O mundo e seus sinais. Gestos por todas as direções apontam um pouco do que somos, esse misto de espanto e estranhamento no terreno desavisado das descobertas. O vento carrega tudo, desacomoda poeiras, certezas e segue seu curso de transformações. Somos esquina quando divisamos um rumo e outro das escolhas a serem sentidas e executadas. Somos substância fluida, tal como águas que apontam sempre para a mudança, ainda que esta se manifeste à revelia de nossos desejos mais profundos.
A ideia de se estar vivo vem como sopro que atravessa bem mais que o organismo que possuímos. O corpo, por si só, é expansão, morada que projeta a liquidez do sonho ante a visibilidade e concretude da matéria. Cada passo dado é sintoma da consciência, muitas vezes submersa em razões imprecisas. E o que pode a arte diante dos nossos lampejos e arroubos existenciais?
Tentar achar respostas parece não ser tarefa que esgote as possibilidades. É olhar para todas as direções e também para o que está em nossos arredores e perceber ali correspondências com o que pulsa dentro de nós. A arte se materializa a partir de um estado de atenção sobre as coisas, o mundo e seus fenômenos. É esse tipo de percepção que atravessa o trabalho de Marjorie Duarte, artista que ressignifica o caos interior a ponto de forjar a partir dele condições de produção.
Ilustração: Marjorie Duarte
Falar do caos que assoma alguém é também perceber que um novo sentido é dado às coisas e situações. Um turbilhão, quando não paralisa, conduz à aparição de outros rumos. E foi justamente esse tipo de movimento que norteou a trajetória artística de Marjorie. Sob o ponto de vista das tensões urbanas, o motor da ansiedade foi capaz de fazer com que, por exemplo, a artista desse azo à invenção de uma personagem muito cara em seus trabalhos, a menina-mulher Síndrome.
Um olhar detido em Síndrome parece nos revelar que sua materialização em imagens vem constituída por um conjunto de sensações que transbordam os desdobramentos do real. Ela é, então, a porta-voz de uma existência inquietante e crítica, mas também o reflexo da busca de uma ternura enevoada pelos desafios da vida prática. E a saída para as tensões da personagem é pensada por Marjorie através dos usos poéticos que a autora não abre mão de utilizar.
Ilustração: Marjorie Duarte
Em Marjorie Duarte, a imagem é vontade da palavra e vice-versa. Na interface entre desenhos, textos e colagens, a artista remonta a seu modo os fragmentos de um mundo acelerado, prenhe de verbos que saltam aos olhos pela urgência em comunicar. Seja na conjunção de frases ou na solidão das palavras, o imperativo de dizer algo sobre o ato espantado de existir é gênero de primeira necessidade para a ilustradora. E tal gesto se abriga na poesia dispersa da vida, condição de olhar a tudo com a avidez da descoberta.
Professora de Literatura e Artes no ensino fundamental, Marjorie também se dedica a ilustrar livros. Adepta do que chama de pensamento acelerado, que é esse estar perceptível ao instante, ela abraça a tudo com o ímpeto de agarrar o presente e aquilo mais que tal investida pode gerar. E deixar o agora se esvair pelos desvãos da memória parece uma perda incalculável para a criadora. Nessa dinâmica de uma atenção permanente aos sintomas do mundo, verdadeira recusa em dissipar o laço com a vida, o compromisso com a arte é exercício que revela um extremo teor de sensibilidade, epifania com causa pungente que abriga as paisagens mais íntimas da artista.
Ilustração: Marjorie Duarte
* As ilustrações de Marjorie Duarte são parte integrante da galeria e dos textos da 143ª Leva
Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.
O tempo, que era meu aliado, virou vilão. A gravidade e o colágeno, também. O silicone, que tornava fausto o meu corpo, escorre sinuoso pelas nádegas e pernas, alojando-se, invariavelmente, nos tornozelos. Incham, e não me deixam andar; uma passada ao banheiro é um parto que nunca tive. O rosto é um enigma variável, meses sim, dias não, me apresenta novidades, com formas que despertam certos sustos ou surtos ao acordar.
