingiu o centro do meu rosto, me derrubando do banco de trás com agressividade. Com os vidros abertos, o exterior inundado teve permissão de nos atacar com sua voragem, sua extravagância.
Em segundos, a cabine estava encharcada, nós estávamos encharcados.
Destroços do temporal espiralavam por toda a parte parecendo pássaros selvagens presos num espaço apertado, lutando por liberdade.
Minha mãe berrava, horrorizada.
Meu pai berrava, pedindo calma, numa inútil tentativa de combater a impotência.
Eu berrava, deitado de costas no banco de trás. O pavor me fez mijar nas calças.
O irônico é que justamente o vidro que eu não consegui descer acabou funcionando feito um leme, e a pressão do vento detido foi empurrando o carro de volta ao meio da pista.
Com o controle retomado, meu pai arriscou e aumentou a velocidade.
Deslizamos serra abaixo, patinando sem segurança a cada curva, na iminência de batermos num possível deslizamento na estrada. O vale abaixo, inundado pela desclaridade da noite precoce, soprava agouros de garganta aberta.
Foi então que se entremostrou, por trás da parede de água, a silhueta luminosa do posto da polícia rodoviária. Meu pai suspirou, minha mãe agradeceu à santa.
A poucos metros, porém, o carro bateu num bolsão d’água, perdeu o controle e rodopiou.
Um ônibus que vinha atrás não conseguiu desviar a tempo e atingiu o lado do carona.

Com o impacto, eu fui arremessado contra o teto, abrindo um corte fundo na testa. Meu pai teve uma luxação e algumas escoriações. Nada grave.
Minha mãe, por outro lado, ficou presa às ferragens.
A nosso favor, havia uma unidade móvel dos bombeiros estacionada na saída da praça de vistoria e o atendimento foi praticamente imediato.
Outros veículos de pronta-emergência chegaram minutos depois.
Me lembro de estar passando por uma sutura na carroceria aberta da ambulância e divisar, contra a chuva manchada pelas luzes bicolores das sirenes de socorro, minha mãe sob um forte facho amarelado, sendo retirada do carro e transferida para uma maca logo coberta por uma proteção plástica, cingida por um grupo de paramédicos.
Além dos cortes e das concussões, o acidente causou fraturas em ambas as pernas, no braço esquerdo e na mão direita, além de deslocamento da bacia.
Minha mãe passou por cirurgias emergenciais de algumas horas.
Com a reprodução da notícia do acidente, parentes e funcionários da loja correram para o hospital e se prontificaram a doar sangue. A estadia na UTI durou uma semana, depois foram mais seis meses entre total imobilidade e início das atividades fisioterápicas.
Aos domingos, eu e meu pai íamos visitá-la.
E, apesar da saudade, do vazio que se renovava pela casa a cada conclusão de dia, o que mais me feria era vê-la daquele jeito, presa às maquinas, confinada naquele quarto esterilizado de móveis diminutos e um televisor de baixa polegada em preto-e-branco, sabotando sua dor, sua angústia, seu medo, para tentar mostrar interesse pela minha rotina medíocre.
Ela sempre pedia para eu levar as minhas lições escolares, livros de leitura e um saco de balas boneco, que devorávamos à surdina. Nos minutos finais da visita, pedia ao meu pai para ficar sozinha comigo. Aí perguntava sobre a minha semana, se a dinda, que tinha ido morar conosco a fim de auxiliar meu pai a administrar a loja e a vida de um filho pela primeira vez após oito anos, estava agindo correto comigo.
Minha mãe sempre chorava na despedida.
E quando pressionava o meu rosto contra o dela, tatuado de cicatrizes frescas e hematomas, eu sentia o cheiro ferroso do sangue coberto pelo iodo dos curativos.

