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97ª Leva - 11/2014 Jogo de Cena

Jogo de Cena

O teatro e o mercado editorial: um olhar a partir do Nobel de Literatura

Por Rodrigo Conçole Lage

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

Quando Mo Yan conquistou o prêmio Nobel de Literatura de 2012, tivemos a publicação de um de seus livros, Mudança, traduzido direto do chinês. O fato de Alice Munro ter conquistado o Nobel em 2013 teve um impacto muito maior no mercado editorial, como podemos ver pelos muitos títulos publicados posteriormente. Com Patrick Modiano, em 2014, não tem sido diferente. A editora Rocco vai relançar três obras que já estavam esgotadas há muito tempo e outras editoras irão publicá-lo também.

A partir disso, podemos dizer que o fato de um escritor receber o Nobel de Literatura tem impacto no mercado editorial, despertando o interesse das editoras. Anatole France, Thomas Mann, Ernest Hemingway, Albert Camus, Jean-Paul Sartre e outros ganhadores tiveram um grande número de livros publicados no Brasil e, hipoteticamente falando, também poderão ter sido “beneficiados” pelo fato de terem sido premiados, algo a ser devidamente estudado.

Contudo, quando olhamos para os dramaturgos que receberam o Nobel, vemos que o mercado editorial nem sempre os acolheu com o mesmo interesse. Das mais de sessenta peças de José Echegaray, foram traduzidas, por R. Magalhães Júnior, apenas a Mancha Que Limpa e A Morte Nos Lábios, as quais estão esgotadas há décadas, o que é muito pouco. No que se refere a Jacinto Benavente, não foi diferente. Das mais de cento e setenta peças escritas por ele, foram traduzidas, também por R. Magalhães Júnior (um dos mais importantes tradutores de teatro do Brasil), somente Os Interesses Criados e Rosas De Outono, também esgotadas.

Maurice Maeterlinck, importante nome do teatro simbolista, também teve somente duas de suas peças traduzidas: O pássaro azul, por Carlos Drummond de Andrade, e Peléas e Melisanda, por Newton Belleza. Do importante dramaturgo Gerhart Hauptmann, também temos somente duas traduções: Michael Kramer, de Herbert Caro, e a de Os tecelões, de Marion Fleischer e Ruth Mayer Duprat.

Harold Pinter foi ainda menos valorizado, pois a única peça traduzida, por Millôr Fernandes, foi A Volta ao Lar. Outras peças foram traduzidas apenas para o teatro, nunca tendo sido publicadas em livro. Da imensa produção teatral e teórica de Dario Fo, temos somente as peças reunidas no livro Morte Acidental de um Anarquista e outras peças subversivas (que inclui História de uma tigresa e O primeiro milagre do menino Jesus), tradução de Maria Betânia Amoroso, e o livro Manual mínimo do ator, traduzido por Lucas Baldovino e Carlos David Szlak.

Elfriede Jelinek e Mario Vargas Llosa têm uma importante obra teatral, principalmente Elfriede, mas as editoras brasileiras têm se concentrado em seus romances e não publicaram nenhuma de suas peças.

Dentre os dramaturgos, George Bernard Shaw foi o mais traduzido, com mais de uma dezena de peças (Pigmaleão, Quatro peças curtas, O homem e as armas, O altruísta, O discípulo do diabo, Santa Joana, A profissão da senhora Warren, Aventuras de uma negrinha que procurava Deus, Major Bárbara, A Conversão do Pirata, O homem do destino, Casa de Orates, Matrimônio Desigual e César e Cleópatra). Contudo, as traduções não correspondem à metade de sua produção.

 T. S. Eliot teve todo o seu teatro traduzido por Ivo Barroso para o segundo volume de sua Obra completa, publicada pela editora Arx (2004). Eugene O’Neill foi outro dramaturgo com várias traduções (Longa jornada noite adentro, Quatro peças, Além do horizonte, Dias sem fim, Desejo, A juventude não é tudo, Piedade cruel e Electra enlutada).

William Butler Yeats também teve seis peças traduzidas por Paulo Mendes Campos, publicadas no livro Teatro da Coleção Prêmio Nobel, e O Poço do Falcão, traduzida por Fernanda Mendonça Sepa no livro O Teatro de William Butler Yeats teoria e prática.

Albert Camus tem uma produção teatral pequena, seis peças, sendo que quatro foram traduzidas (Oração para uma negra, Calígula, Estado de sítio e Os justos). Jean-Paul Sartre também foi bem traduzido (As moscas, Entre quatro paredes, A prostituta respeitosa, As mãos sujas, Os Sequestrados de Altona, O diabo e o bom deus e As troianas).

Luigi Pirandello tem uma grande produção teatral, contudo, as seis traduções existentes (Seis personagens à procura de um autor, Os Gigantes da Montanha, O Enxerto: o Homem, a Besta e a Virtude, O Marido de Minha Mulher, Assim é (se lhe parece), Vestir os nus e Liolá) correspondem a uma pequena parte de sua dramaturgia. As traduções têm se concentrado principalmente na sua obra ficcional.

A produção teatral de Samuel Beckett também foi pouco traduzida (Esperando Godot, Fim de Partida e Dias felizes), diante da importância de sua obra. As editoras também têm se concentrado em sua ficção.

Por fim, podemos dizer que, com algumas exceções, a dramaturgia dos ganhadores do prêmio Nobel de Literatura não despertou o interesse das editoras. Mesmo os que o despertaram foram, com o passar dos anos, esquecidos e a maior parte das traduções está esgotada. Isso, em parte, se deve ao fato de que o público leitor contemporâneo não tem o hábito de ler textos teatrais, e do próprio papel secundário que o teatro exerce na contemporaneidade.

A leitura teatral não tem sido incluída no processo de formação dos leitores, e mesmo o público frequentador de teatro não tem por hábito a leitura de peças teatrais. Consequentemente, o mercado editorial dedica pouco espaço à publicação de textos teatrais, seja de traduções, seja dos grandes nomes do cânone da literatura brasileira.

Rodrigo Conçole Lage é professor de história. Possui artigos e resenhas sobre Literatura e História publicados em revistas acadêmicas.

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Do clássico à modernidade: o potencial da tragédia Tiestes

Por Rafael Peres

            

Tiestes
“Tiestes”, montagem de Luis Miguel Cintra / Foto: Paulo Cintra

 

Não há, em toda a história, uma representação que evoque tão incisivamente o drama associado à busca pelo poder, do que a tragédia Tiestes, de Lucio Anneo Sêneca* (Volume 2. Edición de Jesús Luque Moreno. Ávila: Biblioteca Clásica Gredos, 1979). De características estoicas, que se distinguem pela negação aos bens materiais e reflexão sobre o destino, essa obra investiga a ambição desmedida do homem, inventariando suas consequências. Seu autor revela a hýbris da Casa real dos Átridas, a qual ataviara uma horrível fatalidade às gerações da nobreza argiva. A tragédia conta a história da disputa de Tiestes e Atreu pelo reino de Argos. O primeiro rouba a esposa e o velo de ouro (símbolo do poder) do irmão, que se vinga, assassinando seus sobrinhos para dá-los de comer ao outro. Repleta de atributos filosóficos, o drama destaca a fragilidade humana, com o intuito de atacar a hipocrisia egocêntrica, mostrando a catástrofe dos seus efeitos para a sociedade.

Vários escritores e tragediógrafos dialogaram com a estética e os valores expressos em Tiestes. No século XVI, Shakespeare retomou algumas características colhidas da literatura senequiana, valendo-se do ódio entre famílias e de desfechos cruéis, como é o caso de Romeu e Julieta. Nessa obra e na maioria de suas produções, o dramaturgo inglês constrói uma atmosfera trágica com crimes brutais, revelados durante a pretensa ascensão dos personagens ao poder, que se mostra terrivelmente contraditório no decorrer da peça. Percebe-se a analogia entre as tragédias shakesperianas e o mito de Atreu e Tiestes, tema da obra de Sêneca. Mais tarde, seu texto seria um dos modelos seguidos pela arte barroca do século XVII, período em que o questionamento existencial desencadeava o horror de uma realidade insólita. O estoicismo do dramaturgo latino ressurgiria em cena, com alusões filosóficas e literárias condizentes com o mito, usando o pavor como trunfo para sublinhar a ideia de perenidade do homem.

Levando em conta a influência da tragédia senequiana na arte seiscentista, analisaremos um filme do renomado escritor e dramaturgo Peter Greenaway, que se vale do Barroco para urdir sua produção, já nos últimos anos do século XX (1989). O mito de Atreu e Tiestes assemelha-se com esse longa-metragem, intitulado O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante (The Cook, The Thief, His Wife & Her Lover). O enredo desenvolve-se durante sete jantares – em nove dias – realizados num restaurante, onde os personagens Richard, o cozinheiro, o ladrão Albert Spica, sua mulher Georgina e o amante desta, Micheal, instigam violência, melancolia e desespero. O filme apresenta-se basicamente da seguinte forma: Georgina envolve-se num triângulo amoroso, traindo Albert Spica nas imediações do restaurante. O ladrão, após saber da infidelidade da esposa, invade a cozinha e encontra Michael, que sofre a estranha ameaça de se tornar a refeição do consorte traído. Em seguida, Spica mata o rival, corta suas carnes e o devora, causando pavor em todos.

Esse ato insano deflagra uma junção de símbolos, a fim de explicar as pulsões dos personagens. Para isso, utiliza-se o grotesco, que é uma característica que resvala tanto na tragédia senequiana quanto no filme de Greenaway. Esse aspecto do trágico embasa-se em rituais antigos, nos quais as orgias, os maus tratos e as blasfêmias eram direcionados às divindades como importantes tributos que, apesar do caráter depreciativo, exerciam uma espécie de expurgação dos pecados. Tais celebrações eram feitas para reanimar o corpus, ou seja, o homem buscava uma forma de regenerar-se por meio da matéria. O comer e o beber, para além da subsistência, adquiriram (em razão da permuta entre a morte e a vida, ocorrida durante o preparo e a absorção da matéria anímica) uma conotação grotesca. Os primitivos demonstravam que o corpo é aberto, inacabado, em constante interação com o mundo durante a mastigação e a ingestão, almejando sempre renovar-se.

 

“O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante” / Foto: Divulgação

 

Se analisarmos a influência dessas tradições nas obras de Sêneca e Greenaway, veremos que o ato de comer tem duas funções específicas: mostrar o homem como um ser frágil e instintivo e sanar suas faltas e erros. Tais manobras constituem uma apresentação grotesca, que tem como meta trabalhar o dinamismo exigido pela tragédia. Quanto aos personagens, podemos destacar Georgina, mulher do ladrão e amante de Michael. Sua referência é necessária porque ela partilha do mesmo erro que causou o ódio entre Atreu e Tiestes – a traição. Depois do pérfido assassinato de seu amante, ela e o cozinheiro unem-se para tramar uma horrenda vingança contra Albert Spica. Os dois conseguem achar o cadáver e, juntos, preparam um prato com as carnes deste, obrigando o ladrão a comer a repugnante refeição. Essa cena é muito parecida com o banquete em que Tiestes devora os próprios filhos. O clima tenso do restaurante e o cruel requinte dos acontecimentos mesclam-se às situações enredadas por Atreu, cuja intenção é enganar o irmão, induzindo-o a praticar o ato macabro. A aparente submissão de Georgina ao marido é mais uma característica que se assemelha ao comportamento do rei argivo, que, por vias dúbias, afirma ter relevado as transgressões de Tiestes, a fim de atraí-lo para sua armadilha.

No que se refere ao espaço cênico e seus desdobramentos, o dramaturgo utiliza uma fragmentação de cores, de acordo com a cena representada. Assim, toda cor tem sua significação associada ao cenário e aos figurinos. A vestimenta de Albert Spica, por exemplo, sugere a ideia de morte, pois está relacionada aos lugares onde ele e seus comparsas praticam suas atrocidades. A descrição do bosque onde Atreu mata os filhos de Tiestes é realçada com o mesmo tom negro da roupa que o ladrão usa durante seus atos pérfidos. As trevas, embebidas por ênfase implacável, condensam o sobrenatural nas mortes de Tântalo e Plístenes. O recuo do sol, nessa parte da tragédia, associa-se ao horror do momento em que o rei argivo corta as gargantas de seus sobrinhos. Esse fenômeno marca o início de um possível cataclismo, o que é reforçado pela escuridão que ameaça dominar a terra. Fica evidente que ambos os cenários (o clássico e o moderno), apesar de serem duas épocas completamente distintas, são fabricados para condensar o terror em suas respectivas cenas.

