Categorias
140ª Leva - 07/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Clarissa Macedo

 

Neste ano em que a pandemia instaurou uma nova operacionalização da existência, a leitura e a escrita tornaram-se ferramentas de possível manutenção da sanidade. Publicado em março, o livro As solas dos pés de meu avô, de Tiago D. Oliveira, vem construindo um percurso de alegria para um escritor cujo zelo com a palavra é notório. Para mapear alguns trajetos, entre o Tejo, o Tororó, o Paraguaçu e outras paisagens, sondei linhas de acesso ao livro mencionado, além de projetos em movimento e futuros, a conquista do Selo João Ubaldo Ribeiro e a sensação que o isolamento social impôs à face literária do autor.

Celebradas pela posição de finalista do Oceanos, um dos marcadores do campo literário atual, As solas… possibilitam uma pausa para a territorialização dos fios invisíveis cibernéticos e um chamado à memória-ancestralidade na figura de um avô desencarnado que enseja uma profunda contemplação do mundo. A memória, essa construção imprecisa de sensações e acontecimentos, exige um afastamento da imposição do agora para a passagem de um outro instante, um instante passado. Em As solas…, além do que pude desvelar no prefácio do volume, interessa-me, neste momento, a cisão que a obra provoca ao abordar um lócus que transcende as cibermalhas, pois a elas resiste: o espaço fora dos centros. Nesse aspecto, são dois os móbiles de insurgência que me intrigam, modulados, por sua vez, através da fratura do tempo e da abertura ao exterior da tela, desencadeando uma narrativa poética que ilustra uma saga a partir dos pés, da ancestralidade e do amor.

Guy Debord afirma que a espetacularização comporta uma mediação de imagens e aparências. As redes sociais, o apego à digitalização de tudo e a própria internet contêm o fetichismo do espetacularizado que reveste, no contemporâneo, todas as zonas do humano. A urdidura do digital, como interfere na condição humana e quais as formas de vivenciar o toque na tela que nos toca são questões que se impõem. A literatura é um terreno aberto para isso, um domínio de resistência onde o digital é sangrado e desvelado. Por isso, ler Tiago D. Oliveira, hoje, em que a pandemia permanece muito por conta de notícias inverídicas a respeito do vírus que a move, parece-me necessário. Desde Distraído, passando por Contações, até o livro mais recente, a qualidade estética, as referências textuais (Tiago é um leitor voraz) e a reterritorialização conformam uma obra cuja matriz é a da beleza.

Abaixo, segue a conversa que tive com o autor. Desde já, agradeço a Tiago D. Oliveira, por ter cedido um pouco de seu tempo para nós, e ao editorial da Diversos Afins pelo crédito do espaço. Abraços e boa leitura.

 

Tiago D, Oliveira / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Em As solas dos pés de meu avô, difícil não notar a figura de um patriarca a marcar o percurso narrativo-poético. Há um movimento catártico e/ou de expurgação (independentemente se factual ou mais propriamente ficcional)?

TIAGO D. OLIVEIRA – O primeiro pensamento sobre a escrita desses poemas foi na direção de um resgate. Ele nasceu de uma necessidade, a de tentar entender o muito além dos deslocamentos dos corpos, o que fica quando não há mais a chance de um abraço. Eu, que já havia me distanciado geograficamente, pois vivia em Portugal na época, agora via a distância girar em seu próprio eixo como faz tão naturalmente a natureza. A distância não seria só material e seguiria o rio de nossas existências para outro lugar. Coloquei para fora o primeiro e segundo poema da sequência que se tornaria um livro bem depois. Inicialmente não havia uma vontade de livro. O que existia era a necessidade de colocar na mesa as minhas armas para gerir o desconhecido que me limitava, já que não podia largar o emprego em Lisboa nem tinha condições financeiras para voltar ao Brasil e beijar a testa de meu avô. Escreveria. Os poemas foram nascendo deste momento, mas só escrevi o terceiro quando já estava no Brasil, alguns poucos anos depois. Os versos foram ganhando especulações, leituras, rememorações, recriações, tatuagem que se desenhava em minha carne ao passo em que as geografias do afeto afloravam em mim paulatinamente. O sentimento de saudade em Portugal é uma experiência muito especial e única, aqui no Brasil ele se tornou mais pesado quando caminhei na terra com os pés descalços. Refletir sobre o método catártico que Freud aponta e no fim concluir que estes versos são uma voz que procura o equilíbrio saudável a partir da linguagem, uma voz que busca substituir o sentimento da impossibilidade do ato por um movimento realizado pela linguagem, pela escrita em si, foi o que entendi nesse caminho. Aqui o patriarca exerce a continuação de sua caminhada impondo à morte a vitalidade da escrita a partir de quem ficou. E já não há ficção nem realidade, tudo é transpassado continuamente pelos revérberos e arrepios que acontecem após cada leitura destes versos, destes caminhos, em cada leitor.

 

DA – Como você estava em Portugal, mais precisamente em Lisboa, a distância do Brasil, e, logo, de seu avô, funcionou como parte do processo de construção do livro. Além disso, como foi experienciar a terra de Fernando Pessoa também na condição de escritor – e brasileiro? A cisão, ao menos em parte, com a pátria, sob o signo do estrangeiro, o corte tátil com a geografia da Bahia: tudo isso impactou sua literatura de algum modo?

TIAGO D. OLIVEIRA – Andar pelas ruas de Lisboa produz um sentimento familiar, é a mesma sensação da folha em branco diante de mim. A cidade oferece uma intimidade maior com os versos que lia na UNL ou no meu quarto. A sensação que tinha era a de viver constantemente no trânsito das leituras, só que tocando, caminhando sobre as palavras, os versos. Um amigo de infância, que também morava em Lisboa na época, teve a sorte de morar ao lado de uma das casas em que viveu Fernando Pessoa e nunca percebeu aquela sorte, o que mudou quando fui visitá-lo pela primeira vez e depois disso aquela imagem não saiu mais de minha cabeça. Outros episódios como esse foram somados durante os anos, mas o que ainda é forte no emaranhado das imagens de minhas lembranças é o desenho afetivo que a cidade constrói em nós. As ruas, a arquitetura, o movimento da carris durante o dia, o tejo, tudo figura como a construção de uma literatura em face de sua realização a qualquer momento. E assim aconteceu um convite para participar de uma antologia de poemas, depois de contos e lá estava eu usando a cidade para recriar a própria cidade, pois era esse o sentimento quando escrevia sobre minhas impressões ao mergulhar cada vez mais na cultura do lugar, era um brasileiro vivendo em outra cultura e reproduzindo aquelas influências a partir de uma escrita em constante transformação. Penso que a minha poesia começou a entender que a transformação é a melhor linguagem exatamente nesse momento. O corte com a minha Bahia começava a se desfazer ali, diante da saudade a escrita, já envolvida pela cultura lusitana, pelos poetas todos, acontecia como instrumento funcional para re/criar, re/viver. Comecei a pensar e sentir novamente a minha terra, agora de uma maneira muito mais profunda e real, depois que percebi que por mais que viajasse, a natureza de meu olhar, mesmo estrangeiro, carregaria sempre o Brasil, a Bahia em mim. O impacto sempre foi o de elevação, sempre olhei e senti assim, para frente.

 

DA – Muito produtiva a relação reterritorializada com os espaços Portugal-Brasil e que, aliás, é bastante cortejada pela crítica lusófona. Interessante mencionar, nesse aspecto, o prêmio Oceanos, de literaturas de língua portuguesa, em que você é finalista este ano com As solas dos pés de meu avô. Como tem sido essa experiência?

TIAGO D. OLIVEIRA – Bacana você tocar nesse ponto, pois há aqui um lugar imenso de afeto, de reencontro. Ao passo que caminho pelas solas de meu avô nesse livro, conecto-me também com Portugal e percebo a cada dia que somos, nesta minha perspectiva, uma só experiência, a poesia. Estou vivendo um momento muito especial com o reconhecimento do meu trabalho, que geralmente é muito solitário e sem pretensão alguma. Há anos longe de Portugal, mas toda vez que escuto aquele sotaque, sinto como se tivesse retornado ontem para o Brasil, que o tempo não passou. A possibilidade do prêmio me fez acessar novamente um velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma. O conforto é que somos todos filhos de uma mesma língua, mesmo com inúmeros mecanismos internos de reconfigurações constantes, somos todos saídos de uma mesma boca. Mas o coração anda apertado com essa reconexão com um tempo muito feliz de além mar. Um lugar re/encontrado. A parte funcional de todo esse movimento chegado com a indicação de finalista para o Prêmio Oceanos 2020 é que a alegria é imensa, servir de exemplo para outros meninos de periferia, como eu fui, é uma chance de fazer algo bom, motivador. Mas o que fica depois do vento ainda é a página em branco e eu confesso sem medo que essa é a imutável realidade de quem escreve, é o chão de todo autor, é a certeira paz que me recebe de volta. Que bom! Mesmo sabendo da natureza passageira dos prêmios, confesso que é bom sentir as mensagens das pessoas, o carinho, o brilho nos olhos. Penso que As solas dos pés de meu avô ainda vão me levar para lugares diversos.

 

DA – O “velho sentimento de pertencimento, um chamado híbrido diante do Tejo ou do Dique do Tororó, sua soma” remete à fragmentação tão incensada do indivíduo contemporâneo. Isso interfere noutros trabalhos, a exemplo de projetos anteriores ou mesmo inéditos? Ou o “chão de todo autor”, a página em branco, resvala em mistérios diferentes a cada livro? Consegue identificar tais aspectos na própria obra?

TIAGO D. OLIVEIRA – Essa fragmentação é realmente um traço contemporâneo que compõe o olhar de quem escreve. As nossas horas são invadidas por diversos tempos e espaços e muitas vezes já nem notamos, acostumados com o ritmo normal da vida imediata. Mas há a palavra escrita, a literatura. Assim são os dias, entre a memória e o tato. Penso que quanto mais o tempo passa, mais aumenta essa nossa busca por um pertencimento que se faz na fragmentação. E agora digo pensando também nas vidas criadas no papel. O meu trabalho está mergulhado nessas águas, a do Tejo e a do Dique. Estou inteiramente atravessado por essa chance do sentir, do criar, do referenciar, assim aconteceu com um livro que escrevi, Contações, que bebe de um lugar que não existe mais, de criaturas reimaginadas e grafadas como partes de um mural construído para essa ideia de pertencimento. Personagens inventados, rememorados, todos abraçados por essa fragmentação, cada um representa um lugar perdido de geografias e eras distintas. Quando escrevo, junto todas as naturezas sob a minha, paulatinamente a preencher a folha em branco com palavras. O chão que piso é feito de possibilidades, a cada livro que realizo pertenço um pouco mais a essa multiplicidade e ao mesmo tempo, sendo todos eles, fragmento-me um pouco mais. Talvez seja essa a ideia de modernidade que merecemos, a que não conseguiremos tão cedo nos livrar. Quando escrevi As solas dos pés de meu avô, novamente não consegui fugir dessa fragmentação que me faz. Lá estão o sertão profundo, a urbe e um outro país distante. Lá estão o avô, o pai e o neto. Três tempos e espaços distintos que são acessados pelo corpo da fragmentação intuído pelo sangue do autor, que escreve justamente por conseguir pertencer, mesmo sem nunca ter vivido. Estou a escrever um novo livro sobre Saveiros, o que me corre pelas mãos são as águas novamente, não as do Tejo nem as do Dique, mas as do Paraguaçu. Novamente escrevo com o sentimento de pertencimento, mesmo sem nunca ter vivido, o que me faz alcançar essa atmosfera de um recôncavo histórico que abastecia a capital é a fragmentação que me acolhe enquanto pesquisa, enquanto ato de talhar o verso. Os mistérios costurados na derme da escrita de cada livro são consequências de um caminho em que pertencer e não pertencer são faces de uma mesma moeda. O jogo da escrita possibilita também essa imagem. Agora olho para a janela e o silêncio da noite me faz ouvir o barulho do relógio, lembro de Pessoa diante do mundo e a heteronímia de sua criação. Lembro também de Drummond, em a Máquina do mundo, quando o poeta nega aquela imagem e vai embora. Sigo em posse dessa herança e gozo agora do silêncio que antecede o sono. Fim. Amanhã já não sei, pode ser tudo diferente.

 

Tiago D. Oliveira / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Acima, você traça um pequeno tratado sobre os desdobramentos do ato de escrever, além de citar um livro inédito, Saveiros. Muitos autores, em meio à pandemia em curso, têm alegado que a escrita funciona como salvação. Como tem sido para você? Muitos projetos novos? Saveiros nasceu com a quarentena?

TIAGO D. OLIVEIRA – Com a pandemia vieram muitas mudanças rapidamente, tivemos que aceitar e transformar o que nos foi imposto com tanta força. A única realidade que não sofreu foi a leitura, a escrita. Aliás, finalmente havia tempo para a leitura, para a organização de algum projeto de escrita. E assim, mesmo continuando a dar aulas via internet, de alguma forma ficamos mais disponíveis para o sol se pondo, para o barulho do vento entrando em casa. Há tempos venho acumulando leituras sobre os saveiros para um futuro, o que nunca acontecia por causa da implacável falta de tempo, e nesses meses consegui ler muito do que desejava, dissertações, artigos, livros, reportagens, o que alimentou mais ainda a minha vontade de conviver com todo aquele universo. Então eu tinha tempo e uma vontade de escrever que só crescia. Iniciei os versos mesmo sem ter colocado nada no papel. Os poemas começaram a ser escritos em mim enquanto a liberdade reinventava um livro como rio para que aqueles saveiros, que criava como versos em minha cabeça, pudessem navegar novamente. Escrevo com os dias atravessando as palavras, tudo o que sei é medido por versos que repito biblicamente e tento aceitar o que não posso mudar e tomar o que me cabe. Os saveiros são mais uma ferramenta de resistência ao duro tempo que vivemos, assim como os acordes do violão, as contas amarradas na ponta do lápis, as lives ou as receitas de pão. A quarentena trouxe-me uma chance de desacelerar, mas também me possibilitou a construção de um projeto que vai muito mais além da minha condição de isolamento.

 

DA – Você ganhou este ano o Selo João Ubaldo Ribeiro. Pode comentar um pouco sobre?

TIAGO D. OLIVEIRA – Recebi uma ligação da rádio educadora me pedindo para falar sobre o selo João Ubaldo, que meu inédito, Soprando o vento, tinha sido contemplado neste ano de 2020. Fiquei muito feliz e acabou passando um pequeno filme em minha cabeça. Quando comecei a escrever poesia tinha a idade perfeita para sonhar, sem o coração calejado por alguns movimentos naturais da vida. Acho que aquele menino de Sete de Abril vibrou dentro de mim com a notícia. Ganhar um prêmio em minha cidade sempre foi uma imagem distante, mas algo brilhava ainda em mim e depois que a ficha caiu entendi que sou a melhor propaganda de que é possível nascer na periferia, sonhar com um mundo distante e um dia realizar. Esse prêmio do Selo João Ubaldo Ribeiro representa para mim uma semente plantada em tantos corações, tantos meninos e meninas de periferia que vão  perceber  que com leitura, estudo, fé, tudo acontece. Sigo acreditando na poesia e nas pessoas.

 

DA – Gostaria de deixar alguma mensagem para as suas leitoras e leitores?

TIAGO D. OLIVEIRA – Queria deixar aqui a alegria que sinto quando abro um livro.  A paz que me toma quando termino de escrever algum projeto, quando os poemas estão dialogando. Queria deixar aqui a minha fé em um mundo feito por pessoas que acreditam nos livros, que se encantam com as pequenas alegrias. Queria dizer que a escrita se tornou uma maneira de entendimento e localização do mundo, cada livro escrito é um universo que re/descubro e aceito caminhar. Queria agradecer por uma troca tão agradável que foi essa entrevista. Estar aqui é acreditar na palavra, é seguir. Leiam. Leiam. A leitura é a grande riqueza nos dias.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), mestra, doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora e pesquisadora. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e os livros Na pata do cavalo há sete abismos (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; traduzido ao espanhol) e O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado aflição (Ofícios Terrestres, 2019).

 

 

Categorias
136ª Leva - 03/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

A memória como dispositivo e reinvenção

Por Kátia Borges

 

 

Devo este breve olhar sobre “As solas dos pés de meu avô” (Patuá, 2020), novo livro de poemas de Tiago D. Oliveira, desde antes da pandemia que sacudiu nossas vidas. Eu já o havia lido, antes mesmo de sua publicação, numa deferência  deste jovem poeta, que acompanho há muito. O tempo é um texto que tem seus mistérios e este que se instalou entre a primeira leitura dos inéditos e esta leitura de agora, após a edição e o lançamento, pôs em relevo novas perspectivas sobre o conteúdo que certamente não teriam sido consideradas do mesmo modo em um “passado próximo”.

 

é pelos pés de meu avô que entendo a vida.

morto de cima de nove décadas esculpidas 

nas rachaduras das solas duras, naquele 

mesmo quarto de estreitos e sonhos.

caminho nos cascos a figurar seu povo,

na herança do sangue no olho 

que o eco de sua voz ainda vive.

é pelos pés do morto, numa cama de pau, 

que vejo a luz do dia chegar.

o choro, a reza, a morrinha de paz que fica

 

Na perspectiva do que ora vivemos – e das elipses de nossas histórias forçadas pelo longo distanciamento – arrisco dizer, sem recorrer a subterfúgios, que escrevo precisamente no momento certo. Isto porque os poemas contidos em “As solas dos pés de meu avô” repousam sobre o exercício da memória, e de processos mnemônicos que  implicam muitas vezes em esquecer para lembrar. O esquecimento, enganosamente, costuma dispersar os detalhes, em modos de expansão da nossa capacidade mental de preservar aquilo que é “mais importante”. Ironicamente, no entanto, são os detalhes que  delimitam a importância daquilo que se preserva.

 

ter na morte um rosto

ao tempo nu e ilusório

que a falta pendura em nós,

que acura se dá em desgosto.

meu avô é hoje afecção.

nada mais falta em seu corpo

que ausente existe no que ficou,

nos objetos estranhos à imagem.

em quem ficou, na impotência

que assume o poema sobre

a mnemônica arte deste improviso  

 

Esta controversa relação entre aquilo que se configura como aparentemente irrelevante e o que se mantém na extensão da memória como afirmação de pertença é o norte dos poemas que compõem “As solas dos pés de meu avô”. Não me refiro aqui, portanto, ao simples resgate das memórias de certa época. Mas da ativação de  um todo compacto que se carrega no corpo como um dispositivo. Uma memória-dispositivo que se compõe de forma orgânica, não linear ou previsível, e que é ordenada pela lógica do sentir em seus deslocamentos.

 

as memórias se movimentam com o deitar dos sóis.

vão se transformando em um calor pendular:

longe do toque, perto da imaginação. gosto de guardá-lo como poeta.

 

O modo como este tempo-memória-dispositivo atua, movimentando-se em ciclos de reinvenção no imaginário do poeta é, portanto, instável e impreciso. Mas é nesse percurso temporal reconstruído, a partir dos detalhes que o orientam desde o título, e em um espaço íntimo ativado pelo lirismo, que Tiago D. Oliveira  transita em “A sola dos pés de meu avô”. E os pés do avô são calcinados, marcados pelo caminhar em um tempo possível de esperança e desesperanças, também legado e lida, herança e rito.

 

fecho os olhos e escuto a sua voz

dentro de uma pega de boi no mato.

o corpo do vaqueiro é o seu mundo,

cada galho e espinho a marcar 

a pele, seu manto sagrado:

perneira, gibão, chapéu, peitoral, luvas, botas.

fecho os olhos e não há mais fim,

apenas o boi correndo solto

como um trovão sem chuva

a ecoar em labirintos

o desvencilhar dos pingos

até alcançarem a terra.

 

É o tempo do avô que o neto instaura em seus versos, como sói acontecer quando se olha afetivamente para trás. Coragem será preciso, para não se deixar enrijecer nessa mirada. Nem sempre é peso ou leveza o que se carrega na bagagem ao deixar a casa, e tudo que se fez e ela fez de (em) nós. A casa entendida/estendida ao que nos abriga enquanto aprendemos/apreendemos o mundo lá fora. Se pensarmos o demiurgo nesse resgate do perdido, figura recorrente na literatura, podemos situar esta poesia em par com outras que também revisitam as lembranças pelo viés do mesmo dispositivo, a exemplo de Cacaso e de Ruy Espinheira Filho.

 

as rinhas de galo num quintal 

de flores e homens.

a mesma casa da música

no domingo de manhã. passou

diante dos gestos engessados

que só as horas sabem

do quando em que vão chegar.

estavam lá, até mesmo depois.

lutar até morrer, gritavam

até não mais restar galos,

nem flores, só as rinhas

ficarão para o tempo abraçar:

em qual caminho se perdeu

a minha paz? este silêncio

nas marcas da testa

de meu avô. o rinhadeiro

já não responde mais

no colher derradeiro,

no crescer de teixos.

seguimos a tentar entender

de algum lugar que passou

a distância entre rir e chorar.

 

É deste modo, no domínio do território da memória, que se reinventa único pela experiência, que Tiago D. Oliveira se permite o trafegar suave entre temas que lhe são caros e que não o conectam a apenas essa ou aquela vertente poética. Tal característica o singulariza fortemente no universo recente da literatura brasileira. Este “As solas dos pés de meu avô” é um exemplo desta opção pela liberdade criativa, ao se voltar inteiro para dentro e se distanciar de outras abordagens do mesmo autor. Assim pensado, o livro se revela objeto-projeto inteiro e que se sustenta de seu próprio espaço-tempo.

 

Kátia Borges é autora dos livros “De volta à caixa de abelhas” (As letras da Bahia, 2002), “Uma balada para Janis” (P55, 2009), “Ticket Zen” (Escrituras, 2010), “Escorpião Amarelo” (P55, 2012), “São Selvagem” (P55, 2014) e “O exercício da distração” (Penalux, 2017). Tem poemas incluídos nas coletâneas “Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000” (Global, 2009), “Traversée d’Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia” (Éditions Lanore, 2012), “Autores Baianos, um Panorama” (P55, 2013) e na “Mini-Anthology of Brazilian Poetry” (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

 

Categorias
125ª Leva - 03/2018 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Contações: a voz que canta ou A memória é editada porque nela habita

 Por Marcelo Labes

 

 

Não sou ainda um leitor antigo da poesia de Tiago D. Oliveira, mas já me considero um leitor próximo. Tive a oportunidade de ler seus dois primeiros livros de poemas, Distraído (Pinaúna, 2014) e Debaixo do Vazio (Córrego, 2016), e tive muito prazer em resenhar estas duas obras para a revista Mallarmagens assim que terminei sua leitura. Naquela ocasião, relacionei os dois livros com uma distância obstaculizada que exigia do leitor mais que olhos. Explico: diferente do lirismo luso-baiano que havíamos lido no primeiro livro, o segundo desmontava, passo a passo, a própria poesia de Tiago e nós, leitores, íamos desmontando junto.

Leitor já de um livro inédito, fui há pouco agraciado com a leitura de Contações, recentemente publicado pela Editora Patuá. E se eu ainda não havia me recuperado de minha leitura de Debaixo do Vazio, esta leitura serviu para me mostrar que de Tiago sempre posso esperar mais, muito mais: eis um poeta que lida com a poesia, própria e alheia, com uma seriedade e uma dedicação difíceis de se deixar passar sem perceber.

Tenho comigo que são poucos os temas que os poetas abordam durante a vida. Ou são muitos os temas, mas poucos eixos em torno dos quais estes temas giram. Ou são muitos eixos e temas para uma quantidade limitada de neuroses. Acho que escrever é lidar consigo e com sua história, sobretudo. Ou tentar lidar, posto que a memória é terreno movediço onde nem sempre conseguimos pisar firme. Contações, de Tiago D. Oliveira, porém, é um elevado, um viaduto: o poeta não somente está seguro do que conta como nos convida a transitar com segurança nesse seu mundo feito de ontens.

A epígrafe do itaparicano João Ubaldo Ribeiro dá o caminho: “Já estou, ou já cheguei à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo” acompanhada da do baiano Jorge Amado: “Tudo que é bom, tudo que é ruim, também termina por acabar”. Chamo os aclamados autores para dizer que não há nostalgia em Contações. Há revisita, retorno, recaminho. Nostalgia não.

Tiago retoma, neste livro, personagens da infância baiana que viveram consigo, muito de perto, para investigar em cada uma delas o porquê de permanecerem tão próximas. De elzinho, abreviação carinhosa de cruelzinho, menino sem mãe que se escondia da chuva sob marquises, sabemos através de loló, personagem que é narrada pelo poeta num poema próprio dela. O mesmo acontece com zé fim, que posfacia o poema arlinda de são pedro – uma melancólica narrativa sobre a mulher mais rica e menos amada do país – para depois ser narrado pelo poeta num poema com seu nome.

A riqueza de Contações, eu dizia, não está no que poderia haver de nostálgico. Continuo afirmando que a construção de Tiago é sólida, capaz de nos fazer atravessar certos de seus pântanos – e isso se demonstra na polifonia constante em alguns de seus poemas: não há um poeta, há um homem diluído em sombras, pois o sol da razão talvez desfizesse aquelas memórias pondo-lhes luz em cima. À sombra, portanto, caminhamos. Mas nunca incertos, apesar do que apregoa zé do rio, uma das personagens, ao reclamar que a cabeça / da gente é assim, falha / quando a gente mais  precisa, / diabo de memória.

O lirismo múltiplo e multiplicado da voz de Tiago permite que não haja um, mas vários eus-líricos – já que a memória, esse terreno pantanoso, não pertence a uma, mas a diversas pessoas. Por isso, podemos às vezes nos perguntarmos se quem fala é o poeta ou uma de suas personagens que a memória, turva, na confusão da lembrança, tornou a escrevente destes versos. Como em dia de fevereiro, onde em torno de um corpo que boia nas águas, o poema esclarece, confundindo: “enquanto as autoridades responsáveis / não chegavam para dar um fim ao espetáculo, / ambulantes vendiam bebidas e espetinhos. / crianças corriam, outros dançavam, / o sentido da vida, do que era elástico”.

Bahia, Itaparica, lugares onde nunca estive, mas que conheço através da poesia de Tiago, e que relembro como se tivesse lá vivido; inclusive é minha a pergunta que faz o poema: “toda dor é esquecida, / toda fome é suprimida, / todo morador é turista, / ou seria, / todo turista é morador?”. Não há, aqui, em momento algum, uma territorialidade excludente, mas a partir do que suponho ser viver num dos maiores rincões turísticos do país, me pergunto – ou é a poesia de Tiago que pergunta através de mim – se há quem seja de fato baiano na Bahia, Itaparicano em Itaparica, que não sejam os devoradores de fotos e paisagens.

A resposta à pergunta anterior é sim, há personagens para além das criadas pelos romancistas e poetas românticos; há pessoas para além das personagens de Jorge Amado e Tiago nos faz ter com elas, cara a cara, como num encontro adiado por muito tempo, mas que finalmente alcança o contato quase físico, quase real, deixando de ser memória para habitar a imaginação comum a quem tenha de quem se lembrar: “lizete / enlouqueceu / quando belo fugídio a abandonou no altar, / não antes de matá-lo / com 42 facadas no mesmo lugar”.

Há isso em poesia: quando os comos importam mais do que os quês. Mas se as experimentações com as vozes – que se misturam – nos dão oportunidade de contato com uma escrita inovadora e forte, há que se pensar que quando o poeta volta-se para si e os seus, ele procura nesse não apenas resolver-se, pois que a poesia confessional e memorialística pode ser desinteressante. Não: Tiago vai mais longe e busca de suas ruas, as nossas; de sua infância, a nossa; de suas personagens, as minhas e, certamente, as tuas.

São poemas ou retratos tirados por uma câmera antiga. Antiga? Se contarmos que dos 80 para cá a tecnologia tem nos deixado tontos, penso que sim: somos antigos os da década de 80. Já antigos. E compartilho deste sentimento de que se não resgatarmos o que nossos olhos viram e aquilo pelo que o coração bateu forte (e hoje bate com saudade, ainda mais quando as recordações afloram), seremos nós mesmos esquecidos. E não podemos esquecer nem deixar que esqueçam as pequenezas que nos fizeram gente, substância de nossa poesia.

Tiago, que experimenta com sua poesia desde o primeiro livro, teve Debaixo do Vazio, aquele monolito instigante, uma mostra de um poeta para fora, em contato com o mundo que o rodeia. Contações nos mostra o poeta voltado para dentro: da memória e da poesia – mas fazendo crescer a própria obra, que deixa agora de ter lado de dentro e lado de fora, e passa a ser o grande momento em que o poeta, novamente e ainda mais, se revela.

 

Marcelo Labes nasceu em Blumenau-SC, em 1984. É autor de Falações [EdiFurb, 2008], Porque sim não é resposta [Antítese, Hemisfério Sul, 2015], O filho da empregada [Antítese, Hemisfério Sul, 2016], Trapaça [Oito e Meio, 2016] e Enclave [Patuá, 2018]. Integrou a mostra Poesia Agora (edição carioca), em 2017. Tem poemas publicados em Mallarmagens, Livre Opinião – Ideias em Debate, Ruído Manifesto, Enfermaria 6 e Revista Lavoura. Edita a revista eletrônica ‘O poema do poeta’, onde publica originais manuscritos, esboços e rabiscos de poetas e ficcionistas.