No domingo em que só se falava sobre o festival de música, meu pai nos surpreendeu e anunciou, ainda na entrada do quarto, que ela iria para casa conosco.
Houve um leve alvoroço, prontamente censurado pela enfermeira de plantão.
Com platina nas duas pernas e o braço imobilizado em gesso, minha mãe saiu empurrada sobre uma cadeira de rodas, que meu pai teve dificuldade de acomodar no porta-malas do carro novo, um Monza Hatch azul-marinho.
Seguimos direto para casa. O percurso foi marcado por um silêncio longo, a tensão por estarmos revivendo a cena pela primeira vez após o acidente.
Fomos recepcionados pelos meus avós, alguns tios e amigos que haviam preparado uma festa de boas-vindas, menos a dinda que tinha ido assistir ao show da Nina Hagen.
Ao chegar, minha mãe pediu que a levasse para uma volta pela casa. Em seguida, fez um breve discurso emocionado, desculpou-se pela indisposição e se recolheu num dos quartos de hóspedes que meu pai adaptou, no primeiro andar, para o seu tratamento.
Durante três meses, minha mãe continuou a se locomover unicamente sobre a cadeira de rodas. A enfermeira vinha todos os dias para lhe dar banho, trocar as camisolas, as roupas de cama, aplicar injeções, fazer os curativos e auxiliar com a fisioterapia.
Nesses instantes, não me era permitido entrar no quarto. Em todo o restante do dia, exceto o período em que estava na escola, passava sentado ou encolhido sobre a beirada do colchão, flanando com ela por lembranças evocadas pelas altas doses de analgésicos, enquanto me afagava a cabeça com a mão sadia.

A recuperação foi lenta e dolorosa. No inverno, as sequelas do acidente ficavam piores e, do meu quarto, no andar de cima, a ouvia gemer durante toda a madrugada.
Meu pai dormia num sofá sem conforto, próximo ao leito. Apesar disso, não abria mão de fazermos o desjejum juntos, ignorando o explícito incômodo da minha mãe por estar suja, fedida, privada da capacidade de pentear os cabelos, corar o rosto, pintar os lábios e as unhas, como gostava, de cores vibrantes.
Mas não era por mal.
E ela sabia que não era por mal. Portanto nunca protestou.
E quando voltou a caminhar com o auxílio de muletas, era ela que não abria mão de tomarmos o café da manhã na cozinha ao invés de, inadequados, ao redor da cama.
Minha mãe queria estar bem, recuperar-se e, em momento algum, mesmo com o corpo governado pelas máquinas hospitalares, hesitou ou esboçou desistência.
Com o máximo de independência que se pode adquirir com um par de muletas, obrigou meu pai a confiá-la toda a contabilidade e as resoluções administrativas da loja. Passava horas no escritório, cuidando dos balanços semanais, dos contatos com os bancos, da comissão dos funcionários e dos telefonemas para os fornecedores.
Sentir-se responsável, útil, retomando de alguma forma as rédeas do negócio, foi recompondo o que estava fraturado e hibernado dentro dela.
Logo pediu para voltar a dormir no quarto de casal, onde meu pai a levava, escada acima sobre os braços todo o fim do dia, e a descia, da mesma forma, todas as manhãs.
Eles tinham uma brincadeira que era só deles.
A visita da enfermeira passou a ser menos regular.
Me recordo de uma manhã, quando me preparava para ir à escola, surpreender-me ao encontrá-la à boca do fogão, fazendo panquecas doces. Sob os primeiros raios de sol que se infiltrava pela fresta das cortinas de plástico, de repente, a redescobri linda.

