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147ª Leva - 02/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Ser um criador é sentir-se atravessado pelos movimentos do mundo. É percorrer a condição humana retendo dela os estímulos necessários para o olhar crítico sobre a realidade. Pode ser também o gesto de compreender as mudanças pelas quais somos incessantemente desafiados. É potência manifesta. Ato de insubmissão. Ser e não ser no território das palavras e imagens.

Talvez as ideias evocadas no parágrafo acima sirvam para situar um pouco a presença de um alguém como Alex Simões entre nós. Suas feições de poeta e performer dizem muito sobre esse ato espantado que é o estar no mundo, colossal ambiente onde reconhecer-se humano é colocar-se o tempo todo à prova. E o poeta em comento não nos entrega versos de mão beijada, posto que nos convida a extrair do caminho poético ímpetos de diálogo constante com esse Outro que, ao fim e ao cabo, somos todos nós, leitores.

Aceitar o diálogo com Alex significa também acolher a partilha sensível de todo o assombro que está no mundo, como nos revela aqui o próprio autor. Tal gesto propositivo denota um movimento que chama atenção não pelo ato em si, mas pela perspectiva que este encerra, qual seja a de que o artista, despindo-se de qualquer afetação pela aura que o ofício supostamente poderia sugerir, opta por caminhar com simplicidade no meio de seus iguais: eu, você, todos nós.

Para ficar nos exemplos mais recentes, as vias poéticas de Alex foram capazes de nos ofertar obras do quilate de “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo, 2015) e “trans formas são” (Ed. Organismo, 2018), todas elas a demarcar a importância desse autor na cena literária brasileira dos últimos anos. Conhecedor da tradição, o poeta sabe transgredir as formas a favor de um engenho criativo que, sem negar referências de outrora, aponta para o reconhecimento da presença de outros modos canônicos no horizonte da poesia.

A partir de reflexões sobre seu novo livro, “assim na terra como no selfie” (paraLeLo13S, 2021), lançado em pleno contexto pandêmico que nos assola, Alex Simões acolhe a Diversos Afins para mais uma entrevista, pontuando impressões sobre o turbilhão contemporâneo em que vivemos, além de descortinar trajetos ligados à literatura e à arte. E é preciso ressaltar o quanto o artista está imerso nas questões de seu tempo, não se furtando a abordar também os matizes políticos e sociais sobre os quais a atualidade de nossos dias orbita.

 

Alex Simões / Foto: Edgard Oliva

 

DA – “Assim na terra como no selfie”, seu mais recente livro, traz algo que é uma marca registrada de sua produção poética, qual seja a capacidade de olhar para nossa contemporaneidade com movimentos de inquietude e provocação. É importante para você ser um poeta que desacomoda as coisas diante do confronto com o seu tempo?

ALEX SIMÕES – “assim na terra como no selfie” é um livro que tem também outra marca registrada de minha produção poética: o trabalho artístico relacional, dialógico. É o resultado de uma conversa com as editoras Milena Britto e Sarah Kersley, que fizeram uma seleção de poemas com o objetivo de mostrar as muitas facetas dessa produção. Eu tendo a reconhecer mais a inquietude do que a provocação no que faço. Creio que provoco, sim, mas menos no sentido de desacomodar do que no de demandar retornos, leituras, respostas, resultantes de estratégias que ao fim e ao cabo querem estabelecer diálogo. Diálogo explicitado nas muitas dedicatórias e referências nos poemas/paródias/pastiches. Esse olhar para a nossa contemporaneidade é inquieto porque parte da constatação de como as coisas são e estão desacomodadas  e quer compartilhar esse assombro diante do mundo, diante deste tempo, que é o nosso tempo. É um olhar que, lembrando Agamben, adere a, e ao mesmo tempo toma distância deste tempo. Quando tomo distância não por nostalgia senão para entender melhor este tempo em que vivo, vejo as coisas desacomodadas e passeio por elas escrevendo poemas, fazendo poemas visuais e performances.

 

DA – O nosso presente traz todo um contexto pandêmico que nos atravessa. E seu livro também está marcado por esse estado de coisas. Enquanto poeta e artista, como tem sido a experiência de lidar com uma atmosfera que impacta nossa condição humana de forma tão avassaladora?

ALEX SIMÕES – Sim, uma parte significativa do livro foi produzida em plena pandemia e em contexto de isolamento bem restrito, o que inevitavelmente aparece em alguns poemas. Tive o privilégio de poder ficar em casa, trabalhar e receber delivery sem precisar sair, sem precisar usar transporte público. Mesmo Uber eu levei um ano para usar, porque nas poucas vezes que me desloquei no primeiro ano foi de bicicleta. O impacto foi muito forte porque perdi alguns amigos queridos e a sensação de que a morte estava me rondando era muito nítida, embora seja uma rara exceção de quem não teve perda na família por causa da COVID. Pessoalmente, foi um momento em que me vi com mais privilégios do que supunha e me redescobri menos sociável do que supunha. Tive a sorte de ter remuneração como artista/agente de cultura, em boa parte por meio de editais financiados pela Lei Aldir Blanc, resultado de mobilização nacional nossa, apesar desse horror de desgoverno que espero esteja no fim do mandato. Além das atividades como profissional de Letras, que revisa textos, dá aulas particulares e atua em projetos que permitiram que eu tivesse alguma tranquilidade para seguir. Faço todas essas ressalvas para dizer que, apesar de tudo isso, não foi nada fácil, não está sendo fácil. O luto não cessa e a sensação de viver à deriva, sob um governo que performa o descontrole e a incompetência enquanto deixa passar a boiada de agenda neoliberal, genocida e ecocida não cessa. Continuo sem saber como lidar, mas muito desconfiado que precisamos reaprender formas de fazer junto, de dialogar e tornar nossos discursos e ações mais acessíveis e factíveis. Ou aprendemos a saber distinguir com quem de fato podemos contar e a flutuar no bote salva-vidas nos acomodando de modo a não desequilibrar ou mesmo rasgar a embarcação, ou afundamos todas, todos e todes.

 

DA – Em 2016, quando você nos concedeu outra entrevista, estávamos vivendo os efeitos de um golpe, consequências estas que nos arrastaram até o cenário de destruição atual. E vimos muita gente saindo do armário e mostrando sua face truculenta, reacionária e fascista em praça pública. O Brasil sempre foi isso e nós que fingíamos não ver?

ALEX SIMÕES – O Brasil foi sempre isso, aquilo e aquilo outro. Somos um país fundado no genocídio e na exploração dos povos originários e dos povos forçosamente transplantados de África para cá. E que desde que virou República, não num passe de mágica, mas em um golpe militar,  tem tido alguns intervalos de (re)democratização em um moto contínuo de um devir que nos prometem desde sempre: Brasil, o país do futuro. Mas somos um país de resistência desses povos, de seus descendentes e de contradições nesses processos que intercalam ditadura e acenos para a democracia, para processos radicais de transformação social também. E tem beleza nessas contradições, tem possibilidades. De fato, para alguns de nós nunca foi possível não ver o fascismo que nos circunda, que nos habita, que nos funda. Não foi no golpe contra Dilma Roussef nem no governo Bolsonaro que o racismo, a lgbtfobia, o machismo e o classismo apareceram para nos assustar. Mullheres, lgbtqiap+, pessoas em situação de rua, negros, ciganos, pessoas com deficiência e alguns de nós que trazemos mais de uma dessas marcas identitárias sabemos bem que se o gigante acordou, alguns de nós nunca pudemos nem sequer dormir sossegados. Mas de fato houve um empoderamento dos que trazem marcas identitárias hegemônicas, e fingem não ter, para se afirmar, para reagir a qualquer possibilidade de mudança.  E é muito sintomático que reajam atribuindo aos outros o que são e o que fazem. Houve uma quebra do pacto do silenciamento e isso não tem mais como voltar. O mito da democracia racial teve que se reinventar e chamar os negros de racistas. Os defensores da ditadura militar justificam a lgbtfobia como reação à ditadura gay. Os machistas justificam suas falhas trágicas com o poder que atribuem à mulher de lhes provocar. Os extremistas religiosos usam sua fé para justificar o ódio que precisam externar. E o politicamente correto é um problema maior que o fato de 84,9 milhões de pessoas no Brasil não terem comida e/ou não saberem se vão comer amanhã. Esse empoderamento foi uma reação a alguns tímidos avanços que não tem como segurar. Você mencionou 2016 e eu preciso lembrar que em 2013 foram gestados alguns incômodos que ainda não fomos capazes de entender e que resultaram em parte no golpe de 2016. As contradições nos constituem e precisamos conversar com/sobre elas. E decidir que projeto de país queremos, se é que queremos um país. Eu quero, com as contradições e com as possibilidades de conversar com sobre elas. E é importante lembrar: o nosso país não está sozinho nessa, o planeta está precisando fazer DR.

 

DA – Há um quê de memória afetiva permeando “assim na terra como no selfie”. Na sua visão, qual o papel que os afetos têm diante de um mundo que parece não se importar muito com a singularidade das experiências de vida?

ALEX SIMÕES – Sim, tem muito de memória afetiva nesse livro. E mesmo em alguns poemas em que lanço mão de recursos da escrita não-criativa, buscando povoar a lírica com polifonia, com outras vozes que não a minha, tem afeto e tem memória envolvidos. Por exemplo, no poema ready-made “sessão de poesia para a tropa”, em que transcrevo uma parte do depoimento à Comissão da Verdade por Gilberto Natalini, que foi barbaramente torturado pelo Comandante Ustra na ditadura militar,  eu trago a memória de um outro permeada de dores para um poema porque é o meu modo de agir no mundo, de demonstrar empatia e me posicionar sobre o horror. T.S. Eliot, no ensaio “A função social da poesia”, defende que o poeta tem um compromisso radical com a língua,  porque a poesia trata de nossa capacidade de sentir numa língua, que é  mais do que expressar sentimentos numa língua. Se temos afeto, afeição, se afetamos e nos sentimos afetados por coisas e pessoas, é porque temos um repertório que nos foi ofertado pela poesia. E claro que quando me refiro à poesia, estou tratando da mãe das artes. As artes nos ensinam a sentir. Quanto mais limitado for o nosso repertório artístico, menos capazes somos de nos sentir afetados e de sentir numa língua. E não pense alguém que não me conhece e esteja lendo esta entrevista que falo de um repertório canônico, da alta cultura, para os eleitos. A amplitude de repertório artístico passa pelo popular e pelo erudito, pelas linguagens artísticas e por tudo aquilo que estiver fora da minha bolha. Um país que dá as costas para a sua riqueza cultural, o faz porque esse gesto acompanha um desdém para tudo o que promove essa riqueza, que é a pluralidade. O papel dos afetos diante desse mundo insensibilizado me remete ao Padre Julio Lancelotti pegando uma marreta e quebrando as pedras que colocaram embaixo do viaduto para impedir que as pessoas em situação de rua pudessem se deitar.  Ele, que não é um artista, mas um sacerdote, performou um gesto de quem se sente afetado e afeta na ação. Uma parte do país que não percebe a importância e a urgência desse gesto não tem repertório artístico que lhe permita  acessar essa grandeza. Este país precisa ouvir mais Rap, mais pontos de candomblé e umbanda, precisa voltar a escutar os provérbios (lembro aqui do conceito de literatura-terreiro, de Henrique Freitas), ler mais autoras negras e LGBTQIAP+, frequentar mais museus como quem anda nas ruas e aprender a olhar as ruas como quem visita um museu, transitar pelas diferenças, tendo as artes como bússola.

 

DA – Numa resenha publicada aqui na Diversos Afins, Sandro Ornellas vislumbra seu livro também como um labirinto de hesitações. No seu engenho com as palavras, lhe soa atraente a ideia de um se deixar ir, mergulhar fundo, estar perdido, voltar ou até mesmo desdizer o ontem?

ALEX SIMÕES – O autor do fabuloso “dói-me este mundo de violentas esperanças” é um grande poeta e conhecedor de poesia e, para a minha sorte, conhecedor também das coisas que eu escrevo-faço. Sandro Ornellas vem fazendo, entre muitas outras coisas lindas, um trabalho de leitura crítica de seus conterrâneos-contemporâneos, que é digno de nota. E quando ele evoca a ideia de Valery da hesitação entre som e sentido, ele aponta numa direção que cai muito bem para definir o que tenho tentado fazer.  Ter o controle para perdê-lo, cartografar por não saber ler mapas, apoiar-me em formas fixas para implodi-las, ter como estilo a falta de estilo, “ser superficial, no fundo”. Eu cada vez menos sei escrever poemas e fazer livros. E vou fazendo, porque “é mais difícil do que não fazer”. Por um lado, tem a síndrome de impostor envolvida porque, de fato, tem muita poesia incrível já feita e que está se fazendo e eu leio sempre muito menos do que deveria e estou sempre me perguntando se vale mesmo a pena escrever e gastar papel e tinta para publicar o que escrevo. Por outro lado, tem uma alegria em abandonar o desejo de abandonar o barco e seguir navegando à deriva, sem remos. Tem um gosto pelo fazer sem saber aonde vai dar, que com muita frequência não dá em nada mesmo, mas que de vez em quando vira poema, livro, performance, poema-objeto, derivas. No poema “a mulher de Lot é um artista”, falo um pouco de um dos meus fascínios, que é observar a relação do músico com o seu instrumento, uma relação concreta entre o corpo e um objeto, que se amalgamam a ponto de nos parecer sem esforço, intuitivo. Eu não sei se consigo, mas tento me relacionar com a vida, com a arte-vida, assim. Assim como? Do que mesmo eu estava falando?

 

Alex Simões / Foto: Edgard Oliva

 

DA – Autores escrevem para os outros ou para si mesmos?

ALEX SIMÕES – Não saberia dizer para quem as autoras e os autores escrevem. Mas desconfio que os textos que são escritos por elas e eles e ilus se comunicam entre si e não se bastam porque demandam que outras pessoas os leiam para que existam, para que façam sentido. João Cabral vai aparecer de novo nessa conversa porque ele escreveu para o leitor Ninguém, com quem me identifico. As autoras e os autores que me interessam  costumam escrever com muitos outros e consigo mesmos. Por exemplo, Luciany Aparecida e Itamar Vieira Júnior, cada um(a) a seu modo, trazem muitos outros e outras em seus textos sem se perder.

 

DA – Sobretudo nos últimos anos, com o avanço do digital, mais e mais autores se lançaram ao desafio de expor seus textos. Ao lado disso, vimos também o surgimento de editoras independentes por todos os cantos do país, oportunizando vozes das mais diversas. Está todo mundo certo no desejo voraz de ser publicado ou, na sua visão, a maturação das obras é algo que anda se dissolvendo no meio da pressa contemporânea?

ALEX SIMÕES – A Internet sem dúvida promoveu o “escribicionismo”, sobretudo com o advento dos blogs, que um pouco antes das redes sociais deram voz e vez a pessoas que queriam expor seus textos para o mundo. Bastava ter computador e ideias para compartilhar em forma de textos. Claro está que vivemos no Brasil e que o acesso às tecnologias digitais e mesmo às tecnologias da escrita ainda são muito restritas. Dentro dessa bolha que vivemos, os blogs e as redes sociais possibilitaram novas formas de divulgar e distribuir seus textos, o que por si é incrível. Eu confesso que ainda hoje tenho um certo deslumbramento diante da web, no que ela significa em termos de acesso às e compartilhamento das informações. Milton Santos já havia apontado, por exemplo, sobre o impacto que as lan houses provocaram nas comunidades periféricas. A internet mudou nosso modo de olhar o mundo e por consequência nosso modo de olhar e ler os livros. Esse boom de editoras independentes está relacionado com este tempo. Neste país que historicamente sempre teve uma faixa muito restrita da população com amplo acesso ao livro e à leitura, as possibilidades que a internet e as editoras independentes oferecem são motivos de celebração por si só. As pessoas estão mais expostas a situações de letramento e mais expostas aos livros, que não podem mais ser entendidos apenas em sua configuração física. Mas esse acesso à internet também impactou o modo como nos relacionamos com os livros. A  experiência da leitura, do contato com os autores e com o objeto-livro tem sido mais que nunca valorizada, especialmente no contexto da pandemia. Ninguém fala mais em morte do livro físico e isso se deve em boa parte ao trabalho incrível promovido por editoras independentes em todo o Brasil, que não só através de redes sociais e sites, como também em feiras e eventos de publicação. Temos círculos de leituras e redes de leitores em diversas ações que valorizam escritoras, literatura negra e periférica, literatura lgbtqiap+, há uma revalorização da literatura de cordel ao mesmo tempo que há uma intensa produção de poesia/literatura contemporânea. E temos também uma rede de bibliotecas comunitárias que vêm fazendo uma revolução silenciosa no processo de formação de leitores. Eu prefiro olhar pra essas cenas que despontam e que parecem estar mais vinculadas a esforços coletivos e de formação do que pensar na maturação necessária das obras. O tempo urge e mais que nunca precisamos pensar em formar leitores desde a tenra infância, preparando-os para ler livros e telas, aprendendo a filtrar informações para desenvolver senso crítico. Aliás, essa deveria ser a tônica de políticas públicas para o livro e o leitor, mas no momento não temos governo federal. O que as editoras e os círculos de formação e todas as iniciativas de promoção do livro e da leitura vêm fazendo é muito e precisa ser valorizado.

 

DA – Salvador lhe deu régua e compasso? 

ALEX SIMÕES – A Cidade da Bahia me deu régua e compasso, sim. Não por acaso meu novo livro se chama “minha terra tem ladeiras” (Caramurê, no prelo), que é uma referência explícita a essa cidade. Nesse livro e no penúltimo (no meu corpo o canto: #experimentoscomletrasurbanas) a cidade de Salvador é mais que tema, é moldura dos poemas discursivos e visuais. Para o bem e para o mal, meu modo de ser está sempre georreferenciado nessa origem. É a cidade que me pôs no mundo, que me ensinou um modo de circular pelas ruas, de relacionar com as pessoas e que passa muito pelas artes. A minha criança cresceu ouvindo os tropicalistas e foi apresentado aos modernistas, aos pós-modernistas, a uma miríade de poetas com Caetano, Gil, Bethânia e Gal, que se escutava muito na minha casa. Quando li Gregório de Matos na escola, eu já sabia “Triste Bahia” de cor. Ter nascido e criado em um bairro de periferia, de configuração urbana, foi definitivo também para entender desde muito cedo que eu precisava me mover naquele folclore que tentavam me vender como Bahia terra da alegria. É um habitat de contradições que odeio amar e amo odiar. Dá muita raiva de viver numa cidade racista, classista, misógina, mas eu olho a Baía de Todos os Santos e passa. A imagem que projeto de Salvador quando estou fora e tenho saudades diz muito dessa contradição: é vista da Bahia com a Ilha de Itaparica ao fundo. Quando nado na baía, me sinto em casa.

 

DA – Apesar das coisas que lhe afetam e incomodam, Alex Simões olha para a vida hoje com mais serenidade e esperança?

ALEX SIMÕES – Há uma paciência revolucionária que estou aprendendo a cultivar. Tenho tido mais consciência do que não sei, do que não posso e principalmente do que não quero fazer. A paciência revolucionária já traz em si a esperança, que nunca deixei de ter. Acho que o que tem mudado é que estou mais paciente comigo mesmo e mais atento para ler os nãos, os silêncios, os desvios de rota, as rupturas, as derivas. E eu adoro derivas, o que também traz embutida uma esperança. As muitas coisas horríveis que acontecem neste país e neste mundo não são novas. Talvez a novidade esteja no modo como alguns de nós as estamos vendo e como estamos nos vendo em relação a essas coisas.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ALEX SIMÕES – Esta resposta está no poema “O artista inconfessável”, de João Cabral. Todos os dias me faço esta pergunta e escrevo, mesmo quando não escrevo, porque nos dias “não” me pergunto por que não estou escrevendo e me sinto mais desconfortável do que quando leio com algum desconforto o que escrevo e penso que poderia ser muito melhor daquilo que pude escrever. Porque tem um ritmo, uma imagem, uma ideia que eu persigo e que eventualmente consigo dar uma forma, uma possibilidade de existência, e porque sou atravessado por ritmos, imagens e ideias que muitas outras e outres e outros criaram e criam e me provocam a seguir atravessado e atravessando. Porque ainda não sei escrever e, por isso, escrevo.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.

 

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85ª Leva - 11/2013 Destaques Olhares

Olhares

A inquietude poética de Julia Debasse

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Julia Debasse

 

Com quantos arroubos de consciência são feitos os traçados de um artista? Quiçá nove entre dez pessoas falarão da complexidade que é conceituar de modo redondo um determinado estado de espírito quando o tema é apreender a arte. E se tentarmos mirar um mundo que transborda ante nossos olhos, mais distantes ainda ficaremos de um mínimo entendimento sobre as coisas.

