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126ª Leva - 04/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Santana

 

Foto: María Tudela

 

ANDORINHA

 

As andorinhas existem!
Saíram das páginas do livro
E resolveram viver
Nas alvenarias
Do invisível.

Mas a tua ausência dentro de mim é puríssima dor.
Não há voo que dissipe minha esperança.
Nem vento, nem rosa, nem crença
Que suavize a melancolia parasita nos ossos.

Alheios desejos nos levaram
Para ilhas opostas:
Tu foste para Creta.
Eu, para o Crato.
E do anonimato dos dias
Tenho feito poesia secreta
E prosadura.

 

 

 

***

 

 

 

CÂNHAMO

 

O tempo envelhece o telhado
E desola os meus ovários.
Teço cânhamo em São Luís.
Teço o dia inteiro,
Teço a noite inteira,
Teço em todas as horas do meu dia
O tecido que não vestirei.

Invado rios em busca
Das dunas e me acanho diante
Do teu nome de assombros
Diante da tua boca de veleiros
Que não me deixa falar
Diante da tua presença
Que não me deixa existir.

Minha terra tem buritis
E no meu coração
Há um curso de cicios silenciados.
Discursos emudecidos.

Há emaranhados de maranhões em mim.

 

 

 

***

 

 

 

LANGOR

 

Há sol demais na paisagem.
Moinhos de vento
Atormentam meu dia.
O casario recolheu o rutilar
Da minha vontade,
E eu, à sombra, deitei minha vocação
De campesina.

Minha boca pede água,
Somente meus pés pedem língua.
Tenho cansaço nas veias
De tanto deixar tecidos
Soltos no caminho.

Pescoço dança violoncelo,
Cintura requebra em violinos,
O meu vagar já é tão certo
Quanto a infelicidade dos dezembros.

Vem! Rega meu baixo ventre
Com aquilo que, em ti, é abundância.
Mas não venhas com esperas!
Estou mole, mole.
Quero abrir-me as pernas ao vento.

 

 

 

***

 

 

 

RECEPTÁCULO DA BONDADE

 

A minha infelicidade vem da tua casa à beira-mar
Vendo-me correr o meu vagar pela praia.
Sei da tua ausência pelo cheiro,
Pela falta de vida nas ondas.
Eu, cega em antigas saídas da alma,
Não quero meus textos frouxos na tua película
De vinhática virilidade servil.
Tampouco quero o teu francês na minha língua,
Tramando aturdimentos.

Não quero a tua delicadeza fingida
Dedilhando minha vagina expressionista.
Bem certa estou de que tu és
O delator dos meus delitos.

Não quero o teu anel roçando
O meu desejo lírico com promessas,
Nem profecias proféticas
De outra vez amar,
Amar o mar da nossa terra.

Não quero meu livro de versos íntimos
Entre teus dedos,
Imunes à eternidade das ostras negras,
E aos lírios lilases do meu quintal.
Nem quero saber dos teus dias de suntuosidade,
Durante a minha ausência paladina.

Sou a mulher por quem a tua esfinge procura
Nos pesadelos cheios de gozo e fortuna de afeto.
Sou toda brusquidão e rudezas de amor,
E rezo por nós dois à toa, sem estações,
Sem toadas nem eras, nem bolos de carimã.

Quero pousar no teu dia vez ou outra
Para assoprar tua gravata,
E desatar os nós do teu sapato lustroso.

És bárbaro,
Na arrogância dos diamantes
Que escapam do teu palato duro.
Deixa-me dormir em paz!
Sem que interrompas o meu sono
De exaustão operária.
Dez horas depois,
Está a acariciar meu sono de menina eterna,
Ao som da tua desgraça de poeta sem portas,
Sem machados nem cancelas.

Quero ofertar minhas soluções e meus soluços
À face do que em ti é Absoluto e é Eterno.
À face do que em ti é Amatividade e Amavios.
Apesar das derrocadas, das implosões,
E dos mistérios escolásticos da penitência.
Quero, hoje, ter saudade de qualquer vertigem
Que tenha sido nossa,
Qualquer ilusão
Que tenha saído da tua honradez absoluta
De macho curioso por meu mutismo.

O meu pai morreu sem te ter à mesa
Ofertando ao velho a minha condição de ser tua,
E de querer de mim o meu grande ventre
De mulher bem parideira e fazedora de sonhos.

Deixa-me dormir nas calçadas,
Sem teu ódio vencido
De macho traído
Mil vezes por esta fêmea que te adora.
E que por isso busca em teus pares
Relíquias do teu cheiro.
Busca em teus pares a tua pele nobre de rei etíope.
Busca, na verve dos teus discípulos,
Vestígios de tua fome sobre o meu corpo exausto.
Por isso, busco nos teus consanguíneos
Alguma razão para o caos da tua inapetência
Diante dos meus propósitos de mulher.

Eu, este receptáculo da Bondade.

 

 

 

***

 

 

 

BÊNÇÃO

 

Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,
E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!
Posso despregar o afeto como macho cansado faz,
Posso abandonar as armas, trêmula, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,
Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
Falta o dicionário farto em suas doações doces de fonemas,
De raízes, arcaicas presenças de verbo.
Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.
Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.
Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,
Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.
Endoideço alguns dias porque virá a sangria
E entrarei no templo das penitências,
Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,
Minha veemência é minha mordaça,
Assim têm sido meus dias de santa, casta, pacata,
Senhora de um Deus-homem.
Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,
Essências de nomes, dores, fantasias.
Desacato porque sou poeta.
Tenho língua de fontelas, hildas.
Sou muito brava para donos
E afeita a clamores de desprotegidos.
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.

 

 

 

***

 

 

 

LIVRO

 

Lanço-te, marujo!
Urge o arremesso do desbravamento,
O amansar da fúria contida nos dicionários.
Estende o teu olhar pras gentes e vê o que querem.
Vê o paladar apurado do povo,
Agita os braços ante o infante de leituras.
Dou-te todo o meu mar salgado,
Minhas mulheres que choram e riem alto,
Minhas noivas dispostas ao divórcio das prendas,
Arquétipos da minha avó cabocla.
Vai, marujo!
Arrisca teu perfil às tintas, ao incesto das editoras,
Aos naufrágios à beira da porta,
Aos críticos que rasgarão teu ofício de dias.
Vai, portuoso!
Beija na boca todas as mulheres que querem teu beijo,
Todos os homens dispostos ao risco,
Abre teu pórtico de páginas aos servos, aos escravos,
Aos que vivem sob vigências de feudos modernos.
Vai, marujo! Gruda nas casas novo ato de liberdade,
Conspira com os nossos,
E toma da noite sua embriaguez,
Sua inspirada subversão de Musa.
Vai, marujo!
Lança-te ao Mar com tudo que nele há
De Pessoa, de Neruda, de Carlos, de Adélia,
De Cora, de Bandeira, de Clarice, de Lorca.
Vai! E afoga meus navios velhos, viola minhas certezas,
Viola minhas mentiras, meus fingimentos de Poeta,
Viola minha caixa de Pandora,
Meu anonimato, meu suicídio diário,
Minha textura de negra, minha candura de puta.
Vai! Antes que eu me lance sem âncoras,
Pois que deixo velas, remos e medos muitos.

Rita Santana é atriz, escritora e professora de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Educação do Estado da Bahia. Em 2004, foi uma das premiadas no Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Logo depois, o seu livro Tratado das Veias (poesia) foi publicado pelo extinto selo Letras da Bahia, em 2006. A Editus publicaria o seu Alforrias (poesia) em 2012.  Participa da antologia Outro Livro da Estante organizada por Herculano Neto e publicada pela Mondrongo em 2015, com o conto Ondas, Trânsitos e Trilhos, além de ter o seu poema Adusto publicado na revista organismo, projeto do Editor Jorge Augusto, organizada por Ederval Fernandes e Alex Simões.

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Santana

 

Ilustração: Bianca Lana

 

 

ADUSTO

 

Primeiro Movimento

 
Ele me invade, árcade selvagem!
E lança suas mãos ávidas sobre
A minha pele de avelã madura,
Sobre a minha casca de aroeira.
Abeira-me de abismos e abis.

Toca a minha pele de tâmara –
Qual trovador em cítara –
Matura o tempo do meu luto
E engravida-me de avencas.

Vejo-o mascar nêsperas de esperas
Para ver a flama do meu Desejo.
Vate do Alentejo!

E eu, que tanto tramara muros,
Furto seu nome que
– de eloquência e loquacidade –
Excitara precipícios de manhãs
Em minhas planuras de Poeta.

Entanto, nada me alenta!
E, ao relento, clamo por seu epíteto,
Eu, bastarda pantera de pântanos!
Contemplo-o aliciar palavras
Que serão doadas ao meu Oratório!
Ao meu templo de dispersões e cordilheiras.

Manifesto a minha Divindade
Em protestos de fúria.
Eu, toda feita de ínsulas e rudezas,
Uma ilhoa sacerdotisa
A cultivar papiros
No Oráculo de Sapho.

Vejo o meu Vate
Assistir ao itinerário da trepidez da Mulher
– toda eu!
Que tremula em sua presença.
Tocada pela arquitetura dos seus gestos
E pelos alicerces e declives
Da palma da sua mão.
A mesma mão que alimenta o gado
E que me alivia a fome,
O estado de viuvez
E de ausência.

 

 

Segundo Movimento

 
– Vem, Adusto!
Consome meu ventre
E adentra meus poros!
Sê justo, derrama teu sêmen
E tua semeadura de Servo
Sobre as minhas alfombras,
Sobre os meus alfarrábios,
Alforrias, o meu tratado de veias,
Tramelas, arcas, eras, heranças e plagas.

– Enterra a tua fidelidade de Sáurion
Em sarcófagos da memória.

Eis-me toda cômoros
E comoção de cavidades,
Toda inumação de abrasamentos,
E de brasas.
Toda inumação de archotes de vontades acesas.

– Grado!

Assim, chamo-te, pois há muitos nomes
Para te ocultar da avidez das mulheres
E da sordidez tirânica dos homens.
Eram tuas, Grado, as candeias,
Os candelabros, os candeeiros
Que arfavam luzes sobre os nossos pelos
E sobre as nossas bocas desmaiadas,
Ante os cânticos de Salomão e a sapiência da Rainha de Sabá!
Naquele campo noturno das avenas,
Fizeste–me revelação de árias e templários.
Desvelaste, em anunciação de mistérios,
Sacros nomes: Baobá, Barriguda, Imbondeiro!

Desses tempos, Adusto, tenho feito minha homilia,
Minha hóstia, minhas oferendas.
Meus sacrifícios de animais, de sangue,
De penas, de mortes e de vidas.
Sulcos rompem meu corpo
E, nauta e louco, o teu olhar
Ainda imprime em mim desígnios
De fome e tormentas!

– Gótico Senhor dos Passos,
Senhor dos meus Vestígios,
Senhor dos meus tormentos de Escriba!
Vem, criva-me de cravos, bromélias, anêmonas!
Vem, criva-me de fados, fandangos, fagotes!

Em Carcassone, Árcade Selvagem,
Quedam-se meus burgos.
Abro minhas defesas para tua epiderme,
Tu, verme gentil que me consumiste a pele,
Entrego-te ânforas onde armazeno
Aromas e câimbras de amores pretéritos.

– Adusto, vem!
Aporta novamente em minha Casa
E anula qualquer nuança de presença alheia
Em meu leito, em minha alcova
Ou no rocio que cerca o meu terreiro.
Pousa teus olhos sobre o meu Universo,
Pois, tudo que o teu olhar toca
É-me sagrado!
E ganha magnitude de Eterno.
– Não vês?
A minha pele fez-se imortal e casta.
Temo levitar sobre as evidências do mundo.
Temo levitar – em observância – sobre o teu cotidiano apaziguado.
Temo realizar milagres de peixe, vinho e pão.
Temo hipnotizar bússolas, ponteiros
E as translações da terra!
Temo tornar-me nociva ao mundo, às marés
E aos ciclos eternos da Lua.
Tamanho é o meu poder de fêmea tocada.
Sinto-me Harpa destinada a te conduzir,
Enfim, de volta, àquele sítio onde só há
Desejo.

 

Rita Santana é atriz, escritora e professora Língua Portuguesa na Rede Estadual de Educação do Estado da Bahia. Em 2004, foi uma das premiadas no Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Logo depois, o seu livro Tratado das Veias (poesia) foi publicado pelo extinto selo Letras da Bahia, em 2006. A Editus publicaria o seu Alforrias (poesia) em 2012.  Participar da antologia Outro Livro da Estante organizada por Herculano Neto e publicada pela Mondrongo em 2015 com o conto Ondas, Trânsitos e Trilhos, além de ter o seu poema Adusto na revista organismo, organizada por Ederval Fernandes e Alex Simões.

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80ª Leva - 06/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Ergue-se um caminho especial quando um autor abraça as questões de seu tempo. A impressão que fica é a de que sua obra ganha uma dimensão algo mais ampla, pois amarra os dotes da subjetividade ao testemunho vivo e prático de um processo histórico que se constrói no dia a dia. Essa capacidade de observação da realidade a serviço dum exercício literário adquire corpo novo a partir do momento em que seus porta-vozes não se deixam levar pelas armadilhas de um discurso vazio e demagógico.

Entre nós, é verdadeiro achado descobrir quem o faça com habilidade e, sobretudo, sensibilidade. Ao percorrermos a obra de uma escritora como Rita Santana, temos a convicção de que o ato de maquinar palavras rompe barreiras meramente estéticas e assinala olhares bem lúcidos em lugares tidos como viciosamente preestabelecidos. Na construção de seus versos, Rita, ao mesmo tempo em que entoa seu lírico canto por sobre o novelo delicado da existência, sabe como poucos bolinar feridas tradicionalmente marcadas a ferro e fogo em nós. Sem levantar bandeiras despropositadas ou qualquer tipo de comportamento panfletário que o valha, a poeta, atriz e também professora ambienta seus cenários tendo como guia uma precisa e afirmativa veia feminina.

A condição de mulher aliada à de escritora fez com que Rita Santana ousasse acertadamente transpor barreiras de toda a ordem. Desde muito jovem, essa baiana, nascida nas paragens de Ilhéus, devotou atenções às questões que permeavam o entendimento de seu papel no mundo. Nomes como Rachel de Queiroz, Simone de Beauvoir e Clarice Lispector, dentre outros, serviram-lhe de guias na formação de uma consciência representativa do universo feminino. E a passagem do tempo mostrou que a autora de livros de poemas como “Tratado das Veias” (As Letras da Bahia – 2006) e “Alforrias” (Editus – 2012) vem ocupando um lugar cada vez mais consistente no universo literário. Sua estreia em livro se deu com os contos de “Tramela” (Fundação Casa de Jorge Amado), pelo qual recebeu o Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura, em 2004.  Nessa entrevista, Rita dá um verdadeiro testemunho dos processos que lhe tornaram escritora, reflete sobre o papel da mulher na atualidade, enfatizando a força que sua visão feminina de mundo empresta à gestação de suas palavras. É ler para crer.

 

Rita Santana / Foto: Edgard Navarro

DA – Seu caminhar poético, tanto em “Alforrias” quanto em “Tratado das Veias”, assinala um olhar carregado pelas marcas da existência. Ao mesmo tempo em que evoca delicadezas e traços sensíveis, promove embates entre carne e alma. O que dizer desses percursos que nos atiçam os sentidos?

RITA SANTANA – A existência atravessa as minhas preocupações desde os primórdios. Adolescente, ainda, decorei Essa Negra Fulô de Jorge de Lima e recitava aqueles versos sempre. A denúncia e o teor de resistência já mexiam com a consciência precoce da minha identidade. Fernando Pessoa estava por lá e me afetou muito cedo com o seu questionamento sobre Deus em O Guardador de Rebanhos. No mesmo período, Neruda – eu tinha 12 anos – estava comigo. Cem Sonetos de Amor foi o primeiro livro de poesia que tive e que me deixou marcas líricas muito profundas. Ainda nesse período, Dôra Doralina, de Rachel de Queiroz, fez uma revolução grande em todas as minhas certezas, pois trazia uma representação feminina muito vigorosa, ousada, cheia de desejos e de subversões. Lá, encontrei uma mulher dona de si, senhora do seu corpo, da sua vida, além da demolição completa da família. Tudo muito revolucionário para uma menina e tudo aquilo dinamitou o mundo pronto e formatado em que eu existia.  Mais tarde, Clarice Lispector me ajudaria a descobrir que a inadequação, medos, angústias e preocupações, pertinentes ao universo feminino e humano, poderiam ser a matéria-prima da minha literatura. O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, já estava em minhas mãos desde 1989, quando eu era uma jovem de 20 anos, e já manifestava minhas insatisfações em relação ao existir como mulher nesse mundo, posto que já havia em mim a revolta contra os lugares preestabelecidos para serem ocupados pelo gênero feminino. Os dramas de ser mulher e negra numa sociedade racista e machista também já se debatiam dentro de mim em todas as relações sociais, acadêmicas, amorosas, artísticas, familiares. É impossível não ser afetada por essas questões. A minha casa foi o primeiro espaço de constatações e de contestações. A escrita veio, portanto, como arma, como contradiscurso necessário para que eu assumisse o meu posicionamento político e poético no mundo.

Há repressão também na linguagem da mulher e sempre me rebelei contra essa violência. Em Tratado das Veias, por conseguinte, por ser um livro que obedece – principalmente nos primeiros momentos do processo criativo – ao fluxo de consciência, esses questionamentos existenciais são mais contundentes e o erotismo mais agressivo, mais urgente. A literatura que faço tem um compromisso fundamental com a beleza. Acredito que haja nas páginas do Tratado um lirismo abundante, permeado pelo erótico e pela mulher política em que me transformei. Otávio Paz, em Amor e Erotismo, diz que “a relação entre erotismo e poesia é tal que se pode dizer, sem afetação, que o primeiro é uma poética corporal e a segunda, uma erótica verbal”. A minha linguagem poética busca exatamente esse diálogo entre um corpo e uma língua completamente libertos, cujos símbolos são transmutados em favor da sonoridade, da imagem, do belo, da delicadeza e do inusitado dessas combinações. O prazer sexual sempre foi uma forma de resistência, alvo de perseguições e ele está atrelado ao grande tema dos meus poemas que é o Amor. O Amor é imprescindível a minha escrita porque também sou romântica e, num processo consciente, o desconstruo porque o questiono e sei da sua natureza perversa na construção da independência e da libertação feminina – muitas vezes.

A poesia é o espaço da rebelião da linguagem, onde ela se nega a servir simplesmente ao convencional, ao lógico da língua, das regras. Sou muito simbolista, pois tocada pela sonoridade, pelos sentidos sinestésicos da existência. Sou aquela que vê no símbolo o exercício de uma experiência onírica, musical. Essa marca herdei também de Cruz e Souza: vozes veladas veludosas vozes, cuja impressão sempre me perseguiu. Sou – também eu – uma Emparedada. A poesia é o espaço da libertação dos sentidos e as aliterações, cores, odores e os processos metafóricos me perseguem. Quando atrelo o poético ao erótico, a feitiçaria inunda o espaço do poema e da existência. Em O Arco e a Lira, Otávio Paz já tocava na experiência da litania. Esse ebó, essa hóstia, essa festa onde o profano e o sagrado comungam da mesma linguagem, do mesmo rito, do mesmo banquete, da mesma oferenda, num único cântico. O poema é o lugar onde carnes e êxtases, palavras adormecidas e imagens se confundem. E o amor pode ser libertação e a poesia, alforria. Alforrias é o resultado dessa busca, dessa tentativa de ser liberta e atrair palavras e sons alforriados.

DA – Você trabalha a questão do feminino de um modo deveras especial, sobretudo como objeto de contestação a certos valores negativamente arraigados em nossa sociedade. Chama atenção mesmo é o fato de seus versos não reverenciarem o amor servil. Como conceber o amor num tempo em que parecemos tão carregados de contradições e alguns retrocessos?

RITA SANTANA – O amor é uma grande armadilha! A nossa formação folhetinesca é deformadora. O amor romântico – cujas raízes estão no amor cortês do século XII – ainda hoje ronda o nosso imaginário. Há um bombardeio social de fórmulas e idealizações amorosas dificilmente praticáveis na vida real, mas, muitas de nós, alimentamos essa ilusão, mesmo reconditamente. Entretanto, a vida é muito severa e cobra posturas da mulher para que ela resista e imponha – já que a negociação nem sempre é possível – o seu pensamento e as suas decisões diante do Outro. A primeira imposição que se estabelece é a da liberdade e ela nem sempre é azul. A liberdade é vermelha, feita com lágrimas, sangue, suor, trabalho, estudo e muitas rupturas. No relacionamento amoroso essas cisões são inevitáveis, visto que a liberdade financeira e o olhar para os nossos próprios desejos são incompatíveis – em alguns relacionamentos – com as expectativas masculinas em relação à mulher.

A nossa sociedade é profundamente machista. Até num barzinho, observa-se a insistência de alguns homens em dominarem a conversa, monopolizando o discurso e ignorando as tentativas de interlocução das mulheres. Nas ruas da Bahia, a grosseria e as ofensas com cunho pornográfico são tão frequentes que já fazem parte da paisagem. Propaga-se a cada dia o sintoma patológico de agredir – verbal e fisicamente – mulheres sem quaisquer cerimônias. Nas nossas ruas, homens dirigem olhando traseiros e nos lançando palavras obscenas, atrapalhando o trânsito e também o transitar do respeito e da liberdade. Daí a importância real da Educação, da introdução dos Estudos de Gênero na formação das educadoras, da sua valorização salarial que, ainda hoje, é prática discursiva circunstancial e eleitoreira. Políticas públicas mais efetivas para a libertação financeira da mulher colaborariam efetivamente para a redução da violência física e verbal contra elas, principalmente nos seus santos lares.

A mulher que ocupa os espaços públicos enfrenta, no território amoroso, a difícil arte do convencimento, da lógica, da dialética constante, do ciúme e das negociações. No terreno privado, o controle é muitas vezes masculino, principalmente quando há domínio financeiro. O amor não é uma instituição neutra, onde prepondera o sentimento e o desejo de estar com o Outro. É um terreno onde vivenciamos todas as mazelas sociais.  É uma construção social que lentamente desmorona para muitas pessoas, principalmente as muito ávidas, sequiosas de liberdade, de espaço, de reflexão e de felicidade. O homem ainda não consegue encarar o discurso da mulher, pois – segundo Maria Rita Kell – a fala representa simbolicamente o falo e isso apavora. Algumas pessoas conseguem vivenciar o amor romântico, encontram seus pares e, ainda que enfrentem uma série de dificuldades e obstáculos na convivência, estão determinadas a seguirem o projeto romântico de felicidade. Essas são as consideradas felizes, plenas. Só suas consciências o saberão.

A janela era o espaço – no século XIX – do único diálogo entre o mundo privado e o público para a mulher. À mulher era destinado o espaço privado. Já pulamos a janela, invadimos as ruas, principalmente as mulheres negras que anteciparam essa invasão há séculos, devido à sua livre penetração em espaços proibidos às brancas. O trabalho nas ruas do Brasil escravocrata foi também uma espécie de alforria.  Novas janelas são abertas hoje, mas desmontar, no nosso imaginário, essas construções que já viraram ruínas é muito difícil, e não apenas para o homem, que precisa repensar o seu lugar no mundo e na vida da mulher de hoje. É também complexo para nós – mulheres – que observamos com lucidez o fenômeno amoroso. Raciocinar o amor é necessariamente desconstruí-lo, destituí-lo da sua edificação romântica e começar a reinventar uma vida longe dos velhos clichês. O Amor está ruindo para muitos. Restará o desejo de realização com o Outro, mas não no outro, certamente.

Meus versos devem perturbar alguns homens, pois a estratégia de resistência da minha escrita é provocar reflexões e expor que também somos absolutamente humanas, sexuais, eróticas, livres, possuidoras do Verbo e desejosas de felicidade. Meus versos buscam esse amor idealizado, mas o desnudamento faz-se necessário. É preciso denunciar a covardia de homens diante de mulheres que tomam o verbo como instrumento de reflexão, de análise do cotidiano e da sociedade. Acredito que muitos amores tenham se perdido diante do medo masculino em ceder a alguns dogmas, convicções, pressupostos, por isso abdicam de mulheres poderosas ao seu lado. Vê-se em estatísticas o índice de divórcios entre casais em que as mulheres galgam níveis acadêmicos mais elevados. O estabelecido é que a mulher ocupe o papel passivo daquela que está em casa para apoiar a ausência do marido, enquanto ele cresce. Apoiá-lo na volta ao lar diante da sua traição, apoiá-lo durante suas crises existenciais que abalam o relacionamento. O oposto não é aceito! A mulher que trai ainda hoje tem que viver inquisições medievais.

Não há retrocessos! Estamos buscando, aprendendo, e a experiência amorosa é muito pessoal e cheia de conflitos, contradições, paradoxos de toda ordem. O amor é diverso e o difícil é encontrar alguém que queira experimentá-lo da mesma forma que você, afinal cada um de nós é tão cheio de especificidades, idiossincrasias. É preciso viver cada um a sua forma, a sua descoberta – e isso às vezes leva décadas e requer muita coragem! Adorei ler algumas cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren, pois desfiz a ideia de que Sartre fosse o seu grande amor. Amei ver Simone absolutamente humana, insegura, mulher amorosa, amante, e absolutamente apaixonada por outro homem. Devo retomar essas cartas algum dia. O fato é que nos apaixonamos! E a armadilha também pode ser maravilhosa, se houver cumplicidade, respeito e parceria. Caso contrário: “Aos demônios o cacete dos homens demasiadamente homens!”. (Alforrias, 57)

DA – Sua verve poética está impregnada do que você chama, em Tratado das Veias, de “eu sáfico”. É impossível dissociar sua voz dessa marcante simbologia?

RITA SANTANA – É impossível! Sapho é uma mulher impressionante e fundamental na minha escrita e na história da humanidade. A sua imagem acompanha muitos dos meus versos, principalmente em Tratado das Veias. No poema Ciúme, eu digo: “O que me resta é entrar na roda e tergiversar/Ou só versar, tocar minha lira/E virar Safo de mármore na praça de Ilhéus,/ Minha Lesbos abandonada.”  Declaro-me sua filha no poema Anjos Negros: “são anjos cultos, sarcásticos, sacros somente nos altares. Nas minhas asas são libertinos, vorazes. E eu, filha de Safo, gosto muito.” Eu sou uma ilhoa, ilheense e na minha cidade natal – Ilhéus – há, na praça J.J. Seabra, uma belíssima estátua de Sapho que está lá desde 1924, portanto, a sua imagem é um ícone misterioso que sempre esteve a olhar para mim e a proteger os meus versos. Os meus poemas são sáficos porque sempre tive a necessidade de ter a lira para acompanhar o ritmo dos textos – inclusive da minha prosa – nessa busca por uma música invisível, insondável que tento buscar quando escrevo. Mesmo quando ausente em citações, a sua lira me acompanha. É óbvio que é a minha lira! Lira negra, não aristocrática – mas com tons clássicos – que se mescla à herança dos meus ancestrais, às suas cordas, às suas danças, às chiuhumbas de quatro cordas que meus parentes negros trouxeram da cultura africana com a diáspora, e que está no meu sangue.

Ela é a décima Musa proclamada por Platão. A sua insurgência em tempos tão remotos sempre me impressionou, apesar de não me sentir – em muitos aspectos da minha prática cotidiana – uma transgressora. De vez em quando, olho-me ao espelho e reconheço ser uma grande guerreira, mas, muitas vezes, sinto-me fraca, covarde, pequena, indigna. E Sapho simboliza essa mulher cuja obra resistirá ao fogo, ao tempo e à incineração católica que a sua poesia sofreu no século XI. Há um lirismo dramático em meus versos que vem da atriz, mas que também herdei dela, da sua ira. Assim como observo um desespero amoroso, uma insanidade passional terrível, um enfrentamento agônico diante de amores frustrados, impossíveis que estão presentes na minha escrita e na dela. Ela é dramática, suave, intensa e o ritmo dos seus versos é sedutor. A sua métrica admirável está a serviço da expressão e não o oposto, isso me encanta. Arrebata-me.

DA – Em que medida a sua porção de escritora converge com a de educadora?

RITA SANTANA – O conhecimento é imprescindível! Adoro aprender e conhecer coisas novas. Sou apaixonada por descobertas e a professora me proporciona essa experiência contínua. Os livros didáticos – escolhidos pelo corpo docente – já são mais interessantes, atualmente, com informações sofisticadas sobre arte, literatura, teoria, e isso me motiva bastante a divulgar e dividir tais conteúdos com os meus alunos, ampliando nossos horizontes.  A leitura de mundo é marca indelével a minha prática. Eles – os livros – dialogam com o mundo inteiro e trazem informações que me seduzem, além de promoverem uma cumplicidade apaixonada entre os alunos – afinal um novo mundo é descortinado. Sou a mediadora desse processo mágico, perturbador, revolucionário. É prazeroso testemunharmos essa transformação – lenta – da escola pública brasileira. É uma verdadeira conquista o direito ao livro. Além disso, a minha cosmovisão, minhas leituras, experiências como atriz e paixões intelectuais oportunizam grandes encontros na nossa convivência pedagógico-passional. Pois, sem tesão, não há!

Estar em contato com os adolescentes traz também uma atualização permanente do português falado, recriado e reinventado a cada dia. Surpreendo-me com a criatividade linguística da juventude, sorrio muito e valorizo esse falar gostoso dos jovens. A escritora observa atentamente tais fenômenos. Às vezes, na sala de aula, surpreendo-me diante de algum texto, alguma referência desconhecida, alguma observação de um aluno. Vejo que a atriz, a escritora e a professora constroem uma harmonia com outras tantas Ritas que há em mim. Elas criam – juntas – um universo muito peculiar e criativo. O que escrevo é fruto dessas coexistências, desses desdobramentos.

Tive professoras de Português absolutamente indiferentes ao prazer da leitura, ao encontro com escritores e seus textos, aprisionadas que eram a uma gramática sem relação alguma com a descoberta da nossa Língua. Uma ortodoxia asfixiante e improdutiva que distanciava – e ainda distancia – o encontro do estudante com a Beleza. Precisamos da literatura em sala de aula para tornar o nosso aluno mais humanizado, mais sensível.  Sinto, à medida que esse elo se estabelece, que temos cidadãos melhores, mais delicados no tratamento social, mais conscientes e mais gentis. A arte educa, informa, modifica. Por isso a responsabilidade de um país com a Educação é muito grande, afinal, somente ela poderá provocar fundamentais mudanças na sociedade. Vejo o potencial dessa transformação todos os dias. E o que vejo é um verdadeiro milagre, um pasmo essencial. Negligenciam o óbvio, enquanto isso, a violência nos atinge em todos os espaços. O professor Raimundão no meu universo adolescente foi capaz de promover o encantamento pela poesia em muitos de nós jovens, rebeldes e sequiosos de libertações, em Ilhéus. É um professor que tatuou o seu nome – através da poesia – em nossas almas, por isso é eterno.

Rita Santana / Foto: Edgard Navarro

DA – Não é difícil encontrar mulheres que incorporaram visões machistas, reproduzidas no comportamento ou nas ideias. O que, de fato, isso pode representar?

RITA SANTANA – Os Estudos Feministas sobre as Relações de Gênero são ricos em análises que elucidam as conexões de poder na sociedade. O desconhecimento desses processos históricos gera a naturalização do estabelecido. Precisamos divulgar nomes, biografias e a produção intelectual das mulheres que sofreram inquisições ao longo dos séculos. Estudar a colaboração perniciosa das ciências na difusão de mitos sobre a mulher, onde a própria loucura e a histeria eram atribuídas insistentemente ao gênero feminino, faz-se urgente para a transformação não apenas da ideologia dos homens e das mulheres, mas de toda a sociedade. Tudo passa necessariamente pelo investimento em Educação. Se fôssemos formados sabendo de mulheres como Nísia Floresta, que manteve uma relação afetiva e intelectual com Augusto Comte no século XIX, devido à sua extrema competência como pensadora e revolucionária, talvez tivéssemos mais respeito às mulheres que atuam nos espaços públicos, mulheres que produzem conhecimento. A omissão desses fatos nos livros didáticos fortalece o equívoco de que tais posições eram apenas ocupadas por homens. Gerações são formadas ignorando a luta e a presença de mulheres na história do País e da sua formação. As escolas deveriam divulgar a produção feminina do século XIX em paralelo com os estudos dos romances masculinos. Li Lésbia de Maria Benedita Bormann e aprendi com ela aspectos sociais do Brasil do século XIX nunca abordados pelos autores clássicos do período. A Editora Mulheres faz um trabalho de divulgação importante de muitas dessas personalidades que fizeram a História. Aqui na Bahia, é imprescindível conhecermos figuras como Jacinta Passos, divulgada inicialmente no livro da escritora Dalila Machado, A História Esquecida de Jacinta Passos, e Elvira Foeppel, estudada pela pesquisadora Vanilda Salignac S. Mazzoni no livro A Violeta Grapiúna Vida e Obra de Elvira Foeppel; Bárbara de Alencar, no Ceará. Publiquei alguns desses estudos e publico muitas escritoras no meu blog Barcaças exatamente para contribuir, minimamente, com essa transformação. É um trabalho de formiga! Mas conhecimento e estudo não são suficientes, é preciso revolucionar a nossa forma de educar! Muita gente ilustrada resiste a admitir a necessidade de uma transformação nas mentalidades e no cotidiano das relações e nos acusam de machistas ou de mulheres-machos. As fogueiras ainda ardem e queimam a nossa carne! Entanto, Resistimos, Escrevemos!

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

RITA SANTANA – A leitura não é a única prioridade em minha vida. Adoraria que fosse, mas preciso trabalhar 40 horas para sobreviver. Eu me sinto exausta quando cumpro essa carga horária estúpida. Logo, preciso dedicar algumas horas ao vazio, ao nada para me recuperar e começar tudo de novo. Assim deve ser a rotina de muita gente trabalhadora no mundo. Leio quando há tempo, quando estou disposta e leve. Quando a leitura assim acontece, ela é plena e provoca desejos e projetos de escrita, desejos de outras leituras. Não sou uma obcecada por números de livros lidos durante o ano – como se estivesse em uma competição invisível – mas estou sempre atenta, iniciando leituras que às vezes demoro meses para concluir. Enquanto não leio livros, leio a realidade, ouço falas, músicas, discursos, paisagens, cores, movimentos, pessoas. O meu trabalho envolve livros e leituras diárias. Estive em Amargosa, na Bahia, para o lançamento do livro da professora Ana Rita Santiago Vozes Literárias de Escritoras Negras e, além do evento em si, que foi uma oportunidade de muitas aprendizagens e leituras, li muito a paisagem montanhosa do lugar e fiquei realmente deslumbrada. Não sai da minha cabeça a redondez daquelas montanhas.

Sempre que penso nas minhas leituras, incluo os filmes e as músicas, os compositores que formaram a minha personalidade, o meu estilo. Os livros são possibilidades – entre tantas – de leitura. Adoro cinema e também gostaria de ter mais tempo para assistir aos filmes do meu desejo. Adoro ir a exposições e museus e não encontro muito tempo para esses prazeres. Aguardo o metrô chegar até a Lauro de Freitas. Sou louca por fotografia. Tudo isso me tortura bastante, portanto, ler é um universo muito mais amplo. Ler o mundo, disse Paulo Freire. Ele esteve na UESC, a minha Universidade que fica em Ilhéus, e foi um verdadeiro acontecimento! O auditório foi incapaz de abrigar os seus leitores e ele teve que falar para uma multidão que se estendia infinitamente pelo Campus. Foi uma multidão de leitores apaixonados. Uma cena marcante, cinematográfica, maravilhosa. Lemos ali, os seus olhos, a sua postura, o seu magnetismo e a concretização do seu pensamento.

Quando estive na França, fiquei deslumbrada com o número imenso de pessoas que liam no metrô, nas ruas, em todos os lugares. Mas essa é uma construção cultural, uma conquista histórica. Quando – a cada ano letivo – trabalho com os meus alunos a ciranda de leitura, onde disponibilizo livros escolhidos por eles para que os levem para casa, o resultado é sempre um mundo de meninos e meninas envoltos em leituras durante as aulas vagas, as férias, os intervalos. A paixão é acesa e não se apagará. Oportunizar a leitura é essencial e ser um professor leitor, pesquisador é indispensável para a proliferação da leitura entre os jovens.

A Educação é que – de fato – precisa ser revista em sua completude, e muitos caminhos são abertos, mas tudo ainda é insuficiente porque há urgências seculares esperando políticas mais sérias. Muitas bibliotecas das escolas públicas estaduais e municipais na Bahia são tratadas com descaso: profissionais com problemas de saúde são jogados lá, como traças, sem quaisquer envolvimentos com a leitura, sem qualquer afinidade com o espaço. As nossas bibliotecas são depósitos em todos os sentidos. A biblioteca do colégio em que trabalho passa grande parte do ano letivo fechada, e isso há anos. Os problemas um dia serão resolvidos. Quando? Muitos já deixaram o colégio sem terem vivenciado esse momento, essa felicidade que não chega nunca em toda a vida.  A nossa cobertura da quadra esportiva desabou devido a uma tempestade, há muitos anos. Agora a reforma está sendo feita – sem cobertura! Copa do Mundo, Olimpíadas e as atividades esportivas, e os espaços de leitura são um verdadeiro descaso no Brasil. As drogas, os traficantes e a violência invadem esses espaços vazios, essas lacunas e as vítimas somos todos nós. Eu leio muita coisa que me foi ensinada – também – pelos livros. Ler Gil, Caetano, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Joyce, Fátima Guedes, Elomar Figueira de Mello, Dércio Marques, Elizete Cardoso, Dolores Duran, Legião, Titãs, Cartola, Chiquinha, Chico, Cazuza, dentre tantos outros, foram grandes aprendizados, grandes leituras.

DA – Há quem reduza o fazer poético a uma obstinada busca pela matemática dos versos, espécie de sustentáculo do algo puramente formal. Na outra ponta, existem os que defendem a utilização do verso livre de amarras mais tradicionais. Enquanto isso, grupos se formam e os debates se tornam acalorados e conflitivos. Não estaria a vaidade desmedida ocupando o lugar da boa discussão literária?

RITA SANTANA – O universo dos escritores é cercado realmente de muitas vaidades e competições. É um mundo excludente e áspero quando vivido muito intensamente. Os bastidores são cobertos de acusações contra aqueles considerados ruins, incompetentes, não escritores. Não acredito na solidez desses julgamentos, como não acredito no caráter de muitos desses escritores. Deixei de ler alguns deles devido à sua ideologia conservadora, declarada em entrevistas e em prefácios dos seus eleitos. Tudo isso é uma fraude. É uma grande tolice! Há espaço para todas as correntes no mundo e as tribos elegem-nas pela paixão, pela identidade, pelo pertencimento, pelo estilo que cada escritor apresenta. Ainda é preciso dizer: Abaixo os puristas?

Quando me sinto diretamente atingida em suas falácias classificatórias, aproprio-me do seu discurso e o transformo num poema metalinguístico. Transformo em verso suas maledicências estéticas prepotentes e afirmo a minha poesia desprovida dos sentidos esperados por alguns canonizados, consagrados, monstros sagrados da Literatura. Há ideologia em todos os julgamentos, portanto, nada é puro e nenhuma verdade é única, absoluta. O talento ou a competência não são os únicos fatores que determinam a sorte de um escritor. Os mecanismos da crítica e do cânone já foram denunciados, revelados e não é mistério para ninguém a rede de articulações e interesses que envolvem o reconhecimento ou a legitimação de um escritor, como também a sua invisibilidade. Por isso, é primordial para quem escreve não sofrer por ser preterido aqui ou acolá. É uma aprendizagem difícil, mas eu não escrevo para escritores, eu escrevo para me curar de mim mesma e dos meus males, das minhas dores e dos conflitos que me atordoam. Escrever é uma necessidade de aproximação com o Belo (e quantas facetas essa entidade possui) e é uma necessidade física de expressão.

Vivemos um momento tão rico da Literatura, onde muitos escrevem, publicam, divulgam seus textos e há sempre uma tribo que os queira, que os leia, que os legitime. Qual a importância dos rótulos? O movimento é muito rico e como é prazeroso trocar figurinhas com escritores que não ocupam o seu tempo com classificações ordinárias. O problema que atinge os escritores é o mesmo problema social das elites brasileiras, ou seja, não suportam dividir o título de escritor e seus lugares sagrados com pobres mortais desconhecidos, negros, mulheres, oriundos das classes populares, com seus erotismos exacerbados. Entretanto, as políticas afirmativas estão aí, os mecanismos de escrita e divulgação também tomam espaços cada vez maiores e a convivência entre estilos só pode ser festejada. Métrica? Não métrica? Como leitora, aprecio um poema quando ele me atinge pelo que julgo e sinto poético. Os velhos sapos não conseguirão impedir a construção social mais igualitária e menos discriminatória da sociedade brasileira, inclusive na Literatura! Tornam-se, dessa forma, anacrônicos parnasianos que fazem do seu julgamento estético – que é pessoal, subjetivo, ideológico – uma sentença inquestionável!

Percorrendo estantes de uma livraria outro dia, ouvi duas senhoras distintas conversando, e uma delas disse: também… todo mundo agora é escritor! Pois é! Escrever não é mais um ato destinado aos deuses e privilégio de uma elite intelectual e econômica ou de uma etnia! Essa constatação perturba muita gente. E é justamente isso que possibilita podermos entender e conhecer o universo de Maria Carolina de Jesus, afinal, Clarice Lispector não me daria a amarelidão da sua fome, as estratégias da sua sobrevivência, a poesia negra, lírica e política dos seus cadernos. Clarice me deu muitas outras coisas. Como é bom perceber o fôlego religioso e lírico de Lívia Natália ou os arroubos dialógicos e eróticos elaborados por Daniela Galdino. A poesia cotidianamente existencial de Martha Galrão ou ainda as sinestesias telúricas e límpidas de Lita Passos. O leitor está aí para fazer suas escolhas. E ele o faz e surpreende. Aos demônios as penas absolutistas também!

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

RITA SANTANA – Na verdade, considero muito esdrúxulo classificarmo-nos de pós-modernos diante de um quadro de intolerância tão grande no mundo e na literatura. Acabo de participar de um encontro numa Universidade da Bahia, onde um grande e reconhecido escritor fez questão de desqualificar a literatura atual e chamar de bocó qualquer literatura que se denominasse negra. Isso ocorre na Bahia, mas no plano nacional acabamos de testemunhar – atônitos – o texto de Ferreira Gullar sobre a inexistência de literatura negra e a resposta fabulosa que Cuti lhe dera. Como admitir o pós-moderno, se o sentimento de pertencimento ainda é ignorado ou desprezado pela sociedade e esse tipo de postura é aplaudida por jovens universitários e seus professores? É bizarro! Posicionamentos étnicos e de gênero continuam sendo desprezados por intolerantes legitimados, canonizados.

O sistema de transporte público coletivo – mesmo em tempos de Copas – persiste em sua condição de inexistência ou de precariedade e sujeira. A estação da Lapa, em Salvador, continua o mesmo horror de insalubridade e abandono. O formato das escolas, presídios, hospitais: tudo permanece. O ponto de ônibus do Aeroporto Internacional de Salvador – que deveria ser Dorival Caymmi, Jorge Amado ou Dois de Julho – tem o mesmo tratamento imundo que qualquer estação rodoviária recebe dos poderes públicos na Bahia. É duro ser cidadão pobre no mundo inteiro, mas na Bahia é duríssimo! Só há tratamento estatal, preocupação com a higiene e o belo nos locais onde circulará a elite.

Penso em Gregório de Matos, que viveu um período de profundas transformações e expressou esses paradoxos em sua obra lírica, satírica e religiosa. Também vivemos em tempos paradoxais, barrocos numa Bahia que já principiava a viver sua globalização desde lá, entretanto, assistimos ao nosso patrimônio desmoronar cotidianamente. Igrejas abandonadas, artistas esquecidos, abandono da memória, sobrados queimados que desaparecem todos os dias. O que pode haver de pós-moderno em tudo isso? A Jornada de Cinema da Bahia – idealizada por Guido Araújo – que deveria ser tombada como patrimônio imaterial da Bahia ou do Brasil – ou qualquer coisa que o valha – vive o seu fim sem que haja interesse dos poderes públicos para a sua permanência.

Como, pois, denominar de pós-moderna uma sociedade em que não há ainda saneamento básico numa cidade como Lauro de Freitas? Vivemos há anos aguardando os serviços de uma verba nacional – que já foi paga – destinada aos esgotos da cidade. Ainda há uma distância tão grande entre o plano teórico, os discursos que conceituam o momento em que vivemos e o cotidiano das gentes. Estava olhando um livro maravilhoso sobre Emanoel Araújo e pensei na completa separação entre a sofisticação espetacular da sua arte – apenas como um exemplo – e o povo. A arquitetura da cidade, com suas engrenagens, confrontada com o total abandono da população pobre e a completa exclusão de acesso aos bens comuns, à Beleza da obra de arte, ao acesso a nomes como Rubem Valentim, Mestre Didi e Emanoel. A Ceilândia confrontada com a arquitetura suntuosa e bela de Brasília. Tantas disparidades. Se há pós-modernidade, eu gostaria de ser apresentada a ela.


DA – O quanto Rita Santana conhece Rita Santana?

RITA SANTANA – Conheço muito e, sinceramente, sempre estou em busca de lapidação. Sou muito honesta, muito bruta, muito antitética, muito delicada.  Estou em permanente busca. Rita Santana é apenas um nome público para a atriz e a escritora. A professora é geralmente chamada de Rita Verônica. Em casa – para a minha família e alguns amigos – sou Ritinha e, nessa condição, outras tantas personas surgem. Observo a capacidade que tenho de pensar em novos deslocamentos, de assumir novas identidades. Gosto desse contínuo devir. Estou em processo.

 

* Alguns poemas da autora podem ser lidos aqui.

 

 

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Rita Santana

 

Foto: Rosa De Luca

 

Agrestidade

 

Tornei-me bruta
Após travar batalhas de tentares.
O tear do tempo cumpriu-se dentro do universo
E eu apenas cedi ao fim.
Almocei nua no último banquete
E acendi velas à mesa.

Arrumei minhas tralhas e deixei-as
Alheias aos venenos da aorta,
Aos anéis do abandono.

Deixei o feérico, o cupim, a cumplicidade das rotas.
Fiquei à deriva de mim mesma.
Feita toda inteira de atordoamentos
E mutilâncias.

Arrebatada de almas.
Pouco morta.

 

 

***

 

 

Esbeltez

 

A quem minha embriaguez seca,
Meus depósitos de pele crua,
Minhas vastidões interrompidas,
Meus abortos clandestinos,
E o meu destino de santa?

A quem ofertar minha Esbeltez
Sem alicerces, nem cárceres,
Nem desbravadas cercanias
Que alimentam a vitalidade
Da minha alma ainda à toa,
Na invasão das tormentas?

Equilíbrio algum
Invalida meus anseios.

 

 

***

 

 

Catedral de Marfim

 

Ele atropela regras de pertencimento
E toma posse dos meus feudos,
Naufraga em meus açudes rasos,
Desperta carícias clandestinas
Na corporeidade do desejo.

Decifra meus rastros arrastados no chão da Casa,
Lambe o osso exposto do meu sexo,
Rompe seus votos de castidade,
E me põe à vontade em sua Catedral de Marfim.

Ele é assim, afeito aos meus mistérios
E dono testamental dos meus dotes.

 

 

***

 

 

Crepúsculo das Vertigens

 

Ante o teu olhar de céu marítimo,
Cedo oferendas ao teu cinismo-seco.
Crepusculo raízes de verdades verdes,
E ainda assim, quero-te meu!
Apaixonado e obscuro-louco,
Encantador das minhas servas serpentes.

Mente quem olha em silêncio
Tua brandura!
És ofertado a escândalos de botequins.
Tens no nome um Império de mangues,
E no meu lodo escavas pepitas,
Pratarias de negra apanhada
Em arrecifes de ciúmes.

Vingo-me perante o ópio epiderme de teus olhos
E morro a cada romper de casco sobre pedras.

 

 

***

 

 

Ílio

 

Osso meu,
Na ilicitude dos meus requintes.
Cravado em terreno fértil de flamas,
Abnegado esterco na orgia
Dos meus desacertos correntes,
Corpórea mácula na vértebra do meu querer.

Homem Ilíaco!
Indagam sobre minhas adegas
E meus repastos de fêmea acometida
Pelas danosidades da carne.
Indagam sobre minhas vestes e os meus vexames.
Apontam-me entre as professas
Enquanto devassam meus pergaminhos
De mulher conhecedora de homem.

Indagam sobre os meus tormentos
Indagam sobre certas Adagas
Fincadas no lastro da minha cama.

 

(Rita Santana é atriz, escritora e professora. Nascida em Ilhéus, Bahia, iniciou sua carreira literária em 1993. Possui artigos e contos veiculados em revistas e jornais. Recebeu, em 2004, o Prêmio Braskem de Cultura e Arte – Literatura pelo livro de contos “Tramela” (Fundação Casa de Jorge Amado). Além de integrar antologias, publicou os livros de poemas “Tratado das Veias” (As Letras da Bahia – 2006) e, mais recentemente, “Alforrias” (Editus – 2012))