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138ª Leva - 05/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Da crise à salvação: os novos poemas de Jorge Elias Neto

Por Geraldo Lavigne de Lemos

 

 

A recente publicação de formas fixas é um novo percurso na trajetória de Jorge Elias Neto e traduz os eventos mais contemporâneos: revisão de modelos e padrões. Contudo, a intenção do autor ultrapassa o presente, pois avalia a crise que a humanidade atravessa desde o Século XX, agravada nas últimas décadas. Nesse contexto, constrói variadas situações para conduzir o leitor por este grande observatório da alma que é Sonetos em crise. A poesia da obra resulta da ânsia da palavra enquanto entidade autônoma, desde quando apenas verbalizada até a presente escrita.

O poeta anota logo de início que as mudanças acontecem em decorrência das necessárias buscas por alternativas à sobrevivência, como modo de enfrentamento das permanentes ameaças de extinção. A crise civilizatória abordada pelo autor atravessa o existencialismo e deságua na sociedade industrial de riscos e destruição, que a ciência deu azo, mas não deu cabo ainda.

Vê-se, então, um labor complexo para dar conta de tantas relações intersistêmicas: artes, desenvolvimento e sobrevivência amalgamados nestes dias presentes. Ora as rimas preciosas e incomuns apresentam o extenso léxico do autor, ora versos brancos e intertextualidades revelam o cabedal, ora a coloquialidade torna-se instrumento de intrusão e profusão na sociedade, ora os decassílabos remontam o clássico na contemporaneidade.

O Soneto em crise, que inspira o título do livro, persegue o sentido da vida e o divino, com o pesar do pecado que amaldiçoa a vida terrena. Tal maniqueísmo persiste durante toda a obra, sem esclarecer se originado na formação do próprio Jorge Elias Neto ou se utilizado como ferramenta do eu lírico para eliciar do leitor as reflexões pretendidas. Certo é que, ao longo das páginas, o poeta manifesta o conflito entre o divino e mundano, extraindo a tensão poética a partir das qualidades exigidas para ingressar no paraíso.

Nesse fazer, ele também questiona a religiosidade enquanto construção humana e utopia, ainda que essencial à vida. E do evidente conflito de racionalidade que nasce da religião, o poeta impõe o exame permanente da morte e a salvação pela arte, capaz de perpetuar um estado de sobrevivência com significado. A vida está em discussão e todos nós, enquanto leitores e viventes, somos compreendidos pela densa e irremediável temática que assombra a nossa espécie desde a mais remota inteligência.

Nem a busca pela perfeição escapa ao atento olhar de Jorge Elias Neto, rejeitando-a se porventura manchada pela vaidade. O autor quer a sabedoria e a simplicidade. Para tanto, importa deixar os espaços de poder e privilégio, bem como os espaços de conforto e segurança. Assim, ele traça a perspectiva rebaixado, donde, à margem das coisas, é possível ver por inteiro o significado dos acontecimentos. Um genuíno mergulho no íntimo e no silêncio das coisas, tornando-os despudoradamente públicos.

É um risco e tanto, e Jorge Elias Neto parece movido por uma força impávida. Contudo, essa incessante procura pela verdade é contraposta por um certo medo das consequências da razão plena. Dizem por aí que coragem é continuar o caminho a despeito do medo, e dizem igualmente que a abstração é um bom remédio para combater o choque da realidade. Suspeito que o eu lírico tomou algumas discretas doses destes absintos, pois ele segue e chega ao destino.

Acontece que a revelação exige a imersão nesse ambiente de certo torpor para conectar simultaneamente o poeta com o universo que o rodeia e o permeia. Sem jamais dissociar-se da consciência, a embriaguez é passageira e o remédio, um mero placebo. A razão cresce ao transitarmos pelos sonetos e a realidade é cada vez mais pungente. Ao cabo, ele alcança sóbrio o limiar da consciência, ainda que isso lhe custe autodefinições ultrajosas após lancinante embate. Enfim, sentindo-se vazio e diante do nada, sabe-se invencível e inteiro.

O retorno do poeta ganha luz, cores do outono e compaixão. Sim, ele retorna compassivo para nos trazer o seu relato, volta fecundo de sabedoria para aplacar o frio de seus semelhantes. Mesmo que a consciência ainda o importune, ele é esperançoso. E tal contrariedade incomodará o autor como um infortúnio. Tanto que o retorno do poeta também ganha sombra e ele deixa de ser um amedrontado para tornar-se um amedrontador, uma figura mítica e colossal a transitar entre o divino e o humano, um arauto e semideus.

A mensagem que Jorge Elias Neto porta não visa facilitar a vida do leitor, mas conduzi-lo à igual revelação, processo que pode ser tão penoso para o leitor quanto foi para o autor. Ele bem compreende o quão custoso pode ser tocar a lâmina da verdade, mas sabe também que esta é a única forma de libertar o ser humano, dando-lhe autonomia e consciência plena diante das absolutas incertezas da vida.

Diversas áreas de conhecimento se ocuparam com as balizas da existência humana valorosa e digna. Os pensadores conectaram-se com as pessoas dentro de um arco, tendo em seus extremos a objetividade e a subjetividade – e aqui leia-se a arte, conceito retomado em diversos poemas. Dito isto, entenda o curioso desfecho que o autor trará: arte e poesia são o caminho. Ainda que o leitor ingresse nessa jornada pelo poema, é a poesia o método de alcançar o que o autor pretende, renovando no leitor a forma de olhar o mundo e o tempo presente através da arte. Quem alcança a esperada revelação, ganha visão e consciência tão destoantes que, em geral, será tido como louco, quando, na verdade, será um dos poucos a vagar liberto e verdadeiramente vivo neste mundo.