Então, inesperadamente, voltou a ficar doente.
Um mal-estar acompanhado de febre que foi se agravando severamente dia após dia, ao ponto de voltar para o primeiro andar, depender da assistência integral da enfermeira e de o meu pai chamar de volta a dinda para a casa.
Era como se mantivessem uma criatura naquele quarto que a aterrorizava constantemente.
Gritos ecoavam dali, também do banheiro, gritos ecoavam de toda a casa.
Na manhã do meu aniversário de nove anos, depois de ser amparada até uma cadeira arrumada em frente à mesa da cozinha decorada com um bolo comprado em padaria, minha mãe teve um ataque e foi levada às pressas para um hospital de emergência e não voltou para casa durante algumas semanas.
No mesmo dia, eu fui mandado para a casa dos meus avós em Petrópolis, onde fiquei três meses sem qualquer notícia concreta do estado de saúde dela.
Quando retornei, minha mãe estava em casa, porém eu não podia vê-la ou saber sobre ela. Por mais que implorasse, era definitivamente proibido entrar no quarto.
Um ano e meio após o acidente, meu pai me acordou, com olhos infiltrados de tristeza, e contou que minha mãe havia morrido no andar de baixo, no quarto adaptado para a cura.
E embora ele não tivesse dito naquele momento ou censurado minha suspeita de que tinha sido em decorrência dos cortes, dos ossos quebrados, da criatura dor, a morte da minha mãe foi causada por algo muito pior, que somente me seria contado anos depois.

Faço o caminho para casa a pé. Cinco quadras até a rua residencial, de paralelepípedos, onde desponta o sobrado de dois andares em que nasci, fui criado e vi minha mãe morrer.
Contra o céu de chumbo sem estrelas, a antiga construção se assemelha a uma figura recortada em cartolina e rasurada com carvão.
A escuridão mina da estrutura, inundando a curta distância do portão à varanda, exceto pelo contorno luminoso de uma janela baixa interposta pela porta principal.
É um modelo de assombramento. Algo, à primeira impressão, abandonado, oco, destituído de habitação, caso eu não morasse ali.
Quando minha mãe morreu, tudo que vicejava em sua órbita foi também morrendo aos poucos: os animais, o jardim, os móveis, a casa.
Hoje apenas fantasmas transitam pelos cômodos frios e vazios, presos a um impulso que faz com que reprisem as mesmas intenções.
Eu sou um fantasma e estou preso à memória.

Sinto falta das tardes de sábado. Quando a loja de sapatos funcionava em meio expediente e minha mãe se preservava de acompanhar o meu pai.
O que trago na memória de mais elementar nesses sábados são os acordes. Os primeiros compassos infiltrando-se no sono, puxando-me daquela camada aconchegante com melodias aceleradas que surdiam do andar de baixo da casa.
Eu era um menino de sete, oito anos, e ainda de pijamas, agarrado a um pequeno cobertor com a cabeça do Topo Gigio, descia, sonolento, os degraus da escada, sendo envolvido pelo ritmo alegre que vinha do toca-discos na antessala.
O concerto sempre começava com Beatles, Elvis, depois vinha The Fevers, Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis, a ordem em que tinham sido anteriormente guardados os elepês.
Por um tempo, eu ficava estacionado entre o patamar e pórtico apenas sentindo a música energizar meu corpo adormecido, depois cruzava a sala até a cozinha onde sabia que estava minha mãe e seu sorriso radioso.
Minha mãe sempre usava vestido nos sábados, tinha os lábios pintados de vermelho e os cabelos encaracolados arranjados com um lenço, caprichosamente.
Logo que me via, abria os braços e gritava bom-dia como quem saudava a manhã e sua claridade cintilante que invadia as janelas e as portas abertas, revelando as verdadeiras cores dos objetos de decoração, os metais e os espelhos.
A casa tinha som, cor e cheiro.
Pois com a mesa do desjejum ainda posta, minha mãe picava o alho, os tomates e a cebola, crestando o fio de azeite para preparar o molho vermelho que cobriria o espaguete, recendo o ambiente com um aroma único que, se eu fechar os olhos agora, posso sentir rastejando pelo meu rosto.
O barulho do atrito dos pneus do carro subindo o acesso à garagem anunciava a chegada do meu pai, que sempre escondia no bolso um pirulito Zorro para mim.
Era o tempo dele se lavar, e logo estávamos sentados à mesa, comendo sem boas maneiras, contanto que eu não falasse com a boca cheia ou usasse as mãos para pegar a comida.
Meu pai se encarregava de lavar a louça e encher as canecas com vinho, enquanto minha mãe reabastecia o toca-discos e eu subia até o meu quarto para pegar o passatempo com o qual iríamos compartilhar a tarde.
Sentados no chão da sala, em torno da mesa de centro, nos divertíamos com Banco Imobiliário, Jogo da Vida ou Ludo. Meu pai sempre tentava trapacear nos dados, mas minha mãe nos defendia, prontamente empurrando-o com o pé descalço e depois sorrindo com ele desmoronado sobre o tapete, como que atingido fatalmente.
Era comum, quando isso acontecia, pularmos sobre meu pai e nos engalfinhávamos, disputando risadas e cócegas, até ele reagir.
Com presunção de campeã, minha mãe se levantava sacudindo os braços e soprando os indicadores conforme canos de revólveres, em seguida saía para escolher outro elepê, abastecer as canecas e me trazer uma tigela de creme gelado feito em casa.
Acho que, na verdade, ninguém nunca ganhou naqueles jogos.
Já noite, minutos depois de ser acomodado na cama, eu me esgueirava dos lençóis e seguia, na ponta dos pés, até o patamar da escada onde, escondido atrás dos balaústres, ficava ouvindo a fricção dos pés descalços no assoalho da antessala, no andar de baixo.
À meia-luz de um abajur de curta irradiação, meus pais dançavam embalados pela suave melodia de uma orquestra de jazz, dois corpos exaustos e espremidos.
De onde eu me escondia não conseguia vê-los, apenas a projeção de suas sombras alongadas, rodopiando pelo teto do cômodo adjacente feito insetos fascinados pela refulgência.

