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74ª Leva - 12/2012 Jogo de Cena

Jogo de Cena

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEATRO DE ARTHUR MILLER

Por Geraldo Lima

 

Arthur Miller / Foto: Monica Almeida

 

Devemos nos alegrar sempre com o surgimento de um dramaturgo que consiga explicitar, de modo criativo e contundente, as múltiplas facetas das relações humanas.  E que o faça de tal modo que o espectador, diante do palco, sinta-se instigado a refletir profundamente sobre si mesmo e sobre o mundo em que habita, embora toda a ação dramatizada ali transcorra num cenário e numa cultura bem diversa da sua. Arthur Miller, autor de algumas das peças mais importantes da cultura ocidental, pode ser citado como um desses dramaturgos fundamentais para entendermos a alma humana.

Arthur Asher Miller, filho de um casal de imigrantes judeus polacos, nasceu em Nova Iorque, no ano de 1915, e faleceu na cidade de Roxbury, estado de Connecticut, em 2005.  Viveu, portanto, um longo período e pôde, como dramaturgo, jornalista e cidadão norte-americano, vivenciar momentos dramáticos da História humana e do seu país, como a Segunda Guerra Mundial e a Crise de 29 (ou Grande Depressão).

Este último fato histórico teve impacto direto na vida do autor de A morte de um caixeiro-viajante porque afetou, diretamente, a vida financeira de sua família: seu pai, empresário do ramo têxtil, viu-se falido e obrigado a mudar, com a família, para o bairro do Brooklyn. Esse acontecimento dramático na vida do autor vai ser retomado na peça Depois da queda, mais precisamente no embate entre o protagonista Quentin e o seu pai surpreendido pela bancarrota dos negócios.  A peça é, na verdade, um acerto de contas do autor com o seu passado, e esse confronto entre pai e filho, num momento de crise financeira, representa o que Arthur Miller viveu na juventude, daí Quentin poder ser tomado como seu alter ego. Desse modo, o teatro que ele vai desenvolver refletirá, sobremaneira, a sua experiência de vida.  Sem cair, obviamente, no mero registro autobiográfico: a crítica feroz ao american way-of-life e às injustiças sociais impostas pela competitividade capitalista estão no cerne de boa parte de sua obra teatral.  Um exemplo claro disso encontra-se na já referida peça A morte de um caixeiro-viajante (Death of a salesman), escrita em 1949 e pela qual ganhou o prêmio Pulitzer.

Nessa obra, de uma carpintaria dramatúrgica impressionante, o ambiente naturalista vai sendo envolvido pouco a pouco pelo onírico e pelos efeitos delirantes da memória do protagonista, o caixeiro-viajante Willy Loman. Miller retrata a queda desse homem, cujos alicerces éticos e morais foram erguidos sobre a frágil segurança da mentira e dos sonhos de grandeza, com rigor psicológico e olhar crítico.  São “fraturas no sonho americano’, nas palavras de Otavio Frias Filho, que vão sendo expostas nesse caso. Diante das atitudes do protagonista, somos levados, pelo talento dramatúrgico de Arthur Miller, a dupla reação: ora aderimos à sua causa, ora nos opomos a ele com quase nojo. Aderimos à sua causa ao percebermos que ele está sendo engolido pela máquina capitalista e sem se dar conta disso. Mas rejeitamos, com veemência, o modo com que ele, na posição de pai e marido, vai, ao longo do tempo, estragando os filhos e sujeitando a esposa ao seu comportamento obsessivo, egoísta e estúpido. O conflito familiar que se instaura aí, com uma força assustadora, é resultante dessa cultura forjada a partir das exigências de um sistema econômico que leva alguns indivíduos a buscarem de forma predatória o seu lugar ao sol. O fracasso de Willy Loman, como pai, marido e caixeiro-viajante, expõe, assim, a fragilidade de um projeto de vida cujo valor maior se encontra alicerçado na supremacia da aparência física sobre a do conhecimento sistematizado – este último, representado pela figura vitoriosa do jovem Bernard. São palavras de Willy dirigindo-se aos filhos Biff e Happy: “Foi isso mesmo que eu quis dizer, o Bernard pode ter as melhores notas da escola, entende, mas quando sair para o mundo, entende, vocês dois vão estar cinco vezes na frente dele.  Por isso é que eu agradeço a Deus do céu vocês dois serem feito dois Adônis”. No entanto é ele, Bernard, que, trilhando o caminho apontado pelo sonho americano, triunfa como advogado.

Arthur Miller e Marilyn Monroe / Foto: Evening Standard/Getty Images

Dentro do otimismo do sonho americano não há lugar para fracassos, não há lugar, enfim, para indivíduos como Willy Loman. As palavras da professora Daise Lilian Fonseca Dias, no seu artigo “O fracasso do sonho americano em A morte do caixeiro-viajante de Arthur Miller”, iluminam mais ainda o que foi dito: “Seu sonho fracassou porque estava centrado na fantasia e em ideias tão vagas e contraditórias quanto as que seus antepassados idealizaram e que até hoje impulsionam o homem americano para uma busca frenética pelo sucesso econômico, sem, contudo, permitir a ideia de um fracasso”.

O teatro de Arthur Miller desnuda, de forma corajosa, todas essas contradições presentes no arcabouço do tão propalado sonho americano. Miller é, ainda, nas palavras da professora da Universidade Federal de Campina Grande, Daise Lilian Fonseca Dias, “o poeta da consciência política”. Essa sua consciência política estava, de certo modo, ligada às ideias comunistas. Por conta disso, em 1956, após ser denunciado pelo diretor de teatro e cineasta Elia Kazan, viu-se intimado a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso. Num gesto de extrema nobreza, recusou-se a apontar colegas ao Comitê. Na peça Depois da queda (After the fall), o autor enfoca, de maneira crítica, essa passagem lamentável da História da democracia americana. E é sobre essa peça, a cuja montagem tive a oportunidade e a felicidade de assistir em Brasília, no teatro do CCBB (Centro Cultura do Banco do Brasil), que falo na resenha abaixo:

 

Um Arthur Miller de encher os olhos

O bom texto teatral, como qualquer obra de arte, é aquele que nos faz penetrar num mundo vasto, do qual só podemos emergir outro. Uma obra assim nos permite perceber as relações humanas nos seus mais diversos matizes, dos conflitos amorosos ao embate político ou ideológico, da amizade mais sincera à traição que sempre aniquila. Vemos o ser humano, nesse caso, em sua plenitude: capaz de mesquinharias e de gestos heroicos. Tomando emprestado o discurso de Nietzsche, humano, demasiado humano, é assim que o vemos. A sua alma vaza pelos poros. Ali, no palco, na figura dos atores e das atrizes, a vida se descortina assustadoramente bela e trágica diante de nós. É para fora do nosso eixo de comodidade que somos arrastados todo o tempo. É nossa consciência que é fustigada sem trégua.

Tudo isso pode ser atribuído à peça que Arthur Miller escreveu após a morte da atriz Marilyn Monroe, com quem foi casado de 1956 a 1961. Depois da queda, escrita em 1964, mostra, de modo impiedoso e, às vezes, bem-humorado, o cenário político dos Estados Unidos durante a caça aos comunistas (e aqui o autor dessacraliza também a visão romântica do intelectual engajado), sua relação com a família e, obviamente, com o mito Merilyn Monroe. Arthur Miller não fala diretamente da sua vida. É na figura de Quentin, um advogado bem sucedido, e de Maggie, uma pop star depressiva, que ele traz à tona o seu passado.  É, claramente, uma obra autobiográfica, mas que vai além do expor os percalços amorosos e familiares do autor.

Depois da Queda / Foto: Daniele Avila

 

Esta nova montagem da peça do dramaturgo norte-americano, ganhador do Prêmio Pulitzer de 1949, tem tradução e direção de Felipe Vidal e conta com a participação de um elenco afinado: Simone Spoladore, por exemplo, se sai muito bem no papel de Maggie/Marilyn Monroe. Lucas Gouvêa (Quentin/Arthur Miller), com memória invejável, leva sua fala ácida e caudalosa de ponta a ponta sem grandes escorregões. Gostei, particularmente, da atuação da atriz Thais Tadesco (Holga, Rose): sensível e ágil na passagem de uma personagem a outra. Repito: o elenco é afinado. E é isso, aliado à qualidade magistral do texto, que faz com que o espectador se mantenha ligado durante as três horas de duração do espetáculo.  A peça fez sua estreia nacional aqui em Brasília no dia 19 de outubro de 2012, no CCBB (escrevo esta resenha no dia 10 de novembro, um dia antes de ela encerrar sua temporada por estas bandas). Daqui, parte para uma turnê nacional (só não sei se será apresentada apenas em teatros do CCBB).  Fiquem, portanto, bem atentos, pois este é um espetáculo teatral imperdível.

(Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo. Tem alguns livros publicados, dentre eles Baque (contos, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado (peça de teatro, Ponteio Edições).  É colunista dos sites Dona Zica tá braba, O BULE e Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha. Brasil. 2010.


 

“(…) Mas só viveu de fato quem conheceu luz e sombras”.

É inquestionável que O Bandido da Luz Vermelha (1968), primeiro longa-metragem de Rogério Sganzerla, então um jovem crítico de cinema de 22 anos, tornou-se um manifesto do denominado cinema marginal. O filme – baseado na história de João Acácio Pereira da Costa, lendário assaltante de mansões paulistanas que usava um lenço para cobrir o rosto e uma lanterna de bocal vermelho – revela todo o experimentalismo, estrutura díssona e estética radical que romperam o tradicionalismo narrativo da época, ignorando censura e mercado e conquistando público e crítica. Endossado por nomes como Ozualdo Candeias, Andréa Tonacci, Júlio Bressane e João Silvério Trevisan, os marginais foram grandes entusiastas da ironia e da subversão da linguagem cinematográfica brasileira. Pressionado pela ditadura militar, o movimento teve seu fim em meados da década de 70, com vários cineastas exilados na Europa. Sganzerla faleceu em 2004, vítima de um tumor cerebral, mas deixou como legado o que seria o roteiro original de uma continuação deste clássico: Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, adaptado anos depois pela atriz Helena Ignez (viúva do cineasta e sua eterna musa) e transformado quase em projeto familiar, produzido e protagonizado pelas filhas do casal.

Jorge Prado – uma das identidades do Bandido da Luz Vermelha – ou simplesmente Luz (Ney Matogrosso) é um prisioneiro de si mesmo. Condenado a 300 anos de cadeia e recluso há 30, o “malandro forçado pelas circunstâncias” viu sua pena gradativamente reduzida (e suas regalias atendidas) de acordo com os crimes não-resolvidos que assumia ser autor. Os mais atentos logo questionarão: como pode Luz estar preso se ele morre eletrocutado no filme de 68? Ao que o próprio detento protesta enquanto assiste a cena: “– Não foi assim que eu ensaiei pra morrer!”. Jorge Bronze (André Guerreiro Lopes), codinome Tudo-ou-Nada, é filho de Luz, fruto de seu relacionamento com Olga (Sandra Corveloni), uma das muitas mulheres que realizam suas fantasias sexuais em visitas íntimas na prisão. Tudo-ou-Nada ingressou na marginalidade ainda moleque, cometendo pequenos furtos antes mesmo de saber sua filiação famosa. Após a revelação da mãe, torna-se uma espécie de sucessor de Luz Vermelha (ou de Michel Poiccard, em referência ao personagem de Acossado, de Goddard), tanto na indumentária criminal quanto ideológica, cujo lema é “ouro ou euro”.

Ney Matogrosso na pele do Luz Vermelha

Vale salientar que em nenhum momento Ney Matogrosso fica intimidado pela sombra de Paulo Vilaça (o bandido original): o cantor está magnífico e totalmente entregue no papel de um Luz Vermelha enjaulado e amargo, que se exercita com aparelhos improvisados, lê Além do Bem e do Mal, de Nietzsche, recita Kant em espanhol, declama com veemência profundas reflexões sobre a prisão e a vida, e faz uma performance de seu próprio Sangue Latino. O longa (que à primeira vista pode ser confundido com título de terror) conta ainda com rápidas participações de Bruna Lombardi, Maria Luísa Mendonça, Simone Spoladore, Paulo Goulart, Sérgio Mamberti, Arrigo Barnabé, José Mojica Marins, Thunderbird e Criolo. A própria Helena Ignez está no elenco como Madame Zero, uma antiga confidente de Luz, assim como sua filha Djin Sganzerla, que interpreta Jane, personagem homônima e semelhante (inclusive fisicamente) ao de Helena no primeiro filme. As “Janes” são namoradas, respectivamente, de bandido-pai e bandido-filho e protagonizam a mesma cena a bordo de um Galaxie conversível em direção à praia.

Menos que uma sequência e mais que um remake (além da inserção de cenas do original, estrutura, planos e mesmo determinados diálogos se mantêm idênticos), Luz nas Trevas é um tributo a criador e criatura. Montado em 2010, o filme participou de alguns festivais e sofreu vários cortes até chegar a sua versão definitiva, lançada oficialmente sem muito alarde somente este ano. Dirigido por Helena Ignez em parceria com Ícaro C. Martins, a película revisita e reverencia um artista e sua principal obra que – mais de 40 anos depois – continua moderna e transgressora. Mantendo o discurso político do filme referencial, através de locuções radiofônicas sensacionalistas (com narrações também de Helena, Ney Latorraca e Gilcivan Carvalho) e de uma coletânea de frases de efeito (várias delas em letreiros luminosos), Luz nas Trevas permanece criticando a mídia e a polícia, o sistema carcerário (“numa penitenciária ninguém se penitencia de nada”) e a justiça brasileira (“os grandes espertalhões do Brasil não vão pra cadeia”). Definitivamente o cinema-herança do catarinense Sganzerla segue vivo, contestador e atemporal. Se há luz nas trevas [da prisão], por que não haveria originalidade na aparente mesmice?

 

 

 

 

(Larissa Mendes é catarina de berço, turismóloga por opção e cinéfila convicta)