As inseguranças lancinantes me agravam o peito, muito mais que a aparência. Marli falava, “a beleza… ah, a beleza é troço fugaz, menina, escapa feito um átimo de cocaína”. Escapou-me, lisa, sorrateira. Aliás, parece que me escapou. E aí? Sem bronca.
Aproveitei. Pode apostar que sim, aproveitei. E digo que foram dias de glória, regados a champanhe – né esses trens de mentira, que enchem a boca para dizer: “Champagne!”. Emergentes brazileiros são mesmo risíveis…
Sou estudada e tenho classe, mas, ao contrário do que possa pensar, nunca levei desaforo para casa – daí concluía a força da mulher que domou o mundo com as mãos. Só não fui precursora de Rogéria porque abdiquei do trono, por um sumo amor – que jamais poderia revelar, para não comprometer uma morte, quiçá, tranquila.
Fiz o que fiz, não me arrependo um segundo. Aguarei minhas vontades e desejos quando ninguém sabia o que era mulher trans. E aí? Sobrevivi, mon amour, digna, altiva. Apenas me atormenta o tempo, que corre ligeiro. Ah, não fosse esse maldito delay entre mim e ele…
Fui a prostituta mais querida, badalada nos recantos que percorri, Europa, sobretudo Paris; e ainda, pasme, recebo elogios velados ou rasgados de lá, do outro lado do Atlântico. Sinto-me viva, pelo menos. Aqui me olham com desprezo, como velha meretriz. Só aqui. Tudo bem. Olhar não arranca pedaço. Não mexendo comigo, ah, meu bem, aí viro bicho.
Estou tentando me aliar ao tempo. Damos voltas; uma hora vamos nos encontrar e correr juntos, lado a lado, até o fim dos dias, oxalá que sim.
***
Orientações para o embarque
No quadro de pendências, antes de viajar, como de costume, aponto uma série de medidas, as quais me incumbo de resolver, para que minha mente permaneça tranquila – em parte. Não sou tão metódica (ou excêntrica) como mãe, dona Germânia, que no mês anterior à viagem já tem uma “lista de afazeres”, com medidas “exóticas”, quais sejam, podóloga para arrancar os cantos de unhas; trocas dos mega hair e aplicações de unhas de porcelana; intervenção com a toxina botulínica ou, no popular, estiramento de rosto, para chegar “bem apessoada”, entre outras cositas más, que não vêm ao caso – vou evitar o embrulho na leitura.
Dessa vez, por disposição minha, vou de mala e cuia para Brasília. Definitivamente, Mauriti deixou de me comportar – para lhe situar, caro leitor, falo de uma pequena cidade do interior, do interior do Ceará.
Estou há meses conversando com o Inácio. Parece ser uma boa pessoa; sabe cozinhar, limpar a casa, essas coisas que todo homem deveria fazer. Na lida do sertão, no máximo, os homens aprumam uma porta quebrada, as telhas (se as tiver), um calço na mesa, pequenos ajustes, nada demais. É uma afronta à sacra masculinidade mandar um homem lavar a louça, arrumar a cama, por exemplo – onde já se viu! Meu pai saiu de casa por desgosto, segundo bodejou por aí. A extravagante senhora minha mãe começou a ganhar dinheiro vendendo pães caseiros. Montou uma minipadaria, com os trocados que ia juntando. Resolveu, por si, assumir as dívidas de casa – muitas –, e meu pai, como um sensato cidadão que é, mandou ela ir se lascar com o seu dinheiro: “Não sou homem para ser sustentado por mulher!”. Mãe acolheu a decisão. Não quis mais saber de homem nenhum; se fosse de prestar, dizia, teria de ser o pai. Para ela, o peso daquela masculinidade atrapalharia os seus planos. Feminista e não sabia.
De lá para cá, perdi gradativamente o contato com pai, “o ser humano mais humilhado da paróquia” – foi o que me contou por último, chorando. Eu até entendo, de certa forma, bruto como papel de enrolar prego, limitado e açoitado pela vida, não podia expandir muito. Há séculos o cenário se reproduzia igual, ali, homem manda e mulher obedece. Ainda bem que não resultou em morte. Nos arredores de Mauriti contaram-se, no último mês, três feminicídios – um dos motivos pelo qual vou me debandar daqui.
Parece que mulher é ameaça; é indignidade à existência do homem, “é pau para estropiar um cristão”, nas mesmíssimas palavras de pai, o velho Sebastião. “Mulher não é maldição” – tive vontade de dizer –, nunca aceitei isso. É uma fobia tresloucada, uma fragilidade sem tamanho, só pode, diante da imensidão que a mulher traz consigo.
…
O tempo da existência circunscrita à labuta familiar passou. Eu mesma me orgulho de dizer que já superei isso. Sou filha única, bem-criada por mãe, e pude estudar longe, em Fortaleza, de onde agarrei, com unhas e dentes, a oportunidade de me formar em Filosofia. Minhas primas, coitadas, foram excomungadas pelas mães à constrição marital, uma com quatorze e outra com quinze. Pegaram dois buchos, em seguida. “Pronto, estão desgraçadas; o ‘destino maligno’ as impôs cuidar dos filhos e da casa”, pensei. Dito e feito. Os canalhas dos seus maridos, já muito folgados na condição, volta e meia os encontrava numa vaquejada, numa festinha; e as mulheres ralando para amparar as crias.
…
Quando desembarquei em Brasília, Inácio veio me encontrar logo no aeroporto. Espiritualizada, senti-me abraçada; um sentimento pleno de outras vidas. Deleitamo-nos em conversas, que não paravam de gerar outras, e outras, num loop infinito.
Sei bem que naquele dia, 21/01/2011, cabalístico, vibrava entre a excitação, a novidade e o encantamento. Inácio, que não era bobo nem nada, quis me levar direto para o seu ap. Caí como uma patinha. Fomos. O local parecia mais um abatedouro, com roupas espalhadas por todos os lugares; até calcinha vi. Perguntei se havia mulher morando com ele. Num acesso de loucura, agarrou-me pelo braço e esbravejou: “Você chegou agora, mocinha, já quer ditar as regras?!”. Assustei-me, comecei a chorar de medo. Não tinha o que fazer. Portas fechadas, sensação claustrofóbica. Deu-me um pânico e comecei a gritar: “Abre essa porta! Abre essa porta!”. Ele, parecendo que havia caído em si, voltou do transe, soltou o meu braço e desabou na cama aos prantos: “Me desculpa, vai?! Fui demitido essa semana. Estou um trapo… Fica comigo?!”. A demonstração de total descontrole emocional do sujeito desconectou qualquer expectativa de relação e, sem olhar para trás, de cabeça baixa, despedi-me e saí, para nunca mais.
Passados sete meses, entre abusos e desaforos, consegui entrar pela porta estreita da UNB. Antes, muito antes, nem sabia que esse mundo chocante existia. Penso, absorta, como a vida deu uma guinada para o norte. Só dependeu de mim – obviamente, com o suporte inestimável de mãe – estar no Mestrado em Filosofia e Sociedade. Vou concluir o curso com a dissertação acerca do patriarcado e dos modos seculares de controle social, e pisar na cabeça do machismo. Agora sou eu quem vai estropiá-lo. Boa linhagem essa de mãe, benza Deus.
Adriano B. Espíndola Santos nasceu em Fortaleza, Ceará. Autor dos livros “Flor no caos” (Desconcertos Editora, 2018) e “Contículos de dores refratárias” (Editora Penalux, 2020). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem prosas publicadas nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura & Fechadura, Mirada, Pixé, Ruído Manifesto, São Paulo Review e Vício Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
A velha mais velha do asilo. Mesmo banco de todas as tardes. Fundo sombrio da varanda, últimas luzes cinzentas do crepúsculo. Fala pouco, quase nada. Quando se dirigem a ela, responde cumprimentos, agradece gentilezas e diz amém (se for necessário). Falar cansa. Resta ficar pensando, o tempo todo.
Puro engano, a ideia de que o tempo é livre e democrático. Parece que todos têm direito ao mesmo tempo, que cada um usa como quiser. Não é bem assim. É muito além das medidas conhecidas. Tempo não é coisa única que se divide, igualmente, entre as pessoas. O tempo corre em velocidade íntima e penetra nos espaços vazios de cada vida. Minutos, segundos, horas ou anos podem ter durações diferentes para cada indivíduo – e demorar o tanto que a subjetividade exige no momento.
Três anos no asilo. Professora aposentada. Viúva de oficial do exército – metódico e previsível. Vida programada. Casamento de 52 anos. Relação amiga, respeitosa e equilibrada com o militar da artilharia. Muito tempo. Não teve filhos. Nenhuma grande paixão. Prazeres mínimos – nunca teve oportunidade para transgredir. Não havia grandes traumas ou tragédias para lamentar, mas também nada espetacular guardado na memória. Vida neutra, regular, correta, bem traçada (como os cálculos de balística do coronel). Vida repetitiva (como a cadência do batalhão no desfile da independência, que o marido comandava com tanto orgulho). Estudo e trabalho: únicas razões que preencheram a vida da mulher. Poucas emoções fortes para recordar. As melhores lembranças vinham das aulas de física, trabalho de décadas, no colégio e na faculdade. Considerava um privilégio a missão de ensinar o funcionamento do mundo.
O tempo mora na alma. O tempo moral, temporal, é tempestade, besta, vendaval. O tempo não é infalível. Errado pensar que o tempo é exato e não falha. Falha e falta, porque nasce e morre dentro da gente. Enquanto escorre, tem o tamanho que quiser. É música silenciosa que embala o curso do universo. Compasso e ritmo definem sua existência. O tempo é invenção desvairada de cada pessoa, na dança consigo mesma. Não é coisa geral. Tempo universal (organizado em fatias) é como cena parada de um filme – cinema que vira fotografia.
Poucos parentes, a maioria já morreu. Sobrinhos e fiéis agregados apareciam vez ou outra – no aniversário, páscoa, véspera de natal e coisas assim. Sempre apressados, constrangidos, tentando demonstrar que tinham algo mais importante para fazer. A única visita que lhe fazia bem era Ester, ex-aluna que reencontrara, por acaso, no asilo. Duas vezes por mês, Ester passava lá para ver o avô e dedicava um bom tempo para conversar com a antiga professora. Ester – a única que não inventava motivos para dizer que estava na hora de ir embora. Só saía quando a velha dizia que precisava descansar.
Há séculos, o terrível vício das horas aflige a humanidade. Desde que foi criada a civilização do relógio (para facilitar a divisão social dos talentos e reprimir excessos de velocidade de imaginação), a desconstrução do tempo é considerada insulto científico ou distúrbio pessoal. Difícil fazer entender aos viciados em calendários e agendas que é impossível regular os momentos e a cadência da vida. Tão esdrúxulo como tentar disciplinar o vento. Ou pensar a sucessão das eras como uma sequência contínua em direção a um futuro fixo (como se só existisse o presente, cuja função seria apagar o passado).
Lembrou orgulhosa dos exemplos poéticos que construía para explicar fenômenos misteriosos com as forças da natureza.
A velha professora detestava os livros que ganhava. Histórias tolas, manuais de autoajuda, meditação, pensamento positivo ou mensagens religiosas de preparação para a morte. Preferia ficção científica, aventuras que desafiavam a inteligência e propunham novos pensamentos. Gostava mais dos clássicos. A imaginação dos autores da atualidade ficava cada vez mais tecnológica do que científica. O desastre estava aí: pouca ciência para muita tecnologia. Ultimamente, mantinha no colo o pequeno volume que Ester trouxe de presente. Os Crononautas (tradução horrível), que narra viagens no tempo de um grupo de cientistas, que descobre equações mentais que permitem deslocamentos no espaço com a força do pensamento.
Não se deve acreditar que o tempo só caminha para frente. Nada mais falso. O tempo é etéreo e volátil. Pode andar para frente, para trás, para cima, para baixo e para qualquer lado. O tempo é invisível. Lugar móvel, abstrato, onde fica guardado tudo que existe, existiu ou existirá. Voa, na velocidade total de todas as galáxias, sendo capaz de atingir qualquer distância cabível no universo. Às vezes, fica entupido num canto sem saída. Como dentro da garganta daquele velho com cara de monstro.
O avô de Ester não gostava da velha. A neta parecia mais interessada na professora maluca do que nos problemas de saúde que ele relatava com profundo sentimento de carência e abandono. Maldizia a tarde que Ester reconheceu a professora, solitária, no canto da varanda. Foi ele que começou a espalhar que a velha era um perigo.
– Minha neta contou que ela é um gênio. Sabe tudo sobre energia nuclear. Foi até convidada para trabalhar na Nasa, mas o marido não concordou. Cuidado com ela! É meio desequilibrada. Tenho certeza que está aprontando alguma coisa. Olha a cara dela: parece que vive com raiva da humanidade. Gente assim é capaz de tudo. Já imaginou se ela resolve fabricar uma bomba? Provocar uma explosão, causar um curto, um incêndio…
O mundo perde vida com a ideologia do tempo aprisionado. Inteligências criativas são bloqueadas e se atrofiam. Tempo expresso em números; tempo vigiado em tabelas e prazos; tempo apertado em competições de sobrevivência. Na vida corrida, condicionada a datas e compromissos marcados, sentimentos fraternos e respeito solidário são rebarbas de excessos. Tempo engarrafado, paralisante, epidemia de angústia, destruição da harmonia natural e ilusão de um futuro salvador. Droga pesada.
Tempo é liberdade! Abaixo opressores e compressores do tempo! Tempo livre. Solto e vago! O tempo é leito de luz e usina de memória – confinado, compromete competências do espírito e altera a hierarquia dos desejos. Cada espécie é especialista em saber viver – entender o tempo que tem. Vida e morte, no mesmo trampolim. O mesmo ponto pode ser princípio ou fim. Depende da convenção. O amarelo é a menor distância entre o verde e o azul. Quantos tons existem entre os dois? Cor é luz diluída no calor do tempo. Enquanto existir fusos horários, cronômetros e formas de medir o tempo, as pessoas não serão livres para perceber as verdadeiras variações das cores e as pulsações mutantes das estrelas. O tempo limitado no ciclo das horas aprisiona a humanidade na periferia da terra. Por isso, ficamos isolados de outras civilizações extraterrestres. É preciso libertar o tempo.
O velho implicante foi quem ficou mais alegre, quando o diretor do asilo avisou que a professora não podia mais ficar interna na casa. Cleptomania. Encontraram diversos relógios, desaparecidos dentro do asilo, escondidos no quarto da velha. Só não entenderam por que tinham sido destruídos com tanta violência.
Ramayana Vargens é escritor, jornalista, professor de literatura, diretor teatral e membro da Academia de Letras de Ilhéus.
No coração do mundo, pulsam sentidos hesitantes. Sob o efeito das cores e formas, somos tomados por epifanias que nos relembram a perspectiva cíclica do tempo. Mas eis o tempo e seus matizes. Majestoso em seus domínios, este senhor, que governa os ímpetos dos instantes todos, lança seus dados ao léu, arregimentando preces múltiplas daqueles que intentam lutar contra os ardis da resignação. Como conceituar a palavra destino? O que nos conforta face o correr das horas impensadas? Algum paraíso nos espera repleto de dádivas compensadoras para apaziguar nossa ansiedade?
