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145ª Leva - 05/2021 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Druk – Mais uma Rodada. Dinamarca. 2021.

 

 

Druk – mais uma rodada é o último filme (2020) de Thomas Vinterberg, diretor remanescente do movimento dinamarquês de cinema Dogma, junto com a estrela Lars von Trier. Druk recebeu o prêmio de melhor filme em língua estrangeira do Oscar deste ano (2021), um prêmio inédito para diretores provenientes do Dogma. Em geral, os filmes oriundos das experiências estéticas desse movimento estético não parecem se encaixar nos moldes cinematográficos reconhecidos pelos jurados do prêmio norte-americano. Os cineastas dinamarqueses prezavam a experimentação estética com a iluminação natural, a câmera documental que intervém na imagem para quebrar a ilusão da “quarta parede” cinematográfica, e sobretudo os temas espinhosos e inquietantes. O fato de Druk ter superado as expectativas junto ao grande público não significa necessariamente que os diretores dinamarqueses “se renderam” ao cinema tradicional, mas antes que suas inovações experimentais foram incorporadas ao “cinemão”.

Sobre muitos aspectos, Druk lembra o filme de 2012 de Vinterberg, A Caça, filme sobre o qual também escrevi uma resenha. Entre os dois filmes, o diretor dinamarquês realizou outros dois longas, mas Druk está ligado por irmandade a A Caça. Logo na abertura no filme de 2012, por exemplo, vemos uma confraternização entre homens ao redor de um lago de uma pequena cidade dinamarquesa. Druk também abre com uma confraternização semelhante, porém desta vez entre jovens adolescentes, rapazes e moças, bebendo e carregando muitas garrafas de bebida alcóolica, que depois irão distribuir no transporte público, até um dos rapazes ser abordado pela polícia.

Druk também é protagonizado por Mads Mikkelsen, o mesmo ator protagonista de A Caça. Também como neste filme, ele agora interpreta um professor de história para o ensino médio (no filme de 2012 o protagonista era professor numa escola infantil). Mikkelsen é um conhecido ginasta e dançarino dinamarquês, que mais tarde se tornou um ator premiado de cinema e de seriados. Como se verá, essa característica se mostrará importante neste último filme. O professor Martin, interpretado por Mikkelsen, aparece deprimido e incapaz de estimular seus alunos a um melhor desempenho escolar. Logo no início, ele é cobrado pelos pais desses alunos que acham que seus filhos não terão um desempenho suficiente para ingressar na faculdade por causa de sua atonia. Num jantar com seus colegas de trabalho, Martin, que também enfrenta problemas em seu casamento, acaba por se emocionar e chorar, o que provoca em seus amigos de longa data a vontade de ajudá-lo.

 

“Druk” / Foto: divulgação

 

E é então que o roteiro do filme entra em sua questão mais delicada, pois o grupo de amigos decide se fiar numa suposta hipótese de psicologia de que haveria um nível “normal” de álcool no sangue, mas que estamos cotidianamente sempre abaixo desse nível. Mesmo que essa extravagante hipótese exista, ela funciona quase como uma anedota de bar: devemos beber todos os dias para manter uma taxa normal de álcool. A verdade é que o quarteto de professores entra de cabeça nessa ideia e eles passam a experimentar um consumo diário de álcool. E assim, uma hipótese incongruente, ou mesmo inverossímil, passa a ser um dos principais argumentos do filme.  E o que acontece surpreendentemente é que seus desempenhos realmente melhoram, como professores e homens.

Podemos questionar se uma hipótese desse tipo seria capaz de convencer professores de várias disciplinas a participar de um experimento envolvendo consumo diário de álcool. Essa ideia, no entanto, funciona como um “mcguffin”, o pretexto que move toda a trama. Inverossímil ou não, é este argumento que alimenta a narrativa e faz com que os quatro principais personagens sejam conduzidos a seus destinos, como pessoas e como grupo. De toda a maneira, o alcoolismo é um problema grave na Dinamarca, de modo que já há uma disposição normalizadora a se aceitar sugestões como a apresentada no filme. Mas aos poucos, este problema de verossimilhança se torna uma questão menor, pois o desdobramento narrativo irá nem confirmar nem rejeitar a hipótese, mas complexificá-la bastante.

Assim, Martin, o protagonista vivido por Mikkelsen, deixa de ser um professor enfadonho para se tornar o mestre entusiasmado e entusiasmante de seus alunos. E melhora também sua vida conjugal na qual se sentia ausente. Os quatro personagens principais todos têm sucesso na primeira fase desse experimento “entre amigos”, e ao mesmo tempo conseguem incluir seus alunos nesse sucesso. E passam, cada um deles, a viver mais bem dispostos, quando recuperam uma alegria jovial. Em certo sentido, Druk é basicamente um filme sobre homens de meia idade que através do álcool recuperam um sentimento de juventude, inclusive de potência sexual. Numa sociedade regulada por cobranças e medidas, o álcool serve para “afrouxar o controle”. E este, não o alcoolismo, é o verdadeiro tema do filme de Vinterberg: na sociedade regida pelo princípio do desempenho, pela lógica do controle, pela meritocracia e pela cobrança individualizada, há pouco espaço para o sentimento de êxtase.

E é exatamente por isso que a partir de um determinado momento eles aceitam “dobrar a aposta” e aumentar a dose de álcool para além da sugerida. E, como seria de esperar, é a partir desse ponto que os problemas começam e a experiência desanda. E o diretor com sua câmera interveniente persegue seu quarteto principal como diante de um experimento científico. O fato de que sejam quatro personagens com situações vivenciais distintas, permite mostrar que, ao ultrapassarem a medida recomendada, já não conseguem mais se autocontrolar. O mais frágil do grupo então se perde nesse processo. Mas a maior virtude da obra de Vinterberg é não moralizar jamais a sua história, nem aceitar que sua câmera, que acompanha a vida dos personagens, funcione como juiz e o espectador como júri.  Para cada um deles, há caminhos e destinos diferentes.

 

“Druk” / Foto: divulgação

 

Para Martin, o protagonista, o teste é trazido para sua vida conjugal. Ele se considera um marido ausente e um homem falho. É interessante que, também à semelhança do filme A Caça, Druk aborde um círculo especificamente masculino, a partir de uma perspectiva claramente androcêntrica. Mas esta perspectiva, assumida pela montagem, não o torna necessariamente machista. A perspectiva androcêntrica é sóbria e procura não ser sexista. A única cena de sexo do filme ocorre dentro de um perfil tradicional heteronormativo conjugal, o que é espantoso para um filme vindo da linha Dogma, na qual sempre foram abordadas as formas não tradicionais da sexualidade. Um dos principais temas do filme é justamente enfocar os dilemas da sexualidade masculina de meia idade, faixa na qual se encontram todos do quarteto principal. O sentimento de fracasso, a perda de libido, a métrica dos sistemas de controle são problemas observados por vieses masculino e etário. Nesse ambiente, o álcool é um elemento de perturbação que funciona para o bem ou para o mal. Ou melhor ainda, para o bem E para o mal.

Essa recusa de Thomas Vinterberg de julgar o consumo excessivo de álcool acaba sendo de grande alcance. Ela permite não demonizar a substância, mas colocar o peso da objetiva sobre as relações e a maneira de cada personagem ligar com sua experiência. E nisso a perspectiva inclui tanto os adultos quanto os jovens, pois esses também participam do experimento. Aliás, o diretor menciona numa entrevista que os jovens coadjuvantes do filme foram colegas de sua filha prematuramente falecida num acidente de automóvel. É a ela que o diretor dedica sua obra. É, portanto, com essa nota de tristeza que a sublime cena final se conecta com a cena inicial. Para além do luto e da melancolia, e contra a hipótese psicologizante assumida pelos personagens, o filme termina com um olhar mais psicanalítico. A cena final é a vitória do júbilo do viver contra seu controle normativo. Nós, homens e mulheres, jovens e adultos, viemos à vida para gozá-la, e o gozo está bem além do princípio do prazer e da realidade.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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79ª Leva - 05/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

A Caça (Jagten). Dinamarca. 2012.