Os conceitos comparativos enfatizados neste breve estudo nos fazem afirmar que o teatro, principalmente a tragédia, é o que sustenta e inspira os filmes que trabalham com o terror. A vingança é um dos principais motes usados para intensificá-lo, sobretudo quando o resultado é o canibalismo. No entanto, essa pulsão, como outrora explicamos, adquire um caráter ritualístico, cujo propósito é explorar aspectos culturais da sociedade ocidental em épocas distintas, principalmente após o nascimento de Cristo**. Anteriormente, fizemos uma observação sobre o corpo e suas aptidões fisiológicas, e a interação deste com o mundo. O alimento é o vínculo do plano externo com o interno, é a matéria que transmite vitalidade e força ao corpo. Todavia, em Tiestes e em O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante, a comida é o terrível artifício dos personagens. Fato semelhante ocorre na peça shakesperiana Titus Andronicus, na qual a carne humana é cozida e ofertada ao inimigo. Mais uma vez, torna-se evidente o paradoxo entre a vida e a morte, demonstrado impecavelmente nas tragédias, desde Sêneca até Greenaway.

Na obra do filósofo latino, há trechos em que aparecem os habitantes de Argos, figurando como avaliadores dos acontecimentos. Eles descrevem e opinam filosoficamente a respeito dos insidiosos atos, formando um coro (como era comumente usado no teatro greco-romano), uma espécie de refrão em repúdio àquilo que ocorria entre os nobres. Alguns dos personagens de Greenaway cantam no espaço Na obra do filósofo latino, há trechos em que aparecem os habitantes de Argos, figurando como avaliadores dos acontecimentos. Eles descrevem e opinam filosoficamente a respeito dos insidiosos atos, formando um coro (como era comumente usado no teatro greco-romano), uma espécie de refrão em repúdio àquilo que ocorria entre os nobres. Alguns dos personagens de Greenaway cantam no espaço imenso da cozinha, intercalados na sequência do filme, evocando a expiação dos pecados e a purificação, assim como o coro de argivos. Essa intervenção, própria das tragédias clássicas, é uma característica resgatada pelo dramaturgo inglês para inserir reflexões acerca das práticas corruptíveis no decorrer do filme. Concluímos que o potencial da tragédia Tiestes, de Sêneca, pode ser visto como o principal elo de uma corrente intertextual, que revela o declínio ético do homem em busca do poder. O filósofo latino soube abordar os vícios que infestam a nobreza, denunciando suas mazelas, com o intuito de moralizar sua geração e deixar um legado filosófico à posteridade. Essa postura estoica, somada à densidade trágica e à riqueza simbólica, tornaram essa obra um cânone, legitimando assim sua capacidade atemporal, cujo valor está intrínseco à modernidade. Prova disso é o filme O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante, outra engenhosa versão do mito de Atreu e Tiestes.

 

 

* Filósofo e dramaturgo do século I d. C.
** O pão e o vinho são metonímias do corpo de Cristo, o qual é ingerido pelo homem, em sinal de sua comunhão com o sagrado, objetivando a remissão dos pecados e a vida eterna, o que corrobora com a simbologia ritualística associada ao ato de comer.

 

Rafael Geraldo Vianney Peres nasceu em Patos de Minas, Minas Gerais, em 1986. É graduado em Letras pelo Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM). Atualmente, é mestrando em Teoria Literária na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Já publicou os contos “A Peste: porcos e corpos”, pela editora Valer/Sesc; “Hell”, na antologia Caminhos do medo, pela editora Andross; é autor de “O olho da máscara”, texto classificado no Concurso literário “Cidade das Asas”, e também um dos vencedores do 45º Concurso Literário de Contos do FEMUP, tendo como mérito sua obra “Os Girinos”. 

 

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93ª Leva - 07/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Sandra Vargas e o teatro como experiência sutil e complexa

Por Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos

 

Há três décadas na estrada, o Grupo Sobrevento consolidou-se como um dos mais importantes espaços do país para o que de melhor há em criação e pesquisa teatral, estabelecendo um diálogo pioneiro com grupos de vanguarda de várias partes do mundo, bem como levando a outros continentes a sua arte. Nesta entrevista, uma de suas fundadoras, a atriz Sandra Vargas, conta um pouco da história e dos projetos do grupo. Formada em Artes Cênicas pela Universidade do Rio de Janeiro (UniRio), recebeu, por dois anos consecutivos, 1995 e 1996, o prêmio Estímulo, do Ministério da Cultura, por sua contribuição ao panorama das artes e da cultura no país. Em 1999, foi ganhadora do prêmio Mambembe e, em 2000, do prêmio APCA de melhor atriz, além de ter recebido várias indicações para o prêmio Shell. Como bolsista do governo francês, estagiou nas companhias de Phillipe Genty e do Théâtre Du Moviment. Responsável pela Mostra Internacional de Teatro de Animação, realizada no Rio de Janeiro, em 1992, trouxe pela primeira vez ao Brasil destacados grupos da China, Espanha, Suécia, França e Argentina. Ainda nos anos 90, na Universidade Católica Blas Canãs, de Santiago do Chile, foi responsável por oficinas de teatro de animação. Dentre a extensa lista de espetáculos que realizou, destacam-se Ato sem Palavras, Um Conto de Hoffmann, Mozart Moments, O Teatro de Brinquedo, O Cabaré dos Quase Vivos, Cadê meus Heróis e O Copo de Leite, com turnês pela América Latina, Europa, África e Oriente.

 

Sandra Vargas
Sandra Vargas / Foto: arquivo pessoal

 

ITAMAR SANTOS – Como se deu a criação e a escolha do nome Sobrevento para o grupo?

SANDRA VARGAS –Em 1987, ainda estudantes de Artes Cênicas da Universidade do Rio de Janeiro, havíamos sido convidados a participar de um Festival Internacional de Teatro de Bonecos, porém precisávamos de uma estrutura legal e decidimos criar uma associação. Quanto ao nome, decidimos fazer como os dadaístas, abrir um dicionário e escolher o primeiro nome que aparecesse. Bom, como o primeiro nome era realmente muito feio, decidimos dar uma segunda chance ao acaso e veio daí o nome Sobrevento, que segundo o dicionário, quer dizer “ímpeto repentino do vento, capaz de transtornar a marcha de uma embarcação”, ou seja, um termo de náutica que também quer dizer acontecimento inesperado, nem sempre uma boa surpresa, porém.

 

ANGELO MENDES – O Sobrevento é reconhecido nacional e internacionalmente e recebeu os prêmios mais importantes do país. Qual a fórmula para tanto sucesso?

SANDRA VARGAS – Temo que não haja fórmula, mas todas as nossas conquistas foram fruto de nossa persistência e obstinação. E não se deve acreditar tanto assim em prêmios, reconhecimento ou sucesso.Teatro é para se fazer a cada dia, com humildade, paciência e tomando cada espetáculo como um encontro diferente com o público.

 

ITAMAR SANTOS – Como ocorre a escolha dos textos para os espetáculos?

SANDRA VARGAS –Nem sempre partimos de textos em nossas encenações. Muitas vezes, eles só entram mais tarde, no processo de criação de um espetáculo. Algumas vezes, o texto não é mais que uma partitura de ações. Às vezes, eles surgem casualmente, esbarrando em algum livro. Noutras, temos que nos pôr a escrever. Não costumamos atribuirtanto peso a um texto. Ele é, para nós, apenas mais uma peça do jogo teatral.

 

ANGELO MENDES – Na Terceira Semana Internacional de Teatro de Animação do Sobrevento foram apresentadas seis das companhias mais destacadas de teatro de animação do mundo: Art Stage (Coréia); Crazy Body (Irã); Rocamora; Hermanos Oligor; Playground (Espanha) e Casa Degli Alfieri (Itália). Quais as dificuldades encontradas para realizar um evento de tal dimensão, uma vez que o teatro de animação, lamentavelmente, tem pouca visibilidade na mídia?

SANDRA VARGAS – Visibilidade na mídia não pode pautar as nossas buscas e realizações artísticas. Perseguimos um sonho, vários sonhos. Todo artista está acostumado a preconceitos, a frustrações, a mal-entendidos, mas a arte, sendo o oposto do cinismo, está sempre em busca de construir, reconstruir, se reconstruir. Nunca tivemos verba suficiente para arcar completamente com os custos dos festivais que realizamos, porque sempre os fazemos maiores do que imaginamos, aumentando e complicando o proposto. Para tanto, contamos com o apoio das companhias que convidamos, que acreditam em nós e no que fazemos.E que se colocam ao nosso lado. Temos muito orgulho de termos artistas que admiramos como amigos, em dezenas de países. O que nos move a fazer os festivais é a possibilidade do intercâmbio, isto não tem preço para nós. Temos certeza de que o contato com todas as companhias que trazemos faz com que o nosso trabalho se renove e esteja em constante movimento. E isto se estende a muitas outras companhias de todo o Brasil, que sempre convidamos para compartilharem de nossos encontros.

 

ITAMAR SANTOS – O Sobrevento já viajou para vários países, como Escócia, Irlanda, Espanha, Argentina, Chile, Colômbia, Angola, Suécia, Estônia, México e Irã. Como foi a experiência das viagens? A diferença de idiomas implica alguma alteração no espetáculo?

SANDRA VARGAS – Falamos cinco idiomas e isto facilita muito. Cada viagem é uma descoberta, porque os povos, definitivamente, não são iguais e cada cultura revela muitas surpresas. Toda apresentação é diferente e cada espetáculo é um encontro. Em um mesmo país, apresentações em diferentes cidades, em dias consecutivos, podem provocar reações absolutamente diferentes. O teatro é frágil e isto não deve ser negado, mas cultivado pelos artistas. O teatro que é sempre igual é pobre, é fraco. A peça bem feita não é arte, é mecânica. Hoje é muito fácil usar sobretitulagem, legendas, e a dificuldade de um artista não está em se comunicar em um idioma, mas sim em um outro ambiente cultural.

 

ANGELO MENDES –Artaud dizia: “Sei muito bem, por outro lado, que a linguagem dos gestos e das atitudes, que a dança, a música são menos capazes de elucidar um caráter, de relatar os pensamentos humanos de uma personagem, de expor os estados da consciência claros e precisos como a linguagem verbal, mas quem disse que o teatro é feito para elucidar um caráter, para resolver conflitos de ordem humana e passional, de ordem atual e psicológica, coisas de que nosso teatro contemporâneo está repleto?” O que você diria sobre este questionamento?

SANDRA VARGAS – Gostaria de ter dito isto. Artaud era mesmo brilhante e este questionamento é vital para se entender as buscas do teatro contemporâneo. O teatro não é aquilo que se tornou. O teatro já foi muitas outras coisas e pode ser tantas outras. Não existem fronteiras entre as artes. Não se pode reduzir um espetáculo teatral a cinco linhas. O teatro é uma experiência sutil, complexa, que pode ser festa, religião, brincadeira, espetáculo e muitas outras coisas. Não precisa ter o público sentado, fechado, no escuro, rebaixado, calado. Artaud, sábio, visionário, é um dos pilares do teatro moderno, que anda em busca de si mesmo.

 

ITAMAR SANTOS – Sabemos a dificuldade que a classe teatral enfrenta com as leis de incentivo à cultura. As companhias teatrais vivem a incerteza de darem continuidade ao seu trabalho devido à contemplação ou não de verbas . Como vê tal questão?

SANDRA VARGAS – Vivemos em um equilíbrio precário, como diz um grupo de amigos chilenos, mas fomos nos acostumando a isto. De um jeito ou de outro, precisamos seguir em frente. E a verdade é que, quando começamos a fazer teatro, há cerca de trinta anos, pensávamos que o caminho seria muito mais duro. As condições para se fazer teatro melhoraram, desde então. O país melhorou. O Teatro soube mudar, para manter o seu lugar no mundo de hoje. Continua importante, forte, surpreendente e provocador. Muitas companhias tombam, se reerguem, encontram alternativas, associam-se a outras. Algumas desistem, o que não torna as suas conquistas menores. Outras persistem e talvez não devessem. O teatro é uma arte viva, um movimento importante para que as pessoas tenham uma vida melhor e se tornem melhores. Acesso à arte e à cultura são a expressão de quem somos e são direito de todo ser humano, desde que nascem. E o governo tem o dever de garantir isto aos cidadãos. O que é lamentável é que as subvenções à cultura, advindas diretamente do governo, que envolvem editais e comissões de seleção de notório saber, sejam tão inferiores às subvenções oferecidas por empresas por meio da renúncia fiscal garantida pela Lei Rouanet. São sempre de verbas públicas, mas no primeiro caso há transparência e o objetivo de garantir o amplo acesso da população à cultura, enquanto que no segundo caso, a exceção está nas empresas estatais, busca-se o direcionamento ao público-alvo específico da empresa, visando a lucro e benefícios imediatos, atendendo a interesses mercadológicos, sem preocupações sociais ou artísticas.

 

Sandra Vargas / Foto: arquivo pessoal

 

ANGELO MENDES – Como foi a experiência de estudar com alguns dos maiores marionetistas contemporâneos, como Phillipe Genty, Yves Marc e Claire Heggen?

