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146ª Leva - 01/2022 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – DE LÁ ATÉ AQUI (2011-2021)

 

 

O cantor, compositor e instrumentista capixaba Silva celebra uma década de serviços prestados à música brasileira (boa parte deles registrados pelo Gramofone) com um álbum de releituras de suas canções. Como bem disse o artista em um de seus tweets: “10 anos é muita coisa. Mas é só o começo também”. Sem delongas, de forma orgânica, com voz e violão — e no máximo com um violino ou um “tecladinho”, o mesmo que o consagrou no início de carreira, quando disponibilizou o EP Silva (2011) na internet — o disco passeia por uma dezena de anos de seu (já vasto) repertório. De Lá Até Aqui (2011-2021) compila 10 faixas acústicas sem ordem cronológica, sem obviedades e (quase) sem hits: novos arranjos dão frescor a algumas parcerias, covers e b-sides.

A única canção inédita, Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim (meu caminho não é reto pra lá/ninguém me falou onde é que ia dar/eu saí com a certeza de errar/cheguei pra não voltar), abre o álbum sintetizando a própria trajetória de criador e criatura, que tem suas raízes calcadas na música erudita, porém já transitou por diversos gêneros. Canções recentes como No Seu Lençol, do antecessor Cinco (2020), mesclam-se com outras antigas como Cansei (cansei dos inquilinos/da minha solidão/olhar você dormir/não é compensação), do álbum de estreia Claridão (2012), que aqui despe-se de toda sua roupagem eletrônica, ficando impressionantemente ainda mais bonita. Fazem parte do álbum também versões de músicas um pouco mais populares, inicialmente lançadas em parceria, caso de Um Pôr do Sol na Praia, gravada com a funkeira Ludmilla em 2019, e Pra Vida Inteira, dueto com a baiana Ivete Sangalo, em 2020.

 

Silva / Foto: divulgação

 

Os destaques ficam a cargo de Não É Fácil, do impecável repertório de Silva Canta Marisa (2016), e o “achado” Amantes (eu conto as horas/que faltam para o dia que vem/não quero mais/dividir esse amor com ninguém), canção de 2000 do grupo de axé Ara Ketu, que como o próprio nome sugere, aborda as agruras de não ser o(a) parceiro(a) oficial de seu grande amor. A canção fazia parte dos shows da turnê de Bloco do SilvaAo Vivo (2019) e aparece completamente repaginada da original — com uma intro a la Roberto Carlos — e talvez soe inédita para grande parte do público. Completam o álbum Ainda, de Vista Pro Mar (2014), que mantém o mesmo ar intimista, e Sou Desse Jeito, de Júpiter (2015), que perdeu todos os sintetizadores e ganhou visceralidade com um solo de violino — que lembra um trecho de A Visita, seu primeiro sucesso. Cabe ainda toda a doçura de Duas da Tarde, do disco Brasileiro (2018), grande divisor de águas que aproximou Silva da tropicalidade e de um universo tão popular quanto seu nome.

Todas as faixas de De Lá Até Aqui ganharam clipes em P&B e estão disponíveis no canal do artista no YouTube. Gravado inteiramente em sua casa na região serrana do Espírito Santo — na companhia do irmão e parceiro musical, Lucas Silva — , a residência serviu também como locação da produção audiovisual. Como diz um trecho de Pra Te Dizer Que Tô Feliz Assim, o caminho sonoro de Silva nunca foi “reto pra lá”. Suas andanças e experimentações musicais o trouxeram “de lá até aqui” e ainda o levarão muito longe. Com todo o mérito, o futuro de Silva é promissor, deliciosamente incerto e recém começou.

 

 

 

Larissa Mendes e o Gramofone têm muito orgulho em acompanhar Silva de lá até aqui, e muito provavelmente, daqui pra frente também.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Gramofone

Gramofone

por Larissa Mendes

 

SILVA – CINCO

 

 

“A música é o meu chão. É onde eu encontro sentido para as coisas e para esse mundo tão controverso. Fazer música, em sua grande diversidade de sentidos e significados, é a minha razão de viver. Hoje, vivendo de música, nunca imaginei chegar tão longe. E já que tão longe cheguei, chego também ao meu quinto disco autoral, que muito intencionalmente se chama Cinco. Cinco sou eu, Silva, com 5 letras e Lúcio, também com cinco letras (…)”. Numerologia à parte, o fato é que Silva chegou e permaneceu. O menino capixaba e tímido de Claridão (2012) deixou a barba crescer em Vista Pro Mar (2014)  e  Júpiter (2015)  e deixou também de ser promessa para hoje figurar como um dos principais expoentes da nova música brasileira. Lançado em dezembro nas plataformas digitais, Cinco – décimo álbum de carreira, incluindo quatro discos ao vivo e Silva Canta Marisa (2016) – traça uma continuidade natural do seu antecessor de estúdio, Brasileiro (2018). Finalizado durante a quarentena, Silva, que já havia lançado Ao Vivo em Lisboa no primeiro semestre, celebra genuinamente, mais uma vez, o amor e suas facetas: chegadas e partidas, idas e vindas, do encantamento a depois do fim, com serenidade, esperança e um pouco de sarcasmo.

 

Silva / Foto: divulgação

 

O ska sessentista Passou Passou, primeiro single divulgado, tem clipe em plano-sequência com o músico equilibrando-se em uma tiny house em movimento, enquanto despede-se em tom de deboche de um amor que tem que ir embora de sua vida. O suingue de Sorriso de Agogô (tira essa poeira dos olhos/vem pra ver como nasceram os sonhos/o depois a gente faz é agora/não dá pra adiar) e No Seu Lençol (como se fosse um dia bom/você sorriu e é bem melhor/morar aqui no seu lençol) evidenciam a tropicalidade do álbum composto com o sempre parceiro Lucas Silva, em passagem dos irmãos por Caraíva (BA). Enquanto a densa Pausa para a Solidão (pausa para a despedida/já não sei como expressar/que não encontrei saída) exalta com maturidade o fim de um ciclo, Não Vai Ter Fim (o amor é parte de tudo/é parte do mundo/é parte de mim) parece saída do repertório de Roberto Carlos e se não houvesse pandemia, possivelmente o compositor dividiria os vocais com o Rei em seu especial de fim de ano. A canção de quarentena Jogo Estranho (trancado nessa casa/acendo meu cigarro/e pego um violão/olhando da janela/eu tomo um outro trago/dessa solidão) contrasta com a sensual Facinho (eu gosto e fico tranquilo juntinho/cama, sofá ou de pé, de ladinho/ai, isso é bom, muito bom, já parei de contar), espécie de ska em dueto com Anitta, repetindo a parceria de Fica Tudo Bem, gravado com a funkeira em Brasileiro.

A balada Você (é que quando acordei de manhã/eu tentei te esquecer/e esqueci que o querer é um mar turbulento/não tenho um alento, nem sei velejar) e a bossa Quimera (pra que sentir/coração feito de água/não vou mentir/a saudade me naufraga/quando acalmar/e eu nem sequer te lembrar/vou amar de novo) relacionam poeticamente a saudade aos movimentos do mar. Se a acústica Não Sei Rezar (ainda é cedo pra falar de amor/é melhor fingir não ser/não quero atropelar você, meu bem/e por tudo a perder), ironicamente, mais parece uma prece, tamanha simplicidade e beleza, Furada (eu sei qual o seu perfume/sei que é bom/mas não, não vou mais cair na cilada/você finge ter poderes que não tem/ai, ai, essa sua lábia é furada) diverte como a troca de mensagens com um “contatinho”. O disco conta também com a participação do icônico João Donato no jazz Quem Disse (tem coisas que a vida nos dá/tem coisas que são como um dom/é dom te querer e depois/vou te requerer) – que tem lindos arranjos de sopro e piano e do profeta do Grajaú, Criolo na “afro-baiana” Soprou (te vejo no céu/te sinto no ar/no vento uma brisa que vem me acalmar). Além de dividir os vocais com Silva, o rapper compôs a segunda parte da letra, com versos como “controverso diverso disperso/tua pele na minha é verbo/minha boca na tua é luar”. O delicioso samba Má Situação (eu nunca me importei/com as coisas que não sei/somente com você/que não conheço/já tenho um grande apreço) dá o tom final em ritmo de amor platônico: que atire o primeiro bilhete único quem nunca se apaixonou por um(a) desconhecido(a) próximo à plataforma de embarque.