 

 

Em seu Teses sobre o conto, o escritor Ricardo Piglia definiu o conto como a arte de contar pelo menos duas histórias. Há uma principal, narrada em primeiro plano, mas haveria sempre também uma segunda, narrada nos interstícios da primeira, qual uma história secreta. A arte do conto, para o escritor argentino, é a de narrar uma história enquanto se contar outra.

Esta estratégia narrativa de duas histórias funciona igualmente para a arte cinematográfica. Foi o mestre Hitchcock quem formulou o efeito McGuffin: o McGuffin é o argumento central em torno de qual gira a narrativa cinematográfica e pelo qual os personagens perseguem, mas que no final não representa nenhuma importância fundamental. O McGuffin não passa de um pretexto para que a ação cênica se desencadeie. Praticamente todos os filmes de Hitchcock seguem esta lógica, mas o caso mais exemplar é o de 39 Degraus: um segredo sussurrado ao protagonista no início do filme permanece obscuro durante toda a narrativa, composta das mais vertiginosas peripécias persecutórias, sem que ao final tal segredo seja revelado. Na verdade, ele foi esquecido devido à sua desimportância para o desenlace: era apenas um mero pretexto para que a ação acontecesse e o mocinho pudesse encontrar a mocinha…

Não foi Hitchcock quem inventou o efeito McGuffin, ele faz parte da própria técnica cinematográfica. Não é este o caso do recente filme A Caça (Jagten), de Thomas Vinterberg? Lucas, um professor de escola primária, é acusado injustamente de assédio sexual da menina Klara, de 5 anos, filha de seu melhor amigo e aluna da escola de uma pequena cidade no interior da Dinamarca. Com esta acusação, toda sua vida pessoal e carreira desabam tragicamente.

Aqui o fundamental é mostrar como a acusação é evidenciada pelo diretor como injusta, inequivocamente: a menina Klara desenvolve por seu professor um forte afeto. Num tempo livre de suas aulas, ela recorta um pequeno coração e o embrulha num envelope em forma de presente e, num gesto muito sutil, coloca-o no bolso do paletó de Lucas enquanto rapidamente o beija afetuosamente. Percebendo a situação, o professor lhe devolve o presente dizendo que ela deveria destiná-lo a um de seus coleguinhas de classe. Nessa mesma noite, decepcionada, a menina conta à Mestre da escola uma história ambígua na qual ela menciona que o professor teria lhe mostrado a sua “vara”, expressão que a menina aprendeu de seu irmão mais velho quando este estava assistindo pornografia na internet. O desenlace é inevitável: entre a palavra do professor e a palavra da menina, toda a escola, os colegas, a namorada e a cidade inteira dão crédito à história de Klara e, então, a vida de Lucas (vivido pelo ator Mads Mikkelsen, cujo desempenho extraordinário lhe valeu o prêmio de melhor ator em Cannes, 2012) torna-se um inferno. E este inferno assume a forma de um abismo descendente, por mais que a menina, posteriormente, desminta sua história como uma “bobagem”.

O lugar onde se desenvolve a trama é crucial nesse filme: uma pequena comunidade dinamarquesa cuja principal atividade de lazer é a caça de grandes animais como cervos e alces. No início do filme, homens tomam banhos nus num lago gelado e depois saem cantando para beberem juntos. Vinterberg nos mostra a caça, prática de onde tira o título do filme, como a atividade que dá sentido à vida da comunidade: a caça de grandes animais é a prática que irmana os habitantes e os une socialmente, incluindo o protagonista professor.

 

 

Aparentemente, A Caça é mais um filme que discute a questão contemporânea da histeria social da pedofilia: mais de 100 anos após a psicanálise defender que cada criança tem sexualidade própria, nada parece tão grave quanto o assédio ou o abuso sexual de crianças, que aos olhos sociais são portadores de uma imagem idealizada de ingenuidade, e tanto mais idealizada quanto maior a sensação de perda de inocência contraposta ao cinismo vivenciado pelos adultos da sociedade capitalista contemporânea. Nesse aspecto, a caracterização da pequena personagem Klara é extremamente pertinente: com seus 5 anos, ela vive a experiência precoce da descoberta do erotismo ao se apaixonar platonicamente por seu professor.  Sua mentira, causada por uma precisa “decepção amorosa”, é um expediente que prefigura a mulher que ela se tornará. E nisso, não devemos incluir também sua capacidade de reconhecer seu erro, como uma maturidade essencialmente adulta que se antecipa a de seu pai (mas não a de sua mãe…)?

