Jorge Vicente

sei que as mãos se mantêm
no mesmo lugar subliminar,
adiante das palavras e mais perto
do poema que gira
sei que há uma árvore
e que existem troncos que dizem da
árvore [dizer é caminhar incólume
entre os versos]
sei que há palavras,
mas não digo delas
senão para decifrar
que tudo o que escreve morre cedo.
***
a língua lembra e purifica. mas não diz dos orgasmos, da pequena sombra plantada junto à árvore branca. não diz do corpo quando se toma de decadência e horror ao esplendor. não diz dos silêncios que não são silêncios. [debaixo da raíz, apenas fico eu e um enorme deserto vermelho]. a língua não diz da semente e da grande voz que alcança. do inverno, da ânsia das flores, do pecado que aberto é à vida e ao desarranjo dos olhos. a língua não pode suportar pernas, braços, sexo, liberdade de sentir e entregar-se ao chão. a língua abre-se e encolhe, escolhe as vontades, escolhe as sílabas certas, o modo único de dizer o nomeado.
o inominado tem um pecado único: não suporta a fala e diz que o poema é uma cobra gigante, plantada na base do sexo. o resto são as pernas e o que fica entregue no acto da raíz.
***
poderás ter a experiência da carne,
mas apenas tens o chamamento da
palavra viva,
aquela que, de artéria em artéria,
vai construíndo o ramal das sílabas:
ordem geométrica do sangue.
a experiência chama
e o oceano transforma,
trazendo o poema de volta
à sua raiz de árvores:
ao cimo do vento
e abaixo da copa dos dedos.
***
destrói o poema
aniquila toda e qualquer possibilidade
do livro transpirar palavras
o poema não foi feito
para a estante desarrumada,
para os limites que as páginas impõem
à memória
constrói uma nova realidade,
em que as coisas sejam apenas coisas,
em que as palavras não representem,
nem tenham significados nem conceitos
explora do corpo o seu devir
explora da vivência a tua memória
e do saber oceânico da pele
o teu antro de sílabas.
(Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Mestrando em Ciências Documentais e em processo de formação na Escola de Biodanza de Portugal, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas. Participa activamente nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. O seu primeiro livro de poesia, Ascensão do Fogo, foi publicado em 2008, sendo seguido por Hierofania dos Dedos, editado sob a chancela da Temas Originais, em 2009)