Que a arte encerre em si mesma, então, uma estrada autônoma, capaz de se reinventar a cada intervenção do olhar humano: eis o desejo que se funda e nos instiga os sentidos. Se o desafio é falar de um mundo povoado de cenários contrastantes, nos aproximamos do ponto de vista de gente como Julia Debasse.  Por ousar, de tal modo em sua lida com a pintura e desenhos, essa artista carioca nos dá a impressão de que cada investida sua é um convite a uma esfera insone da vida. Nela, concebe-se a existência como uma cadeia frenética de sinais, muitos deles apontando para uma visão menos suave sobre os ímpetos humanos.

Não é exagero tencionar que Julia abraça uma estética transgressora, sobretudo pelo fato de que seus traços e formas demonstram rejeitar qualquer espécie de encantamento gratuito. Para ela, importa uma visão mais pungente sobre temáticas que remontam ao melindroso universo das emoções. É, por exemplo, o caso de se perceber o amor com olhos desnudos e, portanto, desabitados de devaneios e ilusões. Desse modo, a artista propõe a revelação do que se pode chamar de a face crua das coisas, porção esta marcada pela companhia inseparável da lucidez.

Arte: Julia Debasse

Conduzida às artes plásticas por sua paixão pela música, Julia Debasse parece ter encontrado um norte vigoroso para consolidar suas múltiplas formas de retratar o mundo. Seja na pintura ou no desenho, uma inalienável inquietude faz com que olhares e sentidos da artista permaneçam despertos em torno duma atmosfera muito peculiar a quem vislumbra o todo sem dissimulações.

Utilizando-se de cenas íntimas e outras tantas advindas do universo externo e também ficcional, Julia semeia provocações e questionamentos para, em seguida, colher soluções poéticas. Diante da densidade dos dias, a artista opera conversões e instaura um ambiente também habitado pela simplicidade dos gestos e tons da vida. Para os desvãos humanos, não se promete redenção ou qualquer coisa que o valha, apenas o ato imperativo de seguir em frente sem cultuar em demasia um deus denominado futuro.

Arte: Julia Debasse

 

 

* A arte de Julia Debasse é parte integrante da galeria e dos textos da 85ª Leva.

 

 

 

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69ª Leva - 07/2012 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Estar no mundo é não passar impune pelas vias feitas de matéria e alma. É dizer mais: não fugir ao embate proporcionado por tudo aquilo que está encerrado nos mais distintos cenários. O olhar, esse intricado instrumento de inserção, é algo muito além de uma mera janela para a dimensionalidade do múltiplo que nos acomete. Ele parece ganhar mais sentido quando mexe nas densas tramas de que somos feitos, provocando-nos e direcionando nossas atenções para uma necessidade de rompermos com o óbvio e suas traiçoeiras armadilhas. E não há como se falar em provocação sem pensar em transgressão. Qualquer ruptura que se pretenda levar a cabo, traz em si mesma a perspectiva de uma coerência de propósitos, para que não reine sorrateira a sombra do discurso vazio.

No caminho das palavras, utilizar a transgressão como recurso criativo representa verdadeiro desafio a um autor, pois tal empreitada requer doses bem ministradas de lucidez e renovação do olhar. Tais atributos parecem se encaixar com precisão no modo de escrever da poetisa baiana Daniela Galdino. Dona de uma linguagem que sabe a instigantes percursos existenciais, Daniela sabe manusear palavras como quem lapida a pedra fundamental das nossas imperfeições. Com “Inúmera” (Editora Mondrongo), seu mais novo livro de poemas, a autora demarca, de modo especial, um lugar no mundo, fazendo convergirem sensações que dialogam com terrenos complexos da natureza humana. A obra pontua travessias feitas de delicadezas, intensidades e provocações, utilizando-se também de um apelo erótico muito bem posicionado frente às nossas dualidades e contradições. Ali, a multiplicação do “eu” é artifício valioso nas mãos da poetisa, fazendo com que, sob a forma de versos, contemplemos a possibilidade de sermos simultaneamente um e todos.  Com algumas participações em eventos literários, antologias e organizações de obras, Daniela também publicou “Vinte poemas CaleiDORcópicos” (Via Litterarum). Graduada em Letras (UESC), a autora é Mestre em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS), Doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA) e professora de Literatura da Universidade Estadual da Bahia. No breve diálogo com a Diversos Afins, é possível constatar que estamos diante de uma criadora inquieta, cujo compromisso maior é nitidamente o de tecer vias que confiram significados consistentes ao que chamamos vida. Não há regras fixas para isso e Daniela aposta firmemente que, se hoje estamos aqui, é porque nos foi dada a capacidade de também desconfiarmos de tudo.

Daniela Galdino/ foto: Felipe Thomaz

DA – “Inúmera”, seu mais recente livro, devota atenções especiais a um lirismo feminino vigoroso, capaz de observar o mundo, este grande útero que guarda nossos acessos, com olhos de lucidez, provocação e algum mistério. Na gestação de tais versos, o que lhe parece mais inquietante?

DANIELA GALDINO – Inquietante, para mim, é viver. Dos trânsitos e transes cotidianos, capto a matéria de poesia, o combustível para “assustar palavras” e gerar imagens. Eu fico digerindo a vida, aquela por mim experimentada e também a supostamente experienciada por outras/os. A arte tem dessas coisas, não é mesmo? A possibilidade dos desdobramentos. “Inúmera” é uma galeria de pulsações. Eu já disse, numa brincadeira: as percepções ficaram doendo, pesando, cutucando, provocando a minha alma… Enquanto eu não devolvi essa provocação em forma de imagens poéticas, não tive sossego (risos).  Aí eu me lembro de Hilda Hilst: “Estou mais do que viva: embriagada.”

 

DA – Nos seus percursos criativos, a ideia da ordenação do caos interior lhe soa como algo atraente?

DANIELA GALDINO – Ao pensar numa resposta, recordo de outra poeta, Cecília Meireles: “a vida só é possível reinventada”. A ideia de “ordenação do caos” é muito sedutora, torna-se uma grande pretensão, um desafio delicioso. O que há de atraente nisso – a meu ver – é que não consigo atingir o grau máximo de ordenação do caos interior. Ou seja, a tarefa parece mesmo o trabalho de Sísifo, condenado a empurrar uma pedra até o cume de uma montanha, sendo que essa pedra rola novamente, provocando a repetição do ato. No entanto, segundo a leitura de Albert Camus, na cena intervalar Sísifo acentua a consciência e se revolta. Então, para mim, ordenar o caos anterior é uma tarefa que não cessa, que desafia o cotidiano. Não é o caos que gera a luz da estrela bailarina nietzschieana?

 

DA – Acredita na literatura como sendo um instrumento de transformação humana?

DANIELA GALDINO – A Literatura é a minha transformação. Lendo ou escrevendo literatura, eu experimento um desdobrar constante, “transito por rotas imprecisas”. Sempre brinco dizendo que acredito na Arte como forma de transgressão, e que se não for para transgredir de alguma maneira, melhor escrever manual de instrução, bula de remédio. Eu não acredito que o possível e a realidade sejam isso que o mundo nos oferece todos os dias via bombardeio de desejos pré-fabricados para consumo em larga escala. E por mover essa “descrença” acredito na força da expressão artística e na força da palavra literária, em especial. A Literatura é o descortinar de nós mesmos, a possibilidade de reescrever o possível. Ela é também a trapaça da linguagem e com a linguagem, como observou Barthes. Sendo assim, movendo sensibilidades, alterando olhares, desestabilizando mundos interiores, a Literatura transforma sim: a linguagem, em primeiro lugar. E como nós somos linguagem, somos alterados, transformados produzindo e lendo Literatura.

DA – Abraçar-se à transgressão seria, na verdade, negar os atalhos propostos pela dita pós-modernidade?

DANIELA GALDINO – Acredito numa poética do pós-modernismo nos termos colocados pela Linda Hutcheon. Aqui não quero fazer discussões acadêmicas ou enveredar por abordagens teóricas, mas do que Hutcheon apresenta, capto justamente os aspectos transgressores dessa poética pós-moderna, esse modo de constituir-se, de ser sendo: ser um/a forasteiro/a de dentro (ou adotar um “posicionamento duplo paradoxal”), investir no potencial da ironia para implodir a dita “arte séria”. Em termos artísticos, valorizo bastante o caráter ex-cêntrico, que significa estar na fronteira ou na margem e, ao mesmo tempo, provocar implosões nos modelos. Os discursos podem ser objeto de reapropriação constante – seja o religioso, o político, o literário… – e nesse jogo o que me interessa, nos exercícios de reapropriações e implosões, é revelar uma perspectiva diferente, brotar o inusitado no peito do leitor.

DA – Em “Inúmera”, a convergência masculino/feminino ganha um contorno bastante especial, como se ali tivéssemos a perspectiva de um novo gênero, sem amarras usuais. Como você percebe tal questão?

DANIELA GALDINO – Amarra é um termo que eu quis apagar em “Inúmera”. Essa convergência é perceptível mesmo, flutua na poética, sobretudo na segunda parte do livro, intitulada “É passeio abissal”. Ali estão os poemas deliberadamente eróticos, ali está o corpo despojado de rótulos – sobretudo livre do carimbo do pecado. O prazer é linguagem também, o corpo aparece numa outra cartografia (são “mapas distorcidos por cartógrafos loucos”, como no poema “Saudade amanhecida”) e, nesse novo estado, a fusão acontece. O inusitado brota já no poema “Obra de fricção”: “gosto de homens que tem buceta imaginária” / daquelas bem colocadas na coxa esquerda”. Eu desejei investir nisso, pois entendo poesia como recriação do real. E entendo a realidade comportando o invisível, o recriado (ou melhor, o recriando-se). Daí, o que você chama de fusão, ainda que tensa, é uma fusão. É tensa porque mobiliza forças que eram entendidas como díspares, o desafio fica sendo a constituição, a partir das imagens poéticas, de uma possibilidadecorporal, prazerosa, gozosa sem o punhal da violência simbólica; e muito próxima do refazer-se. Em “Inúmera” o corpo não é objeto.

DA – Acredita que a condição de ser mulher poeta tem algo a ver com uma certa busca por uma virilidade esquecida nalgum ponto da jornada?

DANIELA GALDINO – O que é ser viril? A quem pertence a virilidade? O dicionário diz que viril é aspecto próprio do universo masculino, uma condição do varão. O dicionário, enquanto espécie de lei, para mim, é insuficiente. Não foi Drummond quem disse: “as leis não bastam/ os lírios não nascem das leis/ meu nome é tumulto e inscreve-se na pedra”? Pois sim… Eu não busco a virilidade perdida – aquela do dicionário! Certa feita, um poeta (e interlocutor constante) me perguntou: “Daniela, você faz parte do grupo de autoras que escreve com a vagina?” Conheço bem esse poeta, ele queria me provocar, obviamente, e usou uma metáfora que, ao seu ver, era até mesmo pejorativa. O caso é que eu adotei essa metáfora, e a adoção foi ao meu modo: da vagina sai gente, quando não sai gente, sai sangue. Gente é vida brotando, sangue percorrendo os atalhos do corpo também é vida jorrando. Então, eu entendo que escrever com a vagina é imprimir vida às imagens poéticas. Gestar, colocar movimento, som, cor, cheiro, movimentar sensações. Isso é escrita viril? Não sei. Viril de vigor descamba no que acabei de dizer: vida. Mas eu confesso: não estou à procura de uma  “virilidade perdida nalgum ponto da jornada”.

Daniela Galdino/ foto: Milena Palladino

DA – Podemos suportar a civilização sem poesia?

DANIELA GALDINO – Repare bem.  Eu acho que o mundo, como nos é apresentado, e como foi construído (ou destruído) até então, é insuportável sem poesia. Essa é a minha posição, a forma como me lanço e reconstruo a realidade. No entanto, bem sabemos que essa postura não é nada consensual. Costumo repetir: “você já soube de algum caso de uma pessoa que enfartou porque passou 1 ano sem ler um livro de poesia? Alguém que definhou por falta de leitura poética?” Eu nunca soube de uma história assim, mas sei que o senso de “cidadania” e de “humanidade” fica diminuto quando muitas pessoas são impedidas de exercer o seu “poder de consumo”. Quem nunca se sentiu com um sinal de menos por não ter condições de adquirir as novidades mercadológicas para uma vida mais feliz, prática e confortável? Eu estou enveredando pela ironia…

A poesia não tem verdade(s) para professar, não é a chave para a resolução das nossas angústias, poesia não é autoajuda. Por isso mesmo, ela é necessária: dialoga com a nossa sensibilidade, desafia as formas usuais de entendimento do mundo, provoca a nossa humanidade. Compreendendo a poesia dessa maneira, eu repito: o mundo torna-se insuportável sem ela. Por isso leio poesia, por isso escrevo poesia. “Por uma vida menos ordinária pintamos o chão”, bradam os rapazes da Nação Zumbi – e eu faço coro com os descontentes.

DA – Somos facilmente seduzidos pelos apelos do consumo. No entanto, parece ser tarefa homérica atrair pessoas em torno da leitura. Na sua visão de educadora, o que podemos fazer? Acredita num caminho de formação de leitores?

DANIELA GALDINO – Acredito, sim. É o que move a minha ação como educadora, formadora de docentes. No entanto, há que se ampliar essa noção de leitura. Sou bem freiriana nesse sentido. Paulo Freire investiu na leitura de mundo como algo que precede a leitura da palavra, sendo componente fundamental na formação dos sujeitos. E a leitura de mundo comporta o para além da palavra. Se a gente ponderar isso com mais atenção, vai surgir um caminho para a formação de leitores de Literatura, por exemplo. A palavra literária é grávida de mundo, bem sabemos. E a leitura sensível é condição necessária para o trânsito pela linguagem literária.

Eu não tenho receitas para socializar, mas posso dizer que tenho encontrado pessoas por aí afora, nos mais diversos espaços sociais, atuando com vigor nessa área de formação de leitores – inclusive tendo as linguagens artísticas como grande aliada.

Agora eu lembrei de uma experiência de ciranda de leitura literária que ocorreu num acampamento (movimentos de luta pela reforma agrária) no sul da Bahia. A coisa foi simples e impactante: uma educadora (em formação) levou algumas obras literárias para socializar com a comunidade, no entanto, como muitos sujeitos não eram alfabetizados, essa jovem iniciou sessões de leitura coletiva, o que acentuou o senso comunitário. E as pessoas se emocionavam, se encantavam com as narrativas. Ao final da experiência, ao receber um prêmio concedido pela UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz), essa jovem socializou o seu desvelamento: a sua família vive sob o barracão de lona, não havia energia elétrica, usava-se o candeeiro. Ela acordava de madrugada para ler esses livros. Depois, lia para os outros. Só depois disso ela afirmou entender que a estante de livros que existia na comunidade não era para enfeitar o barracão de lona preta. Havia vida ali.

Nessa trajetória recente de divulgação de “Inúmera” também vivi duas experiências muito marcantes. A primeira aconteceu em Salvador, no CEPAIA/UNEB, no dia do lançamento do livro. Foi um dia tenso, greve da polícia… Cheguei ao local do evento um tanto apreensiva e entrei no primeiro lugar disponível para ajeitar o figurino da performance (trabalho com essa linguagem). Num banheiro minúsculo encontrei Sanda, auxiliar de serviços gerais. Em meio àquela agonia toda, Sandra ia me dizendo: “nossa, eu gostei do teu livro. Nele a mulher pode tudo”. Imediatamente, perguntei: “mas como você sabe disso, se ainda nem lançamos o livro?”. Ela havia lido, de uma só vez, todos os poemas, aproveitando o descuido de alguém que esqueceu um exemplar sobre a mesa. Eu presenteei Sandra com “Inúmera”. E noutro dia, num samba, nos reencontramos e ela me disse: “olha, eu conheci homem com 16 anos, mas só fui gozar aos 25. No seu livro aprendi que gozar faz parte da descoberta da mulher. E muitas mulheres não têm a liberdade de gozar”.

A outra experiência foi em Olinda, no pós-carnaval. Num domingo cultural eu encontrei dona Conceição, professora aposentada, com formação em magistério. Ela deve ter, aproximadamente, 70 anos. Dona Conceição leu todo o livro, teceu comentários e me conduziu até a cozinha da pousada onde estávamos, fazendo questão de socializar os poemas com as cozinheiras. Aquilo me deu uma emoção retada, pois ver aquelas mulheres manuseando o livro, lendo os poemas com os seus trajes de trabalho, suas toucas e luvas, foi inusitado para mim.

Acho que histórias assim comprovam que a leitura da palavra – e da palavra literária em especial – não é um elemento de distinção, um privilégio de escolhidos. Ela é um direito social – e como tal deve ser trabalhada. Ler com olhos não convencionais, ler com o espírito, ler com sensibilidade independe de condição social.


DA – “Eu sou muitas pessoas destroçadas”, arremata em versos Manoel de Barros. Tal sensação também parece impregnar a poetisa Daniela. A ideia da fragmentação das personas a serviço do discurso poético alimenta o jogo dos estranhamentos?

DANIELA GALDINO – “Eu sou muitas pessoas destroçadas”. Eu sou leitora de Manoel de Barros. “Eu sou maior por dentro”, como está no poema Conselho Infantil… Mas eu penso nesse “eu” como uma conjugação de vários modos de ser. Isso escapa a qualquer forma de identificação da poeta Daniela Galdino – “Inúmera” não é um diário. Os vários modos de ser comportam as experiências alheias, sobretudo as femininas. É esse o mote do livro: “sou intrusa, sou inúbil, sou inúmera” – um exercício de multiplicidades conjugadas. A experimentação dos desdobramentos a que me referi anteriormente. Talvez aí resida a ciranda que o livro tem gerado. Frequentemente, recebo fotografias de leitoras/es de Inúmera.  São imagens de pessoas diversas (idosas, jovens, homens, mulheres, gays…) nas mais inesperadas situações, manipulando o livro em cenários próximos (Brasil) e distantes (terras estrangeiras). O que me surpreende e encanta, nessas imagens, é que as pessoas perdem o pudor: se deixam fotografar em locais públicos, diante de monumentos, locais turísticos, na intimidade da cama (com o/a parceira/o).  Já houve até uma sequência de fotos com nu artístico – e o mais belo de tudo: são pessoas que até então nunca haviam experimentado a nudez dessa maneira. Não preciso dizer que isso me encanta bastante. Essas imagens, antes de tudo, revelam essa conjugação dos diversos modos de ser sendo.  Elas são belas porque surpreendem, são fortes porque impulsionam que outras/os entrem na ciranda. Nos estranhamentos a gente se reconhece.

DA – Entre palavras e percursos humanos trilhados, no que acredita a operária das ruínas Daniela Galdino?

DANIELA GALDINO – Sou entusiasta das artes, amante do invisível, concubina do inusitado. Também flerto com as realidades minúsculas e, ao mesmo tempo, sou uma megalomaníaca convicta. No que acredito? Acredito que tenho que manter a minha desconfiança perante as certezas perenes… Quem sabe daí sai o alimento para recriar mundos – aos menos os meus mundos interiores…

Eu respondo novamente com Hilda Hilst:

“Bebendo, Vida, invento casa, comida /E um Mais que se agiganta, um Mais / Conquistando um fulcro potente na garganta / Um látego, uma chama, um canto. Amo-me. / Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos / Quando não sou líquida”.

 

 

Daniela Galdino/ foto: Milena Palladino

 

 

– TRÊS POEMAS DE “INÚMERA” –

 

OBRA DE FRICÇÃO

 

Gosto de homens
que têm buceta imaginária
daquelas bem colocadas
na coxa esquerda.

Gosto de homens
aventureiros da carne e do osso
daqueles que vibram
com o encontro das nossas bucetas.

Esses homens incomuns sabem,
no relincho do segundo,
no piscar do silêncio,
que eu explodo blasfêmias
com a voracidade vulcânica.

Esses raros homens sentem,
no calor da obra friccional,
que na dessemelhança
da minha realidade
nada é mera coincidência:
primeiro, o diálogo de bucetas.
Depois, a penetração por trás.

 

 

ARDIL

 

recolher
a matéria
que é de
silêncios:

eu não
quero
levantar
a palavra
em vão

porque…

quando
eu falar
irão
despregar

todas
as estrelas
do meu
céu da boca.

 

 

PROCISSÃO LUNAR II

 

Veste o teu hábito de penumbra
afasta aromas de naftalina
orna a fronte com um véu opaco
flutua como uma noiva que não foi.

Abre a gaveta da memória
traze aquela laço delicado
vede a seda já sem brilho:
com ele secarás a lágrima da santa.

Levanta dos precipícios de silêncio
toma o fôlego aos ventos esparsos
ergue o andor pesado das esquecidas
nele estarão teus sonhos mofados

Vede o tempo que escorre
ouça: estás em atraso.
sinta a lacuna, crede: a vida
é uma procissão que não sairá.

 

 

“Inúmera” está disponível para compra no site da Editora Mondrongo