SANDRA VARGAS – Sempre buscamos aprender com pessoas que admirávamos e esta é a melhor maneira de nos aperfeiçoarmos no teatro. Philippe Genty é um artista incrível, que admiramos profundamente, e com quem tivemos a sorte de estudar logo no início de nossa carreira. Ele deixou uma marca indelével em nós. Ao longo de nossa carreira, sempre tivemos a desfaçatez de convidar artistas a colaborar conosco, a nos ensinar, a nos treinar, a nos dirigir. E nunca recebemos um não. Os artistas se querem, se farejam e terminam por se encontrar, mesmo vivendo em lugares opostos do mundo. Estudar com artistas de tal grandeza, como fizemos com artistas brasileiros, chineses, franceses, belgas, espanhóis, demanda, ao mesmo tempo, humildade e orgulho, para que este encontro se transforme efetivamente em uma colaboração, em uma troca. Tem que ser um dar e receber generoso para que seja uma experiência proveitosa para todos os artistas.

 

ITAMAR SANTOS – O Espaço Sobrevento fica na região da zona leste de São Paulo, fora, portanto, do circuito teatral da cidade, no bairro do Brás, onde há, inclusive, uma comunidade numerosa de imigrantes bolivianos. Este público local prestigia os espetáculos em cartaz?

SANDRA VARGAS –O Espaço Sobrevento é mesmo muito bem localizadopara o tipo de trabalho que buscamos fazer, para o tipo de espetáculo que apresentamos, para o tipo de encontro que propomos. É de fácil acesso por metrô, ônibus e carro. Fica em um bairro muito caseiro, na zonaleste da cidade, região que conhecemos bem. E foi como que adotado pela vizinhança, que prestigia os espetáculos, que respeita, protege e é orgulhosa do espaço. Trata-se de uma população de classe média, de baixa renda e com muitos imigrantes, sobretudo bolivianos. Os bolivianos não costumam guardar muito tempo para o lazer e se sentem algumas vezes intimidados em ir ao teatro, quando nem mesmo dominam o nosso idioma. Pouco a pouco, porém, expressamente convidados, estimulados, vão se aproximando e, hoje, frequentam o nosso teatro, ainda que timidamente, sobretudo por conta de suas crianças, que estudando nas escolas públicas da região, levam os pais a acompanhar a programação que oferecemos, sempre gratuitamente. Integração social e comunitária são coisas que também vêm junto com o teatro.

 

ANGELO MENDES – O Sobrevento tem um grupo de estudos sobre o teatro de objetos. No que consiste o teatro de objetos? Que atividades tem realizado o grupo?

SANDRA VARGAS –O teatro de objetos é uma vertente do teatro de animação, que se vale de objetos prontos, em lugar de bonecos. Sou curadora de um Festival Internacional de Teatro de Objetos, que se realiza no Brasil e que é o maior evento do gênero no mundo. Por este festival, pude me aproximar de muitas companhias, criadores e realizadores muito importantes e inquietos. Com a curiosidade desperta, passamos a pesquisar esta forma de teatro e passamos a difundi-la, por meio de artigos, palestras, oficinas e criações. O grupo de estudos que organizamos nos levou, por exemplo, à criação de uma de nossasrecentes montagens, São Manuel Bueno, Mártir, e a muitas descobertas, considerações e reconsiderações. E temos estudado o teatro de objetos, às vezes com entusiasmo, às vezes com decepção, o que, de toda forma, é artisticamente muito rico.

 

ITAMAR SANTOS –São Manuel Bueno, Mártir, um dos recentes espetáculos da companhia, é baseado num conto do escritor espanhol Miguel de Unamuno. O que a levou a trabalhar este conto e quais foram as maiores dificuldades para adaptá-lo para o teatro, especialmente com a presença dos bonecos?

SANDRA VARGAS –Há oito ou dez anos lemos este livro em uma viagem à Espanha. Gostamos muito dele e chegamos a dizer que algum dia o iríamos encenar. Não víamos, porém, nenhuma possibilidade de encená-lo com bonecos e dizíamos, entre nós, que só no dia em que quiséssemos montar um espetáculo muito realista é que o encenaríamos. Quando começamos nossa pesquisa com objetos, cujo tema era a identidade, enveredamos por questões próprias da identidade do artista. O teatro de objetos, que se vale de objetos prontos em lugar de bonecos, foi o que nos abriu uma possibilidade da encenação de um texto muito realista de forma poética. Os bonecos, manipulados, pareciam um jogo muito estilizado, que soava falso, frente a questões tão humanas. Os objetos, porém, não sendo manipulados, sendo tão simbólicos e dependendo do espectador para completar o seu sentido, terminavam por provocar o envolvimento emocional do público. Simplesmente plantados na mesa, essas figuras imóveis, esses objetos, criavam imagens que só se completavam na cabeça de cada espectador. E junto com o envolvimento advindo do ato de decifrar, que demandava a cumplicidade dos presentes, vinha também um desejável e necessário distanciamento, que se presta tão bem para trazer um texto tão filosófico à cena.

 

ANGELO MENDES – Qual a contribuição da companhia espanhola La Casa Incierta para São Manuel Bueno, Mártir?

SANDRA VARGAS –Temos com o La Casa Incierta uma amizade de anos, muita afinidade, pessoal e artística. E uma admiração mútua. Eles são uma referência, um espelho, para nós. Acreditamos sermos muito parecidos, compartilhamos os mesmos problemas, angústias, sonhos, inquietações e temos uma vida, objetivos e estrutura bastante semelhantes. Eles são, também, amigos queridos, que, mais de uma vez, nos ampararam, quando nos encontrávamos perdidos em um processo de criação. Foram eles que nos apresentaram o teatro para bebês e, desde que começamos a nos embrenhar nesta pesquisa, mudamos muito como artistas e pessoas. O teatro para bebês nos levou à busca de uma interpretação mais íntima, mais delicada e poética com o espectador. São Manuel Bueno é resultado desta busca e A Casa Incierta foi sempre um norte para nós no caminho dessa criação.

 

ITAMAR SANTOS –À frente da Cooperativa Paulista de Teatro, que contribuição espera dar a seus 3.400 associados? Que papel deve ser primordial às cooperativas de teatro e como expandi-las nacionalmente?

SANDRA VARGAS –A Cooperativa de Teatro é um exemplo de que o trabalho coletivo dá certo, que é proveitoso para todos. Entendo a Cooperativa como uma forma de organização em que podemos dividir uma mesma estrutura e na qual, fazendo-nos mais fortes e representativos, podemos lutarpor condições melhores para trabalhar e pela difusão de nossa arte, de nosso trabalho, garantindo à população um melhor acesso à cultura, ao lazer, à integração social, à comunhão entre vizinhos. Devemos sempre pensar, primeiro, no público e, assim, pensar em nós, porque acultura é tão importante como a saúde e a educação. As cooperativas devem ter um papel congregador, devem estimular a reflexão acerca do papel do artista, sobre o que devemos cobrar do governo, do que é pertinente ou não. A Cooperativa Paulista de Teatro é um movimento, não uma estrutura estática, e amadureceu muito. Temos uma entidade bastante politizada e consciente, que consegue lutar por programas públicos de uma forma grande, sem mesquinhez, sem pensar no pedaço do bolo que nos toca. A forma dela se expandir vai depender do quanto a classe teatral em cada estado estiver organizada e do entendimento de que a Cooperativa não vai fazer nada para cada um, individualmente, mas que cada indivíduo, pensando no melhor para o coletivo, vai fortalecer a entidade.

 

Angelo Mendes Corrêa é professor universitário e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP).

Itamar Santos é ator, professor e mestrando em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP).

 

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83ª Leva - 09/2013 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

A ETERNA ARTE DO EFÊMERO – 2ª PARTE

Por Fernando Marques

  

 

Teatro ocidental, de Roma ao século XX

 

Os latinos, de índole mais pragmática e menos reflexiva que a dos gregos, prefeririam gladiadores, feras e outras atrações brutais, pelo menos no que diz respeito às grandes plateias. O circo ululante foi cultivado em detrimento da arte dos poetas trágicos – os austeros textos de Sêneca seriam valorizados apenas muitos séculos mais tarde, às portas da Renascença. Não foi esse o caso, porém, das comédias brilhantes de Plauto (254-184 a.C.), muito amigo das confusões farsescas, autor de textos posteriormente imitados – O avarento, que Molière escreveu em 1668, e O santo e a porca, de Ariano Suassuna, de 1957, são exemplos de peças inspiradas em Plauto. Seu rival Terêncio acentuou os aspectos retóricos do diálogo, em prosa elegante que mais tarde, já no século XV, serviria de modelo para a prática erudita do latim.

Os cristãos, que de início foram almoço de animais na arena romana, alcançaram uma vitória política com a chegada ao poder de Constantino em 330. Fechado o mundo grego, que os romanos reviveram apenas superficialmente, as festas cristãs na Idade Média constituirão o alimento dos espetáculos: Natal e Páscoa fornecem temas ao teatro medieval, com a representação nas igrejas tendo o altar como cenário. (Existirá, em paralelo, um teatro popular mais espontâneo e menos submisso aos cânones religiosos.) As formas teatrais na Idade Média estão distantes da concentração clássica e desconhecem a lei famosa das três unidades – ação, lugar e tempo. Pelo contrário, são formas múltiplas e dispersas: não dramáticas, mas épicas.

Pretendia-se exibir a história bíblica, e o enredo de um mesmo espetáculo poderia saltar séculos ou milênios, de Adão a Cristo, por exemplo. O espaço físico utilizado não se restringiu ao interior dos templos; Berthold informa que “o mais antigo dos dramas religiosos existentes em língua francesa, o Mystère d’Adam, da metade do século XII, já se realizava fora do portal da Catedral. Em três grandes ciclos temáticos, ele trata do pecado e da redenção prometida à humanidade: a Queda, o assassinato de Abel por Caim e os Profetas”. A autora acrescenta: “As rubricas sugerem o uso de uma armação de madeira adequadamente decorada, que se apoiava na fachada da igreja. O pórtico era a Porta do Céu. De um lado ficava o Paraíso, sobre um tablado elevado; do outro, mais abaixo, a Boca do Inferno”. O legado medieval abrange ainda a comédia, de que o modelo é a farsa Mestre Pierre Pathelin, que satiriza os costumes ao apresentar um advogado tão respeitado quanto inescrupuloso. A primeira representação do texto francês, de autor desconhecido, data de 1465.

 

A farsa “Mestre Pierre Pathelin” / Direção: João Guedes / Foto: Divulgação

 

Com a queda de Bizâncio, facção oriental do Império Romano, em 1453, as elites ocidentais iriam redescobrir os gregos, Aristóteles e a Poética, cujo texto original foi republicado em 1508. Os debates em torno das noções aristotélicas, entre elas os conceitos de unidade e de catarse, fizeram correr muita tinta, em especial na Itália e na França. Defendia-se a volta aos velhos gregos, mas nem sempre se chegou a um acordo sobre o que teria sido, de fato, o teatro clássico. A princípio tarefa de estudiosos, o Renascimento no palco se inicia em 1486, com a encenação em cidades italianas da tragédia Hipólito, de Sêneca, e da comédia Os gêmeos, de Plauto. “O que nunca havia ocorrido em vida a Sêneca veio a se concretizar 1500 anos depois, em alto nível acadêmico”, observa Berthold.

A descoberta da perspectiva e o respeito ao legado grego logo iriam influir sobre os cenários e sobre a arquitetura teatral. Leonardo da Vinci foi pioneiro na arte de desenhar para a cena, tendo criado palco giratório já em 1490. O Teatro Olímpico de Vicenza, inaugurado naquela cidade em 1584, com seu palco semicircular e seus cenários em perspectiva (que somavam a perspectiva real à ilusão da pintura), é um dos modelos arquitetônicos da época. O maquinário sofistica-se, e Berthold ressalva: “No decorrer de um século, o teatro renascentista viveu uma repetição em câmera rápida do teatro romano. Quanto mais suntuoso o palco se tornava e quanto mais atenção era dispensada a seus aspectos visuais, mais desvalorizado ficava o conteúdo literário”. Os atores deviam agora “subordinar seu movimento e composição ao cálculo ótico” da cena.

Na Inglaterra, as comédias e tragédias de Shakespeare, diversamente, dispensaram em parte a tecnologia visual e concitaram a plateia a imaginar salas e paisagens: o teatro se apresentava como uma espécie de sonho desperto. O dramaturgo dirá, em Henrique V: “Imaginai que no cinturão destas muralhas estejam encerradas duas poderosas monarquias (…). Porque é vossa imaginação que deve vestir os reis, transportá-los de um lugar para outro, transpor os tempos”. Inúteis as citadas unidades de ação, tempo e lugar, quando se consegue “acumular numa hora de ampulheta os acontecimentos de muitos anos”. Texto e ator conduzem a fantasia dos espectadores, o que se verifica também no teatro de Calderón de la Barca, em peças como A vida é sonho. No texto de Calderón, a musicalidade do verso parece predispor o público a aceitar, como se fossem naturais, as extravagâncias do enredo tragicômico: um príncipe despótico e cruel imagina ser um prisioneiro miserável, sofrendo experiências que afinal o transformam em soberano mais justo e equilibrado.

 

Cena da montagem “A vida é sonho” / Direção: Julio Maciel / Foto: Guto Muniz

 

O também espanhol Lope de Vega, aborrecido com as cobranças acadêmicas, costumava dizer que, ao redigir uma peça, trancava as regras na gaveta. Já na França do século XVII, sob o patrocínio da corte, dramaturgos e críticos procederam de forma bem distinta, muito mais apegada às normas que a Academia Francesa, comandada por Richelieu, estabelecia. Corneille desafiou hábitos estéticos e morais com O Cid, em 1636, peça de enorme sucesso que, talvez por isso mesmo, foi desancada pelos conservadores. O autor teria insultado a moralidade e a verossimilhança, desencadeando polêmica. A exigência de verossimilhança chegaria ao extremo, no século XVIII, com Gottsched, representante alemão da serenidade clássica francesa, capaz de exageros como o de afirmar que, se a ação saltasse no tempo ou no espaço (obrigando o espetáculo à mudança de cenário), o espectador deixaria de acreditar no que vê, desligando-se do que se mostra no palco. Poderoso gerente da cena alemã, Gottsched toma a ideia de ilusão cênica demasiadamente ao pé da letra; o incisivo Lessing, renovador que se contrapôs à obediência obtusa às normas, chamou Gottsched de “besta quadrada”.

Lessing, ligado ao iluminista francês Diderot, de quem traduziu as peças, terá de lutar contra o conservador Gottsched. A Alemanha é, naquele período, colônia cultural dos franceses, para dizê-lo com alguma ênfase. A renovação do teatro implicava levar à cena não mais as aristocráticas personagens de Racine, mas figuras representativas do mundo burguês emergente (as criaturas racinianas seriam definidas por Schiller como “espectadores glaciais de sua própria fúria, professores de sua paixão”). Àquela altura, a popular commedia dell’arte, originária da Itália, já estabelecera seus tipos havia 200 anos, espalhando-os pela Europa.

Na década de 1770, surge na Alemanha a geração Sturm und Drang, Tempestade e Ímpeto, de que fazem parte o jovem Schiller de Os salteadores, Goethe e o inquieto Lenz. A lógica iluminista já não basta para esses escritores, chamados pré-românticos, que deixam obra incompleta (salvo Schiller e Goethe, convertidos depois ao credo neoclássico), mas plena de sugestões. Essas sugestões viriam a influir, décadas depois, sobre Georg Büchner, que morreu aos 23 anos legando três peças, entre elas as seminais A morte de Danton e Woyzeck. A mistura de comédia e drama, as situações apresentadas aos saltos e não de modo linear reincidem no Woyzeck, história do soldado raso maltratado pelo Estado, usado pela ciência e traído pela namorada, perdedor da cabeça aos sapatos – tipo de herói pouco frequente na dramaturgia do tempo. Os expressionistas viriam a perceber, em Büchner, um precursor.

 

Cena de “A Morte de Danton” / Direção: Jorge Silva Melo / Foto: Jorge Gonçalves

 

Quando Büchner morre, desconhecido, em 1837, a explosão romântica em torno de Victor Hugo já acontecera havia uma década. As formas operísticas, que vinham sendo elaboradas desde 1600, a princípio na tentativa de retorno ao teatro total dos gregos – poético, plástico, musical –, encontram, na segunda metade do século XIX, momentos agudos em Bizet, Verdi e Wagner. Outro modelo de teatro musical seria praticado pelo inglês John Gay já em 1728, na Ópera do mendigo, mesmo ano em que o gênero da revista, com a crítica dos fatos imediatos, nasce nas feiras parisienses. Síntese das fórmulas erudita e popular de espetáculo musical pode ser encontrada em Offenbach ou, mais recentemente, em Brecht e na Broadway.

No teatro dramático, a passagem do romantismo ao realismo se dá por meio de peça que tempera franqueza realista, passionalidade romântica e moralismo burguês, exibindo a história da prostituta Marguerite Gautier. Hoje anacrônica, A dama das camélias, de Alexandre Dumas Filho, soube discutir a questão do amor que se contrapõe às conveniências sociais, por volta de 1850.

A dramaturgia de Ibsen, mais franca e madura que a de Dumas Filho, escandaliza as plateias com Casa de bonecas, 30 anos depois. O teatro acompanha as mudanças políticas, que incluem reivindicações feministas. Textos de Ibsen integram o repertório do Teatro Livre, de André Antoine, que busca levar ao palco o naturalismo preconizado por Émile Zola desde 1867 (ano em que Zola publica o romance Thérèse Raquin, depois transformado em peça teatral). Tendências estéticas contraditórias – basicamente, naturalismo e simbolismo – entram em debate. Os artistas reunidos no Teatro de Arte de Moscou, criado por Stanislavski em 1898, reelaboram noções e práticas realistas, influenciados pela companhia alemã dos Meininger. “Stanislavski, em Moscou, e Antoine, em Paris, admitiram sua dívida para com eles, em matérias tais como: a sugestão cênica de uma quarta parede, a atuação em conjunto e a ideia de que a direção cênica cria um estilo”, diz Berthold. Nascia o encenador, no sentido moderno.

 

Montagem de “Casa de Bonecas” / Direção: Stepháne Braunschweig / Foto: Divulgação

 

O livro mostra, com apoio nas muitas ilustrações, a progressiva tendência à geometria na primeira metade do século XX, com a economia de linhas alcançada por cenógrafos como o suíço Appia e o inglês Craig. Exemplo da soma de talentos na fatura de um teatro novo encontra-se no balé O chapéu de três pontas, de 1919, com música de Manuel de Falla e cenário cubista de Picasso: a paisagem desenhada tem traços irregulares e angulosos, a perspectiva acha-se subvertida.

Nas primeiras décadas do século passado, a quarta parede é derrubada com propósitos políticos pela vanguarda panfletária de Piscator, que irá se desdobrar nas propostas de Brecht – autor filiado, na origem, ao expressionismo niilista e soturno. Em 1947, o comunista Bertolt Brecht depunha diante da Comissão sobre Atividades Antiamericanas da Câmara, o comitê que perseguiu as oposições nos EUA. No ano seguinte, Antonin Artaud, teórico do retorno à cena ritual, morria na França depois de repetidas e dolorosas internações.

Correntes contraditórias (mas nem sempre inconciliáveis) têm movimentado o teatro no Ocidente. Uma delas pretende devolver nobreza dionisíaca à vulgaridade contemporânea e se encarna emblematicamente em Artaud; outra quer fazer do palco instrumento de mudança social, caso de Brecht. Uma terceira tendência se acha nos dramaturgos do Absurdo, Beckett e Ionesco à frente, que sintetizam protesto político e aventura estética: a linguagem se fragmenta, tornando-se escassa e metafórica, as situações são tacitamente trágicas, incontornáveis, as personagens não têm saída; o mundo parecia insolúvel aos dramaturgos do pós-guerra. Um quarto caminho, ainda, se pratica no teatro comercial, incluído o espetáculo cantado à maneira da Broadway, em geral desligado de transformações interiores ou coletivas. Teatro que exibe, no entanto, achados incisivos, como em West Side story, de 1957, com música de Leonard Bernstein. A herança europeia se retempera na mistura americana.

Margot Berthold privilegiou critérios estéticos na composição do livro; mas não há escolhas inocentes. Suas opções são eruditas, canônicas: trata-se da história do teatro segundo o ponto de vista de uma grande estudiosa de perfil acadêmico, felizmente capaz de escrever com elegância e sem pedantismo (mérito que em parte caberá aos tradutores). Seu pendor por critérios tradicionais a levou a desconsiderar muito do que não estivesse consignado nos museus e nas bibliotecas, sobretudo europeias. Assim, é algo omissa no que diz respeito a teatro popular, embora dedique bom espaço a commedia dell’arte e congêneres, e absolutamente muda em relação a América Latina e África. Tais faltas poderiam ser minoradas com a publicação de texto suplementar numa possível segunda edição brasileira [a História já teve novas edições]. Ressalvadas as lacunas, o belo e caudaloso livro importa pelo que é. Terá vida longa em qualquer idioma.

 

 (Fernando Marques é professor do Departamento de Artes Cênicas da UnB, jornalista, escritor e compositor. Publicou “Retratos de mulher” (poesia; Varanda, 2001), “Contos canhotos” (LGE, 2010), “A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues” (ensaio; Editora UnB/Ler Editora, 2012) e as peças “Zé” (adaptação do Woyzeck de Büchner) e “Últimos” – comédia musical (livro-CD), ambas pela Perspectiva. A cantora Wilzy Carioca lança neste ano o CD “De cor”, com 14 canções do autor. A peça “Zé” será republicada em novembro pela É Realizações)

 

 

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80ª Leva - 06/2013 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

A COERENTE TRAJETÓRIA DO GRUPO CENA

Por Geraldo Lima

 

Grupo Cena na peça Bagatelas / Foto: Dalton Camargos

 

Embora muitos ainda vejam a Capital do País apenas como um cenário onde a política impera com seus jogos de poder e trapaças, uma produção artística expressiva e de boa qualidade ganha cada vez mais força por aqui.  Falo, nesse caso, da produção teatral, que é bem variada e consistente. Alguns grupos têm se mantido fiéis a um trabalho dramatúrgico que lhes dá uma imagem própria, destacando-os em meio à miríade de peças em cartaz.

O Grupo Cena, que tenho acompanhado com mais frequência, é um desses grupos cujo trabalho se destaca, tanto pelo profissionalismo quanto pela coerência em relação à escolha do repertório. Diferente de outros grupos, como é o caso do Teatro do Concreto, ele não tem como proposta a criação coletiva de texto teatral; até agora, o seu repertório teatral se restringiu à montagem de textos de autores estrangeiros, entre argentinos, franceses e norte-americanos. A proposta do grupo, pelo que tudo indica, é apresentar textos teatrais nunca encenados no país, e isso tem resultado, sem dúvida, na montagem de bons espetáculos.

O grupo, criado em 2005, em Brasília, tem como proposta de trabalho “a pesquisa de novas dramaturgias com foco no trabalho do ator”. Para quem acompanha a sua trajetória profissional, isso fica bem claro: os atores e atrizes são levados a representarem com sutileza e densidade, expondo, desse modo, a complexidade da alma humana. Os textos escolhidos, geralmente marcados por uma estética minimalista, sem muita pirotecnia, carregados de lirismo e força dramatúrgica, induzem a esse tipo de representação, na qual o ator ou a atriz, num tom quase naturalista, deixa vazar toda a dimensão humana da personagem. Nesse tipo de encenação, cada gesto, cada palavra, cada expressão facial é importante, obrigando a plateia a acompanhar, com a máxima atenção, a ação que se desenrola no palco.

Sob a direção de Guilherme Reis, também coordenador do Cena Contemporânea – Festival Internacional de Brasília, o grupo, formado por experientes atores e atrizes brasilienses (Chico Sant’Anna, William Ferreira, João Antônio, Sérgio Fidalgo, Murillo Grossi, Carmem Moretzsohn, Adriana Lodi e Bidô Galvão), já levou aos palcos de Brasília e de outros estados brasileiros peças de reconhecido valor dramatúrgico.

De autores argentinos montaram “Dinossauros” e “Fronteiras”, ambas de Santiago Serrano (assisti à peça “Dinossauros” e sobre ela fiz uma resenha que será apresentada ao final desse texto), e “Varsóvia”, de  Patrícia Suárez.

Em 2010, levaram ao palco a peça “Heróis – O caminho do vento”, do francês Gerald Silbleyras. A história de três ex-combatentes de guerra (René/Gustavo/Fernando), que vivem num asilo para idosos, sob a rígida direção de uma freira, é caracterizada pelo tom dramático, irônico e lírico ao mesmo tempo. É comovente assistir ao cotidiano desses três indivíduos, já à espera da morte, mas que, em determinado momento, sob a ameaça de uma mudança na rotina do asilo, planejam uma fuga. “Heróis” é, como diz a sinopse da peça, “… uma experiência de amizade. Amigos são os heróis que ajudam a vencer batalhas da vida”.

Cena de Heróis / Foto: Divulgação

Em 2011, o grupo levou à cena a peça “Bagatelas”, da norte-americana Susan Glaspell. O texto da dramaturga norte-americana, escrito no início do século XX, surpreende e comove pela atualidade do tema (a violência contra a mulher) e pela simplicidade da trama, que é, ao mesmo tempo, capaz de revelar as sutilezas da alma feminina e o universo das mulheres no final do século XIX. Mostra, em suma, as diferenças de percepção da realidade entre mulheres e homens. O enredo da peça pode ser resumido desta forma: “Numa casa de fazenda do interior dos Estados Unidos, no início do século 20, ocorre um crime. Um promotor, um delegado e o fazendeiro vizinho são chamados a investigar. Eles levam suas esposas. Enquanto os homens procuram as pistas do assassinato, as mulheres ficam na cozinha, observando o cotidiano da casa, analisando, através das bagatelas, o que pode ter acontecido”. Através desse olhar minucioso, num ambiente que elas conhecem muito bem,  chegarão à solução do crime, ou melhor, às causas do crime. E o que elas farão com essa informação? É preciso assistir a essa peça maravilhosa para se entender a decisão tomada por essas mulheres. E aí está a grandeza da arte: a capacidade de nos fazer mergulhar nas profundezas da alma humana e de nos revelar os meandros das intricadas relações sociais.

