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71ª Leva - 09/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Pintura: Sylvana Lobo

Imprimir ritmo ao tempo, extraindo dele a noção de liquidez necessária às palavras e imagens elaboradas pelo olhar. Eis um ponto de convergência impulsionador dos percursos da arte como um todo. Pensar assim é fazer com que o substrato das coisas sirva de norte para as criações como um todo. Aquele que escreve, por exemplo, leva a cabo um processo particular de buscas tanto pessoais quanto coletivas. Diante disso, a questão é pensar sobre a importância de se fazer convergir tais universos, colocando em eventos paralelos a perspectiva da alteridade. Indo mais a fundo, é atraente imaginar que a arte evoca um desafio permanente de externar os papéis do ser e do não-ser. Nossa ambiguidade sugere uma inquietação permanente frente a tais estados de atuação no mundo, mobilizando-nos ao nível de um sadio inconformismo. Então, como pensar um motor que move o pensamento artístico sem sentir correndo nas veias a fluidez do estranhamento? De certo, parece impossível conviver com a criação apenas no aspecto da estética ou de uma mera representação do real. Mesmo o gosto pelos mistérios que nos atravessam não serve como pretexto para uma profusão de elaborações sem sentido. É como nos diz nosso entrevistado da vez, o poeta José Geraldo Neres: como inventarmos a roda sem beber na tradição? Nesta conversa, o escritor pontua aspectos que fazem parte de uma concepção bastante especial do ato de criar, qual seja o fato de entender a obra que está por nascer como sendo um grande deserto a se cruzar, sabendo-se a todo instante passível à queda. Aqui, um ato de cair que pode significar um mergulho noutra dimensão útil da consciência. Há, por sinal, incursões dessa natureza nos versos de autores como Mariana Ianelli, Jorge Elias Neto, Ian Lucena, Bruno Gaudêncio, José Carlos Souza, Floriano Martins e Viviane de Santana Paulo. Entre as linhas tecidas pelas mais distintas expressões de agora, temos o arremate sensível da pintura de Sylvana Lobo a integrar os espaços. E quem nos guia pelos olhares em torno da artista plástica é Renata Azambuja. Seguindo em frente, o lado existencialista das palavras impera nos contos de Marcia Barbieri, Fábio de Souza e Frederico Latrão. O escritor W. J. Solha prenuncia o novo, e ainda inédito, “O Autor da Novela”, romance do paraibano Tarcísio Pereira. Nosso gramofone reproduz a qualidade do novo disco do saxofonista Leo Gandelman. A paixão de Larissa Mendes pela sétima arte traz à tona reflexões sobre o longa francês “Intocáveis”. No terreno da arte, caro leitor, há sempre muito por trilhar. A 71ª Leva mantém aceso o desejo desse pacto.

 

Os Leveiros

 

 

 

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71ª Leva - 09/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

UM MUNDO PARA CHAMAR DE MEU OU, QUEM QUEBRARÁ O SILÊNCIO?

Por Renata Azambuja

 

I

A mancha, a silhueta e a palavra.

 

Pintura: Sylvana Lobo

O desejo é começar pela primeira impressão que permaneceu, mesmo depois do segundo e terceiro olhares, deste conjunto de pinturas de Sylvana Lobo. A visão persistente de manchas coloridas, massas em preto/ silhuetas e palavras. Esses são fatos preponderantes da pintura da artista. Parece paradoxal, mas as manchas e massas funcionam, no contexto de sua pintura, como signos de visibilidade. Ajudam a contar a história que se segue; um universo cheio de alegorias.

Diferentemente do Informalismo, tendência que tratava a mancha como gesto espontâneo e improvisado, as manchas nessas pinturas não comparecem como fruto do acaso de um processo criativo. Podem ser, sim, como naquele movimento, resposta a um momento de crise. Não à maneira de uma crise mundial, como se manifestou então, ao final da Segunda Guerra Mundial, mas da ordem de uma crise na política das relações amorosas, como veremos mais à frente. Assim, não seria disparatado qualificarmos estas manchas como matéria, lançando mão dos dizeres de Argan, que as coloca como uma problemática com a qual a artista se depara, a “incerteza quanto ao próprio ser, a condição de estranhamento em que é posto a sociedade”¹.

Se ela for, então, um elemento problema com o qual se deve lidar, a mancha encontra o seu sentido mesmo: o de ser uma substância que macula algo. É o elemento imprevisto. Ou será que ela está no lugar de algo que não foi conscientemente construído?

A mancha, por ser esta matéria que ocupa lugar mostras de definição, é uma continuidade no tempo. O único indício de temporalidade é sua permanência de uma pintura a outra. Está presente em todas as cenas das pinturas, balizando a figura-silhueta. Se a mancha esconde uma revelação ao mesmo tempo em que se espraia, a silhueta delineia. Em cada pintura há uma imagem feminina.

Silhuetas parecidas com as dos retratos recortados, desenhados e pintados em papel preto de figuras em perfil, na corte francesa durante o reinado de Luis XV, no século XVIII, e que tornou-se hábito a ser cultivado entre as moças da época. A silhueta identifica a figura de origem pelo retrato que produziu; uma impressão na memória.

Pintura: Sylvana Lobo

Estando essas silhuetas postas em situ-ação, nos remetem às figuras do teatro de sombras. Se a mancha é presença que esconde, a sombra, como ausência de luz, reforça a ideia de que há algo que não quer se mostrar ou que age como duplo, um outro que está represado. A noção de obscuridade vinculada à “sombra” era algo a ser evitado e o nome “silhueta” substitui o nome “retrato de sombra”. O panorama, portanto, esconde mais do que apresenta e mesmo as cores não parecem contribuir para a mudança de cenário, pois continuam como manchas. São como nuvens escuras, densas, prontas para desaguar, sensação mais manifesta em Beije, coma e Não sou a mais bela. Estariam estas pinturas nos indicando a impossibilidade de comunicação? Seriam territórios de incomunicabilidade?

Como silhuetas que são, apontam para seres que conhecemos. As figuras solitárias das pinturas são imagens emblemáticas saídas dos contas de fadas e princesas; arquétipos de um determinado feminino, de acordo com Carl Jung e expressões de desejos recalcados, segundo Sigmund Freud. São brancas de neve, cinderelas e belas-adormecidas. Essas personagens foram construídas por Sylvana Lobo tendo em mente não as versões modernas, voltadas para as crianças, em que toda a narrativa, cheia de percalços, está a serviço de um final feliz, porém mais próximo dos contos populares, originados de tradições orais muito antigas onde a fantasia não precisa criar laços de comprometimento com uma realidade moralizante. Nessas narrativas, o texto nem sempre é aprazível e a morte, o canibalismo e o incesto, por exemplo, fazem parte recorrente das estórias que, diferente do que ocorre atualmente, tinham os adultos como público.

Karen Walker, artista norte-americana, usa a técnica de silhueta como papéis cortados, elaborando cenários em que personagens, negros escravos e brancos dominadores, se relacionam, em uma alusão a episódios ocorridos no Sul do país, antes da Guerra Civil Norte-Americana. Eles tomam parte em ações que definem social, política e historicamente. Diferenças a parte, as imagens em silhuetas nos trabalhos de Walker, como nos de Sylvana Lobo, têm o intuito de provocar o pensamento sobre o que significa a representação por imagens e como elas podem estimular uma nova formulação identitária e uma visão crítica sobre a própria realidade. “Fazer trabalhos de arte sobre raça se transforma em assunto íntimo acerca da identidade”².

Este espaço silencioso, configurado pela mancha e pela silhueta é compartilhado por palavras, frases e expressões. É como se existissem para afirmar ou por em cheque a situação vigente. Mas, ao mesmo tempo que se referem às imagens, as palavras estão lá como parte da estrutura visual, ou seja, providas de materialidade própria, o que destitui o papel de ser “as” portadoras de significado. Assim sendo, o texto escrito na tela, se transforma, conforme lemos em Pierre Francastel, em signo figurativo, também uma sentença visual que não coincide, segundo ele, com o que vemos e compreendemos.

As frases, ou pedaços delas, dão nomes aos trabalhos, confirmando a suposição de que elas, talvez, sejam fatores dominantes dessas equações visuais indicando caminhos para o entendimento das pinturas ou para a resolução da “problematicidade” que enfrenta o artista, citando novamente Argan. Algumas são frases curtas em tom afirmativo e imperativo: toque, beije, coma; outras expressas como um anúncio: precisa de um escovão e dois príncipes encantados; como perguntas: você se sente atraído por mim?; quanto vale uma vírgula? e, ainda, a título de conclusão: É melhor do que escutar eu te amo; não come (a); minha língua gorda não cabe no sapato e, não sou a mais bela. O que se apreende, afinal, é de que há um outro para quem a falas se dirige. O vedor-leitor aos lê-las, torna-se um co-partícipe?