Agora todos que completavam aquele quadro estão mortos de uma forma ou de outra.
Não há cores ou melodias nos sábados, ou em qualquer outro dia, somente o cheiro rançoso do ar confinado, do desleixo para com a poeira que se condensa numa textura aveludada sobre os móveis e os objetos sem uso, de outros tempos.
A casa foi tomada por sombras.
Planos obscuros que revestem as paredes, as pinturas e os retratos enquadrados, espraiando-se das molduras tal um tipo de vírus incurável.
Um organismo capaz de se multiplicar ante o abandono e a melancolia, deteriorando gradualmente cada espaço com uma substância cinzenta, compacta.
Alguns cômodos, no primeiro andar, já estão intransponíveis, a ponto de a porta sequer abrir. O primeiro andar está perdido, afinal.
No segundo, meu quarto ainda resiste, salvo pelas vibrações que conservei dos objetos e a ternura que eles conservam de mim. Ali estão referências de um tempo em que a casa respirava, vivia. Não mais. A casa morreu conosco dentro ou não existe mais dentro de nós.
Uso a minha chave na porta principal e entro como, se ao cruzar a soleira, não me desse conta e tivesse novamente saído, rumo à noite.
É noite dentro da casa.
Caminho me valendo das silhuetas dos móveis e da configuração familiar. Atravesso o living e avanço pelo corredor estreito, tateando as paredes manchadas por contornos vazios de molduras, até estacionar à beira da escada.
Dali enxergo o facho artificial que foge da antessala, fatiando a escuridão.
Sigo e, à medida que avanço, o silêncio vai sendo quebrado por um rumor infrequente, mecânico, de alguma forma associado à intensidade da luz.
É ele, eu sei.
Encosto no umbral e o vejo pelas costas, estirado no sofá alheio ao televisor que reproduz sua programação impessoal. Tem a cabeça inclinada, coroada pela calvície, dorme. Desde a morte da minha mãe, meu pai se exilou nesse estado dormente, frouxo.
Não teve mais ânimo, emudeceu, passou a apostar nas coisas simples. Ocorre que as coisas simples são as mais terríveis, pois são elas que devoram o tempo. Meu pai é o que restou. Se esqueceu de si e, por conseguinte, se esqueceu de mim, da casa, da loja. Falimos todos.
É irônico como os homens tendem a construir casarões, fábricas, fortalezas, e todos acabam apertados numa mesma caixa de madeira lacrada.
O caixão da minha mãe ficou tampado durante o velório, e algumas pessoas tiveram receio de se aproximar dele. Eu não pude vê-la, dar um beijo de despedida.
A última vez em que vi minha mãe, ela estava com o corpo sugado, coberto por manchas púrpuras e quase sem cabelos, retorcendo-se de dor no chão da cozinha, no dia em que eu completava nove anos.
Meu pai dorme em frente à luz fria do televisor. Sinto a frialdade da sua sombra que passa ao meu lado e se projeta na parede nua atrás de mim.
Fico ali por um tempo, depois me afasto.
No movimento, me recordo do sítio, da sensação inefável da correria. Penso em correr.
Todavia, na escuridão, é inevitável nos movermos lentamente.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.