Há que se destacar também o projeto Bloco do Silva (2019) turnê onde o cantor revisitou o melhor dos hits carnavalescos, sobretudo dos anos 90, passando por sucessos do axé, frevo, samba e MPB , o que lhe rendeu desenvoltura suficiente para transitar com tanta despretensão pela brasilidade de Cinco. O álbum marca ainda o rompimento do artista com o selo SLAP (Som Livre), o que talvez explique o ritmo frenético de lançamento de seus álbuns em apenas uma década de atividade. As 14 faixas do trabalho destrincham com ritmo, poesia e refrão(!) o sentimento mais puro e complexo que carregamos no peito. E os irmãos Lúcio e Lucas, como bons artesãos a serviço da música, traduzem de forma orgânica e atemporal tal engenhoca. Então, tire essa poeira das orelhas e ouça Silva (5 letras), agora (5)!

 

 

Larissa Mendes, 13 letras, tem na música o seu céu.

 

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

Mais uma etapa de encontros consolida-se na Diversos Afins. Nossa missão editorial ganha corpo na medida em que conseguimos expandir as fronteiras do diálogo. Atrair pessoas e fazê-las expressarem as suas epifanias pessoais é algo relevante. Cada colaborador que se une ao nosso projeto ajuda a compor um vasto e incessante mosaico de sensações. Nada é linear. Se somos seres distintos, carregando uma determinada marca de individualidade, é porque no somatório das ações não damos crédito à conformidade das coisas. A concordância plena não passa de um devaneio sem forças para seguir adiante. É na multiplicidade do pensamento que tudo ganha mais vigoroso sentido. Quão fabulosa é a literatura na medida em que consegue fazer desfilar tantas mentes de características diferentes. Ao fim, o que cada autor vem apresentar aqui na revista é a sua capacidade única de vislumbrar a existência.  Por vezes, quantos de nós não explicitamos o desejo de construir uma obra semelhante a de alguém? No entanto, essa vontade, movida por um sentimento de identificação, mais uma vez reafirma o poder da diferenciação entre as pessoas. Definitivamente, nenhum criador é igual ao outro. Daí, a grandeza da arte sob os seus mais variados aspectos. Hoje, com a participação valiosa de escritores e artistas, completamos 106 investidas à frente da revista. Importa saber que há o eco singular da voz de poetas do quilate de Rita Medusa, Airton Souza, Roberta Tostes Daniel, Ana Peluso e André Rosa. Vale a pena contemplar as sutilezas humanas expostas no trabalho da fotógrafa Sinisia Coni. É recompensador ouvirmos o que tem a dizer o nosso entrevistado de então, o experiente músico Sabará, baterista, professor e verdadeiro símbolo da cultura baiana há mais de meio século. No quesito prosa, Vanessa Maranha, Caio Russo, Aden Leonardo e Geraldo Lima vêm fazer do mundo um observatório de ideias e outros tantos contextos. É Guilherme Preger quem nos chama atenção para a elaboração do filme “Táxi Teerã”, nova produção do diretor iraniano Jafar Panahi. Larissa Mendes destaca a marca das sonoridades de “Júpiter”, mais recente disco do cantor e compositor SILVA. “O beijo na parede”, romance de Jeferson Tenório, é cuidadosamente sondado pelo olhar apurado de Sérgio Tavares. No âmago de cada imagem ou palavra que compõe a nossa mais nova Leva, a vida assume contornos próprios. A vocês, caros leitores, ofertamos mais um experimentar de sensações. Boas leituras!

Os Leveiros

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – JÚPITER

 

Silva - Capa

 

Se em Claridão (2012) eu já afirmava que o capixaba Lúcio da Silva Souza não pretendia soar elitista, apesar de sua formação erudita, é em seu terceiro álbum, Júpiter, que minha “profecia” se confirma. Lançado no Dia da Consciência Negra (20 de novembro), novamente pelo selo SLAP (Som Livre), SILVA recolhe seus sintetizadores, despe-se de preconceitos e apresenta um “planeta” pop e acessível a todos seus habitantes. Algo até certo ponto esperado depois de seu flerte com Lulu Santos & Don L (pseudônimo do rapper Gabriel Linhares Rocha) na canção Noite, já com alguns lampejos espaciais, lançada no primeiro semestre. Nas 11 faixas, todas assinadas por SILVA e pelo irmão Lucas, exceto a regravação de Marina, o músico gravita mais romântico do que nunca, versando sobre o amor e seus contratempos, porém não teme em explorar/conquistar novos ritmos e públicos. Concebido na estrada, durante a turnê de Vista Pro Mar (2014), entre voos e quartos de hotéis, o artista revela-se minimalista e atual, como confessa em carta divulgada em sua página do Facebook.

Silva
SILVA em performance do clipe Eu Sempre Quis, primeiro single de Júpiter / Foto: divulgação.

Júpiter (Júpiter pode ser começar de novo/se por lá não houver esse mesmo povo /que só quer controlar o que a gente quer/e o que a gente só quer/é amar), faixa-título, convida o ouvinte a fugir para o maior planeta do Sistema Solar, talvez numa alusão à mudança sonora que o álbum se propõe. A faixa conselheiro-amorosa Sufoco (ninguém é de ninguém/pare pra pensar/o amor pra existir têm que respirar) adverte que é uma canção sobre desapego e não sobre desamor. Eu Sempre Quis (querer não é amar/mas é sempre um bom começo/amor, eu sempre quis/desde quando te conheço) – primeiro single lançado é uma balada tão envolvente quanto a malemolência de SILVA e sua dancinha no videoclipe da canção. Feliz e Ponto surge com um suingue provavelmente herdado da viagem do músico à Luanda (que rendeu o clipe de Volta, canção de Vista Pro Mar e um curta-metragem denominado Angola, narrado pelo artista e voltado ao ritmo kuduro). Io, espécie de vinheta instrumental do álbum, confirma todo o fascínio de SILVA pela música clássica.

O segundo bloco do álbum tem início com as reflexivas Sou Desse Jeito (um dia eu percebi que era o meu jeito/tão diferente assim do seu conceito/é o que existe em mim/não é defeito) e Nas Horas (a gente faz tudo ser real/você e eu noite a clarear/há quem duvide do verbo amar/eu já rezo o verbo todo). Na sequência, Se Ela Volta (se o nosso amor foi mais que amizade/vou te ouvir abrir o portão), talvez seja interpretada como a continuação da letra de Janeiro, canção do álbum anterior que abordava o amor platônico entre amigos. Um dos pontos altos do disco fica a cargo de Marina, regravação do clássico samba-canção de 1947, de Dorival Caymmi, que ganha uma roupagem eletrônica, refletindo o SILVA que conquistou a todos em Claridão. A sensual Deixa Eu Te Falar (eu tenho tanta coisa pra dizer/habitar você/é meu plano A) dá a deixa para Notícias (eu vou seguir pra onde houver ar puro/junto de uma gente que quer encontrar/algum lugar, um rumo/se eu ficar aqui eu vou desatinar), que encerra a obra em ritmo cadenciado de secretas boas novas (quando eu chegar/não vou mandar notícias).

Em seus 36 minutos de execução, Júpiter surge como uma obra minimalista, visceral e libertadora, onde o multi-instrumentista supera a timidez e dá vazão a toda sua verve de intérprete, algo também evidenciado na série de shows intitulados “SILVA canta Marisa Monte”. Misturando pop, eletrônico, MPB e R&B, SILVA mostra sua maturidade simplificando arranjos e samples e versando sobre o amor e suas agruras sem soar piegas. E como enfatiza a mesma carta publicada no Facebook, Júpiter, “trata-se não de um espaço, lugar ou planeta definido, e sim uma alegoria: é um lugar onde o amor tem a possibilidade de vencer, sem adiamentos ou desculpas”. Boa viagem a todos nós.

 

 

 

Larissa Mendes é sagitariana, também regida por Júpiter.

 

 

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90ª Leva - 04/2014 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Nathalia Bertazi

 

E pensar que o silêncio é sempre o misterioso senhor a preceder o verbo. Há, por certo, uma carga emblemática nesse intervalo que sugere a criação. Muitas revoluções se processam no interior de quem gesta tanto palavras quanto imagens. Antes que tudo venha à tona, um primeiro estado das coisas emerge enquanto matéria bruta a ser lapidada. Para um autor, nunca é demais fazer operar estágios revisionais de seu pensamento, sobretudo quando está envolto pelo manto da chamada angústia da criação. Nela, ele descobre que deve tentar extrair o máximo de sua possibilidade de visualizar cenários. É algo que se assemelha também a um estado de alerta, no qual aquele mesmo criador tenta, ao máximo, afugentar certezas traiçoeiras. Sendo assim, aquele que se julga pronto é fatalmente trapaceado pelo falsear do tempo. Do mesmo modo, a tentativa, até certo ponto exasperada, de se erguer uma obra monumental também retira de muita gente a capacidade de trilhar os caminhos da naturalidade. E tanto as vias literárias como as da arte necessitam de uma entrega espontânea e pouco projetada das rotas a seguir. Isso não significa suprimir o desejo de se imaginar numa esfera futura da criação, mas apenas conter o ímpeto limitador de alguns devaneios que furtam a mínima noção da existência complexa de um mundo circundante. Tanto no que diz respeito à poesia quanto à fotografia, a obra de um autor como Ozias Filho vem retomar a noção do silêncio à qual nos referimos na introdução destas breves reflexões. E são dois os momentos em que Ozias nos oferta caminhos de compreensão sobre o tema: numa entrevista e nas leituras de alguns de seus poemas agora aqui publicados. Seguindo os novos ventos poéticos instaurados, lemos também Rosane Carneiro, Seh M. Pereira, Fernanda Fatureto, Márcia Abath e Susana Szwarc. No caderno de cinema, Guilherme Preger assume a complexa tarefa de expelir suas impressões a respeito de “Ninfomaníaca”, novo filme do polêmico cineasta dinamarquês Lars von Trier. Múltiplos recortes da existência também vêm se juntar aos contos de Nelson Alexandre, Lisa Alves e Maria Balé. Num convite à leitura, Sérgio Tavares demarca suas impressões sobre “Não Muito”, primeiro romance de Bolívar Torres. O mais recente disco do cantor e compositor SILVA é alvo das pormenorizadas escutas de Larissa Mendes. Pontuando todos os espaços dessa nova edição, o caráter sublime das fotografias de Nathalia Bertazi fala de amplitudes e convergências. Que o produto da criação seja sempre um revelador de espantos e descobertas, caros leitores! A todos, uma 90ª experiência de percepções.

 

Os Leveiros

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90ª Leva - 04/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – VISTA PRO MAR

 

 

‘(…) Basicamente é isso. “Vista pro Mar” surgiu numa tarde ensolarada em uma piscina – como se fosse um caso de amor adolescente, daqueles que nos rende um ano de dor de cabeça criativa… E terminar um disco é como reencontrar aquele amor adolescente anos depois, mais velha, mais madura e bonita e pensar: “Acho que vou chamá-la pra sair”’. (SILVA)

 

Se depois da tempestade vem a bonança, podemos dizer que depois de Claridão, vem Vista Pro Mar. O denso e minimalista álbum de estreia do cantor e compositor Lúcio Silva Souza – ou simplesmente SILVA – tem como sucessor um conjunto de canções otimistas e ensolaradas. O músico capixaba de formação erudita continua mesclando MPB com bases eletrônicas e versando sobre o amor e suas vertentes, de maneira que se confirmam todas as expectativas em si depositadas como o novo nome da música nacional. O artista continua também dividindo a parceria das canções com o irmão Lucas Silva, seu letrista predileto. Gravado em Portugal, as onze faixas de Vista Pro Mar possuem 48 minutos de duração e soam muito mais orgânicas do que as canções de Claridão (2012), disco gravado praticamente de modo artesanal e solitário.

Produzido pelo próprio músico (e com uma bela arte gráfica), o álbum foi revelado aos poucos, antes do lançamento oficial, através de quatro singles: Janeiro, É Preciso Dizer (que ganhou clipe rodado entre França e Portugal), Universo e Okinawa, parceria com Fernanda Takai. Mais melódico, coeso e com menos manipulação eletrônica, Vista Pro Mar reafirma o processo de amadurecimento do artista e propõe certa reinvenção precoce: SILVA poderia repetir o óbvio experimentalismo para burlar a síndrome do segundo disco, mas não, a densidade do álbum de estreia agora dá vazão a momentos elaboradamente despretensiosos. Disponível no iTunes, o registro físico foi lançado em abril pelo selo SLAP, braço independente da Som Livre. No mesmo mês, SILVA apresentou-se no Palco Ônix, na 3ª edição do Lollapalooza Brasil e prepara-se para tocar no Rock in Rio Lisboa, em maio.

 

Show de SILVA no Lollapalooza Brasil 2014 / Foto: Eduardo Magalhães

 

Um trio de metais em Vista Pro Mar, canção-título, abre o álbum com otimismo e valentia, anunciando que ‘não há mais maré baixa em mim’ e que ‘eu sou de remar/sou de insistir/mesmo que sozinho’, para em seguida declarar (-se), na melódica new age de É Preciso Dizer, que ‘esse mar já deu ’ (é preciso dizer/quando olhas assim/uma coisa me atropela/dentro o peito). A irresistível Janeiro e seus instrumentos de sopro mantêm uma cadência festiva numa típica história de amigo que gosta da amiga, tem medo de perder a amizade, mas não aguenta mais calar o sentimento (justamente no mês em que é sempre tempo de [re]começar). Entardecer possui um clima praiano de pôr-do-sol, com o barulho das ondas e um pseudo-reggae no final, que informa que ‘pra nós/não é questão de sorte’ e ‘o que há de ser/sim, será’. Okinawa, dueto com Fernanda Takai, apresenta um tom acústico-oitentista e o refrão adverte sobre a fragilidade das relações (faz chuva, esconde o horizonte/a cada vez que você não vem/não vale se amar tão de longe/é de perto que a gente se faz um bem).

A segunda metade do álbum destaca o pop dançante de Disco Novo (já amei, amei/também já desanimei/insisti em não lembrar/depois lembrei), candidata a hit e talvez a melhor canção do álbum. Se Universo aborda um mundo particular entre duas pessoas que não precisam ‘fazer tipo’ (o que eu quero/é sua companhia/o restante a noite faz), Volta (quem é de mim não se esconde/nem recusa o meu olhar), e seu quase assobio eletrônico-oriental, fala de um provável regresso. Na sequência, a romântica Ainda – bossinha com canto de pássaros – contrasta com a malemolência de Capuba. Maré encerra o disco com a mesma satisfação que um belo dia se despede nas areias, com os aplausos dos súditos ao astro-rei. Em dias nublados de verão ou ensolarados de inverno, definitivamente SILVA é som de todas as estações. É amor que sobe a serra.

 

 

Larissa Mendes gosta mesmo é de sombra e água fresca.

 

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77ª Leva - 03/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes


SILVA – CLARIDÃO

 


O cantor e compositor capixaba Lúcio [da] Silva Souza – vulgo SILVA, assim mesmo, em maiúsculas – carrega no nome a brasilidade de um som universal. Se à primeira vista, alcunha e letras soam minimalistas, é na riqueza sonora que o músico derrama toda sua eloquência. Com uma formação musical erudita calcada em piano e violino, Lúcio mescla clássico e moderno, pop e experimental, orgânico e sintético. Lançado em outubro pelo selo SLAP (Som Livre), Claridão, seu álbum de estreia, figurou em várias listas de melhores de 2012, o que valeu ao jovem músico de voz suave o prêmio de melhor cantor do ano, concedido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Ainda ano passado, sem mesmo ter gravado o disco, o artista teve a oportunidade de se apresentar no Sónar São PauloFestival Internacional de Música Avançada e New Media Art – em sua segunda edição brasileira. O multi-instrumentista conta com a parceria do irmão e letrista Lucas Silva para compor (sempre em português) os quase-poemas que parecem preencher suas elaboradas notas de MPB de vestes eletrônicas.

Com algumas alterações instrumentais, 5 das 12 faixas de Claridão pertencem ao seu elogiado EP lançado em 2011 e disponibilizado via web, enquanto as inéditas conferem o tom de unidade que talvez faltasse na ocasião. Vale ressaltar que mesmo com o respaldo de uma grande gravadora, o músico não perdeu sua essência caseira, optando por registrar o álbum de forma quase artesanal, revezando-se entre voz, piano, violão, guitarra, violino, percussão, sintetizadores e programação eletrônica. Os vinte e poucos anos e a doçura do rapaz de Vitória contrastam com a segurança impressa em Claridão, fazendo de SILVA nome e sobrenome da autenticidade.

 

SILVA / Foto: divulgação

Se a apocalíptica de batidas modernas 2012 abre o álbum sugerindo o otimismo do artista diante do caos (gosto mesmo do incerto/pode ser belo o feio visto de perto/o avesso às vezes dá certo), a ritmada Falando Sério reitera sua ambivalência (não curto o tédio/mas ele é tão “cute” em você). A eletro-erudita Cansei, possivelmente uma das melhores canções, dita a tônica mais poética do álbum, juntamente com as intimistas Ventania e Posso. Aliás, certa melancolia – pontual ao longo de quase todas as faixas – está presente também na atmosfera etérea de Mais Cedo, que fecha a primeira metade do álbum. Enquanto a dançante Claridão, que intitula o disco, possui elementos de uma espécie de drum’n’bass oriental, em determinado ponto o instrumental folclórico de 12 de Maio lembra os americanos do Beirut. Acidental e Imergir, ambas integrantes do EP do cantor, possuem um tom mais delicado e um lirismo peculiar. A graciosa e penúltima faixa Moletom (não quis o frio de só te ver/agasalho é ter você) parece aquecer o ouvinte tal qual o tecido da canção. Com som de cantiga de ninar ao violino e ukulele, a bela A Visita, composta ainda em sua passagem de estudos pela Europa, encerra Claridão de forma mais orgânica e alegre, demonstrando toda a versatilidade do artista.

Comparado ao britânico James Blake e aposta entre os nomes da nova geração, talvez a dificuldade de se rotular a sonoridade de SILVA seja proporcional à quantidade de referências acumuladas pelo músico, que, apesar da formação e refinamento melódico, nunca pretendeu soar elitista. Seria redundância (e exagero) afirmar que Claridão é um lampejo de criatividade no atual cenário musical brasileiro?

 

 

 

 

 

(Larissa Mendes carrega no DNA o silva de qualquer brasileiro que se deixa ofuscar pela boa música)