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96ª Leva - 10/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Stefanni Marion

 

Foto: Tomás Casares

 

o enforcado

 

me ame ou me enforque
sou o seu bluegrass boy
e esse disco você já tocou
quando cantarolou aquela
triste canção com seu banjo.

com você eu sinto o ritmo
do tilintar do drink no copo,
ouço rifles, vejo a sangria
escorrendo no centro
de minha testa ferida.

me ame ou me enforque
sou seu fracasso favorito
um escombro, um tropeço.

oh baby, não seja tolo
amarre as pernas
de sua calça jeans
em meu pescoço
e tente tente tente.

querido rei, querido réu
os anos fatalmente passarão
feito mariposas no verão
e eu não estarei mais aqui
para amar você tão denso.

querido rei, querido réu
fique no canto da sala vazia
e pela última vez eu peço
cante suas tristes versões
do peter, paul and mary.

sou um cubo de gelo
em seu copo de whisky
vou derreter
e você sabe que será fatídico.

voltarei para casa,
mas não vou contar para deus
que você é meu assassino.

me ame ou me enforque.
me enforque e me ame
frio.

 

 

***

 

 

lana, ele não virá para jantar

 

um dia você cantou
e éramos nós três
em uma king size.

ele foi embora tempos depois,
você tranquei no armário
e eu fiquei só, vagabundeando
com os filmes do john waters.

dia desses li que seu sonho
era ser poeta, seguir a estrada.
uma transmutação lúcida
que tanto me sobrecarrega
da escuridão dos dias.

hoje fiz o jantar em silêncio
tem vodka de cannabis
talvez você goste.
fiz uns quibes,
talvez você os rejeite.

quando libertá-la
talvez eu não suporte a dor
e a jogue pela janela suja
para calar sua voz impudica
nesse intenso verão abatido.

quando libertá-la
verá que eu fiz um ritual
mas a dor ainda rasga
e a casa está triste triste triste.

sua vagina tem gosto de pepsi cola
desande a cantar sufocando
me faça esquecer
vamos soltar
os prisioneiros
às vezes vale a pena
deixar morrer para não voltar.

lana, agora somos só nós dois
ele não virá para jantar.

 

 

***

 

 

beautiful fucker man

 

o amante foi embora
o chuveiro pinga solidão
seus cigarros apagados
ainda ocupam a falta de palavras.
ele deixou mentiras pirotécnicas
espalhadas junto ao jardim
e não quero mais adubá-las.

a chaleira apita três vezes
meu nariz é rabdomante
fareja desafetos um a um
meu desejo é peregrino
onze andares acima
onde meus abismos
não são tão atrativos.

o amante foi embora
e me deixou lamentando
no canto da fétida sala suja
e ele sabe que isso terá seu preço.
meu belo homem filho da puta,
um fodedor, em breve irei enterrá-lo.

meu coração é um arquivo
de cenas perigosas.

 

 

***

 

 

luver, drunk, lover

 

pigalle 303, pernoite
num torpor envelhecido
do motel o desconhecido se foi,
mas dentro de mim mora um outro.
paguei a conta, devolveram meu rg
voltei para casa, tudo de volta
fora do lugar, valkiria 42.

e nesse jogo, quem eu acho que sou
andando por aí ganhando cicatrizes?

coloquei gelo num copo
despejei vodca negra

e escrevi uma linda canção rock ‘n’ roll
respirei fundo, outra vez, outra vez.

se nem deus ou o amor
salvaram e lavaram
minha alma impura,
então não tenho nada a perder.

 

 

***

 

 

dor

 

ingredientes:

01 escroto cozido
01 coração partido
01 escroto cru
01 pitada de ira
02 colheres de solidão
220 gramas de agonia
¼ de silêncio
½ xícara de saudade

modo de preparo: nunca saberemos como temperar a dor. então leve ao forno e deixe queimar queimar queimar…

 

Stefanni Marion é autor dos livros “Temporário”(Patuá, 2012) e “Inventário” (Patuá, 2014). Participou de antologias, teve poema em italiano musicado e poemas em catalão publicados na Espanha. No projeto “Arte na Balada”, expôs seus escritos com batom vermelho nos vidros do banheiro de uma casa noturna paulistana. É um dos organizadores e editores da antologia “É que os hussardos chegam hoje” (Patuá, 2014), entre diversos outros pormenores planetários do universo literário.

 

 

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79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Stefanni Marion

 

Desenho: Bárbara Damas

 

 

consolidação

 

o balouçar dos tempos está rangendo
o escárnio surgindo frio pela manhã
dentre vogais que se misturam
nasce a doçura rasgando ingênua.
armadura ginasial nunca polida
dentre dissipados olhares se abrilhantam
sem rumo levando ao descobrimento
degelando essas sensações estupefatas
numa consolidação platônica dominante.

se eu tivesse um sonho
ele seria o pesadelo.
moeda em cobre fundido
no fundo da bolsa
nunca trouxe sorte.
se eu tivesse um pesadelo
um dia seria sonho.

 

 

***

 

 

entre minhas frestas

 

um tanto irritante
deitou-se no tapete da sala
sorvendo o cheiro da geladeira
precisando de limpeza.

um tanto amável
acendeu as velas
iluminando os poros
em meu corpo ácido.

um tanto irritante
reclamou das manchas
negras e antigas
no fundo da banheira.

sol nascente
um oriente
plantado feito arroz desnudo,
ficou irritando e doendo por dias,
guardado entre meus dentes
feito massinhas mastigadas
de bolachas japonesas.

 

 

***

 

 

flamejante

 

o início perde o rumo
quando lanço chamas
nesse abismo inflamado
em devaneios bucólicos
flamejantes feito ritos
sarcásticos esmorecendo
gota a gota no quintal.

o nariz?
o que é o nariz?
– sentença em riste
buscando amadurecimento.

 

 

***

 

 

temporário

 

os trilhos da cidade esperam
minha cheia sangria.
às sete da manhã
vem o primeiro trem
e sua sonora carga amarela
invade as ruas do arpoador.
desaparece nos trilhos,
evade meu pranto sem crenças
e volto pra vida com cheiro de morte
temporário.

 

 

***

 

 

sóbrio

 

arfar e sentir o drama inveterado
gota a gota retratando as lágrimas
sóbrias nessa madrugada mnemônica.
não nasci ou amadureci neste nevoeiro
entre discos e canções dos bandoleiros,
odeias tudo em mim e não sentes nada?
sem sol, lua ou cartolinas recortadas
para meus primeiros trabalhos escolares.
nessas madrugadas apenas vício e chamas
me afastam e não sou parte dos seus sonhos.
desconexo nessas pequenas noções de vida
sôfrega voltando a destruir tudo outra vez.
pai, não há mais lamparinas nos cômodos:
sou seu sexo violento sem revide,
a placenta que caiu e não alimentou
em seu nome e do filho que se fez.

 

 

(Stefanni Marion nasceu em 1981, no dia do aniversário de sua mãe e no meio do caminho entre cidades do litoral sul de São Paulo. Já se envolveu com teatro, cinema, curadoria artística, mas acabou rendendo-se ao encantamento pelos livros e graduando-se em Biblioteconomia. “Temporário” (Editora Patuá) é seu primeiro livro de poemas)