 

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92ª Leva - 06/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Luiz Navarro

Um tempo que gira sem parar. E cada instante desfrutado tem a capacidade de se manter perene quando as experiências vividas são assimiladas com certa dose de leveza. Mesmo sabendo que frequentemente somos tomados por visões que nos desafiam, ainda assim cabe perceber tudo com serenidade. São bons combates aqueles que travamos na busca pelas palavras. São dignos combates os que mantemos na construção de imagens que representam o mundo em que vivemos. Nos últimos anos, autores e artistas variados fizeram da nossa revista um espaço de convergência de sentimentos de mundo. É como se precisássemos de suas vozes para atestarmos que todos estamos amalgamados pelas mesmas razões. E quando a revelação vem, entendemos que a arte é, sobretudo, uma forma de ultrapassarmos as barreiras dos mistérios. Talvez por isso o ato de criar seja um duradouro processo de reconhecimento não somente daquilo que vislumbramos alcançar, mas também do que nunca dissemos conscientemente a nós mesmos. Há um casamento de particularidades do ponto de vista de quem cria e quem recepciona as obras produzidas. Nesse movimento de dupla via, o grande efeito é supor o que o outro não pensou. É transpor barreiras de interpretação até mesmo como se uma nova obra surgisse a partir do que originalmente nos foi apresentado. Enquanto a tradição nos dá referências, a intuição, somada a nossas revoluções internas, redimensiona nossas percepções sobre as coisas. Assim, vamos tecendo um longo e imprevisível caminho de descobertas, cuja marca maior está sustentada no desejo de conceber a arte como um verdadeiro movimento de autoconhecimento.  Hoje, ao celebrarmos oito anos da Diversos Afins, sentimos que permanece bem vivo o propósito de fazer da revista um território efetivo de aproximações. Seguindo esse fluxo, novos criadores fazem da 92ª Leva seu habitat natural. Gente como o amazonense Luiz Navarro, que com suas fotografias põe em evidência as faces ignoradas de um mundo. Dentro das janelas poéticas aqui apresentadas, vigoram os versos de Regina Azevedo, Paulo Sérgio Lima, Carla Diacov, Inês Monguilhott e Carlos Barbarito. Compartilhando as marcas de sua vivência literária, o editor e poeta Gustavo Felicíssimo é o nosso entrevistado de então. No Aperitivo da Palavra, o livro de Lima Trindade é objeto da leitura sensível e atenta de Sérgio Tavares. O escritor Geraldo Lima celebra o teatro de Ariano Suassuna. Com sua devoção à sétima arte, Larissa Mendes nos conduz até o mais novo filme do diretor espanhol David Trueba. Nos ambientes da prosa, Andréia Carvalho, Lima Trindade e Márcia Barbieri desfilam as densas narrativas de seus contos ante nossos sentidos. Das paragens goianas, o rock lisérgico da banda Boogarins exibe seus acordes em nosso Gramofone. Aos nossos leitores e colaboradores de todas as eras, dedicamos mais uma especial edição. Boas leituras!

