Deixei minha covardia alimentar-se das decepções; não fui mulher pra te encarar, fazer de ti o homem que eu queria. Na cama e fora. Porque eu adoro quando seguras firme meu quadril e entras em mim, deixando que eu sinta cada milímetro do seu pau enrijecido e babado, num incontrolável desejo de ir além e gozas dentro ou em cima de mim, e, com a cara vermelha, dás um lindo sorriso despencando ao meu lado.
E você me dizia coisas doces no ouvido e me fazia surpresas, me deixando a mulher mais encantada e encantadora do mundo. Ficava segura quando pegavas em minha mão pra atravessar a rua. Assim, atravessaria cegamente qualquer avenida.
Mas meu orgulho não pode ser ferido desta forma, Lelo. Sou, como você chama com seu machismo, descontrolada. Faço qualquer loucura em autodefesa. Mas quando a lucidez do passional volta, Lelo, ela chega como uma ressaca moral sem remédio.
Você era a ponte da felicidade, o problema de todas as razões e a solução de todos meus distúrbios. A cura de feridas antigas, e a abertura da cárie do amor. Duvido se, onde estiver, não sentirá falta das minhas lembranças sobre os horários dos remédios, saber se você tinha lanchado de acordo com o que recomenda uma vida saudável.
E deves, neste exato momento, sentir falta da minha mão acariciando levemente seu braço, suas costas, te dando a certeza que há uma mulher de verdade ao seu lado. Eu sinto saudade da sua pele, dos seus pelos, do cheiro do seu perfume no pescoço.
Mas eu não sou submissa, por mais que ame e por mais que tenha te amado. Eu não aceito certos desmandos, de homem nenhum. Nunca aceitei, Lelo. E olhe que te amei e assim continuo. Tenho meus olhos cheios d´água e não sei exatamente porquê.
Por alguns milésimos, o arrependimento vem e, junto com ele, lágrimas salgadas de derrota, de covardia. Mas, por outros milésimos, penso que foi melhor assim, pra que não haja mais machucado na alma, nem sangue na mão.
Eu não quero fazer deste momento um drama, nem uma comédia, nem uma terapia mórbida, isto não é do meu feitio. Mas, enquanto te falo algumas palavras, meu coração se enche e eu tenho um imenso desejo de que me ouça. Ao menos, uma vez na vida, me ouça, Lelo, perceba o mal que você me faz em poucos minutos; em comentários desnecessários; em condenáveis faltas de atitude.
Mas além de tudo, quero muito que saiba de uma coisa: você vai estar dentro de mim, sempre. Dos meus gestos, da minha cabeça, da minha alma, da minha pele, de tudo que dirá respeito a mim como mulher. Porque assim me fizeste e me tornaste uma dama com seu cavalheirismo e companheirismo. Mas tudo se acaba em segundos.
É o momento de eu olhar seus olhos fechados, descansados, sua expressão de dor, e pensar nos bons tempos, pra achar alguma piedade em meio a esta cratera no meu orgulho. E encontro. Facilmente encontro, Lelo. Encontro bons tempos na nossa história. E tudo isto me faz sorrir. E é um sorriso diferente de todos que já experimentei. Do orgulho de mulher bem amada e o sorriso de mulher bem vingada. Eu vejo um anjo neste momento, que há pouco era um demônio algoz da minha feminilidade.
A saudade virá de tempos em tempos, arrebatadora como um tufão. Mas logo logo algum cavalheiro macho dará mais áurea a meu orgulho feminino e me fará ainda mais mulher, deixando-te apenas como especial. Alguém especial na minha trajetória. E nada mais. Talvez, Lelo, eu nem pense mais em você como homem.
E como sei que estará para sempre dentro de mim, vais ver os homens bonitos com os quais dormirei em Bali. Vais se banhar comigo nas praias paradisíacas, beber drinks com guarda-chuvinhas na borda do copo e azeitona. Se algum dia pensar em você com muito carinho, Lelo, prometo fazer-te a graça que sempre quiseste e deitarei com outra mulher. Que achas?
É estranho não sentir suas mãos acariciando as minhas de volta. Cada passo sem você, pelo menos neste início, vai ser muito estranho, tudo se tornará opaco, vazio… falta seu delicado toque de dedos em minhas mãos agora e falta sua voz em meus ouvidos e seu pau na minha buceta.
Você está quase gelado. Sinto seu dedo duro. O sangue está secando e fazendo uma gosma nojenta e eu esfrego em meu nariz, numa tentativa de colocar pra dentro seu cheiro, seus nutrientes, seus anticorpos – a química que equacionou com a minha e resultou em cumplicidade.
A temperatura do seu corpo alcança meu coração e me traz uma sensação de medo horrorosa. Eu queria de verdade era ficar ao lado do seu corpo pelo resto da minha vida. Mas com você assim, Lelo, sempre quieto e enrijecido. Frio, pra não ferir meu orgulho de mulher.
Não sei se tenho forças pra continuar, não sei se estou mesmo a fim de ver o mar de Bali ou tsunamis da Indonésia sem você fisicamente comigo. Meus desejos estão postos à prova, sendo encurralados, interpelados pelo machismo que carregas.
Eu não vou sozinha pra Bali, Lelo. Eu vou me entregar aqui mesmo. Tenho que engolir o sangue do meu orgulho, respirar fundo e voltar à vida real. Preciso olhar-te nos olhos e encostar minha taça na sua, respondendo-te a nós, selando ainda mais minha condição ao seu lado.
Sinto-me livre nestes pensamentos que insistem em cercar meu universo interno cada vez que vejo seu olhar cínico; sua arrogância machista. Imagino o que o destino teria nos reservado, caso estas cenas de despedidas, que insistem em rondar meu cérebro, fossem reais. Bom, o seu futuro não seria difícil de adivinhar.
Busco em você tudo que não podes me dar.
Então, eu saio destes pensamentos loucos que se fazem e desfazem em segundos da sua arrogância e brindo com você, Lelo.
Meu homem. Meu companheiro.
– Aos dez anos de casados. E que venha a segunda lua de mel.
Bali!
Tim tim.
***
Dose Fatal
Eu havia pedido apenas uma xícara, algo leve, o suficiente para me manter de pé e seguindo adiante, não tinha tempo para marcha ré. Foi meu amigo Grático quem me serviu dizendo que eu tomasse cuidado, pois era uma dose pequena, mas era uma dose forte. Eu falei a ele que estava acostumado com xícaras daquele tamanho e ele me disse que o problema não era a xícara, era a colher. A colher era pequena por demais, bonita até, quase sumia na mão dele antes de me entregar. Eu sorri quando a vi e perguntei que mal algo tão diminuto poderia provocar, até porque quando eu a usasse ela sumiria de vez e junto com o conteúdo da xícara e com a própria xícara, tudo entraria em mim e faria parte de mim, eu absorveria aquilo tudo e manteria meu caráter. Meu amigo riu e disse que não era bem assim porque eu não estava acostumado com a concentração de palavras, letras, ciências, astrologias e orgias que tinha ali naquele recipiente. Na hora, eu levantei a sobrancelha, peguei na colher fazendo-a sumir entre meus dedos e rodei, lentamente, a xícara. Vi aquele emaranhado de dizeres e regras e verdades misturar-se, pronto para encarar meu suco gástrico e meu amigo disse novamente que aquela pitada de matemática poderia me deixar infeliz, mas eu o tranquilizei porque disse que cinco mais cinco era vinte. Mas logo ele ficou nervoso de novo porque quando coloquei a ponta da porcelana na minha boca, ela era tão ácida, que queimou um pouco do meu lábio e meu amigo Grático mandou eu ir mais devagar e eu disse que não tinha tempo para marcha ré nem para paradas muito longas e deveria tomar aquele conteúdo de uma só vez para continuar andando, prosperar e nunca parar. E foi então que tomei a decisão, sem rima nenhuma me atrapalhando, de virar de vez para imaginar aquela acidez, que não tinha tempo para rima, digladiando com a acidez do meu ácido gástrico que chamam de suco, mas me faz mais mal que suco de laranja. E o conteúdo ácido e humano brigaria com meu suco ácido e biológico, transformando-me num homem desumano e cartesiano. Imaginei gregos e troianos, e me vi diferente e foi então que virei a xícara perdendo todo meu lábio, engolindo minha língua, minha acidez e o conteúdo quente que, imediatamente, esfriou-se dentro de mim, deixando-me uma estátua gelada e repleta de acidez, letras, ciências, astronomias, matemáticas e brochadas orgásticas.
Thiago Mourão é redator e escritor. Tem artigos assinados no Brasil Post, Gazeta dos Búzios e Jornal O Globo. Cursou cursos de pré-admissão para o mestrado em Literatura e Escrita Criativa da Harvard Extension School e está com o caminho trancado devido à alta do dólar. É especialista em Divulgação de Ciência pela Fiocruz RJ e é autor do livro Java Jota (ed. Patuá).
São chegados 104 caminhos de arte e literatura. Sem dúvida, uma marca temporal dispersa em ações e encontros. Lidando com palavras e imagens, descobrimos pessoas, verdadeiros universos de saberes e sabores. Cada voz tem seu modo próprio de nos mostrar que o mundo é um lugar sempre novo e que, para tanto, depende do ponto de vista adotado. Seguir adiante é cultuar as diferenças, permitindo que cada autor mostre o seu modo de estar no mundo. Num trabalho que intercruza existências, é possível perceber como até mesmo pensamentos diametralmente opostos são parte necessária das reflexões sobre um tudo. Estar vivo faz parte do jogo dos estranhamentos. Em cada autor presente nesta edição, uma centelha destes sentimentos todos paira voluptuosa. É o homem no homem, refletindo arroubos e raras certezas. Entrecruzando mundos, a fotógrafa Valéria Simões expõe aqui um lastro considerável de seu ofício com a luz. Suas fotografias estão diluídas diante de textos que flertam com o insondável. Vêm se juntar a tal energia os contos de gente como Vivian Pizzinga, Roberto Dutra Jr e Mário Sérgio Baggio. Quando o assunto é cinema, Guilherme Preger nos aponta sete considerações sobre o mais novo filme de Jean Luc Godard, “Adeus à Linguagem”. Maurício de Almeida nos conduz pelas vias do primeiro romance de Rafael Gallo. Hoje, as esferas da poesia estão tomadas pelos versos de Elizabeth Hazin, Kleber Lima, Clarissa Macedo, Edson Valente, Cristina Arruda e Adriana Aneli. Em matéria de música, as escutas de Larissa Mendes chamam nossa atenção para o mais novo disco da banda norte-americana Beirut. Numa entrevista, o escritor Thiago Mourão fala sobre seu mais recente livro e outros temas ligados ao ofício literário. Pelas linhas de Sérgio Tavares, estão marcadas reflexões sobre o novo livro de contos de Antônio Mariano. E assim tudo conduz a um renovado ambiente de aparições, caros leitores. Sejam bem-vindos a tais possibilidades!
Na rota de um escritor há muito mais indagações do que respostas. Muito mais dúvidas do que qualquer outra coisa. Carregar na alma um punhado de incertezas é parte integrante da sina de qualquer mortal, mas parece que no caso de criadores as percepções ganham um relevo bastante dimensionado. Afinal, o que busca quem escreve? Reconhecer-se entre os seus iguais? Procurar um sentido para a existência? Libertar-se?
As perguntas predominam. No entanto, cabe questionar se realmente é importante saber das motivações. Atrai mais descobrir que escritores não são seres divinos e, portanto, nem de longe portadores de atributos espetaculares. São gente comum, tão atravessados que estão por suas questões humanamente cotidianas. O grande aspecto é que tais autores são providos de ferramentas diferenciadas de apreensão da vida e seus fenômenos. Transpiram demasiadamente na direção de uma obra, sem construir caminhos a partir do nada. Por maior que seja a carga de abstração ou subjetividade envolvida numa via de criação literária, estará em curso também um processo consciente e criterioso de escolhas.
Nada melhor do que ter representações concretas daquilo que foi mencionado acima. E é possível captar tal atmosfera na obra de um autor como Thiago Mourão. Seu romance de estreia, “Java Jota”, lançado recentemente pela Editora Patuá, ousa percorrer as intricadas zonas da criação. O livro aborda a trajetória de um escritor na busca obstinada pela construção de sua obra. Com o vigor contido nos intervalos e esperas, o romance vai delineando cenários que demonstram o quão complexa e, por vezes, exasperada é a missão de um escritor em ter materializada a sua pretensão. Nesse ínterim, o personagem central depara-se com suas divagações, arroubos, constatações, mas principalmente com a confirmação de que a sua sina comporta paisagens marcadas por uma cruel inquietude.
Thiago Mourão se define como um baiano nascido no Rio de Janeiro. De forma independente, lançou seu primeiro livro de contos. Formou-se em Biologia, trabalhou com teatro, escreve e produz vídeos institucionais, e está na iminência de cursar um mestrado em literatura criativa na Harvard Extension School. O autor acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre um tudo. Deixou marcadas as impressões sobre seu novo livro, mencionou um pouco da sua concepção criativa, ressaltando a forma como observa os desafios de seu tempo. Pelo diálogo que aqui se faz presente, Thiago traz em si a procura inominada que ofícios como o da literatura sugerem.
Thiago Mourão / Foto: divulgação
DA – Java Jota é um ser que personifica a busca de um autor pela construção efetiva de sua obra. Nessa perspectiva, tal representação traduz algo comum a muitos que se dedicam ao ofício literário. O que dizer dessa, digamos assim, angústia da criação?
THIAGO MOURÃO – Me parece algo instintivo, talvez não tenha o nome de angústia, talvez não tenhamos ainda criado um substantivo para nomear a sensação do ato da criação. Angústia parece ser a mais próxima, mas a gente pode descartá-la pelo fato de angústia não ser prazerosa (ao menos para mim) e a sensação do ato de criar, que parece angústia, me dá muito prazer. Fiz teatro. Os três segundos antes de o espetáculo começar ou de entrar em cena, aquele black out infinito depois do terceiro sinal, são os mais emocionantes. Você sabe o que vai fazer, teoricamente há controle do que vai acontecer, mas quando se pisa o pé no palco há prazer e emoção que incluem a angústia, por conta da possibilidade do erro e do desconhecido, mas não se esgota nela, há uma busca muito maior. Vejo como alguém que pula de paraquedas. Há adrenalina, ansiedade, medo, angústia, e tudo isso dá prazer. Acho que o prazer é maior do que a angústia. Por isso digo que é instintivo, a gente busca o prazer o tempo inteiro, até como estratégia evolutiva, mas ninguém busca a angústia. Talvez, a busca pelo prazer gere inquietação, expectativa e, também, angústia. E acho que é a inquietação que faz a alma do criador, seja ele artista, estrategista, arquiteto… Java foi muito escrito na angústia, como o sentimento mesmo da mulher perdida (algo que Raul Seixas falava muito e já me encantava desde novo), mas principalmente no prazer do sexo e da descoberta; e no risco, de iniciar um texto por apenas uma frase e segurar uma história e uma voz a partir dali. Criar é a palavra de ordem de Gaia e é também a grande busca do humano, por ser filho e ainda viver no útero dela. É tudo instinto, animal mesmo. Nomeá-la angústia é reduzir muito a complexidade desta bomba de prazer e frustrações.
DA – Onde a famigerada inspiração?
THIAGO MOURÃO – Você chegou na pergunta que inicia alguns textos de Java. Onde encontrá-la? Ao mesmo tempo, há um ofício a ser cumprido. Então, aos poucos, a gente percebe que inspiração não baixa nem vem à toa, muito raramente, é preciso buscá-la. Hoje, acredito mais que a inspiração encontra-se na disciplina, nos objetivos, na barriga querendo comer e no fígado precisando de álcool. É claro que a gente se alimenta, observando o dia-a-dia. Eu gosto muito de observar a natureza (me formei em biologia) e sempre me intriga a relação do homem com o espaço de Gaia. A inspiração está nisso, nas perguntas, nas investigações que buscamos fazer. Claro que há dias mais fáceis que outros. Há dias que se escreve vinte páginas e dias que se escreve duas, dolorosamente. Mas qualquer coisa pode despertar a vontade de escrever um texto. Inclusive, outros bons textos.
DA – O modo como se percebe o mundo é certamente algo fundamental para um autor. Outros criadores também são responsáveis por mostrarem dimensões múltiplas de apreensão das coisas. É mais interessante pensar que o que chamamos de novo é fruto de uma transformação daquilo que sempre esteve entre nós?
THIAGO MOURÃO – Muito mais. Arte pode vir de artifício, e o artifício é a técnica. Se você abre o jornal, há um artigo sobre violência, na literatura autores falam da mesma coisa de outra forma, há os textos acadêmicos sobre violência que têm seu estilo próprio e suas ideias. Os temas rondam e cabe a nós abordá-los da nossa forma. E a nossa forma é baseada em tudo que absorvemos. E pensar que tudo se transforma e é aproveitado é um pensamento inteligente ao meu ver.
DA – Em “Java Jota”, os labirintos da mente conduzem o personagem a um ambiente hedonista. Aqui, a figura da musa é algo fugaz, desejo de calmaria numa procela incessante. Seria a memória um componente que nos ajuda a atravessar o caos?
THIAGO MOURÃO – A memória nos leva ao caos. Você faz uma observação que gostei muito na resenha de Java Jota: “molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.” É isso, uma colcha de retalhos. Quando acaba a memória e começa a criação nos nossos pensamentos? Ninguém sabe, nem os médicos e biólogos, mas sabe-se que todos, artistas e não artistas, inventam quando revivem suas memórias. E, normalmente, são caóticas. O que nos tira do caos é a junção disso tudo numa linha intelectual. Extravasamos isso nas profissões, nas conversas, exposições das opiniões e dos fatos. A memória nos faz saber dela o tempo inteiro, é a grande sacada que Joyce tem em Ulysses: a reprodução do fluxo ilógico do pensamento consciente. Um cheiro, um olhar ou uma imagem qualquer pode desencadear pensamentos muito vivos, que desencadeiam sentimentos e sensações e quanto mais sentimentos e as sensações, mais vivos estamos. Nada na natureza para e nós, queiramos ou não, somos parte da natureza. Nossos atos instintivos não podem provar isso? Quem tem total controle do que virá na mente? Me parece que a memória é a base primeira da criação. E é preciso treiná-la.
DA – Há algum sentido de libertação na escrita?
THIAGO MOURÃO – Há, sim. Evidencio isso em Java Jota neste trecho: “Porque eram artifícios naturais, puros e verdadeiros. Porque ali havia Rosa. E porque havia literatura. E Rosa e literatura faziam uma equação diferente, única e peculiar, que resultava em amor. Em calma, em conforto. Resultava em um lugar só dele. E dela. Um lugar fechado, mas livre e libertador do pior da sua alma.” Há sempre libertação na criação, como há o aumento da necessidade de criar mais. Acredito que a boa literatura não deva ter pudor. É a liberdade da hipocrisia social. Também pode ser de outras liberdades mais pessoais, e serão, pois só escrevemos sobre o que nos incomoda, ou intriga, enfim… Aspectos que nos chamem a atenção. Mas se vivemos em sociedade e estamos sempre transitando por ela, nossos anseios, desejos e intrigas estão completamente ligados a estas relações cotidianas. Logo, isso faz com que a libertação da alma e das questões sociais possam e devam andar juntas. Sem pudor.
DA – Em matéria de literatura, você se considera um transgressor?
THIAGO MOURÃO – Literatura deve ser transgressora no sentido das convenções e conveniências sociais, deve expor, pôr o dedo na ferida. Eu tento ser o mais honesto possível quando escrevo. Isso é transgressão? Esteticamente, gosto de experimentar, isso seria a transgressão a que você se refere? Procuro não me censurar e sou muito chato quanto ao tom e a forma de escrever. Se soa estranho, travo ou recomeço, se não tem uma voz própria, acho inválido.
Thiago Mourão / Foto: divulgação
DA – Falemos da transgressão num sentido de rompimento de convenções e lugares comuns, levando em consideração um tempo de patrulhamento ideológico e do politicamente correto. A literatura sobrevive numa sociedade repleta de congratulações e bom mocismo?
THIAGO MOURÃO – Ah! O bom mocismo tem me irritado, confesso. Mas, por enquanto, tenho mais visto isso nas ideias e discussões que nos textos literários contemporâneos que tenho lido. O que há – e é também irritante – é uma necessidade da crítica pela crítica, esquecendo que estão fazendo arte, que é algo que privilegia a estética/linguagem. Quando quero criticar abertamente algo, faço nos meios que são para isso: O Globo, Brasil Post e Gazeta dos Búzios. Minha arte é crítica por trazer um espelho social e um tema, mas não escrevo para que os outros digam: “olha como ele é engajado”, ou para dar lições socialistas, não. Escrevo sobre o que quero falar e me incomoda e quando crio também, mas estou em busca de uma história, uma estética, e que se for para tomar posição, que ela esteja diluída na arte – que está acima de tudo. Outro dia li num edital de concurso de contos: “contos que valorizem o bem-estar social” e até hoje me pergunto o que queriam dizer com isso. Mais de um edital traz isso, seria uma doutrinação do bom mocismo? E fico apavorado por saber que a resposta passa por esse bom mocismo ou por achar que é a literatura somente quem vai nos tirar da mediocridade ululante em nossa terra. Tenho visto alguns escreverem cheios de efeitos e ironias e sem conteúdo ou de conteúdo repetido, isso tem rolado bastante. Mas vejo bons autores da minha geração com crítica, voz própria e escrevendo sem pudor e sem ser panfletário. Mas, sim, devemos estar atentos. Esteticamente, acho que as novas mídias vão nos ajudar a dar um salto na diversidade. Voltando a Ulysses, Joyce brinca com essa diversidade midiática que aparecia (o jornal, a publicidade invadindo outros espaços como a própria rua…). Ulysses é um claro retrato de como a diversidade linguística pode intervir na literatura. Foi escrito em início de século, mais ou menos no período em que estamos. Acho que quando começa um século, muda nossa forma de comunicar, mudam as indústrias e as estruturas sociais. Acho que grande parte das pessoas ainda não entendeu a importância de viver o início de um novo século. E isso contribui muito para a mediocridade e esse bom mocismo.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
THIAGO MOURÃO – Esse estado de coisas nos traz muitas informações e possibilidades, ao mesmo tempo, uma superficialidade doida. Parece que há uma busca, principalmente na minha geração, pela extrema bondade. Todo mundo é bonzinho e qualquer coisa que se discorde você é um direitista (uma coisa cruel – e esquecem as contribuições de pensamento econômico e social que os pensadores liberais trouxeram) terrível. Parece novela antigamente, tem os bons e os maus. Há muito pouca análise de contexto mais aprofundada, a internet, principalmente o Facebook que poderia ser uma ótima ferramenta para análises, se tornou, em grande parte, um local vazio de ideias, apenas com pessoas querendo se mostrar o quão boazinhas são. Ao mesmo tempo, é uma geração – coisa de cultura brasileira – que faz muito pouco pelo social, no sentido de, por exemplo, trabalho voluntário e humanitário. Essa tentativa de canonização, através do discurso, eu não endosso. Não sou bonzinho, sou humano, tenho pensamentos terríveis, egoísmos controláveis, mas incuráveis. Sinto raiva, inveja, desprezo, tudo isso… É inerente à minha condição humana e não faço questão de ser madre Teresa de Calcutá. Antonio Risério me trouxe uma expressão muito boa: são stalinistas chapa-branca. “Muito amor envolvido”, “de boas” e etc são expressões/frases que para mim ilustram muito bem o que digo, irritantes, diga-se de passagem. E aí você escuta coisas esdrúxulas do tipo: Dilma é uma grande presidente porque foi torturada na ditadura, me explique o que o cu tem a ver com as calças! Mas quando faço uma crítica dessas, automaticamente me jogam no colo dos militares, me chamam de insensível. Ou então devo achar lindo que o ex-presidente, aquele mesmo que se orgulha de ter chegado à Presidência da República sem nunca ter lido um livro, esteja colocando estudantes brasileiros na mão de bancos e empresários, numa dívida imensa (um problemão americano que estamos entrando enquanto eles buscam saída) porque agora