A Diversos Afins é puro movimento, dinâmica que teima em render frutos que nos impulsionam adiante. Seu projeto editorial vem se consolidando e renovando cada vez que nos deparamos com instigantes expressões do campo artístico. E como é importante saber que os caminhos não se esgotam por si só, pois habitamos um mundo onde as vozes se mostram plurais e dotadas de acordes próprios. Aliás, o emblema da singularidade sempre foi uma marca de nossas edições, pois, a cada etapa de publicações, percebemos que surgem outros tantos olhares sobre o mundo, essa grande plataforma através da qual os sentidos emanam e se fazem presentes. Imersos em leituras das mais variadas, por vezes somos surpreendidos positivamente com o efeito que os autores imprimem a seus textos e imagens. Ao fim e ao cabo, são distintos modos de se narrar a persistente aventura humana sobre a Terra. Escritores, artistas plásticos, ilustradores e fotógrafos, dentre outros, são verdadeiros provocadores quando nos tomam de assalto com suas investidas. Mais parecem desacomodar nossas pequenas e frágeis certezas diante da vida e seus fenômenos todos. E é salutar quando a Arte atinge esse ponto de se balançar antigas estruturas e nos propõe fôlegos alternativos para saborearmos nossas andanças mundanas, pois o objeto artístico não se desvincula do ato espantado do existir. Do equilíbrio entre convites e aproximações espontâneas, brota uma nova Leva de expressões que remontam a universos pessoais bastante contundentes em seus propósitos. Pelas veredas das nossas janelas poéticas de agora, por exemplo, despontam os versos emblemáticos de gente como Marianna Perna, Marlos Degani, Ramayana Vargens, Anna Lúcia Maestri e Lisandra Crespi. São de Gustavo Rios as impressões acerca dos contos de “Gosto de Amora”, obra de Mário Medeiros. Na seara do teatro, Vivian Pizzinga nos apresenta uma abordagem sensível e convidativa sobre o monólogo “Traidor”, interpretado por Marco Nanini. Por ora, somos bem servidos de prosa com os contos de Whisner Fraga e Ailton Lima, cada um com seus horizontes peculiares. Em sua verve cinéfila habitual, Guilherme Preger incursiona pelos aspectos relevantes do filme “Anora”. O disco de estreia do rapper Yago Oproprio é destaque das apreciações sonoras e aguçadas de Larissa Mendes. O entrevistado da vez é ninguém menos que o escritor baiano Paulo Bono, que dialoga com Fabrício Brandão sob o impacto dos desdobramentos de seu mais recente livro de contos, “Pepperoni”. É Roberto dos Santos quem nos conduz pelas alamedas de “Quem falou?”, romance de André Cunha. E todos os espaços aqui aparecem abrilhantados pela exposição das ilustrações de Nicole Marra, artista que nos oferta uma possibilidade especial de mergulho na dimensão feminina das formas. Com toda essa reunião de valiosas contribuições, nasce a Leva 155. Boas leituras!
Por entre memórias e imagens: a atmosfera onírica do monólogo Traidor
Por Vivian Pizzinga
Marco Nanini em “Traidor”/ Foto: Divulgação
“Minha solidão anda tão medicada”. Essa é uma das frases que ouvimos no monólogo Traidor, dirigido por Gerald Thomas, produzido por Fernando Libonati e no qual Marco Nanini brilha em meio a conversas mentais vertiginosas, em uma verborragia crítica implacável que nos captura sem volta. Seria possível desdobrar a frase em muitas outras, elaborar uma lista do que anda tão medicado na maioria de nós e, portanto, tão insuportável, tão devastador. Seria possível também pinçar outras frases no meio do texto para seguir por elas, elaborar outras listas, fazer outras trilhas argumentativas sobre as quais um ensaio sobre o monólogo poderia se dedicar. Fato é que Traidor traz um texto cheio de originalidade, repleto de caminhos a percorrer e de pontos a aprofundar, um monólogo que nos traz solitários desabafos, memórias intrusivas várias e imagens disruptivas acompanhadas de um belíssimo show de cores que a iluminação, assinada por Wagner Pinto, nos oferece. É dessa forma que já começamos o espetáculo com um elenco de quatro atores, que irão intercalar a cena com Nanini, movimentando-se pelo breu à nossa frente e munidos de lanternas direcionadas ao chão, percorrendo o palco como se procurassem algo e, nisso, promovendo círculos luminosos que aumentam e diminuem seu diâmetro a partir da distância da lanterna. Nesse movimento, é como se tais figuras ali se dedicassem a uma busca arqueológica. Talvez o incessante diálogo mental protagonizado por Nanini seja, realmente, uma busca.
O espetáculo é mais uma parceria entre o ator e Gerald Thomas, que também assina o texto e a concepção visual. Em Traidor, Nanini está isolado em uma ilha, é acusado de algo que não cometeu e se entrega a incessantes diálogos mentais em um fluxo intrínseco ao pensamento e à relação entre o que é consciente em nós e o que atravessa as barricadas do inconsciente, sofrendo seus possíveis disfarces e suas eventuais deformações para se traduzir em algo dizível: repetições, associações livres em que uma imagem puxa outra, sensações que adquirem uma dobra imagética, lapsos, chistes.
Traidor é mesmo como um sonho, com os mecanismos a ele inerentes tal qual teorizados por Freud em sua apresentação inicial da psicanálise: o conteúdo manifesto do sonho – aquele que nos é apresentado por quem sonhou e tenta se lembrar de seu sonho – possui uma aparente lógica inteligível, que se pode acompanhar, apesar de guardar distância de qualquer linearidade confortável. O recurso à figurabilidade do sonho estaria, então, nas cenas protagonizadas por Cadu Libonati, Hugo Logo, Ricardo Oliveira e Wallace Lau, que dão vivacidade àquilo que Nanini enuncia textualmente.
Na velocidade da produção de pensamentos e memórias, Nanini passa por muitas questões atuais, que dialogam com sua vida e com a intimidade dos acontecimentos por ele vividos: menciona, logo de início, as redes sociais, como o whatsapp, o tiktok e outras, bem como os próprios aparelhos celulares em si mesmos, que carregam todas elas e se encarregam de nós em todos os lugares a que vamos. Não deixa de ser bastante curioso assistir ao espetáculo nesse momento em que tantas mudanças têm sido anunciadas na gestão dessas redes.
Foto: Divulgação
Mas o que tira o fôlego quando se assiste ao monólogo é esse amálgama incontestável entre um texto inteligente e espirituoso, ejetado de qualquer campo de previsibilidade, e uma impressionante dramaturgia, que facilmente nos arrebata. Em Traidor, nenhum dos dois aspectos deixa a desejar ao outro.
Além disso, há, no cenário, um enorme boneco, com o rosto do Nanini, que, naquele momento inaugural de iluminação parcial e paulatina do que há no palco, começa a se revelar a nós. E é com perplexidade que, quando uma parcela desse boneco aparece por instantes, voltando a submergir na escuridão, visualizamos e reconhecemos o semblante do ator, mas imenso e inerte no chão. A cenografia de Fernando Passeti também impressiona. É interessante pensar nesse enorme e curioso objeto cênico como uma metáfora e um lembrete da referência de onde tudo parte: a vivência mental e onírica do protagonista, a vida engessada pelos constrangimentos da cultura, dos hábitos, das obrigações, um corpo amarrado pelas circunstâncias do que se vive. Um corpo medicado, uma alma medicalizada, sentimentos contidos, uma vida com menos escolhas do que a publicidade faz crer.
Por fim, é preciso dizer que percorrer o monólogo em seus detalhes seria uma arriscada tarefa, apesar de se tratar de um espetáculo curto. O risco seria perder-se, não terminar nunca, não fazer jus à riqueza dramatúrgica que a peça logra produzir e, tal qual o sonhador que tenta relatar seu sonho, deformar e mutilar o brilho de um grande espetáculo. Este texto – o conteúdo manifesto que tenta fazer referência ao que senti no momento do espetáculo, àquilo que minha memória pôde reter, às associações a que pude me entregar – será sempre um disfarce do conteúdo latente de Traidor, aquele que está sendo encenado e do qual cada espectador pode se apropriar, em sua miríade de ideias e referências.
Vivian Pizzinga é psicóloga e escreve. Lançou, entre outros, “Ruído nos dentes” (Urutau, 2022, poemas) e “A primavera entra pelos pés” (Oito e meio, 2015, contos). Participou de coletâneas e revistas literárias, como da Revista Lavoura 7 (2022,impressa), Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus contra todos (Tinta negra, 2016, contos). Fez doutorado em Saúde Coletiva, no Instituto de Medicina Social (Uerj), é carioca e prefere o outono.
Cada edição que desponta no horizonte de nossa caminhada desperta sempre o gosto por ares renovados. São indicativos de que outras escutas seguem abertas e se fazem presentes. Tais inclinações nos levam a conhecer vozes do mundo cultural, subjetividades que, acima de tudo, projetam o desejo de uma existência quiçá mais plena, dado o componente de que provavelmente a arte seja, em suma, vetor de uma consciência mais ampla acerca do mundo e seus fenômenos. E não estamos aqui a falar somente da arte que intenta contemplações ou fruições estéticas das mais variadas, mas também aquela que é capaz de conectar seus protagonistas aos mais difusos anseios contemporâneos. Nesse sentido, cultura e sociedade são um par indissociável, deixando entrever desdobramentos de cunho social, político e econômico, para não mencionar outros aspectos plausíveis. É perceber que todos nós somos agentes de possibilidades vivas de transformação, condição esta que tem como ponto de partida o plano individual de cada sujeito, seu repertório pessoal. Quando essa dimensão particular se espraia na esfera pública, tomamos conhecimento do potencial que cada criador compartilha com o mundo externo. Por isso, ler, ver e sentir as obras é fundamental numa jornada como a da nossa revista, pois esse gesto revela descobertas e norteia direções que oxigenam os caminhos editoriais. É, então, com esse entusiasmo que acolhemos agora toda a expressividade marcante de poetas como Rita Santana, Karine Padilha, Luciana Moraes, Bianca Monteiro Garcia e Jussara Salazar. Nesta nova edição, somos visitados pelas fotografias de Marcelo Leal, numa exposição de imagens que remontam aos detalhes poéticos do mundo. No caderno de teatro, Vivian Pizzinga desfila todas as suas atentas impressões para a peça “A palavra que resta”. Por sua vez, Guilherme Preger traz análises importantes sobre o provocante filme “A Substância”. Com uma resenha sobre “O inquilino das horas”, livro do poeta Nílson Galvão, Maruzia Dultra nos convoca a expandirmos nossos territórios de leitura. Numa entrevista especialmente centrada em seu mais novo livro, o escritor Marcus Vinícius Rodrigues dialoga com Fabrício Brandão sobre seus processos criativos. Nos cadernos de prosa, os contos de Cecília Vieira e Rodrigo Melo denotam diversidades inventivas. O livro de poemas de Kátia Borges, “Dias amenos”, recebe os mergulhos valiosos de Sandro Ornellas. Como não poderia faltar, gira na agulha de nosso Gramofone o mais recente álbum do pianista Amaro Freitas, com um texto que revela as apreciações de Rogério Coutinho para esse importante trabalho do artista pernambucano. Eis a nossa 154ª Leva. Boas leituras e que venham instigantes ventos culturais em 2025!
Há uma carta lacrada por anos. Podemos, da plateia, desconfiar de que ela tem certa função de despedida. Certamente, traz um mistério, indica um amor e talvez carregue respostas a perguntas difíceis de enunciar. O destinatário é um homem que não teve oportunidade de aprender a ler. Que é capaz de, por muito tempo, guardá-la como um dos documentos mais preciosos e imantados de sua vida, sem saber o que diz. Raimundo, nascido no sertão nordestino e trabalhando na roça desde muito novo, é o homem que recebe a carta, mas precisa aprender a ler para desvendá-la e, para tal, precisa antes vencer a vergonha de se colocar numa sala de aula como alguém que não conhece as letras. Há outros desafios que o protagonista dessa emocionante narrativa terá de enfrentar: ele precisará fugir de casa e de uma história de violência familiar para sobreviver física e emocionalmente, e terá de se colocar em outras cenas e cenários para viver e encontrar-se, para acudir a si mesmo de si mesmo e dos fantasmas que o acompanham e, então, quem sabe, ter coragem de abrir a carta, tão íntima e tão enigmática, conservada por décadas fechada. O remetente dessa carta é Cícero.
Podemos eleger a carta de que falamos como um dos fios condutores da belíssima (e também brutal) história de A palavra que resta, peça adaptada e dirigida por Daniel Herz e que nos oferece uma versão dramatúrgica do premiado livro homônimo do escritor cearense Stênio Gardel, cuja obra foi laureada com o National Book Awards na categoria literatura traduzida, sendo o autor o primeiro brasileiro a receber o prêmio estadunidense. Quando tive a oportunidade de assistir à peça, quando esteve em cartaz no Rio de Janeiro no mês de outubro, eu não havia lido o livro, mas adivinho agora que não há surpresa em saber que angariou um prêmio literário dessa monta, dado que a qualidade poética do texto do espetáculo adaptado é um dos grandes elementos da montagem, que faz jus ao título, dando destaque ao lugar da palavra. O romance de Gardel foi ainda um dos dez finalistas do 64º Prêmio Jabuti, em 2022, na categoria romance literário.
Foto: Carolina Spork
Por outro lado, a peça, cuja realização é da Cia Atores de Laura (comemorando 32 anos de existência, aliás), traz uma dinâmica cênica muito própria e instigante, em que os atores e as atrizes circulam e se dividem pelos mesmos personagens, usando uma vestimenta base, no figurino assinado por Wanderley Gomes. Essa dinâmica fractal repercutiu em mim de modo a ampliar a dimensão dos personagens (em especial, Raimundo), evocando também a noção de que somos mesmo uma multiplicidade, de que, em cada ação e cada gesto nossos, há muitos e muitas dentro de nós, quiçá bem coreografados, mas nem sempre bem adaptados à realidade que nos cerca e que pode exigir-nos umas quantas coisas que, com alguma frequência, não poderemos satisfazer, e uns tantos papéis que tampouco lograremos êxito em preencher. Em cada atitude que expressamos há diversos flancos viáveis e inviabilizados, alguns escancarados, embora nem sempre iluminados e visíveis a olho nu e pé descalço. É dessa forma que, no palco, Ana Paula Secco, Charles Fricks, Leandro Castilho, Paulo Hamilton, Valéria Barcellos e Verônica Reis assumem as vozes e as dores de Raimundo, Cícero e alguns dos outros personagens, em um drama familiar e pessoal de silenciamento, renúncias e, sim, alguma redenção.
É na juventude que Raimundo, nosso personagem, descobre seu amor por Cícero, e será em meio à rotina de trabalho na roça que, juntos, descobrirão a aventura do sexo e as consequências de não se furtarem aos seus desejos. Afinal, já nos sinalizavam Freud e os teóricos e as teóricas da psicanálise que se furtar ao desejo exige uma solução de compromisso dolorosa, traduzida em sintomas corporais e psíquicos, bem como em vida decepada e literalmente paralisada. O interdito da homossexualidade, porém, é um elemento que atravessa, de modo certeiro, o drama familiar de Raimundo, e os segredos e os não-ditos transgeracionais darão lugar a uma dura condenação do protagonista, após a descoberta desse enlace amoroso que o olhar do outro não admite e não suporta. Assim, acompanharemos a jornada de Raimundo, que tem de fugir para longe de sua cidade e das pessoas que ama. Mas somos mesmo muitos e muitas por trás de nossos posicionamentos superficialmente coerentes e, desse modo, as contradições de Raimundo também irão aparecer ao longo de sua vida na cidade, especialmente quando conhece a mulher trans Susany, vivida pela atriz convidada Valéria Barcellos, e também por Verônica Reis e Ana Paula Secco. Susany é um personagem imerso em vivências de violência e de quem, aos poucos, nosso protagonista se tornará amigo.
Foto: Carolina Spork
É preciso dizer que o espetáculo A palavra que resta cumpriu belíssima temporada carioca e merece outras mais, aqui e em outras cidades, porque nós merecemos mais e porque precisamos continuar falando e refletindo, poética e dramaturgicamente, sobre a temática encenada no palco: se a peça nos apresenta poesia e coragem, se menciona vergonha e sua contraparte, a exposição de si, é porque não hesita em pensar linguagens e imagens que trabalham, com primor, preconceitos, conservadorismo, homofobia, rejeição. É porque traz à tona possíveis caminhos de resistência e insistência. As atrizes e os atores da Cia Atores de Laura, claramente mergulhados na experiência literária que se origina em Stênio Gardel, conseguem sustentar o texto nos emocionando e também, em alguns momentos, nos fazendo rir, com as tiradas e reações cheias de ingenuidade e aparente espontaneidade dos personagens nas cenas que evocam o percurso trágico de uma vida e de uma família. E o espetáculo, por fim, tem o dom de despertar a curiosidade para a leitura do livro. Entretanto, infelizmente, ainda não é demais repetir que a violência física, psicológica e simbólica à população lgbtqia+, assim como a mulheres, pretos e pobres (lista que não esgota a lista), é um clichê em nosso país, e a abordagem dramatúrgica do assunto, ainda que não tenha como finalidade a pedagogia moral, mas sim a expressão artística, acaba por se fazer necessária, neste nosso país que tem tomado um gosto enorme por retrocessos. Espero ainda o momento em que não será preciso sublinhar, em nenhum texto sobre teatro, literatura ou cinema, a atualidade do tema, dadas as circunstâncias culturais em que vivemos. Que possamos apenas mencionar o deleite estético que uma excelente encenação, a partir de um texto literário de ampla e reconhecida qualidade, desperta em nós. Que possamos nos concentrar naquilo que um espetáculo teatral nos faz refletir sobre tantos outros aspectos pessoais e existenciais de nossas vidas. Espero ainda o momento em que escrever sobre A palavra que resta e outros espetáculos por vir possa escolher falar de violência e homofobia apontando-os como um evento histórico triste finalmente superado, passagem desbotada da história, como nos canta a música. Mas ainda não chegou o momento. Enquanto isso, podemos ocupar os teatros para elaborar, psíquica e coletivamente, por vias artísticas, nossos traumas individuais e coletivos e, por que não?, conferir beleza poética às histórias que nos constituem.
Vivian Pizzinga é psicóloga e escreve. Lançou, entre outros, “Ruído nos dentes” (Urutau, 2022, poemas) e “A primavera entra pelos pés” (Oito e meio, 2015, contos). Participou de coletâneas e revistas literárias, como da Revista Lavoura 7 (2022,impressa), Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus contra todos (Tinta negra, 2016, contos). Fez doutorado em Saúde Coletiva, no Instituto de Medicina Social (Uerj), é carioca e prefere o outono.
Mostra a tua cara: o acerto de contas na peça Realpolitik
Por Vivian Pizzinga
Cena de Realpolitik / Foto: divulgação
Pedro Osório e Oscar Calixto estrearam, em 9 de setembro de 2022, o espetáculo “Realpolitik”. O texto inédito é da premiada autora Daniela Pereira de Carvalho. A acertada direção é assinada por Marcello Gonçalves. A peça, apresentada em lugar inusitado, ficou em cartaz até 30 de outubro, e 30 de outubro de 2022 é 30 de outubro de 2022, mais autoexplicativa essa frase não pode ser. Assisti à peça nas vésperas do primeiro turno das eleições, é disso que se trata. Havia uma grande confusão nos gps dos táxis da cidade, pelo menos 4 deles, segundo informações colhidas, indicavam o endereço errado. Isso ocorreu não só comigo, na ida e na volta, como também com outras pessoas que, ao final, comentaram esses contratempos, na calçada em frente ao prédio da peça, na Presidente Vargas. Parece besteira, mas tudo isso faz parte daquilo que chamei de “rolê da peça”. Mas calma. Vamos aos poucos pra que a gente possa entender a importância do espetáculo, algumas de suas peculiares características e o excelente programa, pra quem gosta de dramaturgia, que Realpolitik certamente é.
Apontando o básico do enredo, sem dar spoiler, a trama diz respeito a um acerto de contas. Há um CEO que é o responsável pelo rompimento de uma barragem e pelas consequentes mortes de 150 pessoas (aquelas de que se tem notícia, pois em um acidente, qualquer acidente, nunca podemos afirmar o número de mortes com certeza, haja vista Chernobyl), sem contar todos os outros problemas que um tal acidente acarreta: problemas de ecossistema, de economia local, problemas sociais, enumerar é cansativo e gera tristeza. O jornalista que vai atrás do CEO adentra o escritório do ricaço, num prédio enorme de um centro comercial, e aí já começamos por uma característica interessante da peça: a produção se dá, ela também, em um prédio comercial que fica na esquina da avenida Presidente Vargas com a avenida Rio Branco, o principal entroncamento comercial do Rio, um ponto de muvuca, barulhos e fumaça que todo carioca depois de certa idade teve de enfrentar. Reproduz-se no real espaço onde se dá o espetáculo aquilo que é contexto e cenário do enredo. Fugindo, portanto, aos espaços cênicos tradicionais, assistimos à peça no 14º andar desse prédio, após subirmos elevadores espaçosos como não é tão costumeiro ver, mesmo em prédios como esse no centro do Rio. Lá de cima, enquanto aguardamos, podemos ver uma parte da confusão do centro se nos aproximarmos da janela: lá embaixo, desenrola-se um naco da confusa Rua Miguel Couto. Há também a exposição do artista plástico Victoriano Resende, por outro lado, que ocupa o espaço com uma exposição aberta ao público e que resultou numa intervenção no cenário da própria peça.
Outra curiosidade é que a peça, segundo Pedro Osório, foi escrita no decorrer da pandemia de Covid-19, essa que ainda não acabou de todo, e a ideia, segundo o ator, foi pensar “em como, após as grandes tragédias, os responsáveis pelas empresas tinham que lidar com as questões humanas, éticas, morais e financeiras”. Desse modo, é disso que se trata o acerto de contos em torno do qual o enredo gira, isto é, a peça que é um thriller, com seus momentos de tensão, de surpresa, de susto, com seus outros momentos de virada e de humor. Sempre algum humor é possível, nem que seja o escárnio comedido de si mesmo, no meio da dureza da vida e das histórias.
Todas as características mencionadas são uma maneira que reúne a oportunidade de que o público possa ter uma experiência além do teatro. Mas, em termos de teatro, naquilo que concerne ao tratamento dramatúrgico conferido à trama, estamos muito bem: Oscar Calixto e Pedro Osório estão ótimos, em preciosa direção de Marcello Gonçalves. Se eu pudesse fazer um adendo, como alguém que entende mais de texto (bem mais, muito mais, imensamente mais) do que de teatro, talvez a fala de Pedro Osório possa contar com palavras menos caracterizadas por sua forma escrita e mais próximas do oral e do coloquial. Mas isso seria o mais simples de ajustar, se fizer sentido ajustar alguma coisa. Pois, naquilo que me parece mais difícil, ou seja, no que tange aos ritmos e aos silêncios, algo que acho às vezes mais raro de encontrar nas peças que tive a chance de assistir, Pedro e Oscar estão perfeitos. Não ficamos com a incômoda sensação (que pode gerar uma falta de fôlego quando estamos assistindo) de que há um desespero para falar todo o texto antes que ele seja esquecido (a sensação pode não corresponder à intenção da velocidade na fala, nem mesmo à realidade, mas é essa a sensação que às vezes tenho quando estou ouvindo os atores e as atrizes em suas verborragias textuais, não só no teatro como também em séries, em especial as estadunidenses). Todos nós falamos de forma atropelada e pausada, a depender da circunstância, todos nós intercalamos ritmos e convicções, a prosódia é movida a algum cadência e raras vezes se assemelha a uma metralhadora giratória; todos nós falhamos na dicção, cometemos lapsos, isso é vida e é sujeito e é inconsciente e é afetação. Que possa ser reproduzido nos diálogos dos personagens, é fundamental, e isso acontece muito bem entre Henrique e Rafael, a dupla que duela no 14º andar de um edifício comercial. Porque uma das coisas que às vezes cansa esta espectadora que vos escreve (falo por mim) é a fala cuspida duma só vez em várias ocasiões de um espetáculo de teatro. Outra coisa que acrescento é que, quando houver erros de fala, erros reais, de fala do texto, que isso possa ser manejado de maneira que nós, da plateia, percebamos bem pouco, coisa frequente entre músicos. O improviso é também o do erro, do que fazer com ele. Se é que há uma coisa chamada erro.
Finalmente, para falar da importância da peça, basta remontar ao enredo sem spoiler que dei no começo. O fato de falarmos de um CEO que pouco se importa com as mortes causadas e com os problemas de bioma que uma barragem e sua ruptura ocasionam, o fato de mencionarmos capitalismo, exploração da força de trabalho, de populações inteiras maltratadas, de responsabilização, o fato de tudo isso ser debatido, tematizado, explicitado, já nos acena para a importância da peça e do acerto de seu contexto, temporal e geográfico. Estivemos às vésperas de escolher o rumo do Brasil, estivemos no entreato. Ora bolas, Realpolitik fala disso, e o esforço, a luta, o embate visam a muito além de momentos eleitorais. O fascismo está em vias de capturar o Brasil como tem capturado a Itália. O que todas e todos nós, dentro de nossos interesses, capacidades, talentos e oportunidades, temos a fazer para impedir esse avanço? Realpolitik faz sua parte. Daniela Pereira de Carvalho, Oscar Calixto, Pedro Osório, e Marcello Gonçalves têm feito, no Rio de Janeiro, sua parte. E a têm feito lindamente, diga-se de passagem. E nós?
Vivian Pizzinga é escritora e psicanalista. Lançou “Ruído nos Dentes” (Urutau, 2022, poemas), “A primavera entra pelos pés” e “Dias roucos e vontades absurdas” (Oito e meio, 2015, 2013, contos), além do romance epistolar “Extravios” (Oito e meio, 2018) em co-autoria com Igor Dias. Tem doutorado em Saúde Coletiva, gosta de gatos e prefere o outono.
A trajetória de um artista não se mede apenas pela quantidade de feitos construídos em sua caminhada, mas principalmente pela capacidade que seu trabalho tem de impactar a audiência que lhe interessa. Ao longo dos anos, as vivências pela arte vão engendrando saberes e sabores, moldando os ímpetos criativos, impulsionando novas ideias. E quando falamos especialmente de teatro, supomos de imediato a força que se estabelece na relação entre obras e o público.
A arte teatral prima pela captura do instante, momento em que as atenções do espectador se voltam para todo o conjunto que lhes é ofertado. Seu efeito é instantâneo, um gozo do efêmero em quem está experimentando a recepção da mescla entre texto e encenação. Assim, o legado maior desse múltiplo território de sensações busca abrigo na memória, sua relevante aliada. Sobretudo agora, no período pandêmico que nos acomete, nunca fez tanta falta vivenciar o ato de estar diante de um espetáculo teatral.
Não são poucos os nomes que historicamente edificaram o teatro brasileiro, fizeram desta nobre arte um território rico em possibilidades e, acima de tudo, ideias que movimentam sensações das mais diversas. No contexto baiano, é impossível falar de teatro sem lembrar de alguém como Paulo Atto. E falar desse dramaturgo é reverberar sua potência criativa para além dos espaços regionais e brasileiros, posto que sua contribuição para a arte cênica encontra também abrigo em paragens internacionais.
Mas o teatro a que Paulo Atto se propõe fazer perpassa a reflexão pungente sobre a condição humana em suas variadas formas de acepção. Interessa ao artista apresentar em seu trabalho a visão multifacetada que a humanidade pode sugerir. Combinando elementos oriundos da poesia a um forte eixo filosófico, Paulo marca sua obra com o signo da inquietude diante de um mundo que nos oferta mais dúvidas que certezas. Para mencionar apenas alguns aspectos, vemos brotar em seu ofício o traçado da sofisticação textual, a agilidade e inteligência dos diálogos de seus personagens.
Seja como diretor, dramaturgo e produtor cultural, dentre outras atribuições, Paulo trilha seu caminho na seara artística há quase 40 anos. Em sua trajetória, dirigiu mais de 30 espetáculos, muitos deles também apresentados nos Estados Unidos, América Latina e Europa, além de ter participado de inúmeros festivais, seminários e programas em vários países. São de sua autoria os livros “Até Delirar”, “Desmontando Shakespeare” e, mais recentemente, “Atto em 3 atos & memórias da censura”, este último assinalando pontos marcantes de sua carreira. Pelo texto dramático “A Travessia do Grão Profundo”, foi agraciado com o Prêmio Selo João Ubaldo Ribeiro – Ano III. Seu engajamento como diretor artístico do Núcleo Caatinga da Cia de Teatro Avatar e do Festival Internacional de Teatro da Caatinga revela um espírito incansável em seus propósitos. E é este personagem mobilizador quem protagoniza agora uma conversa com a Diversos Afins. Nela, fica registrado um recorte sensível e inteligente sobre a caminhada de Paulo, esse artífice que, principalmente a partir das exposições contidas no seu mais recente livro, fala de suas experiências, percepções do presente, além de dar sentido renovado ao ato de resistir através da arte.
Foto: Waldson Alves
DA – Para além de uma nuance autobiográfica, “Atto em 3 atos & memórias da censura” é um verdadeiro recorte histórico do teatro baiano. Ali estão relatos pessoais, matérias jornalísticas e três peças fundamentais de sua carreira. A predileção pelo registro dessa memória vem também marcada por um impulso de sobrevivência da arte?
PAULO ATTO – O teatro é uma arte milenar, que já sobreviveu a revoluções tecnológicas, a guerras, a pestes, mesmo com seu caráter eminentemente fugaz e efêmero. Em parte, pela força do encontro essencialmente humano que promove tocando em muitos aspectos da vida e da alma humanas; por outro lado, pelo registro que dele ficou, primeiro em livros, os textos dramáticos gregos são um grande exemplo disso; também pelos registros e memórias que muitos artistas de teatro nos legaram. Acredito que tudo isso me mova no sentido de produzir esse registro num país que despreza a memória em geral e a arte em particular, sobretudo neste momento constrangedor, obscurantista, no qual a ignorância ganha espaço. É um projeto ambicioso de, nos próximos anos, quando completarei 40 de ofício, poder deixar registrada toda a memória do meu trabalho e o contexto no qual ele aconteceu, na medida do possível. No Brasil estamos passando por um momento terrível para os artistas. Em geral, é necessário primeiro que os artistas sobrevivam para que a arte seja produzida e permaneça. Então, nesse sentido, sim, é também um impulso para a permanência da arte.
DA – Um aspecto importante do seu livro é a reprodução integral do texto de algumas de suas peças, produções naturalmente marcadas por um determinado contexto criativo e temporal. Em que medida esse gesto pode ser entendido como um estímulo à produção de sentidos por parte do leitor de hoje?
PAULO ATTO – Totalmente. E esse é o meu desejo como autor, que o leitor desempenhe um papel ativo com suas inferências e percepções, com seu entendimento sobre a obra. Portanto, cada leitor tem um papel relevante na ampliação de seus significados, gerando novos sentidos no momento desta interação leitor/autor. Considerando ainda que juntamente com os textos, que por si só já representam um universo a ser desvendado com seus personagens e enredos, eu publico um memorial de imprensa, todo o material gráfico das montagens com os programas, convites, cartazes e diversos outros registros que denomino de memorial afetivo. Onde também se encontram uma carta que Paulo Autran me escreveu sobre “A Confissão”, certificados de censura, um bilhete da atriz Andreia Elia no encerramento de uma temporada, um texto que escrevi para a Diversos Afins quando Paulo Autran morreu, anotações sobre minhas ideias e vivências sobre as montagens. Acredito que o leitor fica ainda mais estimulado a construir novos sentidos sobre os aspectos relacionais entre a obra literária, a montagem produzida naquele tempo/lugar e a memória que trago através de todos estes registros. Além de oferecer a minha contribuição para a construção de uma memória do teatro na Bahia, acredito que levo o leitor a entender estas produções no seu tempo e a imaginá-las com todos estes estímulos e registros, produzindo significados para si mesmo neste nosso momento, nessa nossa atualidade. Assim, falamos de hoje através do registro sobre a nossa vivência naquele tempo. Nossa, digo, minha como dramaturgo/diretor, com meus atores e equipes de criação.