 

Os Leveiros

 

 

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92ª Leva - 06/2014 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Registro histórico de um sentimento sem nome

Por Sérgio Tavares

 

 

Há uma força imagética no subtítulo escolhido por Lima Trindade para o seu novo livro, que se espraia além das bordas que confinam a significação a qual se relaciona o título, ‘O retrato’ (P55 Edições, 46 páginas). A princípio, parece claro que capturar o tempo é o que sustenta esse impulso paginado, porém tudo adquire outra perspectiva ao se topar com o complemento ‘Um pouco de Henry James não faz mal a ninguém’. A menção ao escritor estadunidense do século XIX dispara uma série de imagens e conexões bibliográficas de uma zona temporal específica, das quais o enredo se contamina apenas com a imanência e não com o espaço da figura do personagem evocado. James não está presente em momento algum, mas é uma referência conceitual e estética determinante para a história. Ou seja, o autor não se preocupa com o que se vê, mas a interpretação do que é visto.

‘O retrato’ pode ser lido como um conto comprido ou uma novela, ainda que a finura tenha substância para suportar os alicerces linguísticos que constituem a estrutura romanesca. A trama, dividida em três partes, inicia-se com um casal de brasileiros excursionando pela Lisboa contemporânea, em meio a um grupo de diferentes nacionalidades e motivações turísticas. Numa visitação guiada, um dos personagens, o narrador, decide conhecer o museu anexo à igreja de São Francisco, onde se encontram as catacumbas. Lá, fará uma descoberta surpreendente, de caráter sobrenatural. Por conta da brevidade do texto, não cabe aqui revelar mais detalhes, para não comprometer o fio que se tenciona até o desfecho. No entanto, a sombra do autor de ‘A volta do parafuso’ deixa pistas que Lima Trindade sabe utilizar com maestria, conquistando dualidade semelhante a da leitura da novela mais celebrada de James.

A partir de então, a história dá um longo salto para trás, até Portugal de 1900, durante o reinado de D. Carlos de Bragança. O narrador passa a ser um serviçal da corte, um ajudante de campo que traça, com seu olhar de restrito alcance, um panorama desarticulado dos costumes da monarquia e dos movimentos que contextualizam o espírito da época em que vive. Do mesmo modo, a prosa ganha um tom mais coloquial, reconfigurando a narrativa em densidade e lirismo, uma preocupação latente em sofisticar a descrição dos ambientes e refinar o desenho dos personagens e a construção dos diálogos. É notório o longo esforço de pesquisa feito por Lima Trindade, na busca de detalhes e situações que, mesmo alheias ao eixo temático, incidem no poder de concisão da história. Entretanto, não há aqui um tipo de cleptomania literária. Nada é furtado, mesmo que involuntariamente, da realidade para abrir espaço para se preencher com ficção. O tecido histórico é usado como cenário para a análise de uma erupção subjetiva, algo que se mostra parecido com amor, só que não conserva todas as características intrínsecas ao sentimento, uma intimidade entre dois mundos desiguais apresentada de maneira primorosa.

Essa liberdade não para com os fatos, e sim para com os atores da época, deixará na terceira parte, de volta ao presente, a dúvida se o que se passou foi uma reinterpretação ou a transcorrência de uma história paralela. Lima Trindade parece propositalmente sobrepesar essa carga de sugestividade, instigando o leitor a fazer o seu próprio retrato do que acabou de ler. “Não havia nenhuma segurança quanto à veracidade daquelas informações”, suspeita o narrador; e todos suspeitamos, ao final. De fato, se há alguma certeza, é de que uma narrativa tecida com tamanha precisão acaba por servir de moldura para o autorretrato de um escritor maduro, inteligente, com domínio técnico pleno. Fazendo jus a seu título (e ao belo projeto gráfico), um registro intemporal de literatura de alta qualidade.

 

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente.