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81ª Leva - 07/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Tere Tavares

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Ambição

O corredor da sala ficaria com o azul rosado, o quadro das embarcações. Para o quarto distante e agora mais feliz levaria as tulipas aquáticas que antes eram da sala. Na onda embranquecida pela violência do mar já se haviam dizimado os motivos do choro. O coro de lamentos sumira no lume da primeira embarcação – máscaras e caracóis vestidos na véspera. O vazio prenhe de elipses entre decisão e ardor, ascendia num horizonte lívido de silêncios sem voz. Quisera correr e agarrar-se aos remos com os braços fortes de outrora. Quisera haver ainda sais para remar a vontade de parar.

 

 

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Som

Esquecera há quanto ocultara na falta de tempo as leveduras do pó e seus milhões de ouvidos. Abriu o compartimento de onde viriam as notas. Um clique. Debussy. Massenet. Guardava o som na memória que esquecia títulos, composições. Só a melodia a vagar o sentido que não oblitera. A leitura disforme e veloz como as mudanças tecnológicas. A fome por som continuaria somente até a segunda ideia navegar a distância da aproximação, portas presentes. Meditação para Thais e Clair de Lune. Viu partituras. Ouviu piano, violino. E segregou-se no retrato de um homem que possivelmente teria amado.

 

 

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Debrum

Revestia-se humílima no breu da razão onde esmigalhara vertigens irresolutas, esmiuçada no equilíbrio de uma desordem no fio dos lábios exultando um ontem mínimo e indispensável à perfeição do hoje, hígido, servil. Estremeceu a voz numa hiperbólica vigia “ah se não fosse se não viesse se parasse o que possui dores”. Via no branco espalmado apenas a liberdade feita de algemas. “E esse céu que se vai tecendo num fulcro de impossível”. A fadiga solúvel, uma fragrância irrecusável de alecrim e calêndulas – um gesto súdito a reveste derramando-lhe um cetim consútil – sua noite de pêssegos.

 

 

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Eco lógico

O peso do elo pode não ser um pesadelo. Na urgência que tem para que o tempo demore já não demora nem retorna à raiz a árvore que cai – apenas o corte finge que o cinge quase esquecido do seu gosto de nozes. Como uma película de lagos entre os braços tinha para si a modorra que movia. Sequer existia. Rodava nas horas que imaginava. Ramagens. O cansaço não adormecia nem o dormir acordava. Uma angústia exausta não aceita ordens; quer exaurir e o faz tombando de forma macia, sem a tristeza de não dar arborescência ao próprio reflexo.

 

 

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Açucena

Uma forma de driblar a solidão e derreter as coisas que fermentam, erroneamente refreadas – deixar um pensamento para depois é correr o risco de perdê-lo – já não ousa correr riscos nem deixar de correr porque o tempo tem pressa. Aprende a falar sozinha para não desaprender a falar, perde o apetite na proporção que lhe cresce o pássaro do peito entre roupas sujas e ninhos limpos. Quer olhar coisas onde coisas não há para estreitar… caça às escuras, entre simbioses e moedores de letras, algo que aproxime a distância entre os abraços. Do voo suprimido de asas vê o vácuo, bebe o céu. Seu sim.

 

 

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O Alienista

A perspicácia o faz ainda re-ver algumas provas. É agradável o deslindar dos pensamentos à sua frente. Fragilmente forte não reagiu quando bateu a chave com força e fez cair a porta. Talvez se assemelhasse àquela fechadura muda que lhe abriu o chão para vê-lo enrijecer o esquecimento de todas as coisas que por insegurança o fizeram útil. Um exclusivista ligou para ser ouvido. Quando quis fazer-se ouvir “só um minuto” não teve garras – seus ouvidos eram os erros da casa – os labirintos de Borges.

