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104ª Leva - 07/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Kleber Lima

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Que resvala de você
sem deixar rastros
que não compactua com o cotidiano –
a música inexecutável
a promessa inexequível
a víscera mais escondida
incutida no hálito de café e cigarro

Que não te nomeia
os muitos braços e pernas e bocas e gritos
aquilo que às vezes se traduz em lágrimas
algo embaçado que te fixa o olhar
num dia comum de semana

Que foge e te retém
enquanto você ri e sangra
e me olha
e me abraça
[já são tantos lenços ensanguentados]
ato-me a moldes fugazes
da tua alma inestancável.

 

 

 

***

 

 

Toda vez que for escrever
colocar ao lado este porrete

bater à toa
de olhos vendados
como o choque dum corpo no mar
à deriva

Toda vez que for escrever
bater forte
como aquilo que abriu minha cabeça
outro dia

uma pancadaria
cujo barulho
infernal
é tanto maior silencia.

 

 

 

***

 

 

 

Verhoeveniana II

 
Despi uma estação indomada
com protuberâncias de infinito na pele
e afora as violentas mordidas
a desintegração dos átomos da boca
as bifurcações luminosas das nádegas
as secreções nervosas como piche quente
o consentimento convulsivo
dos dedos entrelaçados
era mais um episódio
de um peito escavacado
pelo amor.

 

 

 

***

 

 

 
Por onde tua presença me chega
não sei
uma música incrustada na parede
dos ouvidos
um país arrancado de algum autorretrato

Não sei mesmo dos teus
passos mordidas
violentas insolações
não sei como cospe
leopardos sanguíneos em meu peito
nem de como em minhas virilhas
maçãs podres acumulam à revelia

De toda febre
em meus pelos
teu rosto muito forte
se contrai em arpões
rixas taras arrepios
vermelhos
líquidos magmáticos
pássaros coagulados
trepidando na ponta dos dedos.

 

 

 
***

 

 

 
Abertura para um sol em tuas costas
um pomar na ponta dos teus dedos
tua cútis uma música sibila arrepios
a boca transeunte trespassada de águas
as palavras ardendo em silêncio eriçadas
motim de dilúvios enluarados lábios
assento de frêmitos olhando atônitos
teu rosto esta costura em meu coração
assediado por minhas vísceras famintas.

 

Kleber Lima. Teresina. 1984. Escreve no blog Apontando para mim.

 

 

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100ª Leva - 03/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Demetrios Galvão

 

Foto: Gabriel Rastelli Quintão

 

palavra-mágica

 

quando os pés adoecem
e esquecem os caminhos
o corpo precisa inventar voos.

os peixes nadam na profundidade da costela direita
na obscuridade do entre-ossos
migrando para o aconchego do litoral carnudo.

……..(a língua quando bem plantada
……..atinge veios profundos
……..manancial voluptuoso de fabulações)

busco então, a sobrenatural beleza:
as ancas africanas, a envergadura monárquica,
a anatomia incendiária.

me visto de asas e de lâmpadas
e vou ao teu encontro
com uma palavra-mágica adornando os olhos.

 

 

 

***

 

 

 

pescaria noturna

 

olho tua pele como uma estamparia do infinito.
Floriano Martins

 

 

embarca tua forma épica
……..– delgadas linhas-curvas de alumbramento.

……..era de gozo que teu olho escorria
……..o perfume do primeiro encontro aniversariando
……..eram as terras novas: anônimas: sendo conquistadas.

……..nossa pescaria na madrugada
……..e o alimento festivo armazenado por anos na memória.
……..o tecido-de-peixes nos fez cardume na fileira dos meses,
……..nos fez náufragos de carnes unidas.

infante, tu me aprisionou no baralho como carta-salva-vidas.
tuas armas são atalhos úmidos
teu vocabulário: indomável:
…………………..revolta de mar solto.

o que se escreve do teu corpo não tem nome:
…………………………..esôfago de veludo
…………………………..onde me dissipo por tuas cavernas-entranhas.

……..se usasse brincos eles seriam satélites
……..rodopiando em volta de tua existência celeste.

teu peito-abajur vibra uma luz rara:
……………………cor de céu medular.
teu riso é vitral bizantino flamejante
……………………na arquitetura dos gestos translúcidos.

