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77ª Leva - 03/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Dirk von Petersdorff

Tradução: Viviane de Santana Paulo*

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

 

No museu da história

 

Uma caixa de vidro iluminada,
no interior uma pedra cinza,
as bordas lascadas,
e assim ocorre-me ainda,

quão absorto eu sentado estava,
em Kiel, à mesa da cozinha,
quando a notícia surgiu,
quando o Muro caiu.

 

Im Museum der Geschichte

 

Ein Glaskasten im Licht,
darin ein grauer Stein,
der an den Rändern bricht;
und also fällt mir ein,

wie ich versunken saß,
am Küchentisch in Kiel,
als die Meldung kam,
als die Mauer fiel.

 

 

***

 

 

Fliperama

 

Pena! Inferno! Susto e dor!
Espasmos! Tinidos! Abismos não!
Oh rapidez! Alavanca! Torção!
Luzes! Sim! Nova cor!

Mas certamente, deve-se planejar,
pode-se apontar o alvo e é preciso adivinhar –
rio de luzes, dança eufórica,
oh, quem sabe, medo e glória.

 

Flippern

 

Jammer! Hell! Schreck und Pein!
Zucken! Klacken! Abgrund nein!
Ach vergeh! Bumper! Drall!
Leuchten! Yes! Neuer Ball!

Aber sicher, man soll planen,
man kann zielen und muss ahnen –
Lichterfluss, schneller Tanz,
ach wer weiß, Angst und Glanz.

 

 

***

 

 

O futuro começa

 

como no quadro de Rafael a Madonna
na parte inferior da obra o arranjo,
a próxima geração – anjos,
com quase um bocejo à tona.

Velha é a magia,
um sorriso principia
nos lábios, e entretanto –
o que sabem os anjos?

A cabeça apoiada na mão,
já não é tão
ao fundo da moldura
nem tanto consola a formosura.

 

Die Zukunft beginnt

 

wie auf Raffaels Madonna:
Am unteren Bildrand lehnen
die Engel – nächste Generation.
Die müssen fast gähnen,

der Zauber ist alt,
ein Lächeln wächst
auf den Lippen, und bald –
was wissen die Engel?

Den Kopf in der Hand,
schon nicht mehr ganz da
am unteren Rand
ein trostreiches Paar.

 

 

***

 

 

Eles se encontram no corredor

 

Meu filho veste camisa amarela com letras irregulares,
onde cavaleiros erguem espadas de lasers
e uma cobra dá de cara com uma pantera –
para mim são coisas já passadas nesta vida.
Mas estou na posse de vitórias antigas
como um menino na bicicleta que conquistou a glória,
porque ela, oh Deus, subiu na minha garupa,
tocou meu quadril, – corrente elétrica.
Ainda acontecerá com o menino:
o sútil, incerto futuro-flamejante,
o corar abrasador até as orelhas
e a impaciência, o pulso querendo acelerar.

………O homem tira lentamente a gravata,
………o menino passa empurrando a bicicleta.

 

Man trifft sich im Flur

 

Mein Sohn trägt gelbe Shirts mit Zackenschrift,
wo Ritter ihre Laserschwerter heben
und eine Schlange einen Panther trifft –
das ist für mich vorbei in diesem Leben.
Doch bin ich im Besitz von frühen Siegen
als Fahrradfahrer, der dem Glück erlag,
denn sie, oh Gott, ist hinten aufgestiegen,
fasst meine Hüfte an, Elektroschlag.
Das steht dem Jungen alles noch bevor:
das feine, ungewisse Zukunfts-Brennen,
die heiße Röte bis hinauf zum Ohr
und Ungeduld, der Puls will immer rennen.

……..    Der Mann macht langsam die Krawatte frei,
……..    der Junge schiebt sein Mountainbike vorbei.

 

 

***

 

 

10º andar,

 

edifício com ar condicionado, celeiro dos mortais.
Fique frio, sorria, o mais alto é o 19º,
minha guia, enfraqueço, quando
passo por um bando de secretárias
maquiadas, ménades, bocas trêmulas
….. para que a encenação?
seus pensamentos
….. chamamos de volta
surgem quando falam
….. tudo como sempre
e displicentes comem donuts
esperando a existência, e nisso acompanha
a música: tudo é bom, canta
Madonna, que quer saltar no Etna;
e em frente as janelas precipitam-se
as núvens passageiras, cinza profundo, depois a queda
de brilho no escritório espaçoso,
manchas de luzes na tela da face,
sussurro de fax, eternamente – ok, ok,
há inúmeros purgatórios, há
televisão após a morte do moderador,
se eu, por favor, pelo menos, a chave
o código, do local
o âmago – ela riu.

 

10. Stock,

 

klimatisiertes Hochhaus, Tenne der Sterblichen.
Cool bleiben, lachte, höchstens 19,
meine Führerin, schwach ich, als
wir einen Schwarm von Sekretärinnen
passierten, geschminkt, mänadisch, zappelnde
Münder
……..was soll das Theater?
ihre Gedanken
……..wir rufen zurück
entstehen beim Reden
……..alles wie immer
nebenbei essen sie Donuts u.
warten auf die Existenz; dazu
die Musik: Alles ist gut, singt
Madonna, sie will in den Ätna springen;
und vor den Fenstern rasender
Wolkenzug, tiefgrau, dann Stürze
von Helligkeiten im Großraumbüro,
Lichtflecken, auf einem Schirm Gesichte,
Fax-Surren, ewig – okay, okay,
es gibt zahlreiche Fegefeuer, es gibt
Fernsehen nach dem Tod des Moderators,
wenn ich wenigstens, bitte, den Schlüssel,
den Code, was den Laden
im Innersten – sie lachte.

 

 

* Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007)

(Dirk von Petersdorff (1966/Kiel) é poeta, ensaísta e crítico literário. Estudou filologia germânica e história na Universidade de Kiel. É professor de literatura alemã moderna na Universidade de Jena. Dirk também é membro da Academia de Ciências e Literatura de Mainz (Akademie der Wissenschaften und der Literatur) e do Centro Internacional de Pesquisa Clássica (Internationalen Zentrums für Klassikforschung). Em 2006, foi membro do júri do Prêmio Kleist (Kleist-Preis))

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Caminhando descalço sobre o piso de tábuas

Por Adriana Zapparoli

 

 

 

Para sobrevoar o livro “Nagasakipanema” (Editorial Práxis, México, 2011) de Víctor Sosa há de se estar disposto ao acolhimento da contradição: pairar com uma asa por sobre a bomba atômica e com a outra sobre a ambiência delicada de uma praia brasileira.

Coleóptero no ambiente. Atravessa janelas, o nácar das savanas, o desprendimento da infusão (jasmim), os anais de Larousse abertos em sua boreal quietude.

Coleópetero en lá habitación. Atraviesa ventanas, el nácar de las sábanas, el desprendimiento de la infusión (jasmín), las analectas del Larousse abierto en su boreal quietud (46)

Posiciono-me perante a tradução de poesia na qualidade de leitor e nunca como tradutor profissional que viaja permanentemente entre duas línguas. Interessam-me, sobretudo, as emoções e as experiências que recebo de uma construção poética agregada à liberdade de sua manifestação e cercando o leitor para diferentes saídas e entradas diante das múltiplas possibilidades.

Víctor Sosa (Uruguai, 1956) é um poeta de inserção, e começa o seu livro anunciando um motim com uma capacidade imagética muito sofisticada. Há liberdade em código de escrita.  No decorrer do livro, os textos apresentam a quebra da sintaxe. As palavras assumem significado próprio.  São curvas e híbridos com um toque de surrealismo, em tempos históricos, com a mistura incomum de diferentes elementos.

Há ratas no porão – lhe sussurra ao ouvido a advogada – mas ele entende mal e diz: ratos no ático.

Hay ratas en el sótano – le susurra al oído la abogada – pero él entiende mal y dice: ratones en el ático (163).

Há manifestação de inteligência criativa. Além da força sonora há conflito e tensão de linguagem.  Muitas vezes, a leitura promove a sensação de se caminhar em areia movediça. Identifica-se uma tentativa de recompor a confusão mental que o poeta sofreu no momento de sentir ou intuir a prosa-poética. Ironia e criatividade.  Cada prosa-poética possui uma velocidade de respiração própria e organizada.

Pode ser cancerígeno se olhar de frente… Catorze dedos na garganta da menina puxaram o cação ali atracado.

Puede ser cancerígeno si se mira de frente… Catorce dedos en la garganta de la niña sacaron al cazón ahí torado. (53)

Nagasakipanema é um livro escrito em castelhano, mas contaminado por outros idiomas. Utiliza-se de termos técnicos, de referenciais acadêmicos em ciências médicas e biológicas de maneira pontual.

O caráter espasmódico do ódio feito que se deletara. A vasodilatação da bochecha chegou a tal ponto que desviou o eixo da medula espinhal e secretamente, entre a quarta e quinta vértebras, uma protuberância côncava que podia se palpar desde o paladar.

El carácter espasmódico del odio hizo que se deletara. La vasodilatación de la mejilla llegó a tal grado que desvió el eje de la médula espinal y secretó, entre la cuarta y quinta vértebra, una gibosa protuberancia que podía palparse desde el paladar. (207)

Nagasakipanema não é um livro fácil. O autor trata a poesia que pode se tornar um tormento para o seu leitor. Porque fatalmente o faz mergulhar na sua brutal ignorância ou ascender a uma condição intelectual imensurável. Dada a sua robusta condição formal, a poesia exige do leitor paciência. Ele deverá investigar a linguagem e desfazer o poema para buscar o seu entendimento.

Apenas alguns golpes na nuca apressadamente dados com o cotovelo; um trovejar amostrado de metatarsos amplificado pela fossa séptica.

Apenas unos golpes en la nuca apresuradamente dados con el codo; un sampleado tronar de metatarsos amplificado por la fosa séptica. (101)

Investigar a forma permite reavaliar a capacidade múltipla e inquietante de pensar e agir. Diria que esta é exatamente a sua essência; ela é única e, ao mesmo tempo, múltipla.

E segue a prosa-poética, que se esquadrinha em exercício estilístico inventivo rico, onde Víctor não precisaria finalizar o livro.

Você participa, apesar da enxaqueca, e caminha descalço sobre o piso de tábuas sentindo os tendões, os músculos, o movimento e a resistência de suas pernas diante de um exercício sem sentido.

Te incorporas, a pesar de la jaqueca, y caminas descalzo sobre el piso de tablas sintiendo los tendones, los músculos, el movimiento y la resistência de tus piernas ante um ejercicio sin sentido. (123)

Traduzir Víctor Sosa para o português é um desafio. Diria quase um delírio.  Porque ele é livre.  Nele nada é tão linear, tão lógico e previsível.

 

Referências:
 
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo na poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

HUTCHEON, Linda. Poética da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 2003.

 

PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1996.

 

 

(Adriana Zapparoli  (Campinas – São Paulo) é escritora e poeta. Realizou pós-doutoramento pela Universidade Estadual de Campinas (SP). Publicou A Flor da Abissínia (versão bilíngue), em 2007; Cocatriz, em 2008; Violeta de Sofia, em 2009; Tílias e Tulipas (versão bilíngue), em 2010; O Leão de Neméia, em 2011; Flor de Lírio (versão bilíngue), em 2012, todos editados pela Lumme Editor (Bauru – SP))

 

 

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Nina Rizzi

 

Foto: Catharina Suleiman

 

 

fabulosos cachalotes, metáforas pra voglia, 5

 

minha mulher, clara e decidida, se crê adormecida

(chamo-a minha mulher por puro disparate
sabemos: não pode ser de ninguém se é sua)

princesa de copas, agoniza uma imperícia com os dedos
não obstante goze as pombas que alimentamos

meticulosa em tudo, não sabe desses seres
que precisam de um cuidado desleixado:
as violetas sedentas por esturricar ao sol e os peixes
megalomaníacos que insistem não se serem, ser beta, oscar:

sozinhos e só, como em resposta ao mundo que os paralisa
o querer ser outro – mamífero e rastejante; neurastênicos
da família poulain, brincam com ela em saltos mortais…

adormece minha mulher quando venta teu nome em minha língua, amor
em tudo o mais é desperta. poderia minha boca
num absorver de fôlego, fazer jus à sua natureza terrestre entre as águas?

mil imagens se deslindam desde a sesta até agora
cantando estorietas de quando eu era feliz e sabia alguma certeza.

 

 

***

 

 

kammerspiel, metáforas pra voglia, 6

 

separada da alegria do mundo
não escrevo. se me dão grafites, soutiens
dou um passo contrário às velocidades
e não vou ao mar

aonde escondi-me a mim
suspiro. boneca inflável
rasante de ogivas, sobejo
– a última gargalhada não é estática

uma panaceia cortante.

 

 

***

 

 

nouvelle vague, minhas sextas com ela, metáforas pra voglia, 7

 

antes que se dê nomes às coisas, as experimento

como uma mulher que nos momentos de transformação permanece
em casa, que derruba o chá por não ler as instruções
da lata, o desvelo das certezas. espaço decodificado em coro
pelos evangelizados e aberto ao espanto, por ser reto

movimento das dúvidas ao conhecido, vem o verbo a mim
milagre das câmeras que habitam o silêncio e o escuro
carregado pelo peso de seu momento, a sensação pré-objetal
de que resta tudo a ensaiar, pôr à prova, ser ex-

perimentado. amálgama de desesperos e paixões, transferência das lógicas
e peripécias à emergência do único: levantada nas mãos a própria cabeça.

 

 

(Nina Rizzi  edita a Revista Ellenismos – Diálogos com a Arte e escreve seus textos literários no quandos)

 

 

 

 

 

 

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66ª Leva - 04/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Ángel González

Palabra sobre palabra                                                                      

Por Jorge Elias Neto

 

Ángel González - Foto: divulgação
        Para vivir un año es necesario morirse muchas veces mucho.
Ángel Gonzalez

                                                                                           

Algunas palabras

Alguns poetas são atletas do abismo. Espreitam, com seu olhar irrequieto e sensível, o entardecer por detrás da História. Debulham o seu passado – o nosso passado – e nos ofertam um ladrilho de palavras. Esses mesmos poetas se especializam, tornam-se alpinistas do nada e penduram-se no portal do tempo. Sabem-se clandestinos, insignificantes e fadados ao esquecimento.

Angel González (1925-2008), notável poeta espanhol, faz parte desse seleto grupo.

Um dos principais poetas espanhóis da Geração dos 50, por muitos considerado o maior poeta espanhol do século XX, González é pouco conhecido em nosso meio.

Entre seus livros mais importantes figuram Áspero mundo, Sin esperanza, con convencimiento e Grado Elemental.

Vejamos o que Luis Isquierdo escreveu na introdução da última antologia publicada por González:

O dom do poeta é a denúncia do negativo que perpassa a vida: a belicosidade que não cessa, a dependência de imposições, o medo disseminado das condutas. Sem renunciar à beleza, os versos têm que tratar também de nossos erros e fracassos. A beleza resiste, e tem seus momentos. Entretanto tem-se que ter conhecimento de sua raridade.1

Não há leitura inocente para uma poética desmascaradora do que se pretende fácil e espontâneo na vida. No orbe poético de Angel González, a presença da beleza se afirma pela atenção precisa do autor a tudo o que a dificulta. E a exigência de não renunciar a ela, que é recordá-la, implica no dom de fazê-la tão viva quanto excepcional 1. O que se manifesta, em rigor, é uma consciência desenganada.

Para entendermos um pouco de sua obra, é imprescindível reconhecer a profunda influência da Guerra Civil Espanhola sobre sua infância. Observação que também se aplica aos principais poetas da Geração dos 50. Ao contrário da geração que os antecedeu, esses poetas realizaram uma poesia dita social, mais combativa, ambígua, rica em ironia, desilusão e crítica ao entorno político-social. Essa característica é bem evidente em seu livro de estreia Aspero Mundo (1956).

Posteriormente, González se distanciou da poesia social, passando inclusive a criticá-la em alguns de seus aspectos fundamentais.  De qualquer forma, reconheceu que um certo mundo perdido existente em sua poesia, era, no fundo, a Guerra Civil e a perda da causa que representava a República Espanhola 2. Como disse o autor:

Sin salir de la infancia, en muy pocos años, me convertí, de súbdito de un rey, un ciudadano de una república y, finalmente, un objeto de una tiranía.

Outro episódio que marcou a escrita de González foi ter adquirido tuberculose. O tratamento desta patologia obrigou-o a um longo retiro em Páramo Del Sil, onde teve oportunidade de se aproximar mais da poesia e iniciar, de forma mais sistemática, sua produção poética.

Suas primeiras experiências poéticas foram como autodidata. Segundo o poeta, a ditadura espanhola impossibilitava o livre acesso à literatura.

Juan Ramon Gimenez, grande poeta espanhol do começo do século XX, ganhador do prêmio Nobel de literatura, foi a primeira e fundamental referência para o jovem poeta. Também os existencialistas, sobretudo Sartre e Camus, povoavam, desde cedo, o inconsciente de González.

Mais tardiamente se interessou pela obra de Antonio Machado, considerado por ele o poeta do inefável, e pela poesia vanguardista do peruano César Vallejo. Refere-se a Vallejo como sendo o responsável por um de seus maiores deslumbramentos que ocasionaram mudanças definitivas em sua obra.

Por outro lado, Ángel González tornou-se uma referência indiscutível  para os poetas que, no final da década de oitenta, iniciaram uma polêmica e definitiva mudança na poesia espanhola denominada Poesía de la experiencia. Declarou o poeta: chega um momento que, inevitavelmente, o poema há de ser necessário para quem o escreve, se se deseja que depois seja legítimo para quem o lê. 4

Graduado em direito e jornalismo, fugiu da ditadura franquista em 1972 e passou a lecionar literatura espanhola contemporânea em várias Universidades Norte-americanas.

Sabias palabras

[…]

Falo também como escritor, já que na qualidade de tal estou aqui. Gostaria de falar como poeta, porém não poderia fazê-lo sem contradizer-me gravemente, pois sempre sustentei que os poetas não existem, salvo na leitura. Se falasse como poeta os falaria, em minha opinião, a partir do nada. O poeta Ángel González, estará nos livros como uma possibilidade, como uma proposta ao leitor que será quem, em última análise, decidirá sobre sua existência ou sua inanidade. Aqui está, tão somente, o homem que há tramado as palavras que dão vida ao poeta, palavras insuficientes em si mesmas, que não teriam sentido sem o concurso dos outros. E essa é uma das grandes lições que, em meu modo de ver, se desprendem da poesia. Porque nossa forma de ser, o que efetivamente somos, depende dos outros mais do que habitualmente pensamos. Ninguém, e isso é muito evidente no caso dos poetas, pode existir sem os demais.
Não se esqueçam nunca.

É certo que o poeta, o grande poeta lírico, mobiliza impulsos que o homem encontra no centro de sua intimidade ou de sua experiência. Porém, essas reações anímicas e sentimentais, por mais pessoais que pareçam, não podem ser únicas e intransferíveis. Se não faz vibrar por simpatia o coração dos outros, se não ressoam e se atualizam em sensibilidades alheias, o poeta haverá nascido morto.  Não para o que ele diz, mas pelo que ele realmente faz, o ato poético é, em essência, eminentemente solidário.

Fragmento do discurso de agradecimento pelo importante Prêmio Príncipe de Astúrias de Letras5

 

 

Ángel González - Foto: divulgação

 

 

Palavra sobre palabras         

                                               

Para que yo me llame Ángel González

Para que yo me llame Angel González,
para que mi ser pese sobre el suelo,
fue necesario um ancho espacio
y um largo tiempo:
hombres de todo mar y toda tierra,
fértiles vientres de mujer, y cuerpos
y más cuerpos, fundiéndose incesantes
em outro cuerpo nuevo.
Solstícios y equinoccios alumbraron
com su cambiante luz, su vario cielo,
el viaje milenario de mi carne
trepando por los siglos y los huesos.
De su pasaje lento y doloroso
de su huida hasta el fin, sobreviviendo
naufrágios, aferrándose
al último suspiro de los muertos,
yo no soy más que el resultado, el fruto,
Lo que queda, podrido, entre los restos;
esto que veis aqui,
tan sólo esto:
um escombro tenaz, que se resiste
a su ruína, que lucha contra el viento,
que avanza por caminos que no llevan
a ningún sítio. El êxito
de todos los fracasos. La enloquecida
fuerza del desaliento …

 

Para que eu me chame Ángel González

Para que eu me chame Angel González,
para que meu ser pese sobre o solo,
foi necessário um amplo espaço
e um largo tempo:
homens de todo o mar e toda terra,
férteis ventres de mulheres, e corpos
e mais corpos, fundindo-se incessantes
em um novo corpo.
Solstícios e equinócios deslumbraram
com sua luz oscilante, seus múltiplos céus,
a viagem milenar de minha carne
vencendo os séculos e os ossos.
De sua passagem lenta e dolorosa
de sua fuga até o fim, sobrevivendo
naufrágios, agarrando-se
ao último suspiro dos mortos,
eu não sou mais que o resultado, o fruto,
o que tombou, podre, entre os restos;
este que vês aqui,
tão somente este:
um escombro tenaz, que resiste
a sua ruína, que luta contra o vento,
que avança por caminhos que não levam
a nenhum lugar. O êxito
de todos fracassos. A enlouquecida
força do desalento …

 

Eso no es nada

Si tuviésemos la fuerza suficiente
para apretar como es debido um trozo de madera,
sólo nos quedaria entre las manos
um poco de tierra.
Y si tuviésemos más fuerza todavía
para presionar com toda la dureza
esa tierra, sólo nos quedaría
entre lãs manos um poco de agua.
Y si fuese posible aún
oprimir el agua,
ya no nos quedaría entre las manos
nada.

 

Isso não é nada

Se tivéssemos a força suficiente
para se comprimir como se deve um tronco de madeira,
somente nos restaria entre as mãos
um pouco de terra.
E se tivéssemos ainda mais força

para pressionar com toda intensidade
essa terra, somente nos restaria
entre as mãos um pouco de água.
E se fosse possível alguém
comprimir a água,
já não nos restaria entre as mãos
nada.

 

Cumpleaños

Yo lo noto: cómo me voy volviendo
menos cierto, confuso,
disolviéndome en el aire
cotidiano, burdo
jirón de mí, deshilachado
y roto por los puños
yo comprendo: he vivido
un año más, y eso es muy duro.
¡mover el corazón todos los días
casi cien veces por minuto!

Para vivir un año es necesario
morirse muchas veces mucho.

 

Aniversários

Eu observo: como vou me tornando

incerto, confuso,
dissolvendo-me no ar
cotidiano, grosseiros
retalhos de mim, desleixado
e maltrapilho.
Eu compreendo: vivi
um ano mais e isso é muito duro.
O coração pulsa todos os dias
quase cem vezes por minuto!
Para viver um ano é necessário

morrer-se muitas vezes.

 

El derrotado

Atrás quedaron los escombros:
humeantes pedazos de tu casa,
veranos incendiados, sangre seca
sobre la que se ceba -último buitre-
el viento.

Tú emprendes viaje hacia adelante, hacia
el tiempo bien llamado porvenir.
Porque ninguna tierra
posees,
porque ninguna patria
es ni será jamás la tuya,
porque en ningún país
puede arraigar tu corazón deshabitado.

Nunca -y es tan sencillo-
podrás abrir una cancela
y decir, nada más: «buen día,
madre».
Aunque efectivamente el día sea bueno,
haya trigo en las eras
y los árboles
extiendan hacia ti sus fatigadas
ramas, ofreciéndote
frutos o sombra para que descanses.

 

O derrotado

Atrás tombaram os escombros:
fumegantes pedaços de tua casa,
verões incendiados, sangue seco
para que engorde – o último abutre –
o vento.

Tu segues adiante na viagem, até
o tempo chamado porvir.

Porque nenhuma terra
te pertence
porque nenhuma pátria

é e nem será tua,
porque em nenhum país
Pode acolher teu coração vazio.
Nunca – e isso é tão claro –
poderás abrir uma porta
e dizer, simplesmente: « bom dia,
mãe ».
Embora efetivamente o dia seja bom,
haja trigo nos campos
e as árvores
extendam até ti suas fadigadas
ramagens, oferecendo-te
frutos e sombra para que descanses.

 

Otro tiempo vendrá distinto a éste…

Otro tiempo vendrá distinto a éste.
Y alguien dirá:
«Hablaste mal. Debiste haber contado
otras historias:
violines estirándose indolentes
en una noche densa de perfumes,
bellas palabras calificativas
para expresar amor ilimitado,
amor al fin sobre las cosas
todas.»
Pero hoy,
cuando es la luz del alba
como la espuma sucia
de un día anticipadamente inútil,
estoy aquí,
insomne, fatigado, velando
mis armas derrotadas,
y canto
todo lo que perdí: por lo que muero.

 

Outro tempo virá distinto deste …

Outro tempo virá distinto deste.
E alguém dirá:
«Falas-te mal. Devias ter contado
outras histórias:
violinos esticando-se indolentes
em uma noite densa de perfumes,
belas palavras qualificativas
para expressar o amor sem limite,
amor acima de todas
as coisas.»
Porém hoje,
quando a luz do Amanhecer
é como a espuma suja
de um dia antecipadamente inútil,
estou aqui,
insone, fadigado, velando
minhas armas derrotadas,
e canto
tudo que perdi: pelo que morro.

 

Son las gaviotas, amor

Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.
Mar de invierno. El agua gris
mancha de frío las rocas.
Tus piernas, tus dulces piernas,
enternecen a las olas.
Un cielo sucio se vuelca
sobre el mar. El viento borra
el perfil de las colinas
de arena. Las tediosas
charcas de sal y de frío
copian tu luz y tu sombra.
Algo gritan, en lo alto,
que tú no escuchas, absorta.
Son las gaviotas, amor.
Las lentas, altas gaviotas.

 

São as gaivotas, amor

São as gaivotas, amor.
As lentas, distantes gaivotas.
Mar de inverno. A água cinza
mancha de frio as rochas.
Tuas pernas, tuas doces pernas,
enternecem as ondas.
O céu sujo tomba
sobre o mar. O vento borra
o perfil das colinas
de areia. As tediosas
lagoas de sal e frio
imitam tua luz e tua sombra.
Gritos, lá do alto,
que tu não escutas, absorta.
São as gaivotas, amor.
As lentas, distantes gaivotas.

 

Referências:

 

1- González À. Antologia poética; – Madrid: Alianza Editorial, terceira reimpressão, 2008.

 

2- Entrevista ao poeta Harold Alvarado Tenóriohttp://www.arquitrave.com/entrevistas/arquientrevista_Agonzalez.html
3- Entrevista ao poeta Armando G. Tejeda: http://www.babab.com/no09/angel_gonzalez.htm

 

4- Iravedra A. Poesia de La experiência; – Madrid: Visor libros, primeira edição, 2007.

 

5- Fundación Príncipe de Astúrias: http://www.fpa.es/premios/1985/ngel-gonzalez/

 

 

(Jorge Elias Neto é médico, pesquisador e poeta. Capixaba, reside em Vitória – ES. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia e Breviário dos olhos (inéditos). Integrou as publicações Antologia poética Virtualismo (2005), Antologia literária cidade (L&A Editora – 2010), Antologia Cidade de Vitória (Academia Espiritossantense de letras – 2010 e 2011) e Antologia Encontro Pontual (Editora Scortecci – 2010))