 

 

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O menor de todos

Eu visto outra pele sem ser a minha alma uma pele que visto. Não me escondo senão por uma timidez ou um desejo de ser o nome obtuso estreitando livremente a ameaça de mostrar-me. Como se nunca sucumbisse a luz errante da sombra. A confiança erra ao não ter compaixão. Vale a pena sonhar, me antever quase totalmente arrependida nessa terra estranha que se tornou a minha figura. Minhas fotografias são essas palavras, e algumas palavras são sapos. Não há sentidos feios, apenas almas. Não há palavras feias, apenas sentidos. Papel de bala.


 

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Mata

Num oceano de folhares o néctar vive com o trivial cerne da comoção. Quem nunca teve uma grande ferida para saciar? Toma a sua cicatriz aberta e desperta do que não é, em absoluto, um pesadelo, um caule impoluto. Uma foice cruza o último solstício tropeçando sem saber se ainda serve aos admiradores da resistência. “Melhor se não vivas” diria a teimosia peregrina ao luto das ramarias. Talvez um imbecil soubesse de matemática quanto sabe a sorte do semeador. “Não julgariam se me vivessem; sou uma eterna grade, herdeira sentenciada pela casca que me veste como quem despe”.

(Tere Tavares é escritora e artista plástica. Autora de três livros publicados: “Flor Essência” (2004), “Meus Outros” (2007) e “Entre as Águas” (2011). Integra a Academia Cascavelense de Letras. E-mail: t.teretavares@gmail.com) 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

DELIA FISCHER – PRESENTE

 

 

Quando nos deparamos com a descoberta de um disco, muitas podem ser as direções para as quais nossos sentidos apontam. Se arranjos, vocais e toda a ambientação instrumental já são, por si sós, componentes indispensáveis de um adequado conjunto sonoro, imagine os efeitos quando uma determinada obra transcende a materialidade e nos desloca para um cenário onde habita o intangível.  É o que a cantora e compositora Delia Fischer nos proporciona em seu Presente, álbum que nos conduz por uma atmosfera de sensações etéreas.

Desde seus primeiros caminhos, Presente se revela um trabalho que prima pela densidade. Tudo ali é dotado de uma força delicada e de uma maneira sublime de se sentir e perceber a vida. É como se cada canção fosse revestida de uma aura carregada de contemplação e êxtase. E não é prematuro arrematar que o fio condutor do álbum é uma vigorosa celebração da existência. Quiçá um caminho de escutas espirituais.

De imediato, duas virtudes são caras ao belo resultado do disco: a interpretação e o piano da artista. Nenhuma música passa despercebida por seu canto suave e cativo. E as composições, quase que inteiramente arquitetadas por ela, pedem uma entrega à qual Delia não se furta. Sentir faixas como Vozes no Mato, Das Plantas (com uma participação bastante especial de Hermeto Pascoal), Aluvião, Nascimento da Vênus e Sozinhesa é constatar que Presente é um disco feito de profundidades. Avançando nas escutas, não tem como deixar passar impune a força de canções como Das Águas, Mercado e Minha Avó, todas elas a construir um painel feito de memórias e apelos sinestésicos.

Sem dúvida alguma, um aspecto marcante no disco é a influência de Egberto Gismonti que, além de ser parte fundamental da formação musical de Delia, assina juntamente com ela a canção que dá título ao álbum. Outros nomes são também importantes na construção de Presente, tais como o de Pedro Mibielli (violino), Luciano Correa (cello), Pedro Guedes (violão, programação e arranjo) e Marcio Bahia (bateria e percussão).

Misturando evocações à natureza com percursos pelos recônditos humanos, Delia Fischer consolida um trabalho marcado pela singularidade. Há um caminho pelo qual um olhar sereno e poético confere amplitude ao fato de se estar no mundo. As imagens que povoam o álbum revelam que, por mais delicada que seja a vida, urge-nos atravessá-la com toda a sorte de coragem e entrega. O resto da travessia é feito de luz e mistério.