A montagem mais recente do grupo, em 2013, trata-se do texto “Inventários – O que eu guardei pra você”, do dramaturgo francês Philippe Minyana. Mais uma vez confirma-se a preferência do grupo por textos curtos, minimalistas, mas de impacto pela densidade  do tema, da linguagem e da interpretação dos atores e das atrizes. Esse é um texto no qual a palavra e a memória têm uma grande importância. É através do jogo de se revelar, de se expor diante de uma plateia (trata-se, no caso, de um reality show), que a história se desenvolve. “Inventários é um jogo em que o apresentador leva as personagens a compartilhar suas vidas com o público, confessando suas dúvidas, ansiedades, angústias e momentos de felicidade.” Essa peça de Philippe Minyana fez grande sucesso na França, sendo transformada em série de televisão e documentário para o cinema. Talvez por abordar temas caros aos franceses, como a vivência da guerra, ela tenha repercutido tanto lá. Das montagens do grupo a que assisti até agora, essa foi a que menos me agradou. Quando parece que a ação vai sair do “monólogo construído pela memória” e as personagens vão começar a interagir entre si, num embate, a peça acaba. Talvez a culpa seja apenas minha, ao esperar sempre por um grand finale, e pode não ter sido essa intenção de Minyana. A história acaba quando acabam as revelações, ou quando o apresentador, em estilo histriônico, acha que já é tempo de encerrar o programa.

 “Dinossauros”, de Santiago Serrano, entrou em cartaz novamente no final de 2012, em Brasília, e pude então assistir à sua apresentação. O meu ponto de vista sobre o espetáculo está no texto apresentado em seguida.

 

 

UM TEXTO SIMPLES E COMOVENTE

 

A peça ‘Dinossauros’, do dramaturgo argentino Santiago Serrano, é de uma simplicidade total: apenas dois atores em cena, um cenário despojado, poucos objetos de cena (um banco de praça, um acordeon, uma sacola, uma garrafa de vinho, talheres), um único foco de luz (sugerindo a luz de um poste), pouca movimentação e diálogos marcados pelo coloquialismo, pelo tom bem natural. Um espetáculo que se sustenta, principalmente, na palavra e na atuação dos atores. Nesse caso, na belíssima atuação do ator Murilo Grossi e da atriz Carmem Moretzsohn, ambos de Brasília e do Grupo Cena. Vale ressaltar, aqui, a segura direção de Guilherme Reis, sem destoar do ritmo que o texto exige.

Cena de Dinossauros / Foto: Mila Petrillo

O que assistimos, em apenas uma hora de duração do espetáculo, é a vida acontecendo, no palco, com expressiva naturalidade: um homem e uma mulher se encontram em algum lugar da cidade, tarde da noite, e, a partir daí, vão se aproximando, dando cabo da solidão e do medo. Tudo isso se dá entre silêncios, risos, tentativas de fuga, de recuo e de reaproximação. O encontro entre dois, cada qual com suas cicatrizes e seus sonhos, vai se consolidando aos poucos, num transe lírico (quase dionisíaco num momento), na medida em que vão se desnudando, se revelando, se entregando. O que acontecerá depois, assim que o dia chegar, ninguém sabe: aos dois fica a certeza de que estão vivendo um momento intenso, que os arranca da solidão e do vazio. Se vai durar, impossível saber. Há a vontade de que dure, e isso já é um começo. Para os espectadores, como ponto de identificação, fica, talvez, a torcida para que continuem juntos, curando-se das suas feridas. Eis aí um texto simples na sua tessitura, mas de significado muito profundo.

Essa montagem da peça de Santiago Serrano, pelo Grupo Cena, já está em cartaz há bastante tempo e foi apresentada em vários locais do Brasil, sempre com muito sucesso.  Aqui em Brasília, voltou a ser encenada e ficou em cartaz, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura, Shopping Iguatemi–Lago Norte, até o dia 25 de novembro.  Para os que não tiveram a oportunidade de assistir a esse belo e comovente espetáculo teatral, fica a torcida para que ele volte a entrar em cartaz.

(Geraldo Lima é professor, escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, dentre eles Baque (contos, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado (peça de teatro, Ponteio Edições).  É colunista dos sites O BULE e Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção, em Goiânia, e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)

 

 

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Jogo de Cena

Jogo de Cena

UM BURACO DE FECHADURA PARA VER NELSON

Por Augusto Cavalcanti

 

Nelson Rodrigues / Foto: Agência Estado

 

Difícil encontrar alguém que não reconheça Nelson Rodrigues como influente. E polêmico. Não seria diferente, pois ele é certamente o mais destacado autor brasileiro no que diz respeito ao Teatro, à dramaturgia em geral. Com certeza, é o mais visto, considerando suas inúmeras adaptações, e que será lembrado pelo público em uma enquete, por exemplo.

Não sem mérito, sua rica dramaturgia da vivência nas ambientações burguesas, mitos e ritos intrínsecos à sociedade, situações enfrentadas na realidade dos costumes das famílias, a modernização e introdução do Trágico Épico ao cotidiano, histórias da burguesia beirando as vicissitudes da classe média, a sua virtude literária, a vibração do popular, tudo teve foco certo de provocação e crítica social.

Pai que tem desejo pela filha, irmã que jura no velório não concretizar a paixão pelo cunhado, viúvo que se casa com prostituta e vê o filho com tendências homossexuais se apaixonar pela esposa, irmãos que se entregam loucamente à paixão, essa mistura de desejos e reparos, vontade e ódio, são alguns exemplos de enredo da obra dele. O autor escreveu dezessete peças.

Logo, a necessidade do jornalista desvencilhou o autor do cronista que o permearia na maturidade, para além do palco, por boa parte da sétima arte, pois o cinema também bebeu na fonte Rodriguiana, e o que foi produzido por meio da obra dele resultou em mais de vinte filmes.

Da metade do século passado ao início deste, suas obras dominaram o cenário da vez, nas telas e nos palcos. Vestido de Noiva, Engraçadinha e as crônicas de A Vida como Ela É figuram facilmente no imaginário da população de todas as classes. A televisão foi grande viés para mantê-lo no topo da lista dessa época. Não sem mérito.

Nelson também pode ser aclamado por suas frases polêmicas e, ao mesmo tempo, brilhantes, ainda mais para alguém que não deveria imaginar o poder que o minimalismo dramático abrangeria na época do micro-blog. Em suas tiradas, muitas vezes ácidas e certeiras, ele é capaz de nos arrebatar com um mero desdém aos costumes vigentes da época, o que nos leva ao riso, ao ódio, ao palco, em uma pílula mínima da palavra.

Foi um observador sagaz das nuances intrínsecas da sociedade. Um realista com alma de menino, menino que vê o amor e o erotismo inerente ao real do ato de fazê-lo amar todos e tudo analisados através de um buraco de fechadura, na descrição dele sobre si mesmo: anjo pornográfico.

Falta-nos atualmente quem o faça tão bem, com tamanha discrição ao sórdido e verdadeiro, o ambíguo, esse anjo pornográfico, como observador que marca um gol no ato da fala.

Por essas e outras, Nelson está seguramente ao lado dos renomados dramaturgos do século XX, como um grande em tudo o que fez. Foi jornalista, cronista, contista, romancista e sempre um crítico fervoroso da vida cotidiana, dos desejos não revelados pela hipocrisia e, ao longo de sessenta e oito anos de vida, uma existência atribulada e dedicada ao relato da vida como ela foi, para ele, para os seus, sem meias palavras.

Talvez fosse muito cobrar dos dramaturgos contemporâneos uma visão tão marcante da perspectiva do humano como tinha Nelson Rodrigues. Como todos os mestres, será imbatível, pois é único. Não se pode formar a idiossincrasia estruturada de um estudante num ver sagaz de autor de gênio. Querer outro autor que não este formado pelo destino, o ícone de seu tempo, o detalhista da mise-en-scene da realidade. Escola nenhuma do mundo o conseguiria.

Da formação como redator, vendo e aprendendo o fazer jornalístico, aquilo que formou seu entender da raça estava nos romances clássicos, contudo permeados nas páginas policiais da realidade de seus tempos primevos na redação.

Já com treze anos, escrevia para jornal, observando com critério o real daquela existência por demais dramática, culminada com o trágico assassinato do irmão ilustrador, provavelmente bem próximo ao mesmo, na redação onde se convergiu a arbitrariedade do ser humano.

Histórias contrastadas com uma segunda paixão: o Fluminense e o futebol. Foi excelente e único também nas crônicas esportivas.

Nelson nasceu em Recife, em 23 de agosto de 1912, o quinto de quatorze irmãos. Mudou-se, ainda criança, para o Rio de Janeiro e foi na Zona Norte carioca que formou, na infância, a arguta capacidade de entender o redor como palco. Formou-se redator no jornal do pai e depois passou por diversas redações em sua vida. Apoiou a Ditadura Militar. Escreveu, com trinta e um anos de idade, Vestido de Noiva e, com trinta e oito, as crônicas de A Vida como Ela É. Faleceu em 21 de dezembro de 1980, no Rio de Janeiro.

 

Nelson Rodrigues / Foto: Divulgação

 

Vestido de Noiva

 

Encenada pela primeira vez em 1943, Vestido de Noiva é um marco na dramaturgia brasileira. Segunda peça escrita por Nelson, que procurava, na época, uma renda complementar à função de jornalista. Sua primeira peça, A Mulher sem Pecado, estreada em 1942, fora um fracasso de público.

Podemos perceber, em Vestido de Noiva, todo o drama psicológico e a critica à hipocrisia social vigoradas pelo autor em sua obra.

É uma peça de teor psicológico cuja montagem é feita em três planos que se intercalam. Formam, ao todo, o plano da alucinação, da realidade e o da memória.

O enredo conta a história de Alaíde, personagem que representa a burguesia carioca. Ela morre vitimada por um atropelamento e, enquanto os médicos tentam salvá-la, entra em uma viagem interior através da qual vai rememorando e encontrando-se com pessoas do seu passado.

A peça tem como exemplo de liberdade e quebra ao regimento social a Madame Clessi, antiga prostituta do Rio de Janeiro.

Alaíde conquista e se casa com Pedro, namorado de sua irmã Lucia. Pedro e Lucia cometem o adultério, e, quando Alaíde morre, os dois se casam.

O inusitado da peça está em apresentar-nos esse argumento em uma estrutura não linear e aparentemente caótica. É, sem dúvida, um retrato do lado desumano da sociedade carioca do século XX.

 

 

Visto por um buraco de fechadura

 

Seria interessante ter a possibilidade de sentarmos à mesa e conversar com essa efeméride literária. Tentar perceber nos detalhes, entre um copo e outro, de onde brotavam as situações complexas criadas por ele. Não podemos descrever se o anjo deixaria mostrar-se. Num retrato, ele seria o ser que observa calado, um rosto marcado pela sabedoria, sem preconceitos expostos. Contudo, a função de arrebatar a alma do expectador do conformismo foi detalhadamente talhada em suas dezessete peças. E é com a visão vasta, dessas mesmas criaturas surgidas desse palco, que, cremos, ele gostaria de ser visto. E nós só temos que agradecer e aplaudir.

 

(Augusto Cavalcanti é poeta, escritor e dramaturgo. Formado em Cinema e Filosofia pela UFSCar, tem contos e poemas publicados na revista Olhar, no site Cronópios e em outros diversos websites de Literatura e Artes. Bloga em O Poeta e o Barco. Contato: acantizza@gmail.com)

 

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74ª Leva - 12/2012 Jogo de Cena

Jogo de Cena

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEATRO DE ARTHUR MILLER

Por Geraldo Lima

 

Arthur Miller / Foto: Monica Almeida

 

Devemos nos alegrar sempre com o surgimento de um dramaturgo que consiga explicitar, de modo criativo e contundente, as múltiplas facetas das relações humanas.  E que o faça de tal modo que o espectador, diante do palco, sinta-se instigado a refletir profundamente sobre si mesmo e sobre o mundo em que habita, embora toda a ação dramatizada ali transcorra num cenário e numa cultura bem diversa da sua. Arthur Miller, autor de algumas das peças mais importantes da cultura ocidental, pode ser citado como um desses dramaturgos fundamentais para entendermos a alma humana.

Arthur Asher Miller, filho de um casal de imigrantes judeus polacos, nasceu em Nova Iorque, no ano de 1915, e faleceu na cidade de Roxbury, estado de Connecticut, em 2005.  Viveu, portanto, um longo período e pôde, como dramaturgo, jornalista e cidadão norte-americano, vivenciar momentos dramáticos da História humana e do seu país, como a Segunda Guerra Mundial e a Crise de 29 (ou Grande Depressão).

