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75ª Leva - 01/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Jorge Vicente

 

Desenho: Luiza Maciel Nogueira

 

 

sei que as mãos se mantêm
no mesmo lugar subliminar,
adiante das palavras e mais perto
do poema que gira

sei que há uma árvore
e que existem troncos que dizem da
árvore [dizer é caminhar incólume
entre os versos]

sei que há palavras,
mas não digo delas
senão para decifrar
que tudo o que escreve morre cedo.

 

 

***

 

 

a língua lembra e purifica. mas não diz dos orgasmos, da pequena sombra plantada junto à árvore branca. não diz do corpo quando se toma de decadência e horror ao esplendor. não diz dos silêncios que não são silêncios. [debaixo da raíz, apenas fico eu e um enorme deserto vermelho]. a língua não diz da semente e da grande voz que alcança. do inverno, da ânsia das flores, do pecado que aberto é à vida e ao desarranjo dos olhos. a língua não pode suportar pernas, braços, sexo, liberdade de sentir e entregar-se ao chão. a língua abre-se e encolhe, escolhe as vontades, escolhe as sílabas certas, o modo único de dizer o nomeado.

o inominado tem um pecado único: não suporta a fala e diz que o poema é uma cobra gigante, plantada na base do sexo. o resto são as pernas e o que fica entregue no acto da raíz.

 

 

***

 

 

poderás ter a experiência da carne,
mas apenas tens o chamamento da
palavra viva,

aquela que, de artéria em artéria,
vai construíndo o ramal das sílabas:
ordem geométrica do sangue.

a experiência chama
e o oceano transforma,
trazendo o poema de volta
à sua raiz de árvores:

ao cimo do vento
e abaixo da copa dos dedos.

 

 

***

 

 

destrói o poema
aniquila toda e qualquer possibilidade
do livro transpirar palavras

o poema não foi feito
para a estante desarrumada,
para os limites que as páginas impõem
à memória

constrói uma nova realidade,
em que as coisas sejam apenas coisas,
em que as palavras não representem,
nem tenham significados nem conceitos

explora do corpo o seu devir
explora da vivência a tua memória
e do saber oceânico da pele

o teu antro de sílabas.

 

 

(Jorge Vicente nasceu em 1974, em Lisboa, e desde cedo se interessou por poesia. Mestrando em Ciências Documentais e em processo de formação na Escola de Biodanza de Portugal, tem poemas publicados em diversas antologias literárias e revistas. Participa activamente nas listas de discussão Encontro de Escritas, Amante das Leituras e CantOrfeu. O seu primeiro livro de poesia, Ascensão do Fogo, foi publicado em 2008, sendo seguido por Hierofania dos Dedos, editado sob a chancela da Temas Originais, em 2009)