DA – Por falar em produção de sentidos pelo leitor, ao lermos, por exemplo, o texto de “A Confissão”, sentimos que o eixo temático da peça não se desbota, pois vemos ali assuntos que se perpetuam no tempo. Um deles é perceber os aparatos de poder atuando para limitar as liberdades individuais no nível do corpo e dos desejos. O fato é que nossa sociedade não deixou de efetuar tais controles e não tem como não pensar em Foucault numa hora dessas. O que dizer sobre essa atmosfera? Alguma vez passou pela sua cabeça remontar esse espetáculo e ofertá-lo ao público dos dias atuais?
PAULO ATTO – Acredito que “A Confissão” seja um texto atemporal pois toca exatamente na questão do Poder e seus mecanismos de controle, seus aparatos de vigilância e punição, afinal a última fronteira que o poder quer chegar é ao nível dos corpos, do controle da relação dos corpos na interação social, cultural, biológica, com uma profunda carga de sexualidade e religião. “A Confissão” é o resultado de uma imensa pesquisa, de muitas leituras, de muitas fontes. Foucault foi, sem dúvida, de fundamental importância, fizemos também uma leitura psicanalítica do texto norteada pelas ideias e visões de Freud e Lacan. Há uma influência, ainda que em segundo plano, do chamado Teatro do Absurdo em sua linguagem. A atmosfera do espetáculo traduziu a claustrofobia do texto, o jogo de espelhos dos personagens, o vazio da retórica dos discursos de dominação, a tortura como estratégia da verdade a qualquer preço, a desumanização das relações e a morte como destino inescapável para todos. Eu tinha 24 anos quando escrevi, e hoje, lendo o texto, às vezes penso: “O que se passava na cabeça deste jovem?” (risos). É um texto muito forte com um traço clássico, o que inclusive foi apontado na época pelo jornalista e crítico Marcelo Dantas. Jamais pensei em remontá-lo. Na verdade, chegamos a trabalhar num projeto audiovisual com nossa saudosa atriz Regina Dourado, no papel de A Morta, e um elenco maravilhoso. Infelizmente, por uma série de razões de produção e recursos o projeto não avançou apesar de termos gravado praticamente 70% das cenas no Castelo Garcia D’Ávila à noite. Agora pensando no nosso momento, percebo como este texto é atual, ele não envelheceu mesmo depois de 34 anos. Acredito que ele possa falar da realidade brasileira hoje e toda a sua estupidez, seu atraso, essa pretensa moral tenebrosa, essa postura retrógada e obscurantista. Acredito que hoje ele teria uma repercussão imensa. Acho que “A Confissão” hoje causaria muito mais incômodo porque tocaria fundo na essência do nosso engano.
Foto: Waldson Alves
DA – Esse mesmo jovem que foi capaz de criar um trabalho importante em “A Confissão” também era reconhecido num determinado momento como alguém dedicado à poesia. Diga-se de passagem, o texto de “Até Delirar” e “O Banquete” evidencia esse caráter poético de sua escrita. Há ainda um Paulo poeta em torno do qual podemos esperar algo em matéria de versos?
PAULO ATTO – Realmente eu comecei a minha aventura com as palavras pela poesia. Eu continuo cometendo poemas embora não os venha publicando. Digo que o dramaturgo é um poeta ao avesso. A poesia exige síntese e a dramaturgia o excesso. Mas o dramaturgo não deixa de ser um construtor de poéticas. Tenho vontade de voltar a publicar poemas depois de tantos anos, na verdade essa vontade me perseguiu durante todo esse tempo e acho que o canal da poesia verteu no oceano do drama, mas continuo sim experimentando a poesia na construção de poemas sempre. Acredito que avançando nesse projeto editorial de lançar toda a minha obra dramática, que já é um esforço imenso, haverá espaço para publicar sim um novo livro de poemas, quem sabe até mais de um (risos). Na verdade, foi o meu primeiro livro de poemas chamado “Até delirar” que originou um roteiro cênico que veio a se constituir no espetáculo “Até delirar” e também na obra teatral “O Banquete”, como está apresentado no livro.
DA – Um outro ponto importante de seu novo livro são os relatos das suas experiências com a censura. Na sua impressão, os censores eram figuras totalmente apartadas do conhecimento sobre a arte ou pairava alguma espécie de cinismo ideológico que correspondia meramente aos ditames do regime vigente?
PAULO ATTO – A censura de que eu falo no livro é uma censura institucional onde funcionários públicos eram pagos com o dinheiro dos nossos impostos para cercear a liberdade de expressão, impedir a realização de qualquer atividade artística ou cultural que, na cabeça dos censores, fosse uma ameaça ao regime, à ordem instituída ou a algum valor moral. Os critérios eram muito nebulosos porque, quando você tinha uma censura ou um corte, os censores explicitavam os motivos e quando você examina as razões dessas ações de censura verifica que são muito difusas, que não são critérios objetivos, ao contrário, depende muito da impressão daquele indivíduo, então são as razões mais disparatadas e absurdas. De um lado, você tem uma falta de critérios objetivos e do outro tem a extrema ignorância desse corpo de censores, que eram pessoas sem absolutamente nenhum conhecimento nem de cultura nem de arte, nem de nada. Eram às vezes funcionários de carreira colocados naquela função ou mesmo contratados para exercer o papel de censor. Portanto, você tinha a união de dois fatores muito ruins: de um lado, um temor infundado e quase sempre paranóico e, do outro, a total falta de conhecimento, chegando muitas vezes à incapacidade de interpretação de texto. O que de outro modo às vezes era positivo, porque como eles não conseguiam entender o que se apresentava, passavam coisas que, pela sofisticação da construção poética ou da linguagem empregada na cena, eles não conseguiam apreender o sentido real do que se queria dizer, e em alguns casos era uma crítica direta ao regime ou à situação política daquele momento. Acho que para as novas gerações de artistas do teatro essa seja uma experiência que eles não consigam nem mensurar, embora nós vejamos nesse momento uma volta, um ensaio de retorno de uma censura, ainda que não seja totalmente institucional, digo claramente institucional, mas uma censura velada com orientações sobre programações. Isso tem acontecido e tem sido noticiado pela imprensa, inclusive espetáculos de teatro que haviam sido programados para espaços geridos por órgãos ligados ao governo e que foram impedidos de entrar em cartaz por causa de alguma temática. Isso é censura. Vemos também o movimento de algumas pessoas da sociedade, cidadãos que se arvoram em defensores da moral e dos bons costumes. Isso é um asco. E justamente empregam os mesmos termos que foram muito utilizados nas alegações dos censores daquele período. Sem dúvida, nós temos aí um retrocesso imenso.
Foi quase impossível para mim falar desse período de início da minha trajetória teatral sem tocar no ponto da censura, porque ela esteve muito presente. As peças eram submetidas à Polícia Federal, pois existia dentro do ministério da justiça uma divisão de censura de diversões públicas, o famigerado DCDP, e nós tínhamos que enviar com muita antecedência o texto que era lido por algum censor, que já poderia determinar cortes ou mesmo a proibição do texto.
Depois eles iam assistir ao ensaio antes da estreia, e novamente poderiam decidir por novos cortes ou mesmo a proibição daquela peça em todo território nacional. É uma coisa inconcebível para os artistas de hoje, os jovens sobretudo, imaginar que você teria que fazer um ensaio para um censor ou uma dupla de censores que poderiam decidir que isso aqui não vai poder ser apresentado ou que você tem que cortar uma cena inteira. Eu não cheguei a ter peças proibidas, mas tive entraves e narro isso no livro, os problemas que enfrentei com a censura que foram complicados de administrar. Pense que eu estou falando no período de redemocratização. Em 1988, foi promulgada uma nova constituição onde a censura institucional foi extinta com todos os seus departamentos. Por isso, mesmo falando de algo que aconteceu há mais de 30 anos, eu termino falando do nosso momento atual, como um alerta para essa situação de obscurantismo imenso que a gente está vivendo e de uma tentativa de censurar os meios de comunicação e a expressão artística. Então, infelizmente o meu discurso foi atualizado pelos fatos que estamos passando, a realidade brasileira atualizou o meu discurso de 30 anos atrás. O que é lamentável e extremamente perigoso. Inclusive porque conta com o apoio e a anuência de uma parcela significativa da nossa sociedade que se sente representada em sua ignorância, em seu atraso e em sua estupidez. Poderia ser apenas um documento histórico, um retrato daquele momento, mas infelizmente estou falando também da nossa realidade hoje.
DA – Nosso teatro também carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?
PAULO ATTO – Aí está uma pergunta simples de resposta complexa. O teatro enquanto linguagem precisa de uma aprendizagem, de uma vivência, de ser experienciado. Há gente que diz que não gosta de teatro sem jamais ter visto uma peça (risos). Eu trabalhei em algumas oportunidades com crianças, tanto ministrando oficinas, em projetos infanto-juvenis como em espetáculos infantis que dirigi, não foram muitos, acredito que uns sete espetáculos. Escrevi três textos para crianças: Colombo, A incrível viagem do Curupira e a Aventura da Descoberta. As crianças naturalmente se expressam através da mimesis, constroem muito de sua expressividade através de jogos teatrais, ainda que sem perceber. Falando tudo isso, deveríamos pensar que o teatro teria um público imenso. Entretanto, isso não acontece. Acredito mesmo que nas últimas décadas houve uma perda substantiva deste público que incluía o teatro naturalmente em seu cardápio cultural, devido a uma série de fatores: a violência nos centros urbanos gerou uma insegurança, o enfraquecimento da imprensa escrita que sempre foi o principal veículo de nossa divulgação e diálogo com o público; por outro lado, a perda de espaço para divulgação nas redes de televisão, os serviços de streaming cada vez mais sofisticados e disponíveis a preços baixos, o fechamento de vários teatros, a migração de artistas para fora do estado, que é um fenômeno que, acredito, ainda não foi totalmente compreendido e mensurado. E ainda temos um tripé perverso que vem do distanciamento do teatro do público, a qualidade do que é apresentado, o amadorismo de diversas produções e os editais públicos em que houve e há um certo dirigismo cultural, onde muitas vezes o resultado do trabalho está muito aquém do discurso e da proposta do projeto. São espetáculos de qualidade bem questionável com um discurso lindo. Em todo este processo houve uma dissociação do espetáculo teatral com o seu público. Tudo isso como introdução para responder a sua pergunta “Nosso teatro carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?” A resposta é sim. Mas não podemos imaginar que um programa de formação de plateia, ainda que seja amplo e bem construído, será suficiente para fazer o público retornar aos teatros. Sem ser saudosista, sou de um tempo em que ficávamos em cartaz de quarta a domingo, na temporada de Morangos Mofados na Sala do Coro do TCA, em 1988, tínhamos filas para comprar ingresso e cambistas, um espetáculo baiano com cambistas, a direção do TCA chegou a limitar a venda de ingressos por pessoa. Ficamos três anos em cartaz, realizamos uma turnê nacional por Belém do Pará, Fortaleza, Goiânia, Aracaju, Recife, Maceió e ainda uma temporada de um mês em São Paulo com casa cheia todos os dias, na última semana foram duas sessões por noite para dar conta do público. Não tínhamos edital e nem financiamento público, a bilheteria nos mantinha. Fiz outros espetáculos com propostas para um público mais restrito como KAO, mas o espetáculo nos levou para o mundo em sucessivas turnês e apresentações em festivais em mais de 10 países por 16 anos. Foram muitas outras questões que deixaram esta relação teatro x público extremamente complexa.
Nós temos uma experiência incrível de formação de plateia com a realização, desde o ano de 2012, do Festival de Teatro da Caatinga, na cidade de Irecê, sertão baiano. Cidade onde existe um movimento teatral pequeno, mas significativo, cidade que não possui teatros, e está distante da capital (500 km). Nosso festival é realizado através do edital setorial de Teatro da Funceb há seis edições e conta com apoio da Prefeitura Municipal de Irecê. Em 2018, tornou-se internacional e tem um público cativo, que foi sendo construído ao longo dos anos. É uma mostra de teatro a portas abertas que tem superlotação todos os dias com imensas filas na porta do Auditório do Colégio Modelo, adaptado para converter-se numa sala de teatro. A repercussão é tão grande que o prefeito Elmo Vaz, atualmente no segundo mandato, em 2018 anunciou no palco do festival que iria solicitar junto ao governo do Estado da Bahia a construção de um teatro. Este ano o governador Rui Costa assinou a ordem de serviço para construção e provavelmente em 2022 teremos um teatro na cidade. Outro lado é o investimento na formação e qualificação profissional dos atores e técnicos. Muitos dos atores que participaram dos projetos de formação do festival buscaram se aprimorar em cursos acadêmicos de teatro na UFBA e na UNEB e mesmo em outros estados. Nosso programa de formação de plateia está consolidado e apresenta resultados. Acredito que este seja um bom exemplo, mas muitas outras iniciativas vêm acontecendo neste sentido em outras regiões da Bahia. Formar o público é fundamental, mas oferecer um trabalho de qualidade também.
Foto: Waldson Alves
DA – Agora nesse período de pandemia, testemunhamos experiências de espetáculos online, sem público nos espaços. Até certo ponto esse gesto é compreensível, pois estamos falando também de formas de sobrevivência para artistas e suas companhias. Há quem veja essa alternativa se perpetuando mesmo após as restrições pandêmicas. Não seria nocivo ao fazer teatral, em condições de normalidade, ter isso como alternativa já que a arte é feita muito fortemente da proximidade com sua audiência?
PAULO ATTO – O chamado teatro online, telepresença, web encenação, teatro digital ou qualquer nome que se queira dar, dada a falsa importância de um rótulo na nossa “desmodernidade”, não é Teatro. Não foi uma opção que nós, realizadores, tivemos dentre outras, foi a única possível. Não havia outra saída. Há quem defenda que sim, apenas pelo gosto de dizer que é Teatro e ponto. Vi coisas interessantes e lamentavelmente produções pavorosas, recheadas de antigas ideias modernosas. Temos um audiovisual com uma linguagem teatral, porém há uma câmera por intermédio, direcionando nosso olhar, temos as edições, a seleção de cenas, os cortes, algo que não existe no Teatro, ainda que se alegue que a montagem teatral e a iluminação possam de alguma forma dirigir o olhar do espectador. E isso pode realmente acontecer. Entretanto, a liberdade do espectador no teatro é total para estabelecer os focos e os centros de sua atenção. E ainda poder ler os diversos planos, camadas, signos e sentidos que coexistem no palco, sem mediação nenhuma a não ser a sua, ainda que tentemos fazer isso, nada supera a presença e o encontro de dois seres humanos, máquina nenhuma, tecnologia nenhuma, pode suplantar ou oferecer isso. Falta a sensorialidade. Aqueles que defendem o tal “teatro digital” estão sem saber desejando o seu fim, a perda de sua autonomia e de sua essência. Pode ser que esta “defesa” seja por interesse próprio, para promover algo que possa parecer uma moda, ou pela incompetência em realizar o teatro de fato. Já ouvi com muita arrogância a frase: “é teatro porque eu estou dizendo”. Sim, mas quem é o interlocutor para dizer isso ignorando mais de 2 mil anos de história? Ignorando o que é a linguagem do teatro. Cada linguagem foi sedimentada por séculos, possui cânones, possui memória e técnica especifica. No final é muito barulho por nada. Eles serão superados pelo próprio Teatro, que não sucumbiu ao cinema, nem a TV, nem às guerras, e nem sucumbirá à tecnologia. Se não se encaixam em nada disso, é apenas imbecilidade pueril (risos). Os perdoo: eles não sabem nem o que fazem, e fazem mal. Não pretendo desenvolver este tipo de proposta como teatro. Como audiovisual, acho interessante. Porém, é certo que ganhamos uma ferramenta de divulgação, de interação com o público, de novas possibilidades de reunião, de estudo, de comunicação. Devemos aproveitar isso ao máximo, mas o que mais fez falta neste período pandêmico é justamente a ausência do humano, do contato entre as pessoas, e é sobre isso, em sua essência, que trata o Teatro.
DA – Voltando a seu livro, o texto de “As Máquinas” parece dialogar muito com o que notamos hoje nessa era de excesso de informações e também de reprodução padronizada de comportamentos. Podemos perceber muito disso a partir do “eu” espetacularizado que brota das redes sociais, por exemplo. Como é que você observa esse sujeito contemporâneo?
PAULO ATTO – Quando eu escrevi o texto de As Máquinas ou A Tragédia em desenvolvimento, era aluno do curso de Filosofia da UFBA e estava profundamente influenciado por temas ligados à Lógica da linguagem. Meu professor João Salles, atual reitor da Universidade, além de professor excepcional, era um amigo com o qual repartia tardes em animadas conversas, das quais também participavam o meu querido e saudoso mestre professor Ubirajara Rebouças e meus colegas e alunos Sandrinha Santana e Ricardo. Eram papos interessantíssimos regados à cerveja num boteco ali da Federação. Tenho muitas saudades dessas conversas. Ali foi gerada a semente desse texto. Quando fui convidado para abrir o projeto de leituras dramáticas da Escola de Teatro da UFBA, o Contexto Cênico, escrevi o texto muito rápido quase como se fosse um ensaio sobre aquelas ideias. Outra influência foi novamente o chamado Teatro do Absurdo, por excelência um teatro sobre a incomunicabilidade humana. Certamente me assombra a atualidade do texto, é atualíssimo. Muitos leitores do livro já apontaram isso para mim. O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o qual admiro muito as ideias e reflexões, fala de uma “náusea da informação” e acredito que estamos vivendo isso de maneira muito profunda. Os algoritmos, as chamadas “fake news”, o grau de desinformação com o paradoxo de tanta informação disponível, o obscurantismo, os retrocessos políticos, talvez tenham como raiz essa náusea e o perverso jogo dos algoritmos dominando as nossas escolhas. Outra ideia muito interessante está presente no livro de Bauman “Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria”. É incrível como ele nos traduz nesta obra. Chegamos ao ponto em que a principal mercadoria, diria até a mais comum disponível no mercado agora, são as pessoas. Nos tornamos o principal produto do mercado de consumo, somos enfim a mercadoria. Isso vai desde os sites de encontros, de grupos, até as redes sociais onde as pessoas vendem a farsa de uma vida ideal, utópica, irreal. Fonte de angústia e de frustração. A cultura das artes também sofre muito com isso. Tudo é cultura, há uma vulgarização das artes, Arte e indústria cultural de massas estão perigosamente sendo confundidas. Enfim, estamos vivendo apenas para o consumo. Acho que no texto essas ideias vão se desenhando a partir da falência da comunicação, dos modelos repetitivos e sem sentido do trabalho, das convenções mais absurdas, do sectarismo generalizado e da dissociação entre a vida e a sociedade.
DA – O fazer teatral em que você acredita tem algum compromisso?
PAULO ATTO – O Teatro, sempre digo, é a vida mesma, é um ensaio vivo sobre o humano por excelência. Existem muitos teatros. O teatro no qual acredito, aquele que me dá prazer em fazer e justifica a existência dele nas minhas trajetórias pessoal e profissional, é aquele em que eu possa falar para as pessoas do meu tempo, para esta humanidade, para este momento histórico e social. Nada para mim está dissociado deste mundo no qual vivemos. Quando encenei Shakespeare, nos espetáculos “A Tempestade”, logo depois “A Terra de Caliban” (inspirado na mesma peça), “A Herança de Macbeth” (a partir de Macbeth), com a Cia de Teatro Avatar, e ainda “Antônio e Cleópatra: o desencontro do olhar”, na Espanha, com a Cia Quasar Teatro de Astúrias, em todos esses espetáculos estava dialogando com meu tempo através das histórias de Shakespeare. Me nego a fazer um teatro museológico, desligado da nossa realidade. Quando escrevi e dirigi “A Travessia do Grão Profundo”, meu último espetáculo, mergulhei no sertão e sua realidade, sua simbologia, sua riqueza, seu imaginário, para falar de nossa diversidade cultural, da riqueza que a caatinga apresenta e esta história de perda do pai, também ainda presente nessa dimensão sertaneja. Apresentar o humano em suas múltiplas faces é o que me interessa, e é com isso que estou comprometido.
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
O espetáculo ‘Pá de Cal’ e a inverossímil terceirização do luto
Por Vivian Pizzinga
Foto: divulgação
O que devemos fazer quando não amamos, ou quando acontece de não termos êxito em nossa tentativa de amar pessoas que, supostamente, deveríamos amar? O que devemos fazer quando não conseguimos ter o devido afeto por familiares, seja pelo motivo que for? Como lidar com a culpa quando, enfim, nos escutamos e a percepção de que não amamos nosso filho, nossa mãe, nosso irmão é suficientemente audível (e talvez faça um barulho danado)? Podemos nos perguntar até: o que devemos fazer quando nossa tentativa fracassada gera repercussão, quando isso tem efeitos, quando o nosso desamor – mais ou menos exposto, mais ou menos visível – é notado? Indo além: e se acreditamos que a responsabilidade é nossa de amar o outro – mais do que do outro de nos amar ou de fazer de si um objeto digno de amor -, como lidar com a culpa diante da constatação? As indagações que dizem respeito a essa temática (junto a outras, como a própria morte e o suicídio) são tangenciadas pela peça Pá de Cal, do dramaturgo Jô Bilac e com direção de Paulo Verlings, que entrou em cartaz no Teatro II do CCBB-RJ e só pôde fazer duas apresentações devido às medidas contra a pandemia (a promessa seria voltar em 15 dias, mas talvez demore um pouco mais).
O espetáculo gira em torno de uma morte. Mais especificamente, um suicídio. Ele começa com reflexões diante de um espelho, aquele encontro íntimo conosco, através de nossa imagem, que muitas vezes evitamos. É ali e em contexto de tragédia pessoal que as mais urgentes questões existenciais são colocadas. É ali que repensamos e reavaliamos nossas escolhas, nossas limitações e os caminhos que fomos levados a tomar na vida. No caso de Pá de Cal, o pai do morto está diante de si mesmo no espelho, hesita em relação ao que fazer de si e ao que fazer da barba, ensaia um gesto e volta atrás, ensaia outro e interrompe, sente com a mão a textura do maxilar, um vaivém existencial ínfimo traduzida em diminutos movimentos.
Mas não é só o velório que está acontecendo. Não se trata apenas de uma despedida e do ponto zero de um processo de luto, o que já seria muito, mas de uma disputa judicial em relação à propriedade onde a história se desenrola. Nesse velório-disputa, de todos os familiares mais próximos, apenas o pai do personagem morto está presente, que o excelente Isaac Bernart encarna com grande sensibilidade, esse que havia titubeado diante do espelho na cena inicial. Outros familiares não estão lá, mas são representados por advogado, marido e etc. Há também uma ex-mulher, francesa, um pouco deslocada pela barreira da língua e da cultura. Na pele desses personagens estão Carolina Pismel, Orlando Caldeira, Pedro Henrique França e Ruth Mariana, além de Isaac.
A morte em questão evoca segredos familiares e histórias mal contadas, trazendo à tona silêncios alimentados há muito tempo, jogando luz em um mal-estar familiar que poderá ou não ser resolvido através de uma técnica terapêutica muito em voga na atualidade, a constelação familiar, conduzida por um dos personagens, representado por Orlando Caldeira, ótimo quando assume o papel de terapeuta (ou constelador).
O cenário, assinado por Mina Quental, é complexo e tem quatro planos diferentes, representando cômodos da casa onde o velório tem lugar e onde se dão as negociações, os reencontros, os desencontros, as revelações. Esses planos correspondem a uma varanda, um banheiro, uma espécie de cozinha ou copa e a sala de estar. Esses diferentes planos representando os diferentes cômodos da propriedade permitem que possamos acompanhar as conversas e os acontecimentos, e há encontros e desencontros em todos eles.
De fato, além de um cenário complexo, trabalhoso, a peça tem bons momentos em diálogos bem montados e cheios de humor, mas há algo de estranho na trama. Ou melhor, algo que não encaixa tão bem. O primeiro ponto de estranhamento diz respeito a um velório onde mãe e irmãs não estão presentes, em que as pessoas mais próximas (exceto o pai) não estão lá. A morte resultante de um suicídio é velada por representantes. No entanto, ainda que haja bons motivos pra isso (no caso da irmã grávida, a iminência de um trabalho de parto), essa terceirização do luto é algo realmente digno de estranhamento. Aliás, se há mesmo um trabalho de parto em curso, por que o marido não está ao seu lado, em vez de marcar presença no velório? Que sentido faz ele estar presente ali, sendo um cunhado meio distante que tem até momentos de conversas agradáveis, atravessadas por risadaria, durante a tarde (ou seja, não parece muito condoído)? Os motivos para as ausências não são convincentes, na medida em que a morte e o suicídio seriam muito maiores do que qualquer fato ou afeto passado que ocasionasse a distância. Traduzindo: ainda que se coloque, no enredo, motivos que justifiquem que o velório de um suicida aconteça daquele jeito, com aqueles personagens e não outros, é uma quantidade grande de ausentes significativos e presentes irrelevantes velando as cinzas do morto. E uma tendência ao realismo da peça não é suficiente para justificar um possível pragmatismo que essas ausências e suas respectivas representações evidenciam, caso tenha sido esse o objetivo. E até a carta que passa a circular à certa altura – uma carta com pedidos e possíveis revelações, deixada pelo suicida – parece surgir do nada.
Por outro lado, os personagens têm ligações tão enviesadas com os ausentes que representam, isto é, a mulher que representa uma das filhas, o advogado que representa a mãe, a mãe que é um elemento estranho e malquisto apenas referido, enfim, tudo isso faz com que nada seja muito simples de se compreender no sentido de quem é quem na trama. É preciso um exercício mental para ver as ligações, os laços afetivos entre os presentes, e fica tudo meio sem sentido, fácil de esquecer a toda hora.
Foto: divulgação
A peça tem mais um elemento de complicação, que também não me pareceu ter tanto sentido na trama: uma das personagens é francesa e não fala português. Tirando uma breve cena que se dá na varanda do cenário, de grande humor, não parece ter havido muito motivo para que ela fosse francesa, para que a escolha fosse essa. A cena a que fiz referência não é suficiente para compensar todas as outras, que geraram necessidade de ler uma legenda sempre que essa personagem falava. Não há problema com legendas, a não ser que sua presença faça um mínimo de sentido, e que não seja mais um elemento complicador na trama. Os diálogos ao telefone dessa personagem não foram tão bem amarrados, não eram naturais, ao menos não tanto quanto os diálogos que se dão ao vivo e a cores, entre os personagens que estão no palco. E ainda por cima, a legenda!
Por causa dos motivos acima apresentados, ainda que o esmero da montagem seja evidente, acaba por se perder uma boa oportunidade de discutir as temáticas que a peça evoca: a morte, o tempo, o suicídio, as escolhas, as relações familiares e seus percalços, a obrigação de amar, os silêncios e os segredos, para dizer o mínimo. Sim, porque Pá de Cal tangencia tudo isso, mas sem aproveitar tanto quanto poderia. A questão da obrigação de amar daria um ótimo caldo, tanto que foi a temática escolhida para abrir este texto. Mas também as outras: o que fazer quando uma morte acontece e você está há anos sem falar com alguém cujo laço de sangue e familiar é forte, incontornável? Você quebra esse silêncio, você não quebra, como você se comporta? E o que fazemos de certos arrependimentos? O que fazer do perdão? De fato, a morte é um momento ímpar, que, para além de todo o sofrimento da perda e de toda a saudade, pode suscitar grande complexidade na hora de resolver questões, de tomar decisões, de se aproximar ou não de alguém, de rever a própria vida.
Infelizmente, a sensação que fica é que a peça, de qualidade em vários sentidos, tem sua trama comprometida, assim como as questões interessantes que tenta cercar, por uma série de elementos que complicam o enredo. Faltou simplicidade, porque o assunto e seus desdobramentos já seriam ricos o suficiente. É como se a peça não estivesse à altura do que se propôs e precisasse amadurecer um pouco mais, precisasse de tempo para que se traduzisse em um enredo sensível e com um pouco mais de verossimilhança. É como se a peça não estivesse, ainda, à altura de si mesma.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Nastácia: notas sobre a emblemática personagem de Dostoiévski
Por Vivian Pizzinga
Foto: Guto Muniz
Nos palcos do Teatro III do CCBB está em cartaz um espetáculo de fôlego e de suma importância. No ano em que dados mostram um aumento nas taxas de morte por feminicídio no Brasil, Miwa Yanagizawa dirige Nastácia, peça teatral e instalação artística que traz dramaturgia de Pedro Brício. A peça é baseada na personagem Nastácia Filíppovna, cujas violências sofridas e silenciamento imposto por uma sociedade amplamente sexista são abordadas por Dostoiévski em ‘O idiota’.
No palco, a idealizadora do projeto, Flávia Pyramo, interpreta uma Nastácia acima de tudo sarcástica, segura de si, convicta de seus próximos passos, corajosa para mudar o destino que a vida dedicou a si e a se reinventar, dentro do que era possível na cultura da época. Ao lado do sarcasmo, da segurança, da disposição para a ruptura, encontramos a tristeza, a mágoa, o ressentimento. A dor. Ao seu lado, Julio Adrião interpreta Totski, o tutor proxeneta de Nastácia, e Odilon Esteves encarna Gánia, o pretendente da protagonista em um casamento-negociata que está planejado para ser firmado na festa do aniversário de Nastácia e que estabelece em 75 mil rublos seu valor. Apesar de um tema pesado, a peça intercala os momentos mais densos com outros mais leves, engraçados até, conduzidos em geral por Gánia, que vai mostrando aos poucos certa gaiatice no decorrer do espetáculo.
Para começar, os espectadores entram na sala já imersos em um clima que se inicia nos corredores, com uma iluminação vermelha que parece preparar a atmosfera densa em que acontecerá a peça. Mais tarde poderemos entender um pouco mais a respeito do motivo da cor vermelha no corredor, pois voltaremos a ele, o que não comentarei com mais detalhes aqui para evitar spoiler. Essa é a parte instalação da peça, uma surpresa concebida de forma original e que espera a todos. De qualquer modo, o clima criado no corredor com uma solução simples que transforma a iluminação original em uma luminosidade rubra faz bastante diferença na promoção de um clima psicológico naqueles que vão assistir à peça, lembrando-nos as razões pelas quais ouvimos que o teatro é um mundo mágico. A direção artística de Ronaldo Fraga e a iluminação de Chico Pelúcio e Rodrigo Marçal são responsáveis pela composição desse clima.
Foto: Guto Muniz
O cenário é deslumbrante. As cadeiras estão dispostas em três lados do retângulo do teatro, e nelas nos distribuímos, como se fôssemos convidados de Nastácia. Ela conversa conosco, dirige-se a nós, nomeia alguns dos espectadores e a participação do público, aqui e ali, também tornam o espetáculo mais leve, pois essas se tornam passagens engraçadas. No alto, uma miríade de molduras de quadros e retratos, em sua maioria vazios, mas alguns deles com cenas e personagens em posições de morte. No centro da cena, as mesas com os quitutes da festa – os acepipes – cadeiras e alguns objetos curiosos. Nastácia está se preparando para a festa que, logo mais, irá acontecer.
É possível dizer que o sumário da trama acontece quando a personagem é trazida em um carrinho puxado por um dos outros personagens, que a exibe e a descreve como se de fato estivesse tratando de um objeto a ser comprado. Agora com um belo vestido roxo, com uma grande etiqueta à mostra, fica mais evidente que Nastácia está ali para ser vendida, trocada, negociada. A mulher não passa de uma mercadoria. A etiqueta simboliza seu preço.
E é em torno desse aspecto e das demais violências que Nastácia sofreu ao longo da vida que os diálogos e jogos da festa irão girar. Gánia diz querer se casar com Nastácia e parece servil em relação, mas confessa seu interesse financeiro na jogada. Totski, que a tornou sua concubina durante toda a vida, desde a infância, pede desculpas sem, no entanto, reconhecer verdadeiramente sua culpa, cindindo-se entre razão e volúpia, em que a segunda domina todo o resto com facilidade. Tenta convencê-la de que não podia controlar seus impulsos voluptuosos, não parecendo ter real arrependimento ou vergonha face ao cativeiro em que isolou Nastácia. Por outro lado, segue tratando-a como um objeto cuja posse é sua e de mais ninguém. Nastácia serve aos seus prazeres ou aos seus caprichos, a depender do momento. Pode, inclusive, dela se desfazer quando julgar que não lhe serve mais.
Foto: Guto Muniz
Uma das escolhas interessantes da equipe são as referências constantes ao Rio de Janeiro ou ao ano de 2019. As semelhanças mostram o quanto de 1869 para cá – ano em que a obra foi finalizada – a violência contra a mulher não mudou tanto. Há um momento em que Nastácia aponta paras as molduras de retratos que, em conjunto e do alto, emolduram o cenário da peça, e vai enumerando nomes de uma série de mulheres afetadas por atos de violência. Cita, ao lado de outros diversos nomes, Maria da Penha, que deu nome à lei que busca punir os diversos tipos de violência perpetrados contra mulheres. Não poderemos nos esquecer de que são muitas as histórias de mulheres que passam por situações de violência física e sexual, algumas dessas levando-as à morte. O tom do espetáculo, embora não seja o de militância, parece voltado a isso, a esse lembrete, à recusa de que nos esqueçamos desses nomes e dos atos violentos que os atingiram. À recusa de que nos esqueçamos da vereadora Marielle Franco, executada em março de 2018, mulher preta, lésbica, mãe e favelada, como ela própria se denominava.
Há um outro momento interessante, digníssimo de ser mencionado e que não configura spoiler: é quando Nastácia irá se casar e precisa da ajuda de algumas pessoas para vestir o tradicional vestido de noiva. Ela chama três homens da plateia para que a ajudem. Esse simples gesto, que parece desprovido de qualquer significação, é, entretanto, genial. Estamos acostumados a situar as pessoas em determinados locais e funções conforme o gênero (e também a raça, embora essa dimensão não tenha sido trabalhada na peça). O que normalmente acontece em uma situação como essa é a de mulheres ajudarem a noiva a se vestir. São elas que vão ajeitar o véu, colocar o vestido, aprumar a barra da saia, rodear a noiva, talvez auxiliá-la na maquiagem, no penteado. Mas a Nastácia de Flavia Pyramo recorre aos homens da plateia. Eles é que irão fazer tudo isso, por mais atrapalhados que pareçam, à primeira vista. Sim, serão atrapalhados, tanto quanto uma mulher que nunca tenha ajudado uma outra a se vestir de noiva poderia sê-lo. Não está dado que eu, por exemplo, no lugar de um daqueles homens, me sairia melhor (e certamente não me sairia!). Sendo algo inaugural para uma mulher e para um homem, todos poderiam estar claramente pouco familiarizados com os gestos a serem escolhidos para que o vestido entre na noiva. E se esses homens sempre fizerem isso e tornarem tais gestos seu ofício frequente, eles estarão em casa quando chamados ao palco para ajudar uma noiva a se preparar para seu casamento. O interessante dessa cena aparentemente sem importância no conjunto da peça é que se Nastácia tivesse chamado mulheres para ajudá-la, nem eu nem as outras mulheres da plateia estranharíamos. Ou, pelo menos, não a maioria de nós. A cena me salta aos olhos e me leva a trazer ao texto como comentário importante porque eu também estranho, eu também me surpreendo, e me surpreendo positivamente. Nastácia, ao chamar os ajudantes de palco, não especifica para o que é, diz apenas que precisa de homens para ajudá-la, e de fato eu esperava que fosse algum trabalho pesado, como talvez arrastar algum dos objetos para ampliar o espaço para a próxima cena, por exemplo. Em verdade, é uma dupla surpresa: primeiro, com a cena, instigante em toda a sua sutileza, e, em segundo lugar, comigo mesma, por estar surpresa com a escolha, por ter esperado mulheres para aquela função, por ter achado que, quando ela pediu a ajuda de homens, seria para outra coisa, e não para algo delicado como a preparação de uma noiva.
Foto: Guto Muniz
Mesmo que o resto da peça não tivesse trazido nada de interessante, essa cena já teria valido todo o espetáculo. São camadas e mais camadas arraigadas de patriarcalismo e sexismo (além, claro, do racismo) sedimentados em todos nós, mesmo que sejamos feministas, anti-sexistas ou adeptos de qualquer política social e de luta. Mesmo que sejamos progressistas e lutemos por isso, ainda caímos em nossas próprias normativas culturais, em nossas armadilhas sociais. E às vezes sequer nos damos conta disso. Para as mulheres, é mais fácil perceber as violências mais ou menos sutis promovidas pela cultura patriarcal e sexista, os destinos impostos de antemão, a falta de flexibilidade de papéis que afeta uma mulher. Para os homens, isso não é sempre percebido, ou não o é em sua profundidade, e eles muitas vezes silenciam as mulheres, por não viverem na pele o que o patriarcalismo e a violência do sexismo causam. Nem todos o fazem por mal. Assim como para pessoas negras é mais fácil perceber o racismo estrutural, institucional e cotidiano de nossa cultura, enquanto que para mulheres e homens brancos, por mais antirracistas que supostamente sejam ou acreditam que sejam, tampouco é tão imediata a percepção de gestos, falas e atitudes racistas. O silenciamento também acontece aí. E com frequência. Muitos não fazem por mal, mas já passou da hora de aprendermos a escutar o outro melhor.
No entanto, como diz bell hooks, a escritora negra norte-americana, é preciso “erguer a voz”. Ela se refere às mulheres negras vítimas de violência racial. Mas podemos estender o seu exemplo a outros grupos, certamente. Mulheres brancas, pessoas negras, grupos LGBTQi, refugiados, pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves, quaisquer pessoas em situação de vulnerabilidade social precisam erguer a voz. E todos nós precisamos ampliar a escuta. Neste sentido, Nastácia é uma ótima opção de espetáculo teatral para assistir no Rio. Além de excelente dramaturgia, de qualidade na produção, de ótimas interpretações e momentos engraçados e de reflexão, o espetáculo é mais um produto cultural que nos permite erguer a voz. E quanto mais se ergue a voz, mais se pode mudar alguma coisa, mais a violência pode ser vista e ouvida e, por conseguinte, dirimida.
O único porém que eu colocaria é que a peça poderia ser um pouco mais curta. Uma vez que já possui a densidade característica de um texto russo, ainda que salpicado de leveza e humor, mereceria alguma edição em algumas partes (talvez o começo, principalmente, e alguns momentos das cenas que se encaminham para o final, excessivas), para que não se torne cansativa ao fim e ao cabo.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Em Dinamarca, peça apresentada pelo grupo de teatro Magiluth, direto de Pernambuco para o Teatro de Arena do SESC COPACABANA, no Rio, a plateia é recebida como se se compusesse de convidados chegando para uma festa de casamento. Mas não parece chegar em um momento qualquer da festa, e sim naquele período entre o começo e o auge, difícil de delimitar mas fácil de intuir, quando a euforia começa a engrenar em alguns e não demorará a chegar em seu apogeu. Os atores da peça, à guisa de anfitriões, distribuem espumante em taças de plástico para todos que quiserem, oferecem mais aos que já beberam, e há até quem, dentre eles, que comente, com leve amuo de quem não gosta de desfeita, para um dos convivas: “vocês bebem pouco, hein”. O som está no volume máximo, alguns deles dançam, estão todos aparentemente bastante felizes e nós, agora, somos parte da cena.
Esse é o começo da peça, que, com direção de Pedro Wagner e dramaturgia de Giordano Castro, estreou em 2017, foi apresentada em algumas cidades brasileiras como Salvador, São Paulo e Porto Alegre, e parte de uma inspiração em Hamlet para levar a cabo a proposta de discutir aspectos relevantes da contemporaneidade. A ideia da montagem trazida pelo grupo recifense é a discussão das bolhas sociais, tema tão em voga ultimamente, sobretudo em época de divergências políticas acirradas e de estilos de vida e concepções de mundo que são questionados no cerne dessas divergências. O tema é também assíduo nas redes sociais entre os que fazem a crítica dessa maneira de se relacionar com o outro, exatamente por evocar a restrição do campo de relações e contatos sociais a que cada um de nós tem acesso, o que leva à possibilidade de que interpretemos o mundo, as políticas públicas, os fenômenos sociais, a função das novidades tecnológicas, as atividades e manifestações culturais, dentre outras coisas, a partir de uma perspectiva uniforme, totalizante e aparentemente exclusiva, sem espaço para a diferença e a alteridade.
Foto: Danilo Galvão
A Dinamarca possui a noção de hugge (ou higge), que, ao que tudo indica, evoca uma espécie de vida boa, incluindo tempo para lazeres simples, sofisticados e agradáveis, isto é, incluindo a posse do tempo pelo sujeito, em oposição a ser possuído pelo tempo. Pesquisando um pouco pela internet, vê-se que não é tão consensual o significado do conceito, já que específico do país nórdico. No entanto, é possível entender que a noção abrange o conforto, o oposto da correria, o aconchego, aquilo que acalma e aquece, em suma, a segurança. O status quo parece fazer parte também dessa ideia e, no espetáculo, percebe-se que, para eles, nada ao redor do grupo de anfitriões e amigos mais chegados está à altura dessa forma de vida.
Esse é outro ponto que a peça aborda, quando todos se juntam como se superiores fossem ao resto do mundo, sem problemas, sem dificuldades, sem mau gosto, uma casta que pode se dar ao prazer, por exemplo, de beber como se não houvesse amanhã, entornando uma garrafa de cerveja inteira em uma só golada e depois mais meia garrafa, como podemos ver, agoniados, no começo da peça (não sei os outros, mas fiquei pensando, realmente encafifada, capturada por esse momento inicial e repleto de estranhamento que parece não acabar nunca, se o amargor da cerveja, tomada em grande quantidade num curto intervalo de tempo, e logo no comecinho do espetáculo, não traz ao ator algum tipo de desconforto físico do tipo refluxo ou azia que possa atrapalhar seu desempenho na peça; é interessante também notar que a observação desse momento demorado, infinito, em que o único elemento iluminado do palco é o ator engolindo, gole a gole, a cerveja das garrafas, exerce certo poder de sentir o gosto da cerveja na boca e o enjoo de tomá-la sem pausa nessa quantidade absurda, como se fôssemos nós, e não o ator, que a estivéssemos bebendo). Voltando à relação do núcleo social com o que há ao seu redor, os convidados estão lá, dançando, envolvendo-se uns com os outros, falando de coisas, mostrando habilidades em línguas estrangeiras, e há o resto. Não há como não pensar na elite em suas diversas e possíveis gradações, nas celebridades com canais de YouTube que fazem vídeos e mais vídeos mostrando suas salas enormes e cada objeto que nelas há, seus pares de sapato, seus quartos, sua vida glamorosa que mescla elementos de sofisticação de difícil acesso e arranjos relacionados a uma vida boa e saudável, onde o corpo é bem tratado e pode se dar ao luxo de descansar. Talvez hugge esteja um grau abaixo disso, e o momento em que o grupo se explica o que é, eles estão entrando no ritmo de uma música agradável, alegre e sincopada, que não se caracteriza pelo excesso, mas que é extremamente atraente ao corpo. Pode ser que seja mesmo só com o corpo e o som que possamos explicar o que é hugge e o que é pertencer a uma bolha social.
Foto: Jorge Farias
Dinamarca, que tem no elenco de atores Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres e Mario Sérgio Cabral, traz momentos de angústia, com repetições de diálogos em grande velocidade e movimentações agitadas, além de relatos tensos, e momentos hilários, como quando o dono da festa manda que recolham os copos e a bebida da plateia, incomodado com sua suposta ingratidão, e exige que tais copos sejam reunidos de uma forma sistemática a seus pés, no momento em que é desagradado, espécie de birra exagerada e fora do tom a que todos aquiescem.
Há também um belo momento, aí para os menos tímidos, em que algumas pessoas da plateia são convidadas a dançar, retiradas com delicadeza pelos atores, momento em que o palco vira uma verdadeira pista de baile, onde os casais rodam como se celebrassem de fato um casamento. É interessante refletir um pouco sobre essa noção de hugge, estranha a nós, brasileiros, e que, apesar de evocar o bem-estar e a leveza, não descarta a tensão, as discussões e o medo que, necessariamente, permeiam as relações sociais, como se vê no espetáculo. Esses picos de tensão e ansiedade, que pipocam aqui e ali, que sempre interrompem a leveza, levam ao questionamento sobre se há, de fato, a possibilidade de uma bolha social completamente apartada do que há à sua volta, se há como conceber formas de relação social que, como ilhas cercadas de gente comum com problemas comuns por todos os lados, nunca estivesse suscetível de ser engolfada por angústias que dizem respeito a todos, a despeito da especificidade de sua inserção social.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.
Contos Partidos de Amor: Diego de Abreu, Isadora Medella, Luciana Balby,Tiago Herz / Foto: Rai Junior
“O quereres e o estares sempre a fim/ do que em mim é de mim tão desigual/ faz-me querer-te bem, querer-te mal/ bem a ti, mal ao quereres assim”, como diz Caetano Veloso, em O quereres, poderia ser uma música que logo nos vem à cabeça quando assistimos ao espetáculo encantador Contos partidos de amor. Isso porque o espetáculo vai tratando, de modo cheio de beleza, perspicácia, filosofia e humor, das incongruências, dos encontros-desencontros-reencontros e novos desencontros, do vaivém de afetos em que o amor se dá, em que se cria, mas no qual se esvai, por ciúme, por “carência” (novo sinônimo de ciúme), controle, insegurança e outras palavras que nem fazem parte do texto do espetáculo e são especulação da autora da resenha, mas que, certamente, fazem o recheio das histórias que ali se passam.
O sedutor e, em alguns momentos engraçadíssimo, sobretudo no começo e nos percursos em busca de uma fita azul perdida, Contos Partidos de Amor é um musical infanto-juvenil de 60 minutos para mães, pais, tios, avós, irmãos mais velhos, crianças, meninada: o texto, eu diria (e gosto de texto), é absolutamente genial. Não vai ter adulto que não o ache sensacional, pelas fantásticas jogadas de palavras que traz e que explicam tudo, ou melhor, permitem que a plateia se aproprie do que está sendo dito sem, necessariamente, precisar conceituar cada coisinha (que talvez fosse o mesmo que explicar uma piada ao final). Aliás, fala-se disso na peça: a metalinguagem que é típica de um casal discutindo sobre a sua discussão ou sobre sua (in)capacidade de comunicar-se. Sobre a conversa interrompida ou interrompendo-se no diálogo para situar cada senão, cada vírgula, cada silêncio, cada detalhe que gere detalhes que gere interpretações de detalhes e que, infinitamente, leva a desvios enormes de comunicação.
Contos Partidos de Amor: Diego de Abreu, Luciana Balby, Tiago Herz e Isadora Medella / Foto: Rai Junior
O texto, que é de Eduardo Rios, inspira-se na obra de Machado de Assis (1838-1908) e, associado à belíssima direção e ao roteiro de Duda Maia, fica à altura do criador de Capitu e o ciúme terrível de Bentinho, no paralelismo possível entre dramaturgia e literatura. Encantamento é o que acontece logo que o espetáculo começa, com a iluminação excelente de Renato Machado, que faz toda a diferença na peça inteira, dando cor e vida às cenas e às temáticas (mais avermelhada nos momentos de apaixonamento, mais amarronzada nos momentos de tensão, e às vezes azulada, outras, esverdeada), o figurino de Kika Lopes, que se utiliza do branco para dar mais vigor à luz e aos corações apaixonados que se colam no peito dos personagens, além de algo infantil que permite a identificação com o público mais jovem, fazendo referência, ao mesmo tempo, a certo eterno aprendizado do amar, do relacionar-se, do desapegar-se, do respeitar-se etc, e, finalmente, o belo cenário de Diogo Monteiro. Para não perder o fôlego (isso que peça e atores têm de sobra e demonstram logo de início), começo nova oração para dizer que o cenário se utiliza de grandes corações acolchoados (ou dando essa impressão), feitos de fuxicos, que, pendurados dos lados direitos e esquerdo do palco, somando 6 em cada lado, dão a atmosfera de paixão que o espetáculo requer e dando livre espaço para a rica movimentação dos atores e a presença de rosas e instrumentos musicais no palco. A trilha sonora original e arranjos de Ricco Viana e as canções de Eduardo Rios e do próprio Ricco são belíssimas, dando humor, lirismo e certa descrição de momentos embaraçosos das emoções, da falta de comunicação e dos sentimentos. Contos Partidos de Amor até poderia também se chamar Contos Partidos de Ciúme, temática que permeia as histórias que se imbricam na peça, a partir de dois contos de Machado de Assis.
O espetáculo esteve em reestreia no Rio de Janeiro, tendo passado pelos CCBBs de SP, Brasília e BH, ficando em cartaz até 16 de dezembro. Foi premiado nas categorias de Melhor Direção e Melhor figurino no 12º Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil – 2017/2018. As inspirações principais para a dramaturgia de Eduardo Rios foi o poema Círculo Vicioso e os contos “A história de uma Fita Azul” e “To be or not to be”, este último da coletânea Contos de Amor e Ciúme, que Gustavo Bernardo organizou, pela Editora Rocco.
Contos Partidos de Amor: Isadora Medella, Tiago Herz, Luciana Balby, Diego de Abreu / Foto: Rai Junior
Já o elenco polivalente (a polivalência, na arte, é sensacional, mas em outras profissões é um horror, que fique o parêntesis) está muito bem e ensaiadíssimo, porque erro, nem que eu quisesse encontrar, não haveria (como não houve): Diego de Abreu, impagável nas apresentações do início da peça, Isadora Medella, Luciana Balby e Tiago Herz, que são também, os quatro, cantores e músicos. Ricco Vianna, com sua trilha sonora ora instrumental, ora de músicas cantas e tocadas ao vivo pelo elenco, tem, em uma delas, inspiração no poema “O Verme”, em que Machado descreve o ciúme como “um verme asqueroso e feio”, publicado em Falenas (1870). Nem tão bom na poesia como foi na prosa (ficcional e crônicas sensacionais), Machado de Assis não deixa de ser memorável até mesmo no campo literário que não lhe era o melhor. Para quem gosta do autor, é possível perceber palavras que permeiam a obra do escritor e que ficaram famosas, como o uso do adjetivo “oblíqua” para descrever, no caso do espetáculo, uma boca, “na verdade torta, cheia de porquês”, como diz a personagem. Alguns diálogos de briga são tão bons que suscitam aquela vontade de reler Machado ou ir até os teóricos da comunicação de Palo Alto, que escreveram a Pragmática da Comunicação Humana, livro de 1973 de Watzlawick, Beavis e Jackson, que poderia ser traduzido artisticamente por essa obra. A pesquisa dos autores mostra que tudo é comunicação, toda linguagem comunica, e é disso que trata Contos Partidos de Amor e é também desse saber que qualquer boa dramaturgia se utiliza ao fazer seu espetáculo. É possível notar o quanto a comunicação (ou sua ausência ou fragilidade) é fundamental para que um relacionamento engrene ou não engrene, continue ou termine, volte ou dê adeus. O espetáculo encerra com uma ideia simples, que pode complicar o outro, porque, como assinala o texto, às vezes é simples ser complicado e é complicado ser simples: deixar o amor amar significa não alimentar o verme asqueroso do ciúme. Simples? Complicado? Nem Freud saberia abordar a questão tão bem.
Vivian Pizzinga lançou os livros de contos Dias Roucos e Vontades Absurdas (Oito e meio, 2013) e A primavera entra pelos pés (Oito e meio, 2015), além de ter participado de algumas coletâneas, sendo as mais recentes, Cada um por si e Deus contra todos (Tinta Negra, 2016) e Escriptonita (Patuá, 2016). Trabalha também com psicanálise e Saúde do Trabalhador.