………………– ainda te guardo nos dedos daquele dia –

 

 

 

***

 

 

 

o silêncio, o barulho

ao som de philip long

 

para assis, lara e hilda

 

o silêncio do sono é trabalho de imagens profundas.
o barulho das ruas são palavras praticando o alfabeto.

o silêncio da menina lara é uma ideia danada sendo gestada.
a cor do sol faz um barulho que arde na pele.

quando o violão toca, estremece o silêncio que vive dentro do peito.
o barulho é bom quando feito com amor.

o silêncio das fotografias traz um passado que, às vezes, amansa a alma.
o ronronado da hilda é um barulhinho que traz felicidades.

o silêncio de um olhar perdido ecoa na orelha do espectador.
o barulho é gostoso quando estala no rosto.

o silêncio do escuro é um segredo em absoluto.
o barulho do alfaiate é roupa nova no armário.

o barulho do menino assis é
o silêncio que vazou da barriga da mãe.

 

 

***

 

 

 

esticar o mundo

 

para marcelino freire

 

ainda é possível esticar o mundo com a palavra poética

se aliando ao balé das arraias
aos porteiros que abrem os caminhos do mundo
às armas de misericórdia dos infames
aos livreiros da diáspora
às mercearias que sediam confrarias fugazes
aos tuaregues mensageiros dos ventos-suburbanos
aos engenhos e cachaças mágicas
aos taxistas sobrenaturais que detêm a arte dos atalhos
ao cinema do oriente abandonado
às musas que habitam os labirintos da memória
aos andaimes dos cemitérios da carne
aos carteiros que espalham pontes silenciosas
às chuvas que inventam estradas aquáticas
aos jardineiros que curam e fazem partos nos canteiros
aos gatos que amaciam os recantos da cidade
aos pintores alados que enfeitam os muros
aos bem-te-vis arquitetos do assovio
às crianças que dominam gramáticas horizontais

é possível esticar o mundo.

 

 

***

 

 

 

para uma criatura encantada vol. 5

 

hoje o carteiro entregou infâncias na casa do poeta.

 

era cedinho quando inaugurou existência cremosa
fez apostas e arremessou expectativas
gastou verbo edificando mansidão
……..– seu perfume é como o som perdido que enche a casa.

é de uma timidez imperial
carrega um mapa de 2 pintores – encontro difícil de avaliar
sabe um pouco sobre receitas, vive pela cozinha entre temperos
……..– seu mundo é vocabulário em aprendizagem.

não manipula números, mas inventa sorrisos particulares
desde muito cedo aprendeu a domesticar cactos
provinciano é seu esconderijo infantil: o casulo mimético
……..– seu rosto é lua-cheia-de-poesia.

não tem tias ou avós, pertence a uma família incomum
do pai, herdou os sons graves e, da mãe, o gosto pelo efêmero:
são gestos refinados e aconchegantes
……..– sua herança é um limiar tênue na percepção.

é sempre mais afável pela manhã
momento em que enterra segredos em cofres vigiados por bromélias
e ensaia uma virgindade aristocrática sem tradução
……..– sua beleza é violência estalando pelas praças luminosas.
em seu canto arrebata o sentimento das palavras e lança:
………………………………….a felicidade é uma invenção macia.

 

 

 

***

 

 

para uma criatura encantada vol. 7

 

não viveu na companhia de uma única pessoa
tinha uma movimentação instável.
seus meridianos quase sempre desalinhados
não favoreciam um mapa astral seguro, solar.

de personalidade selvagem, demonstrava uma simpatia sussurrada
frequentou uma escola nômade-heterodoxa
colecionava sermões do sub-mundo e liturgias marginais
quase nunca tinha bagagem e nem falava de sua família.

só teve lares de fantasia e uma casa que existia em sonho,
que lhe visitava com frequência, aquecendo sua esperança.
exibia um olhar ansioso e uma tristeza erosiva
se gabava das cicatrizes eloquentes.

em conversas, pronunciava sons graves, dissonantes.
nem sempre tinha razão
sabia quase nada de poesia, era displicente com as palavras
não se interessava pelas intimidades desbotadas dos outros
vivia a ambiguidade de um passado caótico e de um presente incerto.

foi a festas que tocavam david bowie, lou reed e se embriagou
sua gentileza insólita era uma marca latente
carregava um fogo indolente como amuleto protetor
nunca foi a um médico. tratava suas dores com solidão-analgésico.
antes de desaparecer, comentou que a saudade é
………………………………….privilégio dos que amam.

 

Demetrios Galvão é habitante da província de Teresina (PI), historiador e poeta. Publicou os livros Cavalo de Tróia (2001), Fractais Semióticos (2005), Insólito (2011) e Bifurcações (2014). Participou do coletivo poético Academia Onírica e foi um dos editores do blog Poesia Tarja Preta (2010-2012) e da AO-Revista (2011-2012). Tem poemas publicados em diversos portais e revistas. Atualmente é um dos editores da revista Acrobata.