“Escrever em primeira pessoa é uma facilidade, mas é também uma amputação”, é o que diz o protagonista do romance Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago. Distante do trabalho autobiográfico, em que o artista se coloca como o representante de outras histórias e das suas próprias, tal como é o caso de Cindy Sherman e de Sophie Calle, Sylvana Lobo fala de suas angústias e desconfortos com a expectativa de ter de se tornar uma “mulher de verdade”, como ela mesmo diz, por meio das mulheres da ficção.

II

O fio amarelo: moral da história?

Pintura: Sylvana Lobo

E o que dizer do fio amarelo que vemos em todas as pinturas? Será que se refere a algum principio moral que rege toda essa alegoria? Em Toque-o, a única pintura em que a silhueta feminina não está visível, vemos o fio amarelo enrolado ao fuso, que é agora a silhueta. Esta pintura parece ser uma espécie de matriz geradora. O objeto ocupando o lugar da moça; o fuso da história da Bela Adormecida. Fada, fatalidade, destino.

No conto de fadas, o fuso é o perigo. É o prenúncio de morte ou, pior ainda, do longo sono que é pausa para o encontro com o futuro, personificado pelo príncipe, o homem idealizado. Nas pinturas de Sylvana Lobo, o fio amarelo é sinal de alerta, é a consciência tornada objeto. Deposita-se sobre o sexo, sobre a boca, enrosca-se pelos pés, nos pulsos, transforma-se em coroa, como lembrança de um futuro que espantará o presente a ser passado a limpo, e circula o pescoço seguindo até os tornozelos de uma outra silhueta, reprodução dela própria.

O fio amarelo é a garantia de comunicabilidade nesse território de incertezas onde dormir pode significar deixar de lado o devir. Não dormir, para não acabar como personagem de uma parábola moderna. Como a que Louise Bourgeois escreveu: “Um homem e uma mulher viverem juntos. Uma noite ele não voltou do trabalho e ela o esperou. Ela ficou esperando e ela foi ficando menor, sempre menor. Mais tarde um vizinho passou por amizade e ali a encontrou na poltrona do tamanho de uma ervilha”³.

 

 

1- Argan, GC. Arte Moderna, SP: Cia das Letras, 1993, p. 542.

 

2- Disponível em The Art of Kara Walker. http:/ leran.walkerart.org/karawalker/Main/RepresentingRace. Acesso em 20/01/2009.

 

3-Louise Bourgeouis. Ela perdeu aquilo. Diário da artista, 1947.
20 de janeiro de 2009.

 

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

(Renata Azambuja é pesquisadora, curadora independente, crítica de arte e arte-educadora. É licenciada em Artes Plásticas pela UnB e mestre em Teoria e História da Arte Moderna e Contemporânea pelo City College of the City University of New York, onde defendeu a tese “Cildo Meireles: A Física do Espaço Social”)

 

Sobre a artista:

 

Sylvana Lobo é artista plástica e fotógrafa. Participou das coletivas MAB – Diálogos da Resistência – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2012 – Brasília/ DF); 18º Salão Anapolino de Arte (2012 – Anápolis/ GO); Prêmio de Arte Contemporânea do Iate Clube de Brasília – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2011 – Brasília/ DF); Semicírculo – Museu Nacional do Conjunto Cultural da República (2010 – Brasília/ DF); 39º Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba (2007 – Piracicaba/ SP); 7º Salão de Artes Visuais de Guarulhos (2007 – Guarulhos/ SP); 6º Salão de Artes Visuais – Museu de Arte Contemporânea de Jataí (2007 – Jataí/ GO); XXIX Concurso Novos Valores – Fundação Jaime Câmara (2006 – Goiânia/ GO); Vetores – Museu de Arte de Goiânia (2005). Participou das individuais O IBRAM e seus museus (2010 – Brasília/ DF); de cabelos longos, sentada na relva – Galeria da Faculdade de Artes Visuais – UFG (2009 – Goiânia/ GO); Foto Arte (2008 – Brasília/ DF); Madame Bovary sou eu (2008 – Brasília/ DF).