Quem sabe ao contemplarmos os registros da luz, tidos em Ozias Filho, possamos esboçar algumas mínimas reações em face de tamanhas indagações? Sim. Ao fotógrafo cabe a sutil percepção das coisas que flutuam entre os dias. Ele, por si só, não profetiza amanhãs. Pelo contrário, pestaneja como os demais mortais. No entanto, ousa sondar as esferas que dividem a rotina agastada dos homens e dela põe em evidência a delicada película que envolve a tudo.
O que busca Ozias Filho? O paraíso por entre as conturbadas paisagens humanas? Talvez. Mas o fato é que seus alvos de observação transcendem urbanidades, trincam as vitrines intocáveis aos olhos e duvidam das nossas zonas de conforto pretensamente civilizadas. A Pasárgada de Ozias é feita de concreto e de sonho, do jogo dos extremos, de uma ponta qualquer de infinitude e, acima de tudo, do testemunho de que a existência é uma dama cujo manto é exponencialmente sensível. Nela, as cidades são vias de acesso para a aclimação das dúvidas. Não se busca uma terra prometida ou se vislumbra a morada da perfeição. Apenas subsiste a constatação de que as horas desmontam qualquer ilusão vã.
Foto: Ozias Filho
Carioca de berço, Ozias Filho foi buscar noutras paragens, mais precisamente em Portugal, a edificação de uma nova morada. Em todos os sentidos, diga-se de passagem, pois lá desenvolveu suas feições de escritor, editor e fotógrafo. Do seu envolvimento com a literatura, nasceram as obras Poemas do dilúvio (2002), Páginas despidas (2005) e O relógio avariado de Deus (2011). Algumas de suas imagens foram publicadas em revistas brasileiras, portuguesas e alemãs. Recentemente, o fotógrafo criou imagens a partir de versos de Iacyr Anderson Freitas. A obra, intitulada Ar de Arestas (2013), promove um diálogo entre duas poéticas que se fundem, harmonizando linguagens corporais em torno de um ambiente onde densas travessias da alma governam os sentidos de nossa tenra existência.
Um olhar detido pelas fotografias de Ozias nos permite atestar que o resultado poético é o grande alvo das pretensões do artista. Se há um caminho através do qual os fluxos da vida assumem uma dimensão diferenciada, sem dúvida alguma é a poesia quem determina tal escolha. Desse modo, o fotógrafo ignora os limites circunstanciais do tempo e não volta suas atenções para a mensuração cronológica dos momentos. Pelo contrário, deixa-se levar por motivações de ordem interna, catando verbos ao vento e os unindo a um painel que sabe a fragmentos de valor inexorável.
Foto: Ozias Filho
* As fotografias de Ozias Filho são parte integrante da galeria e dos textos da 88ª Leva.
carrego a sede
de desertos
e a certeza perene
da repetição do verso
costurada
nos dentes
sou dos homens
que trazem
um círculo de sangue
na parte superior
da mão
e as palmas limpas
como areia de aluvião
das que repousam
o fundo das torrentes
depois de secas
as chuvas
***
LILITH
entre a escolha
entre a mulher virtuosa
e a que caminha sinuosa
embora cindido
eu prefiro a que tenha asas
que me beije como um anjo
e escolha a posição que quiser
(Edson Bueno de Camargo foi operário da indústria, dentro de uma realidade suburbana. Muitos de seus primeiros poemas foram escritos no “chão da fábrica” com cheiro de máquinas. Escreve desde muito jovem, sempre muito prolixo. Na maturidade, passou a ter uma relação com a poesia que vai para além da literatura, a poesia é sua experimentação do sagrado. Escrever poesia é seu tempo do sonho)