Trata-se de um itinerário de purificação das pessoas e de humanização das divindades, que reduz a vaidosa autorreferência e sobreleva a alteridade, quebrando as engrenagens tradicionais e as lógicas científicas, dando espaço a um estado sobre-humano. Pode parecer estranho, todavia o poeta alcança a recriação do mesmo espaço e da mesma vida de um modo diferente, completo e outrossim imperfeito, porque tem que haver nada no tudo para que seja inteiro, tem que haver todos em cada um para que seja tudo.

 

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor de seis livros. Publicou literatura nas revistas Revista da Academia de Letras da Bahia, Diversos Afins, Mallarmargens, Subversa, InComunidade, Ser MulherArte e Acrobata, nos jornais Diário de Ilhéus (Ilhéus/BA), Fuxico (Feira de Santana/BA) e A Gazeta (Vitória/ES) e no blogue LiteraturaBR. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus, parecerista ad hoc da Editus e membro de comissão julgadora de concursos literários.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Jorge Elias Neto

 

Imagem : Roberto Pitella

 

FOLHAS SECAS DE OUTONO

 

Paixão, esta folha de outono,
luz incerta de raio obliquo,
que desperta viva no entorno
do fogo, o tremor de um aflito.

Sou um ser do outono, de um crepúsculo,
que faz brilhar o olhar dos loucos,
e faz o horizonte fecundo
ao germe melancólico

dos suicidas, dos sem afeto.
E a carne, arfando, sem um rumo,
em busca de um pouso, de um teto,

tem no rubro da tarde o lúmen,
a medida de tudo, o concreto
do frio, da origem do Mundo.

 

 

 

***

 

 

 

SONETO SEM TETO

 

O tédio faz brotar o Eu perverso,
nos cantos esquecidos dos escombros,
e da sombra, o rugido do universo
surge na boca imensa do ser manso.

Pois se o calor emana da tristeza,
e a paixão é pólvora do selvagem,
o sopro faz tremer a chama acesa,
e a urgência é a medida da voragem.

E nada sobra que se preze e guarde
àquele ser que se debate firme
contra uma vida que esmaga e late.

Resta o engate ao cerne da maldade,
sem esperança, se atirar ao crime,
e ser centelha no porvir da tarde.

 

 

 

***

 

 

 

TERCEIRA MARGEM

 

 Para Flávio Viegas Amoreira


A terceira margem, fundo do rio,
aguarda, sob as águas, cada corpo
que pesa e se desprende em voo tardio
tal sonho derramado por um sopro

que faz pesar as pernas, os embustes,
esfacelar espelhos, cortar pulsos,
rogar com desespero por abutres
de voo carniceiro sobre os justos.

E se de tanto nada faz-se o vulto
que tomba do lajedo, da encosta,
se faz estranho o peso, absurdo

o baque sobre as águas maculadas,
é que há um segredo em cada bruto,
levado para o fundo da jornada.

 

 

 

***

 

 

 

O CORADOURO ETERNO

 

O mais é esta pressa interrompida
pelo abraço apertado da tormenta,
na engrenagem que faz fluir a vida,
que traga corpo e tempo na sarjeta.

Mas a luz, que rompe as nuvens convictas,
jaz corando a réstia do que foi presa
de si para si, predador e vítima
do extinto céu, e se tornou soberba.

E o curtume divino ressentido
do rebanho que se danou no Mundo
conta as perdas das reses que, perdidas,

romperam cercas, bem a esmo, imundas
de desespero retinto, suicidas,
buscando espaço nos varais da culpa.

 

 

 

***

 

 

 

SONETO EM CRISE

 

O perdido traz a marca na testa,
esboço do nome, falso retrato,
um corno – caligrafia da besta -,
revolta e um perfil de semblante amargo.

A fala que se esforça em verso, ofensa,
um desmentir inútil do absurdo
que transpassa o ser fútil e enlaça
a criatura com seu silvo agudo,

é um fruir da morte, certeza amarga,
disfarçada em hóstia, na boca posta
do infiel na catedral, mãe das gárgulas,

pois ser temente a Deus é fuga justa
ao que nega à morte sua carne e alma
e segue, hipocondríaco, em meio à turba.

 

 

 

***

 

 

 

SOBRE CASAS E PAIXÕES

 

Para Oscar Gama Filho

 

As casas têm segredos, todas têm,
e não é por medo que silenciam.
Suspenso, nas ranhuras, o desdém
das paredes frente à paralisia

de atores ausentes, sempre despidos,
carentes de desejos, de paixões.
E as casas, sempre lá, ao pé do ouvido,
propondo encontros, vultos, revoluções.

Cada verdade tola, cada cheiro, desperdício,
faz ponderar a casa: uma mudança…
Mas só engodo surge, de novo o vício

do estalo das palavras, vis lembranças,
que nos cantos da casa, feito lixo
do não mais viril, mas da vingança.

 

Jorge Elias Neto (1964) é médico , pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria: Verdes versos (Flor&cultura editores – 2007); Rascunhos do Absurdo (Flor&cultura editores – 2010); Os ossos da baleia (PRÊMIO SECULT – 2013); Breve dicionário poético do boxe (Patuá-2014); Glacial (Patuá-2015); Cabotagem (Mondrongo-2016); Breviário dos olhos (Edição do autor – 2017); O ornitorrinco do pau oco (Cousa-2018) e Sonetos em crise (Mondrongo-2020).