Este último fato histórico teve impacto direto na vida do autor de A morte de um caixeiro-viajante porque afetou, diretamente, a vida financeira de sua família: seu pai, empresário do ramo têxtil, viu-se falido e obrigado a mudar, com a família, para o bairro do Brooklyn. Esse acontecimento dramático na vida do autor vai ser retomado na peça Depois da queda, mais precisamente no embate entre o protagonista Quentin e o seu pai surpreendido pela bancarrota dos negócios.  A peça é, na verdade, um acerto de contas do autor com o seu passado, e esse confronto entre pai e filho, num momento de crise financeira, representa o que Arthur Miller viveu na juventude, daí Quentin poder ser tomado como seu alter ego. Desse modo, o teatro que ele vai desenvolver refletirá, sobremaneira, a sua experiência de vida.  Sem cair, obviamente, no mero registro autobiográfico: a crítica feroz ao american way-of-life e às injustiças sociais impostas pela competitividade capitalista estão no cerne de boa parte de sua obra teatral.  Um exemplo claro disso encontra-se na já referida peça A morte de um caixeiro-viajante (Death of a salesman), escrita em 1949 e pela qual ganhou o prêmio Pulitzer.

Nessa obra, de uma carpintaria dramatúrgica impressionante, o ambiente naturalista vai sendo envolvido pouco a pouco pelo onírico e pelos efeitos delirantes da memória do protagonista, o caixeiro-viajante Willy Loman. Miller retrata a queda desse homem, cujos alicerces éticos e morais foram erguidos sobre a frágil segurança da mentira e dos sonhos de grandeza, com rigor psicológico e olhar crítico.  São “fraturas no sonho americano’, nas palavras de Otavio Frias Filho, que vão sendo expostas nesse caso. Diante das atitudes do protagonista, somos levados, pelo talento dramatúrgico de Arthur Miller, a dupla reação: ora aderimos à sua causa, ora nos opomos a ele com quase nojo. Aderimos à sua causa ao percebermos que ele está sendo engolido pela máquina capitalista e sem se dar conta disso. Mas rejeitamos, com veemência, o modo com que ele, na posição de pai e marido, vai, ao longo do tempo, estragando os filhos e sujeitando a esposa ao seu comportamento obsessivo, egoísta e estúpido. O conflito familiar que se instaura aí, com uma força assustadora, é resultante dessa cultura forjada a partir das exigências de um sistema econômico que leva alguns indivíduos a buscarem de forma predatória o seu lugar ao sol. O fracasso de Willy Loman, como pai, marido e caixeiro-viajante, expõe, assim, a fragilidade de um projeto de vida cujo valor maior se encontra alicerçado na supremacia da aparência física sobre a do conhecimento sistematizado – este último, representado pela figura vitoriosa do jovem Bernard. São palavras de Willy dirigindo-se aos filhos Biff e Happy: “Foi isso mesmo que eu quis dizer, o Bernard pode ter as melhores notas da escola, entende, mas quando sair para o mundo, entende, vocês dois vão estar cinco vezes na frente dele.  Por isso é que eu agradeço a Deus do céu vocês dois serem feito dois Adônis”. No entanto é ele, Bernard, que, trilhando o caminho apontado pelo sonho americano, triunfa como advogado.

Arthur Miller e Marilyn Monroe / Foto: Evening Standard/Getty Images

Dentro do otimismo do sonho americano não há lugar para fracassos, não há lugar, enfim, para indivíduos como Willy Loman. As palavras da professora Daise Lilian Fonseca Dias, no seu artigo “O fracasso do sonho americano em A morte do caixeiro-viajante de Arthur Miller”, iluminam mais ainda o que foi dito: “Seu sonho fracassou porque estava centrado na fantasia e em ideias tão vagas e contraditórias quanto as que seus antepassados idealizaram e que até hoje impulsionam o homem americano para uma busca frenética pelo sucesso econômico, sem, contudo, permitir a ideia de um fracasso”.

O teatro de Arthur Miller desnuda, de forma corajosa, todas essas contradições presentes no arcabouço do tão propalado sonho americano. Miller é, ainda, nas palavras da professora da Universidade Federal de Campina Grande, Daise Lilian Fonseca Dias, “o poeta da consciência política”. Essa sua consciência política estava, de certo modo, ligada às ideias comunistas. Por conta disso, em 1956, após ser denunciado pelo diretor de teatro e cineasta Elia Kazan, viu-se intimado a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso. Num gesto de extrema nobreza, recusou-se a apontar colegas ao Comitê. Na peça Depois da queda (After the fall), o autor enfoca, de maneira crítica, essa passagem lamentável da História da democracia americana. E é sobre essa peça, a cuja montagem tive a oportunidade e a felicidade de assistir em Brasília, no teatro do CCBB (Centro Cultura do Banco do Brasil), que falo na resenha abaixo:

 

Um Arthur Miller de encher os olhos

O bom texto teatral, como qualquer obra de arte, é aquele que nos faz penetrar num mundo vasto, do qual só podemos emergir outro. Uma obra assim nos permite perceber as relações humanas nos seus mais diversos matizes, dos conflitos amorosos ao embate político ou ideológico, da amizade mais sincera à traição que sempre aniquila. Vemos o ser humano, nesse caso, em sua plenitude: capaz de mesquinharias e de gestos heroicos. Tomando emprestado o discurso de Nietzsche, humano, demasiado humano, é assim que o vemos. A sua alma vaza pelos poros. Ali, no palco, na figura dos atores e das atrizes, a vida se descortina assustadoramente bela e trágica diante de nós. É para fora do nosso eixo de comodidade que somos arrastados todo o tempo. É nossa consciência que é fustigada sem trégua.

Tudo isso pode ser atribuído à peça que Arthur Miller escreveu após a morte da atriz Marilyn Monroe, com quem foi casado de 1956 a 1961. Depois da queda, escrita em 1964, mostra, de modo impiedoso e, às vezes, bem-humorado, o cenário político dos Estados Unidos durante a caça aos comunistas (e aqui o autor dessacraliza também a visão romântica do intelectual engajado), sua relação com a família e, obviamente, com o mito Merilyn Monroe. Arthur Miller não fala diretamente da sua vida. É na figura de Quentin, um advogado bem sucedido, e de Maggie, uma pop star depressiva, que ele traz à tona o seu passado.  É, claramente, uma obra autobiográfica, mas que vai além do expor os percalços amorosos e familiares do autor.

Depois da Queda / Foto: Daniele Avila

 

Esta nova montagem da peça do dramaturgo norte-americano, ganhador do Prêmio Pulitzer de 1949, tem tradução e direção de Felipe Vidal e conta com a participação de um elenco afinado: Simone Spoladore, por exemplo, se sai muito bem no papel de Maggie/Marilyn Monroe. Lucas Gouvêa (Quentin/Arthur Miller), com memória invejável, leva sua fala ácida e caudalosa de ponta a ponta sem grandes escorregões. Gostei, particularmente, da atuação da atriz Thais Tadesco (Holga, Rose): sensível e ágil na passagem de uma personagem a outra. Repito: o elenco é afinado. E é isso, aliado à qualidade magistral do texto, que faz com que o espectador se mantenha ligado durante as três horas de duração do espetáculo.  A peça fez sua estreia nacional aqui em Brasília no dia 19 de outubro de 2012, no CCBB (escrevo esta resenha no dia 10 de novembro, um dia antes de ela encerrar sua temporada por estas bandas). Daqui, parte para uma turnê nacional (só não sei se será apresentada apenas em teatros do CCBB).  Fiquem, portanto, bem atentos, pois este é um espetáculo teatral imperdível.

(Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo. Tem alguns livros publicados, dentre eles Baque (contos, LGE Editora), Tesselário (minicontos, Selo 3 x 4, Editora Multifoco) e Trinta gatos e um cão envenenado (peça de teatro, Ponteio Edições).  É colunista dos sites Dona Zica tá braba, O BULE e Portal Entretextos. Colabora com o Jornal Opção e com o Jornal de Sobradinho. Bloga ainda em Baque)

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

SOBRE GRAÇAS E DESGRAÇAS

Por Yara Camillo

 

Há pouco tempo traduzi um conto oriental que fala sobre graça e desgraça, ambas se alternando como se girássemos uma moeda e suas faces opostas se mostrassem quase que simultaneamente, quando talvez o que valesse a pena estivesse justamente no desconsiderado ínterim entre ambas.

O conto fala de um garoto fascinado por cavalos que encontra um potro selvagem, nas montanhas. O animal o segue. Que graça! – diz a família. Que graça ímpar vinda diretamente dos céus! Entre o garoto e o cavalo desenvolve-se um singular afeto. Certo dia, durante uma cavalgada, o garoto cai e quebra a perna. Que desgraça! – diz a família. Pouco tempo depois, todos os jovens do povoado são recrutados para a guerra. O garoto, ainda convalescente, é dispensado. Que graça! – diz a família. Certo dia, o cavalo, que tem o hábito de passear sozinho pelas montanhas, já que seu cavaleiro ainda não se curou de todo, desaparece. Que desgraça! Algum tempo depois, o animal retorna, acompanhado de uma égua já prenhe. Que graça! E por aí segue a estória, alternando graça e desgraça, cara e coroa, frente e verso…

Conheci minha primeira desgraça aos seis anos, quando perdi a avó, em quem depositava minhas esperanças de amor e compreensão, entre os humanos. Perdi, com ela, o espaço e o afeto que me acolhiam durante as tardes, depois da escola. Passei então a ficar com meus tios.

O tio e a tia, João e Maria, tinham seis filhos; quatro deles, bem pequenos. Comigo, o contingente dos pequenos chegava a cinco. Resultado: cinco crianças no exíguo espaço de um apartamento. Resultado do resultado: a saudosa tia Maria enlouquecia diariamente, com aquele bando que ela – filosofica e às vezes desesperadamente – chamava de “uma plantação de capetas”. A tia acabou descobrindo o que ela chamou de pracinha, um quarteirão inteiro, com muito verde, que podíamos avistar da sacada do edifício. E decidiu conhecer o lugar, para ver se poderia soltar os capetas por lá, ao menos durante uma parte do dia.

Certamente a tia não imaginava que seu justo anseio por um pouco de paz seria também o início de um infinito bem, que nos acompanharia por toda a vida.

Foi o início de um longo trecho. Na praça, além dos jardins e das árvores muito antigas, havia a Biblioteca Monteiro Lobato, que oferecia atividades dirigidas ao público de seis a dezesseis anos: Leitura, Pintura, Música, Teatro: meu primeiro amor, na Arte, a primeira forma de expressão que descobri, quase junto com a Literatura.

A desgraça, traduzida na morte da avó, havia dobrado a esquina… Agora, era a vez da graça. A rotina dos capetas mudava consideravelmente: saíamos da escola, almoçávamos e íamos para a biblioteca, onde passávamos a tarde, as tardes de todos aqueles anos.

Muita água correu por baixo da ponte que liga a já longínqua tarde em que Iacov Hillel reuniu alguns frequentadores da Monteiro Lobato para a montagem de um Auto de Natal. Meu personagem, no auto, era um anjo que desafinava e, por isso, fora expulso do coro celestial… Uma simbologia para a estranheza que sentimos, quando tentamos nos enquadrar um pouco na normalidade das coisas?

Ocorre-me agora um conto de autor desconhecido, que se chama “O Macaquinho e a Desgraça”: uma mulher, caminhando pela trilha de um bosque, levando um grande pote de mel na cabeça, tropeça numa raiz e cai. Contemplando o mel espalhado pelo chão, ela se lamenta: “Oh, meu Deus, que desgraça!” Um macaquinho curioso assiste à cena e, quando a mulher se afasta, resolve bulir no mel, que ele até então desconhecia. Experimenta e se deslumbra: “Ah, que delícia! Como a desgraça é gostosa!” E nos dias que se seguem não tem outro pensamento em mente, senão este: “Quero mais desgraça! Não posso viver sem ela!”

O Teatro, cujas reservas de desconhecido mel espalham-se entre graças e desgraças, trafega muito bem por esse aparente paradoxo. Ali, na mágica inexatidão de seu território, pode-se trafegar entre tragédias e comédias, passear pelas esquinas que se dobram após cada limite, prometendo outros que vão além, sempre além. Assim, encontram-se os lados opostos da moeda, um extremo deságua em outro, o que parece morte pode virar vida, o que parece miséria pode prometer riquezas.

Uma estória engendra ou chama outra… Uma forma de expressão pressupõe outras, como na Literatura, por exemplo, quando, como diz Borges, “um livro encontra seu leitor”. E então se dá algo que tem a ver com o Teatro, com o leitor armando seu palco de intimidades para que ali aconteça vividamente o enredo que seus olhos e seu espírito captam do livro e transpõem para esse palco particular.

Todo ser humano deveria praticar uma forma de Arte. Seja qual for a profissão ou caminho escolhido, a criatividade pode e deve fazer parte de sua trajetória. É um modo de exercer a infância, de trilhar o território lúdico, o primeiro, talvez, que todos conhecemos quando crianças. É um modo de não abandonar a criança, de deixá-la respirar livremente no adulto que somos, preservando assim nossas reservas de curiosidade, coragem e alegria.

Caminhando mais por essa ponte, invoco agora uma coletânea de contos populares espanhóis, de José María Guelbenzu, que traduzi há alguns anos. Seguindo um critério de sempre, minha ideia era conhecer a obra inteira, antes de começar a tradução. Mas, quando li um dos contos, A Pereira da Tia Miséria, resolvi iniciar a tradução por ali. Não imaginava, claro, que a pereira daria tantos frutos. Apenas, senti que era um conto que ia muito, muito longe: Tia Miséria é uma velha senhora, mãe da Fome (sua filha que saiu de casa há muito tempo e vive caminhando pelo mundo, espalhando sofrimento). A Tia vive sozinha, sustentando-se de uma velha pereira que tem no quintal – cujos frutos os meninos da vizinhança roubam, antes que amadureçam – e das poucas doações que consegue, de alguns moradores do povoado. Certo dia, recebe a visita de um santo do céu, disfarçado de mendigo. Ajuda-o, e consegue uma graça: todo aquele que subir em sua pereira ali ficará grudado, até que ela o autorize a descer. Com isso, consegue afugentar os meninos, consegue colher e vender suas peras. Sua vida fica mais confortável, até que um dia recebe a visita da Morte. Mas a Miséria não quer morrer. E engana a Morte, fazendo-lhe um último pedido: “Por favor, vá colher alguns frutos da minha pereira, para eu ir saboreando durante minha última viagem.” A Morte concede… E então fica presa à pereira. Assim, desaparece do mundo… E o caos se instala, em vários desdobramentos, até a conclusão do conto.

Cinco anos depois do lançamento dos Contos Populares Espanhóis, pela Landy Editora, em 2005, o Núcleo Ás de Paus, de Londrina, Paraná, fez uma montagem teatral com base na Pereira. Assisti ao espetáculo, que segue em cartaz até hoje, e concluo este texto transcrevendo aqui algumas de minhas impressões sobre o trabalho:

Tia Miséria e Pereira por Natalia Turini

A adaptação e montagem do conto popular espanhol, A Pereira da Tia Miséria, pelo Núcleo Ás de Paus, preserva e honra a tradição desse gênero, desde o texto, trabalho raro da Palavra, até o trabalho de Corpo, com os atores se movimentando muito à vontade, em pernas-de-pau, como se brincassem em cena. Que no Teatro se brinca a sério, se rapta e conduz o espectador até a plataforma de decolagem. E voa o espectador, enquanto os atores engendram novos encantamentos para a próxima cena.

A idade ideal para se assistir à Pereira da Tia Miséria? Todas, porque o espetáculo tampouco tem idade e chega a resvalar no atemporal.

A plateia – essa entidade que se forma e se recria diante de todos os palcos – complementa a magia. Talvez seja este outro mérito do Conto Popular: o de falar a todas as idades, porque os contos vêm de épocas em que as pessoas ouviam, em volta do fogo, da mesa – ou em qualquer cenário onde ocorresse essa comunhão –, as estórias trazidas e levadas pelos contadores, jograis, andarilhos, menestréis, saltimbancos, precursores dessa linha que agora o Ás de Paus leva adiante.

Pereira por Natalia Turini

Outra magia da Arte, e já do Afeto: a de fazer viver o que se evoca. É assim que Tia Miséria, mais viva do que nunca, acontece. O espetáculo tem ritmo, a cenografia e os figurinos são impressionantes. As linhas de interpretação são claras e mergulham fundo; o resultado é Arte. Percebe-se uma linha de direção que, no entanto, é coletiva: criação coletiva, surpreendente e possível porque, além do talento, o grupo consegue uma unicidade – que não ocorreria, sem um reconhecimento recíproco das percepções individuais.

Há um momento no espetáculo em que a música, entoada pelo coro, assim anuncia a entrada de um personagem:

“O que é desprezível não se deve desprezar.

O que é invisível é preciso enxergar.”

Recado precioso, nesse tempo. Em todos os tempos.

Esse trabalho do Ás de Paus precisa cumprir seu destino de ir longe e para muitos, porque leva em si a essência do Teatro, nas cores e no texto, na música e cenografia, nos figurinos e na interpretação, na concepção do cômico e do trágico. Na beleza, enfim.

O Teatro habita a alma e o trabalho do Núcleo Ás de Paus. A Arte se faz. Saímos mais ricos e com as mãos cheias de frutos depois de conhecer A Pereira da Tia Miséria, através da visão desses artistas.

Bruna Stéphanie e Rogério Costa por Natalia Turini

De novo a graça e a desgraça, alternando-se nas faces da moeda… Como se tudo tivesse apenas dois lados! Como se não houvesse, entre um sim e um não, uma quase infinitude de possibilidades.

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Jogo de Cena

Jogo de Cena

JOGO TEATRAL, AÇÃO TRANSFORMADORA

Por Paulo Afonso de Souza Castro

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

A prática dos jogos teatrais como instrumento libertário é fundamental no desenvolvimento de processos criativos de grupos e companhias de Teatro, mas, sobretudo, como metodologia de ensino e aprendizagem para estudantes, e esta é a pedra de toque de nosso artigo.

Existe um paradoxo entre os métodos do sistema educacional vigente e as atividades lúdicas relacionadas à arte, e mais especificamente ao Teatro. Apesar dos muitos avanços obtidos nas últimas décadas em nosso país na área da educação, da legislação inclusiva (e permissiva), das propostas pedagógicas bem fundamentadas e plenas de boas intenções, os alunos continuam sentados em filas, um atrás do outro, copiando textos e decorando conteúdos de modo passivo. Há pouco espaço (quase nada) para a liberdade de expressão, a criatividade e a espontaneidade, e, mesmo nas aulas de “Arte”, o conteúdo é muitas vezes repassado em atividades pontuais e cobrado em avaliações formais, desencantando, dessa forma, a própria arte, deixando-a banal, e, portanto, dispensável como as demais matérias da grade curricular, pois a busca pelo conhecimento é substituída pela mera obtenção de uma nota, para atingir uma média.

O filósofo Michel Focault comparou a estrutura física (e ideológica) das escolas contemporâneas aos presídios e as fábricas, apontando para a intenção implícita de reafirmação da ordem social dominante, através do controle dos indivíduos, da repressão e da padronização comportamental. Já o sociólogo Pierre Bordieu demonstrou que através dos sistemas e códigos de ensino, opera-se um processo de seleção e discriminação social, que reforça a hegemonia das elites. Como diretor de Teatro e professor de História, constatei na prática diária de meu ofício, que as contradições apontadas por Focault e Bordieu estão presentes em nossas salas de aula. Atuando como antídoto a todo este “modus operandi” coercitivo, os jogos teatrais podem ser um eficaz aliado no processo de desenvolvimento cognitivo e emocional do ser humano, sendo, por isso, libertário.

É preciso esclarecer que iniciei minha formação profissional nas artes cênicas. Ainda na adolescência, participei de um grupo de Teatro amador que valorizava os jogos teatrais como método de desenvolvimento individual e coletivo. Posteriormente, cursei a faculdade de Teatro, passando a atuar e dirigir espetáculos, bem como ministrar oficinas de interpretação e dramaturgia. Dessa maneira, os jogos teatrais e as dinâmicas de grupo, aplicados de modo sistêmico, sempre foram utilizados com eficácia nos processos de trabalho artísticos e educacionais em que estive envolvido. Porém, após concluir uma licenciatura em História e um mestrado em Antropologia, passei a ministrar também aulas de História na rede pública de ensino* e me deparei com a falência do sistema educacional vigente. Fato que se evidencia pelo desinteresse generalizado dos alunos pelas matérias estudadas, em consequência da ausência de um processo orgânico e verdadeiro de ensino e aprendizagem. Constatei a ausência de um compromisso de grupo, de colaboração efetiva, de reflexão (individual e coletiva), de debate, de liberdade de expressão e, sobretudo, de prazer em desenvolver um maior conhecimento. Tais sintomas não ocorriam apenas na matéria que leciono (que trabalha com a memória e possibilita a interpretação dos fatos e o diálogo sobre a sociedade, a cultura e o mundo em que vivemos), mas em quase todas as disciplinas. Então, ao invés de basear-se na construção do conhecimento e do pensamento crítico, a escola passava a ser um local de repetição mecânica de conteúdos abstratos, distantes da realidade objetiva, que assim tornavam-se vazios de sentido.

Esta situação caótica é o oposto das premissas que norteiam os Jogos Teatrais, e por isso mesmo eles devem ser cada vez mais utilizados para que se possa transformar a realidade escolar. Para tanto, se faz necessário atitude dos profissionais de arte e de educação, para implementar progressivamente a prática teatral nas salas de aula. Mas não bastam projetos isolados e programas de governo avançados, é urgente e preciso que se construam as condições necessárias para que o Teatro (assim como as demais formas de expressão artística) esteja cada dia mais presente, não apenas nas salas de aula, como nas associações de moradores, fábricas, clubes sociais e grupos religiosos. Não apenas como uma ferramenta de pregação doutrinária, ou mera recreação aleatória, mas embasado em técnicas específicas, fundamentos teóricos e objetivos definidos, e praticado em espaços adequados.

Como a arte foi afastada da vida diária das pessoas, restando apenas subprodutos (na maioria das vezes, grosseiros), transmitidos pelos meios de comunicação de massa, com fins comerciais e ideológicos de dominação, o exercício da prática teatral pode parecer distante ou supérfluo, quando muito, o apanágio de uma casta, de eleitos e talentosos, ou seja, destinada apenas a “pessoas especiais”. Aos comuns, é destinado o enfadonho repasse de conhecimentos prontos e acabados, que na prática não precisam ser processados, e muito menos questionados.  Todo este processo de alienação do ser humano perante a dinâmica social condiciona sua visão de mundo, estimulando o individualismo e cerceando a criatividade e a reflexão.

Mas a conquista desses espaços de liberdade e arte na sociedade contemporânea não é somente física, ela ocorre também no campo das ideias, e aí também encontramos fortes resistências, pois o jogo teatral subverte relações hierárquicas, possibilita transgressões de normas padronizadas e aceitas como imutáveis pelo senso comum. Enfim, liberta, e, por isso, é visto com desconfiança. Novamente recorro à experiência prática, pois desde grupos extra-classe de Teatro até atividades isoladas com alunos encaixadas entre aulas formais, pude perceber a força transformadora dos jogos teatrais. Alunos (de todas as faixas etárias), antes dispersivos e desestimulados, dando saltos de qualidade, participando progressivamente das sessões, colaborando com seus colegas, atentos, despertos, sorrindo. Muitas vezes, era difícil retomar aulas formais, que no caso de uma disciplina tradicional ainda são necessárias, pois os alunos cobravam: “Professor, hoje tem Teatro?”

Nem todas as escolas estão abertas a estes novos paradigmas. Muitas tentativas de implementação de jogos teatrais em escolas foram frustradas por inúmeros motivos, e, assim, mesmo com todo o seu potencial transformador, o jogo teatral é descartado.  A contrapartida a este quadro desanimador é a persistência, como as formigas que refazem seu formigueiro, tantas vezes ele for destruído, num trabalho incansável, é necessário abrir brechas, provocar rupturas nos muros já desgastados do sistema. Como fazer isso? Através do fomento e da criação de espaços de criação, ambientes de liberdade, grupos de Teatro e da prática e difusão dos Jogos Dramáticos. Desse modo, certamente estaremos contribuindo para que as pessoas e suas relações sejam efetivamente melhores e mais criativas.

Nesta minha caminhada artística pelos palcos, praças, picadeiros e salas de aula, tenho tido como fiéis companheiros os livros de Viola Spolin (especialmente Improvisação para o Teatro), Augusto Boal (com destaque para 200 Exercícios e Jogos para o Ator e Não-Ator com Vontade de Dizer Algo através do Teatro), Joana Lopes (Pega Teatro) e Stella Adler (Técnica da Representação Teatral), leituras que recomendo a quem pretenda conhecer mais a respeito dos Jogos Teatrais. Gosto de propor aos meus alunos brincadeiras de roda tradicionais, de utilizar exercícios do Tai-Chi e de estar atento e aberto às propostas sugeridas por eles, afinal o orientador é mais um participante do coletivo. Trago comigo também os ensinos de Laerte Ortega, grande mestre do Teatro Popular, que formou inúmeros grupos em bairros, escolas, fábricas, demonstrando na sua prática de vida que é possível, sim, construirmos um mundo mais justo, solidário e criativo. Por isso, convido a todos: vamos jogar o jogo do jogo?**, pois, como já nos ensinou Viola Spolin: “(…) Qualquer pessoa é capaz de jogar, de se expressar em cena, desde que ela tenha vontade e exista um ambiente propício para que isso aconteça”.

Através do jogo, abrimos mão de nossas armaduras, de nossas máscaras, nos concentrando nos objetivos que surgem a cada momento do jogo, atuando coletivamente, com prazer e atenção, e assim crescemos, aprendemos, ensinamos e trocamos nossas experiências, afetos e pontos de vista.

 

* Atualmente, desenvolvo projetos de encenação e dramaturgia, relacionando o estudo de fatos históricos e reflexões antropológicas com jogos teatrais, como a oficina MEMÓRIA EM CENA.
 
** “VAMOS JOGAR O JOGO DO JOG0?”, é o título de uma peça teatral construída a partir de JOGOS TEATRAIS, de autoria de Fernando Bezerra.

 

 

(Paulo Afonso de Souza Castro é autor e diretor teatral, historiador e antropólogo, com mestrado pela UFPR (Universidade Federal do Paraná). Em 2012, dirigiu, na cidade de Caçador-SC, o espetáculo Memórias do Contestado. As comédias O Mistério dos Quatro Quadrados e Os Amores de Jezebel são obras de sua própria autoria, encenadas por vários grupos teatrais no Paraná e em Santa Catarina. Atualmente leciona, escreve, realiza oficinas e palestras, trabalhando com Teatro, História e Antropologia.Contato: teatroluanova@bol.com.br)


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68ª Leva - 06/2012 Jogo de Cena

Jogo de Cena

A ARTE DO ENCONTRO

Por Rafael Morais

 

Foto: Jô Stella

 

O teatro é o campo por excelência das ambiguidades e paradoxos. É o terreno das incertezas, das efemeridades, das transformações e mudanças, por vezes, instantâneas. As coisas no âmbito teatral mudam da noite para o dia, de uma apresentação à outra, e até de uma cena a outra numa mesma noite. O que já se havia conquistado pode perder-se inexplicavelmente, do mesmo modo que há descobertas inesperadas, momentos de inspiração que trazem ganhos maravilhosos à encenação. E isto não depende apenas da equipe de criação do espetáculo, mas também de estarmos sujeitos ao encontro com o público e a todas as situações emergentes que esta arte implica.

Fazer teatro é participar de um jogo único, indescritível, propiciador de imenso prazer e entusiasmo. Mas, muitas vezes, requer grande esforço, persistência e fé. Não são novidade para ninguém as dificuldades que os artistas enfrentam para viver do seu ofício, montar um espetáculo e mantê-lo em cartaz. No cenário baiano, diversos relatos de artistas levam-me a pensar que somente muito amor e dedicação motivam–nos a permanecermos firmes na arte teatral.

A arte teatral é uma atividade complexa, nada tem de simplória. O teatro é uma obra composta por diversos elementos que associados constituem uma ideia de unidade. Cada artista faz a sua parte e todos acabam por contribuir para um resultado artístico coletivo. O ator, o texto, os cenários, os figurinos, a luz, a música, a maquiagem, os adereços, a produção e o encenador como criador/administrador, destes e outros elementos da cena, envolvem-se numa empreitada comum de preparar uma apresentação aberta à presença do público.

Este percurso, da concepção cênica à montagem teatral, da criação de um produto pré-acabado, que será levado ao encontro com o público, é um processo muito rico de possibilidades. Iniciar um novo ciclo criativo teatral é como lançar-se ao mar numa nova viagem. A gente se prepara, planeja, organiza, mas, uma vez começada a aventura, tudo poderá acontecer. E muitas decisões deverão ser tomadas “em alto mar”. Poderíamos dividir este processo de criação de um espetáculo em, no mínimo, duas grandes etapas: a fase de ensaios, preparação e elaboração de todos os elementos cênicos que integrarão o espetáculo; e a temporada de apresentações. Por vezes, a primeira fase é demasiadamente longa e a segunda demasiadamente curta. Noutras, a primeira é curtíssima e a segunda consegue sustentar-se em extensas temporadas de sucesso. Há quem julgue frustrante, principalmente alguns atores, ensaiar por meses a fio e permanecer apenas alguns dias em cartaz, o que poderá ser ainda mais desalentador caso sejam dias de plateia quase vazia.

É evidente a necessidade e importância da presença do público para o acontecimento artístico teatral. O teatro só acontece com este encontro. Calderon de La Barca afirma que “para se fazer teatro basta um tablado e uma paixão”. E realmente o ato teatral pode ser resumido a esta simplicidade, claro que além do espaço da cena, também existe ator e público. Talvez, justamente por isso que a arte teatral não tenha sucumbido às novas tecnologias. É como se esta experiência estivesse cravada na alma humana, a experiência do jogo de interação com um fingidor, um ator, que assim como revelou Pessoa sobre o poeta, “chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente”.

Uma das coisas que mais angustia os artistas com relação a sua obra é como ela será recebida pelo público. Em alguns casos, o que pensaríamos ser um sucesso não causa nenhum deslumbramento no público. Outras vezes algo desprezado por nós na feitura do espetáculo encanta a plateia. E ainda há diferentes plateias a serem contempladas: a plateia dos críticos, dos amigos, dos colegas de profissão. As plateias cheias e as vazias. As de pagantes e as de não pagantes.

Acredito que o tema suscite muitas discussões sobre o que implica “considerar a presença do público”. Numa primeira leitura, talvez nos perguntemos se isso significaria fazer espetáculos que agradem ao público. Será que o público hoje quer assistir apenas espetáculos cômicos? Ou a questão seria fazer espetáculos chamados “comercias” ou, talvez, produções com artistas famosos, como, por exemplo, “atores globais” que atraem público e mídia? A diversidade existente de público também me leva a pensar na dificuldade de existência de espetáculos que sejam unânimes em agradar a audiência. Existem, sim, espetáculos propícios a agradar um grande número de pessoas e grupos específicos. Assim como cada público tem fome de algum tipo de espetáculo, o artista ou grupo tem a sua fome de encontro com públicos específicos.  Um amigo encenador teatral, ao ser perguntado sobre que tipo de público ele preferia, simplesmente respondeu: “A casa lotada!”.

Há atores que adoram uma plateia “quente”, vibrante, participativa; e, quando encontra este público o artista diz: “hoje o público estava ótimo!”. Já para outros, que preferem um público atento e silencioso, ao encontrarem com um animado, afirmam que este público é horroroso. E ainda existem aqueles atores que, por exemplo, caso uma ou mais pessoas da plateia estejam rindo de forma inesperada em determinada cena, param o espetáculo para passar sermão no público, com o pretexto de o estarem educando. Como se houvesse uma receita para o público comportar-se nesta ou naquela cena. Às vezes, numa situação dramática em que se espera um tipo de reação da plateia, ela responde, inusitadamente, de maneira oposta ao planejado pelos atores.

Muitos artistas, preocupados em desvendar o enigma do potencial de simpatia e aceitação que o espetáculo irá proporcionar, incluem a participação do público desde o início do processo criativo. São os chamados ensaios abertos, onde os espectadores têm a oportunidade de assistir e, algumas vezes, até opinar sobre o espetáculo em seu processo de construção. Nestes ensaios, o público pode participar de determinados momentos e aspectos da confecção da obra de arte, interagir e ter um olhar diferenciado sobre o “produto” que irá consumir.

Os ensaios abertos à participação do público são também um excelente momento de preparação para o jogo de cena, visto que os atores, ao ensaiarem um espetáculo, apenas simulam a presença do público e têm o olhar e opinião somente da equipe que participa do processo de montagem da encenação. É como se, nesta primeira etapa, faltasse a outra peça fundamental do jogo. O público pode contribuir muito para a feitura e amadurecimento do espetáculo, e, geralmente, quando é convidado a assistir um trabalho ainda inacabado, em fase de construção, tende a ser muito generoso. Como sabem que ainda não está pronto, ajudam com o seu olhar de fora, avaliam e opinam. Sem contar que as suas reações e interações no momento em que o elenco atua, por si só, já são um termômetro para a equipe de criação do espetáculo.

O fato é que cada encontro é único. Seja de que tipo de teatro for. Este ano, na temporada de uma de nossas montagens no Teatro Griô, do espetáculo de teatro de rua “Brincando com a Morte”, apresentado em dez diferentes bairros de Salvador, tivemos, mais uma vez, a experiência de levar o teatro aonde ele geralmente não chega, de levar um espetáculo teatral a pessoas que talvez nunca tenham assistido anteriormente a nenhuma obra de teatro. Foi apresentado o mesmo espetáculo nas dez localidades visitadas, gratuitamente, graças aos recursos financeiros advindos do Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua, com o qual o nosso grupo foi contemplado. Em cada localidade, uma nova experiência coletiva, impactante e indescritível. O público era sempre heterogêneo, composto de pessoas de todas as idades e até de diferentes classes sociais, mas, quando começava o espetáculo, todos faziam parte de uma mesma vivência, as estratégias da encenação e o desempenho dos atores conseguiam dar unidade ao público. E, também, cada um ali mantinha a sua individualidade, participava do seu jeito, com o seu repertório próprio.

 

Foto: Jô Stella

O espetáculo “Brincando com a Morte” leva à praça pública a peleja de astutos mortais contra figuras alegóricas, como a morte e o diabo, sempre buscando alongar um pouco mais a vida. Uma verdadeira celebração inspirada nos folguedos populares do Recôncavo da Bahia, como o samba de roda, as caretas, os bonecões, a arte dos repentistas, dos pregões, das cantigas populares e outras expressões do povo, aliadas ao encantamento e magia do Teatro de Rua. O grupo recorre a recursos e técnicas diversas como perna-de-pau, máscaras, palhaço, canto, dança, improvisação teatral e técnica de contador de histórias. A encenação, dirigida por Tânia Soares, mescla momentos de encantamento, suspense, humor e beleza, num diálogo intenso e de contato direto com o público.

O Texto foi criado com inspiração em contos populares e literatura de cordel, apresentando, a um público de todas as idades, as aventuras de Zé Malandro na sua peleja contra a morte e o diabo. A trama é composta de três cenas principais, entremeadas por música, narração e interação com o público. Os atores se revezam entre narradores e personagens para contar a história de Como Zé Malandro Enganou a Morte; noutra cena, Madrinha Morte, um homem consegue ter a morte como comadre e, na cena lírica Jardim das Sempre Vivas, dois velhinhos se despedem da vida juntos e apaixonados.

O cenário, máscaras e adereços, de autoria de Maurício Pedrosa, também contam com diferentes elementos inspirados em folguedos populares característicos do Recôncavo baiano, a partir de pesquisa dos festejos diversos como reisados, caretas, nego fugido, dentre outros. Os figurinos, de Tânia Soares, realçam a dualidade entre a vida e a morte e contribuem com a criação de atmosferas contrastantes entre os tons sombrios em diversas facetas da personagem Morte e a alegria das cores vivas dos figurinos inspirados nos festejos populares que reúnem simplicidade e beleza. A direção musical é do renomado músico e compositor Amadeu Alves, que criou uma trilha original para o espetáculo, passeando por diversas atmosferas, sendo ora incidental, marcando a presença dos personagens e das imagens de cada cena, e, noutros momentos, cantada pelos atores com abertura para participação do público.

 

Foto: Jô Stella

 

Claro que este encontro da obra de diversos artistas e seus muitos elementos cênicos com o público da rua só foi possível por conta do patrocínio do Governo Federal conquistado pelo grupo, pois são inúmeros os custos para a realização de um espetáculo desta natureza. E, no grupo Teatro Griô, já realizamos bastante e ainda temos muita vontade de realizar, cada vez mais, Teatro de Rua. Neste ponto, temos mais uma situação paradoxal. O estado da Bahia possui intensa cultura de rua; as pessoas transformam os espaços públicos numa grande celebração da vida. A alegria se esparrama pelas cidades nas festas de largo, nas lavagens, no carnaval, nas micaretas, reisados. Os baianos gostam de conviver nas ruas e praças e param para assistir as apresentações que os artistas oferecem nos espaços disponíveis. Porém, apesar da inegável vocação do estado para o teatro de rua, a realização de espetáculos desse tipo ainda é muito pequena. O fomento a essa forma de arte é imprescindível, pois permite a realização da obra de artistas dedicados, a valorização da cultura local e o acesso gratuito do público aos espetáculos.

Matutar sobre este encontro entre atores e público faz-nos refletir sobre o propósito da arte que produzimos e para quem estamos produzindo. Atualmente, a sobrevivência de um espetáculo teatral está diretamente ligada à apreciação do público que irá definir a sua permanência ou não em cena, seja nos espaços privados, onde existem muitos gastos, seja no espaço da rua, onde os custos não são menores, e há um preço muito alto para os artistas. Daí, a necessidade de se pensar os espaços, a presença do público e o fazer teatral que estamos compartilhando para enriquecer a nossa arte e a capacidade do teatro de permanecer vivo.

 

(Rafael Morais é ator, diretor e professor de Teatro. Mestre em Artes Cênicas – UFBA, é também Coordenador Artístico do Teatro Griô. Dirige os grupos artísticos residentes do Teatro Griô: “Akpalôs – Fazedores de histórias” e “Cia de Teatro Baobá”. Contato: rafael@teatrogrio.com.br)