Mas talvez a histeria social causada pelo possível caso de pedofilia seja o McGuffin do filme: na avançada Dinamarca, num vilarejo onde os problemas sociais parecem resolvidos, a prática anacrônica, mas legalizada, da caça de grandes animais permanece como uma espécie de “inconsciente” coletivo. Toda a estrutura do roteiro organiza-se na transformação do predador em presa.  Tal como seus amigos, Lucas é um bom caçador, mas encontra-se numa situação de fragilidade: recém-separado, disputa a guarda do filho adolescente com sua ex-mulher, e perdeu também seu posto de professor do secundário, tendo que se contentar com um trabalho numa escola primária. Assim, ele é um alvo fácil e a frágil acusação de que é vítima torna-se a chave para sua rápida mudança de status, de viril caçador para o de uma vítima indefesa e passiva (sua incapacidade de reagir ao receber as acusações está no limite entre a civilidade e a apatia). Por sua vez, com absoluta facilidade, todo o vilarejo muda de atitude em relação a um de seus estimados cidadãos e a perseguição com agressividade crescente a Lucas torna-se uma verdadeira caçada humana…

É como se aqui tivéssemos uma versão dinamarquesa de um dos temas caros ao mestre Hitchcock: o do “Homem errado”. O Homem errado é a versão existencialista do McGuffin: não importa o crime concreto de que ele é acusado, mas sim o fato de que na visão católica do pecado original, partilhada pelo mestre britânico, todos já são culpados “a priori” na sociedade, bastando um fato menor e casual para que um inocente seja eleito e a culpa social possa ser expiada. Assim, no filme dinamarquês, a má consciência em relação à caça expia-se numa reação de histeria anti-pedófila. Algumas passagens do filme reforçam essa ideia: o pequeno cão de estimação do protagonista é morto tal como um animal de caça e o próprio personagem é vítima de violência física desmedida. E o final do filme, que prossegue após o clímax e a pacificação do vilarejo, parece indicar justamente tal propósito, ao mostrar o ritual onde um adolescente de 16 anos recebe finalmente sua permissão de caça e ganha um rifle de presente: crianças podem ser indefesas e puras, mas sabem matar grandes animais…

Thomas Vinterberg é um dos fundadores do movimento Dogma junto com Lars Von Trier e A Caça é seu oitavo longa. Estão presentes nessa sua última obra algumas das características técnicas que marcaram o movimento: a presença da câmera digital levada à mão, acompanhando de perto a presença corpórea dos atores, com sua inconstância visual, e o uso predominante de luz natural. Tudo conduzido com uma grande mestria, como se tais recursos, outrora vanguardistas, tivessem se incorporado a uma linguagem comum cinematográfica contemporânea e o que era maneirismo estético pode ser visto agora em sua destreza quase clássica, emprestando notável realismo e verdade à narrativa.

O diretor dinamarquês acerta ao recusar fazer uma análise moralista do tema, seja em relação à pedofilia, seja em seu julgamento sobre a validade da legalização da caça de grandes animais. Interessa-se, antes, em mostrar as tensões e contradições de uma sociedade avançada, no alto de sua condição liberal de primeiro mundo, mas que ao mesmo tempo parece conviver com uma atividade que exige insensibilidade e isenção em relação à covardia. A tese das duas histórias de Piglia, ou do McGuffin do velho Hitchie, pode funcionar afinal como um desmascaro das relações hipócritas subliminares sociais que se justificam em torno de meros pretextos ideológicos. Ao sair do cinema, após assistir este filme, um casal comenta um com o outro: “ficamos sem saber se ele [o protagonista] era realmente culpado. O diretor não deixa isso claro”. Ou, em outras palavras, é preciso sempre encontrar uma boa presa para arcar com as nossas culpas…

 

 

(Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de Capoeiragem (ed.7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro)