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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Rodrigo Melo

 

Foto: Gilucci Augusto

 

A NOITE QUE ENGOLE TUDO

 

Desligo os faróis antes de alcançar o alto do morro e deixo o carro deslizar suavemente, como se planasse sobre uma nuvem, até parar embaixo de uma árvore. É tarde, não há ninguém, nem mesmo os nóias. Apenas nas luzes da cidade, lá embaixo, há algum sopro de vida. Salto do carro e acendo um cigarro. Uma vez Kersey me disse que a gente nunca deve ter pena de vagabundo. Vagabundo tem mesmo que se fuder, do contrário fodem com a gente. Eu nunca discuto com Kersey. Ele está nisso há muito mais tempo que eu.

Jogo o cigarro no chão e caminho até a casa com o portão verde. Bato três vezes. Alguns segundos se passam e escuto o barulho de uma porta sendo aberta e, em seguida, passos arrastados, os chinelos ralhando sobre o cimento do passeio que leva até o portão.

– Quem é? – ele pergunta.

– Te dou uma chance pra descobrir.

Depois de três segundos, ele destrava o ferrolho e o portão fica entreaberto. Está com os olhos inchados e o rosto suado, a cara de quem não dormiu.

– Ainda não tenho a grana.

– Não tem nada?

– Alguma coisa. Não é muito.

– Eu quero.

Ele me encara. Está desconfiado.

– Espere aqui.

Encosta o portão, se vira e caminha até a entrada da casa.

Cruzo a porta e vejo uma mulher deitada no sofá, de frente para uma mesinha onde há um prato com algumas gramas de pó. É loira, magra e, quando seu olhar de vampiro pousa sobre mim, imediatamente se encolhe, espremendo-se contra o sofá, uma almofada suja servindo de escudo. Faço sinal para que continue em silêncio, mostro a arma em minha mão. Pergunto onde ele está e ela aponta para o quarto.  Sento-me em uma cadeira e espero.

Dois minutos depois, ele passa sem me notar. Está com o dinheiro na mão. Tem um 38 nas costas, preso à cintura. Ele nota a mulher espremida no sofá e, ao reparar nela, me vê.

– Pra quê o 38? – pergunto.

Seu rosto está congelado. As narinas dilatam-se por conta da respiração.

– O dinheiro tá aqui. Quase dois mil. Consigo o resto em uns dois dias.

– Não vim atrás do dinheiro. Quero minha parte da encomenda.

– Que encomenda?

– Você sabe.

– Não sei, não. Seja lá quem falou isso de encomenda, é mentira.

Fico de pé e caminho até ele. Pego o dinheiro de sua mão, coloco no bolso e então aponto a arma pra mulher no sofá. Ela grita e se protege atrás da almofada.

– Já disse, cara – ele responde -, não sei nada sobre o que tá falando. Muito menos ela!

– Tem certeza?

– Claro!

– Não está mentindo?

– Eu não minto pra você.

Deixo de apontar a arma para a mulher e a direciono para a cabeça dele. Seu rosto se contorce, os olhos piscam naquele segundo em que calcula se daria tempo de pegar o 38. Atiro no instante em que ele, com os olhos esbugalhados, faz o movimento. A mulher dá outro grito e se agarra à almofada, enquanto ele cai morto no chão.

– Fica de pé – digo pra ela.

– Não me mate, por favor!

Ela se levanta lentamente, o corpo inteiro treme. Usa uma bermuda jeans gasta e uma camiseta com a foto de uma garota, o nome Raquele escrito em cima.

– Sabe onde está?

– Sei… Na caixa d’água. Foi lá que ele subiu.

Há um limo grosso sobre a Eternit. Ando com cuidado. Tenho medo de escorregar ou de quebrar uma das telhas e cair. Seria estranho morrer assim. Tento imaginar o que escreveriam no jornal: POLICIAL CAI DO TELHADO APÓS TIROTEIO COM TRAFICANTE. Abro o saco plástico azul escondido na caixa d’água e, dentro dele, vejo dois pacotes enrolados com fita adesiva. Enfio o canivete em um deles e coloco o pó na gengiva. Em dois segundos, está dormente. Fecho o saco e volto a andar sobre a Eternit, cada passo como um salto rumo ao abismo.

A mulher teve tempo de fugir, mas continua ali, sentada no sofá, olhando para o corpo do bandido no chão. Ao seu lado, sem que consiga enxergar, Kersey se senta, cruza as pernas e olha pra mim. Eu sei o que quer. Nunca deixe testemunhas, ele me disse uma vez. Nem perca tempo com eles. Aponto a minha arma para ela.

– Você disse que não ia me matar! – a mulher grita, os olhos miúdos, cheios de lágrimas. – Eu falei o que você queria! Por favor, não me mate!!

– Quem é a menina?

Ela me encara, sem entender.

– Raquele – digo, apontando a arma para sua camiseta.

Ela suspira, estica a camiseta e olha para a imagem.

– Minha irmã. Desapareceu há dois anos. Tava brincando na rua e sumiu.

– Encontraram?

– Não. Minha mãe sonhou que ela já estava morta.

Abaixo a arma e saio da casa carregando os dois pacotes, enquanto ela me observa. Vou até o carro, sento no banco do motorista e acendo um cigarro, olhando para a cidade lá embaixo, para o pouco de vida que ainda resta.

– Uma vagabunda viciada é só uma vagabunda viciada – Kersey diz, sentado no banco do carona. – Volte e acabe com ela. É assim que a gente faz.

Olho pra ele. Paul Kersey. O mesmo bigode de sempre, o mesmo gorro sobre a cabeça, o olhar de quem já testemunhou coisas demais. Um grande homem, uma constante inspiração. Agora, no entanto, estou cansado.

– Vamos deixar essa merda pra lá, Kersey. A mãe dela já chorou demais.

Ele dá de ombros e, de um segundo para o outro, desaparece em meio à noite que engole tudo. Eu ligo o carro, acendo os faróis e começo a descer a ladeira.

 

Rodrigo Melo tem publicados dois livros de histórias curtas, “O Sangue Que Corre Nas Veias” e “Jogando Dardos Sem Mirar O Alvo”, ambos pela editora Mondrongo, e participou das coletâneas de contos “82, Uma Copa/15 Histórias” (Editora Casarão do Verbo), organizado por Mayrant Gallo, e “Outro Livro na Estante” (Editora Mondrongo), organizado por Herculano Neto. Escreveu, ainda, o livro de poesia “Enquanto O Mundo Dorme”, e o romance “Riviera”. Mora em ilhéus, no sul da Bahia.

 

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97ª Leva - 11/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Lourença Bella

 

Cristina Arruda
Arte: Cristina Arruda

 

Declive

 

Com os braços debaixo da cabeça, era só ouvidos. Barulhos de passos na escada de madeira, gritos agudos vazando pelas paredes, o grasnar rude da dona das chaves. Motel de terceira – única espelunca que podia pagar. A mulher roncava aquele ronco de vaca saciada de capim verde. O ar era podre, o cheiro era podre, tudo apodrecia. E eu, um porra dum fracassado. Nunca saía do meio. Sempre entre o fundo e a borda do poço. Não servia nem pra chafurdar nas trevas. Levara um par de chifres e só conseguira pegar a primeira puta pra afundar nela toda frustração que rasgava minhas entranhas. Cheguei a pensar no tiro. A bala varando o peito e explodindo no colchão. Cheguei até a ver a cama chupando, sôfrega, o sangue enquanto a pilantra ia-se de olhos arregalados sem acreditar que eu puxara o gatilho. Não suportei a cena. Covarde. Preferi bater a porta e me esconder na escuridão. Agora estava ali, de frente pra minha caída no purgatório – o berço dos canalhas sem culhões. O lugar onde passaria a vida me arrependendo do ato que não saíra da imaginação. Outro ronco alto. Cabelos escuros cobriam o rosto que eu nunca vira. Aquele corpo mexera-se debaixo do meu. Fingida. Gritara como se eu estivesse arrombando o que nem porta tinha. Cuspi nela. De nojo e de raiva. Ela devolveu a cusparada e grudou os dentes em minha boca. Bem na hora em que me livrava do sêmen podre de covardia. E o gosto de sangue invadiu meus sentidos. Lambi o lábio e a ferida se fez novamente viva na ardidura. Raiva. Da mulher, da puta, de mim mesmo. Levantei. O coração estava mordido, espicaçado pelo desprezo da mulher. A noite me olhou. Escura e vazia. As estrelas pareciam esconder-se de mentes castradas – a minha. Saí sem fechar a porta, direto pra mureta. Fiquei ali olhando o rio escuro, sentindo seu cheiro fétido se misturando aos meus pensamentos. Fiquei ali segurando o saco. E pensando, sentindo e pensando na água inundando-me os pulmões. Acordei com dor no peito e tubos no nariz. Nem pra morrer eu nasci.

 

 

***

 

 

O voo da mariposa

 

Ela estava se revirando internamente. Desde que fizera quarenta anos era só um rodopio frente ao espelho. Não compreendia o que lhe acontecia. Os sentidos não chegavam à razão. Sabia apenas que dentro dela algo mudava quase que a cada nascer do sol. E o sol ultimamente estava nascendo de um alaranjado quase vermelho. É que dentro dela tinha um fogo doido e doído. Fogo que adivinhava a chegada do pôrdosol.

Havia uma urgência no ar do banheiro. O espelho mostrava as pequenas rugas que ela ignorava solenemente. Nunca antes se preocupara com o corpo. Agora ele parecia crescer à sua frente. E por detrás dele a imagem do menino. Aconteceu. O menino. Foi um encontro casual, destes que poderiam acontecer a qualquer pessoa. Entrou nela como forças opostas duelando-se. E rompeu a barreira da idade. Deixou-a equilibrando-se à beira do precipício. Porque havia nele uma parte da vida dela. A parte não vivida. E porque havia naquela espécie de loucura a esperança de salvação.

Durante os dias anteriores esteve numa voragem de expectativa. O fogo dentro dela buscava a carta do menino. O gelo lembrava os vinte anos que os separavam. E era o gelo que fazia afundar-se a linha entre as sobrancelhas. Tinha uma vida dentro da vida dela. Uma vida que se escondia. Vida sem causa ou efeito, mas que parecia querer explodir na pele.

Amava tudo à sua volta. O marido, os filhos, o verde das árvores. Ainda assim, sentia-se incompleta. Sabia. Só se completaria com esta vida secreta tão recém descoberta. A vida que faria o eterno transformar-se em intensidade do momento. E esta vida já não era apenas sonho. Tinha um corpo. E boca. E uma tensão que a fazia corda afinada de instrumento musical. Ou mariposa de voo incerto e esfuziante, perseguindo o fogo mesmo sabendo do risco de queimar-se.

Ajeitou os cabelos e foi em busca da bolsa. Ela iria se queimar, sabia. Mas sabia também que precisaria experimentar. Nem que fosse uma única vez. Viver era imperiosamente preciso.

 

Lourença Bella é mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi só o inicio. Pisciana que é, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educação, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra até hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso escreve.