filho de pobre estuda medicina ou biologia. Educação deve ser universal e pública e quando eu critico os métodos, automaticamente os que almejam a canonização me atacam me chamando de preconceituoso. Precisa falar o estado das universidades públicas brasileiras? É uma curva descendente em contraste à curva ascendente de lucros dos empresários do setor. Mas criticar isso é perigoso. Ou então é comum assim: “ele é ótimo porque pelo menos…” pelo menos… E de pelo menos em pelo menos a quinta maior economia do mundo distribui migalhas ao seu povo e todos ficam extremamente agradecidos, aí político vira pai e mãe, em vez de servidor público. Parece que a pós- modernidade trouxe ótimas ferramentas e nos manteve a cabeça do século XX. O Brasil aposta em petróleo e se você critica a loucura que é o pré-sal ou o risco econômico que o investimento em petróleo é no novo século, vão dizer que você está de conchavo com americanos para vender o petróleo. Ora, os países de primeiro mundo estão abolindo a indústria do carbono. Alunos de Harvard recentemente entraram num processo judicial para que a universidade pare investimentos em pesquisas e empresas de carbono. Stanford cortou esses investimentos faz dois anos. Parece que há muita informação pronta e pouco tempo para contextualizá-las e todos estão ávidos em ser bonzinhos, tão desesperados, que o Brasil foi entregue ao populismo em pleno início de século XXI, como se não houvesse tempo mais para estruturas e investimentos de médio e longo prazo, tudo tem que ser feito imediatamente… É isso, esse pensamento retilíneo eu não endosso. E tem sido difícil não endossá-lo, até porque eu não estou dissociado de ninguém.
DA – Definitivamente, somos seres incorrigíveis?
THIAGO MOURÃO – Somos seres complexos com questões incorrigíveis e instintivas. Sim, somos animais, e com muitas questões adaptáveis. Apesar de seres novatos neste planeta, nossa adaptabilidade ampla nos permite viver do norte ao sul da Terra, criando diferentes estruturas sociais e econômicas. Mas a nossa obsessão com esta alta capacidade de mudar o ambiente a nosso favor – chamada progresso – me parece incorrigível e já nos mostrou que tem afetado não só as outras espécies como a nossa. E mesmo isto estando claro, com fatos e números, insistimos nos erros. A dissociação homem-natureza nos cobra um preço alto. A nós e aos que nos cercam e pelo andar da carruagem parecemos incorrigíveis. Me referi ao humano como espécie, como indivíduo acredito que temos pequenas soluções – o que me faz ser completamente crítico ao nosso sistema carcerário e bastante crente do embelezamento e transformação da alma humana através da boa educação (não esta que nos apresentam, de maneira geral aqui no Brasil) e da arte/cultura.
DA – Sob o manto da criação, está cada vez mais difícil distinguir realidade de ficção?
THIAGO MOURÃO – Bom, tenho tido a impressão de viver em uma peça de Ionesco o tempo inteiro. Isso falando da realidade, principalmente política, que o Brasil vive. Mas ando bastante caçando ficção e acho que o escritor deve sempre olhar para a realidade com essa visão criativa. Diálogos reais se transpõem facilmente para a ficção e vice versa. Quanto mais se cria, mais isso acontece. É bom e, às vezes, meio louco.
DA – Acossado pelo abismo, o que enxerga Thiago Mourão?
THIAGO MOURÃO – Uma bipolaridade incrível. Tem horas que parece que eu vou abraçar o mundo e tem horas que tenho certeza de estar sendo engolido pelo mundo. É estranho e desafiador, mas a linearidade em excesso é entediante. A beira do abismo e o balanço dele dão a impressão de vida. Sem isso, é só respirar.
Fabrício Brandãoé um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!
O indivíduo traça a rota fugaz de suas projeções. Alimenta a carne com pulsões de toda ordem. Intenta um gozo que sabe a um átimo entre o vivido e o inventado. Eleva o objeto de seu desejo a um patamar no qual raras são as certezas. Em última instância, esse mesmo indivíduo é a corporificação de toda a sorte de abstrações dispostas pelos caminhos da criação. Um pouco disso tudo é o ser Java Jota, protagonista do romance homônimo de Thiago Mourão, lançado recentemente pela Editora Patuá.
Ao iniciar as pungentes linhas de seu mais novo livro, Thiago conduz o leitor num verdadeiro jogo de espelhos, através do qual tudo o que se vê reflete um misto de sensações que estabelecem um curioso nivelamento entre quem narra e quem vivencia os acontecimentos. Seriam, então, criador e criatura a mesma pessoa? Mais ainda, ao leitor é dado algum status de protagonismo? São questões que surgem à medida que uma espécie de triângulo de cumplicidades sugere uma harmonização de papéis se pensarmos nesses três eixos de atuação.
Mas eis que um embate serpenteia pelos caminhos do livro. É Java Jota que, encarnando a sina de autor, revela-se um personagem em busca da consolidação de sua obra. Nesse ínterim, o protagonista almeja cruzar os desertos da criação, tendo por musa inspiradora a figura feminina de Rosa.
Em meio aos trajetos insones de sua faceta de escritor, Java questiona suas potencialidades e, como qualquer mortal que pretende êxito em sua razão de existir, põe em xeque suas investidas. Nesse momento, as aproximações com a realidade agigantam-se, sobretudo quando percebemos a tarefa hercúlea que um escritor carrega em si. Com tudo isso, Thiago Mourão não expõe gratuitamente a condição de quem escreve. Pelo contrário, supera expectativas e molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.
Uma sucessão de imagens permeia as andanças de Java Jota. Todas elas bem encadeadas e servindo ao propósito de vislumbrar algum sentido possível para o caos que lhe faz companhia permanente. Como num frame, a paixão por Rosa é um se deixar entregar diante de uma memória hedonista. Tal como a incerteza de fundar uma obra literária com sucesso, o personagem de Java confessa-nos uma musa fugidia, por vezes delirante e imaterial. O melhor de tudo isso é que não se pode afirmar o laço carnal num perfeito estado de consumação. Assim, quiçá Rosa seja apenas um desvario de quem está acostumado a inventar mundos. E tal dúvida é trunfo nas mãos hábeis de Thiago.
Com toda a gama de observações do narrador, o livro opera num fluxo bastante ágil e que torna o desejo pela leitura algo ininterrupto. Java é um ser que intercruza camadas de vivência diante de um universo repleto de cenários. Se para o mundo o escritor pode passar despercebidamente, para Java o contrário seria impraticável. É impossível escapar de um mundo que lhe impõe imagens, sons, cores, sabores, encontros e desencontros. Definitivamente, seria inevitável deixar de pisar em cacos de vidro. Onde a famigerada inspiração? Pergunta que se dilui nas tentativas do personagem ante o vazio do papel.
Na procura por respostas, o protagonista do livro vai engendrando vias tanto concretas quanto abstratas, amalgamando tudo ao seu redemoinho cotidiano. Numa das passagens da obra, momento em que o personagem encontra-se com o Mestre Haxi, fica evidenciado que a realidade por si só não representa a única saída. É necessário imergir em outras dimensões da consciência para se ter alternativas criativas. A alegoria xamânica escolhida por Thiago chama a atenção por vislumbrar na figura do mestre um elemento de ponderações tanto filosóficas quanto estéticas, muito bem regado a doses de humor e crítica.
Dentro da saga de Java, somos todos cúmplices do modus operandi palpável da condição de autor. É a literatura abordando a literatura numa constatação sobre a qual o ato de escrever é pedra no meio do caminho, sensação permanente de Sísifo. Assim, são empurrados ladeira acima tanto prazeres quanto dores, faces inalienáveis de uma mesma moeda. O resultado do esforço fica para quando essa mesma pedra rolar do cume abaixo.
Não é à toa que Thiago recorre à poesia para iniciar e fechar sua obra. Esse ato de aliar-se a outro gênero nada tem a ver com um simples desejo de citação para impactar quem lê, mas, sobretudo com uma forma de evocar a importância de uma libertação, qual seja a de considerar que quem escreve, mesmo não se desgarrando de seu inferno pessoal, pode reduzir o peso de suas bagagens durante a extenuante travessia.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.